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DENISE GALVAO (08/09)
Gostaria de saber o preço para se hospedar nessa tão simples e famosa p...
DENISE GALVAO (08/09)
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Paulo Bueno (04/09)
Olá! Quando descobri o blog, o projeto dos 1000 dias já estava encerra...
Guto Junqueira (02/09)
Rodrigo, bem bacana esta caminhada, as fotos estão muito boas e a descri...
Geovane Hoelscher (01/09)
Muito charmosas e clássicas estas estâncias hidrominerais. Elas mantem ...
passeio de catamarã no rio São Francisco em Canindé do São Francisco, divisa de Sergipe e Alagoas
O primeiro programa do dia foi o famoso passeio de catamarã pelo canyon do São Francisco, acima da represa de Xingó. Mais famoso do que eu pensava. E, consequentemente, concorrido...
Nosso catamarã lotado no passeio de catamarã no rio São Francisco em Canindé do São Francisco, divisa de Sergipe e Alagoas
Quando estive por aqui há dez anos, fiz esse passeio num pequeno catamarã onde havia umas quinze pessoas, talvez. Hoje, semana entre natal e ano novo, são três saídas de catamarã, cada uma com umas 150 pessoas.
A gente zarpa do lado de Sergipe, município de Canindé do São Francisco. Fomos de carro até o restaurante Carrancas e partimos pouco depois das nove da manhã. Nós e a torcida do Corinthias. Pior estava o catamarã das 11 da manhã, que cruzamos na volta. Aí, vinha com a torcida do Flamengo...
passeio de catamarã no rio São Francisco em Canindé do São Francisco, divisa de Sergipe e Alagoas
Achamos um canto mais sossegado no segundo andar e fomos curtindo a paisagem. Deixamos o dique e a represa para trás e fomos entrando nos canyons. Água bem verde, convidativa.
Estátua de São Francisco durante passeio de catamarã no rio São Francisco em Canindé do São Francisco, divisa de Sergipe e Alagoas
Passamos pela estátua de São Francisco, colocada numa reentrância da rocha ao lado do rio e chegamos ao ponto onde se pode nadar, dentro de uma área delimitada, ao lado de altas paredes do rio. Na verdade, é um ponto que foi alagado, não faz parte do curso natural do rio. A água não corre e fica mais seguro para as pessoas nadarem.
Nadando nas águas verdes do rio durante passeio de catamarã no rio São Francisco em Canindé do São Francisco, divisa de Sergipe e Alagoas
Para nós, a graça foi ficar brincando de mergulhar, tentar chegar ao fundo, que chega aos 20-25 metros neste ponto. Embaixo, o esqueleto de antigas árvores que não tiveram tempo de se mudar morro acima... Nós levamos máscaras e foi bem divertido. Acho que até uns 20 metros eu consegui chegar. Mas lá embaixo, água mais fria, visibilidade de poucos metros e aquela aparência fantasmagórica esverdeada das árvores mortas não era muito hospitaleira não. Mais agradável era ficar bem patrão no alto do catamarã observando aquela multidão nadando com suas bóias e tomar uma cerveja gelada.
Nosso catamarã no passeio pelo rio São Francisco em Canindé do São Francisco, divisa de Sergipe e Alagoas
Na volta, ficamos amigos de uma simpática família campineira. O filho quer estudar na Unicamp e os pais gostam muito de viajar também. Mas concordaram que, 1000dias, só sem filhos...
Amizade com família campineira durante passeio de catamarã no rio São Francisco em Canindé do São Francisco, divisa de Sergipe e Alagoas
Fim do passeio, primeira etapa do dia vencida. Agora, o rumo era rio abaixo, em direção à Grota do Angico!
Admirando orla do lago Michigan, em Chicago, estado de Illinois, nos Estados Unidos
Nos últimos dias estivemos viajando por entre os maiores lagos de água doce do mundo, na fronteira entre o Canadá e os Estados Unidos. Uma região conhecida como “The Great Lakes”, verdadeiros oceanos no coração da América do Norte.
O enorme Lake Ontario, em Niagara-on-the-Lake, no Canadá
Ainda me lembro das aulas de geografia de 6ª série. Antes da prova, precisamos decorar o nome dos cinco lagos (que, a rigor, são quatro!). De nada adiantou a decoreba, pois essa questão nem caiu no exame.
Nosso caminho através dos Grands Lagos
O primeiro dos lagos que conhecemos foi justamente o menor deles, o Ontario. Tem “apenas” 19 mil quilômetros quadrados. O equivalente a um quadrado com 140 km de lado! Ou seja, caberiam muitas e muitas São Paulos e Rio de Janeiros aí dentro. É neste lago que está Toronto e foi do alto da CN Tower, a 350 metros de altura, que pudemos ter uma ideia da extensão do menorzinho dos Great Lakes. Mesmo lá do alto, não dá para ver o outro lado.
O lago Ontario em Niagara-on-the-Lake, no Canadá
E é do outo lado que está Niagara-on-The Lake. Foi aí que pudemos nos aproximar do lago e testar sua temperatura. Para nossa surpresa, estava fria, mas não gelada. Completamente “nadável”. Há tanta água nos lagos que a temperatura deles não varia tanto como a de lagos menores. Mesmo no auge do inverno polar que se faz por aqui, o gelo que se forma na superfície não é espesso o suficiente para que uma pessoa patine sobre ele com segurança.
Testando a água do lago Ontario, em Niagara-on-the-Lake, no Canadá
Ainda com uma longa viagem pela frente, tudo o que fizemos no Lago Ontario foi molhar as mãos e admirar sua magnitude. Depois, foi pé na estrada rumo aos Estados Unidos. Os lagos estão bem na fronteira desse país com o Canadá, o limite internacional passando no meio de quatro deles. Apenas o lago Michigan fica completamente em terras americanas.
Praia no lago Michigan, em Chicago, estado de Illinois, nos Estados Unidos
Nosso caminho nos levou, ainda dentro do Canadá, ao longo da costa norte do Lago Erie (o segundo menor, com 25 mil quilômetros quadrados) até a fronteira entre os dois países, na estreita passagem de terra entre o Erie e o Lago Huron. Esse último, com 60 mil quilômetros quadrados (quadrado com 240 km de lado!), na verdade está unido com o lago Michigan, por um canal. Em tese, formam um só lago, o maior do mundo de água doce.
As havaianas chegaram até Chicago, estado de Illinois, nos Estados Unidos
No dia seguinte, após uma passagem relâmpago pelo ponta norte do estado de Indiana (mais um para nossa lista!), chegamos à Chicago, na orla do Lake Michigan, praticamente do mesmo tamanho que seu irmão gêmeo, Huron. Foi aí que pudemos “aproveitar” mais dos lagos. Nessa época do ano, com as altas temperaturas, as praias ficam cheias de banhistas e nós fomos lá conferir.
Praia de lago também tem vendedor de sorvete, em Chicago, estado de Illinois, nos Estados Unidos
Com a água bem verde e com temperatura parecida com as praias do Rio, passamos uma boa hora por lá, estendidos na areia e dando mergulhos. A nossa volta, uma loja de havaianas (como se estivéssemos em uma praia tropical!) e tiozinhos empurrando seus carrinhos de sorvete. “Nossa, será mesmo que estamos em Chicago?”, era o que a gente se perguntava! No mar (quer dizer, lago) em frente, salva-vidas em barcos a remo impediam que banhistas se aventurassem a mais de 20 metros da orla. Foi a parte chata do programa.
Lago Michigan e salvavida em praia de Chicago, estado de Illinois, nos Estados Unidos
Banho de chuveiro para afastar o calor em praia de Chicago, estado de Illinois, nos Estados Unidos
Mas foi fácil resolver isso. Seguimos caminhando em direção ao centro da cidade, a skyline de Chicago crescendo até o céu sobre a orla do lago e atravessamos uma longa baía, toda de concreto. Aí as pessoas anda de bicicleta, caminham, correm e tomam sol. Aliás, com o sol que estava fazendo, não havia melhor lugar na cidade para se estar. Principalmente porque, do alto da “praia de concreto”, podíamos nos atirar no lago e nadar sem que nenhum salva-vidas viesse nos encher o saco.
Caminhando pela orla do lago Michigan, em Chicago, estado de Illinois, nos Estados Unidos
Vão ser as melhores memórias dos Grandes Lagos que vamos guardar. Ainda conhecemos a orla do Lake Michigan mais ao norte, na cidade de Milwaukee. Mas ali, a água não é tão verde como em Chicago. Vai ser engraçado acompanhar (de longe!) as imagens do próximo inverno na cidade e imaginar que nós nadamos tranquilamente nas praias do lago...
Nadando no lago Michigan, em Chicago, estado de Illinois, nos Estados Unidos
Faltou conhecer apenas o Lake Superior, o maior dos grandes lagos, com 82 mil quilômetros quadrados. Fica mais ao norte e, como todos os outros, também foi formado na última era glacial. Quando as geleiras foram retrocedendo, há 15 mil anos atrás, deixaram no seu rastro esses “pequenos” lagos, prova inconteste da enormidade daqueles titânicos lençóis de gelo que cobriam metade do continente.
Saltando nas refrescantes águas do lago Michigan, em Chicago, estado de Illinois, nos Estados Unidos. se fosse no inverno...
Só por curiosidade, não foi apenas esses lagos que as geleiras deixaram para trás. Não. Na verdade, ocupando boa parte da região central do Canadá, além da parte norte das Great Plains americanas, ficou um lago ainda maior. Maior que todos os grandes lagos somados. Maior até que o Mar Cáspio, na Ásia. Estou falando do lago Agassiz, que hoje já não existe. Toda a sua água “vazou” para o oceano, no mar de Labrador, costa norte do Canadá.
Nadando no lago Michigan, em Chicago, estado de Illinois, nos Estados Unidos
Foi um evento titânico! As geleiras que retrocediam ainda formavam uma espécie de dique, represando as águas do gigantesco lago. Quando o dique natural se rompeu, o lago se esvaziou rapidamente, num evento que pode ter durado poucos anos. O resultado foi uma mudança gigantesca para todo o planeta. Toda aquela quantidade de água doce jogada no mar de uma só vez acabou “desligando” a Corrente do Golfo, mudando os padrões de chuva por todo o mundo, além de aumentar o nível do mar em cerca de dois metros. O curioso é que isso levou a um resfriamento global, há cerca de 12 mil anos, e o dique natural de gelo se refez, possibilitando que o lago se enchesse outra vez. Quando novamente o dique se rompeu e o lago “esvaziou”, nova mudança radical no nível dos oceanos e padrão de chuvas global. Esse segundo evento foi há cerca de 9 mil anos e, muitos cientistas creem, pode estar ligado à criação do mito do dilúvio em diversas culturas humanas espalhadas pelo planeta, desde a Suméria (de onde a Bíblia copiou a história do dilúvio a da arca de Noé) até tribos isoladas na Amazônia.
Saltando nas refrescantes águas do lago Michigan, em Chicago, estado de Illinois, nos Estados Unidos. se fosse no inverno...
Aahnnnnn, como seria bom poder viajar no tempo, e não apenas pelas Américas...
Um pulo para o Lake Michigan, em Chicago, estado de Illinois, nos Estados Unidos
Pausa para leitura em Savannah, na Georgia - EUA
Deixamos a Flórida para trás e entramos logo cedo na Georgia, nosso 13º estado nos Estados Unidos.
Chegando à Georgia - EUA
Chegamos à Savannah, antiga capital do estado, terceira maior cidade da Georgia e o mais movimentado porto dessa parte do país. A cidade se tornou também um polo turístico nas últimas décadas, atraindo visitantes pela sua história, agradável centro histórico cheio de praças e alamedas e um movimentado passeio beira-rio, além de rica a variada culinária.
Savannah, na Georgia - EUA
A cidade foi fundada em 1733 pelo inglês Oglethorpe, um hábil planejador urbano. Sua função era assegurar o domínio inglês da região, ameaçado pela Flórida espanhola e pela Lousiana francesa. A cidade logo cresceu, primeiro porque Oglethorpe sabiamente se tornou amigo da população indígena local e segundo porque a liberdade de culto atraia imigrantes de toda a Europa.
Praça de Savannah, na Georgia - EUA
Tão estratégica era a cidade que se tornou um dos primeiros alvos dos ingleses durante a Revolução Americana. Eles logo a conquistaram e mantiveram seu controle até o fim da guerra. Cem anos mais tarde, na Guerra de Secessão, também tornou-se um importante bastião confederado. Tanto que, após botar fogo em Atlanta, foi para lá que o impiedoso General Sherman se dirigiu, conquistando a cidade durante o natal. Aliás, em correspondência para o presidente Lincoln, Sherman oferece a cidade como seu “presente de natal” para o líder dos Estados Unidos.
Caminhando em parque de Savannah, na Georgia - EUA
Hoje era o Dia das Mães, e encontramos o passeio beira-rio bem movimentado, turistas buscando os passeios de barco oferecidos por ali ou simplesmente caminhando no agradável calçadão repleto de restaurantes e lojas.
Casas em Savannah, na Georgia - EUA
A gente também deu uma caminhada, lemos as dezenas de painéis informativos que se espalham pela orla com informações históricas, geográficas e econômicas e seguimos pelo centro, em busca das praças que fazem a fama da cidade, assim como um bom restaurante. Acabamos num bem tradicional, o Pirate’s House (os americanos tem obsessão por piratas!), onde nos esbaldamos em comida sulista. Nós e mais muita gente, famílias inteiras propriamente vestidas para um domingo especial. Aliás, nessa nossa passagem pelo sul do país, estou aprendendo que os filmes que retratam os costumes e cultura daqui, como o sotaque, as vestimentas e a comida são mais reais do que nunca! No almoço de hoje, era essa a minha sensação, ao ver e ouvir as pessoas: estamos no meio de um filme!
Vestida para o domingo, em Savannah, na Georgia - EUA
Devidamente alimentados, pegamos estrada novamente. Ainda tinha um longo caminho para Atlanta. Mas essas estradonas americanas nos ajudam bastante e numa média acima de 120 km/h, ainda chegamos lá com a luz do dia. Amanhã é dia de aquário! E que aquário...
Carruagens para turistas em Savannah, na Georgia - EUA
Quadro mostrando família de nativos em sua habitação, no Museu de Anchorage, no Alaska
Deixamos o tempo chuvoso de Talkeetna para trás e chegamos ao tempo chuvoso de Anchorage, a maior cidade do Alaska, na costa sul do estado. Por enquanto, vínhamos tendo muita sorte com o tempo por aqui, mas isso não poderia durar para sempre. Essa época do ano, transição entre o verão e o inverno (Outono e Primavera, no extremo norte do continente, duram semanas, e não meses!) é muito mais propensa às chuvas, especialmente na região sul do estado, próxima ao Golfo do Alaska.
Entrando no Museu de Anchorage, no Alaska
Em Anchorage e regiões vizinhas mora a metade da população do Alaska, perto de 350 mil pessoas. Apesar de não ser a capital do estado, a cidade é o grande centro econômico, político e cultural do Alaska. Imaginamos, então, que seria um lugar melhor para enfrentar a chuva. Chegamos na hora do almoço, achamos um hotel simpático no centro e fomos a um café de gente descolada, enquanto nosso quarto não era liberado para o check-in, só depois das quatro. Devidamente almoçados, seguimos diretamente para aquilo que mais nos atraiu na cidade, o maior e mais completo museu do Alaska.
Quadro mostrando os primeiros exploradores do Ártico, no Museu de Anchorage, no Alaska
Como sempre fazemos em museus, logo eu e a Ana nos separamos, cada um com seu ritmo e seus interesses. O bom desse que visitamos é que ele tinha alas e galerias para todos os gostos: história, cultura, ciências e fotografias. A Ana concentrou-se na parte cultural e com ela estava a máquina fotográfica, cujas fotos ilustram esse post. Eu corri para a parte de história, interessado em passagens que são pouco conhecidas ou praticamente ignoradas por pessoas que não vivem aqui. Bem o tipo de coisa que eu gosto, hehehe! Ao final, depois de saciarmos nossos respectivos interesses, ainda pudemos dar uma olhada rápida nas outras coleções do museu.
O principal governador russo do Alaska, no Museu de Anchorage, no Alaska
Dois assuntos me interessavam: o período russo do Alaska, do qual eu já sabia da existência, mas não conhecia nenhum detalhe, e sobre a invasão japonesa na 2ª Guerra, fato que eu ignorava por completo até há poucas semanas.
Quadro com as belas paisagens do Alaska, no Museu de Anchorage, no Alaska
Pois é, os russos estiveram por aqui por mais de um século, a partir da terceira década do séc XVIII até a venda do Alaska para os americanos, em 1867. O que os atraiu até aqui foi o comércio de peles, principalmente o de lontras marinhas, que existiam em abundância na costa do Alaska. A exploração da região começou com Bering, um talentoso navegador dinamarquês contratado pela marinha russa. O famoso estreito que separa a América da Ásia foi batizado com o seu nome quando ele morreu durante sua última expedição.
Representação do Denali, em quadro do Museu de Anchorage, no Alaska
O comércio de peles era tão lucrativo que a Rússia estabeleceu várias bases no continente, chegando até a California. Mas era no Alaska que estava a maior concentração desses animais (a lontra) e sua exploração quase levou à extinção do animal. Antes disso, outras nações europeias também se interessaram por esta área, como França, Inglaterra e Espanha. Os ibéricos reclamavam a área até o início do séc. XIX e várias regiões por aqui tem nomes espanhóis, como a belíssima Valdez, no sul do Alaska.
Totem indígena no Museu de Anchorage, no Alaska
Mas foram mesmo os russos que ocuparam o Alaska, economicamente. Mais do que colonizá-lo, eles o exploraram. Quase em regime de servidão, os nativos é que trabalhavam para eles e, conforme os animais iam sendo extintos em uma região, iniciava-se a exploração em outra. Além da exploração econômica, também a influência cultural sobreveio, tanto na religião ortodoxa como na arquitetura das poucas cidades construídas, notadamente Sitka, a capital russa do Alaska.
Esquimó em suas vestimentas típicas, no Museu de Anchorage, no Alaska
Por fim, com a população de lontras quase extinta, a colônia deixou de ser lucrativa e passou a ser um peso para os Czares. Foi quando apareceram os americanos com o equivalente a 130 milhões de dólares atuais para comprar todo o território. Os russos preferiram fazer o negócio com o Tio Sam, então uma mera potência regional, do que com os rivais Inglaterra ou França. Ahhhnn, se arrependimento matasse...
Arte esquimó no Museu de Anchorage, no Alaska
E o arrependimento veio logo, por sinal! Menos de 30 anos após a venda, foi descoberto ouro no Alaska, o que, além de atrair milhares e milhares de pessoas ao distante território, multiplicou o valor da terra centenas de vezes. Foi só aí que os Estados Unidos começaram a investir na ocupação e organização do Alaska, promovendo-o a Território. Para se tornar um Estado, foi preciso um outro evento, a 2ª Guerra Mundial.
Roupa impermeável feita com intestino de Caribou, no Museu de Anchorage, no Alaska
As ilhas Aleutas, uma cadeia de ilhas que se estende da península do Alaska em direção à Rússia foi invadida e conquistada pelos japoneses em 1942. Na verdade, foram somente duas das dezenas ilhas que compões o arquipélago que faz parte do Alaska. Esse fato pouco lembrado foi a única invasão bem sucedida de território que os americanos sofreram desde que os britânicos botaram fogo em Washington na Guerra de 1812. Na verdade, o problema maior não foi na invasão, já que não havia habitantes nessas ilhas. O problema maior foi tirar os japoneses de lá. Como os nipônicos não conheciam a palavra “rendição” ,foi uma batalha sangrenta e encarniçada, em 1943, só superada pela invasão de Iwo Jima, já no final da Guerra. Quem sofreu também foram os habitantes nativos do arquipélago. Retirados das ilhas e realocados no continente, centenas deles morreram devido às péssimas condições de vida que lhe foram oferecidas...
Painéis informativos no Museu de Anchorage, no Alaska
Com o museu já quase fechando, reencontrei a Ana, também muito feliz de tudo o que havia visto e aprendido por lá. Mas o relato mais detalhado da seção de cultura do museu, vocês terão de esperar pelo post dela. Voltamos para nosso hotel para finalmente nos instalarmos e trocarmos as impressões sobre o que havíamos visto por lá. Com quatro olhos, aprendemos em dobro. Mesmo em dia de chuva, hehehe!
Fim da caminhada, chegando em Moreré, na ilha de Boipeba - BA
Meu primeiro programa de hoje, antes mesmo do café, foi uma caminhada do hotel até a rodoviária. Fui em busca de um Banco 24 horas, mercadoria raríssima por onde temos passado. Nesses lugares pequenos é quase tudo em dinheiro ou cheque. Cheque, quase já não temos e dinheiro, só quando achamos banco. Tem sido uma difuculdade recorrente, aqui no litoral baiano.
Igreja em Valença - BA
A caminhada serviu para dar uma olhada em Valença, tão simpática antigamente. Esse porto fluvial vem ganhando fama de violenta. Para variar, consequência do crack que se espalhou pelo Brasil, infelizmente. Justiça seja feita, caminhamos ontem de noite por aqui, em busca de restaurantes e hoje também e não tivemos problema nenhum. Só ouvimos as histórias.
O porto de Valença - BA
Às 10 horas estávamos no movimentado porto onde se concentra o movimento da cidade. Fomos pegar nossa lancha rápida, depois de guardar a Fiona num dos estacionamentos formados para atender os turistas que vão à Boipeba e, principalmente, à Morro. Para Boipeba, o barco normal demora umas 3 horas. Melhor embarcar da pequena Cairu, mais ao sul. Mas como nós queremos passar por Morro também, pareceu mais inteligente já deixar o carro por aqui mesmo. Com a lancha rápida, são 50 minutos por entre os canais de mangue, mar com cara de rio. É preciso muita experiência e prática do piloto, principalmente na maré baixa, para "negociar" com os bancos de areia. Felizmente, estávamos em boas mãos...
Visual na viagem entre Valença e Boipeba - BA
Aproveitei para ler um pouco sobre Boipeba. Foi aí que surgiu o nome de Moreré, pequena vila no lado atlântico da Ilha de Boipeba. Fui lendo e as lembranças de 11 anos atrás foram avivando de algum lugar perdido lá do cérebro. Nossa... como foi que eu fui esquecer da inesquecível Moreré? Que pecado!!! Um pequeno paraíso, protegido da civilização pela dificuldade de se chegar lá e pelo desconhecimento da sua existência. Pronto! De repente, já tínhamos programa para os próximos dias! Eu sabia que tínhamos de ir para Boipeba (tanto que estávamos já a caminho), mas não tinha claro o que faríamos por lá. Que mané!
Lancha entre Valença e Boipeba - BA
Chegamos na já não tão pequena Velha Boipeba, "capital" da ilha, e seguimos direto para o "ponto do trator". No caminho, a pracinha do campo de futebol, que tinha reaparecido na minha memória, e muitas das mais de uma centena de pousadas que hoje existem na vila. Estava tudo bem vazio e tranquilo mas imagino e concluo que na temporada deve ferver. Não há carros na ilha e o transporte é feito à pé, com animais ou de trator, além de barco, claro. Mas o modo mais comum de ir de Velha Boipeba para Moreré é de trator, pelo caminho de areia fofa que corta a ilha.
Almoçando no Daniel, na ilha de Boipeba - BA
O problema é que, estando só nós por ali, o trator sairia muito caro. Quarenta reais para vencer os pouco mais de quatro quilômetros. Para caminhar, teoricamente nem é tão longe. O problema era o sol, a areia fofa e as duas mochilas de cada um. Já estava me rendendo ao trator quando a Ana animou a caminhar! Já que ela insiste... O dinheiro economizado serviu para um belo almoço no restaurante do Daniel, ali mesmo. O único porém foi que usei a pimenta achando que era o molho de salada e só descobri quando já tnha virado um tanto. Aí, foi uma luta ir até o fim, tentando diluir a pimenta com mais feijão, mais salada, mais feijão de novo, etc. Parecia um caminhoneiro!
Caminhando entre Boipeba e Moreré, na ilha de Boipeba - BA
Carregado de pimenta, partimos para enfrentar a caminhada. Devagarzinho e sempre, vencemos o sol, a areia e a ladeira e chegamos à maravilhosa Moreré, com sua meia dúzia de pousadas. Exatamente o que procurávamos!
Caminhando na praia de Bainema, próximo à Moreré, na Ilha de Boipeba - BA
Aqui nos instalamos na pousada do Tony e da Suzane, um casal de ingleses que largou tudo na Inglaterra para comprar uma pousada no Moreré. Que coragem! O lugar é uma delícia, desses que dá vontade de ficar uma semana. Bem instalados, já saímos para pegar o fim de tarde na vizinha praia de Bainema. Apenas coqueiros, areia branca, um mar quente e verde, o sol se pondo atrás de nós, um único corredor solitário indo e voltando.
Sol entre coqueiros na praia de Bainema, próximo à Moreré, na Ilha de Boipeba - BA
É a inesquecível Moreré que eu tinha esquecido...
Campo de futebol alagado na maré cheia, na praia de Moreré, na ilha de Boipeba - BA
Área do primeiro acampamento, já se aproximando da neve, na região da Cordillera Blanca, próximo à Huaraz - Peru
Encravada bem em meio às Cordilleras Blanca e Negra, a região de Huaraz oferece diversas oportunidades de trekking, assim como de montanhismo e escaladas. A cidade, em si, não é das mais atrativas já que o grande terremoto do início da década de 70 destruiu todos os prédios históricos. Assim, a grande maioria dos turistas e viajantes que aqui chegam procuram por suas belezas naturais. Há uma grande quantidade de turistas estrangeiros na cidade, ou se preparando para um trekking, ou voltando de um. A grande maioria, europeus. Mas há também americanos, japoneses e australianos. Brasileiros, não vimos.. Ainda hoje é difícil Huaraz fazer parte do roteiro dos brasileiros que vem ao Peru. Geralmente, Cusco é o destino principal, com rápidas pasagens em Lima e/ou Arequipa. Imagino que isso venha mudando aos poucos já que a região de Huaraz é uma das mais belas do mundo!
Trekking de Santa Cruz, na região da Cordillera Blanca, próximo à Huaraz - Peru
Entre as muitas possibilidades de trekking, optamos pelo mais conhecido, o Santa Cruz, uma caminhada em forma de ferradura em que se sobe um vale por entre montanhas nevadas, incluindo aquela que é considerada por muitos a mais bela do mundo, a Alpamayo. Depois, passamos por um "paso" a 4.750 m de altitude, chegamos à outro vale e terminamos a caminhada por ele. No caminho, muitos rios, cachoeiras e lagunas altiplânicas. O tempo normal desse trekking é de quatro dias, mas é possível fazê-lo em três e essa foi a nossa opção, já que temos data para chegar ao Equador (por causa de nossa viagem à Galápagos).
Início do trekking na região da Cordillera Blanca, próximo à Huaraz - Peru
Início do trekking na região da Cordillera Blanca, próximo à Huaraz - Peru
Essa "pressa" em fazer em três dias foi o que nos fez optar por irmos num grupo, viagem organizada por uma agência, ao invés de fazermos só nós dois. As rotas estão bem sinalizadas e é muito fácil fazer o caminho sem guia. Mas, quando se vai com um grupo, temos várias mordomias. A princípio, nos interessou as facilidades do transporte: eles nos levam até lá e, melhor ainda, há burros que carregam todo o peso. Assim, podemos fazer mais rapidamente. Outra vantagem é que o "arriero", o cara que leva as mulas, chega antes aos locais de acampamento e já arma as barracas. No dia seguinte, partimos sem ter de desarmá-las já que ele fará isso também. Não só isso, há também uma "confortável" barraca-restaurante, uma eficaz "barraca-banheiro" entre outras regalias. Por fim, viaja conosco um cozinheiro, de modo que comemos bem durante toda a caminhada.
Muita água no 1o dia do trekking de Santa Cruz, na região da Cordillera Blanca, próximo à Huaraz - Peru
Hora de descanço no trekking de Santa Cruz, na região da Cordillera Blanca, próximo à Huaraz - Peru
Enfim, um belo pacote que nos convenceu! À nós e ao resto do grupo, o Jacob (austríaco), a Elise (Luxemburgo) e o casal Andreas e Vania (alemão e búlgara), todos muito simpáticos. Acompanhados do nosso guia Oscar e do cozinheiro Tiburço, fomos todos de van até a pequena cidade de Cashapampa onde encontramos nosso arriero e suas mulas. A partir daí, foi pé na trilha!
Hora do almoço no trekking na região da Cordillera Blanca, próximo à Huaraz - Peru
Nosso grupo almoça do lado de rio na região da Cordillera Blanca, próximo à Huaraz - Peru
O caminho vai subindo um vale, sempre acompanhando um rio, suas corredeiras e cachoeiras. Ao lado, montanhas cada vez mais altas. Flores e pedras de diferentes cores e formas completam esse cenário grandioso e, para qualquer lado que olhemos, a paisagem é incrível. No caminho, encontramos alguns grupos de turistas na direção contrária, o sentido do trekking que é um pouco mais normal do que o que estamos fazendo. O que encontramos bastante também são animais como vacas, cavalos e ovelhas. Eles emprestam um ar meio bucólico ao cenário mas, ao mesmo tempo, são um lembrete de que não podemos beber a água transparente que desce pelo rio, já que essas mesmas águas cruzam os lugares de pastagem desses animais.
Conversa no nosso acampamento (com a Elise, de Luxemburgo, e Jacob, da Áustria) na região da Cordillera Blanca, próximo à Huaraz - Peru
Algumas horas de caminhada e o Tiburço nos aguardava num local aprazível da trilha com o almoço sadio de verduras já pronto. Aos poucos, o nosso investimento na viagem em grupo se mostrava cada vez mais correto, hehehe! Isso ficou ainda mais claro quando chegamos, no final da tarde, no local do acampamento, nossa barracas montadas, o banheiro arrumadinho logo ali e, melhor de tudo, a barraca-restaurante nos esperando com um delicioso cheiro de pipoca quentinha! Hmmmmm...!
Hora do lanche na nossa barraca-restaurante na região da Cordillera Blanca, próximo à Huaraz - Peru
Cervejinha no final da tarde com o austíaco Jacob, área do acampamento do 1o dia no trekking na região da Cordillera Blanca, próximo à Huaraz - Peru
Antes que a noite caísse e, com ela, o frio chegasse, ainda deu tempo de irmos até uma pequena vendinha ali do lado, a única nesse caminho de 3 dias, tomar uma deliciosa cerveja gelada no meio daquela paisagem inesquecível. As primeiras montanhas nevadas já apareciam ao fundo e um resto de sol nos aquecia. Momentos para guardar para sempre, seja em foto, seja na memória! De lá para o jantar na barraca-restaurante e de lá para a barraca quentinha, com direito a duplo colchão e saco de dormir muito mais quente do que o meu, que ficou muito bem guardado em Huaraz. Amanhã, depois do cafe da manhã, começamos cedinho!
Descansando e esquentando-se ao sol no nosso acampamento na região da Cordillera Blanca, próximo à Huaraz - Peru
Tentativa de enfrentar o mar e as ondas de Kalalau, na Na'Pali Coast, costa norte de Kauai, no Havaí
Passamos hoje um dia espetacular na praia do Kalalau. No próximo post relato como foi, entre banhos de cachoeira, caminhadas e pescarias. Agora, vou falar apenas de um dos aspectos que me convenceram de que essa é a mais bonita praia que já vi em meus rápidos 43 anos de idade.
Enormes ondas estouram nos rochedos da Kalalau Beach, na Na'Pali Coast, costa norte de Kauai, no Havaí
Estou falando do mar e, especialmente, das ondas. Se já estavam grandes ontem, hoje estavam ainda maiores e mais ameaçadoras. Não é sempre assim. Tem época do ano que, ouço, isso é um aquário. Agora no inverno, ao contrário, é a época das ondas grandes na costa norte de todas as ilhas havaianas, incluindo o Kauai.
Mar violento e grandes ondas na Kalalau Beach, na Na'Pali Coast, costa norte de Kauai, no Havaí
Mar violento ao fundo e tranquilidade total na praia, em Kalalau, na ilha de Kauai, no Havaí
Mas, mesmo nessa época, todos os dias são diferentes. Hoje, por exemplo, estava mais forte do que ontem. Aparentemente, estava mais forte do que todos os dias anteriores da temporada. Quem disse foi uma das duas pessoas que vi entrar no mar e que saiu de lá com os olhos arregalados. “Nossa, quase morri ali!”. E ele tem estado na praia e entrado diariamente no mar há duas semanas.
Mar violento e grandes ondas na Kalalau Beach, na Na'Pali Coast, costa norte de Kauai, no Havaí
A outra pessoa que entrou, foi logo atrás desse primeiro. Mas o mar e as ondas os separaram rapidamente. Dez minutos depois da primeira pessoa ter saído do mar, saiu a segunda. Obviamente, essa demora não foi por sua vontade, mas pela vontade e humor das fortes correntes e ondas. Numa aparente tranquilidade que escondia uma seriedade, ele falou ao amigo: “You left me there alone to die?”.
Um mirante avançado para melhor admirar as grandes ondas de Kalalau, na Na'Pali Coast, costa norte de Kauai, no Havaí
Essa fúria do lado de dentro contrasta com a tranquilidade e beleza do lado de fora. Praia enorme, areia boa para caminhadas, mar azul, espuma branca, visual bucólico. Não há problemas em molhar os pés, mas um metro a mais que se entre, cuidado com a corrente! As ondas aqui estouram (ou explodem) perto da praia. Não são ondas “surfáveis”. Desmoronam rapidamente, por inteiro. As maiores, algo entre três e quatro metros, uma parede de água despencando a meros 20 metros da areia, aonde a profundidade mal ultrapassa o metro e meio. Isso antes da onda passar, pois logo atrás dela, o mesmo lugar estará a 4-5 metros de profundidade para, logo depois, “esvaziar” novamente.
Um mirante avançado para melhor admirar as grandes ondas de Kalalau, na Na'Pali Coast, costa norte de Kauai, no Havaí
Enfim, um verdadeiro espetáculo para quem vê de fora e algo meio tenso para quem vê “de dentro”. Eu, fascinado que sou por água, mar e ondas, metido a desbravador, me achando o “amigo dos oceanos”, claro que quis ver as tais ondas dos dois ângulos. Pelo lado de fora, tratei de achar um “mirante avançado”, em cima das pedras. Ali vi o mar bombardeando as encostas, consumindo pouco a pouco a ilha que, um dia, voltará a ser mar.
Não é a toa que os barcos não chegam até a praia nessa época do ano, na kalalau beach, na Na'Pali Coast, costa norte de Kauai, no Havaí
Engraçado também foi ver um barco se aproximando. Enquanto no verão, é possível vir até aqui pelo mar e desembarcar tranquilamente, agora os barcos só ficam a uma distância segura. Os turistas vêm, fotografam e se vão. O Kalalau, no inverno, é daqueles que caminham. E só!
Grandes ondas estouram perto da praia em Kalalau, na Na'Pali Coast, costa norte de Kauai, no Havaí
Voltando às ondas, ontem eu tive o prazer em enfrentá-las. Como disse, estavam menores, mas meu ouvido reclamou um pouco da diferença de pressão ao passar abaixo delas. Por cima, nem pensar!
Uma grande onda não estoura, ela explode na Kalalau Beach, na Na'Pali Coast, costa norte de Kauai, no Havaí
Tentativa de enfrentar o mar e as ondas de Kalalau, na Na'Pali Coast, costa norte de Kauai, no Havaí
Hoje, estive ensaiando entrar por algum tempo. O coração mandava ir enquanto as pernas se recusavam. Espírito de aventura contra espírito de autopreservação. Por fim, a coragem me levou mar adentro, pelo menos até a frente das ondas. Mas não através delas. Ensaiei, respirei fundo, combati demônios interiores, mas não fui além. Aquela vozinha sensata dentro da cabeça, mais os conselhos da Ana e do Rafa falaram mais alto.
Batendo em retirada das enormes ondas de Kalalau, na Na'Pali Coast, costa norte de Kauai, no Havaí
Afinal, eu e a Ana tínhamos uma caminhada pela frente ainda hoje e o mar estaria lá amanhã, para uma nova tentativa. Enfim, aquela popular “amarelada”. Enquanto andávamos em direção às montanhas (estávamos fazendo uma trilha para uma cachoeira), eu olhava para trás, via o mar e as ondas e só conseguia pensar: “Que sensacionais! Só espero que não fiquem ainda maiores, pois amanhã, nada de sensatez!”
O Rafa pergunta: "Amarelou?". "Pois é... tá f...!" (Kalalau Beach, na Na'Pali Coast, costa norte de Kauai, no Havaí)
Abatido, depois de uma noite com febre de mais de 40 graus (esperando o avião de Saba para St. Maarten)
Pois é, foi como o dito popular:"De onde menos se espera, é que não sai nada mesmo!". Nada de milagre para que eu pudesse mergulhar. Ao contrário, minha temperatura de manhã era de 39,3. A única vantagem é que acabaram-se todas as dúvidas: nada de mergulho para mim.
A Ana seguiu para o mergulho enquanto eu segui na cama. Mais um paracetamol para ver se a febre baixava. Ao menos, além da alta temperatura e consequente sensação de cansaço, não sentia mais nada. A temperatura baixou um pouco e eu pude ir tomar um café gostoso e desfrutar da vista maravilhosa. Engraçado que, mesmo esta vista, quando estamos tão debilitados, deixa de ser inspiradora. Pelo menos, não é tanto quanto a nossa cama, onde podemos nos deitar.
Quando a Ana voltou, já era duas da tarde. Fora a hora e pouco que tinha passado na varanda do El Momo, todo o resto tinha estado deitado. A Ana conseguiu negociar e fazer um terceiro mergulho, já que eu não tinha ido e tínhamos pago o pacote. Pelo menos isso. Ela também disse que os mergulhos não tinham sido tão bons como os anteriores. Será que foi para me animar?
Nova medição de temperatura e novo recorde. Agora, 40,4. Pois é, não me lembro de ter passado dos quarenta anteriormente. Tomei mais um anti-térmico, agora fornecido pelo motorista de táxi amigo nosso que nos leva para o porto todos os dias, compadecido pela minha ausência, e resolvemos que era hora de procurar um médico. Domingão, tudo fechado. A Ana até tinha ficado de comprar frutas e remédios na volta, mas não viu nada aberto. Ela foi falar com o Andres, dono do El Momo, que já acompanhava nossa história. Juntos, localizaram uma enfermeira de plantão no hospital que ficou de chamar o médico. O Andres emprestou o carro e seu assistente foi nos levar até The Bottom, capital da ilha, onde está o hospital.
Despedida do Andres e do El Momo, em Windwardside - Saba
Lá chegando, o médico rapidamente nos atendeu. Nova medida de temperatura, dessa vez no ouvido, após o anti-térmico, e deu 39,5. Rapidamente, ele descobriu a causa: inflamação nos dois ouvidos e na garganta. Pela cor das mucosas, "red as red can be!", ele ficou impressionado de eu não estar sentindo nada. Antibiótico imediatamente, três vezes ao dia.
No caminho de volta, ainda conseguimos achar um lugar para comer um pouco, apesar de eu já não sentir fome, só vontade de deitar. Chegar no hotel e na cama foi um grande alívio. Psicologicamente, estava melhor, pois agora parecia que tomava a medicação correta. Mas o fato é que eu me sentia completamente esgotado. Já tinha perdido o mergulho e agora, a bola da vez era a caminhada até o topo do Mt. Scenery, programada para o dia seguinte, pela manhã, já que de tarde voaríamos para St. Maarten e de lá para Sint Eustatius.
Pois bem, nova medição às sete da noite e estava novamente acima dos 40. Quanto tempo demora para antibiótico fazer efeito? Dormi e, perto das dez, acordei com muito frio, tremendo descontroladamente. A Ana me vestiu um casaco e, mesmo com dois edredons, continuava tremendo. Era a temperatura que aumentava... Sempre ouço dizer que, acima dos 40, tudo fica perigoso. A única coisa que me acalmava é que, aparentemente, continuava plenamente consciente. Tinha até um lado meu, afeito a recordes, que pensava: "Vamos lá! É só uma vez! Vamos bater o recorde de temperatura!". Dito e feito. Vinte minutos de tremação e tudo se acalmou novamente. Nova medida de temperatura: 41,6. E olha que eu desconfio que este nosso termômetro diminui a temperatura, pois quando estamos "normais", ele marca de 35,8 até 36,2. Enfim, muito preocupante mesmo! Ali, naquela hora, só pude tomar mais um paracetamol e um banho de chuveiro. Aliás, que esforço para chegar lá. O banheiro era fora do quarto. Ahhnn... tomei também a segunda dose do antibiótico.
A noite foi dormida em pedaços. Uns cento e cinquenta pedaços. Mas foi. E, aparentemente, o pico de febre de ontem foi o canto do cisne. Hoje, acordei com 37 e meio. E assim ficou o dia inteiro, um pouco para cima, um pouco para baixo. O que não melhorou foi a sensação de cansaço. A subida do Mt. Sceney, obviamente, foi para o espaço. A minha caminha era infinitamente mais atrativa. De qualquer maneira, ele esteve encoberto o dia inteiro, como que para diminuir nosso remorso.
Sala de espera para embarque no aeroporto de Saba - Caribe
Agora, o que estava em jogo era nosso vôo. Com a febre já bem baixa, achamos que dava. A Ana, junto com o Andres, já fechou uma reserva num hotel em Oranjestad, capital de Sint Eustatius. Arrumou nossas várias mochilas enquanto eu, da cama, dava apoio moral. Voltou ao hospital de carona para pagar a consulta e comprar a medicação, já que ontem estava tudo fechado mesmo. Providenciou o táxi para nos levar ao aeroporto. Aí, ela já não podia mais fazer as coisas por mim. Fiz o esforço para descer até o táxi, enfrentar o caminho para o aeroporto, aguardar na deliciosa sala de espera (ao ar livre, muito legal mesmo!), voar para St. Maarten, aguardar uma hora e meia no aeroporto de lá, e voar para Sint Eustatius.
Nesse meio tempo, sem esquecer dos antibióticos, a febre sumiu e o cansaço melhorou um pouco. Tanto que, do aeroporto, fui corajoso o suficiente para, com os protestos da Ana, dispensar o táxi e caminhar os cerca de 400 metros até nosso hotel. Aqui, o valoroso prêmio alvejado já há quase 4 horas: uma cama limpinha nos esperando!
E assim foram esses meus dois últimos dias. Nem só de flôres vive um viajante. Mas, como já diziam os gauleses: depois da tempestade, virá a bonança. Amém!
Chegada à ilha de Sint Eustatius, mais conhecida como Statia (Caribe).
Mesmo em dia nublado, as paisagens grandiosas do parque Nacional Torres del Paine, no sul do Chile
Em 1878 chegava ao sul da Patagônia o primeiro grupo de turistas de que se tem notícia. Entre os integrantes, a famosa escritora, jornalista e feminista inglesa Florence Dixie. Naquela época, Dixie já dizia que homens e mulheres deveriam ter os mesmos direitos, de votar, de estudar, de trabalhar, de como se vestir e até de viajar. Seus livros, mesmo os de viagens, faziam muito sucesso na época. Sua descrição sobre as belezas da patagônia, especialmente sobre a região de Torres del Paine, cativaram e interessaram muitos leitores e incentivaram a vinda para cá de inúmeros cientistas, como geólogos e glaciologistas. As enormes torres de granito que fazem a fama do parque foram chamadas por ela de “As Agulhas de Cleópatra”.
Foto clássica do parque Torres del Paine, tirada em dia de sol e do lago Pehoe (foto da internet)
Foto clássica do parque Torres del Paine, tirada em dia de sol e do lago Nordenskjold (foto da internet)
Esse era o nome que se dava (e continua assim!) aos obeliscos egípcios que foram enviados a Paris, Londres e Nova York poucos anos antes da viagem de Dixie à patagônia. Na verdade, eles são muito anteriores à Cleópatra e quando a famosa rainha egípcia nasceu eles já tinham quase 1.500 anos. Mas no final do séc. XIX, tudo que vinha do Egito era associado à sua mais conhecida rainha e assim foi com os obeliscos também. As enormes montanhas em forma de torres no sul do Chile realmente se parecem com os obeliscos, mas o nome sugerido por Dixie não pegou e eles ficaram mesmo conhecidos como Torres del Paine. “Paine” é uma forma antiga de dizer “azul” e se refere á cor do granito em dias nublados, coisa muito comum por aqui.
Estrada interna do parque Nacional Torres del Paine, no sul do Chile
Estrada que corta o parque Nacional Torres del Paine, no sul do Chile
Mesmo com a chegada de cada vez mais visitantes para conhecer essas formações tão belas, a área não era protegida até 1959. Ao contrário, várias fazendas de pastoreio ocupavam a região, a mata nativa sendo destruída para dar lugar para comida de ovelha. Finalmente, com a criação do parque de 2.500 km2, a situação começou a se reverter. A flora e a fauna local se recuperaram e o número de turistas não parou mais de crescer, algum número perto de 170 mil pessoas por ano, mais de 60% delas estrangeiros. A absoluta maioria desses visitantes vem durante os meses de verão, de Dezembro a Março, quando o clima é mais ameno e o dia tem muito mais horas de luz. O resultado é um certo congestionamento no parque, principalmente ao longo das atrações, trilhas e refúgios mais conhecidos.
Lagoas e montanhas do parque Nacional Torres del Paine, no sul do Chile
Lago Sarmiento, no parque Nacional Torres del Paine, no sul do Chile
O parque protege uma área de lagos, rios, geleiras e estepes, mas a grande estrela é, sem dúvida o maciço Paine. Suas torres de pedra atraem alpinistas do mundo inteiro enquanto a chance de vê-las mais de baixo atrai pessoas do mundo inteiro. Uma rede de trilhas foi criada para dar acesso a todos os ângulos possíveis de observação dessas montanhas, enquanto refúgios e campings atendem a todos os caminhantes. A organização é quase americana, com opções para todos os bolsos. A única necessidade é fazer a reserva com bastante antecedência, principalmente nos meses de verão.
Pousadas mais chiques dentro do parque Nacional Torres del Paine, no sul do Chile
Pousada com direito a hidromassagem na beira do lago no parque Nacional Torres del Paine, no sul do Chile
Há também uma rede de estradas, para aqueles que não querem fazer muito exercício. Elas levam a lagos, cachoeiras, mirantes de observação e aos hotéis mais caros. Sim, exatamente como nos EUA e diferentemente do que ocorre no Brasil, há hotéis chiques dentro da área do parque nacional para aqueles que querem conhecer um dos lugares mais belos do mundo em alto estilo. Mas para quem quiser ver essa maravilha de perto mesmo, aí não tem jeito: vai ter de botar o pé na trilha e suar um pouco (ou, muitas vezes, passar frio!).
Mesmo em dia nublado, as paisagens grandiosas do parque Nacional Torres del Paine, no sul do Chile
Parada em mirante ao lado da estrada no parque Nacional Torres del Paine, no sul do Chile
Geleira desce montanha no parque Nacional Torres del Paine, no sul do Chile
Já faz alguns anos que esse parque passou a ser o queridinho dos gringos que visitam a nossa América do Sul. Tanto por suas belezas naturais como pela infraestrutura e organização criada para desfrutá-la. O Torres del Paine virou um símbolo e motivo de orgulho para o Chile. Mas com tanta gente entrando no parque e caminhando livremente por suas trilhas, a chance de acontecer algo errado não é pequena. Por duas vezes em anos recentes, turistas que acampavam não cuidaram bem de seus fogareiros e inadvertidamente botaram fogo no parque, queimando mais de 150 km2 de vegetação e, inclusive, matas nativas. Em 2005 foi um turista tcheco e em 2011, um viajante de Israel. A repercussão foi tão grande que, nos dois casos, seus países de origem arcaram com os custos e enviaram especialistas para ajudar na recuperação da vegetação destruída. Hoje, fogueiras são proibidas em qualquer lugar de Torres del Paine e fogareiros só podem ser acesos em locais de camping. Turistas são terminantemente proibidos de caminhar fora das trilhas designadas e o acesso a algumas regiões mais sensíveis do parque só pode ser feita acompanhada de guias credenciados.
Mesmo queimada, a bela vegetação do parque Nacional Torres del Paine, no sul do Chile
Nosso roteiro (de carro e pequenas trilhas) no primeiro dia no Parque Torres del Paine: Portaria Sarmiento - Mirante - Salto Chico - Praia do Lago Grey - Salto Grande - Refúgio Las Torres. Amanhã, começamos o famoso trekking do W, também mostrado no mapa
Eu já tinha estado aqui uma vez, há pouco mais de 20 anos. Foi durante uma viagem de um mês por Argentina e Chile e as memórias das andanças no Torres del Paine ainda estão vivas, um dos pontos altos daquela jornada. Ainda não havia tantos turistas naquela época e os refúgios eram bem mais rústicos que os de hoje. Mas sempre sonhava em voltar. Aquela história de que figurinha repetida não preenche álbum não vale para esse lugar especial. Enfim, agora tão bem acompanhado da Ana, finalmente o sonho se realizou.
Passarela de madeira que leva ao Salto Chico, no parque Nacional Torres del Paine, no sul do Chile
Salto Chico (nem tão "chico" assim!) no parque Nacional Torres del Paine, no sul do Chile
Mesmo com chuva e frio, visita ao Salto Chico, no parque Nacional Torres del Paine, no sul do Chile
Como chegamos bem na semana do natal, o parque não está assim, tão lotado. Nós viemos para percorrer o famoso circuito do W, o trekking mais conhecido e disputado do Torres del Paine. O circuito tem esse nome, “W”, exatamente porque o caminho se parece com essa letra do alfabeto, contornando a parte sul do maciço de montanhas e entrando no centro delas, justamente a perna do meio do W. Ainda vou falar disso nos próximos posts, mas decidimos pelo W pelo tempo que dispúnhamos, não mais do que quatro dias.
Praia do lago Grey, sempre com muitos icebergs, no parque Nacional Torres del Paine, no sul do Chile
A Ana atravessa praia do lago Grey rumo a um iceberg, no parque Nacional Torres del Paine, no sul do Chile
Pois bem, a gente chegou hoje aqui no meio da tarde e não poderíamos começar a caminhar ainda hoje. Ao mesmo tempo, nessa época do ano a tarde vai longe por aqui e resolvemos aproveitar essas horas extras. Hoje foi o dia de percorrermos as estradas do parque no conforto da nossa Fiona, parar em locais estratégicos e percorrer pequenas trilhas. Ficamos longe das montanhas, mas elas estão sempre ali, no nosso horizonte. E estariam gloriosas, se o tempo não estivesse tão fechado, muitas vezes até chovendo. Então, o maciço e suas torres estavam sempre entre nuvens, mostrando parcialmente sua cara uma vez ou outra.
A Ana fica pequena perto de um iceberg em praia do lago Grey, no parque Nacional Torres del Paine, no sul do Chile
Um enorme iceberg flutua no lago Grey, no parque Nacional Torres del Paine, no sul do Chile
O parque tem muitos lagos, mas são quatro os principais: Sarmiento, Nordenskjold, Pehoe e Grey. As estradas circulam entre eles e as atrações tem sempre relação com esses lagos. Nós entramos no Torres del Paine pela portaria Sarmiento e logo paramos em um belo mirante com vista para pequenas lagos e para o Nordenskjold, com as montanhas ao fundo. Aliás, esse nome esquisito é uma homenagem ao jovem cientista sueco que veio no início do séc. XX na esteira do livro da Florence Dixie e passou um bom tempo por aqui estudando a região. Daqui ele partiu para uma viagem ainda mais ao sul e vários acidentes geográficos na Geórgia do Sul e Antártida também o homenageiam.
Debaixo de chuva, caminhando em praia do lago Grey, no parque Nacional Torres del Paine, no sul do Chile
Observando icebergs no lago Grey, no parque Nacional Torres del Paine, no sul do Chile
Daí seguimos para o Salto Chico, uma poderosa cachoeira que de pequena não tem nada. É ela que traz as águas do lago Pehoe para o rio Pehoe. Uma rápida caminhada na chuva em uma passarela de madeira nos levou até lá. Tiramos nossas fotos molhadas e voltamos para a Fiona, agora para passar pela administração do parque e seguir até o fim da estrada. É daí que sai uma trilha de uns três quilômetros que atravessa uma praia do lago Grey e dá visão para a geleira Grey, lá no fundo, a maior da região. Quando fizermos o W, vamos chegar lá perto! Hoje, por causa chuva, mal deu para ver ela direito.
Icebergs parecem formar uma frota de navios-fantasma em praia do lago Grey, no parque Nacional Torres del Paine, no sul do Chile
Um turista se aproxima de iceberg em praia do lago Grey, no parque Nacional Torres del Paine, no sul do Chile
De qualquer maneira, o ponto alto dessa trilha não era ver a geleira de longe, mas sim a praia e os diversos e grandes icebergs que boiam por ali. Esses enormes pedaços de gelo vieram justamente da geleira alguns quilômetros adiante e ficam ali perto da praia, encalhados, pelo menos até derreterem, ficarem menores e seguirem rio abaixo. São de gelo azul e num dia acinzentado como hoje, estavam lindos e elegantes, uma cena quase surreal diante da lente de nossa câmera, uma pintura no lugar de uma fotografia.
Iceberg e seu reflexo nas águas do lago Grey, no parque Nacional Torres del Paine, no sul do Chile
Icebergs que parecem pinturas flutuam no lago Grey, no parque Nacional Torres del Paine, no sul do Chile
Como havíamos chegado ao final da estrada, só nos restava voltar. Já passava das 19:00 e ainda nem tínhamos lugar para dormir. Mas isso não nos impediu de fazer uma última parada, dessa vez no Salto Grande, o estreito canyon que faz a ligação entre as águas do Nordenskjold e do Pehoe. Já o tínhamos fotografado de longe, mas agora eu queria chegar lá pertinho. A Ana se rendeu ao cansaço do dia longo e à chuva e decidiu esperar na Fiona. Uma rápida corrida em meio a chuva, várias fotografias e outra corrida, agora na descida, encerraram rapidamente essa última etapa do passeio pelo parque.
Icebergs que parecem pinturas flutuam no lago Grey, no parque Nacional Torres del Paine, no sul do Chile
Faltava só o lugar para dormir. Como pretendemos começar o W logo pela manhã, tínhamos de dormir em alguma de suas extremidades. Logisticamente, é muito mais fácil ir até o lado leste da trilha, pois o carro chega até aí. Para chegar ao lado oeste, só de barco e, a esta hora, é claro que não havia mais barcos. Então, ficou fácil: rumo à Hosteria Las Torres, no extremo leste do circuito.
Visto de longe, o Salto Grande, no parque Nacional Torres del Paine, no sul do Chile
O salto Grande, onde as águas do lago Nordenskjold caem no lago Pehoe, no parque Nacional Torres del Paine, no sul do Chile
O salto Grande, onde as águas do lago Nordenskjold caem no lago Pehoe, no parque Nacional Torres del Paine, no sul do Chile
A hosteria é, na verdade, um complexo. Há um hotel mais caro, um refúgio com quartos coletivos e um camping. Tudo para atender a demanda que não para de crescer. A chuva e o frio nos desestimularam a buscar o camping (montar barraca naquele estado de cansaço, frio, chuva e escuridão, ninguém merece!) e o hotel, mesmo com preços salgados, estava lotado. Já os refúgios, só por que era a semana de natal e estava chovendo, havia umas últimas vagas para nós. O preço? O roubo de 50 dólares por pessoa, sem direito a cobertor! Realmente, a barraca teria saído muito mais em conta, mas nossa falta de ânimo valeu esses 100 dólares. Àquela hora, o restaurante tipo bandejão já tinha fechado e a gente se virou com um lanche mesmo. Depois, fomos achar nosso beliche em um quarto cheio de gringos, alguns começando a caminhada, outros terminando. Dormindo em nossos sleepings, buscamos descansar porque, a partir de amanhã, não tem mais moleza não. Uma longa trilha de 3 dias em meio às Agulhas de Cleópatra, uma das mais cênicas do mundo, nos aguarda...
Atrás de uma colina, as famosas montanhas de granito do parque Nacional Torres del Paine, no sul do Chile
Monumento aos navegadores, em Prince Rupert, na British columbia, oeste do Canadá
Depois da longa caminhada no dia 3, ontem tivemos um dia bem menos corrido (ou “andado”, hehehe). Para começar, já pudemos ficar por mais tempo na cama, pelo menos até o limite de não perdermos nosso gostoso café da manhã no B&B, às nove da manhã. Depois, sem pressa nenhuma, aproveitando a bela vista que temos do mar direto da nossa janela, tivemos uma manhã de trabalho, devidamente acomodados entre almofadas e travesseiros.
Nosso B&B em Prince Rupert, na British Columbia, oeste do Canadá
O Cowpuccino's, nosso café preferido em Prince Rupert, na British Columbia, oeste do Canadá
Mas o dia lá estava muito lindo, quase que nos chamando para o lado de fora. Depois de tantos dias nublados ou de chuva, que bom que é ver a cara do sol! É aí que valorizamos! Resolvemos então seguir para a trilha mais popular em Prince Rupert e, se desse tempo, ainda ir ao museu no final da tarde. Mas antes disso, nossa tradicional passada no café Cowpuccino, uma delícia de ambiente. Lá, encontramos o Cory e já marcamos nosso jantar para as 18:00. Como já era mais de uma da tarde e ainda tínhamos uma trilha de quase seis quilômetros pela frente, não demorou para fazermos os cálculos e decidirmos que o museu ficaria para o dia seguinte...
Na trilha de Butze Rapids, em Prince Rupert, na British columbia, oeste do Canadá
Na trilha de Butze Rapids, em Prince Rupert, na British columbia, oeste do Canadá
Pois é, o nosso ferry que deveria sair às 13:00 horas, atrasou seu horário de partida em duas horas, o que nos deu mais tempo na cidade. Ao mesmo tempo, a companhia ainda promete chegar no mesmo horário em Port Hardy, em Vancouver Island, às 11 da manhã do dia seguinte. Um motivo a mais de preocupação para nós, pois estamos querendo fazer o último tour de avistamento de baleias da temporada, que sai às 13:00 de um local a cerca de uma hora de distância de Port Hardy. Se perdemos essa, aí podemos desistir de vez desses gigantes do mar. Se já estávamos meio preocupados com o horário apertado antes, agora com o atraso na partida, piorou. Vamos ver...
Na trilha de Butze Rapids, em Prince Rupert, na British columbia, oeste do Canadá
Os famosos Butze Rapids, em Prince Rupert, na British columbia, oeste do Canadá. O sentido das corredeiras varia com a maré
Enfim, a parte boa é que ganhamos tempo para ver o museu no mesmo dia da partida e pudemos ir mais tranquilos para a trilha dos Butze Rapids. Esse é o nome que se dá para umas corredeiras com uma peculiaridade bem interessante! Dependendo da maré, a corredeira corre para um lado ou para o outro. Pois é, eu já tinha visto rio inverter o sentido, perto do mar. Mas corredeira, foi a primeira vez! Foi uma caminhada bem gostosa pela mata de um parque, uma espécie de Barigui (ou Ibirapuera) deles. Muita gente levando cães para passear ou fazendo sua corridinha vespertina. Quando chegamos às corredeiras, elas estavam correndo rio acima. Ou seja, maré enchendo! Quem acha que rio só corre para baixo, nunca morou perto do mar...
Visita ao Northern BC Museum, em Prince Rupert, na British Columbia, oeste do Canadá
Voltamos da trilha diretamente para o chuveiro e, de lá para o restaurante. Outro lugar muito joia, digno de grandes metrópoles, mas aqui na pequena e surpreendente Cow Bay, bairro de Prince Rupert. O Cory e sua esposa Paula já nos esperavam. A comida, o vinho e a conversa estavam tão bons que só saímos de lá quase quatro horas mais tarde! Eu e a Ana provamos Halibut, uma espécie de linguado gigante muito saboroso que estava uma delícia. É um prato bastante comum aqui desse lado do continente. A Paula é um amor e os dois estavam super interessados na nossa viagem. Enfim, de tão agradável, nem vimos o tempo passar. Ao final, nem deixaram a gente pagar. Agora, os dois tem mais uma razão para ir ao Brasil. Um jantar na faixa em algum lugar tão bom como esse em que nos banqueteamos ontem de noite.
Máscara Tsimshian no Northern BC Museum, em Prince Rupert, na British Columbia, oeste do Canadá
Hoje, depois do café da manhã de despedida do nosso B&B, direto para o Northern BC Museum, o museu da cidade. De novo, padrão de cair o queixo para uma cidade desse tamanho. Excelentes exposições sobre a arte dos diversos povos First Nation da região, como os famosos Haidas e os Tsimshian (os mesmos da trilha de ontem). Diversas peças de cerâmica, vestuário e do dia a dia desses povos, além de painéis explicativos e fotos sobre os famosos totens, marca registrada dessa região.
Arte Haida no Northern BC Museum, em Prince Rupert, na British Columbia, oeste do Canadá
Além da parte artística, um ótimo resumo histórico dos povos que aqui viveram. Fiquei impressionado com a complexidade dessas sociedades e da teia de relações entre diferentes tribos, clãs, famílias e linhagens. Quanto mais aprendo sobre essa região, mas fico consciente do quão ignorante eu era. A nossa América é muito maior do que simploriamente imaginamos. E é claro que não estou falando de geografia não...
Embarcando no ferry para a viagem entre Prince Rupert e Port Hardy, na Vancouver Island, sul da British Columbia, no Canadá
Com sol, este é o melhor lugar no ferry entre Prince Rupert e Port Hardy, na Vancouver Island, sul da British Columbia, no Canadá
Depois do banho de cultura, seguimos para o ferry. Para nossa surpresa, o barco canadense é ainda melhor que o americano. Enorme, cheio de salões e poltronas ainda mais confortáveis. Serão 19 horas de viagem até Port Hardy (assim esperamos!), céu azul, sol brilhante e noite clara. Mais chance de ficar do lado de fora do barco e mais chance de ver baleias. Com o tempo assim, tudo fica mais bonito e pudemos confirmar isso na primeira metade da viagem, até que escurecesse. Agora, é fechar os olhos, cruzar os dedos, sonhar com os anjos e já acordar perto do destino final nessa nossa longa jornada pela Inside Passage. Amanhã, de volta à estrada de verdade, aquela que é de asfalto, à bordo do nosso ferry preferido que atende pelo nome de Fiona!
Belo pôr-do-sol na Inside Passage entre Prince Rupert e Port Hardy, na Vancouver Island, sul da British Columbia, no Canadá
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