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Arquitetura Bichos cachoeira Caverna cidade Estrada história Lago Mergulho Montanha Parque Patagônia Praia trilha vulcão
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Luis (19/05)
Êta coisa boa! Resgatei um e-mail de uns Jipeiros que fizeram 260km em 2...
Leandro Mattera (19/05)
Grande Rodrigo! Cara, muito legais mesmo a aventura, os relatos bem deta...
Paulinha Ribas (18/05)
uau! já fiquei com vontade... o rali não rolou, uma pena... qual a pre...
Luis (18/05)
Mande um abraço pra Socorro lá em São Félix (pousada Capim Dourado). ...
Luis (18/05)
Deixando Santa catarina e voltando definitivamente ao Paraná. A última fronteira da expedição 1000dias
Hoje, dia 1º de Abril, dia da Mentira, atravessamos a última fronteira dos 1000dias. Pois é, parece mesmo mentira que está tudo acabando. Depois de 1.400 dias fora de casa, de dezenas de países percorridos de carro, de cruzarmos a América de ponta a ponta, de quase 180 mil km de estradas, caminhos e trilhas, estamos chegando ao ponto de partida. Curitiba é logo ali, a menos de uma hora de carro, quase já dá para ver a cidade, embora ainda vamos passar alguns dias aqui na planície litorânea do estado.
Despedida da tia Walkiria, que nos recebeu tão bem em Joinville, Santa Catarina
Despedida de Santa Catarina, de Joinville, da tia Wal e dos primos Luis Felipe e Vitoria. Rumo ao Paraná e ao fim dos 1000dias
Pois é, chegamos ao estado do Paraná. Essa foi a última fronteira a que me referi, Santa Catarina ficando para trás. Não é uma fronteira internacional, claro! Desse tipo, a última que cruzamos foi lá no Chuí, vindos do Uruguai e entrando no Rio Grande do Sul no dia 24 de Fevereiro, há exatos 36 dias (ver post aqui). Também foi um momento emocionante. De volta ao país, a última das mais de 120 fronteiras internacionais que passamos durante a viagem, 59 delas a bordo da nossa Fiona.
Nossa última fronteira nesses 1000dias, na viagem entre Joinville (SC) e Guaratuba (PR)
Voltando ao Paraná nos últimos dias de nossa volta pelas Américas
Mas hoje, dia da mentira, foi a vez de mais uma fronteira estadual. Depois de tantas fronteiras internacionais, uma fronteira estadual não parece grande coisa. Pode ser... Mas para um país com dimensões continentais como o Brasil, viagens interestaduais também têm o seu valor. Nossos estados são maiores do que a maioria dos outros países americanos que visitamos, principalmente as ilhas caribenhas e as pequenas nações da América Central. Estados como o Pará e a Amazonas só são menores, na nossa América do Sul, que a Argentina.
Divisa de estado entre Pernambuco e Alagoas, chegando em Maragogi
Divisa entre Pernambuco e Ceará, na Chapada do Araripe
Chegamos longe! Fronteira de Pernambuco e Piauí
Quando eu era pequeno e viajava de carro com a minha família, saíamos lá de Belo Horizonte e era preciso quase cinco longas horas de estrada para chegarmos ao estado vizinho, São Paulo, Rio ou Espírito Santo. Era uma verdadeira jornada! Passar por mais de dois estados na mesma viagem, então, era um feito! É claro que estou falando de viagens de carro e não de avião. Lá de cima, fica tudo pequenino mesmo, voamos sobre as fronteiras e nem as percebemos. O choque está só no aeroporto de chegada. Mas de carro, a cada vez que nos aproximamos de alguma fronteira e lá está a placa anunciando um novo estado, pelo menos para mim, sempre foi uma emoção.
Fronteira Minas-São Paulo em estrada de terra
Chegamos na divisa Bahia-Sergipe!
rio Guaju, na fronteira entre Rio Grande do Norte e Paraíba
A diferença com as fronteiras internacionais é que não há papelada e burocracia no caminho. Apenas uma placa para anunciar a novidade. É muito mais ágil. Além disso, claro, é a mesma língua falada dos dois lados da linha imaginária. Por isso, não resta dúvida, cruzar uma fronteira internacional de carro é muito mais marcante. Mas as fronteiras estaduais também são um importante ponto de referência e nos indicam, deixam claro, o quanto já andamos e o quanto estamos longe de casa.
Entrando no estado do Acre
Chegando á fronteira de Rondônia e Mato Grosso, o penúltimo estado que ainda não havíamos visitado
Depois de nos despedir de nossos queridos anfitriões em Joinville, a tia Wal e seus filhos Luís Felipe e Vitória, nós pegamos logo a estrada para o Paraná. Mas ao invés de seguirmos pela rodovia principal, a BR-376 que subiria e Serra do Mar e nos levaria diretamente a Curitiba, optamos pela pequena estrada de Garuva, que segue pelo litoral e nos leva para Guaratuba, o mais movimentado balneário paranaense. Menos de meia hora de strada e chegamos na temida fronteira, essa tal que está merecendo um post especial. Mas o post não é só para ela não. É também para as outras 74 fronteiras estaduais que passamos aqui no Brasil, lá do Acre e do Amapá até o Rio Grande, do Mato Grosso à Paraíba. Apesar de serem “apenas” 27 estados, nessas nossas idas e vindas, “vais e voltas”, ziguezague país afora, o número de fronteiras acabou sendo bem maior.
Chegando ao Maranhão!
Placa receptiva na fronteira do Espírito Santo
Com essa derradeira de hoje, foram 75, das quais, 71 com a Fiona. Quais foram as outras quatro? Bom, para quem não se lembra, logo no início da nossa viagem, na nossa primeira fronteira estadual dos 1000dias, nós nadamos entre o Paraná e São Paulo, mais especificamente entre a Barra do Ararapira e a Ilha do Cardoso, ida e volta (post aqui). Foi em 30 de Março de 2010, 4 anos atrás! A outra vez foi caminhando, entre o Espírito Santo e a Bahia, lá em Itaúnas, indo e voltando para Riacho Doce (post aqui). As outras todas foram com a Fiona mesmo, seja numa estrada, seja numa balsa.
Fronteira entre Maranhão e Pará. Estamos longe!
Chegando ao Rio Grande do Sul, nosso 23o estado nesta viagem
Chegando ao Mato Grosso do Sul, o último estado que nos faltava conhecer nesses 1000dias pela América e Brasil
As fotos desse post, com exceção das primeiras, são a nossa lembrança desses momentos especiais explorando todos os cantos e confins do nosso gigantesco e maravilhoso país. Rever essas fotos e ler essas placas nos faz viajar e nos emocionar novamente. Ainda mais agora que estamos tão pertos do fim...
Sorria, você está na Bahia! (fronteira de Itaúnas - ES com Bahia)
Muitas cores em praia de Isla Mujeres, no litoral sul do México, do lado do Caribe
A grande atração de Isla Mujeres é, sem dúvida, o mar que a cerca. A gente já pôde conferir isso antes mesmo de chegar lá, no ferry que nos leva de Cancún até lá.
Ferry para Isla Mujeres, no litoral sul do México, do lado do Caribe
Os barcos para a ilha partem de quatro lugares diferentes, com preços e horários distintos, dependendo do conforto e velocidade que se queira, além da praticidade do ancoradouro estar mais perto ou mais longe da região hoteleira.
Admirando a beleza do mar no caminho para Isla Mujeres, no litoral sul do México, do lado do Caribe
No ferry a caminho de Isla Mujeres, no litoral sul do México, do lado do Caribe
Para nós, que queríamos ir de Fiona, não havia escolha. O ferry para carros só sai de um lugar, quatro vezes ao dia. É justamente no porto mais longe da cidade. Então, apesar de ser o mais barato para quem atravessa sem carro, quase ninguém se dá ao trabalho de ir até lá. São poucas pessoas também que se dispõe a atravessar o próprio carro e, portanto, o ferry estava bem tranquilo.
Chegando à paradisíaca Isla Mujeres, no litoral sul do México, do lado do Caribe
Barco lotado em Isla Mujeres, no litoral sul do México, do lado do Caribe
Isso nos deu a falsa ilusão de que o movimento na ilha seria pequeno. Até parecia que estávamos indo para a Ilha do Mel, mas com um mar cem vezes mais bonito. Para manter o ritual que temos quando vamos à ilha paranaense, até compramos uma latinha de cerveja para nos acompanhar enquanto observávamos aquele cenário paradisíaco à nossa volta.
A caminho de um mergulho num mar com cara de piscina, na Isla Mujeres, no litoral do Yucatán, no sul do México
A ilusão de uma ilha vazia acabou assim que nos aproximamos dela. Na verdade, até antes, já que começamos a ver, de longe, a quantidade de construções na ilha (algumas altas!). Mas foi lá perto, ao ver o tanto de gente nas praias de areias brancas e as pessoas apinhadas em catamarãs sobre o mar com cor de piscina, aí tive certeza que aquela não era a nossa Ilha do Mel. Talvez, trinta anos atrás...
Voltando do mergulho em um mar que mais parece uma piscina, na Isla Mujeres, na costa caribenha no sul do México
Satisfeita com a vida, voltando de um magnífico mergulho na Isla Mujeres, na costa caribenha no sul do México
Enfim, é movimentada mesmo, mas também tem seus encantos. Afinal, não é a toa que tem tanta gente querendo passar uns dias por lá. O mar é simplesmente maravilhoso, um azul que nossos olhos não querem acreditar.
Cenário perfeito para massagens em Isla Mujeres, no litoral sul do México, do lado do Caribe
As melhores praias estão no lado norte da ilha. Águas bem tranquilas, areias branquinhas, muitas infraestrutura de bares e restaurantes, comida para todos os gostos e bolsos, cadeiras para lugar ou bastante espaço para colocarmos nossas cangas.
Aproveitando o delicioso mar de Isla Mujeres, no litoral sul do México, do lado do Caribe
Observando wind surf wm Isla Mujeres, no litoral sul do México, do lado do Caribe
No lado sul e no leste da ilha, voltados para mar aberto, a costa é mais rochosa e o mar, agitado. Barcos e pessoas preferem mesmo o norte e a face voltada ao continente. Lá moram a maioria das pessoas e é onde está a cidade de verdade. É onde a maioria das pessoas se hospeda (inclusive nós) e estamos a poucos quarteirões do mar.
Delicioso fim de tarde em Isla Mujeres, no litoral sul do México, do lado do Caribe
Chegamos à ilha no dia 6 e saímos no dia 11. Todos os dias, a melhor parte do dia era exatamente quando estávamos perto do mar, seja na praia, mergulhando, andando ou caminhando pela orla, nadando em suas águas cintilantes.
Última visão das praias paradisíacas da Isla Mujeres, no litoral sul do México, do lado do Caribe
Enfim, do momento que chegamos até a hora de partida, o mar foi a primeira razão de estarmos aqui e, basta ver as fotos, motivos tínhamos para isso.
Mar totalmente caribenho ao redor da Isla Mujeres, no litoral sul do México
Não tivemos a tranquilidade que queríamos, mas a beleza do que nos rodeava certamente compensou isso. Após quatro dias de nos esbaldarmos por aqui, agora sim vamos achar um lugar tranquilo para ficar.
Vida tranquila em Isla Mujeres, no litoral sul do México, do lado do Caribe
Admirado com o lincrível pôr-do-sol em Kralendijk, em Bonaire
A ilha de Bonaire, ao contrário de Aruba e Curaçao que já são semi-independentes, ainda está completamente ligada à Holanda. É como uma província. Mas a moeda oficial e corrente é o dólar. A língua formal é o holandes, mas as pessoas falam mais o papiamento, um pouco mais "cantado" que em Aruba. Inglês também é entendido em todos os lugares, assim como o espanhol, em boa parte deles.
Mapa de Bonaire, mostrando todos os pontos de mergulho ao longo da costa
A ilha é considerada um paraíso para os mergulhadores. Não tanto pela beleza subaquática, que é bonita mas não espetacular, mas pela facilidade de se praticar essa atividade. São dezenas de pontos de mergulho ao redor da ilha, quase todos eles com acesso diretamente da praia. Basta nadar um pouco para atravessar a parte rasa e chegar aos recifes, onde a profundidade abaixa para trinta metros em média, numa descida suave. O forte da vida subaquática são os corais e bichos pequenos, incluindo aí muitos peixes coloridos. Arraias, tartarugas e tubarões são vistos de vez em quando, mas não são assíduos frequentadores. A temperatura da água é muito agradável, por volta dos 30 graus, e nem é preciso roupa para mergulhar (também não há águas-viva!). Luvas são proibidas!
Sala-cozinha do nosso studio em Kralendijk, em Bonaire
Como os pontos são todos próximos da praia, aqui não precisamos de barco e sim de carro para se chegar até as praias. A exceção é a ilhota de Klein Bonaire, para onde só se vai de barco. Mas, com tantos outros pontos na ilha principal, nem é preciso ir até lá, para quem fica poucos dias. E assim, como não precisamos de barco, também não precisamos de guia! Isso faz de Bonaire o lugar de mergulhos mais baratos que já conheci. Por 130 dólares, eu e a Ana vamos mergulhar 6 vezes! Muito barato! Não estou somando aí o preço do aluguel do carro, que sai por uns 40 dólares diários, mais combustível.
Preparado para nosso primeiro mergulho em Kralendijk, em Bonaire. É só atravessar a rua...
Todos os pontos de mergulho ao redor da ilha estão devidamente sinalizados por pedras amarelas ao longo da estrada que margeia toda a costa de Bonaire. Sempre tem algum lugar para estacionar, deixamos o carro destrancado (sem nada de valor dentro!), escondemos a chave no mato e mergulhamos. Simples assim! A carteira e documentos ficam em casa. Aparentemente, a polícia não liga para isso (estarmos sem documentos). Aliás, não vimos polícia em lugar nenhum da ilha.
O primeiro mergulho em Bonaire, quase no centro de Kralendijk
Um enorme pneu em mergulho em Kralendijk, em Bonaire
Muitos hotéis já tem o esquema dos tanques de ar. É só passar no drive-thru e pegar os seus (e deixar os usados). Para os hotéis que não tem essa facilidade, as lojas de mergulho tem. Passamos lá, pegamos tanques cheios e deixamos os vazios. Não tarda 2 minutos. E aí, estamos livres para ir mergulhar em qualquer lugar da ilha, a hora que quisermos. Não é à tôa, então, o apelido de "Divers Paradise"!
àgua bem limpa em mergulho em em Kralendijk, em Bonaire
Uma anêmona, no nosso primeiro mergulho em Bonaire, quase no centro da capital Kralendijk,
No nosso primeiro mergulho, nem de carro precisamos! Simplesmente saímos do hotel, caminhamos 30 metros e já estávamos dentro d'água. Ontem eu tinha feito snorkel no mesmo lugar, com meu computador para medir as profundidades. Incrível como água limpa nos engana! Sem perceber, já estava indo a 20 metros de profundidade! Pena que a nossa professora de apnéia e recordista sulamericana de mergulho profundo não estava aqui para me acompanhar e ajudar a bater meu recorde. Muito mais fácil aqui do que na pedreira escura lá de Sorocaba...
Banho de mar no pôr-do-sol em Kralendijk, em Bonaire
Agora devidamente equipados, ficamos uma hora lá embaixo, visibilidade de mais de 20 metros, observando peixes e corais coloridos. Sentimento de completa tranquilidade, completamente zens. Diferente de Galápagos, quando estávamos sempre prontos a perseguir como loucos algum tubarão-baleia. Aqui, de certa forma, estamos mais próximos da essência do mergulho.
Maravilhoso pôr-do-sol em Kralendijk, em Bonaire
Depois do mergulho, já meio da tarde, fomos pegar nossa S-10. Com ela vamos a todos os cantos dessa ilha, às praias e também ao interior, onde há um belo parque para ser explorado (nem só de mergulhos vive a ilha!). E, finalmente, no final do dia,uma surpresa: um dos mais bonitos pores-do-sol (é assim?) de toda a viagem. Céu completamente dourado sobre o mar azul. Inesquecível! Quem vê as fotos, até parece montagem, que estamos em frente a algum outdoor ou quadro. Não! É verdade mesmo! Assim foi nosso entardecer!. Um ótimo agouro do que nos espera nos próximos dias, aqui no paraíso dos mergulhadores!
Parece um quadro, mas é o maravilhoso pôr-do-sol em Kralendijk, em Bonaire
O atual continente americano
Apesar de estarmos sempre falando em América do Norte, do Sul e Central, ou América Latina e Anglo-saxônica, o fato é que todas elas formam um só continente, a famosa América, aquela que estamos explorando por esses mil e tantos dias. Mas não foi sempre assim. Na verdade, até bem recentemente, pelo menos em termos geológicos, América do Sul e América do Norte eram, sim, continentes distintos, separados por um oceano.
Por bilhões de anos, continentes e oceanos tem sido criados, separados, destruídos e juntados novamente, num verdadeiro balé de dimensões planetárias. Se um de nós voltasse no tempo, apenas alguns bilhões de anos, e olhasse para o nosso planeta do alto, não o reconheceria, uma configuração geográfica completamente diversa da que temos hoje. Através de “marcadores” como o alinhamento magnético de rochas antigas, ou pela similaridade de fósseis pré-históricos, cientistas foram capazes de decifrar parte dessa história e de antigos supercontinentes. Épocas em que partes do Brasil encostavam com a Índia ou Austrália, ou que o nordeste dos Estados unidos tocava a África do Sul.
O possível aspecto do supercontinente de Rodinia, há um bilhão de anos
Obviamente, quanto mais antigos esses supercontinentes, menos se sabe sobre eles. Ur, Columbia, Rodinia, Pannotia são apenas alguns deles, cada um existindo por algumas centenas de milhões de anos e depois, separando-se outra vez. Finalmente, as ilhas e continentes se juntaram uma última vez, há cerca de 300 milhões de anos, num supercontinente chamado Pangeia, este sim, um pouco mais conhecido por todos nós. A união durou pouco e “apenas” 100 milhões de anos mais tarde, Pangeia se dividiu em duas, Laurasia ao norte e Gondwana ao sul. O que conhecemos hoje como América do Norte, junto com Eurásia (sem a Índia!), formava o continente do norte, enquanto a nossa América do Sul, junto com África, Austrália, Índia e Antártica, formava o gigantesco continente do sul.
O supercontinente de Pangeia, há 300 milhões de anos
Não demorou muito para que também esses continentes se “quebrassem” em pedaços menores. A América do Sul separou-se, tornando-se uma enorme ilha-continente. Algumas dezenas de milhões de anos mais tarde, foi a vez da América do Norte separar-se da Eurásia, embora gigantescas pontes de gelo continuassem a uni-las a cada nova era glacial. Em cada um desses novos continentes separados, fauna e flora se desenvolveram e evoluíram separadamente, criando formas distintas de vida a partir de antepassados comuns, aqueles que habitavam a antiga Pangeia.
Pangeia se divide em dois supercontinentes: Laurasia, ao norte, e Gondwana, ao sul
Bem recentemente, um piscar de olhos em termos geológicos, América do Sul e do Norte se aproximaram uma da outra, fechando aos poucos a ligação entre os Oceanos Pacífico e Atlântico. Agora, apenas pouco mais de mil quilômetros separavam as Américas. Só estava faltando aquele pedaço de terra que hoje chamamos de América Central. Foi quando, há 3 milhões de anos, grandes erupções vulcânicas levantaram o Panamá e criaram a estreita ponte que une o sul ao norte. Nascia, enfim, a América!
A migração de espécies entre as duas Américas. Em verde, animais originários da América do Sul e, em azul, animais originários da América do Norte
Prontamente, a fauna dos dois continentes começaram a migrar pela nova ponte natural, tentando ocupar novos nichos. Predadores e presas, herbívoros e carnívoros, répteis, aves e mamíferos, todos queriam “explorar” novos espaços. Essa verdadeira mistura de espécies, o maior evento biológico desde a extinção dos dinossauros, aconteceu bem aqui, no nosso continente. De forma geral, a fauna do norte levou a melhor, enquanto que a fauna do sul, que havia estado isolada por mais tempo, tornando-se mais especializada, não resistiu às novas condições de competição. Com raras exceções, como por exemplo, as preguiças-gigantes, foi a fauna do norte que se impôs. Os grandes predadores do sul, como crocodilos gigantes e os “pássaros do terror”, tiveram seus ovos comidos pelos pequenos mamíferos do norte enquanto os grandes herbívoros do norte, já acostumados com seus próprios predadores. desalojaram os herbívoros do sul. A fauna marsupial, que havia se originado na América do Sul para depois migrar para a Oceania, ainda nos tempos da Gondwana, teve se se refugiar em pequenos nichos em sua terra natal.
Após essa mistura vitoriosa para o norte e catastrófica para o sul, a vida nas Américas se estabilizou, passando a conviver com as eras glaciais que iam e vinham a cada 20 ou 30 mil anos, alterando as condições de clima e vegetação do continente, nada com que as espécies não pudessem lidar, como mostra a história dos fósseis. Uma extinção aqui, outra ali, mas nada de chamar a atenção. Até que, ao final da última glaciação, há cerca de 12 mil anos, uma onda de extinções tomou conta de todo o continente, acabando com quase toda a megafauna que habitava as Américas há mais de um milhão de anos. O que teria sido diferente dessa vez?
Fóssil de uma antiga preguiça gigante, animal originário da América do Sul e que migrou para a Améica Central
Infelizmente, tudo parece indicar, foi a presença de um novo “fator”, ou ator, no continente. Bem nessa época chegavam por aqui os paleoíndios, vindos da Ásia e, possivelmente, do Pacífico. Os antepassados longínquos dos índios encontrados por Cristóvão Colombo e Pedro Álvares Cabral não eram assim, tão “ecológicos” como gostamos de imaginar. Caçando à exaustão espécies que já vivam sob o stress das mudanças climáticas da época, animais que já viviam por aqui há centenas de milhares de anos não puderam resistir e foram extintos. Animais como os famosos mamutes, mas também camelos, preguiças-gigantes, enormes tartarugas e tatus, entre tantos outros. Uma notável exceção foram as manadas de bisões na América do Norte. Talvez por isso e com esse duro aprendizado, acabaram se tornando animais quase sagrados para as populações locais, que agora sim, os respeitavam. Foi preciso a chegada do homem branco para que, também eles, quase fossem extintos.
A causa humana dessa catastrófica extinção em massa ainda não foi completamente provada. Mas, a coincidência de eventos semelhantes na Austrália, Nova Zelândia, Japão e outras ilhas menores, onde grandes extinções coincidiram com a chegada da nossa espécie, parecem ser um bom indicativo. É interessante notar também que, nas áreas do globo onde a presença humana é mais antiga e a própria fauna local evoluiu conjuntamente com a nossa espécie, como na África e no sul da Ásia, essas extinções não ocorreram. Lá, os grandes animais aprenderam, de alguma forma, a conviver com a mais perigosa das espécies. Em terras como a América ou a Austrália, onde os humanos apareceram de uma só vez, as espécies de animais não tiveram tempo de se adaptar ao novo predador e o seu destino foi implacável: extinção.
Paleoíndios caçam um antigo tatu gigante
Enfim, 200 milhões de anos depois da Pangeia se separar, 3 milhões de anos depois que os animais começaram a cruzar a novíssima ponte natural entre América do Norte e do Sul, 12 mil anos depois que humanos caminhassem de um continente ao outro, chegou a vez de nós, o 1000dias, passássemos do Panamá para a Colômbia, da parte norte para a parte sul desse continente chamado América. Assunto para o próximo post...
Fim de tarde gostoso na rua peatonal de Tlaquepaque, bairro artístico de Guadalajara, no México
Depois da visita ao Museu das Múmias em Guanajuato, precisávamos de algo mais light. Felizmente, era exatamente isso que estava no nosso roteiro! Nossa próxima parada seria a deliciosa Tlaquepaque, um bairro artístico de Guadalajara.
Passeando em Tlaquepaque, bairro artístico de Guadalajara, no México
Deixamos Guanajuato para trás, já cheios de saudades, rumo à capital do estado de Jalisco, de tantas boas memórias para nós, brasileiros. Guadalajara entrou na nossa memória coletiva na Copa de 70 e se tornou, para sempre, a capital brasileira no México. Mas, muito antes disso, também já era considerada a mais mexicana das cidades. Pelo menos, uma boa parte da imagem que temos dos mexicanos é, na verdade, coisa de Guadalajara. Afinal, são de lá os sombreros, os mariachis e até a tequila.
Tlaquepaque, bairro artístico de Guadalajara, no México
Mas hoje, já de tarde, nosso objetivo era conhecer e nos instalarmos em outra parte da cidade. A vizinhança de Tlaquepaque, que já foi uma cidade isolada, mas acabou engolida por Guadalajara, tem vida própria, tranquila, cara de cidade do interior. Acabou acolhendo a comunidade artística da região e do país e hoje suas ruas estão cheias de galerias de arte charmosas. Caminhar por elas é um refresco para o espírito e um deleite visual.
Coreto da praça de Tlaquepaque, bairro artístico de Guadalajara, no México
Então, assim fizemos. Deixamos a visita ao centro da metrópole para amanhã e viemos diretamente para cá, instalando-nos num hotelzinho bem legal, a poucos quarteirões da praça principal. Depois de descarregar a Fiona, nossa única “preocupação” foi caminhar pelas ruas do bairro, fotografar, comer uma refeição saudável e acompanhar a tarde cair na vizinhança.
Mariachis na praça central de Tlaquepaque, bairro artístico de Guadalajara, no México
Apesar de terem “nascido” no centro da cidade, é aqui o melhor lugar para ver e ouvir os mariachis, numa praça toda cercada de restaurantes. Bem ao lado, outra praça, a da igreja, cheio de artistas de rua e gente vendo a vida passar. Como sempre, as praças mexicanas são o centro da vida, o melhor lugar para se estar quando não se tem nada para fazer.
Passeando em Tlaquepaque, bairro artístico de Guadalajara, no México
Por fim, cada galeria de arte é um mergulho na imaginação e na criatividade. Tenho sempre a impressão que não a sensibilidade necessária para aproveitar aqueles ambientes como deveria, mas que eu tento, tento! Mesmo para um iletrado artístico como sou, não deixa de ser um prazer e um aprendizado observar toada aquela explosão de criatividade.
Galeria de arte em Tlaquepaque, bairro artístico de Guadalajara, no México
Voltamos para nosso delicioso hotel, o quarto mais agradável que conseguimos em semanas para descansar um pouco. Amanhã voltamos ao batente, visita ao centro de Guadalajara, com suas praças e tradições, o México do México.
Decoração em galeria de arte de Tlaquepaque, bairro artístico de Guadalajara, no México
Macacos descansam um pouco no Parque Nacional de Manuel Antonio, no litoral do Oceano Pacífico, na Costa Rica
Logo pela manhã, já estávamos prontos para o dia de caminhada no parque Manuel Antonio, a pouco mais de um quilômetro do nosso hotel. Mas antes disso, ainda fomos dar mais uma olhada na praia em frente. Ontem, quando chegamos, já era fim de tarde e a praia estava movimentada, todos querendo aproveitar o fantástico entardecer. Hoje a praia ainda estava bem vazia, praiona cercada de muito verde, evidência que estamos em um país tropical. Aliás, isso iria ficar ainda mais claro durante nossas explorações do parque.
Bem cedo, em praia de Manuel Antonio, no litoral do Oceano Pacífico, na Costa Rica
No caminho até o parque, vários guias com seus tripés à tiracolo. Junto com os tripés, uma luneta, ferramenta fundamental para quem quer observar a variada fauna de Manuel Antonio, geralmente posicionada lá no alto das árvores, longe do alcance dos nossos destreinados olhos. Quer dizer, os nossos podem ser, mas os dos guias, não! Conseguem ver de longe, mesmo que escondidos na densa folhagem das árvores, os pássaros, mamíferos e répteis que atraem tanta gente para esse parque. Assim que localizam algum animal, calmamente montam seus tripés e lunetas e convidam seus turistas a observar o macaco, a preguiça ou o pássaro colorido que encontraram.
Muitos pássaros no Parque Nacional de Manuel Antonio, no litoral do Oceano Pacífico, na Costa Rica
Nós, dispostos a caminhar em nosso próprio ritmo e fazendo nosso próprio caminho, entramos sem guia. Não tínhamos a luneta, mas contávamos com a objetiva da nossa Nikon. E para localizar os animais, bastava olhar para onde os guias de outros grupos estivessem olhando. Um plano bom e barato, nos pareceu!
Mapa de trilhas do pequeno Parque Nacional de Manuel Antonio, no litoral do Oceano Pacífico, na Costa Rica
Caminhando no Parque Nacional de Manuel Antonio, no litoral do Oceano Pacífico, na Costa Rica
E assim foi. Seguimos diretamente para o ponto mais alto do parque, um mirante para se observar a costa entrecortada e algumas das mais belas praias do país. Para chegar até lá, caminho no meio da mata, morro acima, oportunidade para se observar a fauna. Bom, a gente ouviu muito barulho suspeito no alto das árvores, pássaros e macacos, mas não vimos nada. Pelo menos até aqui, os olhos treinados dos guias fizeram falta...
Percorrendo trilha costeira no Parque Nacional de Manuel Antonio, no litoral do Oceano Pacífico, na Costa Rica
O belo litoral do Parque Nacional de Manuel Antonio, na costa do Oceano Pacífico, na Costa Rica
Pelo menos lá do alto, para admirar a paisagem, nossos olhos eram treinados o suficiente! Ficamos com ainda mais vontade de chegar naquelas praias. E para chegar até lá, muita mata e mais oportunidades de encontrar a fauna que tanto “gritava”, mas teimava em se esconder...
Macacos caçam carrapatos no Parque Nacional de Manuel Antonio, no litoral do Oceano Pacífico, na Costa Rica
Macacos descansam um pouco no Parque Nacional de Manuel Antonio, no litoral do Oceano Pacífico, na Costa Rica
Pois é, dessa vez foi diferente! Cruzamos logo com um bando de macacos em uma árvore mais baixa e foi fácil localizá-los e tirar muitas fotos. Ficaram ali, ora posando, ora caçando carrapatos uns nos outros. Gestos incrivelmente humanos, desde o olhar até o movimento dos dedos. Observando esses bichos de perto, em seu próprio habitat, é difícil entender como a humanidade demorou tanto tempo em perceber que temos um antepassado comum. Olhando esses macacos, eu diria que esse antepassado não está tão longe assim...
Uma das pequenas praias do Parque Nacional de Manuel Antonio, no litoral do Oceano Pacífico, na Costa Rica
A belíssima praia que dá nome ao Parque Nacional de Manuel Antonio, no litoral do Oceano Pacífico, na Costa Rica
Depois do encontro com os macacos, com os quais haveríamos de cruzar muitas outras vezes ainda no dia de hoje, às praias! Fomos primeiro às “gemelas” (gêmeas), duas praias bem pequenas escondidas no meio da vegetação. Sensação total de estarmos no litoral norte de Sâo Paulo, em algum lugar perdido entre Ubatuba e Parati. Vegetação semelhante, areia parecida, mar idêntico! Muito legal! Dali mesmo, observamos a praia mais famosa do parque. Aliás, aquela que dá nome ao parque: Manuel Antonio! Mais longa, areia bem clara, um espetáculo! Corremos para lá antes que chegassem muitos turistas e aí nos refestelamos por mais de uma hora. A água estava uma delícia, a mesma temperatura de Ubatuba novamente.
A belíssima praia que dá nome ao Parque Nacional de Manuel Antonio, no litoral do Oceano Pacífico, na Costa Rica
Dia de muito sol no belo Parque Nacional de Manuel Antonio, no litoral do Oceano Pacífico, na Costa Rica
Felizmente, o governo da Costa Rica teve o bom senso de criar esse parque no início da década de 70. Senão, com certeza essa praia maravilhosa estaria nas mãos de algum condomínio ou megaresort. Mas não, protegida pelo parque, a praia continua virgem como sempre. Nadando em suas águas e olhando para a costa, nenhum sinal da civilização. Apenas árvores, as areias brancas e os poucos turistas que haviam ali chegado. Uma trilha percorre toda a praia, mas está muito bem escondida pelas árvores. A sensação é mesmo de total natureza!
Parece Ubatuba, mas é o Parque Nacional de Manuel Antonio, no litoral do Oceano Pacífico, na Costa Rica
Falando nela, ainda tínhamos explorações a fazer. Na ponta de Manuel Antonio há uma península que já foi ilha, agora unida ao continente por uma língua de terra. Uma trilha dá a volta nessa península e oferece vários pontos de observação, da mata e da costa. Foi indo para lá que localizamos (nossos olhos foram ficando treinados!) um bicho-preguiça em um galhos não tão alto. Na verdade, a mais próxima que já tínhamos visto aqui na Costa Rica. Ela estava ali, naquela sua pressa característica, alimentando-se de folhas e pendurada com suas fortes garras dando-lhe segurança.
Típica pose de bicho-preguiça no Parque Nacional de Manuel Antonio, no litoral do Oceano Pacífico, na Costa Rica
Encontro com uma preguiçosa bicho-preguiça mascarada no Parque Nacional de Manuel Antonio, no litoral do Oceano Pacífico, na Costa Rica
Depois de muitas fotos, fomos dar a volta na tal península e, quando voltamos, fomos procurar nossa “amiga” novamente. Ela estava ainda mais baixa, oportunidade incrível de observação, mesmo para aqueles sem poderosas lunetas. A calma que esse bicho inspira é incrível! Parece que o relógio para de andar. Stress para quê? Aliás, fiquei imaginando se os ativos macacos, de vez enquanto, não tentam encher o saco de uma preguiça... Como será esse encontro? As duas espécies vivem nas árvores desse parque tão pequeno, hão de se encontrar várias vezes! Enquanto uma preguiça se move um metro, o macaco já foi lá do outro lado do parque e já voltou. É, deve ser engraçado ver os dois juntos. Não tivemos essa sorte, pelo menos, não na mesma árvore...
Chegamos pertinho de um bicho-preguiça no Parque Nacional de Manuel Antonio, no litoral do Oceano Pacífico, na Costa Rica
Observando de perto um bicho-preguiça no Parque Nacional de Manuel Antonio, no litoral do Oceano Pacífico, na Costa Rica
Bom, depois de quase termos contatos imediatos do3o grau com a preguiça, seguimos para a saída do parque. O último obstáculo era passar por um rio frequentado por jacarés, mas não tivemos a sorte (ou azar) de ver nenhum. Do lado de lá do rio, já estávamos naquela nossa praia velha conhecida, a mesma do entardecer de ontem e da manhã de hoje. Depois de tantas horas de explorações e muito calor, fomos matar a sede com “pipas”. É assim que os costarriquenhos chamam água de coco e, mesmo com esse nome diferente, o gosto é o mesmo. Revitalizante!
O último obstáculo da trilha que atravessa o Parque Nacional de Manuel Antonio, no litoral do Oceano Pacífico, na Costa Rica
Depois da trilha, uma água de coco para refrescar, em Manuel Antonio, no litoral do Oceano Pacífico, na Costa Rica
Para mim, Manuel Antonio foi uma bela surpresa. Achei que iria gostar, mas as expectativas não eram tão grandes assim. Cada vez mais, o lema turístico do país faz sentido: Pura Vida! Que o digam os macacos e preguiças. A sensação de ter estado em Ubatuba, litoral que tanto gosto, também foi muito legal. E ainda tem mais pela frente. Afinal, daqui seguimos, ainda hoje, para a Península de Osa, nosso principal objetivo nessa segunda passagem pelo país. Para lá, as expectativas são grandes. Vamos ver como vai ser o resultado...
Chegando à misteriosa Península de Osa, no sul da Costa Rica
Jangada preparada para sair ao mar no Pontal do Maceió, em Fortim, no litoral do Ceará
Já há muitos meses que minha família vem planejando celebrar em grande estilo o aniversário de minha mãe. Afinal, não é todo dia que se faz 80 anos de idade. Seria também mais uma grande chance de conseguirmos reunir toda a família de uma só vez. Com os filhos grandes, casados e com seus próprios filhos, isso tem sido cada vez mais difícil de conseguir. Ainda mais que uma irmã mora no exterior e outro irmão só recentemente voltou a morar no Brasil. Para falar a verdade, na atual configuração, não me lembro se um encontro completo já tenha ocorrido. Somos cinco filhos (mais um que está lá no céu), quatro dos quais casados, e cinco netos e a última grande chance de reunião havia sido no aniversário de 80 anos do meu pai, em junho passado (post aqui), mas uma cunhada, a Íris, teve de ir trabalhar nos EUA bem naqueles dias e a reunião não foi completa. Agora, tínhamos uma nova chance de ouro e não podíamos deixá-la escapar.
Família reunida para jantar no hotel de Fortim, litoral do Ceará
Para falar a verdade, um dos motivos que também complicaram uma reunião completa da família foi o nosso projeto dos 1000dias. Afinal, estamos longe de casa há quase quatro anos! Teoricamente, nossa viagem deveria ter terminado em Dezembro de 2012 (quando completamos 1.000 dias de viagem), mas não terminamos e continuamos sendo um empecilho para a reunião da família. Assim, no aniversário do meu pai, como já estávamos na “prorrogação” dos 1000dias, não tínhamos desculpas para não comparecer e voamos lá de Roraima para Ribeirão Preto para participar da festa. Naquela época, a gente também se comprometeu a não faltar no aniversário de minha mãe. Na verdade, até imaginamos que talvez a viagem já tivesse terminado até lá, mas não terminou. De qualquer maneira, compromisso é compromisso e assim que foi definido o local onde seria a celebração, tratamos de nos programar de estar lá. E assim foi. Festa marcada para o litoral do Ceará, fizemos nossas contas, vimos que estaríamos entre Chile e Argentina e tratamos logo de comprar as passagens de avião de Santiago a Fortaleza. Feito isso, foi só calibramos nosso roteiro para chegarmos à capital chilena na época certa. Nossos 1000dias terão mais um intervalo, mais umas “férias das férias”, mas logo retornamos e retomamos a parte final de nossa viagem.
Tudo explicado, vamos à história. Acordamos anteontem de manhã ainda em Rengo, na casa de nossos amigos Andrea e Pablo. Daí dirigimos para Santiago, diretamente para a casa da Maria Ester, a mãe do Pablo. De tanto que passamos por aqui, já somos amigos e a Fiona já até sabe o caminho para chegar à casa dela. Foi aqui que também deixamos a Fiona quando voamos para a Ilha de Páscoa, em outubro do ano passado. A diferença é que, daquela vez, não abandonamos a Fiona no Chile, pois a Ilha de Páscoa também é território chileno e, portanto, nós não estávamos saindo do país. Agora sim, vamos ao Brasil enquanto nosso carro permanece no Chile e esse “pequeno detalhe” tem implicações burocráticas.
Nossa rota de avião entre Santiago, no Chile, e Fortaleza, no Ceará, fazendo escala na capital Brasília
Sobrevoando o centro-oeste do Brasil, no voo entre Brasília e Fortaleza, no Ceará
Como regra geral, países “não gostam” que nós cheguemos até eles de carro e saiamos de outra maneira, deixando o carro para trás. Enxergam aí a possibilidade de algum trambique, que tenhamos, por exemplo, vendido ilegalmente o automóvel. Por isso, pelo menos em países mais organizados, eles mantêm em seus computadores a informação de como e onde cada turista entro no país. Na hora da saída, checam para ver se não há nada errado. Pode ser a duração da estadia, se não ficamos mais tempo do que o permitido, ou se não estamos deixando um carro para trás. Durante nossos 1000dias, passamos diversas vezes por essa situação, pelo dilema de seguir ou não a burocracia e “burrocracia” de seguir estritamente as regras e procedimentos de cada país sobre como deixar um carro para trás, nem que seja temporariamente (como era sempre o nosso caso!).
O balcão de salgados não deixa dúvidas, estamos no Brasil! (escala no aeroporto de Brasília, rumo a fortaleza, no Ceará)
O balcão de doces não deixa dúvidas, estamos no Brasil! (escala no aeroporto de Brasília, rumo a fortaleza, no Ceará)
Os EUA, por exemplo, são um raro caso que não cria embaraços. Por três vezes deixamos a Fiona por lá, uma quando fomos às Bermudas, outra quando viajamos para a Islândia e Groelândia e outra quando fizemos uma de nossas incursões às ilhas caribenhas. Nem uma burocracia ou papel para preencher. Simplesmente, aparecemos no aeroporto e pagamos nosso voo, enquanto a Fiona ficava na garagem do amigo Marcelo, em Miami, ou na casa da prima Anita, em Princeton. Houve também os casos do México, Suriname e Colômbia, onde ignoramos solenemente as regras e simplesmente pegamos nossos voos para o Caribe, a Fiona ficando na casa de algum amigo ou no estacionamento de um hotel. No aeroporto, ninguém conferiu nada, nem na ida nem na volta, e não tivemos problemas. Foi assim também na Argentina, quando embarcamos para a Antártida.
Revistas em português! Já estamos no Brasil, escala em Brasília, rumo a Fortaleza
Sobrevoando o centro-oeste do Brasil, no voo entre Brasília e Fortaleza, no Ceará
Aonde não foi assim, foi no Panamá. De lá nós iríamos voar para a República Dominicana e nossa ideia era fazer como já havíamos feito todas as vezes anteriores: ignorar as regras. Mas um despachante com quem estávamos em contato para nos auxiliar na tarefa de atravessar o carro de volta à América do Sul nos aconselhou muito a seguir os procedimentos burocráticos, sob pena de não nos deixarem embarcar no aeroporto. Aí, decidimos seguir as regras e foi um parto, como relatado nesse post. Tivemos de deixar o carro em um “porto seco”, pagar um bom preço, preencher muitos papéis e perder bastante tempo. Fora isso, deu tudo certo e pudemos viajar tranquilos.
Muito sol na praia do Pontal do Maceió, em Fortim, no litoral do Ceará
Agora, aqui no Chile, tratamos de descobrir os procedimentos também. Não queríamos nos arriscar a sermos barrados no aeroporto, perdermos o voo, a festa da minha mãe e a chance de, finalmente, reunir toda a família. Eram riscos demais! Felizmente, a complicação aqui no Chile é muito menor do que no Panamá. Só precisávamos ir até a polícia de fronteira e assinar um termo de responsabilidade dizendo que o carro ficaria com um chileno de confiança no país. O tal “chileno de confiança” também deveria estar presente e assinar o mesmo termo. Na volta, seria necessária apenas a nossa presença para dar baixa nesse documento. A polícia de fronteira mais perto de nós era no próprio aeroporto e nós resolvemos conceder essa “honra” de guardião da Fiona para a Maria Ester. Sempre muito simpática e solícita, ela aceitou a incumbência e o trabalho. “Trabalho” porque ela teve de ir até o aeroporto anteontem de tarde conosco, para fazer a burocracia. Nós viajamos de Rengo até a casa dela, tomamos uma água e, agora todos juntos, fomos até o aeroporto. Ali assinamos os papéis e voltamos de Fiona para a casa dela, garagem velha conhecida do nosso carro. Aqui a Fiona ficará até voltarmos do Brasil, no dia 2 de fevereiro, daqui a uma semana.
Reencontro com pais e tios no hotel em Fortim, litoral do Ceará
Passeando na maré baixa na praia de Pontal do Maceió, em Fortim, litoral do Ceará
Ontem bem cedo, céu ainda escuro, um táxi veio nos pegar na casa da Maria Ester para nos levar ao aeroporto. Ali, embarcamos sem problemas, termo de compromisso e passaportes mostrados ao oficial da aduana. A TAM e a LAN se juntaram recentemente e os voos entre os dois países têm muitas promoções. A gente conseguiu uns preços bem razoáveis, principalmente porque compramos com bastante antecipação. Nosso itinerário para Fortaleza fazia uma escala em Brasília, local onde pisamos nossos pés em solo pátrio pela primeira vez desde que fomos ao casamento da Laura e do Rafa na Ilha do Mel, há 45 dias.
A praia de Pontal do Maceió, em Fortim, litoral do Ceará
Barcos em suas "garagens" na praia de Pontal do Maceió, em Fortim, litoral do Ceará
Deu tempo de passear no aeroporto e avaliar as obras de modernização com vistas a Copa do Mundo, daqui a poucos meses. Muita coisa para se fazer ainda, mas as placas informativas em inglês já estão em todo canto. Espero que não façamos feio com os gringos! Mas, falando em línguas, foi passeando na banca de jornais e nas lojas de comida que nos fez perceber que estávamos realmente em nosso país. No princípio, os olhos até estranham todos aqueles jornais, revistas e livros escritos em português. Depois, é o estômago que se assanha quando vê os balcões de doces e salgados à mostra. Não tem nada parecido em todos os outros aeroportos que conhecemos nesses 1000dias. E para mim, como bom mineiro, ver pães de queijo à venda é sempre um colírio para os olhos e um estimulante irresistível para água na boca.
A Ana muito preocupada da vida no hotel em Fortim, litoral do Ceará
A Bebel aproveita o sol na piscina do hotel em Fortim, litoral do Ceará
Logo já estávamos no avião novamente. Algumas horas depois e já pousávamos no aeroporto de Fortaleza, também em obras de modernização para a Copa do Mundo. Mas aqui meus interesses eram outros! Aí mesmo no aeroporto, já encontramos meus pais, que também chegavam em horário parecido vindos de São Paulo. A boa notícia é que eles confirmaram que vão mesmo nos encontrar no Uruguai daqui a 17 dias e viajar conosco por lá. Tanto insisti que, finalmente, já no finalzinho do 2º tempo da prorrogação, eles decidiram ter também sua participação nos 1000dias. Que ótimo!
Encontro com a cunhada Íris no hotel em Fortim, litoral do Ceará
A Ana com os padrinhos do Rodrigo no hotel em Fortim, no litoral do Ceará
De carro alugado, seguimos da capital cearense para a cidade de Fortim, no litoral leste do estado, perto de Canoa Quebrada. Aí fica nosso hotel, na praia conhecida como Pontal do Maceió. Será nossa casa pelos próximos 7 dias, na companhia maravilhosa de toda a família. Além dos pais, irmãos, cunhados e sobrinhos, também vieram um primo (o Haroldo, aquele do vulcão Villarrica, em Pucón), meus padrinhos de batizado e casamento e outro casal de tios. Assim, o hotel está quase cheio só de familiares. Melhor impossível!
Maré baixa na praia de Pontal do Maceió, em Fortim, litoral do Ceará
Sobrinho e cunhados prestigiando o encontro para celebração de aniversário da mãe do Rodrigo, em Fortim, no litoral do Ceará
Ainda mais quando, no dia seguinte, com a luz do sol, percebemos realmente aonde estávamos. Uma praia maravilhosa, com aquelas jangadas típicas do Ceará, era o cenário. A bela piscina do hotel seria o ponto de encontro durante todas as tardes. E para quem seguiu nossa viagem e nossos posts desde o início, vai reconhecer vários rostos nas fotos desse e dos próximos relatos. Além do Haroldo, aqui está a sobrinha e afilhada Bebel, que viajou conosco no nordeste dos EUA, o sobrinho Leo a sua namorada Karen, que estiveram conosco em Itaúnas, no Espírito Santo, a família do irmão Pedro, que nos recebeu no Rio e esteve conosco em Visconde de Mauá, e as famílias das irmãs Lalau e Guto, que estiveram conosco em Poços de Caldas, São Carlos e Ribeirão Preto. Tem também o tio Carlos e a Gogóia, pais do Chico, que viajou conosco na Chapada dos Veadeiros e interior de Goiás. Enfim, como se diz por aí, está tudo em família e a semana nesse paraíso promete!
Família reunida para jantar no hotel de Fortim, litoral do Ceará
Ponte Hercilio Luz, antiga ligação da ilha com o continente, em Florianópolis, Santa Catarina
Todas as outras diversas vezes que eu e a Ana estivemos em Florianópolis antes dos 1000dias, sempre ficamos hospedados longe do centro da cidade. Seja em Canasvieiras, Barra da Lagoa, Campeche ou Matadeiro, nossa relação com a Av. Beira-mar ou com a região central era de passagem. Passávamos por lá quando chegávamos à ilha e passávamos por lá quando deixávamos a ilha. Quando muito, algum bar ou balada na Beira-mar, já há muito tempo. Florianópolis, para nós, era suas praias e distritos.
Visitando Florianópolis, a capital de Santa Catarina
Avenida Beira-mar norte, em Florianópolis, Santa Catarina
Mas dessa vez foi diferente. Nós ficamos hospedados no apartamento do tio Walter, a um quarteirão da Av. Beira-mar norte. Fazíamos compras na padaria da esquina, caminhávamos até uma simpática pracinha mais adiante para ir ao banco ou ao correio, esticávamos nossas pernas na pista de corridas da avenida, aproveitando a vista grandiosa e fechando as narinas para o cheiro horrível que existe em alguns pontos por ali.
Observando o estreito de mar que separa a ilha do continente, em Florianópolis, Santa Catarina
Pescador no mar tranquilo em frente a Av. Beira-mar norte, em Florianópolis, Santa Catarina
Aliás, correr na avenida se tornou quase uma rotina para mim. Na direção sul, seguia até o ponto onde se pode admirar a ponte Hercílio Luz em todo o seu esplendor. Para o norte, “corria” pelo sistema solar. Como assim? Alguém teve a ótima ideia de espalhar pela avenida placas informativas sobre cada um dos planetas do nosso sistema solar. O interessante é que as placas foram colocadas respeitando proporcionalmente a distância desses planetas ao sol. Na escala da Av. Beira-mar Norte, cada 1 milhão de quilômetros na vastidão do espaço cósmico representa apenas um mísero metro. Assim, a partir da placa representando o sol, são apenas 57 metros até Mercúrio, o primeiro planeta, outros 51 metros até Vênus e mais 41 metros para chegar até a nossa Terra.
Pista de ciclismo e de corrida na Av. Beira-mar norte, em Florianópolis, Santa Catarina
Correndo em um dos cartões postais de Florianópolis
Marte está pertinho daí, mais uma corridinha de 77 metros. Desse jeito, parece que o sistema solar vai acabar rapidinho. Ledo engano! É agora que as distâncias começam a aumentar. Para Júpiter, são mais 550 metros e, a partir daí, outros 650 metros até Saturno. Quanto mais nos afastamos do sol, mais vazio fica nosso sistema solar. Do sol a Saturno, eu já havia corrido quase 1,5 quilômetros. Para chegar a Netuno, passando por Urano, foram 4,5 quilômetros! Ainda estiquei mais um pouco, mas acabei desistindo de Plutão. Afinal, nem mais planeta de verdade ele é. Considerando o caminho de volta, foram 10 quilômetros de passeio pelo cosmo! 1000dias pelo Sistema Solar, é meu sonho! Quem sabe, daqui a umas duas encarnações... Só por curiosidade, se eu quisesse “correr” até a estrela mais próxima do sol, mesmo nessa escala da Av. Beira-mar onde Plutão está a 5,9 km de distância, eu teria de correr 40 mil km (uma volta inteira na Terra!) para chegar à Proxima Centauri. Desanimador!
Passando pelo planeta Marte na Avenida Beira-mar Norte, em Florianópolis, capital de Santa Catarina (foto da internet)
Passando pelo planeta Urano na Avenida Beira-mar Norte, em Florianópolis, capital de Santa Catarina (foto da internet)
Mas, deixando de lado o sistema solar e voltando a Terra e a Florianópolis, foi nessas corridinhas, mas para a direção sul, que tivemos a melhor visão da ponte ícone da cidade, a Hercílio Luz. Talvez o cartão postal mais conhecido da cidade (a disputa com a Lagoa da Conceição é duríssima!), essa ponte foi construída na década de 20 por obra e graça do antigo governador que acabou por dar nome à obra. Já está desativada há 3 décadas, mas continua em pé e é o símbolo dessa cidade.
Mapa mostrando a ponte Hercílio Luz e a Avenida Beira-mar norte, com a localização das placas informativas sobre cada planeta do nosso sistema solar (em Florianópolis, capital de Santa Catarina)
Até a sua construção, a ligação com o continente era feita por balsas, num serviço de péssima qualidade que atazanava a vida dos moradores de Florianópolis. Essa dificuldade de acesso era um dos principais argumentos daqueles que queriam que Florianópolis perdesse o posto de capital do estado. Mas o governador Hercílio Luz teimava e não queria mudar de endereço. Sua cartada final foi contratar com uma empresa americana, a preço de ouro, a construção da ponte. O valor da obra equivalia a dois orçamentos anuais da cidade de 40 mil habitantes. Foram quase quatro anos de muitas brigas políticas, bancos que quebraram, rediscussões de dívidas e valores, até que a ponte de 820 metros de comprimento e 75 metros de altura (trinta deles sobre o nível do mar) ficasse pronta.
Mirante de observação da ponte Hercilio Luz, em Florianópolis, Santa Catarina
A ponte que liga Florianópolis ao continente e ao interior do estado de Santa Catarina
O governador não viveu para ver terminada a sua obra. Foi homenageado com o nome da ponte. Originalmente, o nome seria Ponte Independência, tal era o sofrimento e sentimento de impotência que se tinha com o serviço de balsas. Com o crescimento da cidade e o aumento explosivo do tráfego, a ponte começou a apresentar o perigo de desabamento. No início da década de 80 foi construída uma ponte muito mais moderna e segura (embora bem menos charmosa!), aposentando a Hercílio Luz, para alívio dos moradores. Mas a sua imagem já estava de tal modo incorporada à alma da cidade que ninguém pensou em destruí-la. Ao contrário, existe sim um projeto de reformá-la e torná-la apta ao trânsito novamente. Como tudo no Brasil, essas obras atrasaram, o preço aumentou e, por enquanto, a Hercílio Luz continua apenas servindo para fotos. Mas para quem tem de cruzar da ilha para o continente todos os dias e perde horas valiosas nos congestionamentos diários, a reinauguração da Hercílio Luz até mereceria o ato de “renomeá-la” com o nome original: Independência.
Vista do mirante de observação, a famosa ponte Hercilio Luz, que liga Florianópolis ao continente, em Santa Catarina
Foto do grupo no ponto mais alto da caminhada entre Fortuna Bay e Stromness, na Geórgia do Sul
Nosso primeiro dia na Geórgia do Sul teve como foco principal a vida selvagem. Os pinguins de Salisbury Plain e albatrozes de Prion Island, além dos elefantes e lobos-marinho dos dois lugares são atrações espetaculares e mesmo a incrível beleza da paisagem naqueles lugares ficou em segundo plano. Hoje, no nosso segundo dia nessa ilha perdida do Atlântico Sul, as prioridades iriam se inverter: primeiro, as belezas naturais e a história do lugar, e segundo, a vida selvagem, que aqui na Geórgia do Sul, está em todos os lugares.
Descida para a baía de Stromness, na Geórgia do Sul
Com tanta neve, as pessoas formam grupos compactos no caminho para Stromness, na Geórgia do Sul
A primeira atividade do dia foi um longo trekking partindo de Fortuna Bay e chegando na baía de Stromness. Para isso, temos de cruzar as montanhas que separam as duas baías, a gente indo por terra e o Sea Spirit dando a volta pelo mar para nos recolher do outro lado. A ideia desse trekking é repetir o último trecho da grande travessia da ilha realizada em 1915 por Ernest Shackleton e dois de seus companheiros. Eles tentavam desesperadamente chegar à “civilização” para buscar ajuda a seus companheiros que ficaram presos na Antártida, depois que sua expedição exploratória havia terminado em fracasso. Ainda vou falar dessa história mais adiante, mas o fato é que Shackleton e seus companheiros conseguiram chegar à costa sul da Geórgia num barco a remo e daí precisaram caminhar até a costa norte onde se encontravam as estações baleeiras, Primeiro, caminharam até Fortuna Bay, já na costa norte e depois, seguiram para Stromness pelo mesmo caminho que fizemos hoje.
mapa que mostra o caminho percorrido por Shackleton para chegar a Stromness. Nós fizemos o último trecho, a partir de Fortuna Bay. Exposto no museu de Grytviken, na Geórgia do Sul
Chegando a Stromness, antiga estação baleeira na Geórgia do Sul
Stromness era uma importante estação baleeira naquela época, mas hoje não passa de uma pequena cidade-fantasma, as ruínas das antigas instalações sendo comidas aos poucos pelo tempo. Aí chegou Shackleton, sendo recebido pelo incrédulo administrador local. E aí chegamos nós, recebidos pelo Sea Spirit e uma refeição quente, muito benvinda depois do frio e da neve que enfrentamos.
Zodiacs levam os passageiros de volta ao Sea Spirit, em Stromness, na Geórgia do Sul
Nosso roteiro e pontos de parada na Geórgia do Sul
O segundo programa do dia foi visitar Grytviken, também uma antiga estação baleeira e hoje a “capital” da ilha. Tem até igreja, correio, museu o cemitério onde está enterrado o valente Shackleton. Vou tratar de Grytviken e desse tenebroso período de caça às baleias no próximo post, enquanto nesse vou me deter na nossa caminhada da manhã.
Uma bela cachoeira na praia de Fortuna Bay, na Geórgia do Sul
Zodiacs levam os passageiros para Fortuna Bay Geórgia do Sul, para a caminhada até Stromness
Ainda ontem a Cheli, líder da nossa expedição, nos explicou sobre a programação de hoje e sobre quem estaria interessado em fazer o trekking. Para sua surpresa, mais da metade de nós estávamos. Para esses, o café da manhã seria servido ainda mais cedo, já que a ideia era estar já na praia de Fortuna Bay antes das 8 da manhã, para iniciarmos o trekking com cerca de 5 quilômetros, primeiro montanha acima, depois montanha abaixo e or fim, um longo vale.
A neve na praia de Fortuna Bay parece incomodar o elefante-marinho (Geórgia do Sul)
Sob neve, início da nossa caminhada entre Fortuna Bay e Stromness, na Geórgia do Sul
Com tempo frio e fechado, caminhando rumo a Stromness, na Geórgia do Sul
O dia que amanheceu bonito logo fechou, deixando-nos todos ansiosos e com medo que a aventura fosse cancelada pois seria a nossa única chance de caminhar um pouco mais por essa ilha de paisagens fantásticas. Felizmente, não foi. Ao contrário, a neve pelo caminho até emprestaria um clima ainda mais real do que enfrentaram Shackleton e seus companheiros nas suas últimas horas de caminhada. E assim foi, ao chegarmos à praia, nevava forte e até os elefantes-marinho pareciam reclamar.
Observando as montanhas que temos de cruzar para chegarmos a Stromness, na Geórgia do Sul
Observando as montanhas que temos de cruzar para chegarmos a Stromness, na Geórgia do Sul
Subindo a montanha que separa Fortuna Bay de Stromness, na Geórgia do Sul
Com a neve e o frio, nada de ficarmos parados. Grupo todo reunido na praia, partimos logo rumo ao interior da ilha, o Damien, nosso guia historiador a frente. Não demorou muito para chegarmos à encosta da montanha e começarmos a subir. Quanto mais alto, mais neve, a paisagem cada vez mais parecida com aquilo que todos imaginamos que deva ser uma paisagem polar.
Subindo a montanha que separa Fortuna Bay de Stromness, na Geórgia do Sul
Caminhando na neve entre Fortuna Bay e Stomness, na Geórgia do Sul (foto de Jeff Orlowski)
Caminhando na neve rumo a Stromness, na Geórgia do Sul
Nessa época do ano, o normal seria já vermos toda essa paisagem aberta, sem neve. Apenas as montanhas estariam cobertas de branco. Mas não hoje. A neve até parou um pouco, mas nesse ponto, todo o solo já estava branco. Quando chegamos ao ponto mais alto da nossa travessia, o Damien até mostrou o que seria um lago citado por Shackleton em seu relato. Hoje estava congelado e coberto de neve. Mas resolvemos todos acreditar no nosso guia de que aquilo que víamos era sim, um lago.
O Damien nos mostra onde deveria haver um lago no alto da montanha entre Fortuna Bay e Stromness, na Geórgia do Sul
Conversando com nosso guia Damien no caminho para Stromness, na Geórgia do Sul
Conforme caminhávamos, o Damien ia nos contando detalhes do trekking original, os homens já extenuados e esfomeados num último esforço para salvar suas vidas a as dos companheiros que ficaram para trás. Felizmente, nossas condições eram melhores, um bom café da manhã no estômago e um almoço nos esperando lá embaixo.
Foto do grupo de caminhantes no ponto mais alto da trilha entre Fortuna Bay e Stromness, na Geórgia do Sul
Foto do grupo no ponto mais alto da caminhada entre Fortuna Bay e Stromness, na Geórgia do Sul
Repetindo Shackleton, cruzando as montanhas entre Fortuna Bay e Stromness, na Geórgia do Sul
Aí no alto, fizemos a tradicional pose para a foto de todo o grupo, o amarelo vivo de nossas jaquetas ainda mais vivo contra o branco que nos cercava. Devíamos estar a quase 500 metros de altitude, exatamente do ponto onde, com o tempo aberto, passa a ser possível observar Stromness. Imagino a alegria de Shackleton ao ver a fumacinha saindo das casas lá embaixo.
Tentando avistar Stromness, na Geórgia do Sul
A Ana mostra que estamos chegando a Stromness, na Geórgia do Sul
Enfrentando o frio e a neve no caminho entre Fortuna Bay e Stromness, na Geórgia do Sul
Pois é, mais ainda era um longo caminho até lá embaixo. Com tanta neve assim, até o Damien, que já fez esse trekking várias outras vezes, se equivocou e começou a descer pelo lado errado da encosta. Mas logo percebeu o erro, subimos de volta e tomamos o caminho correto. O mesmo ocorreu quase 100 anos atrás, mas eles já haviam descido demais para voltar. Por isso, tomaram uma rota bem mais difícil e tiveram de enfrentar um ou outro penhasco com a ajuda das cordas que tinham.
Com tanta neve, as pessoas formam grupos compactos no caminho para Stromness, na Geórgia do Sul
Início da descida para Stromness, na Geórgia do Sul
O Damien também levava sua corda, mas ela não foi necessária. Fomos enfrentando a neve fofa e funda ao descer a montanha, sempre fazendo um ziguezague para tornar a descida menos íngreme e mais segura.
O Damien nos conta detalhes da caminhada de Shackleton cruzando as montanhas entre Fortuna Bay e Stromness, na Geórgia do Sul
Descendo na neve em direção a Stomness, na Geórgia do Sul
Já lá embaixo, passamos ao lado da cachoeira onde Shackleton e seus companheiros tiveram de usar a corda, já que chegaram pelo outro lado. Uma visão e tanto, uma cachoeira no meio de tanta neve. Pausa para mais fotos e também para respirar um pouco.
Os rastros de nossa descida pela encosta nevada da montanha rumo a Stromness, na Geórgia do Sul
A enorme vastidão nevada no caminho para Stromness, na Geórgia do Sul
Uma cachoeira gelada no caminho para Stromness, na Geórgia do Sul
Agora já estávamos em baixo e era só seguir ao lado do rio até o mar, onde está Stromness. Antes de chegarmos lá, ainda cruzamos com marcas na neve. Eram as inconfundíveis pegadas de pinguim! Com efeito, três minutos adiante e lá estavam eles, um grupo de pinguins gentoo no meio da neve. Agora sim, estavam no seu ambiente predileto, hehehe! Um deles, até trabalhava para construir o seu ninho. Buscava gravetos lá longe e os empilhava cuidadosamente num ninho já quase pronto.
As inconfundiveis pegadas de pinguins na neve, no nosso caminho para Stromness, na Geórgia do Sul
Cruzando com um grupo de pinguins gentoo pouco antes de chegarmos a Stromness, na Geórgia do Sul
Apesar da neve, um pinguim gentoo continua a construir seu ninho perto de Stromness, na Geórgia do Sul
Depois dos pinguins, uma claro sinal que estávamos cada vez mais pertos, passamos por pequenos lagos que haviam se transformado em verdadeiros espelhos, refletindo aquela paisagem grandiosa que nos cercava. Agora sem vento e sem neve, sua superfície estava parada e era um verdadeiro convite a novas fotografias.
Um pequeno lago se transforma num grande espelho, no nosso caminho para Stromness, na Geórgia do Sul
O fantástico cenário da nossa caminhada para chegar a Stromness, na na Geórgia do Sul (foto de Wayne Purcell)
Por fim, um último encontro com filhotes de elefante-marinho. Esses sim nunca saem de muito perto da água. Havíamos chegado às ruínas de Stromness. Pelo estado de decadência em que se encontram, está proibido o acesso. Só podemos ver pelo lado de fora e a aparência é mesmo de uma cidade-fantasma. Seus únicos frequentadores, que parecem ignorar os avisos de não entrar, são lobos e elefantes-marinho. Mas isso é para outro post...
Filhotes de elefante-marinho nos observam em Stromness, na Geórgia do Sul
Lobo-marinho não parece se importar com a placa na antiga estação baleeira de Stromness, na Geórgia do Sul
Rendendo homenagens ao nosso mais belo show cósmico, a Aurora Boreal na noite sem lua em Tok, no Alaska
Foi com dor no coração que deixamos a saída para Valdez à nossa direita e seguimos viagem para Tok. Seria um “pequeno” desvio , ida e volta, de algumas centenas de quilômetros para a cidade que todos recomendaram de que não deixássemos de ir. Estrada bonita, geleiras, possibilidade de avistamento de vida selvagem e por aí vai. A cidade ganhou fama mundial depois do maior desastre ecológico da história, quando o Exxon Valdez derramou sua gigantesca carga de óleo, arruinando um meio ambiente quase virgem e paradisíaco, matando milhões de peixes, aves e mamíferos e causando a fúria de ecologistas por todo o mundo. Esses mesmos ecologistas previram que a região demoraria décadas para se recuperar, mas a Natureza surpreendeu a todos com a rápida renovação do ecossistema e da vida marinha. Ao mesmo tempo, o desastre dificultou em muito a vida dessas empresas petrolíferas, que tiveram que passar a lidar com leis muito mais rígidas em seus novos projetos de investimento. Há males que vem para bem...
Nosso novo roteiro até Haines, de onde pegamos o ferry. Agora, vamos passar pela lendária Dawson City!
Mas a previsão de tempo para os próximos dias estava muito ruim e seguir até lá para tomar mais chuva na cabeça nos pareceu mais teimosia do que inteligência. Assim, tratamos de armar um plano B que não fica muito a dever ao plano A, não. Nosso ferry sai de Haines no dia 25 e queremos chegar lá um pouco antes, para poder aproveitar também as belezas da cidade. Ao não irmos para Valdez, ganhamos uns dias extras para conhecer outros lugares e a decisão óbvia era seguir para longe da chuva. Nossa melhor chance era para o norte e para o interior do continente. E não é que, justamente lá, perdido nesse verdadeiro fim de mundo quase polar, está a cidade quase lendária de Dawson, uma vila saída dos tempos do faroeste, criada em apenas 2 anos, na época da corrida do ouro de 1898? Seria um desvio de pouco mais de 500 km na nossa rota original. Mas conheceríamos novas estradas, novas paisagens e, acima de tudo, a cidade mais interessante dessa parte do continente. Enfim, um bom negócio!
Uma colossal e fantástica geleira parece invadir o vale, no caminho entre Anchorage e Tok, no Alaska
Para chegar lá, tínhamos de ir por partes. Dawson fica no Yukon Territory, no Canadá. Está ligado à cidade de Tok, no Alaska, através da famosa rodovia “Top of The World Road”, que fica ao norte da Alaska Highway. Ao norte da Alaska Highway? Pois é, só isso já dá uma ideia de onde estávamos nos metendo. A estrada só funciona na temporada e, descobrimos hoje, que ela vai fechar amanhã, dia 21. Ou seja, acertamos na mosca!
Uma colossal e fantástica geleira parece invadir o vale, no caminho entre Anchorage e Tok, no Alaska
Pois bem, a primeira parte da nossa jornada, depois de passarmos por Anchorage, terminava na pequena Tok. Essa foi a primeira cidade que passamos no Alaska, no nosso caminho para Fairbanks e para o extremo norte. Tínhamos dado uma parada rápida na Oficina de Turismo, onde a simpática atendente nos deu várias dicas valiosas sobre o Estado. Passamos por lá justamente na véspera do escritório fechar, pelo menos até Maio de 2013. Outra vez, na mosca!
Nossa mais bela Aurora Boreal, nos céus de Tok, no Alaska
Bom, dessa vez, já experientes em Alaska, não precisávamos mais da Oficina de Turismo. Mesmo que ela ainda estivesse aberta, não teríamos pressa. Com isso, pudemos curtir bastante a estrada da bifurcação de Valdez até lá. A parte mais impressionante é quando passamos ao lado de uma titânica geleira que parece invadir um vale muito abaixo da estrada. Lugar lindo! Como muitos outros lugares do Alaska, os principais frequentadores são os caçadores. Essa atividade está muito mais entranhada na cultura local do que havíamos imaginado. Aos poucos, vamos nos acostumando com pessoas vestidas em suas roupas camufladas, veículos off-road que carregam equipamentos e as vítimas abatidas e caminhões repletos de carcaças e chifres de alces, elks, caribous e veados. Acho que quem não se acostuma nunca são os pobres cervídeos. Afinal, seu genoma nunca os preparou a se esquivar de balas disparadas a mais de 200 metros de distância por rifles com mira telescópica. Não me parece muito justo, mas... assim é por aqui.
Nossa mais bela Aurora Boreal, nos céus de Tok, no Alaska
Bom, voltando à viagem, chegamos já no escuro a Tok, arrumamos um pequeno hotel e fomos logo checar a previsão. Noite clara, sem lua e boas chances de aurora. Viva!!! Ainda não tinha falado, mas esse foi também um dos grandes motivos para voltarmos a essas bandas. Assim, começamos a checar os céus com os nossos olhos, de tempos em tempos. Um pouco depois da meia noite e, bingo! Lá estavam elas, as norhern lights, a Aurora Boreal, o aviso de que o show cósmico estava para começar!
Um verdadeiro show de luzes e cores na nossa mais linda Aurora Boreal nessa passagem pelo Alaska, em Tok
Não perdemos muito tempo! Entramos na Fiona e nos afastamos das poucas luzes de Tok e chegamos a um ponto onde só estávamos nós quatro: eu, a Ana, a Fiona e o Universo. Tinha as estrelas também, mas nem a lua convidamos!
Um verdadeiro show de luzes e cores na nossa mais linda Aurora Boreal nessa passagem pelo Alaska, em Tok
Bom, até hoje pela tarde, eu achei qu já tinha visto a Aurora. Ledo engano. Aquilo era outra coisa. A verdadeira Aurora, essa conhecemos hoje. Até então, tinha sido sempre muito lindo, especialmente para um habitante dos trópicos, completamente virgem nesse assunto. Mas confesso que as fotos ficavam mais bonitas que a realidade. Com um tempo de exposição mais longo nas fotos, o verde ficava mais forte do que era na realidade. Ficava uma falsa impressão que o céu ficava mesmo com aquelas cores fortes. Na verdade, era sempre mais tênue.
Um verdadeiro show de luzes e cores na nossa mais linda Aurora Boreal nessa passagem pelo Alaska, em Tok
Bom, isso foi até essa noite. Agora, a Natureza resolveu nos mostrar com quantos paus se faz uma canoa. Dessa vez, o que se vê nas fotos não chega a metade do que vimos com os olhos. Um verdadeiro balé de cores e formas, (nada de tênue não!) sobre nossas cabeças. Uma mágica que nos fez chorar de emoção, tamanha era a nossa incredulidade em ver tudo aquilo. Pela primeira vez, vimos outras cores com clareza. Vermelho, roxo, um azul meio esbranquiçado e, claro, muito verde.
Um verdadeiro show cósmico, na Aurora Boreal na noite sem lua em Tok, no Alaska
Ficamos ali extasiados, sem fôlego, sem palavras, diante do espetáculo absolutamente indescritível se desenrolando ao nosso redor. Gente...sabe tudo aqui que sempre falaram da Aurora? Pois é... é muito melhor! Nosso desvio, o tempo ruim no sul, tudo isso já valeu a pena. E ainda temos Dawson pela frente. Com mais promessa de Aurora. Não dá para reclamar...
Rendendo homenagens ao nosso mais belo show cósmico, a Aurora Boreal na noite sem lua em Tok, no Alaska
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