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As Emoções da Véspera - Blog do Rodrigo - 1000 dias

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As Emoções da Véspera

Falkland, Atlântico Sul Falkland

Propriamente vestidos para fazer caiaque nos mares gelados do sul, no trecho entre Buenos Aires e as Ilhas Malvinas

Propriamente vestidos para fazer caiaque nos mares gelados do sul, no trecho entre Buenos Aires e as Ilhas Malvinas


Essa longa viagem de barco por 2 mil km de mar aberto entre Buenos Aires e as Ilhas Malvinas tem sido muito interessante, mas obviamente não é por isso que estamos todos aqui. Nós viemos porque queremos conhecer terra firme. Uma terra firme isolada e perdida do mundo, ainda imaculada pela civilização, por viajantes e turistas. Lugares que ainda se assemelham a maneira como eram há 10 mil anos, território da natureza e da vida selvagem.

Recebendo instruções sobre embarques e desembarques usando os botes infláveis, um dia antes de chegarmos às Ilhas Malvinas

Recebendo instruções sobre embarques e desembarques usando os botes infláveis, um dia antes de chegarmos às Ilhas Malvinas


Pois bem, esse momento está chegando. Amanhã chegamos às Ilhas Malvinas. Depois, mais uns dias de navegação e chegamos à Geórgia do Sul. Por fim, a cereja do bolo, a Península Antártica. Nesses dias de desembarque, a nossa rotina muda, pelo menos em relação ao que estamos acostumados até agora, aqui dentro do Sea Spirit. E hoje foi o dia de começarmos a nos preparar para o que vem pela frente, pelo tão esperado desembarque.

A Val, guia da equipe de caiaques do Sea Spirit, no trecho entre Buenos Aires e as Ilhas Malvinas

A Val, guia da equipe de caiaques do Sea Spirit, no trecho entre Buenos Aires e as Ilhas Malvinas


Assim, além das palestras sobre animais que estamos e vamos ver e do tempo de observação nos decks externos do Sea Spirit (hoje foi o mais espetacular dia de observação até agora!), também tivemos nosso tempo de instrução sobre os procedimentos de embarque e desembarque e sobre como devemos nos comportar em terra, principalmente quando estivermos próximos da vida animal.

Aprendendo a usar as roupas e equipamentos do caiaque, no trecho entre Buenos Aires e as Ilhas Malvinas

Aprendendo a usar as roupas e equipamentos do caiaque, no trecho entre Buenos Aires e as Ilhas Malvinas


Em primeiro lugar, o procedimento de “seguridade biológica”. Isso é levado muito a sério por todas as empresas que trazem turistas para essa região do globo. A ideia é tentar evitar ao máximo que levemos agentes biológicos “alienígenas” para essas ilhas isoladas. Todas as nossas roupas e equipamentos devem ser minuciosamente limpos antes de desembarcarmos nas Malvinas, para não dar carona até lá para algum inseto, semente, fungo ou qualquer matéria orgânica que não seja nativa de lá. Coisas vivas trazidas da Europa e América não são benvindas por aqui, pois podem causar, eventualmente, um desequilíbrio ecológico prejudicial às plantas e animais autóctones. Cuidado especial com velcros, onde essas coisas costumam se “esconder”. Os calçados de desembarque serão sempre as botas de borracha que ganhamos no primeiro dia de viagem. Antes de entrar nos zodiacs, e também na volta, antes de entrarmos no navio, pisamos com elas em um líquido que extermina 98% das bactérias. Esse procedimento de bioseguridade será repetido sempre que mudarmos de ilhas, antes das Malvinas, antes da Geórgia do Sul e antes da Antártida, pois também não deve haver trânsito de matéria orgânica entre esses três ambientes supostamente isolados entre si.

Propriamente vestido para fazer caiaque nos mares gelados do sul, no trecho entre Buenos Aires e as Ilhas Malvinas

Propriamente vestido para fazer caiaque nos mares gelados do sul, no trecho entre Buenos Aires e as Ilhas Malvinas


Explicado e muito bem entendido isso, passamos aos zodiacs, os barcos infláveis que fazem o nosso transporte entre o navio e terra firme. Todo o cuidado para embarcar e desembarcar dele, já que o mar está sempre em movimento. Todo mundo de coletes e bem agasalhados, sempre atentos aos comandos do guia que estiver no comando do barco. Para embarcar, uma equipe de funcionários nos ajuda, dizendo onde sentar e oferecendo os braços como apoio. Ali, eles são os chefes e nós obedecemos. Simples assim, Cada zodiac leva até dez passageiros, tudo organizado pelos nossos guias e as pessoas vão entrando por ordem de chegada.

O Colin instrui a Ana sobre como usar o caiaque, ainda no convés do Sea Spirit no trecho entre Buenos Aires e as Ilhas Malvinas

O Colin instrui a Ana sobre como usar o caiaque, ainda no convés do Sea Spirit no trecho entre Buenos Aires e as Ilhas Malvinas


Pronto, na teoria, já sabíamos de tudo. Faltava ver na prática. Todo mundo preparado para amanhã? Não, um pequeno e afortunado grupo de 10 pessoas precisava de mais instruções. O grupo do caiaque, eu e a Ana incluídos. Desde que começamos a planejar nossa viagem à Antártida, já imaginávamos atividades com um pouco mais de “adrenalina” no continente branco, como se diz por aí. Queríamos algo que nos aproximasse ainda mais da natureza, dos elementos e da vida selvagem. Montanhas, mergulho, acampamento e caiaques. Infelizmente, essas atividades requerem uma infraestrutura que ainda é bem pouco oferecida aos viajantes mais intrépidos e, quando o são, tem um custo meio salgado. De qualquer maneira, nessa expedição que resolvemos vir, apenas a atividade de caiaques era oferecida. Acampar em solo antártico ou subir alguma das maiores montanhas do continente, são sonhos que ficaram para depois. Alpinismo tem de ser feito em uma expedição especialmente planejada para isso e é bem caro. Acampamento, isso já é mais comum, ofertado por várias expedições. Mergulho, não encontramos nenhuma operação comercial para isso. Nosso sonho em chegar perto de da temida foca leopardo abaixo d’água ainda continua sendo isso, um sonho. Sobrou então a opção do caiaque.

Vestida e com o caiaque montado! (no trecho entre Buenos Aires e as Ilhas Malvinas)

Vestida e com o caiaque montado! (no trecho entre Buenos Aires e as Ilhas Malvinas)


Então, era isso mesmo que queríamos fazer. Mas as vagas eram limitadíssimas para essa atividade. Por isso, não tivemos muito tempo para negociar o preço da expedição. Se quiséssemos o caiaque, tínhamos de fechar logo o pacote. Foi o que aconteceu. Pouco depois, o preço para viajar caiu bastante. Mas as vagas para o caiaque, já tinham mesmo terminado. Quem se deu bem com o preço da cabine teve de se contentar em nos acompanhar de longe, sonhando em como seria se eles mesmos pudessem estar lá. Olhando por esse lado, o preço do caiaque saiu ainda mais caro do que ele realmente custou, quase 1000 dólares por pessoa. Mas nos deu a chance de ter uma experiência que não se pode mensurar em valor monetário...

A afortunada equipe que vai praticar caiaque durante a expedição. (no trecho entre Buenos Aires e as Ilhas Malvinas)

A afortunada equipe que vai praticar caiaque durante a expedição. (no trecho entre Buenos Aires e as Ilhas Malvinas)


Enfim, os dez afortunados do caiaque receberam roupas especiais para esse tipo de atividade em águas geladas. Macacões impermeáveis, coletes salva-vidas específicos, calçados muito mais fashion que as botas regulares e uma espécie de “saia”, que prendemos a boca do caiaque para deixá-lo fechado. Nada de água gelada entrar lá dentro! Todos testamos nossas roupas e depois fomos aos caiaques, ainda no convés do Sea Spirit, para aprender como nos enfiar nele e vedá-lo contra a água e para ajustar o tamanho dos pedais de direção para cada tamanho de perna. Inicialmente, vamos quase todos os quatro casais em caiaques duplos, enquanto duas amigas canadenses ficam em caiaques simples.

A esperada programação para nosso primeiro dia com desembarques. Se tudo der certo, vamos parar em duas pequenas ilhas no noroeste de Falkland

A esperada programação para nosso primeiro dia com desembarques. Se tudo der certo, vamos parar em duas pequenas ilhas no noroeste de Falkland


A nossa guia é a energética Val e será sempre ela a nos acompanhar. Remamos sempre em grupo enquanto um zodiac nos acompanha de longe, tanto para nos trazer para casa novamente como para ajudar a socorrer alguém que eventualmente caia na água gelada. Nossa roupa deve nos proteger contra o frio por algum tempo, mas ninguém quer ou deve ficar muito tempo dentro d’água. É a Val que vai decidir, a cada manhã, se o mar está seguro ou não para remarmos. Devemos sempre estar preparados para isso: ir ou não ir. A segunda opção significa que vamos da maneira convencional, junto com o resto dos outros passageiros. A ideia é sempre tentar fazer as duas coisas: o caiaque e o passeio. Por isso, seremos sempre os primeiros a partir e os últimos a voltar. E assim, já conhecedores do nosso equipamento, tiramos nossas fotos e deixamos tudo arrumadinho para usá-los na primeira oportunidade que surja.

Um brinde ao belíssimo fim de tarde no Sea Spirit um dia antes de chegarmos às Ilhas Malvinas

Um brinde ao belíssimo fim de tarde no Sea Spirit um dia antes de chegarmos às Ilhas Malvinas


Encontro com outro navio na noite anterior à nossa chegada às Ilhas Malvinas

Encontro com outro navio na noite anterior à nossa chegada às Ilhas Malvinas


Então, finalmente, a hora está chegando! Bem no final da tarde, as telas do Sea Spirit começaram a mostrar a programação prevista para o dia seguinte. Ali estava: dois pontos de desembarque em Falkland, as Ilhas Malvinas dos argentinos. Era o sonho antigo se materializando em realidade na frente dos nossos olhos. Tinha de ser comemorado! Pegamos uma taça de vinho e fomos ao convés ver as últimas luzes do dia 6, fotografar e celebrar o grande momento. Foi especial!

Encontro com outro navio na noite anterior à nossa chegada às Ilhas Malvinas

Encontro com outro navio na noite anterior à nossa chegada às Ilhas Malvinas


Marinheiros do Sea Spirit levam uma peça a outro navio na noite anterior à nossa chegada às Ilhas Malvinas

Marinheiros do Sea Spirit levam uma peça a outro navio na noite anterior à nossa chegada às Ilhas Malvinas


Mas o dia não acabou por aí não. Como um prenúncio das inúmeras atividades que nos esperam, depois de 3 dias de rotina no navio, eis que algo foi diferente. Já bem de noite, luzes apareceram no horizonte. Não, ainda não era Port Stanley! Era um outro navio, o primeiro que vimos desde que deixamos o Rio da Prata para trás. E não os encontrávamos por coincidência, não. Ele vinha se comunicando por rádio com o Sea Spirit já fazia tempo. Precisava de ajuda, uma peça importante que havia quebrado. Peça que tínhamos de reserva. Então, exemplo de solidariedade marinha, desviamos um pouco nosso curso para ajudá-los. Emparelhamos, a peça foi embarcada num zodiac e levado até lá, numa operação de pouco mais de uma hora. Não foi presenciada por muita gente, já que a maioria já dormia. Mas não a Ana e a turma dos que costumam esticar a noite com alguns drinques e conversas. Estavam lá para presenciar e fotografar. É, a nossa rotina começa mesmo a mudar a partir de agora...

O Sail, Brian, Jose (nosso barman!), Kim e o Doug (atrás) na noite anterior à nossa chegada às Ilhas Malvinas

O Sail, Brian, Jose (nosso barman!), Kim e o Doug (atrás) na noite anterior à nossa chegada às Ilhas Malvinas

Falkland, Atlântico Sul Falkland, caiaque, Sea Spirit

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