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Consegui resistir das outras vezes que estive em Fortaleza, mas desta vez...
Ontem de noite conseguimos a passagem mais barata que procurávamos pela ...
Depois de acordarmos em frente ao mar na praia Obama e passarmos pelo vib...
Suzany (09/11)
Olá... Muito adorei as dicas. Estamos indo para lá em janeiro... Você ...
Suzany (09/11)
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Karla Avanço (05/11)
Olá, vou a Pernambuco em janeiro e gostaria de visitar o Catimbau. Ainda...
stan (01/11)
parabéns pelo documentário, adoro aquele lugar, pousadas, comidas e bon...
Junior (31/10)
Gostei muito da matéria e gostaria de visitar a Serra do Catimbau, poré...
Um magnífico castelo de areia na Playa Blanca, em Baru, na Colômbia
Praias não são o ponto forte de Cartagena. O mar é meio escuro, a faixa de areia é pequena e há muitas pedras. Enfim, a população local se diverte, principalmente nos finais de semana, mas ninguém viaja para cá em busca delas, principalmente os estrangeiros. Mas a história começa a ficar diferente quando nos afastamos um pouco da cidade...
Barcos se alinham no cais em Cartagena para levar centenas de turistas à Playa Blanca, na Colômbia
Desde que fizemos nossos primeiros amigos colombianos, lá em Cali, muito antes de chegarmos aqui na primeira vez, que eles já nos disseram: “Quando forem à Cartagena, não deixem de ir à Playa Blaca1” . Conselho de gente local, devemos sempre levar a sério. E nós levamos! Não fomos a tal praia na nossa primeira passagem pela cidade porque naquele mês de festas, ela estaria lotadíssima. Mas agora, numa [época mais tranquila, ela não nos escaparia. Ainda mais que tínhamos um “dia de folga” antes de começarmos o processo de resgate da Fiona. Assim, ontem de manhã nos despedimos dos nossos amigos suíços e do Hostel Mamallena e, de mala e cuia, viemos para Playa Blanca.
Turista aguardam a sua vez de abordar no cais em Cartagena, para seguirem à Playa Blanca, na Colômbia
Nosso barco, no caminho de Cartagena à PLaya Blanca, na Colômbia
Uma visita à praia e também às vizinhas Islas Rosario é um dos mais populares day-tours oferecidos aos turistas que visitam Cartagena. Pode-se chegar à praia de carro também, depois de passar pela fila da balsa, mas 99% dos visitantes vem mesmo de barco, nesses day-tours organizados em Cartagena. O esquema é profissional mesmo. São umas vinte lanchas rápidas que saem do cais turístico da cidade, cada uma levando uma vinte pessoas. Caminhando para o porto, bem cedinho, a gente já vê os turistas vindo de todas as direções, assim como também vans e micro-ônibus que os trazem de hotéis mais distantes. Antes de chegar ao cais, vendedores já nos empurram os ticktes, cerca de 30 dólares já incluindo almoço, taxas do parque e o transporte para a praia e também as Islas Rosario. Para quem só vai na Playa Blaca, um pouco mais barato.
Chegando à Playa Blanca, na Colômbia
A movimrntada Playa Blanca, na Colômbia
Já dentro do porto, sentamos em nossas cadeiras e esperamos que chamem nossos nomes para embarcarmos em uma das lanchas. Lancha cheia, seguimos à toda velocidade, passando por Boca Grande e Boca Chica (as duas entradas de mar que dão acesso à Cartagena, o sonho de todo o pirata que se ´preze nos séc. XVII e XVIII), damos uma paradinha para observar os fortes que protegiam essas passagens e seguimos para a Playa Blanca.
Playa Blanca, na Colômbia
Aí, nossa lancha praticamente se esvaziou, pouca gente disposta a seguir para as Islas Rosario. Essas ilhas formam um parque nacional destinado a proteger flora, fauna e os corais que fazem a fama do local. Apenas a maior das ilhas é pública, enquanto que a grande maioria dos cayos menores é tomada por hotéis exclusivos e mansões.
Muito bem instalado em quiosque na Playa Blanca, em Baru, na Colômbia
Um belo fim de tarde na Playa Blanca, em Baru, na Colômbia
Lá chegando, o espertão do motorista do barco quis nos vender, por outros 13 dólares por cabeça, a chance de fazer snorkel. Incluído no preço, máscara, nadadeira, colete salva vida e um guia para nos mostrar os peixinhos. Os outros poucos passageiros reclamaram do preço, barganharam uns 15% de desconto a compraram o “pacote”. Nós, que tínhamos levado nossas máscaras, indignados, recusamos terminantemente qualquer acordo. Afinal, já estávamos sobre o mar e certamente não precisávamos de guia e colete. Além disso, para nós, já estava tudo incluído no preço que pagamos lá em Cartagena. O capitão disse que não, que o preço só incluía nos deixar na praia da ilha e não ali, no mar, pronto para o snorkel. “Okay, nos deixe na praia, então!”. E assim foi, deixados na praia, nadamos os cem metros até o ponto de snorkel, ficamos por lá uns quarenta minutos e voltamos para a praia, para que ele pudesse nos pegar novamente. Guia para snorkel, só me faltava essa...
Nossa casa e nossas "camas" (as redes com mosquiteiro) na Playa Blanca, em Baru, na Colômbia
Hora de acordar, na Playa Blanca, em Baru, na Colômbia
Bom, fim da primeira etapa do passeio, seguimos (ou voltamos!) para a seguinte: a Playa Blanca. Praia linda, mas com boa parte dela totalmente tomada por turistas e vendedores. Esquema farofa, O almoço incluído é servido em esquema industrial, nos diversos quiosques que existem na praia. A cada barco que chega, os donos de quiosques fazem uma divisão e levam três ou quatro para seus restaurantes. Com direito à limonada. Qualquer coisa fora disso, preço extra. Para quem gosta de lagosta, por exemplo, e disposto a pagar, não vai se arrepender.
Pela manhã, turistas começam a chegar à Playa Blanca, em Baru, na Colômbia
Bom, terminado o almoço, terminava também nosso vínculo com o barco. Afinal, preciosa dica dos amigos colombianos lá de Cali, não voltaríamos hoje para a cidade. Eles bem disseram: “A Playa Blanca é maravilhosa! Mas tem de ser depois dos turistas irem embora e, no dia seguinte, antes deles voltarem!”. Então, com nossas mochilas para uma troca de roupa, caminhamos o mais longe possível da farofa e esperamos o tempo passar. Nesse meio tempo, decidimos aonde dormir: a casa da Dona Ana, nas redes com mosquiteira colocadas no avançado da casa, sobre a areia mesmo. E ela ainda nos emprestou uma das cabines para guardar e trancar nossas coisas.
Venda de cocos na Playa Blanca, em Baru, na Colômbia
Daí para frente, foi só alegria! Areias brancas, mar de águas claras e mornas, cerveja gelada. Melhorou mais ainda a partir das três da tarde, quando as lanchas começaram a partir. Às cinco, foi-se a última e a praia era de uma tranquilidade total, restando apenas uns poucos turistas que, como nós, tiveram a brilhante ideia de vir para ficar, todos com sorrisos de orelha à orelha. Depois da música alta durante o dia, o barulho do mar era um refresco para nossos ouvidos.
Ana, dona da nossa "pousada" na Playa Blanca, em Baru, na Colômbia
Já de noite, caminhando para o canto da praia, descobrimos duas ou três pousadas de verdade. Ali descobrimos que alguns mochileiros vem para passar a semana toda e que, naquele canto da praia, os barcos de turistas não chegam. Cada vez mais explicado a fama de paraíso que essa praia tem entre os mais descolados. No meio daquela muvuca, ainda durante o dia, estava difícil de entender. Mas agora, sob o céu estrelado e aquele clima tranquilo de praia, nossos pés na areia enquanto tomávamos nossa cerveja, tudo fez sentido.
Junto com o vendedor de driques na Playa Blanca, em Baru, na Colômbia
Carrinho de bebidas na Playa Blanca, em Baru, na Colômbia. Até "Kay Piriña" eles vendem!
Voltamos para as nossas redes e dormimos protegidos dos mosquitos. Mas, para azar da Ana, um grupo de colombianos chegou de carro na praia e resolveu se instalar justo ali, na casa da Dona Ana. Vieram na última balsa e estavam dispostos a pegar a primeira balsa do dia seguinte, às cinco da manhã. Para isso, resolveram não dormir e beber toda a noite. Pior para a Dona Ana, que ficou servindo as bebidas e para a minha Ana, que não conseguia dormir por causa do barulho. Eu, confesso, dormi como uma pedra.
O Alonso mostra a sua arte nas areias da Playa Blanca, em Baru, na Colômbia
No dia seguinte, aproveitamos as primeiras horas da manhã quando a praia era só nossa. Quer dize, quase só nossa, pois haviam outros poucos por ali. Entre eles, o Alonso, um colombiano que já morou muito tempo no Rio. Ele é escultor (ou arquiteto) de castelos de areia e vivia disso na Cidade Maravilhosa. Por aqui, também tinha feito um castelo, uma verdadeira obra de arte. Estava até com dois alunos ingleses. Bateu um longo papo com a Ana, cheio de histórias e aventuras para contar. Incrível história de vida!
Turistas tomam a Playa Blanca, em Baru, na Colômbia
Aos poucos, os turistas foram chegando e a tranquilidade, sumindo. A gente tratou de se acostumar ao novo ritmo, aproveitamos o mar ao máximo e, no meio da tarde, pegamos uma lancha de volta à Cartagena, felizes como nunca por ter dado essa escapada. Para quem vai à Cartagena e tem um pouco de tempo, não perca a chance de passar uma noite na Playa Blanca! Quanto a nós, estávamos prontos para começar o processo de tirar a Fiona do porto. Não vemos a hora de estar na estrada novamente, à bordo da nossa saudosa e queridíssima companheira!
Despedida da Playa Blanca, em Baru, na Colômbia
Admirando a magnífica paisagem do rio Yukon e Dawson City, no Yukon Territory, no Canadá
Hoje pela manhã, deixamos a cidade de Dawson, a capital dessa parte do mundo na virada do séc XIX para o XX. Para ver com são as coisas... quando estávamos chegando ao Alaska, há duas semanas, escolhemos a rota mais direta e decidimos que não valeria o esforço de chegar até aqui. Há poucos dias, quando fizemos nossos planos para ir embora do Alaska, também não incluímos Dawson no roteiro. Nossa ideia era ficar pelo sul do Alaska mesmo, até pegar o ferry. Mas São Pedro tinha outros planos e nos fez mudar de roteiro. Para nos convencer, mandou alguns raios e trovoadas. Assim que cedemos aos seus argumentos, ele nos recebeu com tempo limpo e as duas mais belas noites de Aurora das nossas vidas. E agora, na hora de deixar Dawson para trás, nenhum de nós duvida que essa foi a cidade mais interessante que encontramos no extremo norte do nosso continente. Nada como ter um roteiro “flexível”...
Rio Yukon, visto do alto do morro do Dome, em Dawson City, no Yukon Territory, no Canadá
Ainda de ir embora da cidade, dirigimos até o Morro do Dome, de onde se tem uma fabulosa vista da Dawson e do vale do Yukon. Nessa época do ano, Outono por aqui, não poderia ficar mais bonito. Ter visto a Aurora aqui de cima teria sido sensacional. Mas, ao mesmo tempo, não teríamos tido o reflexo das luzes celestiais no rio Yukon. Não dá para ter tudo... Legal foi ver uma foto de 1899 com mais de cem pessoas aqui em cima, todo mundo posando para a foto. Dá para ver o rosto de cada um. Cada pessoa com seus sonhos, problemas e alegrias do dia a dia. Hoje, todo mundo sete palmos embaixo da terra. Lembrança que a vida é curta e devemos vivê-la da melhor forma possível porque, daqui a pouco, seremos nós embaixo dos sete palmos...
No alto do morro do Dome, em Dawson City, no Yukon Territory, no Canadá
Seguimos viagem para o sul e, vinte minutos mais tarde, chegávamos ao início da rodovia Dempster Highway. Essa estrada nasce aqui e segue diretamente para o norte, num percurso de mais de 700 quilômetros ultrapassando o Círculo Polar Ártico, deixando Yukon para trás e entrando nos Northwest Territories, chegando à Inuvik, já bem perto do Oceano Ártico. Se vocês acham que nós chegamos ao fim do mundo, é porque não conhecem Inuvik. Deu aquela coceira danada de seguirmos para lá, desbravarmos a tundra novamente e chegarmos mais perto do Papai Noel. A paisagem da estrada certamente é belíssima, mas não muito diferente do que temos visto ultimamente. O que nos faria realmente pensar em seguir a estrada seria a chance de chegar ao Oceano Ártico e ver ursos polares. Mas, de novo, esse não era o caso...
Fiona se despedindo de Dawson City, no Yukon Territory, no Canadá
Quando pensamos em ursos polares, logo pensamos que é fácil encontrá-los aqui no Canadá ou no Alaska. Pois é, descobrimos que não é! Tanto a estrada que leva a Prudhoe Bay, no Alaska, como essa aqui, a Dempster, nos levam para o norte, mas não a esses animais fantásticos. De ambos os lugares, seria ainda preciso pegar um avião para seguir ainda mais adiante. Aqui, se estivéssemos no Inverno, seria possível, com correntes, seguir com a Fiona em uma estrada no gelo até as próximas cidades e, aí sim, chegar ao Oceano Ártico. Seria bem legal, mas estaríamos no escuro, já que o sol não nasce durante o Inverno naquelas latitudes. Quem sabe, numa noite de lua cheia? E mesmo chegando numa praia do Ártico, ainda não é lá que estão os ursos brancos. Não tem jeito... tem de pegar o bendito aviãozinho.
Início da Dempster Highway, região de Dawson City, no Yukon Territory, no Canadá
Agora sabemos que, sem contar os zoológicos, a maneira mais fácil de chegar perto dos ursos polares teria sido lá do outro lado do Canadá. De Toronto, pegar um trem para Churchill, nas margens da Hudson Bay. Dali, numa excursão em um daqueles ônibus árticos, com rodas gigantes próprias para andar no gelo, pode-se chegar, com segurança, perto desses animais. Os ursos polares são os únicos carnívoros da Terra que nos veem, sim, como uma refeição. Grizzlies, leões, tubarões, todos eles podem ter curiosidade por nós, mas não estamos no seu cardápio, pelo menos até a primeira vez em que eles tiverem provado. E para isso acontecer, só se estiverem com muita fome. Com ursos polares, a história é outra. Assim que entramos no seu campo de visão, viramos um alvo. E para um bicho daquele tamanho, haja bear spray! O negócio é estar mesmo dentro de um ônibus. Passeio para a nossa próxima vinda ao Canadá...
Painel explicativo sobre a Dempster Highway, na região de Dawson City, no Yukon Territory, no Canadá
Assim, deixamos a Dempster Highway para trás e seguimos para o sul, rumo à Whitehorse. Mas ela não saía da minha cabeça. Só que agora, o motivo não era os ursos polares, mas um assunto bem diferente, a “Beringia”. A Dempster corta um bom pedaço dessa misteriosa região, por onde nossos antepassados chegaram às Américas há uns 15 mil anos. Sempre fui muito curioso sobre as teorias que tentam explicar o povoamento do nosso continente. A teoria mais aceita diz que o homem chegou da Ásia, caminhando por uma ponte natural entre Sibéria e Alaska, formada na última era glacial, quando o nível dos oceanos era bem mais baixo. O que eu não conseguia entender era como eles teriam caminhado sobre tanto gelo. Afinal, passamos por lugares muito mais ao sul, nos Estados Unidos, que eram cobertos por espessas geleiras naquela época. Se South Dakota já era coberta por geleiras, imagina como era a Beringia, uma terra entre o Alaska e a Sibéria???
Início da Dempster Highway, região de Dawson City, no Yukon Territory, no Canadá
Pois é, por aqui, finalmente descobri a resposta. A Dempster Highway cruza um território que não é nunca foi coberto por gelo e neve. Não porque não seja frio, mas simplesmente porque não há precipitação! É muito seco! Toda a umidade é barrada por uma cadeia de montanhas e o lugar é como se fosse uma espécie de Deserto do Atacama dos polos. Assim, durante a última era glacial, o que aconteceu foi que formou-se um enorme corredor sem gelo, mas cercado de enormes geleiras, entre a Ásia e a América. Os animais passavam por aí, como bisões e mamutes, E atrás deles, como parasitas, uma população de humanos, que vivia da caça desses grandes herbívoros. O corredor da Beringia terminava em enormes paredes de gelo, uns poucos milhares de quilômetros adiante. Com o fim da era glacial, o estreito de Bering foi retomado pelas águas, fechando a passagem de volta para a Ásia. Em compensação, as planícies americanas se abriram para esses desbravadores. Tinham um continente inteiro pela frente!
Distância em quilômetros para as próximas cidades na Dempster Highway, na região de Dawson City, no Yukon Territory, no Canadá
Aqui, só um parêntesis. Depois de passar por tantos países e ter conhecido tantos sítios arqueológicos, do Brasil ao México, não estou entre aqueles que acreditam que os primeiros homens a pisar no continente foram esses aventureiros que cruzaram a Beringia, há 15 mil anos. Tudo parece indicar que o homem chegou aqui por outras rotas também. Pelo Pacífico Sul, pulando de ilha em ilha, pelo Atlântico Norte, via Groelândia, ou mesmo pela Beringia, em alguma glaciação anterior. Também é bom lembrar que minha conterrânea Luzia, um fóssil de uma mulher que habitou as Minas Gerais há mais de dez mil anos tem características negroides, muito mais próximas da África do que da Ásia. No Piauí, na Serra da Capivara, temos sinais claros da presença humana bem anterior à última era glacial. Enfim, é um mistério que ainda não foi resolvido e talvez nunca seja. Mas, independente de quando e como chegaram os primeiros homens na América, pesquisas genéticas parecem indicar que toda a população nativa do continente, do Chile ao Canadá, descende de um mesmo grupo de pessoas, pequeno, de poucas dezenas de membros, que teria chegado à América há 17-15 mil anos. O que pode ter acontecido é que essa nova população substituiu a antiga, seja por meio de guerras, maior adaptabilidade, melhor tecnologia resistência à doenças ou a combinação disso tudo.
Cores de Outono na estrada entre Dawson e Whitehorse, no Yukon Territory, no Canadá
Depois de tantas elucubrações, chegamos à Whitehorse, onde paramos para um almoço tardio, já nos sentindo íntimos da cidade, pois aí havíamos estado há duas semanas. Devidamente alimentados, seguimos para Haines Junction, na Alaska Highway, no único trecho de estrada repetida em todo esse looping que fizemos no extremo norte da América. Agora, nesse trecho da viagem, minha mente divagava sobre o futuro, e não mais o passado. Quando será possível cruzar novamente a Beringia por terra? Esperar até a próxima Idade do Gelo para cruzar para a Ásia me parece muito tempo para esperar. Apenas 85 km separam os dois continentes e acho um absurdo que não haja, até hoje, uma ligação entre eles. Já pensaram... ser possível sair de carro da Patagônia e chegar até a Cidade do Cabo, na África do Sul? A Europa não passa de uma grande península da Ásia e a África está ligada ao continente asiático pela Península do Sinai. Então, uma ponte entre Alaska e Sibéria unificaria praticamente todo o mundo! Ficariam de fora a Oceania e a Antártida, mas também, aí já é querer demais...
Curva e corredeiras do rio Yukon, na estrada entre Dawson e Whitehorse, no Yukon Territory, no Canadá
Pois bem, o projeto dessa ponte já existe! Assim como de um túnel. O Estreito de Bering, que separa os dois continentes, não é fundo, pouco mais de 50 metros de profundidade. Entre eles, há duas ilhas, uma americana e outra russa. As ilhas estão separadas por míseros 5 quilômetros entre si (quem diria que EUA e URSS, inimigos mortais, estavam tão próximos um do outro???), além de outros 40 km, cada qual do seu continente. Três pontes resolveriam isso. Custaria bem menos que manter as tropas americanas no Iraque por um ano. E essa conta já inclui as estradas que deveriam ser construídas das saídas da ponte até as próximas cidades. O que falta é, evidentemente, vontade política. Porque razões econômicas sobram. Certamente, não me refiro aos turistas que passariam por lá, mas aos bilhões de dólares de mercadorias entre um continente e outro. O ponto negativo seria o impacto sobre o meio ambiente dessa rota, dado a quantidade de trens e caminhões que transitaria por aí. É... pensando melhor, pelo bem da tundra, dos ursos polares, dos caribous e das paisagens fantásticas que vimos com nossos próprios olhos, melhor deixar essa história de ponte prá lá...
Estrada entre Whitehorse e Haines Junction, no Yukon Territory, no Canadá
Praia de El Tunco, litoral de El Salvador
Meio “avariado” pela mistura de bebidas da noite anterior, a minha manhã foi bem longa hoje. A falta de energia elétrica fez que o ar condicionado desligasse logo cedo e, um pouco mais tarde, já estávamos sem água no banheiro também. “No worries!”, como diriam os australianos. Fui para a piscina e cair na água fria foi como entrar no paraíso. Depois, na brisa fresca da manhã, achei uma cadeira de balanço bem confortável na sombra de um coqueiro e lá fiquei, até que a energia elétrica voltasse. Daí pude observar que o hotel e a praia estavam bem diferentes do sossego de ontem. Centenas de pessoas chegavam para aproveitar o dia ou o início da temporada praiana, depois de passarem o natal em casa. Mais um motivo para eu voltar à tranquilidade do meu quarto, agora com ar condicionado.
Nosso hotel La Guitarra, em El Tunco, litoral de El Salvador
Mais umas duas horas de sono e um Engov que a Ana me deu e eu já estada tinindo e com fome. Voltamos ao nosso café preferido na surf town, bem ao lado do rio que marca o fim de El Tunco e com vista para a praia e o mar e tivemos o nosso brunch saudável, salada de frutas com iogurte e granolas e sanduíche em baguete crocante. Saúde e paz nos cercavam de todos os lados, natureza exuberante e pessoas se divertindo ao fundo, música agradável nos altofalantes do café. Difícil imaginar cena mais tranquila e relaxante.
Domingão, praia cheia em El Tunco, litoral de El Salvador
Mais difícil ainda imaginar que esse país viveu uma longa e sangrenta guerra civil até pouco tempo. Pelo menos para mim, do alto dos meus quarenta e poucos anos. Fico imaginando que a maioria dos turistas daqui, ainda nos seus vinte e poucos, pouco ou nada sabem da história de El Salvador e só querem saber de pegar suas ondas no início do dia ou final da tarde. Alguns poucos devem ter lido algumas linhas sobre a guerra dos anos 80, mas linhas de livros são frias e vazias quando comparadas à realidade.
Felizmente, eu também não vivi essa realidade. Pelo menos, não de perto. Mas lembro-me de, quase diariamente, acompanhar as imagens e notícias da guerra, seja pelo Jornal Nacional, quando ainda era mais jovem, ou por jornais e revistas, já adolescente. Uma guerra sem fim e que parecia ser a eterna realidade desse pequeno país. Guerrilhas de esquerda tentando desapear do poder uma direita corrupta e violenta, sem nenhum apego aos direitos humanos, mas com apoio logístico e financeiro americano. O governo Reagan, na sua luta para vencer a Guerra Fria, principalmente aqui no seu “quintal”, tinha decidido que não queria uma outra Nicarágua na região. Nem que para isso precisasse sustentar um governo pavoroso como tinha o país naquela época. Sem esse apoio, certamente o governo teria caído e sabe-se lá o que teria ocorrido à El Salvador. Mas, na visão americana da época, certamente Honduras e Guatemala passariam a ser as bolas da vez, o “comunismo” chegando às portas dos Estados Unidos. Por isso, aqui, nesse pequeno país, se jogavam as grandes apostas de um mundo dividido. E eram os salvadorenhos que pagavam o pato.
Almoço saldável de Natal, em El Tunco, litoral de El Salvador
Dois lances marcaram essa guerra, um no seu início e outro já perto do seu fim. Em 1980 era assassinado a sangue frio, em plena celebração da missa, o arcebispo de San Salvador, Oscar Romero. Inicialmente um clérigo conservador, o arcebispo começou a vociferar em alto e bom tom contra as torturas, esquadrões da morte e o governo que as acobertava quando um padre jesuíta, seu amigo pessoal, foi vítima dessa guerra suja. Como nada foi apurado e a imprensa censurada era proibida de noticiar qualquer coisa sobre o assunto, Oscar Romero começou a usar suas missas para cobrar mudanças nessa política. Alguns meses depois, sem cerimônia, foi assassinado no púlpito. Governos de todo o mundo reagiram, a imprensa mundial veio cobrir o funeral e todos fomos testemunhas, via TV, do massacre ocorrido durante o enterro, transformado em grande manifestação. Dezenas de pessoas caindo mortas frente a tiros indiscriminados desferidos por agentes à paisana. Nada disso impediu que os EUA aumentassem a sua ajuda militar ao governo, já que para eles a alternativa seria ainda pior. Já no final da década, o governo Reagan mergulhado no escândalo Irã-Contras, a ajuda minguando para as ditaduras centro-americanas, a guerrilha resolveu apostar na “Ofensiva Final”. Chegaram à periferia da capital, o governo por um fio, mas a ajuda americana não falhou nessa hora e o poderio das armas falou mais alto. Novo empate técnico, guerra sem vitoriosos, promessa de mais anos turbulentos pela frente.
Domingão, praia cheia em El Tunco, litoral de El Salvador
Felizmente, vivíamos o fim da Guerra Fria, vencida pelos EUA de Reagan e Bush. Isso acabou possibilitando um grande acordo regional que pôs fim não só à guerra em El Salvador, mas também na Nicarágua. Timidamente, a democracia voltava também à Honduras e Guatemala. De lá para cá, muito melhorou nesses países, mas sem dúvida o caminho a percorrer ainda é longo.
Mas, enfim, a guerra foi substituída pela paz. Certamente, não a paz nos padrões de países de primeiro-mundo. Mas, se comparado à situação de anarquia anterior, certamente podemos chamar de paz, sim senhor. E foi essa “paz” que possibilitou a volta do turismo a esses belos países. Hoje aqui, na praia de El Tunco, o cenário era de paz. A guerra só estava na cabeça de um turista ainda meio ressacado e que procurava, nos olhos dos salvadorenhos mais velhos que encontrava, algum resquício, algum sinal da situação anterior. “Como será que esse pacato senhor que vende cocos na praia viveu a década de 80?”. “Como terá sido o natal de 1985 na praia de El Tunco?”. Perguntas para as quais não tenho resposta. Só duvido que tenha havido o belo show de jazz que tivemos aqui no La Guitarra, esta noite. Vantagens de se viver na paz...
El Tunco, litoral de El Salvador
A linda praia de Obama, perto de Cabaret, antiga Duvalierville, no litoral central do Haiti
Nosso plano original, quando viemos ao Haiti, era passar dois dias na capital e depois seguir para a cidade de Jacmel, na costa sul. Duas décadas atrás, quando o Haiti ainda fazia parte das rotas dos viajantes, ela era um grande polo turístico, por sua história e arquitetura. Seria uma viagem rápida para nós, pois já estávamos com a passagem aérea comprada para o norte do país, para a manhã do dia 24. Mas Jacmel não é tão longe de Port-au-Prince e imaginamos que daria tempo.
O trânsito sempre complicado de Port-au_Prince, capital do Haiti
Nas ruas de Port-au-Prince, no Haiti, muito equilíbrio na cabeça
Bom, acho que tempo, daria mesmo. Aliás, foi para lá que seguiu o nosso amigo viajante italiano, na manhã de hoje. Mas algumas horas de conversas e interações com o Eric e a Lana, os donos do hotel Le Perroquet, onde estamos hospedados, nos fizeram mudar de ideia. Eles nos convenceram a fazer um caminho alternativo e seguir com eles para passar o dia de hoje numa praia aqui perto, ao norte da cidade de Cabaret, a antiga Duvalierville. Pois é, domingão combina mais com praia do que com rodoviária e ônibus lotados. Além do mais, eles até nos ofereceram uma carona para lá. Com isso, a bela Jacmel ficou para nossa próxima viagem ao Haiti e lá fomos nós, junto com o casal amigo, todos no carro de uma outra amiga, rumo á praia. Atravessamos a bagunça do centro da cidade pela primeira vez, suas ruas de trânsito caótico, nossos olhos ávidos em captar cada detalhe, e seguimos em boa estrada para a praia.
A deliciosa e pacata praia de Obama, perto de Cabaret, antiga Duvalierville, no litoral central do Haiti
A deliciosa e pacata praia de Obama, perto de Cabaret, antiga Duvalierville, no litoral central do Haiti
Atravessamos a pequena e movimentada Cabaret e um pouco mais para frente chegamos ao Hotel Obama, uma homenagem de seu proprietário ao presidente americano, que ele tanto admira. O hotel está de frente à praia e aí fomos passar o dia. Na verdade, o dia e a noite, se quiséssemos. O Eric e a Lana planejavam ficar por lá e voltar no dia seguinte. A Elise, a dona do carro, voltaria hoje mesmo, e nós éramos benvindos a voltar com quem quiséssemos. Com nossas coisas lá no Le Perroquet, o Eric apressou-se em dizer que, caso ficássemos na praia, ele não cobraria a diária de hoje no seu hotel.
Jangada singra os mares perto de Cabaret, antiga Duvalierville, no litoral central do Haiti
Ao chegar na beira da praia, deparamo-nos com uma beleza digna de cartão postal. O mar com aquela cor indefinível entre o verde e o azul e a praia de pequenas pdedras branas, ao invés de areia. Águas tranquilas e quentes. Em qualquer outo lugar do mundo, esperaríamos encontrar a praia cheia, mas aqui, a lana e o eric haviam nos dito que era sempre vazio. Pois é, eles erraram. Nunca tinham estado no Obama Hotel num domingão. Bom, a praia não estava cheia mesmo, mas o pátio do hotel, em frente ao mar, estava bem movimentado. E o cheiro de churrasco logo denunciou de onde eram todas aquelas pessoas...
Encontro com brasileiros (e com um legítimo churrasco!) na praia Obama, perto de Cabaret, antiga Duvalierville, no litoral central do Haiti
Um verdadeiro churrasco brasileiro na praia Obama, perto de Cabaret, antiga Duvalierville, no litoral central do Haiti
Pois é, um grande grupo de brasileiros preparava um saboroso e cheiroso churrasco enquanto se lubrificavam com cerveja gelada, a deliciosa Prestige. A surpresa deles foi ainda maior que a nossa de encontra-los, quando nos identificamos como compatriotas. Conforme já havíamos imaginado, eram todos militares, membros das forças de paz da ONU. São do batalhão de engenharia, responsável por várias obras de infraestrutura no país.
Confraternização com militares brasileiros da força de paz da ONU, na praia Obama, perto de Cabaret, antiga Duvalierville, no litoral central do Haiti
Brasão do batalhão de engenharia brasileira no MINUSTAH, as forças de paz da ONU no país (perto de Cabaret, antiga Duvalierville, no litoral central do Haiti)
A partir do momento que souberam que éramos brasileiros, passaram a nos mimar sem parar. Além da cerveja, fomos alimentados com um legítimo churrasco brasileiro, pois até os cortes eram nacionais. Carne trazida diretamente do Brasil! Carne brasileira, churrasqueira brasileira, churrasqueiros brasileiros, farinha brasileira, não queríamos mais nada!
Confraternização com militares brasileiros da força de paz da ONU, na praia Obama, perto de Cabaret, antiga Duvalierville, no litoral central do Haiti
Eles nos contaram de sua rotina por aqui e nos convidaram para visitar a base brasileira. Vamos tentar fazer isso na terça, depois de amanhã. Foram horas de diversão com eles, gente vinda dos quatro cantos do Brasil, uma salada total de sotaques, piauienses, gaúchos e cariocas na mesma roda de conversa, música para nossos ouvidos. Entre uma cerveja e outra, entre uma carne e outra, entre uma história e outra, deliciosos e refrescantes mergulhos naquele mar paradisíaco.
Confraternização com militares brasileiros da força de paz da ONU, na praia Obama, perto de Cabaret, antiga Duvalierville, no litoral central do Haiti
Além dos brasileiros, o maior grupo, também haviam paraguaios, argentinos e uruguaios por ali. Cada um em seu grupo, todos aproveitando o dia de folga na difícil rotina que têm por aqui. Conversamos com vários deles, mas o dia era mesmo dos brasileiros. Dos brasileiros e dos nossos simpáticos e interessantes amigos haitianos, além da Lana, claro! Tão gostoso estava tudo por lá que não titubeamos em decidir dormir por ali mesmo, agora na tranquilidade total do hotel depois que todos se foram, para suas casas ou bases.
Tarde gostosa com amigos no hotel Obama, perto de Cabaret, antiga Duvalierville, no litoral central do Haiti
Com o Eric, numa tarde gostosa com os amigos no hotel Obama, perto de Cabaret, antiga Duvalierville, no litoral central do Haiti
O jantar foi delicioso, apenas os dois casais no hotel, além de uma energética americana que trabalha para uma ONG no país. No dia seguinte, o café da manhã seguiu o mesmo padrão de qualidade e tranquilidade e nós tivemos tempo o suficiente para ficarmos amigos também dos funcionários e do simpático proprietário, aquele que é fã do Obama.
Nadando pela primeira vez nas águas quentes e caribenhas do litoral do Haiti, perto de Cabaret, antiga Duvalierville
A Ana tem todo o mar para si na praia Obama, perto de Cabaret, antiga Duvalierville, no litoral central do Haiti
Fim de tarde na praia de Obama, perto de Cabaret, antiga Duvalierville, no litoral central do Haiti
Eram onze da manhã quando chegou no hotel o carro chamado pelo Eric para nos levar de volta à Port-au-Prince. Depois de tanta vida mansa e mordomia, estava mais do que na hora de vermos o outro Haiti, aquele que estamos acostumados a ver na TV. Chega de mares paradisíacos, rumo aos mercados lotados e ruas barulhentas, enfim, o Haiti que viemos conhecer....
Com um dos simpáticos funcionários do Hotel Obama, perto de Cabaret, antiga Duvalierville, no litoral central do Haiti
Mãos esquerdas (a grande maioria) e direitas pintadas em um dos tetos da Cueva de Las Manos, no sul da patagônia, na Argentina
Os estudiosos estão apenas começando a compreender o que as centenas de pinturas localizadas num paredão perdido de um canyon esquecido de uma remota região da patagônia argentina querem dizer. A Cueva de Las Manos é um dos mais surpreendentes sítios arqueológicos das Américas e deveria estar no roteiro de todos os viajantes que se aventuram pela região sul da Argentina.
Paredes e tetos pintados na Cueva de Las Manos, no sul da patagônia, na Argentina
Pinturas no teto da Cueva de Las Manos, no sul da patagônia, na Argentina
Há cerca de 10 mil anos grupos indígenas começaram a ocupar essa área e deixar suas marcas em sítios da região. A Cueva de Las Manos é apenas o mais importante e conhecido desses sítios. A datação das pinturas mais antigas na pequena gruta e paredes do canyon ao seu redor é uma das indicações mais fortes de que o homem teria chegado às Américas bem antes do que diz a teoria ainda mais aceita, de que teriam entrado pelo estreito de Bering há cerca de 14 mil anos. Afinal, se já havia tribos aqui no sul da Patagônia pintando paredes há 10 mil anos, essa chegada ao continente deve ter sido bem anterior.
Algumas das mais de 800 mãos pintadas na Cueva de Las Manos, no sul da patagônia, na Argentina
Painel com uma das maiores concentrações de mãos na Cueva de Las Manos, no sul da patagônia, na Argentina
Como o próprio nome indica, o principal tema das pinturas do sítio arqueológico são “mãos”. Das pouco mais de 1.000 figuras, 800 são mãos e 90% delas são mãos esquerdas. A grande maioria dos desenhos é feita com a técnica chamada de “negativa”. O artista colocava sua própria mão sobre a parede ou teto e soprava sobre ela a tinta armazenada em um tubo. A parede ficava pintada, assim como a mão do artista, mas quando ela era retirada da parede, aí deixava a sua marca, uma área exatamente com a sua forma e livre de tinta. Por isso há uma quantidade bem maior de mãos esquerdas: os artistas seguravam o tubo com tinta com suas mãos direitas, pois eram destros!
Mãos no estilo negativo pintadas na Cueva de Las Manos, no sul da patagônia, na Argentina
Dezenas da mãos pintadas razão do nome dado à Cueva de Las Manos, no sul da patagônia, na Argentina
Uma mão com seis dedos na Cueva de Las Manos, no sul da patagônia, na Argentina
Há também algumas mãos pintadas na técnica positiva, onde o artista simplesmente mergulhava sua mão na tinta e a colocava na parede. Como curiosidade, entre as 800 mãos pintadas, há uma de seis dedos, um dos pontos altos de toda visita por lá. Há também patas de animais, principalmente de choiques (as nossas emas), um dos itens principais no cardápio daquele povo.
Pinturas com mais de 8 mil anos de idade na Cueva de Las Manos, no sul da patagônia, na Argentina
Algumas das mais de 800 mãos pintadas na Cueva de Las Manos, no sul da patagônia, na Argentina
Os estudiosos dizem que a pintura de mãos corresponde a uma primeira fase desse antigo povo, provavelmente a mais longa, que teria durado milhares de anos. Na próxima fase, o principal tipo de pintura era a representação de animais, aspectos de sua vida e também de caçadas. Além dos choiques, também chamados de ñandus na Argentina, a outra refeição predileta desses antigos habitantes eram os guanacos. Mas também há peixes, pássaros e tartarugas representadas nas paredes. Por fim, numa última fase, bem mais recente, as pinturas se tornaram mais abstratas, linhas, círculos e caracóis. Pelo que se sabe, pessoas habitaram o local até o ano de 1.300 da nossa era. Depois, provavelmente, o clima cada vez mais seco não sustentava a vida de grupos humanos por ali. A caverna passou a ser apenas abrigo temporário de quem passava por ali e já não mais se interessa por pinturas. Foi preciso esperar até a metade do séc. XIX para que ela fosse “redescoberta”, agora por exploradores da patagônia. E foi apenas 100 anos mais tarde, na década de 50 do século passado, que a Cueva de Las Manos começou a atrair cada vez mais estudiosos e turistas.
Muitas pinturas nos tetos da Cueva de Las Manos, no sul da patagônia, na Argentina
Animais pintados nas paredes da Cueva de Las Manos, no sul da patagônia, na Argentina
Animais pintados nas paredes da Cueva de Las Manos, no sul da patagônia, na Argentina
As pinturas são policromáticas e as cores mais comuns são o vermelho e o negro. Mas há também o branco e o amarelo. As tintas eram feitas de minerais, pedra moída, vegetais e até de sangue de animais. O efeito de todas essas cores na parede é lindo e, mesmo depois de tanto tempo, elas ainda estão bem vivas. Bem difícil acreditar que algumas têm quase 10 mil anos de idade! O clima seco patagônico certamente ajudou muito na conservação. A sensação que temos é que o passado está bem presente, ali, na frente dos nossos olhos e quase ao alcance de nossas mãos.
Além das mãos, também há pinturas abstratas (mais recentes) na Cueva de Las Manos, no sul da patagônia, na Argentina
Detalhe de pintura na Cueva de Las Manos, no sul da patagônia, na Argentina
Uma outra coisa que logo nos chama a atenção é a quantidade de figuras, especialmente em algumas partes do sítio. Muitas vezes elas estão interpostas, uma acima da outra. Ao longo dos milênios, os artistas foram ficando sem espaço para pintar, aparentemente. Mas a força espiritual e a magia dessas pinturas e seus rituais não poderia parar. Tudo indica que elas tinham alguma conotação religiosa. Talvez o agradecimento de alguma caçada com sucesso ou batalha vitoriosa, talvez o pedido por mais chuva na próxima estação.
Uma das raras mãos amarelas na Cueva de Las Manos, no sul da patagônia, na Argentina
Pinturas negras e vermelhas (as mais comuns) no estilo negativo na Cueva de Las Manos, no sul da patagônia, na Argentina
Infelizmente, algumas “pinturas” não são assim, tão antigas. Tem apenas algumas décadas de idade. Turistas que quiseram deixar suas marcas por lá também. Mas não são tantas assim. E hoje quase toda a parede é cercada. Além disso, só se pode entrar lá acompanhado de guias e em grupos pequenos. O guia caminha conosco desde a portaria até as primeiras pinturas num trecho de 500 metros e, depois, adiante, por outros 600 metros de passarela pelo trecho onde há paredes pintadas. Ao final, voltamos todos pelo mesmo caminho.
Plataforma de madeira construída para se poder admirar e estudar as pinturas rupestres da Cueva de Las Manos, no sul da patagônia, na Argentina
As crianças suíças que nos acompanharam na visita à Cueva de Las Manos, no sul da patagônia, na Argentina
No nosso caso, foi um pouco diferente. Eu e a Ana fomos disparando perguntas todo o tempo, enquanto o casal de argentinos que estava no nosso grupo não parecia tão interessado. Algumas fotos no início e depois preferiam fazer as famosas selfies. Além de nós, o casal de suíços com seus filhos. Os pais sim, estavam interessados, mas tinham de dividir sua atenção com os filhos que, ainda muito jovens, pareciam se divertir mais correndo para lá e para cá. Depois que passamos pelos trechos mais interessantes, eles já queriam regressar. O guia pensou bem, creio que concluiu que eu e a Ana éramos confiáveis e deixou que continuássemos até o fim sozinhos, enquanto ele retornava com os suíços e argentinos.
Pinturas com mais de 8 mil anos de idade na Cueva de Las Manos, no sul da patagônia, na Argentina
Admirando a paisagem ao redor da Cueva de Las Manos, no sul da patagônia, na Argentina
E assim, num golpe de sorte, depois de ter todas as explicações que queríamos, tivemos alguns momentos para desfrutar de toda aquela maravilha a sós. Se ontem de noite eram as estrelas que faziam a ligação desse mundo que desapareceu comigo, hoje era algo ainda mais palpável: essas centenas de mãos e cenas pintadas na parede, ali tão perto. Para cada uma que eu olhava, ficava imaginando o momento em que foram pintadas, o que passava na cabeça do artista, as questões e dúvidas que o afligiam, o que ele comeria no jantar, onde e como dormiria, como funcionava a sua sociedade. Enfim, se quisesse (e tivesse tempo!), poderia passar meses ali! Foram minutos mágicos!
Além das pinturas, também se pode admirar as flores no passeio à Cueva de Las Manos, no sul da patagônia, na Argentina
Além das pinturas, também se pode admirar as flores no passeio à Cueva de Las Manos, no sul da patagônia, na Argentina
Flores contra um céu bem argentino durante nossa visita à Cueva de Las Manos, no sul da patagônia, na Argentina
Mas tínhamos de voltar. Além das pinturas nas paredes, a paisagem do canyon ao nosso lado era espetacular. As paredes do outro lado do vale, o oásis verde 80 metros abaixo de nós e as flores silvestres que cresciam ali do lado (viva a primavera!). Depois de tantas fotos de mãos e de figuras pintadas na parede, foi bom intercalar com fotos de paisagens, de flores e, claro, de selfies.
Uma selfie durante a visita à Cueva de Las Manos, no sul da patagônia, na Argentina
Muito felizes com a visita à Cueva de Las Manos, no sul da patagônia, na Argentina
Fomos voltando vagarosamente, nos detendo nos lugares com maior concentração de figuras. Por fim, encontramos nosso guia novamente. Ele queria estar conosco quando regressássemos à portaria. De lá, ainda sedados com tanta coisa que tínhamos acabado de ver, 10 mil anos de história em nossos cérebros e mentes, caminhamos de volta para a Fiona através do canyon. Pausas no rio lá em baixo e no alto das paredes, já do outro lado. Depois, pé na estrada porque algumas centenas de quilômetros nos esperavam. Não iria faltar assunto para conversar durante a longa viagem...
Visita à incrível Cueva de Las Manos, no sul da patagônia, na Argentina
Nudismo na praia de Tambaba, em Jacumã, distrito de Conde - PB
Três ou quatro vezes estive ao lado de uma praia de nudismo e não entrei. Às vezes por falta de vontade, às vezes por falta de companheira, já que normalmente essas praias tem regras rígidas e só entram casais e mulheres desacompanhadas. Homens sozinhos, potenciais tarados, ficam de fora.
Visão do mirante da praia de Tambaba em Jacumã, distrito de Conde - PB
Mas dessa vez não deu para escapar. A Ana queria, a curiosidade bateu, obrigações da viagem, hehehe, tudo isso junto e lá fomos nós. A praia de Tambaba fica bem perto daqui, 10 min de carro. Quando chegamos, o estacionamento estava cheio. Xiiiii, praia lotada de gente pelada, pensei. Que nada! A maioria absoluta das pessoas fica no pedacinho da praia que é permitida para as pessoas com as vergonhas de dentro. Ficam ali, só vendo quem vai entrar... Lá dentro, com as vergonhas de fora, bem poucas pessoas. Uma praia linda e quase vazia.
O trecho "vestido" da praia de Tambaba, em Jacumã, distrito de Conde - PB
A gente passa por uma "portaria", onde uma simpática moça avisa sobre as regras: ninguém além de nós mesmos podem aparecer nas nossas fotos e as roupas devem ser retiradas imediatamente após a escada que temos de subir para passar para o lado de lá. Tudo mundo pelado, essa é a regra de ouro!
Entrada da praia de Tambaba, em Jacumã, distrito de Conde - PB
Logo notamos que a grande maioria dos "naturistas" são pessoas idosas. Gente que aderiu ao movimento quando ele virou moda, há uns 25-30 anos, e que se manteve firme em sua opção. Gente nova, poucos. Geralmente curiosos para ver como é uma praia desse jeito. Apesar da minha idade meio avançada, incluo-me neste segundo grupo, hehehe.
Praia de Tambaba, em Jacumã, distrito de Conde - PB
A gente logo se acostuma. Só é meio estranho ir no bar e conversar com o garçom, que permanece vestido. A gente pelado, pedindo cerveja; ele finge naturalidade e pega uma pra nós. Interessante é ver gente surfando pelada. Eu até me inspirei e fui pegar jacaré peladão também. Com os devidos cuidados, claro!
Placa na praia de Tambaba, em Jacumã, distrito de Conde - PB
Devidamente bronzeados e curiosidade saciada, era tempo de ir. Na saída, as mesmas pessoas que vigiavam quem entra lá estavam, vigiando quem sai. Rostos desconhecidos, não tem problema. Meio constrangedor seria cruzar algum familiar ou amigo por ali. Mas como não vivemos numa novela da Globo, ninguém pareceu. Ufa!
Estamos na belíssima El Bolsón, na Argentina
Chegamos à El Bolsón já no meio da tarde, devido a partida tardia de Bariloche. Não importa, o dia vai longe por aqui e ainda tínhamos muitas horas de luz. Pelo que havíamos lido da cidade, a simpatia já era imediata e nossa ideia era passar um bom tempo em El Bolsón. Então, a primeira tarefa foi encontrar uma boa pousada. Não demorou e encontramos uma, a casa toda cercada de flores, quarto aconchegante e a promessa de um café da manhã delicioso e sadio. Tudo o que queríamos! Uma conversa com o proprietário sobre os programas ao redor da cidade e o tempo necessário para fazer cada um deles nos ajudou a fazer nossa programação. Deixamos o longo trekking à imponente montanha Piltriquitrón para a manhã seguinte e hoje saímos de carro em direção à zona campestre de El Bolsón.
Plaza Pagano, no centro de El Bolsón, na Argentina
O colossal Cerro Piltriquitrón visto do centro de El Bolsón, na Argentina
Essa cidade com cerca de 20 mil habitantes é uma espécie de antítese de Bariloche. Enquanto aquela se caracteriza por um excessivo comercialismo, El Bolsón prima por um modo de vida sustentável, ligado à natureza e à vida em comunidade. Desde a década de 70 que essa região atrai aqueles que buscam uma vida mais tranquila e sadia, longe da correria dos grandes centros urbanos. Hippies e naturalistas ajudaram a desenvolver a agricultura orgânica e comunitária por aqui, a cidade se auto declarou “zona livre de energia nuclear”, parques e reservas foram criadas ao redor do centro para preservar a natureza. Uma parte considerável da população vive na zona rural e o centro da cidade não tem prédios ou shopping centers. As ruas são largas e arborizadas e uma grande praça, na verdade um pequeno parque, atrai jovens e idosos todos os finais de tarde justo no centro da cidade.
Monumento na PLaza Pagano, em El Bolsón, na Argentina
Na Plaza Pagano, o mapa turístico de El Bolsón, na Argentina
El Bolsón fica em um vale profundo escavado por uma enorme geleira na última era glacial. Embora esteja tão longe do oceano, sua altitude é de apenas 300 metros, em marcante contraste com as montanhas que a cercam. De um lado, as montanhas pré-andinas quase sempre com os cumes nevados. Do outro, o maciço rochoso conhecido como Piltriquitrón que, com seus quase 2.300 metros de altitude, domina a paisagem e atrai nossos olhares como um poderoso ímã quando passeamos na Plaza Pagano, aquele parque central a que me referi há pouco. Amanhã, se der tudo certo, vamos vê-lo mais de “perto”.
Admirando a Cascata Escondida, perto de El Bolsón, na Argentina
Turistas visitam a Cascata Escondida, perto de El Bolsón, na Argentina
A Cascata Escondida, a poucos quilômetros de El Bolsón, na Argentina
Mas hoje nosso programa era outro, bem mais light. Armados com um mapa da região que conseguimos no centro de informações turísticas, nós nos embrenhamos nas estradas de rípio que levam às diversas comunidades rurais e bairros afastados de El Bolsón. Buscávamos por duas belas cachoeiras que fazem parte do diversificado patrimônio natural da cidade: a cascata Escondida e a cascata Mallín Ahogado.
No meio do bosque, onde chega a luz do sol, um verdadeiro jardim de flores! (região de El Bolsón, na Argentina)
No meio do bosque, onde chega a luz do sol, um verdadeiro jardim de flores! (região de El Bolsón, na Argentina)
Ambas ficam na direção norte, onde está também está uma extensa rede de refúgios espalhados pelas montanhas pré-andinas, bases para formidáveis trekkings pela região. Nós acabamos optando pelo Piltriquitrón, amanhã, e hoje só tínhamos tempo para caminhadas curtas. Mas dirigir por essa área e observar essas montanhas de longe só nos fez aumentar a vontade de, um dia, retornar para fazer esses caminhos com calma.
Trilha que leva à base da Cascata Mallin Ahogado, região de El Bolsón, na Argentina
Chegando à Cascata Mallin Ahogado, região de El Bolsón, na Argentina
A Cascata Escondida, desde que se tenha o mapa e as orientações, não está tão escondida assim. No fundo de um vale estreito que atingimos com 10 minutos de caminhada, a esta hora que chegamos lá já não havia mais sol. Difícil então encarar a temperatura da água. Mas cruzamos um grupo que havia chegado antes de nós e havia tomado um belo banho. Para nós, serviu para refrescar nossas mentes e respirar o ar puro daquele bosque. Depois da viagem rápida à Ilha do Mel, começamos a entrar no nosso ritmo novamente!
Cascata Mallin Ahogado, região de El Bolsón, na Argentina
Água gelada, só molhamos os pés na Cascata Mallin Ahogado, região de El Bolsón, na Argentina
De volta à Fiona, seguimos para a próxima cascata, alguns quilômetros rio acima. Ao contrário da outra, que ficava dentro de um parque municipal, a Mallín Ahogado fica em uma propriedade particular. Pagamos uma módica taxa, deixamos a Fiona estacionada e vamos caminhar por uma trilha cercada de flores. Basa estarmos um pouco aqui na patagônia para nos lembrar que estamos na primavera. A quantidade de flores não nos deixa esquecer!
Admirando a Cascata Mallin Ahogado, região de El Bolsón, na Argentina
Em meio à vegetação, a Cascata Mallin Ahogado, região de El Bolsón, na Argentina
Numa área mais ampla e sem as encostas de um vale por perto, o sol ainda batia nas águas da cascata e aqui, ao menos, molhamos nossos pés e mãos. Essa cascata é mais bela que a Escondida, forma uma pequena piscina e faltou só um pouco de coragem para um mergulho. Mas os minutos de contemplação já fizeram valer o passeio. Mas resolvemos retornar à cidade pois ainda queríamos ver o final de tarde na Plaza Pagano.
No fim de tarde, muito movimento na PLaza Pagano, parque central de El Bolsón, na Argentina
Piquenique em família na PLaza Pagano, em El Bolsón, na Argentina
Exatamente como haviam nos dito, a praça estava mesmo cheia, famílias levando seus cães para passear, músicos se apresentando, casais fazendo um piquenique e o majestoso Piltriquitrón nos observando a todos. Foi uma delícia de fim de tarde, bem preguiçoso, aliás, todos inspirados pelo sol que demora um tempão para se abaixar atrás do horizonte. De alma elevada e espírito sossegado, só faltava finalizar nossa jornada com um belo jantar. E assim foi, uma deliciosa sopa de abóbora acompanhada de pão e bom vinho. Complementado por uma noite muito bem dormida no nosso quartinho aconchegante, dificilmente o Piltriquitrón nos escapa amanhã...
A bela vista que se tem de PLaza Pagano, no centro de El Bolsón, na Argentina
A incrível visão do Vetisquero Colgante e das cachoeiras que nascem nessa geleira, no Parque Nacional Queulat, na Carretera Austral, no sul do Chile
Nossa viagem pela Carretera Austral até Coyhaique, além de todas as belezas descritas nos posts, foi também de muita poeira. Na verdade, poeira para quem fica para trás, o que raramente era o caso da Fiona, uma das grandes vantagens de se estar em um carro alto. Entre os que ficavam para trás, poucos carros, pois esses eram mercadoria rara nesse trecho sul da Carretera. Muito mais comuns eram os valentes ciclistas. É claro que ao cruzar com eles, no mesmo sentido ou vindo na direção oposta, nós diminuíamos a marcha para levantar o mínimo possível de pó. Mas os outros carros não pareciam se importar muito...
Uma grande obra de engenharia liga Puerto Aysen, o principal porto nessa região do sul do Chile, com as cidades da Carretera Austral
Uma grande obra de engenharia liga Puerto Aysen, o principal porto nessa região do sul do Chile, com as cidades da Carretera Austral
São muitas as diferenças, vantagens e desvantagens entre viajar por aqui de bicicleta ou de Fiona. Entre as grandes vantagens do carro, além do conforto, está o maior raio de ação e exploração, principalmente quando o tempo é uma variável importante. Por exemplo, quando encontramos uma estrada lateral e ficamos curiosos para ver o que há no fim dela, podemos nos dar ao luxo de perder uma hora indo até lá e voltando. Se estivéssemos de bicicleta, poderia ser um dia para ir e outro para voltar... Com o tempo apertado, nem pensar!
Pequenos barcos em marina de Puerto Aysen, o principal porto nessa região do sul do Chile
Navio da Navimaq, a empresa que faz a ligação entre as cidades costeiras do sul do Chile (em Puerto Aysen, o principal porto nessa região do sul do Chile)
Foi o que aconteceu no início da nossa jornada de hoje. Daqui para o norte, o asfalto já é bem mais comum, mais de um terço de todo o percurso até Puerto Montt. Isso quer dizer que, a bordo da Fiona, ficamos ainda mais ágeis. Então, apesar das centenas de quilômetros e passeios que tínhamos planejado para o dia, ainda resolvemos fazer um detour e dirigir até Puerto Aysen, já bem fora da Carretera Austral e principal porto da região. A estrada que liga a cidade a Coyhaique é bem mais antiga que a própria Carretera Austral e já é toda asfaltada. Ela até inclui uma das maiores pontes de todo o país e que atravessa o rio que dá nome a toda essa região: o rio Aysén.
Cada vez mais pertos do início da Carretera Austral, em Puerto Montt, no sul do Chile
Na Carretera Austral, no sul do Chile, a primeira placa a mostrar a distância para Santiago e as cidades do norte. Nós já estivemos nas três últimas da lista!
Puerto Aysén foi a principal cidade aqui da patagônia norte chilena por mais de meio século, mas acabou superada por Coyhaique e até perdeu o título de capital para ela na década de 70. O assoreamento do porto, que teve de ser deslocado para a boca do fiorde, também não ajudou. Hoje, é o turismo, principalmente ligado à Laguna de San Rafael, uma das principais forças econômicas da cidade. A outra é a indústria salmoneira que se instalou recentemente na cidade. Para nós, foi um rápido e interessante passeio, possibilitado pelo asfalto e pelas rodas ágeis da Fiona.
Carretera Austral ao norte de Coyhaique. Asfalto e cada vez mais verde e umidade
Nossa próxima “escala”, agora já de volta à Carretera Austral, foi o Lago Las Torres, uma Reserva Nacional. Aí, encontramos uma área ao lado da estrada que nos serviu de mirante para o lago e também para “lancharmos” o nosso almoço, numa espécie de piquenique. Estávamos apenas nos preparando para a principal atração do dia: o Parque Nacional Queulat.
Um dos muitos rios ao longo da Carretera Austral ao norte de Coyhaique, no sul do Chile
O belo lago Las Torres, na Carretera Austral, ao norte de Coyhaique. Foi em um mirante com vista para esse lago que lanchamos durante a viagem de hoje pelo sul do Chile
O asfalto da estrada termina justamente antes de chegarmos a este belo parque. Não por dificuldades técnicas da estrada, mas para ajudar na conservação dessa linda área de florestas, lagos e geleiras. A vegetação é simplesmente exuberante, resultado de uma das maiores precipitações pluviométricas do país. Para quem já viajou pelas areias do Deserto de Atacama, realmente é difícil acreditar que estamos no mesmo país.
Nossa primeira visão do Vetisquero Colgante, no Parque Nacional Queulat, na Carretera Austral, no sul do Chile
Um dos muitos riachos no Parque Nacional Queulat, na Carretera Austral, no sul do Chile
Apesar da grande área, o parque tem poucas trilhas para facilitar o seu acesso. A ideia é mesmo a preservação e não o turismo. Nossa ideia original era fazer pelo menos duas das trilhas, mas desanimamos um pouco quando chegamos à cabeceira de uma delas, ao lado da estrada. Uma trilha através da mata úmida segue o Rio de Las Cascadas e 30 minutos de caminhada nos levam a um local cheio de cachoeiras. Mas quando chegamos à trilha, várias vans lotadas de turistas disputavam espaço para estacionar. Mal acostumados que estamos em ver muita natureza e pouca gente, aquilo foi um choque para nós e resolvemos seguir adiante. A principal atração do parque era a trilha seguinte e para lá nos dirigimos.
Enorme ponte pênsil em trilha no Parque Nacional Queulat, na Carretera Austral, no sul do Chile
Enorme ponte pênsil em trilha no Parque Nacional Queulat, na Carretera Austral, no sul do Chile
O rio que nasce no Vetisquero colgante, no Parque Nacional Queulat, na Carretera Austral, no sul do Chile
O estranho é que, nessa segunda trilha, justamente a mais popular do parque, quase não havia ninguém. Ou tivemos sorte aqui ou azar na anterior. Enfim, deixamos a Fiona no estacionamento e saímos a esticar as pernas e respirar ar puro. Entro rios e florestas.
Tempo para descanso em trilha do Parque Nacional Queulat, na Carretera Austral, no sul do Chile
Flores na densa vegetação do Parque Nacional Queulat, na Carretera Austral, no sul do Chile
A trilha leva a um mirante para o chamado “Ventisquero Colgante”, ou “geleira pendurada”. Não muito tempo atrás, essa geleira descia um enorme paredão, mas ela vem retrocedendo a olhos vistos e hoje boa parte da parede de rocha já está exposta. O gelo pode estar lá encima, mas a água derretida continua descendo, formando duas belíssimas cachoeiras. No meio daquela mata toda, o cenário é típico de filmes como “O Senhor dos Anéis”, uma grandiosidade de tirar o fôlego.
A enorme cachoeira que nasce no Vetisquero Colgante, no Parque Nacional Queulat, na Carretera Austral, no sul do Chile
Mirante do Vetisquero Colgante, no Parque Nacional Queulat, na Carretera Austral, no sul do Chile
Do ponto onde estacionamos o carro, uma trilha de 200 metros leva a um mirante para se observar esse espetáculo. Até aí segue boa parte dos turistas. Mas há uma trilha mais longa, pouco mais de 3 km de extensão, que cruza o rio numa enorme ponte pênsil e sobe a encosta do outro lado, dá uma volta em um morro e nos leva até um mirante muito mais próximo do espetáculo. Até lá fomos e ficamos uma boa meia hora nos extasiando com aquele cenário maravilhoso, quase inacreditável, diante dos nossos olhos. Foi mais do que o suficiente para esquecermos por completo a tal trilha das cachoeiras que havíamos deixado para trás...
Três quilômetros de trilhas nos levam a esse belo mirante para o Vetisquero Colgante, no Parque Nacional Queulat, na Carretera Austral, no sul do Chile
A geleira conhecida como Vetisquero Colgante, no Parque Nacional Queulat, na Carretera Austral, no sul do Chile
Dia quase completo, seguimos viagem até a pequena La Junta, que apesar de não aparecer no GoogleMaps, existe e nem é tão pequena assim. Tem esse nome porque fica numa encruzilhada de estradas e é famosa aqui no país por ainda manter um belo monumento em homenagem ao antigo ditador Augusto Pinochet, principal responsável pela construção da Carretera Austral. Amanhã, teremos mais um longo dia. Mas ao invés de rios, florestas e geleiras, o que nos espera são termas de água quente e um dos vulcões mais ativos do país.
Três quilômetros de trilhas nos levam a esse belo mirante para o Vetisquero Colgante, no Parque Nacional Queulat, na Carretera Austral, no sul do Chile
Catedral da Sé, em São Paulo
Finalmente, hoje, conseguimos fazer parte do que havíamos planejado para São Paulo. Tudo bem que começamos meio tarde, mas a intenção é que conta!
A nova e moderna linha de metrô amarela, em São Paulo
Primeiro, fomos à mais nova estação da mais nova linha de metrô: a Faria Lima,no Largo da Batata, linha Amarela. É das mais modernas do mundo, tudo bem clean, arrumadinho, visual futurista. Para desespero dos suicidas, vai ser bem mais difícil se atirar na frente do trem por aqui: portas de vidro nos separam dos trilhos e só se abrem quando o metrô já chegou.
Nosso próximo objetivo era a Praça da República, pleno centro da cidade. Se a tal linha Amarela já estivesse a pleno vapor, teríamos chegado lá em 10 minutos, seguindo quase em linha reta. Mas,não era o caso. Ao contrário, a linha Amarela, experimental e na faixa, só vai até a Consolação. Lá, baldeação para a linha Verde, onde seguimos até Paraíso. Nova baldeação e vamos até a Sé, disputando cada milímetro quadrado com os outros milhares de usuários. Finalmente, uma última baldeação nos leva até a República. Quatro linhas de metrô em meia hora, até que a cidade está evoluindo. Mais uns 100 km de trilhos e chegaremos ao nível de Paris ou Londres... Felizes serão os paulistanos nesse dia.
O famoso prédio Copan
Na República seguimos logo para o Copan, marco arquitetônico da cidade. Interessante, mas longe de ser bonito, mesmo com as curvas características de seu idealizador. Logo abaixo, por recomendação da Gogóia, um gostoso almoço tardio no Dona Onça, com ambiente bem acolhedor.
Vista do Vale do Anhangabaú, a partir do Viaduto do Chá, no centro de São Paulo
Depois, uma caminhada pela Sete de Abril em busca de artefatos fotográficos. Melhor lugar do Brasil para isso. Comprado o que procurávamos (filtros protetores para nossas lentes), seguimos adiante para cruzar o Vale do Anhangabaú e o Viaduto do Chá. O dia nublado tornava a paisagem mais típica ainda. Mais paulistano, impossível.
Pátio do Colégio, onde começou a cidade de São Paulo
Por fim, uma esticada até a Praça da Sé, passando pelo Pátio do Colégio. De uma só tacada, mostro para a Ana aonde nasceu a maior cidade do hemisfério sul e também aonde está o Marco Zero de São Paulo, onde se inicia a quilometragem de todas as rodovias estaduais. Passeando pela praça, me vêm à cabeça fatos históricos que se passaram neste local como o grande comício das diretas, em 84, ou o ato ecumênico em homenagem ao Herzog, assassinado covardemente pela ditadura. Para mim é sempre emocionante passear por esses lugares carregados de história.
Catedral da Sé, em São Paulo
De volta para casa (agora, só precisamos de duas linhas de metrô!), ainda pegamos um delicioso programa noturno do lado de casa, no Casa de Francisca: um jantar intimista acompanhado de um show de MPB praticamente vip. Afinal, na casa só há espaço para poucas e felizardas pessoas.
Amanhã cedo partimos para Poços certos de que em breve voltaremos para essa cidade que tem tanto para oferecer. Sabendo driblar o trânsito e a garôa e tendo alguém para pagar suas contas, o resto é só alegria!
Vestida com seu casaco de pele para enfrentar o frio em São José dos Ausentes - RS
A massa de ar polar chegou ao mesmo tempo em que a umidade se mandou. Com isso, a temperatura despencou, as nuvens sumiram, o céu ficou azul, a paisagem apareceu, mas a neve, ficou só na saudade. E assim promete ser o resto da semana: muito frio e muito sol. O negócio agora é aproveitar a belíssimo visual da região, se divertir com as geadas durante a manhã e esperar mais um pouco para pegar muita neve na Bolívia, Argentina e Chile.
Dia de sol e muito frio na região de São José dos Ausentes - RS
Acordamos já sentindo o ar gelado ao lado do rosto, enquanto o resto do corpo se dobrava sobre os cobertores. A temperatura fora do quarto era de dois graus. Café da manhã ao lado da lareira, caminhada nos gramados ao redor do hotel e trabalho sob os cobertores completaram a nossa manhã e nos deixaram prontos para o almoço no nosso spa de engorda.
Floresta de araucárias em São José dos Ausentes - RS
Depois, as despedidas dos nossos amigos gaúchos, em especial o Seu Domingos, proprietário do hotel que nos acolheu tão bem nesses quase três dias. Resolvemos viajar para Cambará do Sul, cidade base para se visitar os canyons mais famosos do Brasil, na fronteira de rio Grande do Sul e Santa Catarina, no Parque Nacional da Serra Geral. Cambará do Sul também é conhecida pelas baixas temperaturas no inverno e como é atrás de frio que estamos indo, pareceu uma ótima idéia.
Dia de sol e muito frio na região de São José dos Ausentes - RS
A viagem é toda em estrada de terra, cruzando a área campestre do estado, paisagem bucólica e lindíssima. Com o sol baixando no horizonte e a tarde terminando, a temperatura caía na frente dos nossos olhos. De sete graus, já estava em dois quando chegamos em Cambará do Sul. Aqui, a gente se instalou na Pousada Refúgio das Gralhas, da queridíssima Cerli. Ela nos explicou que já era tarde demais para seguir para qualquer um dos canyons da região e que teríamos de esperar pela manhã seguinte.
Seu Domingos, proprietário do hotel Monte Negro, em São José dos Ausentes - RS
Assim, só nos restou acompanhar o frio aumentar e trabalhar um pouco no nosso quarto com aquecedor. Só nos aventuramos para fora para ir atrás de um lanche. Jantar, nem pensar, pois os restaurantes estavam todos fechados, pelo frio e pela falta de clientes potenciais.
Trabalho no quarto quentinho em Cambará do Sul - RS enquanto lá fora faz zero grau!
E assim a noite chegou. E, junto com ela, nossas primeiras temperaturas negativas da viagem dos 1000 dias. Mas, antes de chegar ao negativo, ela passou pelo número mágico do zero grau. E bem nessa hora, lá na praça onde está o termômetro, lá estávamos para registrar a temperatura...
Otermômetro da praça confirma a temperatura marcada pela Fiona em Cambará do Sul - RS
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