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Totens de pedra milenares de cultura há muito desaparecida, em San Agustín, na Colômbia
Nessa viagem dos 1000dias, por estarmos no nosso próprio carro e completamente livres para poder escolher nossos destinos, quando e onde quisermos, raros são os lugares não interessantes que passamos. Ao contrário, em mais de 500 dias na estrada, dá para contar nos dedos as cidades ou locais que não valeram à pena. A maioria absoluta de lugares e dias que tivemos foram memoráveis, seja pela beleza cênica, cultural, de aventura ou de festa. Mas, mesmo sendo quase todos eles especiais, mesmo num "grupo" assim, alguns lugares ainda chamam mais a atenção do que os outros. São ainda mais especiais. Um desses locais nós conhecemos hoje. A mágica San Agustín, no sul da Colômbia.
Uma das cachoeiras ao lado da estrada entre Popayan e San Agustín, na Colômbia
E, pelo visto, essa não é uma impressão apenas nossa. Já há mais de dois mil anos que uma antiga e misteriosa civilização escolheu a área de San Agustín como o local de descanso dos seus entes queridos. Centenas de tumbas foram feitas ali, sempre adornadas com incríveis tótens de pedra, alguns com mais de 5 metros de altura, outros com poucos centímetros, representando figuras humanas, animais e também uma mistura entre elas, pessoas com manchas de jaguar ou com feições de águia. Essas estátuas começaram a ser redescobertas há pouco mais de um século e, desde então, milhares foram desenterradas e levadas para museus ou, melhor ainda, recolocadas no mesmo local onde foram encontradas. Um verdadeiro paraíso para arqueólogos profissionais e amadores que ficam ali tentando decifrar os mistérios e encantos desse povo desaparecido.
Fiona atravessa ponte sobre desfiladeiro enquanto, embaixo, pessoas descem seus caiaques de rapel para navegar no rio lá embaixo (na estrada entre Popayan e San Agustín, na Colômbia
Para se chegar lá, um dos mais impressionantes pontos turísticos do país, não é muito longe de Popayan, pouco menos de 150 km. Mas boa parte da estrada ainda é de terra, o que torna a viagem muito mais longa. Se meter numa estrada dessa no interior da Colômbia foi o teste final para afastarmos aquela idéia pré-concebida de que seria perigoso viajar por aqui. Que nada! As paisagens são magníficas, existe sempre movimento na estrada e, de tempos em tempos, lá estão postos do exército para nos assegurar que estamos seguros. Cada vez mais, aquela mensagem da propaganda institucional do país faz sentido para nós: "Viaje na Colômbia! O único perigo é não querer mais ir embora!"
Toten de pedra em San Agustín, na Colômbia
Bom, viajamos seguros por esta estrada, passamos por cachoeiras e atravessamos canyons, negociamos com caminhões e tratores (trechos do caminho estão sendo pavimentados) nossa passagem, saudamos e fomos saudados por jovens soldados, vencemos ladeiras e trechos enlameados e enfim, chegamos à San Agustín.
Tumbas com mais de 1000 anos em San Agustín, na Colômbia
Aí, aproveitando as últimas horas do dia, fomos diretamente ao Parque Arqueológico, local onde se encontram boa parte dos mais incríveis achados arqueológicos da região. Com pouco tempo, saltamos o museu e seguimos diretamente para as trilhas que nos levam às tumbas e, principalmente, às impressionantes estátuas de pedra, todos ainda no seu local de origem, em meio a uma belíssima paisagem. Aliás, essa é a descrição do local na wikipedia: "envolvido por uma paisagem selvagem e espetacular, está de pé o maior grupo de monumentos religiosos e esculturas megalíticas da América do Sul. Deuses e animais míticos são habilmente representados em estilos que variam da abstração ao realismo"
Totens de pedra milenares de cultura há muito desaparecida, em San Agustín, na Colômbia
Passear por entre essas esculturas é incrível. Em vários pontos, parecia que eu estava no meio de uma aventura de "Tintin e o Ídolo Roubado" (me entende quem teve a sorte de ler Tinitin na infância!). Imaginar esses lugares há mil anos repletos de pessoas, artífices e caciques é um delicioso exercício para a mente.
No ponto mais alto do incrível Parque Arqueológico de San Agustín, na Colômbia
O passeio teve dois pontos altos. O primeiro, foi alto mesmo! Chegamos ao ponto mais elevado do parque, de onde se tem uma vista incrível de toda a região, muito verde, muita mata, dezenas de colinas ao nosso redor. Tinha bom gosto esse povo! Aí, mesmo para um darwinista convicto como eu, sente-se uma estranha energia no lugar, algo que nos faz querer admirar e respeitar aquilo que vemos e também o que não vemos, apenas sentimos. Também aí há tótens de pedra, fitando impassivamente o horizonte com uma paciência milenar. Parecem desprezar os visitantes que aí chegam, pois sabem que eles passarão rapidamente. São o horizonte a a paisagem que miram os seus verdadeiros companheiros.
Visitando o interessantíssimo Parque Arqueológico de San Agustín, na Colômbia
O outro ponto alto foi a última trilha que fizemos, pelo bosque das esculturas. Com o parque já fechando, naquela meia luz típica do dia que termina e da noite que começa, éramos os únicos que estávamos ali. Pelo menos, os únicos vivos, hehehe. Nesse bosque, ao longo de uma trilha circular, foram colocadas esculturas que haviam sido retiradas de seus lugares de origem e levados para casas de particulares, praças de cidades ou a mercados internacionais. Recuperadas, ajudaram a compor esse bosque que hoje ficou meio mágico. Conforme eu e a Ana caminhávamos e a noite ía caindo, parecia que éramos observados. A gente ouvia barulhos, sentia presenças estranhas e, ao mesmo tempo, víamos aquelas estátuas que, durante tanto tempo adoradas por milhares de pessoas de um povo há muito desaparecido, pareciam nos olhar também!. Eu estava adorando isso, querendo aproveitar cada minuto por ali. Mas a Ana, com suas convicções, achou que era hora de sairmos. Nunca mais vou esquecer a sensação! Foi muito jóia!
Escultura com formas de águia, no Parque Arqueológico de San Agustín, na Colômbia
Já no escuro, era hora de voltarmos à cidade e encontramos um hotel para dormir. Mas, primeiro, o mais importante, o estômago. Fomos a um restaurante que nos foi indicado, comemos e, ao sair em direção ao carro, fomos abordados por um grupo de três pessoas, interessadas no que liam e viam na Fiona. Eram o Carlos, a Marcela e o Jaime. Todos colombianos, o Carlos é biólogo aposentado morando nos EUA e em visita à sua sobrinha querida, a Marcela, professora de artes casada com o historiador Jaime, moradores de Bogotá. Ficaram super interessados na nossa viagem e nos deram verdadeiras aulas sobre a história e a vida na Colômbia. Mas, mais do que isso, foi o nosso primeiro contato com a simpatia e a hospitalidade colombiana, algo que envolve rapidamente quem viaja por esse país.
Visitando o Parque Arqueológico de San Agustín, na Colômbia
O nosso papo durou horas, sempre regado com boa cerveja e já era meia noite quando resolvemos ir dormir, ainda sem hotel. Resolvemos isso indo para o hotel deles, justo em frente ao restaurante. Amanhã tem mais San Agustín: vamos fazer um passeio à cavalo pela região, visitar mais totens de pedra espalhados por fazendas na área. Depois, ainda queremos chegar até Cali. E lá em Bogotá, já temos amigos para visitar!
Com os novos amigos colombianos em San Agustín, na Colômbia
Foto de 1898 mostra crianças Selknam em missão salesiana. Elas não viveriam muito...(foto da Internet)
O primeiro lugar que fomos passear aqui em Ushuaia foi no Parque Nacional Tierra del Fuego. E dentro do parque, logo estivemos em um pequeno museu com fotos, utensílios e relatos sobre as antigas culturas que viveram nesta ilha. Mais uma vez, é chocante acompanhar a trágica história do encontro de civilizações, algo que vimos tantas vezes de perto nessa nossa viagem pela América. Vou falar do nosso dia intenso de explorações aqui em Ushuaia no próximo post, pois agora quero contar um pouco dessa triste história que aprendemos aqui no museu e em livros ou artigos que temos lido na internet.
Era uma vez uma terra muito distante que, lá no sul do sul do continente, voltava a ser uma ilha com o fim de mais uma era glacial. Ela já estava acostumada com esse ciclo, pois eras glaciais e suas geleiras vinham e voltavam a cada 20 mil anos. Mas uma coisa estava diferente dessa vez. E não eram os guanacos que se locupletavam em suas vastas planícies com relva fresquinha com força renovada com o gelo que retrocedia. Eles também vinham e voltavam, sempre atrás do que o gelo deixava para trás. Não, o estranho era o que vinha atrás dos guanacos dessa vez. Um ser bípede que andava em grupos e caçava os guanacos. Era o homem que pisava pela primeira vez na Terra do Fogo.
Índios Selknam, antigos habitantes da Terra do Fogo, massacrados no final do séc. XIX (fotografia em museu no P.N da Tierra del Fuego, perto de Ushuaia, sul da Argentina)
Quase dez mil anos se passaram e esse já não tão novo ocupante das ilhas do arquipélago havia se separado em alguns grupos, algumas etnias distintas, cada um com uma especialidade diferente, um modo distinto de viver e sobreviver. Entre eles, se destacavam dois grupos: os Selknam, também conhecidos como “Onas”, viviam no centro e no norte da maior ilha do arquipélago. Nômades, viviam da caça do guanaco e completavam sua alimentação com animais menores, frutos do mar que encontrassem na praia e mesmo com baleias encalhadas. Já no sul e espalhados pelas pequenas ilhas, os Yaghan, ou “Yamanas”, um povo que havia se especializado em viver do mar. Passavam boa parte de suas vidas em canoas, transitando de uma ilha à outra, os homens pescando e as mulheres mergulhando e recolhendo conchas no leito do mar. Dois povos que viviam geralmente em paz, eventualmente comerciavam entre si e que estavam muito felizes em permanecer na chamada “era paleolítica”.
Painel informativo sobre os antigos habitantes de Terra do Fogo, em museu no P.N da Tierra del Fuego, em Ushuaia, no sul da Argentina
No norte, os Selknam eram uma sociedade patriarcal, homens controlando as mulheres. Mas não deve ter sido assim, como o seu principal rito nos parece indicar. Durante o “Hain”, quando garotos e adolescentes simbolicamente transformavam-se em homens, um festival que poderia durar semanas, técnicas de caça lhes eram ensinadas. Mas não só isso. No auge do festival, espíritos apareciam em carne e osso. Eram homens adultos disfarçados com máscaras e pinturas. Assustavam os jovens, mas também lhes contavam um segredo: no início dos tempos, a sociedade era matriarcal e as mulheres mandavam. Enganavam os homens vestindo-se de espíritos, metendo-lhes medo e os fazendo prometer obediência às mulheres. Mas um dia, um guerreiro descobriu a trapaça. Ele contou aos outros homens e, furiosos com o engodo, mataram todas as mulheres adultas e adolescentes da tribo, aquelas que já conheciam a trama. E passaram a encenar o ritual na forma inversa, as meninas desde cedo aprendendo que os espíritos (homens disfarçados) ordenavam sua obediência aos homens. E desde então, durante o Hain, os espíritos visitavam as mulheres de quem os maridos reclamavam falta de obediência e as puniam e amedrontavam. Talvez por isso, quando os nômades Selknam se movimentavam pela ilha, eram as mulheres que carregavam o peso maior, roupas, utensílios e os pequenos filhos nas costas. Os homens seguiam à frente, leves, carregando apenas suas armas (arco e flechas), sempre prontos e ágeis para caçar guanacos. Além da carne, eram esses animais que lhe forneciam roupas e o couro para suas tendas rudimentares.
Mulheres Yaghan fotografadas no início do séc. XX, na Terra do Fogo (foto da Internet)
No sul, onde o clima ainda era mais rigoroso que no norte, o Canal de Beagle apertado entre ilhas e altas montanhas, os Yaghan se desenvolveram de maneira ainda mais peculiar. A sociedade era mais igualitária, as mulheres também responsáveis pela obtenção de alimentos. Eram elas que enfrentavam uma água a menos de 10 graus de temperatura em seus mergulhos para chegar ao leito do mar e recolher conchas. Sem a pele dos guanacos, acostumaram a enfrentar o frio desnudos, homens e mulheres. De alguma maneira, o corpo se adaptou. O metabolismo ficou mais ativo, gerando mais calor, mas necessitando de mais alimentos. Braços e pernas ficaram menores e o tronco maior, diminuindo a superfície do corpo para diminuir a perda de calor. Caminhavam pouco, mas remavam muito, as canoas eram quase suas casas. E faziam sempre fogueiras, onde quer que estivessem. Mesmo em suas canoas, sempre havia fogo a esquentar quem estivesse no barco. Foram exatamente essas fogueiras, centenas delas, que chamaram a atenção do navegador português Fernão de Magalhães quando descobriu a passagem de mar que leva o seu nome em 1520. O arquipélago em que viviam os Yaghan e os Selknam ganhava um nome: Terra do Fogo. Aquilo também era o prenúncio de que algo mudaria depois de 300 gerações de vida relativamente tranquila para essas duas culturas.
Desenhos feitos de Jemmy Button pelo capitão do Beagle, FitzRoy. Ele levou Button e outros 3 Yaghan para Londres ao final de sua primeira viagem e os trouxe de volta, um ano mais tarde, na mesma viagem em que veio o jovem Darwin
Para sorte dos nativos da Terra do Fogo, os europeus não se interessaram de imediato por aquele arquipélago perdido. Enquanto incas e astecas, tupis e guaranis, apaches e comanches passavam pela tragédia do choque de civilizações, Yaghans e Selknams seguiram com seus costumes e modo de vida por mais 3 séculos. Eventualmente, tiveram algum rápido contato com alguns dos maiores exploradores e navegadores de todos os tempos. Além do próprio Magalhães, passou por ali gente do calibre de Drake, Cook e Wendell. Mas eram encontros tão rápidos que nada mudaria na vida dos nativos. Até que, em 1830, apareceu por ali outra personagem famosa: o inglês FitzRoy e seu barco de pesquisas Beagle.
Representação de indígenas Yaghan, que habitavam as ilhas do sul do continente e eram conhecidos por suas canoas (museu no P. N. Tierra del Fuego, região de Ushuaia, no sul da Argentina)
Sua expedição era científica e cobria desde geografia e geologia até antropologia. Talvez por isso o famoso capitão tenha tido a “brilhante” ideia de capturar quatros Yaghans, aqueles estranhos seres desnudos e que não sentiam frio, e levá-los para a Inglaterra. Um deles morreu de varíola assim que chegou a Londres, mas os outros três sobreviveram e tiveram seus dias de glória na capital inglesa. Foram até recebidos pelo rei e estavam sempre na primeira página dos jornais. Durante esse ano, foram cristianizados, “civilizados”, vestidos e aprenderam a falar inglês. O mais famoso deles ganhou o nome de Jemmy Button. Fitz Roy se sentia responsável por eles e os tratou da melhor maneira possível. Um ano mais tarde, em uma segunda expedição do Beagle liderada por ele, pagou do seu próprio bolso o retorno dos nativos à sua terra natal. Junto com os três, um missionário. A ideia era estabelecer contato e, eventualmente, cristianizar e civilizar todos aqueles “pobres selvagens”.
Fotografia do final do séc. XIX mostra um bando de índios Selknam, os antigos habitantes da Terra do Fogo (em museu no P.N. Tierra del Fuego, região de Ushuaia, sul da Argentina)
O bem intencionado plano não deu certo. Poucos meses depois do seu retorno, os três nativos já haviam jogado fora suas roupas e voltado a viver como vivia seu povo. Jemmy Button foi o único a ser contatado novamente em algumas oportunidades. Até sua morte, trinta anos mais tarde, nunca esqueceu o inglês. Chegou até a viajar às Ilhas Falkland, para onde ingleses haviam “exportado” Yaghans para criar uma comunidade por lá, mas preferiu mesmo viver na sua Terra do Fogo, da mesma maneira incivilizada de seus pais e avós. Aliás, a mesma maneira que tanto surpreendeu o jovem cientista Charles Darwin, que acompanhou Fitz Roy na sua segunda viagem no Beagle. O promissor cientista que mudaria a história da ciência com sua Teoria da Evolução ficou muito mal impressionado com os Yaghans, dedicando a eles diversos comentários que hoje seriam certamente classificados de racistas. É claro que não podemos julgá-lo com nossos valores atuais e sim compreendê-lo no contexto do mundo em que vivia. Em suas anotações, Darwin descreveu os Yaghans como "criaturas pequenas, rudes, figuras de pernas torcidas, com tronco quase reto e sem cintura". Constatando as diferenças físicas entre índios e europeus, mais tarde o naturalista concluiria que ambos pertencem à mesma espécie, mas que evoluíram de formas distintas. Também disse o cientista: “Os Yaghans se encontram em um estado miserável de barbárie, maior do que eu havia esperado ver em um ser humano”, e complementou: “É impossível imaginar a diferença que há entre o homem selvagem e o homem civilizado; é muito maior do que a que há entre um animal silvestre e outro domesticado porque o homem é suscetível a um aperfeiçoamento muito maior”.
Foto de 1969 mostra a antropóloga francesa Anne Chapman e a última Selknam pura, Angela Loij, que já cresceu em uma missão salesiana. Ela faleceu em 1974 e, com ela, morreu uma raça (foto da Internet)
A visão de Darwin refletia a visão do mundo europeu com relação àquelas tribos paleolíticas e isso demoraria mais de um século para mudar. Em 1881, uma expedição antropológica francesa levou 11 membros da etnia Kawéskar, um outro povo da região, para serem expostos no Bois de Boulogne, em Paris, e no Jardim Zoológico de Berlin. Apenas quatro deles sobreviveram e retornaram ao sul do Chile. Na Europa, teriam sido bem tratados, mas bem tratados como animais ou, na melhor das hipóteses, como uma curiosa mistura de homens e animais. Infelizmente, essa viagem e exposição eram apenas o prenúncio de uma tragédia muito maior...
Na mesma época em que os Kawéskar eram levados à Europa, a civilização ocidental finalmente se deu conta da Terra do Fogo. Milhares de imigrantes foram atraídos para lá, seja pela descoberta de ouro, seja pela nascente e promissora indústria da produção de lã. Ali se depararam com a etnia Selknam, que até então havia sido poupada dos encontros com europeus. Esses nativos devem ter estranhado o aparecimento daqueles pequenos animais peludos nas suas terras, mas logo aprenderam que sua carne era apetitosa. Além disso, eram muito mais fáceis se serem caçadas do que os velozes e ariscos guanacos. Com quase dez mil anos de história de caça em uma terra sem fronteiras ou cercas, era difícil entender para eles o conceito de propriedade ou que as ovelhas não pudessem ser caçadas. Isso, obviamente, muito irritou os novos capitalistas que se apoderavam daquelas vastas planícies e sonhavam com seus lucros de exportação.
O romeno-argentino Popper lidera uma expedição de caça aos índios Selkham, na Terra do Fogo, no final do séc. XIX. Na parte de baixo, na foto, um índio já morto a tiros (foto da Internet)
O conflito desigual não demorou a ocorrer. De caçadores, os índios passaram a caças. Literalmente! Armados com carabinas e numa terra plana e com vegetação baixa, os capatazes de estâncias e matadores de aluguel não tinham dificuldade em localizá-los e matá-los. A morte de um índio homem valia uma libra esterlina. A morte de uma mulher valia mais, 1,50 libras. Pelo simples fato de que, ao matá-la, evitava-se também o nascimento de novos índios. Nem crianças eram poupadas, muito pelo contrário. Muito mais fácil matá-las enquanto jovens do que quando virassem adultas. Vários matadores se destacaram, mas nenhum como Julius Popper, um argentino de origem romena. Talvez pelo fato de que ele documentava com fotografias vários de suas “caçadas”. E os assassinos não usavam apenas balas para eliminar os Selknam. Chegaram a envenenar uma baleia encalhada para, com isso e de uma só vez, matar todo um bando, mais de três dezenas de índios de uma só vez.
O romeno-argentino Popper lidera uma expedição de caça aos índios Selkham, na Terra do Fogo, no final do séc. XIX Ao seu lado, uma índia já morta (foto da Internet)
O resultado previsível desse embate foi um massacre. Em quinze anos, a população de Selknams caiu por 10, de 5 mil índios em 1885 para 500 deles no final do século. Foi quando o restante foi capturado e internado em missões salesianas que, ao menos, tentavam salvá-los. Não apena suas almas, mas também a própria etnia. Mas a mudança tão drástica no estilo de vida, de nômades livres para um terreno fechado, da vida quase desnuda para as roupas apertadas, da comida de caça para uma alimentação estranha, de um mundo sem doenças para micróbios importados, tudo isso se mostrou fatal. As missões simplesmente fecharam suas portas três décadas mais tarde pela absoluta falta de índios. Haviam todos morrido.
Lola Kiepja, a última Selknam que viveu como seus antepassados. Ela faleceu em 1966 (foto da Internet)
Na metade do século XX a população Selknam havia se reduzido a 50 pessoas. Os últimos, quatro deles mestiços e uma última representante pura, Angela Loij, morreram na década de 70. Angela já havia crescido em uma das missões e, apesar de falar também a língua original, pouco sabia da cultura de seu povo. Ela conviveu seus últimos anos com a antropóloga francesa Anne Chapman, talvez a maior estudiosa dessa cultura agora desaparecida. Chapman havia aprendido muito com uma outra Selknam, Lola Kiepja, falecida na década anterior. Lola tinha mais de 90 anos de idade e, ela sim, cresceu livre e junto com a família nos primeiros anos da batalha entre brancos e indígenas. Ainda tinha a cultura, os costumes e a língua fortes na memória, correndo em seu sangue. É emocionante ouvi-la (Anne Chapman grava suas conversas) recitar versos que foram cantados por 300 gerações de indígenas e que se destruiu em meros 15 anos de barbárie. Enfim, a não ser por fotos, relatos e gravações, os Selkmans se foram.
Quanto aos valentes e “primitivos” Yaghans, seu destino também foi parecido. Relativamente poupados da sanha assassina do final do séc. XIX, eles também foram reunidos em missões salesianas. Quando as missões acabaram, o governo chileno os levou para a Ilha Navarino, ao sul do canal de Beagle, onde está o povoado mais austral do mundo, Puerto Williams. Aí, hoje, há cerca de 1.400 eles, praticamente todos mestiços. Seu antigo modo de vida, aquele das canoas, foi há muito abandonado. Vivem de fazer artesanato para turistas e da ajuda governamental. Apenas duas índias Yaghans puras sobreviviam na virada do milênio, mas uma delas morreu. Resta, então, a solitária Cristina Calderón, uma espécie de curiosidade histórica, testemunha única do encontro trágico de uma civilização infinitamente mais bárbara e selvagem do que aquela outra que tentava “civilizar”. Difícil imaginar uma situação ou história mais triste do que essa...
Cristina Calderón, a última Yaghan capaz de falar a língua Yamana. Com quase 90 anos, ela vive em Puerto Williams, no Chile (foto da Internet)
Praia do Arpoador, já no fim do nosso passeio pelas praias da Juréia - SP
Por coincidência, chegamos na Juréia Norte, região de Peruíbe, bem no Dia da Mata Atlântica. Eu já tinha estado aqui duas vezes. Na primeira, com a família, choveu o feriado inteiro. Ficamos todos presos no Waldhaus, uma pousada muito bem localizada na encosta de um morro, com uma bela vista para a praia de Guaraú, afastada de Peruíbe e vizinha da Juréia. A segunda vez foi com a Ana e com um casal parceiro de viagens, o Rafa e a Laura. O tempo esteve bom e deu para passear no parque de carro, além de fazer um passeio de canoa pelo mangue.
Praia Juquiá, na Juréia - SP
Desta vez, tínhamos objetivos bem claros: conhecer as praias que só podem ser acessadas com um guia e ir de canoa até uma cachoeira da região, sete quilômetros de remadas para ir e outras sete para voltar. Esse programa é mais legal fora de temporada senão corremos o risco de chegar na cachoeira e encontrar uma escuna com cinquenta pessoas à bordo farofando por lá. Lá da Barra do Ribeira liguei para o Remo, dono da Waldhaus e da agência de canoagem para marcar os passeios. Infelizmente, ele não poderia ir com a gente, mas prontificou-se a tentar achar um guia que nos acompanhasse.
, com nosso guia, o Amilton
Dito e feito! Chegamos aqui às dez da manhã e já estava tudo acertado com o Amilton, um caiçara local que cursou Biologia. Assim, ele tem todos os conhecimentos práticos e teoricos da rica biodiversidade local. O passeio de hoje foi pelas praias do parque. Primeiro, remamos cerca de dois quilômetros através de um canal do mangue até cruzarmos o rio Guaraú. Do lado de lá começa oficialmente a Juréia e a necessidade de estar acompanhado de um guia/monitor. Depois foram alguns quilômetros caminhando pelas praias e por trilhas no meio da mata, cruzando alguns morros para se chegar na praia seguinte. Praias lindas, com um quê de litoral norte, com as montanhas e a vegetação chegando bem perto do mar. A diferença é que as ondas não são de tombo, são aquelas que quebram lá longe, bem devagar. Sonho de surfistas, especialmente uma que se chama Parnapoá.
Figueira na Mata Atlântica, Juréia - SP
Durante a remada e depois, na trilha, o Amilton foi dando uma verdadeira aula para gente, sobre a fauna e flora locais. Foi ele que nos informou que hoje era o dia da Mata Atlântica, o que fez o passeio mais especial ainda. De bônus, ele tem vários parentes que moram dentro do parque, gente que nos acolheu muito bem em suas casas e com os quais tivemos aquele tradicional "dedinho de prosa" que não tem preço. Muitas histórias, inclusive de onças, antas e afins.
Casa de moradores locais, dentro do parque, na Juréia - SP
No final, tivemos um merecido banho de mar na praia do Arpoador e, alguns minutos depois, um refrescante banho de cachoeira, a um minuto de distância da areia. Muito luxo!
Piscina natural em pequeno rio na praia do Arpoador, na Juréia - SP
A remada de volta para casa já foi feita com o céu escurecendo e a lua cheia nascendo. Um final perfeito para um dia especial. Viva a Mata Atlêntica! E amanhã, temos 14 quilômetros de remadas...
A lua apareceu durante o trecho de canoa pelo mangue - Juréia/SP
Propriamente vestidos para fazer caiaque nos mares gelados do sul, no trecho entre Buenos Aires e as Ilhas Malvinas
Essa longa viagem de barco por 2 mil km de mar aberto entre Buenos Aires e as Ilhas Malvinas tem sido muito interessante, mas obviamente não é por isso que estamos todos aqui. Nós viemos porque queremos conhecer terra firme. Uma terra firme isolada e perdida do mundo, ainda imaculada pela civilização, por viajantes e turistas. Lugares que ainda se assemelham a maneira como eram há 10 mil anos, território da natureza e da vida selvagem.
Recebendo instruções sobre embarques e desembarques usando os botes infláveis, um dia antes de chegarmos às Ilhas Malvinas
Pois bem, esse momento está chegando. Amanhã chegamos às Ilhas Malvinas. Depois, mais uns dias de navegação e chegamos à Geórgia do Sul. Por fim, a cereja do bolo, a Península Antártica. Nesses dias de desembarque, a nossa rotina muda, pelo menos em relação ao que estamos acostumados até agora, aqui dentro do Sea Spirit. E hoje foi o dia de começarmos a nos preparar para o que vem pela frente, pelo tão esperado desembarque.
A Val, guia da equipe de caiaques do Sea Spirit, no trecho entre Buenos Aires e as Ilhas Malvinas
Assim, além das palestras sobre animais que estamos e vamos ver e do tempo de observação nos decks externos do Sea Spirit (hoje foi o mais espetacular dia de observação até agora!), também tivemos nosso tempo de instrução sobre os procedimentos de embarque e desembarque e sobre como devemos nos comportar em terra, principalmente quando estivermos próximos da vida animal.
Aprendendo a usar as roupas e equipamentos do caiaque, no trecho entre Buenos Aires e as Ilhas Malvinas
Em primeiro lugar, o procedimento de “seguridade biológica”. Isso é levado muito a sério por todas as empresas que trazem turistas para essa região do globo. A ideia é tentar evitar ao máximo que levemos agentes biológicos “alienígenas” para essas ilhas isoladas. Todas as nossas roupas e equipamentos devem ser minuciosamente limpos antes de desembarcarmos nas Malvinas, para não dar carona até lá para algum inseto, semente, fungo ou qualquer matéria orgânica que não seja nativa de lá. Coisas vivas trazidas da Europa e América não são benvindas por aqui, pois podem causar, eventualmente, um desequilíbrio ecológico prejudicial às plantas e animais autóctones. Cuidado especial com velcros, onde essas coisas costumam se “esconder”. Os calçados de desembarque serão sempre as botas de borracha que ganhamos no primeiro dia de viagem. Antes de entrar nos zodiacs, e também na volta, antes de entrarmos no navio, pisamos com elas em um líquido que extermina 98% das bactérias. Esse procedimento de bioseguridade será repetido sempre que mudarmos de ilhas, antes das Malvinas, antes da Geórgia do Sul e antes da Antártida, pois também não deve haver trânsito de matéria orgânica entre esses três ambientes supostamente isolados entre si.
Propriamente vestido para fazer caiaque nos mares gelados do sul, no trecho entre Buenos Aires e as Ilhas Malvinas
Explicado e muito bem entendido isso, passamos aos zodiacs, os barcos infláveis que fazem o nosso transporte entre o navio e terra firme. Todo o cuidado para embarcar e desembarcar dele, já que o mar está sempre em movimento. Todo mundo de coletes e bem agasalhados, sempre atentos aos comandos do guia que estiver no comando do barco. Para embarcar, uma equipe de funcionários nos ajuda, dizendo onde sentar e oferecendo os braços como apoio. Ali, eles são os chefes e nós obedecemos. Simples assim, Cada zodiac leva até dez passageiros, tudo organizado pelos nossos guias e as pessoas vão entrando por ordem de chegada.
O Colin instrui a Ana sobre como usar o caiaque, ainda no convés do Sea Spirit no trecho entre Buenos Aires e as Ilhas Malvinas
Pronto, na teoria, já sabíamos de tudo. Faltava ver na prática. Todo mundo preparado para amanhã? Não, um pequeno e afortunado grupo de 10 pessoas precisava de mais instruções. O grupo do caiaque, eu e a Ana incluídos. Desde que começamos a planejar nossa viagem à Antártida, já imaginávamos atividades com um pouco mais de “adrenalina” no continente branco, como se diz por aí. Queríamos algo que nos aproximasse ainda mais da natureza, dos elementos e da vida selvagem. Montanhas, mergulho, acampamento e caiaques. Infelizmente, essas atividades requerem uma infraestrutura que ainda é bem pouco oferecida aos viajantes mais intrépidos e, quando o são, tem um custo meio salgado. De qualquer maneira, nessa expedição que resolvemos vir, apenas a atividade de caiaques era oferecida. Acampar em solo antártico ou subir alguma das maiores montanhas do continente, são sonhos que ficaram para depois. Alpinismo tem de ser feito em uma expedição especialmente planejada para isso e é bem caro. Acampamento, isso já é mais comum, ofertado por várias expedições. Mergulho, não encontramos nenhuma operação comercial para isso. Nosso sonho em chegar perto de da temida foca leopardo abaixo d’água ainda continua sendo isso, um sonho. Sobrou então a opção do caiaque.
Vestida e com o caiaque montado! (no trecho entre Buenos Aires e as Ilhas Malvinas)
Então, era isso mesmo que queríamos fazer. Mas as vagas eram limitadíssimas para essa atividade. Por isso, não tivemos muito tempo para negociar o preço da expedição. Se quiséssemos o caiaque, tínhamos de fechar logo o pacote. Foi o que aconteceu. Pouco depois, o preço para viajar caiu bastante. Mas as vagas para o caiaque, já tinham mesmo terminado. Quem se deu bem com o preço da cabine teve de se contentar em nos acompanhar de longe, sonhando em como seria se eles mesmos pudessem estar lá. Olhando por esse lado, o preço do caiaque saiu ainda mais caro do que ele realmente custou, quase 1000 dólares por pessoa. Mas nos deu a chance de ter uma experiência que não se pode mensurar em valor monetário...
A afortunada equipe que vai praticar caiaque durante a expedição. (no trecho entre Buenos Aires e as Ilhas Malvinas)
Enfim, os dez afortunados do caiaque receberam roupas especiais para esse tipo de atividade em águas geladas. Macacões impermeáveis, coletes salva-vidas específicos, calçados muito mais fashion que as botas regulares e uma espécie de “saia”, que prendemos a boca do caiaque para deixá-lo fechado. Nada de água gelada entrar lá dentro! Todos testamos nossas roupas e depois fomos aos caiaques, ainda no convés do Sea Spirit, para aprender como nos enfiar nele e vedá-lo contra a água e para ajustar o tamanho dos pedais de direção para cada tamanho de perna. Inicialmente, vamos quase todos os quatro casais em caiaques duplos, enquanto duas amigas canadenses ficam em caiaques simples.
A esperada programação para nosso primeiro dia com desembarques. Se tudo der certo, vamos parar em duas pequenas ilhas no noroeste de Falkland
A nossa guia é a energética Val e será sempre ela a nos acompanhar. Remamos sempre em grupo enquanto um zodiac nos acompanha de longe, tanto para nos trazer para casa novamente como para ajudar a socorrer alguém que eventualmente caia na água gelada. Nossa roupa deve nos proteger contra o frio por algum tempo, mas ninguém quer ou deve ficar muito tempo dentro d’água. É a Val que vai decidir, a cada manhã, se o mar está seguro ou não para remarmos. Devemos sempre estar preparados para isso: ir ou não ir. A segunda opção significa que vamos da maneira convencional, junto com o resto dos outros passageiros. A ideia é sempre tentar fazer as duas coisas: o caiaque e o passeio. Por isso, seremos sempre os primeiros a partir e os últimos a voltar. E assim, já conhecedores do nosso equipamento, tiramos nossas fotos e deixamos tudo arrumadinho para usá-los na primeira oportunidade que surja.
Um brinde ao belíssimo fim de tarde no Sea Spirit um dia antes de chegarmos às Ilhas Malvinas
Encontro com outro navio na noite anterior à nossa chegada às Ilhas Malvinas
Então, finalmente, a hora está chegando! Bem no final da tarde, as telas do Sea Spirit começaram a mostrar a programação prevista para o dia seguinte. Ali estava: dois pontos de desembarque em Falkland, as Ilhas Malvinas dos argentinos. Era o sonho antigo se materializando em realidade na frente dos nossos olhos. Tinha de ser comemorado! Pegamos uma taça de vinho e fomos ao convés ver as últimas luzes do dia 6, fotografar e celebrar o grande momento. Foi especial!
Encontro com outro navio na noite anterior à nossa chegada às Ilhas Malvinas
Marinheiros do Sea Spirit levam uma peça a outro navio na noite anterior à nossa chegada às Ilhas Malvinas
Mas o dia não acabou por aí não. Como um prenúncio das inúmeras atividades que nos esperam, depois de 3 dias de rotina no navio, eis que algo foi diferente. Já bem de noite, luzes apareceram no horizonte. Não, ainda não era Port Stanley! Era um outro navio, o primeiro que vimos desde que deixamos o Rio da Prata para trás. E não os encontrávamos por coincidência, não. Ele vinha se comunicando por rádio com o Sea Spirit já fazia tempo. Precisava de ajuda, uma peça importante que havia quebrado. Peça que tínhamos de reserva. Então, exemplo de solidariedade marinha, desviamos um pouco nosso curso para ajudá-los. Emparelhamos, a peça foi embarcada num zodiac e levado até lá, numa operação de pouco mais de uma hora. Não foi presenciada por muita gente, já que a maioria já dormia. Mas não a Ana e a turma dos que costumam esticar a noite com alguns drinques e conversas. Estavam lá para presenciar e fotografar. É, a nossa rotina começa mesmo a mudar a partir de agora...
O Sail, Brian, Jose (nosso barman!), Kim e o Doug (atrás) na noite anterior à nossa chegada às Ilhas Malvinas
Parque do Peruaçu, próximo à Januária - MG
Ontem de noite, aqui no hotel, telefonamos para um guia da região que tinha um folder seu na recepção. O nome dele é Rosivaldo. Queríamos saber com ele sobre a possibilidade de entrar no parque e, se isso não fosse possível, quais os programas alternativos. Se eles não fossem muito interessantes, nossa idéia era partir logo para a região de Diamantina.
A conversa foi ótima. Em primeiro lugar, ele nos mostrou que, mesmo não entrando no parque, valeria a pena passar um dia por aqui. Sobre o parque, confirmou que ele está fechado para a visitação e que exceções não são muito comuns. Mas, ao saber do nosso projeto, achou que deveríamos tentar falar com o diretor do parque por aqui, para apresentar o projeto e pedir uma licença especial para entrar no parque.
E foi isso o que fizemos. A Ana fez um resumo da apresentação que já tínhamos pronta e logo cedo encontramos o Rosivaldo aqui no hotel e seguimos os cerca de 40 km de estrada até o distrito de Fabião, onde se encontra a sede do Parque Nacional Cavernas do Peruaçu. Tivemos a sorte de encontrar o Evandro, diretor do parque, que acabara de chegar de viagem e já partiria novamente no dia seguinte. Ele nos recebeu muito bem e gostou muito do nosso projeto. Após uma pequena explanação sobre a natureza do parque e suas características, ele liberou nossa visita às atrações principais do parque para amanhã e sugeriu um percurso para fazermos hoje, através do parque e da região em torno dele.
Para mim, foi perfeito! Há cerca de 15 anos atrás eu tinha estado aqui mas só conseguira autorização para visitar uma parte do parque. O principal cartão postal do Peruaçu eu não tinha conseguido ver. Finalmente, depois de tanto tempo, vou conhecer a famosa caverna do Janelão!
Melhor ainda, pudemos ver na prática que o nosso projeto de viagem realmente está bem montado e é bem interessante. Nada como ter uma esposa publicitária. Quem sabe agora ela se anima a procurar patrocinadores?
Entrando na Colômbia, na cidade de Ipiales
Nosso plano hoje era sair cedinho para a Colômbia e já chegar na cidade de Popayan ou, pelo menos, Pasto, já a quase 100 km da fronteira. Mas, ficamos só nas boas intenções... Na verdade, até que acordamos cedinho, mas toda a nossa manhã foi gasta na procura do nosso celular.
Paisagem equatoriana chegando perto da fronteira com a Colômbia
Voltamos até Mitad del Mundo, para ver se não tínhamos deixado lá. De nada adiantou o pente fino no carro, no hotel ou na metade do mundo. Foi-se. Evaporou-se. Escafudeu-se. E, dessa vez, nem podemos colocar a culpa no Lampião, como fizemos na fronteira entre Alagoas e Sergipe, quando perdemos o outro celular. Uma pena, pois a Ana já estava ficando craque nele. Bom, pelo menos vamos economizar na conta telefônica... Quanto às nossas cabeças, felizmente estão muito bem presas aos nossos pescoço!
Viagem entre o Equador e Colômbia
Enfrentamos então nossas últimas horas de bonitas e complicadas estradas equatorianas. Muitos caminhões, muitas curvas. Chegando mais perto da fronteira, o trânsito diminuiu e o ritmo melhorou. Enchemos o tanque do carro uma última vez para aproveitar o preço (cinquenta centavos por litro!) e nos despedimos do país.
Vista do belo vulcão Cayambe, na viagem entre o Equador e Colômbia
Cruzar a fronteira foi, mais uma vez, relativamente tranquilo. Não estão muito acostumados com carros brasileiros por aqui e chamamos bastante a atenção. Agora, já estamos os três regularizados na Colômbia, eu, a Ana e a Fiona. Mas, para ela, vamos ter de comprar um seguro daqui a 10 dias, já que o nosso brasileiro está chegando ao final do prazo.
Chegando à fronteira entre Equador e Colômbia
Já com o dia terminando, dormimos mesmo na tranquila Ipiales, quase ao lado da fronteira. Amanhã, numa viagem que promete ser muito bonita, vamos até Popayan, por uma estrada que já foi considerada muito perigosa por causa da ação da guerrilha mas que hoje é bem tranquila, dizem os colombianos. A conferir...
Chegando à fronteira entre Equador e Colômbia
Admirando a fantástica paisagem do Acadia National Park, no Maine - Estados Unidos
Início de verão nos EUA, férias escolares, turistas por todos os lados. Especialmente no litoral do Maine, região muito procurada nessa época, principalmente durante os finais de semana. Ou seja, chegamos aqui no pico do pico.
Paisagem marítima no Acadia National Park, no Maine - Estados Unidos
Se fosse em outras países, nem hotel encontraríamos. Mas aqui, imagina se eles não estão preparados para isso... Quartos mais caros, claro. Preços de alta temporada. Mas tem para todo mundo. Especialmente se nos afastarmos um pouco do centro.
Sand Beach, a única praia no Acadia National Park, no Maine - Estados Unidos
Enfim, com ou sem multidões, nosso objetivo hoje era explorar um pouco desse maravilhoso parque nacional chamado Acadia. De novo, como estamos nos Estados Unidos, uma estrada circular facilita o acesso às atrações principais do parque. Asfaltada, sinalizada, construída já na época do principal benfeitor do Acadia, John Rockefeller Jr.
Turistas examinam formação rochosa no litoral do Acadia National Park, no Maine - Estados Unidos
Passeio no Acadia National Park, no Maine - Estados Unidos
São cerca de 40 milhas de estradas que nos levam a estacionamentos de onde, com poucos minutos de caminhada, chega-se à mirantes, lagos, à única praia do parque, restaurantes ou até o início de trilhas. Aí sim, caminhando parque adentro, é possível se afastar um pouco das pessoas e achar o “seu espaço” dentro do Acadia. Mas agora, durante o fim de semana do mês mais concorrido do ano, mesmo as trilhas ficam mais cheias. Pelo menos, as mais conhecidas.
Início da trilha Penobscot, no Acadia National Park, no Maine - Estados Unidos
Subida íngrime para Penobscot, no Acadia National Park, no Maine - Estados Unidos
Felizmente, tivemos a sorte de encontrar um simpático garçom ontem de noite, bem conhecedor do parque, que já nos deu as dicas de quais trilhas seguir, tanto pela beleza cênica como pelo isolamento.
Mesmo assim, ainda resolvemos passar pelo centro de visitantes, logo pela manhã. Pelo menos para conseguir um bom mapa. E foi só isso mesmo que conseguimos. O centro estava lotado e o nosso atendente sabia menos do parque do que eu. Enfim, com os conselhos de ontem e o mapa, estávamos prontos para o dia!
A magnífica paisagem na subida para Penobscot, no Acadia National Park, no Maine - Estados Unidos
Hora do descanso na subida para Penobscot, no Acadia National Park, no Maine - Estados Unidos
Seguimos pela estrada circular, passando por alguns mirantes e tirando fotos. Depois, passamos pela cabeceira das duas trilhas mais conhecidas do Acadia, a “Precipice” e a “Beehive”. Como já estávamos avançados na manhã, nem se podia entrar nos estacionamentos dessas trilhas, de tão lotados que estavam. Finalmente, chegamos à portaria do parque, onde se paga a entrada. Não para nós, que temos aquele passe anual para todos os parques nacionais do país. Um dos nossos melhores investimentos por aqui!
A magnífica paisagem na subida para Penobscot, no Acadia National Park, no Maine - Estados Unidos
A paisagem grandiosa do Acadia National Park, vista já quase do alto de Penebscot, no Maine - Estados Unidos
Depois disso vem a Sand Beach, a única praia de verdade de toda a região. Muito bonita, muito cheia e muito fria. Cerca de 15 graus. Pausa para fotos e seguimos em frente, pois nosso objetivo era outro, hoje! Mas para chegar lá, ainda tivemos outras duas ou três paradas, para fotos e pequenas explorações. Todas na orla marítima do parque, cheia de formações interessantes e uma longa trilha que permite aos turistas os melhores ângulos para fotos da costa rochosa, das baías e da própria Sand Beach.
Bebel descansa no topo de Penebscot, no Acadia National Park, no Maine - Estados Unidos
Metros finais para chegar ao pico de Penebscot, no Acadia National Park, no Maine - Estados Unidos
Finalmente, chegamos à cabeceira da trilha de Penebscot, uma das muitas montanhas em Acadia. Nossa ideia era subir até lá e depois, através de uma combinação de trilhas secundárias, fazer um caminho circular para voltar ao ponto de partida. Acho que foi só aí que a Bebel começou a desconfiar das nossas “más intenções”. E a desconfiança logo se tornou “realidade” quando começou um trecho de escalaminhada montanha acima.
No alto de Penebscot, no Acadia National Park, no Maine - Estados Unidos
Mas aí, já não tinha mais volta. A Bebel veio reclamando do garçom que tinha nos dado aquela ideia, com cara de sofrida, mas com incentivo e paciência, veio subindo também. Foram vinte minutos de subida mais árdua até chegarmos à crista da montanha, de onde se tinha uma vista deslumbrante, já acima da mata de pinheiros, lagos e baías nos cercando por todos os lados, por entre montanhas de granito.
Lago no alto do Acadia National Park, no Maine - Estados Unidos
Delicioso banho em lago no alto do Acadia National Park, no Maine - Estados Unidos
A atual forma do Acadia é resultado da última era glacial, quando enormes lençóis de gelo vindos do norte se esgueiraram por entre os vales, abrindo novos caminhos, remodelando o relevo, criando passagens, arredondando montanhas, arrebentando e carregando milhares de toneladas de rochas nos seus rios de gelo. No auge da era glacial, eram dois quilômetros de gelo sobre as montanhas mais altas, algo como o interior da Groelândia de hoje. Com o fim da glaciação e o degelo, os oceanos subiram de nível, ocupando antigos vales, agora transformados em fiordes e baías. Onde o mar não chegou, lagos de água doce se formaram, entre as diversas cristas de montanhas de granito. O clima favoreceu o crescimento de florestas de pinheiros entre os lagos e montanhas, tudo tão perto do mar. O resultado fantástico na paisagem é o que podemos ver hoje, especialmente do alto de montanhas como a Penebscott.
Delicioso banho em lago no alto do Acadia National Park, no Maine - Estados Unidos
Hora do lanche no meio da caminhada pelo Acadia National Park, no Maine - Estados Unidos
Ali do alto, passamos uma boa meia hora extasiados com a paisagem que nos cercava, enquanto recuperávamos o fôlego. Aí, com o mapa de trilhas na mão, repensamos o nosso caminho, para diminuir o tamanho da volta. Afinal, não precisávamos subir outra montanha já estando no alto daquela, com uma vista tão impressionante.
Encruzilhada de trilhas no Acadia National Park, no Maine - Estados Unidos
Falando ao telefone no alto do Acadia National Park, no Maine - Estados Unidos
Descemos para o outro lado da montanha e, logo ali, demos de cara um delicioso lago. O lugar perfeito para nosso piquenique e também para um mergulho refrescante. Ainda mais que a temperatura da água, com todo esse calor que está fazendo por aqui, é muito agradável. Difícil mesmo é ir embora e deixar aquele lugar mágico para trás.
Uma das muitas pontes de pedra das estradas de carruagem que cortam o Acadia National Park, no Maine - Estados Unidos
Caminhada no Acadia National Park, no Maine - Estados Unidos
Foi depois desse lago que pegamos a trilha secundária, descendo pela crista de outra montanha e tendo, à nossa frente, o fantástico visual das inúmeras baías, braços de mar e ilhas do Acadia National Park. Uma verdadeira tela de IMAX. Foi bem nessa hora que o nosso telefone tocou e era minha irmã, falando do outro lado do Atlântico. Infelizmente, estamos com um telefone simples e não podemos transmitir as imagens também. Eu me senti numa propaganda da AT&T de vinte anos atrás, que muito me impressionava quando estive nos EUA há vinte anos. Uma moça ligava para seu namorado e perguntava se ele estava bem. A câmera o filmava em close e, aos poucos, fazendo um zoom out, mostrava que ele estava na beira do Grand canyon, enquanto ele só respondia: “Just great!”. O anúncio era para alardear a cobertura da empresa. Agora, 20 anos depois, posso dizer que a cobertura realmente é muito boa, hehehe!
Bebel comemora a chegada à Fiona depois da trilha pelo Acadia National Park, no Maine - Estados Unidos
Depois da conversa transatlântica, seguimos por um canyon tomado pelos pinheiros, as únicas pessoas por ali. Nessa hora, a Bebel já não xingava o garçom, enquanto nós o louvávamos pela dica que deu. Lá embaixo, topamos com uma das estradas de carruagem construídas pelo Rockefeller e por ela seguimos até o ponto inicial. No caminho, ainda passamos por duas das pitorescas pontes de pedra que possibilitavam as carruagens a passar sobre riachos e grotas. Lugar delicioso para andar de bicicleta, quase todo na sombra das matas.
Celebrando o fim de tarde no alto da Cadillac Mountain, no Acadia National Park, no Maine - Estados Unidos
Admirando a paisagem do alto da Cadillac Mountain, no Acadia National Park, no Maine - Estados Unidos
De volta à Fiona, seguimos pela estrada circular até chegar à mais famosa montanha de Acadia, a Cadillac Mountain. É a mais alta montanha litorânea na costa atlântica desde o Brasil, na nossa querida Serra do Mar! Trilhas chegam até lá encima, mas também se pode chegar lá de carro. E a Fiona nos levou até lá justamente na hora do espetacular entardecer. Muitos outros turistas também estavam ali, mas a área é grande para todos. Um final grandioso de um dia espetacular, como há muito não tínhamos!
Admirando a paisagem do alto da Cadillac Mountain, no Acadia National Park, no Maine - Estados Unidos
Delicioso fim de tarde no alto da Cadillac Mountain, no Acadia National Park, no Maine - Estados Unidos
Amanhã, continuamos por aqui, mas acho que vamos nos dividir pela manhã. A Ana e a Bebel vão ver baleias num tour enquanto eu volto para as trilhas, dessa vez para fazer as mais íngremes, logo cedinho, antes das multidões. Quem sabe, um pulo no mar gelado também... Veremos!
Magnífico pôr-do-sol no alto da Cadillac Mountain, no Acadia National Park, no Maine - Estados Unidos
Misturando-se com os locais, no centro de Cuenca, no Equador
Cuenca é a terceira maior cidade do Equador, atrás de Guayaquil e de Quito. Mas, com seus 400 mil habitantes, é muito mais tranquila que as outras duas, quase cinco vezes mais populosas. Com seu centro histórico muito bem preservado e as belezas naturais em seu entorno, é um dos principais polos turísticos do país.
Passeio ciclístico pelo centro de Cuenca, no Equador
Sua história é milenar, mas foi o povo Cañari que a transformou numa grande cidade. Resistiram bravamente à conquista inca, que também caíram de amores pela região e resolveram transformar a cidade, que chamavam de Tomebamba, numa segunda Cusco. Conta-se que, no seu auge, antes da chegada dos espanhóis, havia vários templos repletos de ouro. A cidade teria, então, sido queimada para evitar que os Conquistadores tomassem posse daquele tesouro. Os espanhóis podem ter chegado tarde, mas ouviram muito bem os relatos da glória anterior. Tanto que Cuenca é uma das principais candidatas à origem da famosa lenda do "El Dorado", a cidade perdida tão procurada pelos ibéricos.
O interior da gigantesca catedral de Cuenca, no Equador
Dessa época pré-hispânica pouco sobrou. Um pequeno terreno ao lado do rio guarda os restos de antigas construções incas. A maioria do material que lá havia foi usada para construções de casas e edifícios da época espanhola, para tristeza dos arqueólogos modernos.
Teatro de rua em Cuenca, no Equador
Em compensação, a arquitetura espanhola dos séculos seguintes está muito bem preservada em seu centro histórico. Prédios pomposos, igrejas e ruas guardam o charme dos séculos passados. O maior deles é a gigantesca catedral, construída já em tempos de república, no séc XIX. Seu tamanho impressiona, tanto do lado de fora como na parte interna. Foi construída para substituir a antiga catedral, do séc XVI, que já não comportava tantos fiéis. Hoje foi transformada em museu, na mesma praça onde está sua substituta.
Homem flutua em rua de Cuenca, no Equador
Nós caminhamos tranquilamente pelo centro, visitamos as igrejas, fotografamos suas praças e prédios, acompanhamos uma passeata, um teatro de rua e um mágico que flutuava sobre a rua. Visitamos o mercado de flores e fizemos uma longa caminhada ao longo do rio Tomebamba, que divide a cidade em duas.
Comprando luvas e gorro de lã em lojinha de Cuenca, no Equador
Visitamos também o principal museu da cidade, ao lado da sede regional do Banco Central do país. O principal atrativo do museu ou, pelo menos o que atrai mais turistas, é a exposição de "cabeças encolhidas", uma técnica milenar de uma tribo amazônica que encolhia a cabeça de inimigos capturados e mortos, para depois preservá-las para a eternidade. Macabro! Pena que fotos não são admitidas por lá...
Ruínas incas no centro de Cuenca, no Equador
Depois do museu, era hora de botar o pé na estrada novamente. Foram várias horas de viagem rumo ao norte, pela nossa velha conhecida Panamericana. Mais uma vez, ao passar pela "avenida dos vulcões", o tempo estava fechado e mal pudemos ver o Chimborazo, do lado esquerdo e, mais à frente, do lado direito, o Cotopaxi. Não faz mal, vamos vê-los de perto, muto em breve! Seguimos até a pousada Papagayo, de onde partem os grupos da Gulliver para subir os dois vulcões. Ela fica bem mais próxima do Cotopaxi e amanhã eu tenho mais uma longa viagem de carro pela frente, voltando para o sul, até o refúgio na base do Chimborazo. Então, é isso, dormimos todos pensando em nossos respectivos vulcões, foco total para a aventura que começa amanhã. Aliás, a Laura arrumou um vulcão para ir também, num day-tour. É o Quilotoa, famoso pelo lago em sua antiga caldeira. Amanhã, portanto, sai cada um para o seu lado!
Caminhando ao longo do rio Tomebamba, em Cuenca, no Equador
Pinguins rei e lobos-marinhos dividem a praia em Salisbury Plain, na Geórgia do Sul
Chegamos hoje à Geórgia do Sul, um dos pontos altos dessa nossa viagem até a Antártida. Apelidada de “a Galápagos do Atlântico Sul” pela quantidade impressionante de vida selvagem que vive na ilha, a Geórgia do Sul também é conhecida pela sua paisagem montanhosa e repleta de geleiras e pela sua participação na história da exploração polar, além de ter sido o principal ponto de apoio para a indústria baleeira na região ao longo de quase um século.
Nosso roteiro pelos mares do sul entre Falkland, Geórgia do Sul, Península Antártica e Ushuaia
Ainda entre nuvens, nossa primeira visão da Geórgia do Sul, em Salisbury Plain
Localizada a cerca de 1.300 quilômetros a leste do arquipélago de Falkland, quase na fronteira do Atlântico Sul com as águas polares que envolvem a Antártida, a ilha tem uma extensão de 170 quilômetros com largura variando entre 15 e 30 quilômetros. Ao contrário de Falkland, a ilha é bem montanhosa, com muitos picos superando os 2 mil metros de altitude. O ponto máximo é o Mount Paget, com 2.934 metros. A existência dessas montanhas e das inúmeras geleiras que descem por suas encostas acaba isolando diversas partes da ilha entre si, pelo menos por via terrestre.
Mapa da Geórgia do Sul, com suas montanhas mais altas, principais bases, animais mais conhecidos e até a rota de Shackleton
A paisagem montanhosa de Salisbury Plain, na Geórgia do Sul
A formação das ilhas tem a ver com o encontro das placas tectônicas da América do Sul, ao norte, e de Scotia, ao sul. Essa última é uma pequena placa espremida entre as placas gigantes da América do Sul e da Antártida. Aliás, o seu processo de nascimento e formação está ligado a uma mudança geológica que afetou profundamente o clima do mundo e da própria Antártida, transformando-a no continente gelado que conhecemos hoje.
A paisagem montanhosa de Salisbury Plain, na Geórgia do Sul
Placas tectônicas do continente americano. No sul está a pequena placa de Scotia, que separa a placa antártica da placa sul-americana
Quando o supercontinente de Gondwana começou a se esfacelar 100 milhões de anos atrás, a América do Sul e a Antártida ainda eram unidas pela Península Antártida. Conforme o tempo passava e África e América iam se separando para criar o Oceano Atlântico, também a Antártida começou a se separar do sul do Chile. Inicialmente era uma passagem estreita, a primeira ligação entre o Atlântico ao Pacífico. Mas as placas tectônicas da América e da Antártida forçavam ainda mais essa separação, criando um espaço entre elas que foi preenchido pela Placa de Scotia. Pois é, placas tectônicas também nascem e morrem, sendo engolidas ou se fundindo com outras. Enfim, esse espaço alargado entre os dois continentes que se separavam ficou cada vez mais profundo e hoje é conhecido como “Drake Passage”, ou “Passagem de Drake”. Por aí circulam milhões de toneladas de água ligando os maiores oceanos da Terra e moldando fortes correntes marinhas que encapsularam o frio polar sobre a Antártida, criando a maior massa de gelo do planeta. Enquanto isso, na porção norte da placa de Scotia, a sua fricção com a placa americana é fonte criadora de terremotos, vulcões e da própria ilha da Geórgia do Sul, com suas altíssimas e escarpadas montanhas.
Muito gelo e neve em Salisbury Plain, na Geórgia do Sul
A paisagem grandiosa de Salisbury Plain, na Geórgia do Sul
A ausência de fósseis antigos na Geórgia do Sul é forte indicativo que a ilha é razoavelmente recente e que nunca esteve ligada às grandes massas de terra onde viveram os dinossauros. Também os humanos nunca haviam chegado aí até que a ilha começasse a ser visitada pelos europeus já no séc. XVIII. Aí eles encontraram centenas de milhares de pássaros, como pinguins e albatrozes, e mamíferos marinhos, como elefantes e leões-marinhos. AO redor da ilha, dezenas de milhares de cetáceos, como baleias e golfinhos. Animais que nunca haviam visto os seres humanos e não aprenderam a ter medo dele.
Salisbury Plain, na Geórgia do Sul, a 2a maior colônia de pinguins rei do mundo!
As montanhs nevadas de Salisbury Plain, na Geórgia do Sul
Foi justamente essa abundância de animais a responsável pelo primeiro ímpeto de ocupação da Geórgia do Sul, mesmo com seu clima e condições inóspitas. Baleeiros noruegueses acharam aqui sua mina de ouro e, desde o início do séc. XX e por muitas décadas que se seguiram, fizeram da ilha o seu lar e base para a caça e exploração das baleias. Somente na estação de Grytviken chegaram a viver mais de 500 pessoas durante o verão e estação de caça, enquanto bem menos do que isso ficava lá durante o inverno. Era quase uma pequena cidade, com direito a igreja e escola. Muitas outras estações de baleeiros se espalharam pelas diversas baías da costa norte da ilha e o resultado trágico dessa caça indiscriminada foi a quase extinção de muitas das espécies desse magnífico animal. Falarei mais disso quando chegarmos nessas antigas estações.
Salisbury Plain, na Geórgia do Sul, a 2a mais populosa colônia de pinguins rei do mundo
A temível skua, uma ave de rapina, em Salisbury Plain, na Geórgia do Sul
Além dos baleeiros, eram os pesquisadores e exploradores polares os outros a frequentar essa ilha naqueles tempos. Entre eles, o famoso Ernest Shackleton, autor de uma das maiores proezas da história das explorações quando, junto com uns poucos companheiros, conseguiu voltar a remo da Antártida até a Geórgia do Sul. Como chegou a costa sul da ilha, ainda teve de cruzar a pé suas montanhas para, finalmente, encontrar ajuda em Grytviken e organizar outra expedição para salvar sua tripulação deixada na Antártida. Era o ano de 1915 e essa é outra história que vou ter de contar direito mais tarde, quando também nós formos fazer parte do trekking que Shackleton fez pra cruzar as montanhas geladas da Geórgia.
Um grupo colorido de piinguins Rei, em Salisbury Plain, na Geórgia do Sul
Carinho de filho para mãe, elefantes-marinhos em praia de Salisbury Plain, na Geórgia do Sul
Felizmente, a caça a baleia acabou por aqui. Primeiro, porque já quase não haviam baleias. Segundo, porque a prática acabou proibida. Então, os baleeiros se foram. Assim como os exploradores antárticos, já que o continente já havia sido explorado. O próximo interesse foi estratégico-militar. A posse das ilhas sempre foi britânica, mas a soberania era reclamada pelos argentinos. Em 1982, no contexto da Guerra das Malvinas, eles chegaram a ocupar brevemente partes da ilha. Chegaram em 3 de Abril daquele ano e, numa breve batalha em que perderam um helicóptero e 3 homens, acabaram por conquistar Grytviken, que contava com uma guarnição de 22 marines britânicos. Entre os ingleses que não se entregaram e ficaram em outras partes da ilha, o nosso guia de história da expedição, Damien Sanders. Imagina quanta história não tem para nos contar! Três semanas mais tarde os britânicos reconquistaram o lugar, após danificar e capturar o submarino argentino Santa Fé. As tropas de terra argentinas, lideradas pelo Capitão Alfredo Astiz, se entregaram sem luta. Astiz, um cruel torturador das equipes de repressão do governo militar, aparentemente só era “corajoso” quando tinha o controle da situação. Na Argentina, enquanto a Guerra das Malvinas continuava (só terminou no início de Junho), a imprensa ufanista dizia que os soldados continuavam a lutar na Geórgia utilizando-se de táticas de guerrilha.
Guindaste ergue um dos zodiacs no convés do Sea Spirit, em Salisbury Plain, na Geórgia do Sul
Bem vindos a Salisbury Plain, na Geórgia do Sul!
Bom, felizmente, nada mais de baleeiros e de soldados nesse paraíso da vida selvagem. Apenas pesquisadores e turistas, todos em busca das fantásticas paisagens, dos magníficos pinguins rei, a segunda maior espécie desse pássaro, do albatroz real, a ave com a maior envergadura de asas dentre todas as espécies que voam e dos gigantescos elefantes-marinhos, que chegam a ter 8 metros de comprimento. Nós já vamos ver um pouquinho de tudo isso logo no nosso primeiro dia em Geórgia, quando vamos desembarcar em Salisbury Plain, frequentada por leões0marinhos e elefantes-marinhos e local da 2ª maior colônia do mundo de pinguins rei e Prion Island, quando vamos estrear nossos caiaques (finalmente!) e acompanhar os primeiros voos dos filhotes de albatrozes. Dá para imaginar a ansiedade?
Todos ao conés para fotos! (em Salisbury Plain, na Geórgia do Sul -foto de Peter)
Caminhando para a Vila Hippie em Arembepe - BA
Como sempre, acordamos cheios das melhores intenções para um dia com programação intensa, repleto de atrações. Como sempre, levantamos um pouco mais tarde que tínhamos previsto, enrolamos um pouco mais na gostosa casa da Mônica, navegamos um pouco mais na internet. Como sempre, saimos tarde demais para tudo o que pretendíamos, mas confiando no nosso poder de adaptação...
Piscina natural em Arembepe - BA
Rumamos em direção ao norte. Passamos pela bonita Itapoã, da música de Vinícius. Nem paramos para fotos. Nossa intenção, como ensina a música, era passar o fim de tarde por lá, com tempo para fotos, caminhada e cerveja. Fomos direto para Arembepe, pouco mais de 20 km ao norte. Na pacata e simpática vila está um dos melhores restaurantes de comida baiana do estado (e provavelmente do mundo!), o Mar Aberto, bem em frente ao mar e a uma piscina natural formada pelos recifes. Como já chegamos tarde por lá, resolvemos ir direto para o almoço. Sábia decisão! Comemos um Bobó de Camarão absolutamente divino que justificou a fama do restaurante! Ali do lado, um empresário baiano recebia capitalistas japoneses, uma conversa em inglês com sotaques nipônicos e baianos. Apaixonado pelo que via, o chefe dos japoneses já avisou seus subordinados: "Vocês voltam, eu fico por aqui!"
Restaurante Mar Aberto, em Arembepe - BA
De barriga bem forrada, seguimos à pé, pela praia, para a famosa Vila Hippie, frequentada no início dos anos 70 por Janis Joplin e Mick Jagger. Supostamente, uma caminhada de menos de três quilômetros. A maré cheia e praia de tombo, linda de se ver, não colaboravam com a caminhada, mas a distância não era longa. Pois é, não era para ser...
O Atracadouro, próximo à Arembepe - BA
Ocorre que eu não vi a entrada da vila e acabei levando a Ana muito mais longe, quase 6 km de caminhada. Chegamos em Emissário. Quando subimos o barranco na esperança de ver a Vila Hippie, vimos um centro de farofa. A música, ao invés do esperado reaggezinho, era um sertanejo ao volume máximo. Imagine a minha decepção e o humor da Ana, depois da árdua caminhada.
Explorando a Vila Hippe em Arembepe - BA
Choupana na Vila Hippie em Arembepe - BA
Fazer o quê? Voltamos três quilômetros pela praia, até a sede do Projeto Tamar que eu não deixei a Ana entrar na ida e lá estava a Vila Hippie. Eu tinha estado lá há quase 20 anos e a impressão que tive foi a mesma de hoje: um lugar de vida simples e gente feliz mas que, de alguma maneira, parece meio fora do tempo, meio caído. Se bem que as choupanas hippies estão cada vez mais chiques, parecendo verdadeiros castelos de palha e taipa. Existe um pouco mais de uma dezena delas e não se pode construir mais. Para ir morar lá. é preciso esperar que alguém queira sair e desocupe sua choupana. Os novos moradores logo tratam de aumentar mais um pouco a choupana e, deste modo, elas foram crescendo.
Roda de Capoeira em Arembepe - BA
Com essa andança toda, ficamos com pouco tempo para ficar lá. Logo caminhamos mais um pouco para chegar em Arembepe, à tempo de, bem no finzinho da tarde, assistir a uma bela roda de capoeira, batismo dos novos alunos, na praça central. Foi jóia!
Roda de Capoeira em Arembepe - BA
Muito trânsito e algumas erradas depois, chegamos de volta à casa de Mônica. Junto com ela e com a Yasmim, a filha caçula, fomos todos jantar na marina, um bonito lugar cheio de restaurantes bem na beira da baía. Escolhemos comer na Fiona (uma pizzaria), por motivos óbvios!
Com a Lívia, na night no Tom do Sabor, em Rio Vermelho, Salvador - BA
Depois, já perto da meia noite, fomos encontrar a Lívia, a filha do meio, no Rio Vermelho, uma espécie de Vila Madalena de Salvador. Numa sexta-feira, estava bombando, dezenas de bares e restaurantes. Muito jóia! Nós fomos no Tom do Sabor, que apresentaria uma banda de marchinhas de carnaval. Hehehe, o povo daqui já está começando a esquentar para o carnaval. E ainda é Novembro! Fo muito legal, a Lívia estava com amigos e pudemos conviver e ver mais da juventude soteropolitana. Cada vez sou mais fã do sotaque daqui! A noite e e as marchinhas de carnaval foram longe e chegamos em casa com o sol raiando, o que em Salvador significa um pouco antes das cinco da manhã.
Cantando e dançando no final de tarde em Arembepe - BA
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