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Admirando a magnífica paisagem do rio Yukon e Dawson City, no Yukon Territory, no Canadá
Hoje pela manhã, deixamos a cidade de Dawson, a capital dessa parte do mundo na virada do séc XIX para o XX. Para ver com são as coisas... quando estávamos chegando ao Alaska, há duas semanas, escolhemos a rota mais direta e decidimos que não valeria o esforço de chegar até aqui. Há poucos dias, quando fizemos nossos planos para ir embora do Alaska, também não incluímos Dawson no roteiro. Nossa ideia era ficar pelo sul do Alaska mesmo, até pegar o ferry. Mas São Pedro tinha outros planos e nos fez mudar de roteiro. Para nos convencer, mandou alguns raios e trovoadas. Assim que cedemos aos seus argumentos, ele nos recebeu com tempo limpo e as duas mais belas noites de Aurora das nossas vidas. E agora, na hora de deixar Dawson para trás, nenhum de nós duvida que essa foi a cidade mais interessante que encontramos no extremo norte do nosso continente. Nada como ter um roteiro “flexível”...
Rio Yukon, visto do alto do morro do Dome, em Dawson City, no Yukon Territory, no Canadá
Ainda de ir embora da cidade, dirigimos até o Morro do Dome, de onde se tem uma fabulosa vista da Dawson e do vale do Yukon. Nessa época do ano, Outono por aqui, não poderia ficar mais bonito. Ter visto a Aurora aqui de cima teria sido sensacional. Mas, ao mesmo tempo, não teríamos tido o reflexo das luzes celestiais no rio Yukon. Não dá para ter tudo... Legal foi ver uma foto de 1899 com mais de cem pessoas aqui em cima, todo mundo posando para a foto. Dá para ver o rosto de cada um. Cada pessoa com seus sonhos, problemas e alegrias do dia a dia. Hoje, todo mundo sete palmos embaixo da terra. Lembrança que a vida é curta e devemos vivê-la da melhor forma possível porque, daqui a pouco, seremos nós embaixo dos sete palmos...
No alto do morro do Dome, em Dawson City, no Yukon Territory, no Canadá
Seguimos viagem para o sul e, vinte minutos mais tarde, chegávamos ao início da rodovia Dempster Highway. Essa estrada nasce aqui e segue diretamente para o norte, num percurso de mais de 700 quilômetros ultrapassando o Círculo Polar Ártico, deixando Yukon para trás e entrando nos Northwest Territories, chegando à Inuvik, já bem perto do Oceano Ártico. Se vocês acham que nós chegamos ao fim do mundo, é porque não conhecem Inuvik. Deu aquela coceira danada de seguirmos para lá, desbravarmos a tundra novamente e chegarmos mais perto do Papai Noel. A paisagem da estrada certamente é belíssima, mas não muito diferente do que temos visto ultimamente. O que nos faria realmente pensar em seguir a estrada seria a chance de chegar ao Oceano Ártico e ver ursos polares. Mas, de novo, esse não era o caso...
Fiona se despedindo de Dawson City, no Yukon Territory, no Canadá
Quando pensamos em ursos polares, logo pensamos que é fácil encontrá-los aqui no Canadá ou no Alaska. Pois é, descobrimos que não é! Tanto a estrada que leva a Prudhoe Bay, no Alaska, como essa aqui, a Dempster, nos levam para o norte, mas não a esses animais fantásticos. De ambos os lugares, seria ainda preciso pegar um avião para seguir ainda mais adiante. Aqui, se estivéssemos no Inverno, seria possível, com correntes, seguir com a Fiona em uma estrada no gelo até as próximas cidades e, aí sim, chegar ao Oceano Ártico. Seria bem legal, mas estaríamos no escuro, já que o sol não nasce durante o Inverno naquelas latitudes. Quem sabe, numa noite de lua cheia? E mesmo chegando numa praia do Ártico, ainda não é lá que estão os ursos brancos. Não tem jeito... tem de pegar o bendito aviãozinho.
Início da Dempster Highway, região de Dawson City, no Yukon Territory, no Canadá
Agora sabemos que, sem contar os zoológicos, a maneira mais fácil de chegar perto dos ursos polares teria sido lá do outro lado do Canadá. De Toronto, pegar um trem para Churchill, nas margens da Hudson Bay. Dali, numa excursão em um daqueles ônibus árticos, com rodas gigantes próprias para andar no gelo, pode-se chegar, com segurança, perto desses animais. Os ursos polares são os únicos carnívoros da Terra que nos veem, sim, como uma refeição. Grizzlies, leões, tubarões, todos eles podem ter curiosidade por nós, mas não estamos no seu cardápio, pelo menos até a primeira vez em que eles tiverem provado. E para isso acontecer, só se estiverem com muita fome. Com ursos polares, a história é outra. Assim que entramos no seu campo de visão, viramos um alvo. E para um bicho daquele tamanho, haja bear spray! O negócio é estar mesmo dentro de um ônibus. Passeio para a nossa próxima vinda ao Canadá...
Painel explicativo sobre a Dempster Highway, na região de Dawson City, no Yukon Territory, no Canadá
Assim, deixamos a Dempster Highway para trás e seguimos para o sul, rumo à Whitehorse. Mas ela não saía da minha cabeça. Só que agora, o motivo não era os ursos polares, mas um assunto bem diferente, a “Beringia”. A Dempster corta um bom pedaço dessa misteriosa região, por onde nossos antepassados chegaram às Américas há uns 15 mil anos. Sempre fui muito curioso sobre as teorias que tentam explicar o povoamento do nosso continente. A teoria mais aceita diz que o homem chegou da Ásia, caminhando por uma ponte natural entre Sibéria e Alaska, formada na última era glacial, quando o nível dos oceanos era bem mais baixo. O que eu não conseguia entender era como eles teriam caminhado sobre tanto gelo. Afinal, passamos por lugares muito mais ao sul, nos Estados Unidos, que eram cobertos por espessas geleiras naquela época. Se South Dakota já era coberta por geleiras, imagina como era a Beringia, uma terra entre o Alaska e a Sibéria???
Início da Dempster Highway, região de Dawson City, no Yukon Territory, no Canadá
Pois é, por aqui, finalmente descobri a resposta. A Dempster Highway cruza um território que não é nunca foi coberto por gelo e neve. Não porque não seja frio, mas simplesmente porque não há precipitação! É muito seco! Toda a umidade é barrada por uma cadeia de montanhas e o lugar é como se fosse uma espécie de Deserto do Atacama dos polos. Assim, durante a última era glacial, o que aconteceu foi que formou-se um enorme corredor sem gelo, mas cercado de enormes geleiras, entre a Ásia e a América. Os animais passavam por aí, como bisões e mamutes, E atrás deles, como parasitas, uma população de humanos, que vivia da caça desses grandes herbívoros. O corredor da Beringia terminava em enormes paredes de gelo, uns poucos milhares de quilômetros adiante. Com o fim da era glacial, o estreito de Bering foi retomado pelas águas, fechando a passagem de volta para a Ásia. Em compensação, as planícies americanas se abriram para esses desbravadores. Tinham um continente inteiro pela frente!
Distância em quilômetros para as próximas cidades na Dempster Highway, na região de Dawson City, no Yukon Territory, no Canadá
Aqui, só um parêntesis. Depois de passar por tantos países e ter conhecido tantos sítios arqueológicos, do Brasil ao México, não estou entre aqueles que acreditam que os primeiros homens a pisar no continente foram esses aventureiros que cruzaram a Beringia, há 15 mil anos. Tudo parece indicar que o homem chegou aqui por outras rotas também. Pelo Pacífico Sul, pulando de ilha em ilha, pelo Atlântico Norte, via Groelândia, ou mesmo pela Beringia, em alguma glaciação anterior. Também é bom lembrar que minha conterrânea Luzia, um fóssil de uma mulher que habitou as Minas Gerais há mais de dez mil anos tem características negroides, muito mais próximas da África do que da Ásia. No Piauí, na Serra da Capivara, temos sinais claros da presença humana bem anterior à última era glacial. Enfim, é um mistério que ainda não foi resolvido e talvez nunca seja. Mas, independente de quando e como chegaram os primeiros homens na América, pesquisas genéticas parecem indicar que toda a população nativa do continente, do Chile ao Canadá, descende de um mesmo grupo de pessoas, pequeno, de poucas dezenas de membros, que teria chegado à América há 17-15 mil anos. O que pode ter acontecido é que essa nova população substituiu a antiga, seja por meio de guerras, maior adaptabilidade, melhor tecnologia resistência à doenças ou a combinação disso tudo.
Cores de Outono na estrada entre Dawson e Whitehorse, no Yukon Territory, no Canadá
Depois de tantas elucubrações, chegamos à Whitehorse, onde paramos para um almoço tardio, já nos sentindo íntimos da cidade, pois aí havíamos estado há duas semanas. Devidamente alimentados, seguimos para Haines Junction, na Alaska Highway, no único trecho de estrada repetida em todo esse looping que fizemos no extremo norte da América. Agora, nesse trecho da viagem, minha mente divagava sobre o futuro, e não mais o passado. Quando será possível cruzar novamente a Beringia por terra? Esperar até a próxima Idade do Gelo para cruzar para a Ásia me parece muito tempo para esperar. Apenas 85 km separam os dois continentes e acho um absurdo que não haja, até hoje, uma ligação entre eles. Já pensaram... ser possível sair de carro da Patagônia e chegar até a Cidade do Cabo, na África do Sul? A Europa não passa de uma grande península da Ásia e a África está ligada ao continente asiático pela Península do Sinai. Então, uma ponte entre Alaska e Sibéria unificaria praticamente todo o mundo! Ficariam de fora a Oceania e a Antártida, mas também, aí já é querer demais...
Curva e corredeiras do rio Yukon, na estrada entre Dawson e Whitehorse, no Yukon Territory, no Canadá
Pois bem, o projeto dessa ponte já existe! Assim como de um túnel. O Estreito de Bering, que separa os dois continentes, não é fundo, pouco mais de 50 metros de profundidade. Entre eles, há duas ilhas, uma americana e outra russa. As ilhas estão separadas por míseros 5 quilômetros entre si (quem diria que EUA e URSS, inimigos mortais, estavam tão próximos um do outro???), além de outros 40 km, cada qual do seu continente. Três pontes resolveriam isso. Custaria bem menos que manter as tropas americanas no Iraque por um ano. E essa conta já inclui as estradas que deveriam ser construídas das saídas da ponte até as próximas cidades. O que falta é, evidentemente, vontade política. Porque razões econômicas sobram. Certamente, não me refiro aos turistas que passariam por lá, mas aos bilhões de dólares de mercadorias entre um continente e outro. O ponto negativo seria o impacto sobre o meio ambiente dessa rota, dado a quantidade de trens e caminhões que transitaria por aí. É... pensando melhor, pelo bem da tundra, dos ursos polares, dos caribous e das paisagens fantásticas que vimos com nossos próprios olhos, melhor deixar essa história de ponte prá lá...
Estrada entre Whitehorse e Haines Junction, no Yukon Territory, no Canadá
Início do segundo dia de mergulho em Montserrat, no Caribe (Yellow Monkey)
Quando chegamos ontem de noite em Montserrat, estávamos bem perdidos. Foi como cair de paraquedas em uma terra desconhecida. Nessa nossa viagem em que estamos mudando de lugar sem parar, indo sempre para novos países, fica difícil fazer planejamento prévio. Ultimamente, estamos sempre planejando o dia de ontem!
Café da manhã na nossa varanda em Baker Hill, em Montserrat, no Caribe
A ilha de Montserrat, vista do nosso barco de mergulho
Geralmente, já temos uma boa ideia geral do lugar para onde vamos. Mas os detalhes, mapas mais precisos, endereços, câmbio, pousadas, essas coisas do dia a dia, descobrimos no aeroporto mesmo. Mas aqui em Montserrat, quem nos salvou foi o irmão do taxista de Antígua que foi nos buscar no porto. Foi ele que achou um lugar para ficarmos (a pousada que tínhamos imaginado estava de férias!), um restaurante para aplacarmos a fome e um supermercado para ficarmos abastecidos. Afinal, estamos num apartamento que não oferece serviços e muito menos café da manhã. A vista é maravilhosa, lá do alto do morro, mas estamos bem isolados. E no Domingo, tudo fecha por aqui. Além disso, ainda nos mostrou onde fica a agência de mergulho.
A caminho do primeiro mergulho em Montserrat, no Caribe
Então, acordamos hoje e tomamos um delicioso café da manhã na nossa varanda com uma vista magnífica do mar lá embaixo. Frutas, pães, suco, tudo comprado ontem. Descansados e de barriga cheia, finalmente podíamos pensar direito. Por e-mail, e depois por telefone, a Ana conseguiu se comunicar com o Troy, dono da Green Monkey (a agência de mergulho), e marcamos uma saída para o início da tarde. Assim, pouco depois do meio dia, começamos a caminhar ladeira abaixo, até uma estrada. Ali conseguimos um ônibus (uma van!) que nos levou até perto do porto, onde está a Green Monkey. Lá encontramos e ficamos amigos do Troy e da Melody, americanos que vieram para cá há uns 8 anos e sabem de tudo da ilha. Foi apenas depois da boa conversa com eles é que conseguimos planejar nossa vida por aqui para os próximos dias.
Mergulhando em Pot of Gold, em Montserrat, no Caribe
Gigantescas esponjas negras são muito comuns em Pot of Gold, em Montserrat, no Caribe
Decidimos mergulhar no domingo de tarde e na segunda pela manhã. Depois do segundo mergulho, eles vão nos ajudar a alugar um carro e poderemos passear pela ilha e conhecer seu famoso vulcão, além da antiga capital Plymouth, soterrada após sucessivos fluxos piroclásticos. Teremos a tarde de segunda e a manhã de terça com o carro, quando voamos de volta para Antígua. Locomoção própria é fundamental numa ilha como essa, cheia de montanhas e com transporte publico bem limitado. De táxi, ficaria muito mais caro do que alugar um carro, nosso passaporte para a liberdade. Até botar as mãos nele, vamos nos concentrar no lindo mar que cerca essa esquecida ilha caribenha.
Uma vistosa Feather Dust no nosso mergulho em Pot of Gold, em Montserrat, no Caribe
Pequena moréia pintada em Pot of Gold, em Montserrat, no Caribe
Como em todas as ilhas dessa região do Caribe, os mergulhos são feitos na costa voltada para o Mar do Caribe, no oeste, já que o Oceano Atlântico, no leste, é muito agitado. No primeiro dia, fomos em direção ao norte e o mar mais parecia uma lagoa, de tão tranquilo. Além das águas estarem paradas, também estavam quentes, perto dos 28 graus. Quase uma benheira! Para completar, tínhamos uma visibilidade de pouco mais de 20 metros, permitindo uma visão ampla do fundo coralíneo e todos peixes que ali habitam.
Aproveitando a vida em passeio de barco ao redor de Montserrat, no Caribe, em busca dos pontos de mergulho
Navegando ao redor de Montserrat, no Caribe, em direção ao ponto de mergulho
Todas essas condições favoráveis fizeram do nosso mergulho uma verdadeira “moleza”. Para nós, que vínhamos dos mergulhos congelantes da Islândia e das cavernas com corrente da Flórida, não poderia ter sido melhor e mais relaxante. Enfim, voltamos para a essência: um ambiente propício ao relaxamento e à contemplação. Havia momentos em que, se eu fechasse os olhos, dormiria tranquilamente!
As águas claras do porto de Montserrat, no Caribe
Nossa primeira visão do fumegante vulcão de Montserrat, no Caribe
Seguimos o beabá: um mergulho profundo, num local repleto de esponjas negras gigantes e um mergulho mais raso, onde as cores de corais e peixes ficam muito mais distintas. Nenhum dos dois foi espetacular, mas era tudo o que queríamos. Percebe-se logo que é um local pouco visitado e os corais estão em seu estado natural. O Troy nos confirmou: raramente recebe mais de 15 turistas por mês. Bem diferente de alguns locais em que mergulhamos em que são 20-30 mergulhadores por dia! Realmente, Montserrat é a ilha esquecida do Caribe. Para mergulhadores, é o paraíso!
Esponjas azuis e quase fosforescentes, em Yellow Monkey, na costa de Montserrat, no Caribe
Muitas cores nas águas rasas de Three Anchors, em Montserrat, no Caribe
No segundo dia de mergulho, rumamos para o sul, com tempo de navegação mais longo. Foi do barco que pudemos ver, pela primeira vez, o fumegante vulcão que destruiu a capital de Montserrat, Plymouth, desalojando toda a sua população. Vou falar sobre isso no próximo post mas, só para se ter uma ideia, o número de habitantes de Montserrat caiu em 2/3 nos últimos quinze anos, de 12 mil para 4 mil pessoas.
Moréia entocada nos corais de Three Anchors, em Montserrat, no Caribe
Uma das âncoras de Three Anchors, em Montserrat, no Caribe
Os mergulhos foram tão gostosos e tranquilos como os de ontem: mar parado, boa visibilidade e águas quentes; esponjas gigantes no mergulho profundo, peixe e corais coloridos no mergulho raso. Infelizmente, o que encontramos também por aqui foram os belos lion fishes, essa praga invasora que está tomando conta do Caribe de pouco em pouco. O Troy os está combatendo da única maneira possível: quando vê um, o arpoa e tenta ensinar possíveis predadores a comê-lo. Uma andorinha não faz verão, mas o Troy nos lembrou que esse peixe se reproduz mais do que coelho e portanto, quando ele mata um, está na verdade matando centenas de possíveis descendentes ao mesmo tempo. Faz sentido. O fato é que, por aqui, eles ainda estão bem menores (em tamanho) do que nas ilhas mais ao norte do Caribe.
Entrando em uma esponja gigante em Yellow Monkey, na costa de Montserrat, no Caribe
Voltando para o barco ao final do mergulho em Three Anchors, em Montserrat, no Caribe
Além do prazer dos mergulhos, nesse dia, por causa da navegação mais longa, pudemos observar melhor a costa de Montserrat e seu perfil montanhoso. As praias não são o forte dessa ilha, pequenas e de areia bem escura, espremidas entre falésias e o mar. Uma beleza distinta das praias de areia branca de Antígua, com um aspecto mais selvagem, mais misterioso.
Tranquilo fim de tarde em Little Bay, em Montserrat, no Caribe
Caminhando pela praia de Little Bay até o porto onde está o barco de mergulho, em Montserrat, no Caribe
Nós estivemos na Little Bay, que é a praia do porto. Por ela caminhávamos diariamente, para ir da Green Monkey até o barco estacionado no píer. Depois, já de carro, estivemos também na Woodland Beach, onde assistimos a um memorável entardecer.
Belo entardecer na praia de Woodland, em Montserrat, no Caribe
O vulcão destruiu o aeroporto, lá atrás, mas criou uma nova praia em Montserrat, no Caribe
Finalmente, na terça, na nossa última manhã na ilha, estivemos numa praia nova, voltada para o Oceano Atlântico. Quando digo “nova”, é nova mesmo! Foram as cinzas das últimas erupções que, ao se depositarem na costa, acabaram criando uma nova e estranha praia. Ao invés de areia, cinza em pó! Parece uma areia escura, mas quando se pisa nela, percebe-se que é algo diferente...
Caminhando pela praia de cinzas em Montserrat, no Caribe
Por enquanto, as principais frequentadoras da nova praia criada pelo vulcão são as vacas (Montserrat, no Caribe)
Esta praia está totalmente isolada dos locais onde hoje existem vilas na ilha. Fica no caminho para o antigo aeroporto, destruído pelos últimos fluxos piroclásticos, e só se pode chegar até ali de carro. Nossa única companhia nessa estranha praia era um tranquilo rebanho de vacas, pastando a grama nas falésias um pouco acima. O mar, cheio de ondas, contrastava com a “piscina” do outro lado da ilha, voltada para o Caribe.
A nova praia de Montserrat, no Caribe, onde a areia é feita de cinzas de erupção vulcânica
Pura alegria na noite do jubileu da rainha no bar Green Monkey, em Little Bay, em Montserrat, no Caribe
Por fim, um último momento onde o mar foi nosso companheiro nessa ilha formada por montanhas foi na noite de segunda. Logo após a celebração do jubileu da Rainha, com fogos de artifício e tudo, fomos para o bar que funciona na loja de mergulho do Troy e da Melody. É uma espécie de recanto dos expatriados, bem no canto da praia de Little Bay. Ali, os dois tiveram a bela ideia de fazer uma enome janela bem atrás do balcão do bar. Assim, passamos umas boas horas no balcão, conversando e conhecendo pessoas interessantes, tomando cerveja gelada, brindando à Rainha e sempre com aquele visual maravilhoso à nossa frente. Entre os novos amigos, um marinheiro de Tobago, uma londrina com família na ilha e uma bióloga especializada em sapos cujos trabalho é salvar uma espécie endêmica desses anfíbios, que só existe aqui e em Dominica. Foi nossa última noite na ilha e tratamos de fazê-la inesquecível!
Pura alegria na noite do jubileu da rainha no bar Green Monkey, em Little Bay, em Montserrat, no Caribe
Macacos descansam um pouco no Parque Nacional de Manuel Antonio, no litoral do Oceano Pacífico, na Costa Rica
Logo pela manhã, já estávamos prontos para o dia de caminhada no parque Manuel Antonio, a pouco mais de um quilômetro do nosso hotel. Mas antes disso, ainda fomos dar mais uma olhada na praia em frente. Ontem, quando chegamos, já era fim de tarde e a praia estava movimentada, todos querendo aproveitar o fantástico entardecer. Hoje a praia ainda estava bem vazia, praiona cercada de muito verde, evidência que estamos em um país tropical. Aliás, isso iria ficar ainda mais claro durante nossas explorações do parque.
Bem cedo, em praia de Manuel Antonio, no litoral do Oceano Pacífico, na Costa Rica
No caminho até o parque, vários guias com seus tripés à tiracolo. Junto com os tripés, uma luneta, ferramenta fundamental para quem quer observar a variada fauna de Manuel Antonio, geralmente posicionada lá no alto das árvores, longe do alcance dos nossos destreinados olhos. Quer dizer, os nossos podem ser, mas os dos guias, não! Conseguem ver de longe, mesmo que escondidos na densa folhagem das árvores, os pássaros, mamíferos e répteis que atraem tanta gente para esse parque. Assim que localizam algum animal, calmamente montam seus tripés e lunetas e convidam seus turistas a observar o macaco, a preguiça ou o pássaro colorido que encontraram.
Muitos pássaros no Parque Nacional de Manuel Antonio, no litoral do Oceano Pacífico, na Costa Rica
Nós, dispostos a caminhar em nosso próprio ritmo e fazendo nosso próprio caminho, entramos sem guia. Não tínhamos a luneta, mas contávamos com a objetiva da nossa Nikon. E para localizar os animais, bastava olhar para onde os guias de outros grupos estivessem olhando. Um plano bom e barato, nos pareceu!
Mapa de trilhas do pequeno Parque Nacional de Manuel Antonio, no litoral do Oceano Pacífico, na Costa Rica
Caminhando no Parque Nacional de Manuel Antonio, no litoral do Oceano Pacífico, na Costa Rica
E assim foi. Seguimos diretamente para o ponto mais alto do parque, um mirante para se observar a costa entrecortada e algumas das mais belas praias do país. Para chegar até lá, caminho no meio da mata, morro acima, oportunidade para se observar a fauna. Bom, a gente ouviu muito barulho suspeito no alto das árvores, pássaros e macacos, mas não vimos nada. Pelo menos até aqui, os olhos treinados dos guias fizeram falta...
Percorrendo trilha costeira no Parque Nacional de Manuel Antonio, no litoral do Oceano Pacífico, na Costa Rica
O belo litoral do Parque Nacional de Manuel Antonio, na costa do Oceano Pacífico, na Costa Rica
Pelo menos lá do alto, para admirar a paisagem, nossos olhos eram treinados o suficiente! Ficamos com ainda mais vontade de chegar naquelas praias. E para chegar até lá, muita mata e mais oportunidades de encontrar a fauna que tanto “gritava”, mas teimava em se esconder...
Macacos caçam carrapatos no Parque Nacional de Manuel Antonio, no litoral do Oceano Pacífico, na Costa Rica
Macacos descansam um pouco no Parque Nacional de Manuel Antonio, no litoral do Oceano Pacífico, na Costa Rica
Pois é, dessa vez foi diferente! Cruzamos logo com um bando de macacos em uma árvore mais baixa e foi fácil localizá-los e tirar muitas fotos. Ficaram ali, ora posando, ora caçando carrapatos uns nos outros. Gestos incrivelmente humanos, desde o olhar até o movimento dos dedos. Observando esses bichos de perto, em seu próprio habitat, é difícil entender como a humanidade demorou tanto tempo em perceber que temos um antepassado comum. Olhando esses macacos, eu diria que esse antepassado não está tão longe assim...
Uma das pequenas praias do Parque Nacional de Manuel Antonio, no litoral do Oceano Pacífico, na Costa Rica
A belíssima praia que dá nome ao Parque Nacional de Manuel Antonio, no litoral do Oceano Pacífico, na Costa Rica
Depois do encontro com os macacos, com os quais haveríamos de cruzar muitas outras vezes ainda no dia de hoje, às praias! Fomos primeiro às “gemelas” (gêmeas), duas praias bem pequenas escondidas no meio da vegetação. Sensação total de estarmos no litoral norte de Sâo Paulo, em algum lugar perdido entre Ubatuba e Parati. Vegetação semelhante, areia parecida, mar idêntico! Muito legal! Dali mesmo, observamos a praia mais famosa do parque. Aliás, aquela que dá nome ao parque: Manuel Antonio! Mais longa, areia bem clara, um espetáculo! Corremos para lá antes que chegassem muitos turistas e aí nos refestelamos por mais de uma hora. A água estava uma delícia, a mesma temperatura de Ubatuba novamente.
A belíssima praia que dá nome ao Parque Nacional de Manuel Antonio, no litoral do Oceano Pacífico, na Costa Rica
Dia de muito sol no belo Parque Nacional de Manuel Antonio, no litoral do Oceano Pacífico, na Costa Rica
Felizmente, o governo da Costa Rica teve o bom senso de criar esse parque no início da década de 70. Senão, com certeza essa praia maravilhosa estaria nas mãos de algum condomínio ou megaresort. Mas não, protegida pelo parque, a praia continua virgem como sempre. Nadando em suas águas e olhando para a costa, nenhum sinal da civilização. Apenas árvores, as areias brancas e os poucos turistas que haviam ali chegado. Uma trilha percorre toda a praia, mas está muito bem escondida pelas árvores. A sensação é mesmo de total natureza!
Parece Ubatuba, mas é o Parque Nacional de Manuel Antonio, no litoral do Oceano Pacífico, na Costa Rica
Falando nela, ainda tínhamos explorações a fazer. Na ponta de Manuel Antonio há uma península que já foi ilha, agora unida ao continente por uma língua de terra. Uma trilha dá a volta nessa península e oferece vários pontos de observação, da mata e da costa. Foi indo para lá que localizamos (nossos olhos foram ficando treinados!) um bicho-preguiça em um galhos não tão alto. Na verdade, a mais próxima que já tínhamos visto aqui na Costa Rica. Ela estava ali, naquela sua pressa característica, alimentando-se de folhas e pendurada com suas fortes garras dando-lhe segurança.
Típica pose de bicho-preguiça no Parque Nacional de Manuel Antonio, no litoral do Oceano Pacífico, na Costa Rica
Encontro com uma preguiçosa bicho-preguiça mascarada no Parque Nacional de Manuel Antonio, no litoral do Oceano Pacífico, na Costa Rica
Depois de muitas fotos, fomos dar a volta na tal península e, quando voltamos, fomos procurar nossa “amiga” novamente. Ela estava ainda mais baixa, oportunidade incrível de observação, mesmo para aqueles sem poderosas lunetas. A calma que esse bicho inspira é incrível! Parece que o relógio para de andar. Stress para quê? Aliás, fiquei imaginando se os ativos macacos, de vez enquanto, não tentam encher o saco de uma preguiça... Como será esse encontro? As duas espécies vivem nas árvores desse parque tão pequeno, hão de se encontrar várias vezes! Enquanto uma preguiça se move um metro, o macaco já foi lá do outro lado do parque e já voltou. É, deve ser engraçado ver os dois juntos. Não tivemos essa sorte, pelo menos, não na mesma árvore...
Chegamos pertinho de um bicho-preguiça no Parque Nacional de Manuel Antonio, no litoral do Oceano Pacífico, na Costa Rica
Observando de perto um bicho-preguiça no Parque Nacional de Manuel Antonio, no litoral do Oceano Pacífico, na Costa Rica
Bom, depois de quase termos contatos imediatos do3o grau com a preguiça, seguimos para a saída do parque. O último obstáculo era passar por um rio frequentado por jacarés, mas não tivemos a sorte (ou azar) de ver nenhum. Do lado de lá do rio, já estávamos naquela nossa praia velha conhecida, a mesma do entardecer de ontem e da manhã de hoje. Depois de tantas horas de explorações e muito calor, fomos matar a sede com “pipas”. É assim que os costarriquenhos chamam água de coco e, mesmo com esse nome diferente, o gosto é o mesmo. Revitalizante!
O último obstáculo da trilha que atravessa o Parque Nacional de Manuel Antonio, no litoral do Oceano Pacífico, na Costa Rica
Depois da trilha, uma água de coco para refrescar, em Manuel Antonio, no litoral do Oceano Pacífico, na Costa Rica
Para mim, Manuel Antonio foi uma bela surpresa. Achei que iria gostar, mas as expectativas não eram tão grandes assim. Cada vez mais, o lema turístico do país faz sentido: Pura Vida! Que o digam os macacos e preguiças. A sensação de ter estado em Ubatuba, litoral que tanto gosto, também foi muito legal. E ainda tem mais pela frente. Afinal, daqui seguimos, ainda hoje, para a Península de Osa, nosso principal objetivo nessa segunda passagem pelo país. Para lá, as expectativas são grandes. Vamos ver como vai ser o resultado...
Chegando à misteriosa Península de Osa, no sul da Costa Rica
Filmando Abrolhos - BA
Quem visita Abrolhos precisa levar sua casa para lá. Afinal, o desembarque nas ilhas só é permitido para rápidas visitas. A solução para alguns é fazer uma rápida visita: enfrentar cerca de quatro horas para chegar lá, passar outras quatro fazendo um passeio à pé e fazendo um snorkel e aguentar mais quatro horas a caminho de casa. Outra solução, muito mais confortável, mas mais cara também, é embarcar num barco maior no qual se possa pernoitar no arquipélago.
Nosso quarto no barco em Abrolhos - BA
Os pacotes mais comuns oferecem passeios de três dias, com duas noites em Abrolhos. O nosso foi um pouco mais longo, passando três noites em Abrolhos. Um pacote especial, para ver baleias, visitar duas ilhas, realizar dez mergulhos entre corais e naufrágios e ainda com a presença de integrantes do grupo internacional de defesa das baleias Sea Shepherd, aquele do navio parecido com o do Batman que foi abalroado pelos baleeiros japoneses em pleno Oceano Antárctico.
Trabalhando no nosso barco em Abrolhos - BA
Para um período tão longo embarcado, nada melhor que um barco bem confortável com uma tripulação atenciosa. Foi assim com o Titan, o nome do nosso barco e sua tripulação, que fez com que seus mais de dez clientes se sentissem em casa. Cafés da manhã, almoços, jantares e lanches sadios e suculentos eram servidos na nossa sala de estar e de refeições e eram o grande momento de confraternização geral
Nossa sala de estar no barco em Abrolhos - BA
Após uma noite bem dormida ou um dos muitos mergulhos, uma deliciosa refeição era servida, para carnívoros ou vegetarianos. O mesmo lugar era usado para se assistir algum filme de noite ou trabalhar no computador em algum tempo vago.
O deck superior do barco em direção à Abrolhos - BA
Se bem que o tempo vago era melhor aproveitado no deck superior do barco, lagarteando ao sol ou nas águas azuis de Abrolhos, se refrescando do calor ou simplesmente aproveitando o belo visual em volta do barco, nos dias ensolarados ou noites estreladas.
Refrescando-se no mar em Abrolhos - BA
A convivência social também foi intensa. A maioria dos clientes era carioca, mas também havia os mineiros. A tripulação era baiana e os dive masters eram de Santos e de Brasília. Havia os jovens, os nem tão jovens como eu, senhores e uma senhora e até mesmo o nosso mascote, o João, de apenas seis anos. Enfim, um espectro variado de idades e origens fazendo a convivência ficar bem mais interessante. Para a Ana foi uma festa, tanta gente para conversar e interagir. Difícil vai ser nos reacostumar com nossa vida à dois na Fiona...
Saltando do deck para o mar, em Abrolhos - BA
Tomando sol no deck do barco em Abrolhos - BA
A hora da diversão em Abrolhos - BA
Mapa com as principais atrações de Noronha. Em preto, a menor BR do Brasil. Em vermelho, as estradas de terra e em amarelo algumas das trilhas
A ilha de Fernando de Noronha pode ser pequena, mas não é tanto assim não. As pousadas não estão perto das praias e não é tarefa fácil usar apenas os pés para se chegar até elas.
Chegando na Praia do Leão em Fernando de Noronha - PE
Uma estrada, a menor BR do Brasil, atravessa a ilha de norte a sul ligando a Baía de Sueste ao Porto de Santo Antônio, passando pelo aeroporto e ao lado da Vila dos Remédios, a maior vila da ilha. Passa também ao lado dos "bairros" de Floresta Velha, Floresta Nova e Vila dos Trinta, onde estão a maioria das pousadas da ilha. A partir desta estrada partem estradas de terra para as praias mais famosas, como a da Cacimba, da Conceição e do Leão. Com o sol à pino, caminhar nessas estradas é bem árduo, já que quase não há sombras e nem se pode ver o mar em muitos trechos. Enfim, para os mais esportistas, é possível correr por elas, sabendo que o prêmio será chegar em uma praia paradisíaca. Para as praias mais distantes, como a do Sancho e a do Leão, partindo da Vila dos Remédios, serão uns 40 minutos de corrida e muito suor..
Admirando a paisagem da Praia do Leão em Fernando de Noronha - PE
As alternativas são alugar um bugue, o que custa pouco mais de 100 reais por dia, fora o combustível que é o mais caro do Brasil (o litro da gasolina beira os 4 reais), ou tomar um táxi (bugue também). Boa parte dos preços das corridas varia entre 15 e 25 reais. Mais barato é pegar a única linha de ônibus da ilha, que percorre toda a BR e que custa 3,10 reais. Mas para as praias que ficam distantes da BR, essa não é uma alternativa. Em tempo, nos movimentados dias da semana do reveillon, o aluguel de um bugue chega a estratosféricos 400 reais por dia! Tudo pela liberdade de se ir e vir quando quiser e, claro, pelo status! Se o preço é esse, é porque tem gente que paga...
Últimas luzes na Praia do Leão em Fernando de Noronha - PE
As praias do Mar de Dentro, quando a maré não está alta, podem ser visitadas através de uma longa trilha pela costa. Muita gente acaba fazendo isso uma vez. Mas, no retorno, se rendem para o táxi. Outros, que estão em rápida visita, contratam o Ilha Tour, que os levam para conhecer todas as praias em apenas um dia, em comboio. Não precisam se preocupar com o transporte, mas também nunca conhecerão uma praia deserta, pois estão sempre acompanhados de outros 20-30 turistas. Cada um, cada um...
Fim de tarde na Praia do Leão em Fernando de Noronha - PE
Por fim, quando contratamos mergulhos, as empresas vêm nos buscar nas pousadas e nos levam para o porto. Ao final do mergulho, nos trazem de volta.
Pôr-do-sol na Praia do Leão em Fernando de Noronha - PE
Hoje, após o maravilhoso mergulho na Corveta, fomos conhecer a Praia do leão, no Mar de Fora. De uma tacada só, utilizamos quatro dos meios de transporte. Fomos de táxi e curtimos um delicioso fim de tarde por lá. Depois, caminhamos até a Baía do Sueste (outra praia no Mar de Fora). Ali, eu e a Ana tomamos o ônibus de volta para Floresta Velha, onde está nossa pousada. O Haroldo, aproveitando as temperaturas um pouco mais amenas do horário, enfrentou os pouco mais de 4 km correndo, com direito à vista e contorno da pista do aeroporto. E assim, vamos todos conhecendo e reconhecendo esse pedaço do paraíso...
Últimas luzes na Praia do Leão em Fernando de Noronha - PE
Fiona enfrentando obstáculos em Carrancas - MG
Hoje a Fiona mostrou à que veio!!! Enfrentou bravamente estradas, caminhos e trilhas, sendo alguns trechos assustadores. E tudo isso com muito conforto!
Fiona enfrentando obstáculos em Carrancas - MG
Ela subiu e desceu pirambeiras irregulares, passou sobre pedras, rochas e valetas e atravessou riachos. Um teste para seus freios, amortecedores e tração 4x4. Pela primeira vez na viagem usamos a reduzida, para poder subir bem devagar um trecho bem íngreme e cheio de buracos.
Fiona enfrentando obstáculos em Carrancas - MG
O pneuzão aguentou firme desa vez. Acho que o furo lá no PETAR foi só para a gente aprender a trocar pneu. No final do dia, até levamos ela para ver um belo pôr-do-sol!
Ótimo restaurante no Mirante da Serra durante o pôr-do-sol em Carrancas - MG
Será que ela vai mesmo nos levar até o Alaska e trazer a gente de volta?
Passeando pelo alto da serra da Broa em Carrancas - MG
Em tempo: descobrimos um fusca, sempre o valente fusca, que fez o mesmo trecho que fizemos hoje. He he he. Bom, aposto que não com o conforto da Fiona...
Mais uma pirambeira para a Fiona vencer
As milenares sequoias do Mariposa Grove, no Yosemite National Park, na Califórnia, nos Estados Unidos
A previsão de tempo acertou em cheio e o dia amanheceu chuvoso hoje. Ainda bem que fizemos a caminhada ontem, pois nesta manhã só veríamos nuvens... Com o tempo assim, aproveitamos para dormir até mais tarde e rumarmos para a Mariposa Grove, o maior bosque de sequoias de Yosemite.
Com o amigo Greg, em dia chuvoso no Yosemite National Park, na Califórnia, nos Estados Unidos
Antes disso, ainda em frente ao lodge que ficamos dentro do parque, Fiona já pronta para sair, reencontramos nossos amigos de ontem, os paramédicos Greg e Ellen, que nos “salvaram” com suas lanternas. Moram em Santa Cruz, um pouco ao sul de San Francisco, e nos convidaram para conhecer sua cidade. Ontem de noite tínhamos ficado até bem tarde no restaurante da área, bebemorando nosso encontro. Foi joia!
Com o Greg e a Ellen, que nos salvaram com suas lanternas na noite anterior, no Yosemite National Park, na Califórnia, nos Estados Unidos
A primeira parada da viagem de hoje ainda foi dentro do Yosemite Valley. Bem em frente a uma das mais conhecidas cachoeiras do parque, a Bridelveil Falls. É a cachoeira que “recebe” todos que chegam ao vale. Uma pequena caminhada de 200 metros leva até um mirante para observá-la. Chato mesmo era só a chuva fina que nos atrapalhava a fotografar.
Caixas lacradas, a prova de ursos negros, para estocar comida no Yosemite National Park, na Califórnia, nos Estados Unidos
Saindo do vale rumo ao sul do parque, passamos por um mirante chamado “tunnel”. O nome vem do fato de estar bem na saída de um túnel de quem vem em sentido contrário. O túnel foi estrategicamente construído para causar impacto em quem passe por ele, chegando ao vale. Afinal, vai descortinar uma impressionante paisagem, todas as grandes montanhas que circundam Yosemite à vista, assim como a Bridelveil Falls. Hoje, com o tempo do jeito que estava, o “impacto” não era tão grande, mas não deixava de ser impressionante também. As montanhas, picos, cachoeiras e florestas do parque sumiam e reapareciam atrás de uma teimosa névoa. É como diz um dos painéis explicativos espalhados pelo mirante: “Yosemite nunca é o mesmo, mudando todas as estações, todos os dias!”.
A Bridalveil Falls, no Yosemite National Park, na Califórnia, nos Estados Unidos
Daí seguimos para o extremo sul do parque, onde está a Mariposa Grove, o local que deu origem ao Yosemite National Park e, ainda mais, foi o precursor de todos os parques nacionais do país. A história é bem interessante e a personagem principal, além das sequoias, é um homem chamado Galen Clark.
Muita névoa no Yosemite National Park, na Califórnia, nos Estados Unidos
Clark havia se mudado para a California na época da Gold Rush de 1849, atrás da fortuna fácil. Acabou trabalhando em um mina, trabalho pesado que lhe rendeu uma tuberculose severa. Com menos de 40 anos de idade, os médicos lhe davam apenas mais seis meses de vida. Um pouco mais, talvez, se fosse viver nas montanhas e respirar ar puro.
Meio desanimado com as nuvens sobre a grandiosa paisagem do Yosemite National Park, na Califórnia, nos Estados Unidos
Sem outras opções, ele foi. E escolheu a área de Mariposa, aos pés da Sierra Nevada. Dessa área vinham relatos esparsos de uma gigantesca árvore, maior do que qualquer coisa que se conhecesse. A história já tinha atravessado o país e era conhecida na costa leste como “California Hoax”, ou a “farsa da California”. Ninguém acreditava ser possível uma árvore daquele tamanho. Pois Clark decidiu que gastaria seus últimos meses de vida descobrindo se a tal história era mesmo falsa ou não.
Sempre feliz quando se está próximo às maravilhosas sequoias, na Mariposa Grove, no Yosemite National Park, na Califórnia, nos Estados Unidos
Três meses de árdua procura, andando no meio do mato e finalmente ele topou com a Mariposa Grove. Ali, cresciam não apenas uma, mas centenas de sequoias. A visão das imponentes árvores fez muito bem à saúde de Clark e ele decidiu passar o resto de sua vida lutando para protegê-las. E foi da sua luta e das insistentes cartas que enviou ao Congresso americano que em 1864, ainda em plena Guerra Civil, o presidente Lincoln assinou a lei de proteção à área (incluindo o Yosemite Valley), cedendo o espaço ao estado da Califórnia, mas com a premissa de que ele seria mantido para o usufruto das futuras gerações. Essa lei foi o embrião da criação do parque de Yellowstone, seis anos mais tarde, e de todos os parques nacionais que se seguiram. E adivinhem quem foi o primeiro guarda-parque dessa área? Exatamente, Galen Clark! Ali trabalhou pelos próximos 24 anos e, contrariando seus médicos, só foi morrer em 1910. Pelo visto, ar de montanhas misturado com ar de sequoias não faz bem à tuberculose...
Um flerte milenar: o "Solteiro e as Três Graças", na Mariposa Grove, no Yosemite National Park, na Califórnia, nos Estados Unidos
Para nós, foi uma emocionante despedida dessa árvores gigantes, tão imponentes como serenas, tão silenciosas como sábias. Por mais de uma hora, embaixo de chuva ou do tímido sol que apareceu, percorremos as trilhas do bosque, prestando nossas homenagens e reverências à algumas das sequoias mais conhecidas da Mariposa Grove. Entre elas, o gigante “Grizzly Bear”, uma das maiores sequoias de que se tem notícia, e o grupo conhecido como “The Barchelor and Three Graces”, árvores tão próximas que, se uma cair, levará todas as outras consigo. Que bonita é a ideia de que elas já vivem assim, tão próximas, há mais de mil anos! Como será que se chama bodas de 1000 anos?
Minúsculo quando comparado à gigantesca sequoia, no Mariposa Grove, no Yosemite National Park, na Califórnia, nos Estados Unidos
Outro caso interessante, mas meio triste, é a dos túneis em árvores. Em 1881, um túnel foi escavado em uma das sequoias gigantes, apelidada de Wawona Tunnel Tree (Wawona é o nome nativo das sequoias). O túnel era grande o bastante para que uma carruagem e, mais tarde, um carro passasse por baixo da árvore. Era um grande golpe publicitário para atrair turistas. Fotos e cartões postais dessa árvore se espalharam pelo mundo. Acontece que esse buraco debilitou a árvore profundamente e ela não conseguiu resistir a uma grande tempestade de neve em 1969, sendo derrubada pelo vento. O choque foi geral e mudou a política dos parques nacionais. De agora em diante, essas árvores seriam intocáveis! Quanto à gigante caísa, foi rebatizada de “Fallen Tunnel Tree”.
Túnel sob uma sequoia viva, no Mariposa Grove, no Yosemite National Park, na Califórnia, nos Estados Unidos
Mas a história não termina aí. Na verdade, em 1895, foi feito um túnel em outra pobre árvore, a California Tunnel Tree. A razão para isso foi que ela estava mais perto da portaria do parque e era de mais fácil acesso aos turistas, principalmente no inverno. Essa árvore ainda está viva e, ao passar pelo seu túnel hoje, pode-se perceber como a árvore luta para curar a enorme ferida que lhe fizeram. O “bark” cresce na sua parte interna, para protege-la de incêndios e insetos. Enfim, é visível o esforço da árvore em se curar. Junto com sua colega milenar que caiu há poucas décadas, as duas árvores, em seu silêncio profundo, parecem exclamar: “Não façam mais isso! Vão fazer um túnel na ponte que partiu!”.
A gigantesca sequoia continua firme e forte, mesmo depois do buraco que fizeram em seu tronco! (na Mariposa Grove, no Yosemite National Park, na Califórnia, nos Estados Unidos)
Enfim, foi uma emocionante despedida desses magníficos seres-vivos. Andar por entre as sequoias foi uma das maiores experiências desses 1000dias, algo de que jamais nos esqueceremos. Agora, depois desse show da natureza aqui em Yosemite, vamos mudar de ares e rumar para uma cidade que é um show de humanidade. San Franciso, there we go!
Admirada com a gigantesca árvore sobre sua cabeça! (Mariposa Grove, no Yosemite National Park, na Califórnia, nos Estados Unidos)
Foto de 1898 mostra crianças Selknam em missão salesiana. Elas não viveriam muito...(foto da Internet)
O primeiro lugar que fomos passear aqui em Ushuaia foi no Parque Nacional Tierra del Fuego. E dentro do parque, logo estivemos em um pequeno museu com fotos, utensílios e relatos sobre as antigas culturas que viveram nesta ilha. Mais uma vez, é chocante acompanhar a trágica história do encontro de civilizações, algo que vimos tantas vezes de perto nessa nossa viagem pela América. Vou falar do nosso dia intenso de explorações aqui em Ushuaia no próximo post, pois agora quero contar um pouco dessa triste história que aprendemos aqui no museu e em livros ou artigos que temos lido na internet.
Era uma vez uma terra muito distante que, lá no sul do sul do continente, voltava a ser uma ilha com o fim de mais uma era glacial. Ela já estava acostumada com esse ciclo, pois eras glaciais e suas geleiras vinham e voltavam a cada 20 mil anos. Mas uma coisa estava diferente dessa vez. E não eram os guanacos que se locupletavam em suas vastas planícies com relva fresquinha com força renovada com o gelo que retrocedia. Eles também vinham e voltavam, sempre atrás do que o gelo deixava para trás. Não, o estranho era o que vinha atrás dos guanacos dessa vez. Um ser bípede que andava em grupos e caçava os guanacos. Era o homem que pisava pela primeira vez na Terra do Fogo.
Índios Selknam, antigos habitantes da Terra do Fogo, massacrados no final do séc. XIX (fotografia em museu no P.N da Tierra del Fuego, perto de Ushuaia, sul da Argentina)
Quase dez mil anos se passaram e esse já não tão novo ocupante das ilhas do arquipélago havia se separado em alguns grupos, algumas etnias distintas, cada um com uma especialidade diferente, um modo distinto de viver e sobreviver. Entre eles, se destacavam dois grupos: os Selknam, também conhecidos como “Onas”, viviam no centro e no norte da maior ilha do arquipélago. Nômades, viviam da caça do guanaco e completavam sua alimentação com animais menores, frutos do mar que encontrassem na praia e mesmo com baleias encalhadas. Já no sul e espalhados pelas pequenas ilhas, os Yaghan, ou “Yamanas”, um povo que havia se especializado em viver do mar. Passavam boa parte de suas vidas em canoas, transitando de uma ilha à outra, os homens pescando e as mulheres mergulhando e recolhendo conchas no leito do mar. Dois povos que viviam geralmente em paz, eventualmente comerciavam entre si e que estavam muito felizes em permanecer na chamada “era paleolítica”.
Painel informativo sobre os antigos habitantes de Terra do Fogo, em museu no P.N da Tierra del Fuego, em Ushuaia, no sul da Argentina
No norte, os Selknam eram uma sociedade patriarcal, homens controlando as mulheres. Mas não deve ter sido assim, como o seu principal rito nos parece indicar. Durante o “Hain”, quando garotos e adolescentes simbolicamente transformavam-se em homens, um festival que poderia durar semanas, técnicas de caça lhes eram ensinadas. Mas não só isso. No auge do festival, espíritos apareciam em carne e osso. Eram homens adultos disfarçados com máscaras e pinturas. Assustavam os jovens, mas também lhes contavam um segredo: no início dos tempos, a sociedade era matriarcal e as mulheres mandavam. Enganavam os homens vestindo-se de espíritos, metendo-lhes medo e os fazendo prometer obediência às mulheres. Mas um dia, um guerreiro descobriu a trapaça. Ele contou aos outros homens e, furiosos com o engodo, mataram todas as mulheres adultas e adolescentes da tribo, aquelas que já conheciam a trama. E passaram a encenar o ritual na forma inversa, as meninas desde cedo aprendendo que os espíritos (homens disfarçados) ordenavam sua obediência aos homens. E desde então, durante o Hain, os espíritos visitavam as mulheres de quem os maridos reclamavam falta de obediência e as puniam e amedrontavam. Talvez por isso, quando os nômades Selknam se movimentavam pela ilha, eram as mulheres que carregavam o peso maior, roupas, utensílios e os pequenos filhos nas costas. Os homens seguiam à frente, leves, carregando apenas suas armas (arco e flechas), sempre prontos e ágeis para caçar guanacos. Além da carne, eram esses animais que lhe forneciam roupas e o couro para suas tendas rudimentares.
Mulheres Yaghan fotografadas no início do séc. XX, na Terra do Fogo (foto da Internet)
No sul, onde o clima ainda era mais rigoroso que no norte, o Canal de Beagle apertado entre ilhas e altas montanhas, os Yaghan se desenvolveram de maneira ainda mais peculiar. A sociedade era mais igualitária, as mulheres também responsáveis pela obtenção de alimentos. Eram elas que enfrentavam uma água a menos de 10 graus de temperatura em seus mergulhos para chegar ao leito do mar e recolher conchas. Sem a pele dos guanacos, acostumaram a enfrentar o frio desnudos, homens e mulheres. De alguma maneira, o corpo se adaptou. O metabolismo ficou mais ativo, gerando mais calor, mas necessitando de mais alimentos. Braços e pernas ficaram menores e o tronco maior, diminuindo a superfície do corpo para diminuir a perda de calor. Caminhavam pouco, mas remavam muito, as canoas eram quase suas casas. E faziam sempre fogueiras, onde quer que estivessem. Mesmo em suas canoas, sempre havia fogo a esquentar quem estivesse no barco. Foram exatamente essas fogueiras, centenas delas, que chamaram a atenção do navegador português Fernão de Magalhães quando descobriu a passagem de mar que leva o seu nome em 1520. O arquipélago em que viviam os Yaghan e os Selknam ganhava um nome: Terra do Fogo. Aquilo também era o prenúncio de que algo mudaria depois de 300 gerações de vida relativamente tranquila para essas duas culturas.
Desenhos feitos de Jemmy Button pelo capitão do Beagle, FitzRoy. Ele levou Button e outros 3 Yaghan para Londres ao final de sua primeira viagem e os trouxe de volta, um ano mais tarde, na mesma viagem em que veio o jovem Darwin
Para sorte dos nativos da Terra do Fogo, os europeus não se interessaram de imediato por aquele arquipélago perdido. Enquanto incas e astecas, tupis e guaranis, apaches e comanches passavam pela tragédia do choque de civilizações, Yaghans e Selknams seguiram com seus costumes e modo de vida por mais 3 séculos. Eventualmente, tiveram algum rápido contato com alguns dos maiores exploradores e navegadores de todos os tempos. Além do próprio Magalhães, passou por ali gente do calibre de Drake, Cook e Wendell. Mas eram encontros tão rápidos que nada mudaria na vida dos nativos. Até que, em 1830, apareceu por ali outra personagem famosa: o inglês FitzRoy e seu barco de pesquisas Beagle.
Representação de indígenas Yaghan, que habitavam as ilhas do sul do continente e eram conhecidos por suas canoas (museu no P. N. Tierra del Fuego, região de Ushuaia, no sul da Argentina)
Sua expedição era científica e cobria desde geografia e geologia até antropologia. Talvez por isso o famoso capitão tenha tido a “brilhante” ideia de capturar quatros Yaghans, aqueles estranhos seres desnudos e que não sentiam frio, e levá-los para a Inglaterra. Um deles morreu de varíola assim que chegou a Londres, mas os outros três sobreviveram e tiveram seus dias de glória na capital inglesa. Foram até recebidos pelo rei e estavam sempre na primeira página dos jornais. Durante esse ano, foram cristianizados, “civilizados”, vestidos e aprenderam a falar inglês. O mais famoso deles ganhou o nome de Jemmy Button. Fitz Roy se sentia responsável por eles e os tratou da melhor maneira possível. Um ano mais tarde, em uma segunda expedição do Beagle liderada por ele, pagou do seu próprio bolso o retorno dos nativos à sua terra natal. Junto com os três, um missionário. A ideia era estabelecer contato e, eventualmente, cristianizar e civilizar todos aqueles “pobres selvagens”.
Fotografia do final do séc. XIX mostra um bando de índios Selknam, os antigos habitantes da Terra do Fogo (em museu no P.N. Tierra del Fuego, região de Ushuaia, sul da Argentina)
O bem intencionado plano não deu certo. Poucos meses depois do seu retorno, os três nativos já haviam jogado fora suas roupas e voltado a viver como vivia seu povo. Jemmy Button foi o único a ser contatado novamente em algumas oportunidades. Até sua morte, trinta anos mais tarde, nunca esqueceu o inglês. Chegou até a viajar às Ilhas Falkland, para onde ingleses haviam “exportado” Yaghans para criar uma comunidade por lá, mas preferiu mesmo viver na sua Terra do Fogo, da mesma maneira incivilizada de seus pais e avós. Aliás, a mesma maneira que tanto surpreendeu o jovem cientista Charles Darwin, que acompanhou Fitz Roy na sua segunda viagem no Beagle. O promissor cientista que mudaria a história da ciência com sua Teoria da Evolução ficou muito mal impressionado com os Yaghans, dedicando a eles diversos comentários que hoje seriam certamente classificados de racistas. É claro que não podemos julgá-lo com nossos valores atuais e sim compreendê-lo no contexto do mundo em que vivia. Em suas anotações, Darwin descreveu os Yaghans como "criaturas pequenas, rudes, figuras de pernas torcidas, com tronco quase reto e sem cintura". Constatando as diferenças físicas entre índios e europeus, mais tarde o naturalista concluiria que ambos pertencem à mesma espécie, mas que evoluíram de formas distintas. Também disse o cientista: “Os Yaghans se encontram em um estado miserável de barbárie, maior do que eu havia esperado ver em um ser humano”, e complementou: “É impossível imaginar a diferença que há entre o homem selvagem e o homem civilizado; é muito maior do que a que há entre um animal silvestre e outro domesticado porque o homem é suscetível a um aperfeiçoamento muito maior”.
Foto de 1969 mostra a antropóloga francesa Anne Chapman e a última Selknam pura, Angela Loij, que já cresceu em uma missão salesiana. Ela faleceu em 1974 e, com ela, morreu uma raça (foto da Internet)
A visão de Darwin refletia a visão do mundo europeu com relação àquelas tribos paleolíticas e isso demoraria mais de um século para mudar. Em 1881, uma expedição antropológica francesa levou 11 membros da etnia Kawéskar, um outro povo da região, para serem expostos no Bois de Boulogne, em Paris, e no Jardim Zoológico de Berlin. Apenas quatro deles sobreviveram e retornaram ao sul do Chile. Na Europa, teriam sido bem tratados, mas bem tratados como animais ou, na melhor das hipóteses, como uma curiosa mistura de homens e animais. Infelizmente, essa viagem e exposição eram apenas o prenúncio de uma tragédia muito maior...
Na mesma época em que os Kawéskar eram levados à Europa, a civilização ocidental finalmente se deu conta da Terra do Fogo. Milhares de imigrantes foram atraídos para lá, seja pela descoberta de ouro, seja pela nascente e promissora indústria da produção de lã. Ali se depararam com a etnia Selknam, que até então havia sido poupada dos encontros com europeus. Esses nativos devem ter estranhado o aparecimento daqueles pequenos animais peludos nas suas terras, mas logo aprenderam que sua carne era apetitosa. Além disso, eram muito mais fáceis se serem caçadas do que os velozes e ariscos guanacos. Com quase dez mil anos de história de caça em uma terra sem fronteiras ou cercas, era difícil entender para eles o conceito de propriedade ou que as ovelhas não pudessem ser caçadas. Isso, obviamente, muito irritou os novos capitalistas que se apoderavam daquelas vastas planícies e sonhavam com seus lucros de exportação.
O romeno-argentino Popper lidera uma expedição de caça aos índios Selkham, na Terra do Fogo, no final do séc. XIX. Na parte de baixo, na foto, um índio já morto a tiros (foto da Internet)
O conflito desigual não demorou a ocorrer. De caçadores, os índios passaram a caças. Literalmente! Armados com carabinas e numa terra plana e com vegetação baixa, os capatazes de estâncias e matadores de aluguel não tinham dificuldade em localizá-los e matá-los. A morte de um índio homem valia uma libra esterlina. A morte de uma mulher valia mais, 1,50 libras. Pelo simples fato de que, ao matá-la, evitava-se também o nascimento de novos índios. Nem crianças eram poupadas, muito pelo contrário. Muito mais fácil matá-las enquanto jovens do que quando virassem adultas. Vários matadores se destacaram, mas nenhum como Julius Popper, um argentino de origem romena. Talvez pelo fato de que ele documentava com fotografias vários de suas “caçadas”. E os assassinos não usavam apenas balas para eliminar os Selknam. Chegaram a envenenar uma baleia encalhada para, com isso e de uma só vez, matar todo um bando, mais de três dezenas de índios de uma só vez.
O romeno-argentino Popper lidera uma expedição de caça aos índios Selkham, na Terra do Fogo, no final do séc. XIX Ao seu lado, uma índia já morta (foto da Internet)
O resultado previsível desse embate foi um massacre. Em quinze anos, a população de Selknams caiu por 10, de 5 mil índios em 1885 para 500 deles no final do século. Foi quando o restante foi capturado e internado em missões salesianas que, ao menos, tentavam salvá-los. Não apena suas almas, mas também a própria etnia. Mas a mudança tão drástica no estilo de vida, de nômades livres para um terreno fechado, da vida quase desnuda para as roupas apertadas, da comida de caça para uma alimentação estranha, de um mundo sem doenças para micróbios importados, tudo isso se mostrou fatal. As missões simplesmente fecharam suas portas três décadas mais tarde pela absoluta falta de índios. Haviam todos morrido.
Lola Kiepja, a última Selknam que viveu como seus antepassados. Ela faleceu em 1966 (foto da Internet)
Na metade do século XX a população Selknam havia se reduzido a 50 pessoas. Os últimos, quatro deles mestiços e uma última representante pura, Angela Loij, morreram na década de 70. Angela já havia crescido em uma das missões e, apesar de falar também a língua original, pouco sabia da cultura de seu povo. Ela conviveu seus últimos anos com a antropóloga francesa Anne Chapman, talvez a maior estudiosa dessa cultura agora desaparecida. Chapman havia aprendido muito com uma outra Selknam, Lola Kiepja, falecida na década anterior. Lola tinha mais de 90 anos de idade e, ela sim, cresceu livre e junto com a família nos primeiros anos da batalha entre brancos e indígenas. Ainda tinha a cultura, os costumes e a língua fortes na memória, correndo em seu sangue. É emocionante ouvi-la (Anne Chapman grava suas conversas) recitar versos que foram cantados por 300 gerações de indígenas e que se destruiu em meros 15 anos de barbárie. Enfim, a não ser por fotos, relatos e gravações, os Selkmans se foram.
Quanto aos valentes e “primitivos” Yaghans, seu destino também foi parecido. Relativamente poupados da sanha assassina do final do séc. XIX, eles também foram reunidos em missões salesianas. Quando as missões acabaram, o governo chileno os levou para a Ilha Navarino, ao sul do canal de Beagle, onde está o povoado mais austral do mundo, Puerto Williams. Aí, hoje, há cerca de 1.400 eles, praticamente todos mestiços. Seu antigo modo de vida, aquele das canoas, foi há muito abandonado. Vivem de fazer artesanato para turistas e da ajuda governamental. Apenas duas índias Yaghans puras sobreviviam na virada do milênio, mas uma delas morreu. Resta, então, a solitária Cristina Calderón, uma espécie de curiosidade histórica, testemunha única do encontro trágico de uma civilização infinitamente mais bárbara e selvagem do que aquela outra que tentava “civilizar”. Difícil imaginar uma situação ou história mais triste do que essa...
Cristina Calderón, a última Yaghan capaz de falar a língua Yamana. Com quase 90 anos, ela vive em Puerto Williams, no Chile (foto da Internet)
O visual gelado de Half Moon Island, na Antártida
Aproveitando que estamos na primavera do hemisfério sul e em altas latitudes (mais de 60 graus!), nossas atividades vão até bem tarde, enquanto ainda há luz no céu. Por aqui, nesses dias, só escurece mesmo depois das 10 da noite. Foi isso que possibilitou termos tido um dia tão longo hoje e só desembarcar em Half Moon Island, pelo menos nós do grupo de caiaque, depois das oito da noite. Ou oito da tarde, sendo mais preciso.
Desembarcando na gelada e pequena ilha de Half Moon Island, na Antártida
Caminhando em trilha demarcada em Half Moon Island, na Antártida
Localizada entre duas ilhas maiores, Livingston e Greenwich, do arquipélago de Shetland do Sul, a pequena Half Moon tem apenas 1,7 km2 de área, mas mesmo assim é muito popular entre os navios de turismo. Aqui há uma pequena trilha de quase um quilômetro que leva a uma colônia de pinguins chinstrap, além de possibilitar belas cenas de grandes rochedos e geleiras à distância, nas ilhas maiores.
Colônia de pinguins chinstrap em Half Moon Island, na Antártida
Pinguins chinstrap se reúnem em rochedo no alto de Half Moon Island, na Antártida
Uma enorme geleira na ilha em frente à Half Moon Island, na Antártida
Como ainda não estamos no verão, a trilha ainda está coberta de gelo e neve, o que não nos impede de caminhar sobre ela. Na verdade, para nós brasileiros, só faz ela ficar mais interessante! Se os pinguins conseguem caminhar por aqui, daquele jeito desajeitado que tem, nós também podemos!
Passageiros do Sea Spirit se aproximam de colônia de pinguins chinstrap em Half Moon Island, na Antártida
Passageiros do Sea Spirit se aproximam de colônia de pinguins chinstrap em Half Moon Island, na Antártida
O Bart, nosso passageiro artista, faz seus desenhos durante visita à Half Moon Island, na Antártida (foto de Marla Barker)
E assim, com todo o cuidado, chegamos até a colônia de pinguins chinstrap em uma das pontas da ilha. Ao contrário dos pinguins gentoo, que dividem com os chinstraps a pequena Half Moon Island e preferem ficar perto da praia, os chinstrap gostam mais do alto, perto dos rochedos. Devem apreciar a vista de lá, as geleiras ao longe e um grande rochedo coberto por liquens e fungos para lhes fazer sombra.
Pinguins da espécie gentoo e chinstrap se encontram em Half Moon Island, na Antártida
Um solitário pinguim chinstrap parece procurar seus amigos em meio ao gelo de Half Moon Island, na Antártida
Pinguim chinstrap atravessa campo de gelo em Half Moon Island, na Antártida
Interessante acompanhar a caminhada deles da praia até o alto, cruzando com os pinguins gentoo no caminho (será que conversam algo?) e um escorregadio campo de gelo. Depois, quando chegam à área rochosa, aproveitam para segurar uma pequena pedra no bico e, com todo o cuidado trazê-la para cima. É com elas que constroem seu ninho.
Com todo o cuidado, pinguim chinstrap carrega pequena pedra para fazer seu ninho em Half Moon Island, na Antártida
Com todo o cuidado, pinguim chinstrap carrega pequena pedra para fazer seu ninho em Half Moon Island, na Antártida
Além dos pinguins e do belíssimo e gelado visual polar, também tivemos a sorte de encontrar mais uma espécie de foca para a nossa coleção: a foca weddell. Estava lá tranquila, descansando sobre a neve e, só de vez em quando, nos dando a honra de um olhar ou outro.
Foca weddel, caracterizada por essas manchas na pelagem, descansa no gelo de Half Moon Island, na Antártida
Encontro com uma foca weddell em Half Moon Island, na Antártida
O nome dessa foca vem do nome do primeiro europeu a avistá-las, o inglês James Weddell, que também empresta seu nome a um dos mares que circunda a Antártida. Essa foca é o mamífero que vive mais ao sul do mundo, por isso ela demorou mais para ser “descoberta”. Vive ao redor de toda a Antártida e, ao contrário de sua primas, a foca crabeater e a ross, gosta mais de terra firme com gelo que o gelo que se forma sobre o mar.
Uma foca weddell descansa sobre o gelo em Half Moon Island, na Antártida
Um pouco maior que a crabeater, ela é facilmente distinguível pelas manchas arredondadas em sua pele e pelos. Os quase 1 milhão de indivíduos que se calcula existir se alimentam de krill, pequenos peixes e, eventualmente, até pinguins e filhotes de outras focas. Ao mesmo tempo, têm de fugir das focas leopardo e das orcas, seus únicos predadores naturais.
Colônia de pinguins chinstrap em Half Moon Island, na Antártida
Pinguim chinstrap aproveita o fim de tarde em Half Moon Island, na Antártida
Um pinguim chinstrap em Half Moon Island, na Antártida
E assim, com as últimas luzes do dia e depois de ver e fotografar duas espécies de pinguins e conhecer um novo tipo de foca, voltamos ao Sea Spirit para um merecido jantar. Amanhã, finalmente, será o grande dia de pisarmos em solo antártico de verdade, no próprio continente. Nada de ilhas, queremos o continente mesmo. Antártida, aí vamos nós!
O aspecto polar de Half Moon Island, na Antártida, no final de tarde
No fim de tarde durante visita à Half Moon Island, na Antártida
Mesa em laje alagada nas Cachoeiras Gêmeas, região de Carolina, na Chapada das Mesas - MA
Depois de um café da manhã sortido e profissional como há muito não víamos, cruzamos todo o movimentado centro de Araguarina para pegar a estrada em direção à Carolina, já no Maranhão. Araguaína, hoje a segunda maior cidade de Tocantins, começou a se desenvolver após a construção da estrada Belém-Brasília. Outra cidade que também se beneficiou com esta estrada foi a maranhense Imperatriz. Antes disso, era Carolina a grande metrópole da região. Hoje, ela é de 5 a 10 vezes menor que suas duas grandes "vizinhas".
Igreja em Araguaína - TO
São pouco mais de 100 km entre Araguaína e Filadelfia, a cidade em Tocantins de onde se pega a balsa para cruzar o rio e chegar ao Maranhão e à Carolina. Nós ficamos impressionados com a paisagem na estrada. Acabou a amazônia e começou o cerrado e a gente nem tinha percebido! Acho que foi porque os últimos 150 quilômetros, ontem, foram no escuro. E, antes disso, já não havia mas a amazônia. Mas ali a causa era outra: desmatamento. Enfim, agora estávamos em pleno cerradão! Vai ser a paisagem que nos acompanhará nas próximas semanas, com certeza.
Represa transbordando em Filadelfia - TO
Para chegar ao atracadouro da balsa em Filadelfia, demos de cara com outro problema que aflige a região. O rio está muito mais alto, alagando o porto e as ruas próximas e não é culpa da chuva. Não, a culpa é da barragem e hidrelétrica de Estreito, algumas dezenas de quilômetros rio acima. Agora, não haverá mais épocas de rio baixo e rio alto por aqui, conforme as estações e as chuvas. Vai estar sempre alto. E, com isso, acabaram-se as praias fluviais da região. Pior para os banhistas, pior ainda para os barqueiros, que viviam da renda de trazerem pessoas do outro lado do rio para as praias. Sem praias, sem clientes. Sem clientes, sem renda. Pois é, quando se faz uma barragem, mexe-se na vida de muita gente...
Carolina - MA e a Chapada das Mesas ao fundo, visto de Filadelfia - TO
Curtindo as Cachoeiras Gêmeas, na Chapada das Mesas, região de Carolina - MA
Quanto à nós, instalamo-nos na Pousada das Lajes e, querendo aproveitar a tarde ensolarada, fomos para as cachoeiras Gêmeas, distantes 30 km de Carolina. Em grandes feriados, o local pode receber quase mil pessoas, que chegam em caravanas de ônibus. Mas hoje, erámos nós e mais quatro pessoas. Uma delícia!
Curtindo as Cachoeiras Gêmeas, na Chapada das Mesas, região de Carolina - MA
Aqui também o rio estava mais cheio e a água passava sobre uma laje onde há várias mesas chumbadas. Ali ficamos, os pés dentro d'água, comendo tiragostos e admirando aquelas duas cachoeiras lindas. A temperatura não poderia ser mais agradável e foi uma tarde maravilhosa para comemorar nosso retorno à região nordeste, por onde tanto viajamos há alguns meses. Será um retorno rápido, para conhecer a região do Parque Nacional da Chapada das Mesas, localizado no sul do Maranhão e ainda tão pouco conhecido dos brasileiros. Amanhã, devidamente acompanhados de um guia, vamos explorar o coração do parque, mais de 100 km de estradas de terra e muitas cachoeiras e rios no caminho!
Nadando no lago abaixo das Cachoeiras Gêmeas, na Chapada das Mesas, região de Carolina - MA
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