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Itacaré: Trilha da Prainha

Brasil, Bahia, Itacaré

Início da caminhada para a Prainha, em Itacaré - BA

Início da caminhada para a Prainha, em Itacaré - BA


Depois do festerê da noite anterior, quando chegamos na pousada junto com a luz do dia, o desafio passou a ser não perder o horário do café da manhã. Felizmente, parece que a Sage Point já está acostumada com gente festeira pois o horário do café vai até o meio-dia. Não foi preciso tanto e 10:30 lá estávamos nós, curando a ressaca com a brisa que vinha do mar e com mangas e melancias fresquinhas. Devidamente alimentados, estávamos prontos para... uma nova soneca.

Muitos surfistas na Praia da Tiririca, em Itacaré - BA

Muitos surfistas na Praia da Tiririca, em Itacaré - BA


Foi só depois da uma da tarde que conseguimos sair da pousada. Prontos para recuperar o tempo perdido. Fomos em direção a Prainha, considerada uma das mais bonitas do Brasil. Antes de chegar no início da trilha, ainda conhecemos duas vizinhas da Tiririca, que é a preferida dos surfistas e sede de vários campeonatos nacionais e internacionais. Primeiro, a Praia da Costa, com um mar sempre virado, com ondas vindas de todos os lados. Assim, enquanto a Tiririca de um lado e a Ribeira do outro estão sempre lotadas, ela está sempre vazia. A outra foi a Ribeira, onde há uma tiroleza a mais de vinte metros de altura cruzando a pequena praia de lado a lado.

Tirolesa na Praia da Ribeira, em Itacaré - BA

Tirolesa na Praia da Ribeira, em Itacaré - BA


É lá que começa a trilha da Prainha. São 3 km com poucas subidas e descidas, primeiro na sombra da mata e no fim na encosta da montanha, com linda vista para o mar. No meio do caminho, estrategicamente, uma cachoeira. Mas a água do rio é turva e para nós, mal acostumados com as cachoeiras mineiras, nem deu muita vontade de entrar não. A Prainha realmente é linda, areias brancas, quase 1 km de extensão, água bem clara e agradável de nadar.

Quase no final da trilha para a Prainha, em Itacaré - BA

Quase no final da trilha para a Prainha, em Itacaré - BA


Empolgados, eu e a Ana ainda seguimos para a próxima praia a São José. Fica na área de um empreendimento imobiliário, só casão. Os caras estão bem na fita! A praia é maravilhosa e muito bem cuidada. Ladeada de coqueiros e grandes gramados, coisa de filme. Na areia, um chuveirão delicioso, sem economia de água. Coisa de primeiro mundo!

Praia São José, em Itacaré - BA

Praia São José, em Itacaré - BA


A Ana não resistiu e entrou no mar. Até tentou não molhar o ouvido, mas não conseguiu. Mas uma água limpa dessa não pode fazer mal não. Voltamos para a Prainha a tempo de pegar os dois últimos cocos antes do quiosque fechar. A luz do fim de tarde fez a praia ficar ainda mais bonita. Pena que a bateria da máqina resolveu acabar e ficamos sem fotos do horário mais bonito. Eu ainda fui dar outro tchibum. Dessa vez, mais ajuizada, a Ana não foi.

Fim de tarde na Praia São José, em Itacaré - BA

Fim de tarde na Praia São José, em Itacaré - BA


Voltamos bem no fim de tarde, acelerados. Ainda deu tempo de mais um banho na Praia do Costa, aquela vazia que ninguém nada. Deliciosa! Fim de caminhada, felizes de ter cumprido a programação do dia, mesmo tendo exagerado na programação da noite. Por sinal, hoje, lei seca à partir da meia-noite, a programação noturna será mais curta, a noite mais bem dormida e o dia de amanhâ, mais comprido. Teremos tempo de sobra para mais trilhas, mais praias, mais cachoeiras. E com máquina com baterias carregadas!

Fim de tarde na Praia São José, em Itacaré - BA

Fim de tarde na Praia São José, em Itacaré - BA

Brasil, Bahia, Itacaré, Prainha, São José, trilha

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A Civilização Esquecida - Versão Argentina

Argentina, San Ignacio Mini

Visitando as lindas ruínas jesuítas de San Ignacio Mini, na Argentina

Visitando as lindas ruínas jesuítas de San Ignacio Mini, na Argentina


Menos de 250 km separam São Miguel das Missões, no Rio Grande do Sul, e San Ignacio Mini, na província de Missiones, na Argentina. Nas duas cidades se encontram as mais famosas ruínas das antigas Missões jesuítas nos territórios brasileiro e argentino, respectivamente. Esse foi o caminho que fizemos hoje, passando por Porto Xavier e cruzando o rio Uruguay de balsa para San Xavier, já do lado argentino, embora o google maps se recuse a mostrar esse caminho. No próximo post vou falar da nossa volta à Argentina, início do longo caminho que nos levará até Ushuaia, na ponta sul do continente. Nesse, volto a falar das Missões, que aqui em território argentino são muito mais valorizadas, histórico e turisticamente!


[a]Mapa da viagem entre São Miguel das Missões, no rio Grande do Sul, e San Ignacio Mini, na Argentina, cruzando o rio Uruguay de balsa, em Porto Xavier. A droga do Google Maps não sabe, mas pode-se sim cruzar a fronteira ali! Com isso, a viagem não tem mais de 250 km.

No lado argentino, ao contrário do brasileiro, são várias as Missões que ainda podem ser visitadas. San Ignacio Mini é apenas a mais famosa e melhor restaurada de todas elas. São 15 no total (nem todas visitáveis), contra 7 no Brasil (apenas São Miguel está em bom estado) e 8 no Paraguay (veja aqui uma delas, que visitamos quando passamos por aquele país), totalizando as 30 missões que existiam em meados do século XVIII.

Mapa mostra a localização das antigas Missões Jesuítas no Paraguai, Argentina e Brasil

Mapa mostra a localização das antigas Missões Jesuítas no Paraguai, Argentina e Brasil


San Ignacio Mini, a mais bem conservada e restaurada missão jesuíta na Argentina

San Ignacio Mini, a mais bem conservada e restaurada missão jesuíta na Argentina


Nossa passagem pelo rio Uruguay foi meio demorada, quase 4 horas de espera pela próxima balsa. Mesmo assim, certamente foi mais tranquila do que a passagem dos padres jesuítas e milhares de índios que fugiam dos bandeirantes paulistas caçadores de escravos nas primeiras décadas do séc. XVII. Os religiosos vinham instalando as Missões, ou “Reducciones” (em espanhol), desde 1620, dos dois lados do rio, numa tentativa de evangelizar os habitantes do novo mundo, arrebanhar novos seguidores para a igreja de Roma e pacificar os novos súditos do Rei de Espanha.

As ruínas jesuítas de San Ignacio Mini, na Argentina

As ruínas jesuítas de San Ignacio Mini, na Argentina


As ruínas jesuítas de San Ignacio Mini, na Argentina

As ruínas jesuítas de San Ignacio Mini, na Argentina


Os jesuítas formavam então a linha de frente da Igreja Católica, ainda abalada com o movimento da Reforma na Europa e o surgimento da religião Protestante. Expandir a fé no mundo tornou-se uma prioridade e essa Ordem de organização quase militar, que exigia de seus membros uma rica formação educacional e filosófica, foi a mais eficiente no processo de catequização dos indígenas americanos, desde a Flórida e Califórnia, no norte, até a Argentina, aqui no sul, deixando para trás seus concorrentes dominicanos e franciscanos.

Para quem gosta de observar detalhes e gosta de arquitetura, a missão jesuíta de San Ignacio Mini, na Argentina, é imperdível!

Para quem gosta de observar detalhes e gosta de arquitetura, a missão jesuíta de San Ignacio Mini, na Argentina, é imperdível!


San Ignacio Mini, a mais bem conservada e restaurada missão jesuíta na Argentina

San Ignacio Mini, a mais bem conservada e restaurada missão jesuíta na Argentina


Em todos os lugares, a tática foi a mesma: aproximar-se das populações indígenas, aprender a sua língua e cultura e, através delas, chegar a seus corações e mentes, atraindo-os para a chamada “fé universal”. Entre os índios guaranis, que habitavam a região fronteiriça entre Brasil, Argentina, Uruguay e Paraguay, foi a música que propiciou esse primeiro contato, a primeira “língua” comum entre os religiosos e os indígenas. O próximo passo foi aprender a língua e a cultura, principalmente a fé dos guaranis. Os religiosos não tardaram a perceber alguns pontos comuns entre as duas religiões, como a ideia do paraíso e o mito guarani da “Terra dos Bons Índios”, e usaram essas semelhanças para atrair os indígenas para a nova fé. A primeira batalha, travada contra os pajés e feiticeiros da antiga religião, foi vencida e, aos poucos, tribos inteiras foram atraídas para as reducciones. Esse nome vem do fato dos índios, que antes viviam espalhados em vastos territórios, agora se uniam para viver em territórios reduzidos, as vilas que se formavam ao redor de grandes igrejas.

As ruínas da Missão de Santa Ana, próximo à San Ignacio Mini, na Argentina

As ruínas da Missão de Santa Ana, próximo à San Ignacio Mini, na Argentina


Painel informativo na Missão jesuíta de San Ignacio Mini, na Argentina

Painel informativo na Missão jesuíta de San Ignacio Mini, na Argentina


Caciques traziam todos os seus comandados para viver nas reducciones, mas mantinham seu poder sobre eles. Os vários caciques formavam uma espécie de “colégio de notáveis” e, entre eles, escolhiam um líder que tinha o máximo poder político dentro daquela reducción. O poder era dividido com os outros caciques e também com os dois padres jesuítas que vivam em cada missão. Esses, além do poder político, tinham todo o poder espiritual. Enquanto um dos padres era o responsável pela vida religiosa, o outro se ocupava da educação. Crianças estudavam música, religião, guarani e espanhol desde cedo, além de ofícios de marcenaria e agricultura, entre outros. Adultos trabalhavam nas lavouras e construção de novos prédios. A jornada de trabalho era de 6 horas diárias, fixadas em lei, sempre em terras comunais. Com isso, sobrava tempo para se trabalhar em pequenas áreas próprias que os nativos possuíam, além de outras atividades, como a importante missa ao final da tarde.

Ruínas da igreja da Missão de Santa Ana, próximo à San Ignacio Mini, na Argentina

Ruínas da igreja da Missão de Santa Ana, próximo à San Ignacio Mini, na Argentina


Visitando as lindas ruínas jesuítas de San Ignacio Mini, na Argentina

Visitando as lindas ruínas jesuítas de San Ignacio Mini, na Argentina


Outra vantagem para os índios viverem nas reducciones era a segurança que isso propiciava, principalmente frente a índios de outras tribos e mesmo contra rivais guaranis. Em contrapartida, tantos indígenas vivendo num mesmo lugar e já “amansados” pelos jesuítas atraiu um novo perigo: a cobiça dos bandeirantes paulistas caçadores de escravos. Várias missões no atual território brasileiro foram destruídas por esses caçadores impiedosos que não se importavam com a altíssima taxa de mortalidade no transporte dos novos escravos até São Paulo, já que a “fonte” parecia que nunca iria secar. Os jesuítas levaram os indígenas para o outro lado do rio Uruguay, mas mesmo aí eles estavam ao alcance dos bandeirantes. Foi quando, em 1638, o jesuíta Antonio Montoya conseguiu que o Rei de Espanha permitisse que indígenas portassem armas de fogo. Um exército de guaranis foi formado e treinado pelos jesuítas e três anos mais tarde os bandeirantes foram fragorosamente derrotados pelos indígenas na batalha de Mboboré, perto de um morro com mesmo nome na província de Missiones, a oeste do rio Uruguay, na Argentina. A partir daí, o povo missioneiro gozou de relativa paz por mais de 120 anos e puderam, inclusive, se restabelecer na leste do rio Uruguay, no atual território brasileiro.

Para quem gosta de observar detalhes e gosta de arquitetura, a missão jesuíta de San Ignacio Mini, na Argentina, é imperdível!

Para quem gosta de observar detalhes e gosta de arquitetura, a missão jesuíta de San Ignacio Mini, na Argentina, é imperdível!


Para quem gosta de observar detalhes e gosta de arquitetura, a missão jesuíta de San Ignacio Mini, na Argentina, é imperdível!

Para quem gosta de observar detalhes e gosta de arquitetura, a missão jesuíta de San Ignacio Mini, na Argentina, é imperdível!


Esse período de paz e alta organização social trouxe grande prosperidade econômica ao povo missioneiro. A economia girava sem moedas, com base na troca de mercadorias, principalmente entre as reducciones que se especializavam em alguns tipos de produtos (por facilidade de clima ou hidrografia), mas também com cidades e vilas que existiam ao redor do território. Evidentemente, essa relativa pujança e estabilidade atraíam a inveja de muitos em relação àquele território que tinha um modo de vida próprio, livre de muitos impostos e que respondia diretamente ao rei.

Quadro mostra como era rezado o Padre Nosso na língua guarani (em San Ignacio Mini, na Argentina)

Quadro mostra como era rezado o Padre Nosso na língua guarani (em San Ignacio Mini, na Argentina)


Visitando as lindas ruínas jesuítas de San Ignacio Mini, na Argentina

Visitando as lindas ruínas jesuítas de San Ignacio Mini, na Argentina


A civilização missioneira começou a terminar em meados do séc. XVIII, quando Espanha e Portugal assinaram o Tratado de Madrid. Todo o território a leste do rio Uruguay seria entregue a Portugal e as Missões ali estabelecidas deveriam ser desmanteladas e suas populações transferidas para o lado ocidental do rio. Com uma canetada, a vida de mais de 20 guaranis que sempre foram fiéis a Espanha virava de cabeça para baixo. Muitos se recusaram e a repressão dos exércitos unificados de Portugal e Espanha foi violenta, destruindo os Sete Povos das Missões. Pouco tempo depois, toda a Ordem Jesuíta foi banida da Espanha e seu império colonial. Agora era a vez das reducciones do outro lado do Uruguay sofrerem. Seu controle foi passado para outras ordens religiosas e para administradores civis indicados por políticos locais. A desordem resultante foi enorme e, em duas décadas a população das missões caiu pela metade, assim como declinou sua atividade econômica e sua ordem social. Um período de instabilidade política se seguiu, época das guerras de libertação da América espanhola e portuguesa. Em 1820 as missões estavam abandonas e seus prédios começaram a se deteriorar. O tempo tratou de apagar os vestígios de uma civilização que, pouco tempo antes, parecia fadada à eternidade.

As ruínas da Missão de Santa Ana, próximo à San Ignacio Mini, na Argentina

As ruínas da Missão de Santa Ana, próximo à San Ignacio Mini, na Argentina


Iluminação torna as ruínas da Missão de Santa Ana, próximo à San Ignacio Mini, na Argentina, ainda mais belas e instigantes

Iluminação torna as ruínas da Missão de Santa Ana, próximo à San Ignacio Mini, na Argentina, ainda mais belas e instigantes


Foi apenas a partir da metade do século XX que o interesse histórico e turístico começou a revitalizar algumas das antigas reducciones. Algumas delas foram muito restauradas, para tentar mostrar ao visitante como eram no período de sua glória, como San Ignacio Mini, a mais famosa delas. Outras, como Santa Ana, ainda tem muito para ser descoberto, embora as edificações principais já estejam limpas da vegetação. E há outras como a de Loreto, em que o estado natural é mantido, de modo que o turista pode ter a real ideia do efeito do tempo em antigas obras humanas, assim como perceber como são as ruínas quando os arqueólogos as descobrem.

Nosso excelente guia nos explica sobre a Missão de Santa Ana, próximo à San Ignacio Mini, na Argentina. A coluna é de madeira e tem 300 anos de idade!

Nosso excelente guia nos explica sobre a Missão de Santa Ana, próximo à San Ignacio Mini, na Argentina. A coluna é de madeira e tem 300 anos de idade!


Com um mapa, nosso guia na Missão de Santa Ana nos dá uma verdadeira aula sobre a história das Missões Jesuítas (próximo à San Ignacio Mini, na Argentina)

Com um mapa, nosso guia na Missão de Santa Ana nos dá uma verdadeira aula sobre a história das Missões Jesuítas (próximo à San Ignacio Mini, na Argentina)


Nós, chegando à região já no final da tarde, devido ao atraso na balsa para atravessar o rio, seguimos diretamente para a Redicción de Santa Ana, mesmo antes de encontrarmos algum hotel para nos instalar. Não poderia ter sido melhor ideia! Chegamos no último momento de visitas e fomos recebidos pelo guia Yoyo, um dos melhores que conhecemos nesses 1000dias. Sua paixão e conhecimento pelo tema nos contaminou, enquanto nos mostrava as ruínas e nos ensinava sobre os diversos aspectos da vida dos índios e jesuítas que ali viviam. Aprendemos mais nessa uma hora do que em várias horas de pesquisas na internet. De repente, toda aquela história passou a fazer sentido, uma realidade estranha se tornou familiar, personagens ganharam vida. Foi mesmo muito legal!

O fim de tarde dá um clima ainda mais misterioso às ruínas da Missão de Santa Ana, próximo à San Ignacio Mini, na Argentina

O fim de tarde dá um clima ainda mais misterioso às ruínas da Missão de Santa Ana, próximo à San Ignacio Mini, na Argentina


Em belo fim de tarde, caminhando com nosso excelente guia nas ruínas da Missão de Santa Ana, próximo à San Ignacio Mini, na Argentina

Em belo fim de tarde, caminhando com nosso excelente guia nas ruínas da Missão de Santa Ana, próximo à San Ignacio Mini, na Argentina


A tarde foi dando lugar a noite, as sombras de árvores e antigas pilastras cresceram, a iluminação foi acesa e o ambiente se tornou ainda mais mágico. Eu diria até que fantasmagórico, principalmente quando visitamos o antigo cemitério, que continuou a ser usado mesmo depois do fim da reducción, até poucas décadas atrás. Não era mais apenas as paredes que pareciam falar de tempos passados, mas também as pessoas que ali viveram.

Hologramas criam verdadeiros fantasmas no excelente show de luzes e sons na missão de San Ignacio Mini, na Argentina

Hologramas criam verdadeiros fantasmas no excelente show de luzes e sons na missão de San Ignacio Mini, na Argentina


Hologramas criam verdadeiros fantasmas no excelente show de luzes e sons na missão de San Ignacio Mini, na Argentina

Hologramas criam verdadeiros fantasmas no excelente show de luzes e sons na missão de San Ignacio Mini, na Argentina


Bom, completamente imersos no mundo missioneiro, encontramos um hotel para nos instalar e seguimos para a Missão de San ignacio Mini, para assistir ao show de luzes e sons noturno. Outra vez, um espetáculo! Com certeza, faz valer a pena o preço mais alto que se paga para entrar nas Missões na Argentina. No show, caminhamos pela reducción com paradas em lugares estratégicos quando filmagens são projetadas em paredes de pedra, folhagens de árvores ou cortinas de água mostrando como era a vida nas Missões nos tempos de glória. Agora sim, as paredes falavam! Literalmente, e não como figura de linguagem! Foi como uma viagem no tempo, para 300 anos atrás.

Ruínas da missão de San Ignacio Mini iluminadas, durante show de luzes e sons, na Argentina

Ruínas da missão de San Ignacio Mini iluminadas, durante show de luzes e sons, na Argentina


Imagens são projetadas nas ruínas da missão de San Ignacio Mini, na Argentina, durante o ótimo show de sons e luzes

Imagens são projetadas nas ruínas da missão de San Ignacio Mini, na Argentina, durante o ótimo show de sons e luzes


No dia seguinte, pela manhã, voltamos às ruínas de San Ignacio Mini. Para quem gosta de arquitetura, é um show! Arquitetura barroca com tempero indígena, algo único no planeta, existe apenas por aqui, onde floresceram essas 30 Missões. E San Ignacio Mini é, talvez, o melhor exemplar de tudo isso. Além disso, diversos painéis explicativos se espalham pelas ruínas. Para nós, que havíamos estado ali na noite anterior, assistindo as paredes falando e os indígenas cantando, foi uma sensação meio estranha, quase fúnebre, ouvir aquele silêncio todo. Estávamos quase de ressaca...

San Ignacio Mini, a mais bem conservada e restaurada missão jesuíta na Argentina

San Ignacio Mini, a mais bem conservada e restaurada missão jesuíta na Argentina


Uma das muitas e vistosas portas das ruínas de San Ignacio Mini, na Argentina

Uma das muitas e vistosas portas das ruínas de San Ignacio Mini, na Argentina


Por fim, era hora de seguirmos viagem, começar nosso longo caminho rumo ao oeste, aos Andes e Oceano Pacífico. Mas antes, uma última parada na Missão de Loreto, não muito longe dali. Loreto, ao contrário das Missões que havíamos conhecido, ainda está sob a vegetação, grande árvores, raízes, moitas e arbustos. Está como estiveram as outras Missões anos ou décadas atrás. É uma amostra da natureza recuperando seu espaço. Para nós, que passamos na América Central, é um forte reminiscente de várias das ruínas maias que conhecemos por lá. A diferença é que a aqui a vegetação cobre igrejas e casas, enquanto lá está sobre pirâmides e templos.

Lendo um dos muitos painéis informativos espalhados pelas ruínas de San Ignacio Mini, na Argentina

Lendo um dos muitos painéis informativos espalhados pelas ruínas de San Ignacio Mini, na Argentina


Caminhando pelas ruínas de San Ignacio Mini, na Argentina

Caminhando pelas ruínas de San Ignacio Mini, na Argentina


O interessante é conhecer essa antiga Missão depois de já ter visto outras, restauradas. Assim, já sabemos sobre o que estamos pisando: a praça central, as alamedas, a casa dos padres, dos caciques, a antiga horta e lavoura, a igreja. Se não tivéssemos visto isso tudo de pé ou bem delineado nas outras missões, nossa imaginação leiga dificilmente vislumbraria a grande vila que isso já foi. Mas agora, com os olhos treinados e orientados pelo guia que nos acompanha, aquelas pedras desarrumadas sufocadas pela vegetação fazem sentido, tem uma lógica. Aqui, não são os antigos sons que ainda ecoam. Não! São os sons de hoje mesmo, grilos e cigarras, folhas que caem e galhos que estalam sob nossos pés. O presente sobrepujou o passado. Prova inconteste da nossa efemeridade.. Loreto é uma visita imperdível, mas depois de se conhecer San Ignacio Mini e Santa Ana.

A mata cobre boa parte da Missão de Santa Ana, próximo à San Ignacio Mini, na Argentina

A mata cobre boa parte da Missão de Santa Ana, próximo à San Ignacio Mini, na Argentina


As ruínas da Missão de Santa Ana, próximo à San Ignacio Mini, na Argentina

As ruínas da Missão de Santa Ana, próximo à San Ignacio Mini, na Argentina



P.S Infelizmente, todas as nossas fotos de Loreto se perderam. Não no tempo, como a própria Missão, mas no espaço mesmo. Estavam na máquina que nos foi roubada no Chile, pouco tempo depois. Felizmente, não conseguiram roubar nossas memórias...

Iluminação torna as ruínas da Missão de Santa Ana, próximo à San Ignacio Mini, na Argentina, ainda mais belas e instigantes

Iluminação torna as ruínas da Missão de Santa Ana, próximo à San Ignacio Mini, na Argentina, ainda mais belas e instigantes

Argentina, San Ignacio Mini, Arquitetura, história

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Passagem por Feira

Brasil, Bahia, Feira de Santana

Kalilandia, nosso hotel em Feira de Santana - BA

Kalilandia, nosso hotel em Feira de Santana - BA


No mesmo dia em que exploramos Igatu e nadamos no Poço Azul, seguimos para Feira de Santana, a segunda maior cidade da Bahia, com cerca de 700 mil habitantes. Já tínhamos passado por Feira na ida para a Chapada, sem parar na cidade. A razão da volta agora, nos desviando do nosso roteiro rumo ao Piauí, foi a revisão dos 20 mil km da Fiona. A rede de concessionárias da Fiona não é muito grande aqui no Nordeste. Fora das capitais, apenas em Barreiras, muito longe e para o oeste e em Feira. Não seria possível chegar até Teresina sem estourar a quilometragem então, a solução foi voltar para Feira.

Aproveitamos então para resolver outras pendências, enquanto a Fiona se tratava. A Ana finalmente colocou no correio nossas justificativas de voto do segundo turno enquanto eu fui cortar o meu cabelo. Tivemos algum tempo para mexer na internet e fomos muito bem tratados na nossa pousada, o Kalilandia, no bairro de mesmo nome, homenagem a um turco comerciante do séc XIX que morava naquela região.

Com o James, do hotel Kalilandia, em Feira de Santana - BA

Com o James, do hotel Kalilandia, em Feira de Santana - BA


Passamos um certo calor na cidade, que já fica no sertão da Bahia. Mas achei engraçado que, ao comentar com um taxista que seguiríamos para Petrolina, em Pernambuco, ele respondeu "Nossa... lá faz um calooor!" E eu pensei com meus botões: "Se um cara de Feira diz que lá é que é calor, o negócio é sério!"

Mas a minha lembrança mais forte de Feira será, com certeza, o jantar que tivemos ontem de noite. A melhor carne de sol que já comi na vida, no restaurante "Paraíso da Carne de Sol". Uma delícia! A gente se esbaldou! O engraçado foi que, querendo "economizar", pedi um prato só para mim e a Ana. As porções são grandes aqui. O prato veio e era gigantesco. A gente se arrependeu de não ter pedido meia porção. Aproveitamos para comer e comer e comer. Aí, veio a conta e não é que estavam cobrando só meia porção mesmo! O garçom disse que ele tomou a iniciativa de pedir a meia; já sabia que era mais do que o suficiente!

Andando de jegue em estrada no interior da Bahia

Andando de jegue em estrada no interior da Bahia


E assim foi nossa passagem por Feira: gente simpática, comida muito boa, pendências resolvidas, Fiona renovada e muito calor. Rumo à Petrolina, em Pernambuco, em frente a um velho amigo nosso, o São Francisco!

Brasil, Bahia, Feira de Santana,

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O Trem da Morte e o Caminho até La Paz (1990)

Brasil, Mato Grosso Do Sul, Corumbá, Bolívia, Cochabamba, Santa Cruz de La Sierra

Viajando na antiga linha de trem entre Bauru, no interior de São Paulo, e Corumbá, no Mato Grosso do Sul, fornteira com a Bolívia (viagem de Julho de 1990)

Viajando na antiga linha de trem entre Bauru, no interior de São Paulo, e Corumbá, no Mato Grosso do Sul, fornteira com a Bolívia (viagem de Julho de 1990)


Nós não estivemos no Trem da Morte durante os 1000dias. Mas como esta é uma viagem icônica dentro do nosso continente, resolvi fazer um relato de uma outra viagem em que passei por aí, em 1990. As fotos são todas da época, quando ainda era um estudante universitário

Talvez, um dos maiores consensos que existe entre direitistas e esquerdistas, idealistas e pragmáticos, liberais e estatistas, radicais e reacionários, seja a necessidade do Brasil aumentar, em muito, sua malha ferroviária, seja de carga, seja de passageiros. Desde minhas aulas de geografia na 5ª série que ouço isso. Uma coisa tão lógica, tão gritante, mas que entra ano, passa ano, entra governo, passa governo, não muda. Ao contrário, só piora. Vemos mais e mais caminhões nas estradas e nem um trenzinho para viajarmos. Tantas linhas que já houveram, no tempo de nossos pais e avós, completamente abandonadas e se deteriorando com o tempo. Uma pena!

Nossa viagem do Brasil a La Paz, na Bolívia. Começamos pela antiga linha de trem Bauru-Corumbá. Já na Bolívia, o famoso Trem da Morte, até Santa Cruz de La Sierra. Daí até Cochabamba e La Paz, de ônibus

Nossa viagem do Brasil a La Paz, na Bolívia. Começamos pela antiga linha de trem Bauru-Corumbá. Já na Bolívia, o famoso Trem da Morte, até Santa Cruz de La Sierra. Daí até Cochabamba e La Paz, de ônibus


Um bom exemplo é a antiga linha de passageiros que unia Bauru, no interior de São Paulo, com Corumbá, no Mato Grosso do Sul, fronteira com a vizinha Bolívia. Essa, pelo menos, ainda tive a sorte de conhecer e usufruir. Foi em seus últimos anos, início de Julho de 1990. Eu, meu primo Haroldo e nosso amigo da UNICAMP, o Marcelo, embarcamos nesse trem para nosso primeiro mochilão pela América do Sul. Naquela época, assim como hoje, a viagem a Machu Picchu era como um batismo para estudantes brasileiros que começavam a se aventurar em viagens ao exterior. E nenhuma viagem a Machu Picchu era completa se não incluísse a viagem no Trem da Morte, a famosa linha de trem que liga Quijarro, na fronteira com o Brasil, com Santa Cruz de La Sierra, já no coração da Bolívia. A partir daí, uma combinação de ônibus, trem e barco nos leva até La Paz, o lago Titicaca, Puno, Cuzco e, enfim, a cidade perdida dos incas. O roteiro dessa viagem icônica não mudou nos últimos 25 anos.

Na estação ferroviária de Bauru, interior de São Paulo, aguardando o trem para Corumbá, na fronteira com a Bolívia (viagem de Julho de 1990)

Na estação ferroviária de Bauru, interior de São Paulo, aguardando o trem para Corumbá, na fronteira com a Bolívia (viagem de Julho de 1990)


Com o Haroldo e o Marcelo, embarcando no vagão-dormitório do antigo trem que fazia a linha entre Bauru, interior de São Paulo, e Corumbá, no Mato Grosso do Sul, fronteira com Bolívia (viagem de Julho de 1990)

Com o Haroldo e o Marcelo, embarcando no vagão-dormitório do antigo trem que fazia a linha entre Bauru, interior de São Paulo, e Corumbá, no Mato Grosso do Sul, fronteira com Bolívia (viagem de Julho de 1990)


Durante os 1000dias, eu e a Ana não fizemos esse percurso. Afinal, estávamos de carro, a Fiona. É claro que passamos em La Paz, Cuzco, Machu Picchu, mas os roteiros foram outros. Com isso, um relato sobre o icônico Trem da Morte, talvez a viagem de trem mais famosa do nosso continente, ficaria de fora dos 1000dias. Para sanar essa “falha”, resolvi relembrar minha própria experiência nesse percurso, muito tempo antes de conhecer a Ana ou de comprar a Fiona. Como disse, viajava com o Haroldo e o Marcelo, e tentávamos, como os estudantes de hoje, espremer em 20-30 dias o maior número possível de lugares e atrações de Bolívia e Peru. Afinal, o inverno é a melhor época do ano para se viajar a Machu Picchu (o objetivo maior da viagem) e nós, estudantes, além de pouco dinheiro no bolso, só temos um mês de férias nesse período do ano.

Corredor do vagão do nosso trem entre Bauru, interior de São Paulo, e Corumbá, na fronteira com a Bolívia (viagem de Julho de 1990)

Corredor do vagão do nosso trem entre Bauru, interior de São Paulo, e Corumbá, na fronteira com a Bolívia (viagem de Julho de 1990)


A primeira dificuldade da viagem foi conseguir um bom lugar nesse trem que viajava de Bauru a Corumbá. Uma opção muito mais simpática do que os ônibus interestaduais que os viajantes de hoje tem de tomar. Por sorte, tínhamos uma amiga eu morava em Bauru e ficava de olho, quase que diariamente, na venda de passagens de trens. Em tempos pré-internet, foi ela que conseguiu os lugares para nós. As passagens se esgotavam rapidamente, assim que eram iniciadas as vendas para uma determinada data. Ela ligava lá de tempos em tempos inquirindo sobre as vendas até que, um belo dia, lhe disseram que, não só haviam iniciado a venda, como as passagens já estavam esgotadas. Ela foi para lá pessoalmente, deu em escândalo dizendo que havia tentado no dia anterior e, por passe de mágica, as passagens “apareceram”. Nossa viagem em cabines-dormitório estava garantida! Começaríamos nosso primeiro mochilão internacional com chave de ouro! E assim foi, passamos boa parte das nossas 30 horas de viagem conhecendo pessoas e turistas estrangeiros no vagão-restaurante, conversa sempre regada com muita cerveja. Além disso, tivemos uma boa cama para dormir, muito tempo para fotografar e até uma rápida parada na capital Campo Grande, onde descemos para comprar frutas. Viajar de trem é mesmo uma delícia!

Com amigos holandeses, enchendo a cara no vagão-restaurante do trem que nos levava de Bauru, interior de São Paulo, para Corumbá, na fronteira com a Bolívia (viagem de Julho de 1990)

Com amigos holandeses, enchendo a cara no vagão-restaurante do trem que nos levava de Bauru, interior de São Paulo, para Corumbá, na fronteira com a Bolívia (viagem de Julho de 1990)


Por falar nisso, a etapa seguinte da viagem também seria ferroviária. Agora sim, o famoso e temido Trem da Morte. Esse nome tétrico não vem de acidentes fatais ou coisa parecida, mas do fato que o trem foi muito usado para carregar doentes e mortos de uma terrível epidemia de febre amarela que houve no leste da Bolívia já há um século. O apelido, detestado pela empresa, pegou e ficou mundialmente conhecido. Mas, não é pelo fato dele não “merecer” esse nome que faz da viagem um mar de rosas. Mas não é tão mal assim, não. O mais difícil é embarcar. Uma vez dentro do trem, a gente se defende e espera o tempo passar, mais de 15 horas de viagem.

O famoso Trem da Morte chega à estação em Quijarro, na Bolívia. Ele vai nos levar até Santa Cruz de La Sierra(viagem de Julho de 1990)

O famoso Trem da Morte chega à estação em Quijarro, na Bolívia. Ele vai nos levar até Santa Cruz de La Sierra(viagem de Julho de 1990)


Uma vez em Corumbá, precisamos pegar um táxi até a fronteira. Aí, fazemos os trâmites burocráticos e, a pé ou de táxi, seguimos para a “cosmopolita” Quijarro, uma cidade que, pelo menos nessa época, era o fim do fim do mundo. Hoje, parece que melhorou um pouco. Mas temos todos de passar por aí, pois é de onde parte o Trem da Morte, único caminho na época em direção à Santa Cruz. Hoje, já há estradas. As passagens de trem se esgotavam rapidamente e quando chegamos à estação, só havia tickets para daí a três dias. Nós não tínhamos esse tempo de folga e muito menos pretendíamos ficar tanto tempo mofando no fim do fim do mundo. A solução foi o famoso “jeitinho boliviano”. Com tantos turistas querendo deixar a cidade, até as passagens no câmbio negro estavam difíceis e apareceu um boliviano com um esquema de nos colocar dentro do trem na estação seguinte, em Puerto Suarez. Ali, ele era amigo do fiscal. Iríamos sem lugar marcado nas cadeiras, mas conseguiríamos partir naquele mesmo dia. Não pestanejamos!

Paisagens bolivianas vistas das janelas do Trem da Morte, entre Quijarro e Santa Cruz de La Sierra (viagem de Julho de 1990)

Paisagens bolivianas vistas das janelas do Trem da Morte, entre Quijarro e Santa Cruz de La Sierra (viagem de Julho de 1990)


Paisagens bolivianas vistas das janelas do Trem da Morte, entre Quijarro e Santa Cruz de La Sierra (viagem de Julho de 1990)

Paisagens bolivianas vistas das janelas do Trem da Morte, entre Quijarro e Santa Cruz de La Sierra (viagem de Julho de 1990)


Só ficamos meio apreensivos quando fomos num carro baleado, em uma estrada rural, de Quijarro a Puerto Suarez. Se quisessem nos matar e desovar ali mesmo, duvido que conseguíssemos fazer algo. A tensão só terminou quando chegamos á estação. Ali, após um desentendimento sobre preços, acabamos embarcando, para nosso grande alívio. O trem vinha vazio no início da viagem e não foi difícil encontrar assentos livres. Depois, conforme passávamos pelas estações, mais gente entrava e passamos das cadeiras para o chão e, mais tarde, da posição sentada para a levantada, de pé mesmo. As últimas horas foram um sufoco, muito cansados, espremidos, em pé e torcendo para chegar.

mais uma das inúmeras paradas do Trem da Morte, entre Quijarro e Santa Cruz de La Sierra, na Bolívia (viagem de Julho de 1990)

mais uma das inúmeras paradas do Trem da Morte, entre Quijarro e Santa Cruz de La Sierra, na Bolívia (viagem de Julho de 1990)


Brincando com família brasileira em uma das muitas paradas do Trem da Morte, entre Quijarro e Santa Cruz de La Sierra, na Bolívia (viagem de Julho de 1990)

Brincando com família brasileira em uma das muitas paradas do Trem da Morte, entre Quijarro e Santa Cruz de La Sierra, na Bolívia (viagem de Julho de 1990)


Mas boa parte da viagem foi gostosa, antes do aperto. Fizemos vários conhecidos, entre bolivianos, gringos e brasileiros. Tinha até um simpático casal com três filas pequenas. Haviam comprado a passagem com vários dias de antecedência e ficaram esperando na muito mais simpática Corumbá. Mesmo com os assentos, o pai acabou se arrependendo de não ter levado as filhas em um avião, ao invés daquele trem apertado. Era interessante também durante as paradas, quando os vagões eram invadidos por vendedores ambulantes que gritavam com toda a força dos pulmões. Muita gente comprava frango com farofa, que vinha dentro de um saco plástico, e comia tudo ali mesmo, com as mãos, deixando o ambiente bem “perfumado”. Nós ficamos apenas nas “mandarinas”, que é o nome que eles dão as mexericas. A paisagem do lado de fora também era bem bonita em alguns trechos, grandes rochedos se erguendo bem acima da planície verde. Volta e meia o trem parava no meio do nada, até por meia hora, para esperar que algum outro trem passasse no sentido contrário. Era ótimo para esticarmos as pernas e socializarmos um pouco com os outros passageiros.

No caminho para Santa Cruz de La Sierra, na Bolívia, o Trem da Morte vai ficando cada vez mais e mais cheio (viagem de Julho de 1990)

No caminho para Santa Cruz de La Sierra, na Bolívia, o Trem da Morte vai ficando cada vez mais e mais cheio (viagem de Julho de 1990)


Por fim, já no escuro e extenuados, chegamos à Santa Cruz. Tínhamos ficado amigos de um estudante boliviano no Brasil que voltava para sua casa em Cochabamba. Fomos com ele a um hotel bem tranquilo, perto da estação mesmo. Aí desmaiamos em nossas camas e, no dia seguinte cedo, o Haroldo foi com ele à rodoviária. Daqui para frente não há mais trens, apenas no Peru. Ele ajudou o Haroldo a comprar passagens de ônibus até La Paz, com uma parada rápida em Cochabamba, para o início da tarde. Com o pouco tempo que tínhamos para ir até Cusco, Arequipa, Lima, Cordilheira Blanca (Huaráz) e Iquitos, na Amazônia peruana, de onde retornaríamos ao Brasil de barco pelo rio Amazonas, nossa ideia era passar o mais rápido possível por esse início de viagem. O primeiro lugar em que pretendíamos fazer algum turismo era mesmo na capital boliviana. Assim, aqui em Santa Cruz, fomos direto para a gostosa praça central, principal atração dessa que é a segunda maior cidade do país. Segunda maior, mas a primeira em força econômica. Santa Cruz não se parece em nada com La Paz, muito menos indígena que a capital e construída numa altitude “civilizada” de 600 metros. Passamos momentos agradáveis aí e eu me diverti com um bicho-preguiça que se movimentava com aquela sua pressa característica nas árvores frondosas que dão sombra à praça. Em frente, está a catedral metropolitana, arquitetonicamente a construção mais interessante de Santa Cruz.

A praça central e a catedral de Santa Cruz de La Sierra, na Bolívia (viagem de Julho de 1990)

A praça central e a catedral de Santa Cruz de La Sierra, na Bolívia (viagem de Julho de 1990)


O Haroldo descansa na praça central de Santa Cruz de La Sierra, enquanto aguardamos o horário de nosso ônibus para Cochabamba, na Bolívia (viagem de Julho de 1990)

O Haroldo descansa na praça central de Santa Cruz de La Sierra, enquanto aguardamos o horário de nosso ônibus para Cochabamba, na Bolívia (viagem de Julho de 1990)


Embarcamos no nosso ônibus que faria a longa viagem até La Paz. Hoje, essa estrada está toda asfaltada, mas naquele tempo, pelo menos até Cochabamba, era praticamente tudo de terra. Ainda muito cansados, dormimos boa parte das 13 horas de viagem, só acordando com os gritos dos vendedores ambulantes, que invadiam o ônibus da mesma maneira como invadiam o Trem da Morte, nas paradas. Também tivemos de lidar com um fiscal que queria nos vender uma “autorização para estrangeiros viajarem na Bolívia”. Os recibos que ele tinha só faziam referência a autorização para menores de idade viajarem, nada a ver com estrangeiros. Para sua fúria, mandamos ele plantar batatas. Ele jurou e ameaçou que teríamos de descer mais adiante e só ficamos mais tranquilos depois que esse incidente ficou meia hora para trás. Os outros passageiros nos confidenciaram que aquilo não estava certo. Enfim, na manhã seguinte chegamos aos 2.600 metros de altitude de Cochabamba, a quarta maior cidade do país, com 600 mil habitantes, metade de Santa Cruz.

A paisagem árida e os sinais de pobreza na viagem de ônibus subindo para o  altiplano, entre Cochabamba e La Paz, na Bolívia (viagem de Julho de 1990)

A paisagem árida e os sinais de pobreza na viagem de ônibus subindo para o altiplano, entre Cochabamba e La Paz, na Bolívia (viagem de Julho de 1990)


A paisagem árida e os sinais de pobreza na viagem de ônibus subindo para o  altiplano, entre Cochabamba e La Paz, na Bolívia (viagem de Julho de 1990)

A paisagem árida e os sinais de pobreza na viagem de ônibus subindo para o altiplano, entre Cochabamba e La Paz, na Bolívia (viagem de Julho de 1990)


Aí passamos quase duas horas. Levamos um susto quando o ônibus nos abandonou na rodoviária e foi para a garagem com nossas mochilas dentro. Na volta, para nosso alívio, vimos que elas estavam intactas. Eram preocupações que todos tínhamos, tantas histórias que ouvíamos de quem já tinha feito essa viagem. Na maioria das vezes, exageradas. Mas, melhor pecar pelo excesso do que ao contrário. Bom, o ônibus voltou com nossas mochilas incólumes e nós seguimos para La Paz. Agora sim, saímos de uma paisagem relativamente familiar e entramos em outro mundo: o altiplano. Foi fantástico! Para quem chega lá pela primeira vez, como era nosso caso naquela época, é inesquecível. Paisagem árida, ar limpo, os Andes no horizonte, muita pobreza aparente. A estrada continuou de terra por toda a subia e foi apenas nos aproximando de La Paz que voltou o asfalto. Nossa alimentação nas últimas 24 horas tinha sido apenas de mandarinas e ansiávamos chegar à capital e iniciar, finalmente, a fase de turismo da viagem. Aquelas primeiras horas no altiplano tinham nos prometido todo um mundo novo de paisagens, cheiros, sensações. Sem dúvida, estávamos muito cansados da viagem quase incessante desde que tínhamos partido de Bauru, mas animadíssimos com o que nos esperava pela frente.

Ponto de parada de ônibus no percurso entre Cochabamba e La Paz, na Bolívia (viagem de Julho de 1990)

Ponto de parada de ônibus no percurso entre Cochabamba e La Paz, na Bolívia (viagem de Julho de 1990)



P.S Para quem se interessar, os relatos dessa viagem de 1990 que estão no site dos 1000dias são:

1 - A viagem no Trem da Morte (este post!)
2 - A subida do Chacaltaya, em La Paz
3 - A Trilha Inca até Machu Picchu
4 - Viajando pelo rio Amazonas do Peru ao Brasil

Brasil, Mato Grosso Do Sul, Corumbá, Bolívia, Cochabamba, Santa Cruz de La Sierra, Bauru, Estrada, Quijarro, trem, viagem, ViagemAntiga

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Rosário e Um Pouco da História Argentina - 1a Parte

Argentina, Rosario

A cidade de Rosário, na Argentina

A cidade de Rosário, na Argentina


Quem acompanha essa nossa jornada por todos os países das Américas sabe que, quando vamos a um país, gostamos muito de conhecer suas belezas naturais e seus sítios históricos, mas não só isso. Procuramos conhecer também as grandes cidades daquela nação, pois acreditamos que para realmente entender um país e seu povo, é necessário ir aonde vive a maioria da população, e este lugar são as ruas e praças das grandes metrópoles. Além disso, é sempre nessas cidades onde se encontra os melhores restaurantes, os mais importantes museus e monumentos, a vida noturna mais agitada, os mercados mais interessantes.

Mapa mostrando as cinco miores cidades argentinas: Buenos Aires, Córdoba, Rosario, Mendoza e Tucumán. Nós passamos por todas elas!

Mapa mostrando as cinco miores cidades argentinas: Buenos Aires, Córdoba, Rosario, Mendoza e Tucumán. Nós passamos por todas elas!


Assim está sendo na Argentina. Das cinco maiores cidades do país, já havíamos estado na 5ª (Tucumán), na 4ª (Mendoza) e na 2ª (Córdoba), além de outras grandes cidades, como Corrientes, San Juan e Salta. Agora chegamos à 3ª (Rosário) e daqui, claro, seguimos para a maior de todas, Buenos Aires.

Arquitetura clássica em Rosário, na Argentina

Arquitetura clássica em Rosário, na Argentina


A cidade que agora chegamos, Rosário, não é nem a capital de província (que por aqui é Santa Fé, um pouco adiante seguindo rio acima), mas é a segunda cidade mais rica do país, atrás apenas da capital. Toda essa riqueza vem do seu porto fluvial, já que a cidade está às margens do poderoso rio Paraná. Essa excelente localização não só atraiu a industrialização da região (pelas facilidades de transporte pelo rio) como também a exportação da produção agrícola e pecuária de toda a região central da Argentina.

Uma das igrejas em Rosário, na Argentina

Uma das igrejas em Rosário, na Argentina


No sentido inverso da riqueza (exportação!), chegaram por esse mesmo porto dezenas de milhares de imigrantes, principalmente na virada do séc. XIX para o XX, provenientes da Europa, desembarcando diretamente em Rosário. A população da cidade multiplicou por 10 em duas décadas e foi nessa mão-de-obra diversificada e multilíngue que se assentaram as bases da industrialização da cidade. Em compensação, durante as crises econômicas mundiais, era justamente Rosário, por sua economia estar tão ligada ao mercado externo, uma das cidades argentinas mais afetadas. Assim como ocorreu durante o processo de desindustrialização ocorrido durante o governo Menem, mais recentemente.

Igreja e o Palacio de Los Leones (prefeitura), em Rosário, na Argentina

Igreja e o Palacio de Los Leones (prefeitura), em Rosário, na Argentina


Pois é, foi nessa cidade onde nasceram Che Guevara e o jogador de futebol mais premiado dos últimos tempos, Messi, que chegamos no início da tarde, vindos de Villa Nueva. Com o dia a mais que ficamos naquela cidade e na pressa que estamos para chegar a Buenos Aires, não podíamos perder mais tempo. Assim, tratamos de nos instalar rapidamente em um hotel no centro da cidade e sair a pé para começar nossas explorações da paisagem urbana local. Aqui, como em todas as outras metrópoles hermanas que passamos, os nomes de ruas, avenidas e praças mais importantes homenageiam as mesmas pessoas e eventos, quase sempre relacionadas à história do país no séc. XIX. De tanto ver esses nomes, praticamente já os decoramos. Mas, afinal, quem foram eles?

O grandioso Monumento Nacional da Bandeira, em Rosário, na Argentina

O grandioso Monumento Nacional da Bandeira, em Rosário, na Argentina


Monumento Nacional da Bandeira, em Rosário, na Argentina

Monumento Nacional da Bandeira, em Rosário, na Argentina


A Argentina e quase todos os países da América do Sul eram colônias espanholas no início do séc. XIX. Era a época das guerras napoleônicas no velho continente e, após uma tensa aliança que durou alguns anos, a Espanha se rebelou contra a liderança francesa e acabou invadia e conquistada pelas tropas de Napoleão, que instalou no trono ibérico o seu irmão. Foi a gora d’água para que várias nações latino-americanas se rebelassem, dizendo-se aliadas ainda do antigo monarca agora preso, mas livres da dominação dessa nova Espanha. Na Argentina, mais precisamente em Buenos Aires, sede do Vice-reinado do Prata (uma das divisões espanholas aqui na América), a notícia da conquista napoleônica da metrópole e a decisão por seguir um caminho independente se deu em Maio de 1810. Por isso, encontramos tantas alusões e homenagens a este mês, como na famosa Plaza de Mayo, a principal da capital federal.

Visita ao  Monumento Nacional da Bandeira, em Rosário, na Argentina

Visita ao Monumento Nacional da Bandeira, em Rosário, na Argentina


A chama que nunca se apaga no Monumento Nacional da Bandeira, em Rosário, na Argentina

A chama que nunca se apaga no Monumento Nacional da Bandeira, em Rosário, na Argentina


Pois bem, algumas importantes batalhas foram lutadas aqui, entre os que defendiam esse movimento e aqueles que queriam continuar ligados à Espanha, mesmo sob domínio napoleônico, quase sempre com vitória dos primeiros. Acontece que Napoleão perdeu a guerra e o antigo monarca voltou ao trono. Mas agora, as nações sul-americanas já haviam sentido o gosto da liberdade e queriam mesmo a independência total, com ou sem Napoleão. No caso da Argentina, essa declaração foi feita durante um congresso reunido na cidade de Tucumán, no ano de 1816. A data: 9 de Julho! Eis aí a razão desse dia ser tão celebrado entre os hermanos, inclusive com a mais larga avenida do mundo, lá em Buenos Aires.

O grandioso Monumento Nacional da Bandeira, em Rosário, na Argentina

O grandioso Monumento Nacional da Bandeira, em Rosário, na Argentina


Prédio de apartamentos ao lado do  Monumento Nacional da Bandeira, em Rosário, na Argentina

Prédio de apartamentos ao lado do Monumento Nacional da Bandeira, em Rosário, na Argentina


Interessante lembrar que este congresso não representava a Argentina de hoje, mas apenas uma coleção de províncias espalhadas por Argentina e Alto Perú, como era conhecida a Bolívia daquela época. Eram as chamadas “Províncias Unidas da América do Sul”, certamente inspiradas pelos primos ricos da América do Norte. Esse “país” que havia nascido na “Revolução de Maio” advogava uma nação com poder centralizado. A ele se opunha outro grupo de províncias, a “Liga federal”, que incluía até o Uruguay. Estes defendiam um maior poder local. Seus delegados nem participaram do Congresso de Tucumán. Durante a guerra que se seguiu, as províncias do Alto Perú se perderam e acabaram se juntando ao próprio Perú, inicialmente, para depois se transformarem na Bolívia. O Paraguay também acabou “desgarrando” desse grupo. Por fim, vencida a Espanha, foi a vez das “Províncias Unidas que restaram” e a Liga Federal” se enfrentarem, com vitória desses últimos. Por isso, nas suas primeiras décadas de existência, a Argentina era mais uma coleção de províncias “amigas”, mas com forte autonomia local, do que um país fortemente unido, com um poder central dominante.

Monumento à bandeira e o rio Paraná ao fundo, em Rosário, na Argentina

Monumento à bandeira e o rio Paraná ao fundo, em Rosário, na Argentina


Bom, explicado as datas, vamos aos nomes! A própria luta pela independência gerou dois dos mais populares nomes de ruas e praças país afora: Belgrano e San Martín. O General Belgrano foi o primeiro grande líder militar das guerras de independência, com vitórias muito importantes no norte do país. Mas também teve suas derrotas, principalmente no Alto Perú e no Paraguay. Por isso, os líderes políticos do país que nascia passaram o controle das ações de guerra a outro militar, o General San Martín. Como Belgrano, ele também havia se educado na Europa e estava familiarizado com os novos ideais políticos que varriam aquele continente. Mas ao contrário de seu compatriota, vislumbrou outro caminho para se chegar até o poder central dos espanhóis na América do Sul, que ficava no Perú. Belgrano tentou chegar até lá através da atual Bolívia. San Martín resolveu seguir pelo Chile! Lá, junto com O’Higgins, libertou aquele país e seguiu para o norte onde, junto com Bolívar, venceu o último bastião das forças realistas espanholas. O interessante é que ambos, San Martín e Belgrano, defendiam o sistema da monarquia, o que não foi implantado na Argentina. Belgrano, inclusive, chegou a propor que o novo monarca fosse um descendente dos antigos Incas, e que a capital da nova nação fosse Cuzco, no Perú. Ou seja, assim como San Martín e o próprio Bolívar, sonhava com uma única grande nação hispano-americana.

A sempre presente declaração de soberania das Ilhas Malvinas, em Rosário, na Argentina

A sempre presente declaração de soberania das Ilhas Malvinas, em Rosário, na Argentina


Pois é, mas nem a história nem seus compatriotas quiseram assim. A Argentina se tornou uma república cheia de divisões internas. Federalistas contra Unitaristas. O poder central de Buenos Aires contra o poder local das províncias. Cada província com seu próprio líder, os chamados “caudillos”, uma prática (e uma praga!) que se perpetuaria pela eternidade por toda a América Latina. Líderes carismáticos e populistas, salvadores da pátria muitas vezes se tornando ditadores sanguinários. E assim foi com o primeiro deles, Juan Manuel Rosas.
(continua...)

Cerveja muito popular na Argentina (em Rosário)

Cerveja muito popular na Argentina (em Rosário)

Argentina, Rosario, Arquitetura, história

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Correndo nas Nuvens

Brasil, Rio Grande Do Sul, São José dos Ausentes

Correndo num fim de tarde fantasmagórico nos campos de altitude, na região de São José dos Ausentes - RS

Correndo num fim de tarde fantasmagórico nos campos de altitude, na região de São José dos Ausentes - RS


Dia completamente nublado por aqui, exatamente como dizia a previsão. Não passeamos mas curtimos bastante o visual fantasmagórigo dos vultos das araucárias semi-escondidos pelas densas nuvens, sombras perdidas com aquele formato característico no meio do branco infinito. Ou então a imagem bucólica dos carneiros pastando a grama verdinha, até eles cobertos pela neblina.

Ovelhas pastam tranquilamente na neblina, na região de São José dos Ausentes - RS

Ovelhas pastam tranquilamente na neblina, na região de São José dos Ausentes - RS


Se aquecendo na lareira do hotel na região de São José dos Ausentes - RS

Se aquecendo na lareira do hotel na região de São José dos Ausentes - RS


Ficamos passeando de uma lareira à outra para tentar aliviar a fria umidade que entrava pelos ossos. Café da manhã tardio seguido por um almoço substancioso nos primeiros minutos da tarde. Comi tanto e tão bem que doeu a consciência e fiz a promessa de um exercício vespertino, pelo menos para queimar parte das calorias adquiridas.

Com a Ana e o Orley no restaurante do hotel na região de São José dos Ausentes - RS

Com a Ana e o Orley no restaurante do hotel na região de São José dos Ausentes - RS


Antes de cumprir a promessa, ainda deu tempo de se despedir do casal gaúcho que conhecemos ontem, o Orlei e a Ana, fotógrafos, nadadores, escaladores, triatletas, aventureiros, enfim, gente muito boa, da mesma tribo que nós. Depois, enquanto fazia a árdua digestão, trabalho no quarto quentinho e acolhedor.

Início do cooper até o Monte Negro, ponto mais alto do Rio Grande do Sul, na região de São José dos Ausentes

Início do cooper até o Monte Negro, ponto mais alto do Rio Grande do Sul, na região de São José dos Ausentes


Por fim, no meio da névoa fria mesmo, temperatura de 8-9 graus, parti em uma corrida bucólica até o canyon e o Pico do Morro Preto, distantes 5 km do hotel fazenda onde estamos. Estrada de terra, apenas vacas, ovelhas e aves a me observar no meio da pista desviando das poças e me movimentando bastante para tentar driblar o frio. Todos nós envoltos naquele manto branco, eu só conseguia ver os próximos 50 metros. Araucárias, pinheiros, campo aberto, açudes, pântanos, visual estremamente ermo. Lembrei-me de filmes de lobisomem na Inglaterra, fiz força para ouvir mas não escutei nenhum uivo estranho.

Na beira do canyon Monte Negro em dia de muita neblina na região de São José dos Ausentes - RS

Na beira do canyon Monte Negro em dia de muita neblina na região de São José dos Ausentes - RS


Cheguei inteiro ao canyon e, conforme esperado, nada se via. Apenas se ouvia. O ruído da água lá embaixo e do vento à minha volta. É muito estranho estar tão perto de um precipício enorme, de uma vastidão quase infinita e não poder ver nada, exceto aquele branco infindável. Fiquei alguns minutos por ali, contemplando aquele vazio invisível até que a Ana chegasse. Ela veio de Fiona e caminhou os últimos 400 metros de trilha. Tiramos algumas fotos e voltamos juntos para o carro.

A Ana caminha pela neblina nos campos mais altos do estado do Rio Grande do Sul, na região de São José dos Ausentes

A Ana caminha pela neblina nos campos mais altos do estado do Rio Grande do Sul, na região de São José dos Ausentes


De lá, ela voltou dirigindo e eu correndo novamente, agora morro abaixo. Mais uma vez me diverti cm a paisagem embaçada à minha volta. Coisa de filme. De lobisomem, hehehe! Já com a noite caindo cheguei ao hotel. Direto para um copinho de cachaça ao lado da lareira e, de lá, para o chuveiro quente.

Placa indicativa do Pico do Monte Negro, na região de São José dos Ausentes - RS

Placa indicativa do Pico do Monte Negro, na região de São José dos Ausentes - RS


Hoje foi mais frio do que ontem e amanhã será mais frio do que hoje, provavelmente com menos nuvens. Tudo em direção ao clímax de domingo. Assim esperamos, assim torcemos. Quem sabe, rola até uma corridinha no meio da neve...

Correndo num fim de tarde fantasmagórico nos campos de altitude, na região de São José dos Ausentes - RS

Correndo num fim de tarde fantasmagórico nos campos de altitude, na região de São José dos Ausentes - RS

Brasil, Rio Grande Do Sul, São José dos Ausentes,

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Um Dia no Paraíso

Granada, Carriacou, St Georges

A magnífica Paradise Beach, no sul de Carriacou, ilha ao norte de Granada

A magnífica Paradise Beach, no sul de Carriacou, ilha ao norte de Granada


Já nos sentindo cada vez mais “locais”, pegamos o busão para o sul hoje, até Paradise Beach. O céu estava azul e o sol brilhava fortemente, o que tornava todas as cores mais vivas. Assim, mesmo para olhos acostumados com os mares caribenhos, a cor da água e da areia na “praia paraíso” estava impressionante.

A magnífica Paradise Beach, no sul de Carriacou, ilha ao norte de Granada

A magnífica Paradise Beach, no sul de Carriacou, ilha ao norte de Granada


A Paradise Beach é a mais popular de Carriacou mas, como estamos na baixa temporada (benditos hurricanes!), ela estava bem vazia. Bem que haviam nos dito que a melhor época de viajar no Caribe é na chamada “temporada dos furacões”, quando todos os preços estão mais baixos, as praias desertas e hotéis e restaurantes brigando por clientes. O tempo geralmente é muito bom nessa época, nem muito quente e nem muito seco. Só não podemos, claro, é ter o azar de cruzar com um dos furacões. Enfim, para quem gosta de loterias, esta é uma boa aposta onde o prêmio é um cenário paradisíaco e sem concorrência.

Mar totalmente caribenho em Paradise Beach, no sul de Carriacou, ilha ao norte de Granada

Mar totalmente caribenho em Paradise Beach, no sul de Carriacou, ilha ao norte de Granada


Aproveitamos a praia quase particular para tomarmos nosso último banho de lama, lá das terras vulcânicas de Dominica. A Ana a vem carregando e usando de vez em quando, como na praia em St. Pierre. Hoje, até eu usei um pouquinho no rosto. Para conseguir mais desse produto milagroso, só voltando ao Desolation Valley, no caminho para o Boiling Lake, uma das grandes experiências que tivemos nesse giro caribenho.

O último banho de lama de Dominica, em Paradise Beach, no sul de Carriacou, ilha ao norte de Granada

O último banho de lama de Dominica, em Paradise Beach, no sul de Carriacou, ilha ao norte de Granada


As poucas pessoas que encontramos na praia ficaram impressionadas com a aparência meio extraterrestre da Ana, que passou lama no corpo inteiro. Uma senhora até se aproximou para conversar e, ao saber das propriedades rejuvenescedoras da lama, até pediu um pouquinho para ela.

O último banho de lama de Dominica, em Paradise Beach, no sul de Carriacou, ilha ao norte de Granada

O último banho de lama de Dominica, em Paradise Beach, no sul de Carriacou, ilha ao norte de Granada


Depois da lama, aproveitamos aquela enorme piscina à nossa frente, nadamos bastante e fizemos a tradicional caminhada até o fim da praia, quase uma obrigação para nós. Difícil foi deixar o paraíso para trás, mas tínhamos de desocupar o quarto do nosso hotel em Hillsborough, onde já tínhamos ganho um tempo extra para fazer o check-out.

Caminhando em Paradise Beach, no sul de Carriacou, ilha ao norte de Granada

Caminhando em Paradise Beach, no sul de Carriacou, ilha ao norte de Granada


Chegamos encima da hora, ainda descolamos uns minutinhos para uma chuveirada e fomos fazer hora num restaurante, para almoçar e usar a internet até o horário do nosso ferry, às 15:30. Nosso almoço de despedidas, só para variar, foi uma suculenta jerk chicken.

Deliciosa jerk chicken, nosso prato predileto por aqui (em Hillsborough, capital de Carriacou, em Granada)

Deliciosa jerk chicken, nosso prato predileto por aqui (em Hillsborough, capital de Carriacou, em Granada)


Viagem de ferry tranquila para Granada, nosso último deslocamento de barco pelo Caribe. Chegamos bem no final da tarde à “The Carenage”, a baía em forma de ferradura em volta da qual cresceu a cidade de St. George’s, a capital do país. Com aquela luz do final do dia, foi uma bela visão, enfim uma cidade com cara de cidade, depois de tanto tempo entre vilas pacatas.

Embarcando no ferry em Hillsborough, capital de Carriacou, para Granada

Embarcando no ferry em Hillsborough, capital de Carriacou, para Granada


Driblamos os motoristas de táxis e guias que nos ofereciam seus serviços (nesta época do ano, turista é coisa rara por aqui e eles estavam “sedentos”!) e fomos caminhando para a área da marina, onde está o nosso hotel. Longa caminhada, principalmente carregando duas mochilas cada um. Saudades da Fiona!

Chegando em St. George's, a capital de Granada, no Caribe

Chegando em St. George's, a capital de Granada, no Caribe


Por fim, de noite, com muita insistência da Ana, ainda caminhamos dando a volta na marina para chegarmos ao local de uma festa, uma espécie de carnaval aqui da ilha, que vem ocorrendo durante todo esse mês. Mas ao invés de samba ou axé, aqui o que pega é a Socca. Foi bem interessante, a gente cada vez mais acostumado com a nossa África americana, eu sempre feliz de não ser o mais branquinho de todos, acompanhado da minha loira esposa. Só ainda não tivemos coragem de dançar como eles dançam por aqui...

Cartaz de danças caribenhas (em Clifton, cidade em Union Island, ilha no sul de São Vicente e Granadinas, no Caribe)

Cartaz de danças caribenhas (em Clifton, cidade em Union Island, ilha no sul de São Vicente e Granadinas, no Caribe)

Granada, Carriacou, St Georges, Hillsborough, Paradise Beach, Praia

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Passeando em Salta

Argentina, Salta

Vista de Salta - Argentina, do alto do Cerro San Bernardo

Vista de Salta - Argentina, do alto do Cerro San Bernardo


Depois dos últimos dias bem corridos na Quebrada de Humahuaca, resolvemos pegar leve em Salta. Estamos bem em frente à convidativa e central Praça 9 de Julho, por onde passam todos os turistas e também as manifestações da cidade, em meio à prédios históricos como a catedral e o teatro. Toda arborizada, é para ela que temos os nossos olhos enquanto comemos nosso café da manhã no 2o andar do hotel Victoria Plaza.

Praça 9 de Julho, em Salta - Argentina

Praça 9 de Julho, em Salta - Argentina


Os olhos podem estar na praça, mas os ouvidos estão na TV ligada. O principal assunto é o assassinato de duas pobres turistas francesas, aqui em Salta, dias antes. Um violento golpe na reputação de uma cidade que atrai cada vez mais turistas para cá, a maioria deles europeus, atrás das incríveis belezas naturais e atrativos culturais da região. Foram mortas num parque na periferia da cidade, bem perto do lugar por onde entramos ontem. Os corpos só foram achados depois de duas semanas de desaparecimento e o crime chocou não só a cidade como todo o país. Agora, é uma questão de honra pegar os facínoras que fizeram essa barbaridade. Só podemos imaginar que isso foi um tremendo azar porque é incrível a gentileza de todas as pessoas com quem temos tratado por aqui, do recepcionista ao jornaleiro, do guarda ao garçon, da criança ao idoso, todos curiosos e atenciosos conosco.

Igreja em dia de céu azul em Salta - Argentina

Igreja em dia de céu azul em Salta - Argentina


A renda vinda do turismo tem sido cada vez mais importante para essa cidade que tinha grande importância no período colonial como o principal centro de abastecimento da rica Potosí, na Bolívia. Com a independência do país, Salta entrou em decadência e só começou a se recuperar com a chegada dos imigrantes, já no final do sé.XIX. Hoje, basta andar nas ruas ao redor da praça para se perceber a importância do turismo na economia local.

Lanche com leitura, em Salta - Argentina

Lanche com leitura, em Salta - Argentina


Nós caminhamos um pouco por essas ruas centrais, almoçamos num restaurante próximo e fomos juntos levar a Fiona para a concessionaria, assunto que trato em post separado. E aí, aproveitamos as horas de espera pela revisão para ir conhecer o Cerro São Bernardo, de onde se tem vistas perfeitas de toda a cidade.

Estação de teleférico, em Salta - Argentina

Estação de teleférico, em Salta - Argentina


Preferimos subir e descer de teleférico. Aproveito para matar saudades da infância em Poços de Caldas, que também tem seu bondinho. Lá em cima, além da belíssima vista, aproveitamos as mesas ao sol do restaurante para tomar o litrão da Quilmes. Com aquela vista, a gente merecia!

A famosa e deliciosa cerveja Quilmes, em Salta - Argentina

A famosa e deliciosa cerveja Quilmes, em Salta - Argentina


Voltamos então à concessionária e já estamos com a Fiona nova em folha, pronta para mais 10 mil km. Quer dizer, ainda falta alinhar e balancear. Faremos isso depois de amanhã porque, para amanhã, nem nós nem ela teremos moleza: o programa é fazer um longo circuito pela região, passando inclusive por San Antonio de Los Cobres, a mais de 4 mil metros de altitude. Puna, aí vamos nós!

No alto do Cerro San Bernardo, em Salta - Argentina

No alto do Cerro San Bernardo, em Salta - Argentina

Argentina, Salta,

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As Emoções da Véspera

Falkland, Atlântico Sul Falkland

Propriamente vestidos para fazer caiaque nos mares gelados do sul, no trecho entre Buenos Aires e as Ilhas Malvinas

Propriamente vestidos para fazer caiaque nos mares gelados do sul, no trecho entre Buenos Aires e as Ilhas Malvinas


Essa longa viagem de barco por 2 mil km de mar aberto entre Buenos Aires e as Ilhas Malvinas tem sido muito interessante, mas obviamente não é por isso que estamos todos aqui. Nós viemos porque queremos conhecer terra firme. Uma terra firme isolada e perdida do mundo, ainda imaculada pela civilização, por viajantes e turistas. Lugares que ainda se assemelham a maneira como eram há 10 mil anos, território da natureza e da vida selvagem.

Recebendo instruções sobre embarques e desembarques usando os botes infláveis, um dia antes de chegarmos às Ilhas Malvinas

Recebendo instruções sobre embarques e desembarques usando os botes infláveis, um dia antes de chegarmos às Ilhas Malvinas


Pois bem, esse momento está chegando. Amanhã chegamos às Ilhas Malvinas. Depois, mais uns dias de navegação e chegamos à Geórgia do Sul. Por fim, a cereja do bolo, a Península Antártica. Nesses dias de desembarque, a nossa rotina muda, pelo menos em relação ao que estamos acostumados até agora, aqui dentro do Sea Spirit. E hoje foi o dia de começarmos a nos preparar para o que vem pela frente, pelo tão esperado desembarque.

A Val, guia da equipe de caiaques do Sea Spirit, no trecho entre Buenos Aires e as Ilhas Malvinas

A Val, guia da equipe de caiaques do Sea Spirit, no trecho entre Buenos Aires e as Ilhas Malvinas


Assim, além das palestras sobre animais que estamos e vamos ver e do tempo de observação nos decks externos do Sea Spirit (hoje foi o mais espetacular dia de observação até agora!), também tivemos nosso tempo de instrução sobre os procedimentos de embarque e desembarque e sobre como devemos nos comportar em terra, principalmente quando estivermos próximos da vida animal.

Aprendendo a usar as roupas e equipamentos do caiaque, no trecho entre Buenos Aires e as Ilhas Malvinas

Aprendendo a usar as roupas e equipamentos do caiaque, no trecho entre Buenos Aires e as Ilhas Malvinas


Em primeiro lugar, o procedimento de “seguridade biológica”. Isso é levado muito a sério por todas as empresas que trazem turistas para essa região do globo. A ideia é tentar evitar ao máximo que levemos agentes biológicos “alienígenas” para essas ilhas isoladas. Todas as nossas roupas e equipamentos devem ser minuciosamente limpos antes de desembarcarmos nas Malvinas, para não dar carona até lá para algum inseto, semente, fungo ou qualquer matéria orgânica que não seja nativa de lá. Coisas vivas trazidas da Europa e América não são benvindas por aqui, pois podem causar, eventualmente, um desequilíbrio ecológico prejudicial às plantas e animais autóctones. Cuidado especial com velcros, onde essas coisas costumam se “esconder”. Os calçados de desembarque serão sempre as botas de borracha que ganhamos no primeiro dia de viagem. Antes de entrar nos zodiacs, e também na volta, antes de entrarmos no navio, pisamos com elas em um líquido que extermina 98% das bactérias. Esse procedimento de bioseguridade será repetido sempre que mudarmos de ilhas, antes das Malvinas, antes da Geórgia do Sul e antes da Antártida, pois também não deve haver trânsito de matéria orgânica entre esses três ambientes supostamente isolados entre si.

Propriamente vestido para fazer caiaque nos mares gelados do sul, no trecho entre Buenos Aires e as Ilhas Malvinas

Propriamente vestido para fazer caiaque nos mares gelados do sul, no trecho entre Buenos Aires e as Ilhas Malvinas


Explicado e muito bem entendido isso, passamos aos zodiacs, os barcos infláveis que fazem o nosso transporte entre o navio e terra firme. Todo o cuidado para embarcar e desembarcar dele, já que o mar está sempre em movimento. Todo mundo de coletes e bem agasalhados, sempre atentos aos comandos do guia que estiver no comando do barco. Para embarcar, uma equipe de funcionários nos ajuda, dizendo onde sentar e oferecendo os braços como apoio. Ali, eles são os chefes e nós obedecemos. Simples assim, Cada zodiac leva até dez passageiros, tudo organizado pelos nossos guias e as pessoas vão entrando por ordem de chegada.

O Colin instrui a Ana sobre como usar o caiaque, ainda no convés do Sea Spirit no trecho entre Buenos Aires e as Ilhas Malvinas

O Colin instrui a Ana sobre como usar o caiaque, ainda no convés do Sea Spirit no trecho entre Buenos Aires e as Ilhas Malvinas


Pronto, na teoria, já sabíamos de tudo. Faltava ver na prática. Todo mundo preparado para amanhã? Não, um pequeno e afortunado grupo de 10 pessoas precisava de mais instruções. O grupo do caiaque, eu e a Ana incluídos. Desde que começamos a planejar nossa viagem à Antártida, já imaginávamos atividades com um pouco mais de “adrenalina” no continente branco, como se diz por aí. Queríamos algo que nos aproximasse ainda mais da natureza, dos elementos e da vida selvagem. Montanhas, mergulho, acampamento e caiaques. Infelizmente, essas atividades requerem uma infraestrutura que ainda é bem pouco oferecida aos viajantes mais intrépidos e, quando o são, tem um custo meio salgado. De qualquer maneira, nessa expedição que resolvemos vir, apenas a atividade de caiaques era oferecida. Acampar em solo antártico ou subir alguma das maiores montanhas do continente, são sonhos que ficaram para depois. Alpinismo tem de ser feito em uma expedição especialmente planejada para isso e é bem caro. Acampamento, isso já é mais comum, ofertado por várias expedições. Mergulho, não encontramos nenhuma operação comercial para isso. Nosso sonho em chegar perto de da temida foca leopardo abaixo d’água ainda continua sendo isso, um sonho. Sobrou então a opção do caiaque.

Vestida e com o caiaque montado! (no trecho entre Buenos Aires e as Ilhas Malvinas)

Vestida e com o caiaque montado! (no trecho entre Buenos Aires e as Ilhas Malvinas)


Então, era isso mesmo que queríamos fazer. Mas as vagas eram limitadíssimas para essa atividade. Por isso, não tivemos muito tempo para negociar o preço da expedição. Se quiséssemos o caiaque, tínhamos de fechar logo o pacote. Foi o que aconteceu. Pouco depois, o preço para viajar caiu bastante. Mas as vagas para o caiaque, já tinham mesmo terminado. Quem se deu bem com o preço da cabine teve de se contentar em nos acompanhar de longe, sonhando em como seria se eles mesmos pudessem estar lá. Olhando por esse lado, o preço do caiaque saiu ainda mais caro do que ele realmente custou, quase 1000 dólares por pessoa. Mas nos deu a chance de ter uma experiência que não se pode mensurar em valor monetário...

A afortunada equipe que vai praticar caiaque durante a expedição. (no trecho entre Buenos Aires e as Ilhas Malvinas)

A afortunada equipe que vai praticar caiaque durante a expedição. (no trecho entre Buenos Aires e as Ilhas Malvinas)


Enfim, os dez afortunados do caiaque receberam roupas especiais para esse tipo de atividade em águas geladas. Macacões impermeáveis, coletes salva-vidas específicos, calçados muito mais fashion que as botas regulares e uma espécie de “saia”, que prendemos a boca do caiaque para deixá-lo fechado. Nada de água gelada entrar lá dentro! Todos testamos nossas roupas e depois fomos aos caiaques, ainda no convés do Sea Spirit, para aprender como nos enfiar nele e vedá-lo contra a água e para ajustar o tamanho dos pedais de direção para cada tamanho de perna. Inicialmente, vamos quase todos os quatro casais em caiaques duplos, enquanto duas amigas canadenses ficam em caiaques simples.

A esperada programação para nosso primeiro dia com desembarques. Se tudo der certo, vamos parar em duas pequenas ilhas no noroeste de Falkland

A esperada programação para nosso primeiro dia com desembarques. Se tudo der certo, vamos parar em duas pequenas ilhas no noroeste de Falkland


A nossa guia é a energética Val e será sempre ela a nos acompanhar. Remamos sempre em grupo enquanto um zodiac nos acompanha de longe, tanto para nos trazer para casa novamente como para ajudar a socorrer alguém que eventualmente caia na água gelada. Nossa roupa deve nos proteger contra o frio por algum tempo, mas ninguém quer ou deve ficar muito tempo dentro d’água. É a Val que vai decidir, a cada manhã, se o mar está seguro ou não para remarmos. Devemos sempre estar preparados para isso: ir ou não ir. A segunda opção significa que vamos da maneira convencional, junto com o resto dos outros passageiros. A ideia é sempre tentar fazer as duas coisas: o caiaque e o passeio. Por isso, seremos sempre os primeiros a partir e os últimos a voltar. E assim, já conhecedores do nosso equipamento, tiramos nossas fotos e deixamos tudo arrumadinho para usá-los na primeira oportunidade que surja.

Um brinde ao belíssimo fim de tarde no Sea Spirit um dia antes de chegarmos às Ilhas Malvinas

Um brinde ao belíssimo fim de tarde no Sea Spirit um dia antes de chegarmos às Ilhas Malvinas


Encontro com outro navio na noite anterior à nossa chegada às Ilhas Malvinas

Encontro com outro navio na noite anterior à nossa chegada às Ilhas Malvinas


Então, finalmente, a hora está chegando! Bem no final da tarde, as telas do Sea Spirit começaram a mostrar a programação prevista para o dia seguinte. Ali estava: dois pontos de desembarque em Falkland, as Ilhas Malvinas dos argentinos. Era o sonho antigo se materializando em realidade na frente dos nossos olhos. Tinha de ser comemorado! Pegamos uma taça de vinho e fomos ao convés ver as últimas luzes do dia 6, fotografar e celebrar o grande momento. Foi especial!

Encontro com outro navio na noite anterior à nossa chegada às Ilhas Malvinas

Encontro com outro navio na noite anterior à nossa chegada às Ilhas Malvinas


Marinheiros do Sea Spirit levam uma peça a outro navio na noite anterior à nossa chegada às Ilhas Malvinas

Marinheiros do Sea Spirit levam uma peça a outro navio na noite anterior à nossa chegada às Ilhas Malvinas


Mas o dia não acabou por aí não. Como um prenúncio das inúmeras atividades que nos esperam, depois de 3 dias de rotina no navio, eis que algo foi diferente. Já bem de noite, luzes apareceram no horizonte. Não, ainda não era Port Stanley! Era um outro navio, o primeiro que vimos desde que deixamos o Rio da Prata para trás. E não os encontrávamos por coincidência, não. Ele vinha se comunicando por rádio com o Sea Spirit já fazia tempo. Precisava de ajuda, uma peça importante que havia quebrado. Peça que tínhamos de reserva. Então, exemplo de solidariedade marinha, desviamos um pouco nosso curso para ajudá-los. Emparelhamos, a peça foi embarcada num zodiac e levado até lá, numa operação de pouco mais de uma hora. Não foi presenciada por muita gente, já que a maioria já dormia. Mas não a Ana e a turma dos que costumam esticar a noite com alguns drinques e conversas. Estavam lá para presenciar e fotografar. É, a nossa rotina começa mesmo a mudar a partir de agora...

O Sail, Brian, Jose (nosso barman!), Kim e o Doug (atrás) na noite anterior à nossa chegada às Ilhas Malvinas

O Sail, Brian, Jose (nosso barman!), Kim e o Doug (atrás) na noite anterior à nossa chegada às Ilhas Malvinas

Falkland, Atlântico Sul Falkland, caiaque, Sea Spirit

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Entre Praias e Árvores

Canadá, Tofino

Surfista e seu cachorro enfrentam as águas geladas de praia em Tofino, na costa oeste de Vancouver Island, litoral da British Columbia, oeste do Canadá

Surfista e seu cachorro enfrentam as águas geladas de praia em Tofino, na costa oeste de Vancouver Island, litoral da British Columbia, oeste do Canadá


O sol resolveu mesmo não aparecer e o dia amanheceu cinzento, uma espessa capa de nuvens sobre nossas cabeças. Onde de noite tínhamos ficado com esperanças, pois o tempo tinha limpado e as estrelas apareceram, gloriosas. Enfim, sem sol, mas sem chuva também. Uma ótima oportunidade de explorar as praias e florestas que atraem milhares de pessoas todos os anos à cidade de Tofino.

Mata do Pacific Rim Park, região de Tofino, na costa oeste de Vancouver Island, litoral da British Columbia, oeste do Canadá

Mata do Pacific Rim Park, região de Tofino, na costa oeste de Vancouver Island, litoral da British Columbia, oeste do Canadá


Ficamos hospedados aqui em Tofino num Hostel, desses com dezenas de jovens divididos em vários quartos e uma grande área comunal, incluindo a movimentada cozinha. Ótimo ligar para socializar e conhecer gente nova. Melhor que a cozinha é a sala de estar, com uma grande janela envidraçada com vista para o porto e para o horizonte. Uma delícia ficar aí, o frio do lado de fora, trabalhando um pouco, navegando pela internet, conversando, ou simplesmente olhando para a bela e tranquila paisagem à nossa frente.

Árvore e outras plantas crescem sobre um enorme tronco caído de um Cedro Vermelho, em mata de Tofino, na costa oeste de Vancouver Island, litoral da British Columbia, oeste do Canadá

Árvore e outras plantas crescem sobre um enorme tronco caído de um Cedro Vermelho, em mata de Tofino, na costa oeste de Vancouver Island, litoral da British Columbia, oeste do Canadá


Assim foi nossa manhã, mas no início da tarde resolvemos esticar as pernas a dar a nossa volta. O simpático gerente do hostal, grande admirador do futebol brasileiro, nos deu várias dicas e nós saímos para as nossas explorações.

Chegando à movimentada Chesterman Beach, em Tofino, na costa oeste de Vancouver Island, litoral da British Columbia, oeste do Canadá

Chegando à movimentada Chesterman Beach, em Tofino, na costa oeste de Vancouver Island, litoral da British Columbia, oeste do Canadá


Poucos quilômetros ao sul da cidade está o Pacific Rim National Park, uma área criada para preservação da floresta nativa. Matas de enormes coníferas ao lado de longas praias de areia clara com ondas cobiçadas por surfistas de todo o país. Enfim, um lugar paradisíaco! E num dia como hoje, fora de temporada, frio e sem sol, eram praticamente nós andando por ali.

Pequena baía em Tofino, na costa oeste de Vancouver Island, litoral da British Columbia, oeste do Canadá

Pequena baía em Tofino, na costa oeste de Vancouver Island, litoral da British Columbia, oeste do Canadá


Caminhando na Long Beach, praia na região de Tofino, na costa oeste de Vancouver Island, litoral da British Columbia, oeste do Canadá

Caminhando na Long Beach, praia na região de Tofino, na costa oeste de Vancouver Island, litoral da British Columbia, oeste do Canadá


Começamos atravessando uma floresta com gigantescos Cedros Vermelhos. São árvores que chegam aos 60 metros de altura e quase 1000 anos de idade. Quando morrem, arrancados do chão por uma violenta tempestade, ficam ali, “deitados” na floresta por mais de um século, já que seus troncos são extremamente resistentes à ação de agentes decompositores. Tornam-se verdadeiras encubadeiras de novas árvores, que nascem sobre o seu tronco. Um verdadeiro espetáculo da vida e do ciclo da floresta. Quando vemos diversas árvores alinhadas na floresta, já sabemos que ali embaixo, uma gigante caiu, junto com seus 800 anos de história.

Caminhando na Long Beach, praia na região de Tofino, na costa oeste de Vancouver Island, litoral da British Columbia, oeste do Canadá

Caminhando na Long Beach, praia na região de Tofino, na costa oeste de Vancouver Island, litoral da British Columbia, oeste do Canadá


Atravessando a mata, chegamos às praias. Vastas extensões de areia firme, um convite para uma corrida ou caminhada. A água também é tentadora, mas basta encostar a mão nela para perdermos qualquer ilusão! Temperatura de 12 graus é dureza! Os únicos que enfrentam são os valentes surfistas. Vestidos como ninjas, do dedo do pé à ponta da orelha, eles entram na água para enfrentar as ondas que não param de chegar. Isso sim é amor ao esporte!

Caminhando até a água do mar em praia de Tofino, na costa oeste de Vancouver Island, litoral da British Columbia, oeste do Canadá

Caminhando até a água do mar em praia de Tofino, na costa oeste de Vancouver Island, litoral da British Columbia, oeste do Canadá


Voltando em direção à Tofino, já fora do parque, chegamos à praia mais famosa da região, Chesterman. Muitas casonas e pousadas na beira da praia garante um movimento quase constante na areia, andarilhos e corredores levando seus cães para um passeio. Todos vestidos para se proteger do vento e poder aproveitar aquele lindo visual. Andando na praia, lembrei-me muito da minha especial ilha do Mel, em dia nublado. Só mesmo a temperatura da água para me lembrar que estamos mesmo é em outra ilha, “um pouco” mais ao norte...

Entrando no mar gelado vestida como uma ninja, em Tofino, na costa oeste de Vancouver Island, litoral da British Columbia, oeste do Canadá

Entrando no mar gelado vestida como uma ninja, em Tofino, na costa oeste de Vancouver Island, litoral da British Columbia, oeste do Canadá


Mar com muitas ondas em Tofino, na costa oeste de Vancouver Island, litoral da British Columbia, oeste do Canadá

Mar com muitas ondas em Tofino, na costa oeste de Vancouver Island, litoral da British Columbia, oeste do Canadá


Voltamos então para nossa movimentada e aconchegante sala de estar, no Hostel. Amanhã, na data que é especial para mim desde que me lembro por gente, há 40 anos, deixamos a pacífica Tofino para trás e rumamos ao sul da ilha, para a cosmopolita Victoria, a capital da Columbia Britânica. Não faltarão bons restaurantes para celebrarmos o 11 de Outubro!

Dia nublado e frio na bela Chesterman Beach, em Tofino, na costa oeste de Vancouver Island, litoral da British Columbia, oeste do Canadá

Dia nublado e frio na bela Chesterman Beach, em Tofino, na costa oeste de Vancouver Island, litoral da British Columbia, oeste do Canadá

Canadá, Tofino, British Columbia, Parque, Praia, trilha

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