2
Arquitetura Bichos cachoeira Caverna cidade Estrada história Lago Mergulho Montanha Parque Patagônia Praia trilha vulcão
Alaska Anguila Antártida Antígua E Barbuda Argentina Aruba Bahamas Barbados Belize Bermuda Bolívia Bonaire Brasil Canadá Chile Colômbia Costa Rica Cuba Curaçao Dominica El Salvador Equador Estados Unidos Falkland Galápagos Geórgia Do Sul Granada Groelândia Guadalupe Guatemala Guiana Guiana Francesa Haiti Hawaii Honduras Ilha De Pascoa Ilhas Caiman Ilhas Virgens Americanas Ilhas Virgens Britânicas Islândia Jamaica Martinica México Montserrat Nicarágua Panamá Paraguai Peru Porto Rico República Dominicana Saba Saint Barth Saint Kitts E Neves Saint Martin San Eustatius Santa Lúcia São Vicente E Granadinas Sint Maarten Suriname Trinidad e Tobago Turks e Caicos Uruguai Venezuela
Luiz Alberto (23/08)
Olá Rodrigo! Tive o privilégio de conhecer essa região com o seu irmã...
Luciana PI (18/08)
Rodrigo, quantas aventuras!!! E eu aqui enfiada no trabalho, gritando por...
lalau (17/08)
Sempre acompanhando, cada lugar lindo, ultimamente uma beleza que parece ...
Luis (17/08)
Luis (17/08)
Não esqueça da gente!!! Quero todas as informações. Rodrigo, veja o q...
Explorações durante mergulho em Pedras Secas I, em Fernando de Noronha - PE (foto de Mateus Harfush - Ciliares)
Nosso plano original de mergulhos em Noronha era de três dias, com o gran finale sendo na corveta. Mas a água está tão limpa, nós sendo tão bem tratados pelo Fernando e pela Noronha Divers e o Haroldo tão animado com essa nova atividade que resolvemos mergulhar mais uma manhã.
Esponja gigante durante mergulho em Iúias, em Fernando de Noronha - PE (foto de Mateus Harfush - Ciliares)
Nesta época do ano o Mar de Fora não é tão revolto como de costume. Então para lá partimos, rumo à Iuias, que deve ter sido uma antiga ilha que foi devorada pelo mar e de volta à Pedras Secas, um dos melhores pontos de mergulho do nosso continente na minha opinião.
Várias lagostas durante mergulho em Iúias, em Fernando de Noronha - PE (foto de Mateus Harfush - Ciliares)
Dessa vez o Mateus da Ciliares nos acompanhou novamente, o que me liberou de levar minha câmera e poder me concentrar totalmente nas belezas submarinas do Mar de Fora. A água estava transparente, visibilidade de 50 metros, e os dois mergulhos foram show de bola.
Cardume durante mergulho em Iúias, em Fernando de Noronha - PE (foto de Mateus Harfush - Ciliares)
Em Iuias, passamos por canyons e enormes blocos de pedra amontoados. Peixes e corais coloridos. Tartarugas que não temem humanos e lagostas que nos enfrentam com suas antenas.
Tartaruga durante mergulho em Iúias, em Fernando de Noronha - PE (foto de Mateus Harfush - Ciliares)
Em seguida, Pedras Secas I, aquela que o Haroldo não pode conhecer por ter terminado seu ar. Ali o mergulho é mais raso, bem próximo da rebentação em alguns pontos. A água é incrivelmente limpa. Os corais fazem um verdadeiro labirinto de tocas, cavernas e canyons. Os peixes bricam nas correntes e todos nós parecemos estar voando sobre um mundo alienígena.
Explorações durante mergulho em Pedras Secas I, em Fernando de Noronha - PE (foto de Mateus Harfush - Ciliares)
Nossa imaginação vai longe durante o mergulho. Só fui trazido de volta pelo susto que passei quando tentei me aproximar de uma enorme barracuda que nadava bem próximo à superfície, encostado nas pedras. Ao subir demais fui surpreendido por uma forte corrente ascendente que me puxou com força para cima. Só deu tempo de pensar:"Xiiiii... vou ver na prática porque o nome daqui é Pedras Secas!" Um pouco antes de ser tragado para a superfície a corrente inverteu e eu aproveitei para mergulhar com força até uma profundidade segura. O coração acelerou!
Barracuda gigante durante mergulho em Pedras Secas I, em Fernando de Noronha - PE (foto de Mateus Harfush - Ciliares)
Outra cena maravilhosa é observar a rebentação lá de baixo. Uma espécie de "poeira branca" se forma na água. Mais do que nunca, parece que estamos fara d'água e que aquilo que vemos são nuvens contra um céu claro. Difícil descrever a beleza da cena.
Mergulhando sob as ondas em Pedras Secas I, em Fernando de Noronha - PE (foto de Mateus Harfush - Ciliares)
Assim fechamos essa série de mergulhos fantásticos em Noronha. Para quem planeja viajar para cá meu conselho é: aprenda a mergulhar antes de chegar aqui e descubra esse incrível mundo subaquático que cerca a ilha! Não vai se arrepender...
Com o Fernando, nosso guia de mergulhos e o Mateus, fotógrafo da Ciliares, em Fernando de Noronha - PE
Presença quase onipresente nas ruas do país (em Coro, cidade histórica na Venezuela)
Depois de dois dias intensos na península de La Guajira, chegamos na noite de ontem à Maicao, última cidade colombiana antes da fronteira com a Venezuela. Preferimos dormir por aí para enfrentar essa complicada passagem fronteiriça na manhã de hoje. Conhecemos vários casos de viajantes que passaram horas e horas tentando passar de um país para o outro, filas enormes e burocracia ineficiente. A Venezuela compra quase tudo no exterior e boa parte das mercadorias vêm por essa fronteira. A relação dos dois países tem sido marcada pela instabilidade nesses últimos anos, ambos acusando o outro de interferência em sua política interna. Como consequência, existe um certo clima de tensão no ar e a fronteira até já foi fechada algumas vezes. Mas não por muito tempo, já que o intenso comércio não pode parar.
Fiona! (em Maicao, na Colômbia)
Hoje cedo, aproveitamos para já fazer câmbio na cidade e comprar bolívares, a moeda da Venezuela. Nesses mais de 1000dias de viagem, é a primeira vez que fizemos isso! Hoje em dia, nesses tempos modernos, “cambista” é uma profissão quase inexistente. Afinal, basta irmos a um caixa eletrônico e retirarmos o dinheiro em moeda local. Já não corremos o risco de sermos enganados por alguém nas ruas e praças de um país estranho, com suas calculadoras viciadas. É simplesmente muito mais seguro passarmos o cartão e pronto. Mas, ainda há exceções! E a Venezuela é o melhor exemplo disso! Tudo porque, aqui nesse país, funcionam aqueles dois tipos de câmbio que há muito já não via: o “oficial” e o “negro”. Além disso, a diferença entre eles é absurda. Não é de 20 ou 30%, o que já seria muito, mas de 300 ou 400%! Isso mesmo! Enquanto o câmbio oficial, que é o que eu conseguiria em um caixa eletrônico, é de 1 US$ para B$ 6,30, no negro trocamos o mesmo dólar por 25 ou até 30 bolívares!
Entrando na Venezuela, recião de Maracaibo, vindos da Colômbia
Essa diferença abismal faz com que a Venezuela passe de um país um pouco caro, para quem use o câmbio oficial, para um país extremamente barato, para quem use o câmbio negro. É claro que a gente quis se enquadrar na segunda categoria! Então, tratamos de retirar dinheiro nos caixas da Colômbia mesmo e trocá-los por bolívares, ainda em Maicao. Feito isso, e depois de encontrar e fotografar uma loja com o mesmo nome da Fiona (para nunca mais nos esquecermos dessa feia cidade fronteiriça), estávamos prontos para entrar em terras bolivarianas, o penúltimo país que faltava nesse nossa jornada pelas Américas (agora, só falta o Uruguai!).
Bolívar, herói máximo da Venezuela
A ansiedade da passagem pela fronteira não durou muito. Não havia fila nenhuma e passamos pelo lado colombiano rapidamente. O único incidente foi quando tentei trocar os pesos colombianos que ainda restavam na minha carteira. Eu já estava craque na taxa de câmbio entre dólares e bolívares e entre dólares e pesos colombianos, mas entre as duas moedas sul-americanas, a conta era mais complicada. E não é que o cambista tentou me passar a perna e me empurrar os bolívares pela taxa oficial? Eu achei o valor final meio baixo e titubeei um pouco. O cambista dizia que era isso mesmo, que eram “bolívares fuertes”. O nome vem de quando o Chavez cortou três zeros da moeda antiga e tentou acabar com a inflação com uma canetada. É claro que não deu certo e os bolívares só são “fuertes” no nome. Enfim, depois de eu reclamar e ameaçar ir embora, ele me deu a quantia certa, na maior cara de pau.
Já estamos na Venezuela!
Bem, passamos ao lado venezuelano e ganhamos rapidamente os stamps nos nossos passaportes. Mas na hora de conseguirmos os papeis da Fiona, aí tivemos de esperar. A repartição responsável estava no horário de almoço e nós aproveitamos para lanchar também. Sentamos em uma das lanchonetes de rua e comemos um prato de bananas e queijo esquentados na chapa. Uma delícia!
Venda de queijo artesanal na fronteira da Venezuela
A repartição de abriu e lá fomos nós. Acabou demorando um pouco mais porque dois funcionários estavam doentes e um terceiro fazia o trabalho dos três. Na hora de preencher os dados e requisitos, eis que nosso seguro da Fiona, comprado lá na Colômbia (e para a Colômbia!) valeu por aqui! Que beleza! Estávamos liberados para entrar pelo país adentro!
Preparando carne, plátano e queijo na chapa quente, na fronteira da Venezuela
A Venezuela é um enorme país, cheio de paisagens belíssimas e variadas. Poderíamos passar, tranquilamente, dois meses por aqui, para poder ver um pouco de tudo. Mas não temos todo esse tempo, infelizmente. Vamos entrar no Brasil, lá em Roraima, no dia 17, já que voamos de Boa Vista para o sul do país no dia 19. Isso nos dá cerca de 20 dias por aqui, que vamos tentar espremer da melhor maneira.
O preço quase gratuito do combustível permite que as antigas banheiras ainda ocupem as ruas e estradas da Venezuela
O que nos ajudou nesse sentido foi que estivemos viajando na Venezuela em 2007, ainda antes de casarmos. Viagem memorável, diga-se de passagem! Naquela ocasião, subimos o maravilhoso Monte Roraima, na fronteira com o Brasil, conhecemos o Salto Angel, a mais alta cachoeira do mundo, estivemos na capital Caracas e nos esbaldamos no arquipélago de Los Roques, ilhas que não ficam nada a dever à qualquer paraíso caribenho. Então, pela falta de tempo, a decisão natural foi nos concentrarmos em outros lugares dessa vez. A exceção foi o Salto Angel, para o qual decidimos voltar, já que não nos tomaria muito tempo, estava em nosso caminho e nos daria a chance de ver a cachoeira por inteiro, o que não conseguimos da outra vez. De qualquer maneira, pretendo fazer posts sobre o Monte Roraima e Los Roques também, já que as memórias ainda estão frescas, assim como as fotografias desses dois lugares absolutamente especiais.
Nosso roteiro pela Venezuela: Começamos pela região de Coro (A), incluindo a península de Paraguaná e a Serra de San Luis. Daí para Morrocoy (B), o caribe venezuelano e Mérida (C), nos Andes. Depois, a região dos Llanos (D), uma espécie de Pantanal e Ciudad Bolivar (E), de onde voamos para a maior cachoeira do mundo, o Salto Angel (F). Finalmente, passando pela Gran Sabana (G), chegamos à Santa Elena (H), na fronteira com o Brasil. Não vamos ao Monte Roraima (I), Caracas (J) e o arquipélago paradisíaco de Los Roques (K), onde estivemos recentemente, em outra viagem e que merecerão posts especiais também!
Bom, decidido aonde não iríamos, tudo ficou mais fácil. Vamos começar por Coro, a mais bem preservada cidade histórica do país e que nos servirá de base para conhecer a península de Paraguaná (a “La Guajira” daqui) e a Serra de San Luis. Depois, vamos para o Parque Nacional de Morrocoy, as praias mais caribenhas da América do Sul. Das praias para as montanhas, e que montanhas! Mérida fica no coração dos Andes venezuelanos, com altitudes que chegam aos 5 mil metros! Depois das alturas, voltamos aos baixios, aos Llanos, a versão venezuelana do nosso Pantanal. Daí para Ciudad Bolivar, para voarmos à Canaima, pertinho do famoso Salto Angel. Finalmente, vamos atravessar a Gran Sabana em direção ao Brasil.
Muita propaganda do socialismo bolivariano nas ruas da Venezuela
Um ambicioso roteiro atravessando um enorme país! E tudo tem de começar com um pequeno passo. Foi o que fizemos hoje, viajando da fronteira para Maracaibo, a segunda maior cidade do país e, daí, para a histórica Coro, onde chegamos de noite. Mas ainda estava bem claro quando atravessamos Maracaibo e o maior lago do continente, que tem esse mesmo nome. É justamente aí que se concentra a maior produção de petróleo do país, a grande riqueza venezuelana. Atravessamos a enorme ponte sobre a boca do lago e olhamos, no horizonte, os navios petroleiros e as torres das plataformas de estação de petróleo.
De Maicao (Colômbia) para Coro (Venezuela), passando por Maracaibo e pelo maior lago da América do Sul
Os olhos miravam aquela vastidão infinita de água doce, mas a mente mirava o passado. Dois importantes momentos da história venezuelana aconteceram por ali, bem embaixo da ponte que passávamos. Em 1823, em uma épica batalha naval, a Venezuela venceu uma frota espanhola na última tentativa daquele país de recuperar o poder na antiga colônia, pondo fim a uma guerra de mais de 12 anos, talvez a mais violenta de todas as lutas de independência na América do Sul. Nada menos que metade da população de origem europeia morreu durante esses anos sangrentos de lutas e batalhas.
Na Venezuela, região de Maracaibo, reencontro com os rios amazônicos
O outro momento, bem mais inesperado para nós que nada sabemos da história de nossos vizinhos, foi uma batalha entre alemães e venezuelanos. Isso mesmo: alemães! Estávamos no início do século XX e o ditador de plantão aqui no país resolveu dar o calote nos credores internacionais. Alemanha e Inglaterra não gostaram nada disso e resolveram fazer um bloqueio naval do país. Apesar da tensão com os Estados Unidos, que já se achavam os donos do continente, o bloqueio foi imposto e justamente essa batalha para controlar o lago foi a mais mortal de todas. A marinha alemã destruiu um forte venezuelano e dezenas de soldados morreram. Ao final, com intermediação do Tio Sam, tudo se resolveu, exceto para aqueles que morreram durante o conflito. O lago voltou a ser venezuelano e, alguns anos depois, o petróleo foi descoberto por aqui, mudando para sempre a história da Venezuela.
Cruzando a enorme ponte sobre o lago Maracaibo, na Venezuela
Pois é, começamos hoje a viajar na geografia e história desse país. Do Caribe aos Andes, de Bolívar a Chavez, dos Llanos à Gran Sabana, gastando apenas alguns centavos para encher o tanque do carro, vai ser uma viagem e tanto! E está apenas começando...
Lago de Maracibo, o maior do continente, importante região produtora de petróleo na Venezuela
Praia tranquila no início da manhã em Pichilemu, no litoral central do Chile
No dia 28 de Novembro de 1520, os três navios restantes sob as ordens de Fernão de Magalhães terminaram a travessia do Canal de Magalhães e adentraram um novo oceano. A expedição espanhola sob as ordens de um navegante português foi a primeira a navegar no lado leste deste oceano que os europeus estavam apenas começando a conhecer na última década. Tendo navegado sob duras condições meteorológicas no extremo sul do continente, os europeus se animaram com as águas calmas e pacíficas daquele novo mar. Por isso, Magalhães logo o batizou de Oceano Pacífico.
Oceano Pacífico, circundado pela América a leste, Ásia e Oceania a oeste e Antártida, ao sul, é o maior dos oceanos da Terra
O maior oceano da Terra, com cerca de 165 milhões de km2, tinha passado despercebido pelos povos europeus nos últimos milhares de anos. Mesmo sendo maior do que todos os continentes somados e representando um terço de toda a superfície do planeta, foi apenas em 1512 que duas expedições portuguesas chegaram ao Oceano Pacífico, vindos do sul da Índia e navegando até as ilhas Maluku. Em maio do ano seguinte, saindo da atual Malásia, os portugueses chegaram ao sul da China. Nesse mesmo ano, mas em setembro, foi a vez do espanhol Vasco Nuñez de Balboa cruzar a pé o Istmo do Panamá e atingir o Oceano Pacífico, a primeira vez que um europeu chegava ao lado leste desse mar. Foi ele que batizou o novo oceano de “Mar do Sul”, mas o nome não pegou.
Nosso "escritório" em Mancora, no litoral norte do Peru
Correndo na praia em Montañita, no Equador
O nome que realmente pegou foi mesmo “Oceano Pacífico”, dado pela expedição de Magalhães, a primeira a cruzar esse novo oceano de leste a oeste. Depois disso e pelos próximos 50 anos, o Pacífico também era chamado de “Mare Clausum” (ou “mar fechado”) pelos espanhóis, que o consideravam como propriedade sua. Seus galeões navegavam das Filipinas ao México intocados e soberanos, enquanto o Canal de Magalhães era vigiado para que nenhum barco de outra potência marítima entrasse em “águas espanholas”. Mas isso não iria durar para sempre. Um dos maiores navegantes de todos os tempos, odiado por espanhóis e idolatrado na Inglaterra, Sir Francis Drake, sob as ordens da rainha, navegou pelo Estreito de Magalhães em 1578, abrindo o novo oceano também para as outras nações europeias. Em breve, holandeses os seguiriam. A trilha de pilhagem e destruição deixada pelo famoso pirata nas bases espanholas na costa do Pacífico deixaram claro para eles que o Pacífico jamais seria assim, tão “pacífico”.
El Tunco, litoral de El Salvador
Pura saúde no café da manhã na praia em Zipolite, no litoral Pacífico do México
Mas a história do maior oceano da Terra começa muito antes que europeus começassem a brigar pela sua posse. Antes deles, navegantes chineses e mulçumanos já faziam bom uso de suas águas. E muito antes disso, hábeis navegantes polinésios, num raro caso de migração transoceânica, partindo de ilhas na costa da Ásia, haviam atingido o Havaí, a Ilha de Páscoa e, possivelmente, a costa da América do Sul. Na verdade, mesmo antiga, a história da ocupação humana do Pacífico não passa de um mero piscar de olhos na muito mais longa história do próprio oceano. Assim como montanhas, continentes, rios e lagos, oceanos nascem, crescem e morrem. Mas o tempo aí não se conta em centenas ou milhares, mas em milhões de anos.
O Oceano Pacífico originou-se do Oceano Pantalássico, que circundava o super-continente de Pangea.
É de conhecimento de quase todos, exceto entre os religiosos muito fervorosos que acham que o planeta tem pouco mais de 5 mil anos de idade, que todos os continentes que hoje conhecemos já estiveram unidos em um super-continente chamado Pangeia. Já expliquei em outro post que desde que a Terra é Terra, continentes se juntam e se separam, com configurações distintas e diferentes oceanos entre eles. Pangeia é apenas a última vez em que eles se reuniram, entre 300 e 200 milhões de anos atrás. Nessa época, havia apenas um oceano no planeta, a enorme massa d’água que cercava por todos os lados o super-continente de Pangeia. Chamava-se Oceano Pantalássico ou Paleo-Pacífico, pois dele nasceria o Oceano que hoje conhecemos.
Em Bahía Drake, embarcando para o Parque Nacional Corcovado, na Península de Osa, no sul da Costa Rica
Magnífico pôr-do-sol na Playa Hermosa, em San Juan del Sur, na Nicarágua
Esse mundo de geografia simples (apenas um continente e um oceano!) começou a mudar quando Pangeia se quebrou em Laurásia, ao norte, e Gondwana, ao sul. Entre os dois novos super-continentes, um novo oceano, chamado de Tétis, surgiu. Mas ele não teria vida longa. Gondwana se partiu em pedaços menores e a divisão entre África e América do Sul daria origem ao Oceano Atlântico, enquanto que a divisão entre África de um lado e Austrália, Índia e Antártida do outro, daria origem ao Oceano Índico. Migrando para o norte, em direção à Europa, a África reduziria o outrora grandioso Oceano de Tétis no mísero Mar Mediterrâneo. E enquanto tudo isso ocorria, o Oceano Pantalássico se transformava no Oceano Pacífico que tem, segundo os estudiosos, cerca de 150 milhões de anos de idade.
De ré, embarcando em balsa para cruzar a Caleta Gonzalo, no parque Pumalín, trecho da Carretera Austral no sul do Chile
Passeio de caiaque em Tofino, na costa oeste da Vancouver Island, na Columbia Britânica.no Canadá
E aí, podemos perguntar: “Ué... e por que já não era o Oceano Pacífico antes, na época de Pangeia?”. Porque os solos dos oceanos estão em constante renovação. Hoje, por exemplo, a placa tectônica do Pacífico afunda sobre a placa onde está o Japão (lembram-se do terremoto e maremoto de 2011?) e também sobre a placa das Américas. O Pacífico está diminuindo por quase todos os lados, alguns centímetros por ano. O solo entra nas entranhas da Terra e sai de volta, na forma de lava vulcânica, pelas dezenas de vulcões do chamado ‘Cinturão de Fogo do Pacífico” e centenas de vulcões conhecidos e desconhecidos no leito do mar. Enfim, os cientistas dizem que, devido a essa renovação constante, não há nada no fundo do Pacífico que tenha mais de 150 milhões de anos.
Pontos ao longo da costa americana onde chegamos ao Oceano Pacífico durante os 1000dias. Devido ao frio, foi apenas nas costas do México, América Central, Peru, Equador e Chile, além das ilhas oceânicas, que conseguimos dar um mergulho
Enfim, foi ao longo desse “senhor” de 150 milhões de anos que nós viajamos centenas e centenas de quilômetros ao longo desses 1000dias. Desde as águas geladas do Alaska, passando pelo o litoral quase tropical do oeste da América Central e chegando novamente às aguas geladas, agora na patagônia chilena. Isso sem esquecer das temporadas nas ilhas paradisíacas do Havaí, Galápagos e Páscoa, todas no coração do Oceano Pacífico. Esse mar foi personagem principal e atuante na nossa jornada, seja com a Fiona, seja de barco ou de avião. Nele nadamos, nele mergulhamos, ou simplesmente admiramos sua beleza vasta, quase infinita para os olhos, do alto de algum penhasco, montanha ou da praia mesmo. Foi atrás dele que o sol muitas vezes se escondeu, proporcionando pores-do-sol espetaculares e inesquecíveis. Foi aí que vimos tubarões e pinguins em Galápagos, baleias no México e no Canadá, ou leões-marinhos nos Estados Unidos. Foram em suas praias que nos esquentamos no Equador e Peru ou na Costa Rica e Nicarágua e nos esfriamos no Canadá e Estados Unidos. Foram em suas águas que navegamos no Alaska e no sul do Chile. Ou seja, personagem principal mesmo!
Admirando as pasisagens da Inside Passage, trecho entre Sitka e Ketchikan, no sudeste do Alaska
Chegando à selvagem Ruby Beach, no Olympic National Park, no estado de Washington, oeste dos Estados Unidos
Para nós, brasileiros, mar é o Oceano Atlântico. É ele que banha nossas costas, do Oiapoque ao Chuí. Como bom mineiro, passei incontáveis férias em suas praias, primeiro naquelas entre São Paulo e Espírito Santo e, mais tarde, esticando até os estados do Nordeste e Sul do Brasil. Com tanto tempo de praia, uma relação se formou. Pode parecer petulante, mas o Atlântico é quase como um “brother” para mim e gosto de pensar que, a cada vez que ponho os pés nele, onde quer que seja, ele também me reconheça; “Lá vem o Rodrigo!” – ele diz. Relação de respeito e amizade, agora não mais apenas do Chuí ao Oiapoque, mas da Terra do Fogo a Massachusetts. É sempre o mesmo Oceano Atlântico, aquele que conheço desde criança.
Fotografando uma iguana na praia em Tortuga Bay, na Ilha de Santa Cruz, em Galápagos
A Ana nada na praia de Anakena, em Rapa Nui (ou Ilha de Páscoa), ilha chilena no meio do Oceano Pacífico
Com o Pacífico é diferente. É outro mar. Não nos conhecemos desde criança. Quando chego perto, sei que é “outro bicho”. Mais velho e maior que o Atlântico, há algo de diferente ali, no ar, na água, abaixo dela, no horizonte. Não sei definir exatamente o que é, mas é diferente. Isso não quer dizer que seja pior ou melhor. É simplesmente diferente. Com um, a intimidade foi construída desde a infância, com o outro, é uma relação de respeito, de estudo. Um amigo da fase adulta nunca será igual a um amigo que vem desde os tenros anos.
Um banho de luz no fim de tarde na Pescadero Beach, na rodovia One, entre San Francisco e Santa Cruz, no litoral da Califórnia, nos Estados Unidos
Pois bem, esses 1000dias serviram, entre tantas outras coisas, para que nós conhecêssemos muito melhor esse vasto oceano. Desde a primeira vez que o vimos, aqui mesmo no Chile, em 20 de Agosto de 2011, em Iquique (post aqui), até a manhã de hoje, foram 30 meses de convivência, de idas e vindas, de águas quentes e frias, de mergulhos e caminhadas, de trechos de carro e de barco. De maneira geral, foi ao seu lado que seguimos para o norte e nos refestelamos em suas praias no Peru e no Equador. Depois, já na América Central, foi a vez de aproveitarmos suas praias na Costa Rica, Nicarágua e El Salvador e, finalmente, México. Nos Estados Unidos, nos afastamos para voltar ao leste e o reencontro só se deu no Alaska. É claro que já não dava para tomar banho de mar por lá, mas foi onde fizemos um dos mais belos trechos desses 1000dias, navegando pela costa do estado até o Canadá. Foi lindo!
Um mirante avançado para melhor admirar as grandes ondas de Kalalau, na Na'Pali Coast, costa norte de Kauai, no Havaí
Reencontro com o Oceano Pacífico na cidade de La Serena, no Chile
Aí sim, fomos conhecer a costa americana do Oceano Pacífico. O ponto alto foi a rodovia One, de San Francisco a Los Angeles, sempre com o mar ao lado. Daí voamos para o Havaí, cercado de Oceano Pacífico por todos os lados. Uma overdose, no bom sentido, das mais belas paisagens desse mar. Tão belo como havia sido nossa temporada em Galápagos e como seria também na Ilha de Páscoa, locais onde a temperatura desse mar é muito mais agradável do que costuma ser aqui na costa do continente.
Movimento da manhã em praia de Pichilemu, no litoral central do Chile
De volta à América do Sul, fomos até a Terra do Fogo pelo meio do continente, mas a volta para o norte, em terras chilenas, foi sempre ao lado do mar. Outras vez, juntos com a Fiona, cruzamos de ferry trechos lindos desse mar. Mas a água estava fria demais para um mergulho, mesmo nas praias da Ilha de Chiloé. E aqui chegamos na pequena Pichilemu, capital do surf chileno, local da nossa despedida do Oceano Pacífico, escolhida a dedo porque nos dá a chance de um bom mergulho.
O majestoso Oceano Pacífico em Pichilemu, no litoral central do Chile
Pois é, a água é fria por aqui também. Mas nada que impeça alguns minutos dentro d’água. Foi o que fiz hoje pela manhã, bem longe da Playa Principal e de suas multidões e salva-vidas. A praia de Infiernillo, onde está nossa pousada, é muito mais tranquila. Quer dizer, suas areias são, enquanto a água é um pouco mais agitada. Bem do jeito que eu gosto. Bem com a cara do Pacífico. Respirei fundo e para a água eu fui. Nada de pensar muito, pelo menos até me acostumar com a temperatura. Água bem limpa, dessas que se vê o pé, mesmo na parte mais funda. Depois, dois ou três jacarés para aproveitar as ondas. Sentimento total de despedida, nó na garganta e tudo. Mas o dia de sol e a beleza que me circundava não me deixava ficar triste. De volta às areias para me esquentar um pouco e ver o mar de outro ângulo.
Nossa despedida do Oceano Pacífico nesses 1000dias, em Pichilemu, no litoral central do Chile
A Ana faz festa. Dois rapazes vestidos de marinheiro se aproximam. Os salva-vidas aqui do Chile são da marinha e se vestem de marinheiros. Perguntam se eu não sabia da proibição. Eu me faço de tonto e digo que não. Eles me perdoam por ser gringo e, educadamente, me explicam que não é permitido nadar ali. Se quiser voltar ao mar, que seja no meio da multidão, a um quilômetro dali, na Playa Principal. Eu agradeço. Aquele banho de mar já tinha sido minha despedida. Mar agora, só lá no Ceará, daqui a três dias, com meu “brother” Atlântico, sem passar frio ou ter de dar explicação para alguém vestido de marinheiro. Por falar nisso, está na hora de pegarmos estrada novamente, rumarmos para o norte. Olho uma última vez para o mar. Pacífico, adeus!
Enfrentando a água fria do Oceano Pacífico em Pichilemu, no litoral central do Chile
Encontro com tubarão-baleia em mergulho em Wolf, em Galápagos (foto de Henning Abheiden)
O Tubarão-Baleia é o maior peixe dos nossos oceanos. Chega a medir 15 metros de comprimento e pesar mais de 10 toneladas. Resumindo, é um ônibus abaixo d'água. Apesar desse tamanho todo, ele é completamente pacífico e inofensivo ao homem. Alimenta-se de plâncton microscópico através da filtragem de água que engole em enormes quantidades quando abre a sua boca.
O maravilhoso e gigantesco tubarão-baleia, na Isla Wolf, em Galápagos (foto retirada do vídeo de Friso Hoekstra)
O sonho de quase todos os mergulhadores é avistar uma dessas criaturas maravilhosas. Mais, é poder nadar ao lado dele por algum tempo, sentir-se minúsculo diante de um ser tão gigantesco, observar até onde a vida pode chegar. Para encontrá-los, ou se tem muita sorte em algum ponto onde não costumam frequentar ou então deve-se ir mergulhar em algumas regiões do mundo onde eles são vistos habitualmente, como na costa oeste da Austrália, nas Filipinas, em Belize ou em Galápagos.
Tubarão-baleia em mergulho em Darwin, em Galápagos (foto de Hnning Abheiden)
Eles eram nosso principal objetivo nos mergulhos em Galápagos. Por aqui, é bem comum encontrá-los em Darwin e também em Wolf. Imagine então nossa ansiedade ao cair na água pela primeira vez nessas ilhas, logo após o briefing dos nossos guias nos explicando como seria o procedimento para encontrá-los e pedindo à todos que cruzassem os dedos.
Todos à espera de um tubarão-baleia em mergulho na Isla Darwin, em Galápagos
Reação da Ana ao se deparar com um Tubarão-Baleia, em mergulho na Isla Wolf, em Galápagos
E assim estávamos nós, fixos em nossas pedras a 15 metros de profundidade, segurando-nos para não sermos levados pela corrente, observando o azul infinito à nossa frente, maravilhados com a quantidade de tubarões-martelo que nos rodeavam. A esperança maior de observar um tubarão-baleia era em Darwin, no dia seguinte, então não estávamos tão preparados para o enorme vulto que apareceu na nossa frente, meio distante. A Glenda, nossa guia, começou a bater no seu tanque e nos apontar o gigante enquanto a gente ainda custava a crer no que via. Foi quando ela começou a nadar em direção a ele e nós fomos atrás, ainda sem saber qual deveria ser a nossa postura. Deu tempo para chegar um pouco mais perto, observar suas manchas brancas, mas ele rapidamente se foi. Um breve e inesquecível contato.
Tubarão-baleia se afasta em mergulho em Darwin, em Galápagos (foto de Hnning Abheiden)
Depois desse encontro, voltamos aos nossos lugares, agora preparados para, numa próxima vez, sair em disparada em direção ao tubarão. Enquanto isso, a Laura, o Rafa e a Maria, já com ar terminando, iniciaram sua volta à superfície. Enquanto nós ficávamos lá embaixo, em vão, esperando por mais um tubarão, os três tiveram o encontro de suas vidas: imóveis na sua parada de segurança, quase foram atropelados por um tubarão-baleia que passava por ali tranquilamente. A Maria filmou tudo e, quando os encontramos, estava extasiados. A euforia durou até que chegássemos todos ao barco e pudéssemos ver o filme. Aí, ela aumentou, para eles, vendo de novo aquela criatura incrível. Para nós, além de maravilhados com aquelas cenas, sobrou uma certa inveja branca e a promessa de que não perderíamos mais uma oportunidade.
Emocionante encontro com tubarão-baleia em mergulho em Darwin, em Galápagos (foto de Hnning Abheiden)
Um dos mais angustiados era o Friso, pois pedeu também o primeiro tubarão, já que tinha se desconcentrado na hora filmando alguma outra coisa. Estava decidido a ir "a revanche".
O maravilhoso e gigantesco tubarão-baleia, na Isla Wolf, em Galápagos (foto retirada do vídeo de Friso Hoekstra)
Algumas horas depois, estávamos todos nós lá embaixo de novo, dessa vez quase ignorando os tubarões-martelo. Queríamos algo maior! Dessa vez, mergulhávamos com o Edwin, enquanto a Glenda estava com os russos uns 50 metros ao nosso lado. E foi o barulho dela que ouvimos primeiro. Desesperados, tentávamos discernir alguma coisa naquele imenso azul quando, de repente, o Edwin saiu nadando que nem um louco em direção ao infinito. Mesmo sem ver nada, saímos todos atrás, até que o o gigantesco vulto apareceu. Para meu azar, eu era o que estava mais longe do "lugar certo de se estar", mas nessa hora o negócio é bater perna à força máxima, enfrentar a corrente e não pensar em mais nada. À minha frente estava o Friso, acelerando e ultrapassando outros mergulhadores que íam ficando para trás. Por fim, ele chegou ao tubarão e começou a fazer um "vôo panorâmico" sobre ele. Com sua câmera de grande angular, suas imagens ficaram absolutamente fantásticas. Um pouco atrás, eu tentava filmá-lo e ao tubarão também, mas o enorme bicho simplesmente não cabia na tela da minha câmera. Filmei o que pude e resolvi tirar fotos também, a sequência de botões a serem apertados passando pela minha cabeça enquanto eu tentava subir um pouco acima do tubarão para poder enquadrá-lo por inteiro. Tudo isso em força máxima contra a corrente, que teimava em nos levar para trás, enquanto o tubarão-baleia navegava tranquilamente contra ela.
A Ana nada ao lado de um gigantesco Tubarão-Baleia na Isla Wolf, em Galápagos (foto retirada do vídeo de Friso Hoekstra)
A Ana em perseguição ao gigantesco tubarão-baleia em mergulho na Isla Wolf, em Galápagos
E assim, fui subindo, subindo, até que consegui fotografá-lo quase inteiro. Ao seu lado, "pedalando" com toda a força, quase podendo tocá-lo, lá estava a Ana, minúscula, corajosa e feliz. Do outro lado, o Friso filmava tudo. E eu, quando percebi, já estava na superfície, sem ter feito nenhuma parada de segurança, meu computador apitando sem parar. Com muita força, desci. Mas o tubarão já ía longe e a Ana e o Friso voltavam, se poder caber em sua alegria.
Emocionante encontro com tubarão-baleia em mergulho em Darwin, em Galápagos (foto de Hnning Abheiden)
De noite assistimos o filme. Ficou absolutamente fantástico. Vamos postá-lo em breve, mas algumas das fotos desse post foram retiradas dele. Já o meu filme e minhas fotos, coitadinha da nossa Intova, até que se esforça.
Tentando desesperadamente alcançar o tubarão-baleia para filmá-lo por baixo, na Isla Wolf, em Galápagos
No dia seguinte, em Darwin, teríamos mais chances. E tivemos! Duas vezes no mesmo mergulho! Na primeira, mais uma vez o tubarão apareceu do lado errado, pelo menos para mim. Não consegui chegar muito perto e o Friso fez mais um belo filme. Quando todos voltamos aos nossos postos, exaustos, apareceu outro! Dessa vez, poucos tiveram ainda saúde de persegui-lo. Eu simplesmente esqueci do meu ar, cansaço e coração e parti à toda. Dessa vez, usando outra tática. O tubarão sempre vem contra a corrente. Ao invés de se lançar diretamente para ele, resolvi avançar contra a corrente pelas pedras, usando mais o braço do que as pernas. Passei rapidamente pela Ana e Glenda que estavam à minha frente, alinhei-me com o tubarão, que nadava uns dez metros ao meu lado, em direção ao mar aberto e, só aí, abandonei a encosta em direção à ele. Desesperadamente fui me aproximando. Ele estava mais alto e eu resolvi ir por baixo, dessa vez. Consegui filmá-lo por baixo, contra a luz do sol, um ângulo que ainda não tínhamos tido. Melhor ainda, a Glenda, de longe, conseguiu filmar a minha luta para chegar até ele. Nada com a qualidade dos filmes do Friso, mas algo para eu guardar pelo resto da vida, com certeza.
O enorme vulto de um tubarão-baleia visto por baixo, na Isla Wolf, em Galápagos (foto retidada de vídeo)
Difícil descrever a emoção. É algo que, certamente, queremos vivenciar de novo. E acho que vamos. Mas não foi mais em Galápagos. Eles resolveram não mais aparecer em nossos megulhos restantes em darwin e Wolf. Mas não podemos reclamar. Em dois dias, cinco encontros. Sensação única e inesquecível. Foi para isso que tínhamos vindo. Pagou nossa viagem, com certeza. Mas, tubarões-baleia, ainda vamos nos ver, podem ter certeza!
Admirando o belíssimo pôr-do-sol na nossa pousada em Little Cayman, nas Ilhas Caiman
Depois de conhecer a principal ilha do país, queríamos conhecer algum outro lado das Ilhas Caiman, algo menos tomado pelo turismo de cruzeiros e grandes hotéis, mais autêntico. Pelo pouco tempo que tínhamos, tivemos de escolher entre Little Cayman e Cayman Brac, as pequenas ilhas que, junto com Gran Cayman, formam esse pequeno país no mar do Caribe. Lendo uns poucos parágrafos sobre cada uma delas, o instinto mandou optar por Little Cayman. Chegava a hora de ver se a escolha tinha sido a correta...
Nosso avião entre Grand Cayman e Little Cayman
A primeira boa notícia veio logo que chegamos ao aeroporto de George Town e verificamos o tamanho do avião que faz a linha entre Grand Cayman e as duas pequenas ilhas: um pequeno bimotor com apenas uns 20 lugares! Oba! Realmente, íamos para um lugar pequeno! Melhor ainda foi saber que naquele avião estavam todas as pessoas que estavam indo para as duas ilhas!
Pousando na pequena pista do aeroporto de Little Cayman
O voo foi rápido, cerca de 150 km de distância. Sentado na frente, parecia que eu estava dentro da cabine do piloto, principalmente na hora do pouso, aquela pequena pista ali, na nossa frente, o piloto bem craque de conseguir acertar bem na linha do asfalto, hehehe. Avião pousado, apenas uns gatos pingados, nós entre eles, se levantaram para descer ali. A maioria seguiria voo para Cayman Brac. No “saguão do aeroporto”, que no caso é a cabeceira da pista, lá estava o Paul a nos esperar. Conforme avisado por email, o único loiro com dreads no cabelo. O Paul é, junto com a esposa Isabelle, o dono do Sunset Cove, nosso hotel na ilha. Professor de kitesurf, foi ele que foi nos buscar, já que não há taxis na ilha e a sua esposa está em viagem e só chega amanhã.
A pequena praia de nossa deliciosa pousada em Little Cayman, nas Ilhas Caiman
No caminho para o hotel, paramos num supermercado para nos abastecer e ele foi nos explicando algumas coisas da ilha. São apenas 150 moradores, metade expatriados. Todo mundo se conhece, claro! Em Brac, a população é dez vezes maior. Aqui em Little Cayman, estamos num paraíso duplo: se está ventando, é o paraíso dos kitesurfistas; se não está, é o paraíso dos mergulhadores. Normalmente, venta muito, mas a meteorologia nos presenteou com três dias sem vento, justo aqueles em que estaremos aqui. E para quem não quer saber de esportes ou atividade física, aí não importa se venta ou não; basta um pouco de sol (quase sempre!) e o paraíso é logo ali, na praia de areias brancas, sob a sombra dos coqueiros. Agora, para quem quer uma noite mais agitada, aí veio parar na ilha errada, sem dúvida!
O pier da Sunset Cove, nossa pousada em Little Cayman
Quinze minutos de introdução à ilha e chegamos ao hotel. Para nossa surpresa e emoção, descobrimos ser a cara da Ilha do Mel, no Paraná, de tão saudosas memórias. Nosso quarto está na beira da praia e do mar, uma enorme baía de águas calmas à nossa frente. Alguns coqueiros, redes penduradas, caiaques a nossa disposição, um píer com visão privilegiada para o pôr-do-sol. E quando a gente se chatear disso tudo, ali está nosso quarto com ar condicionado e geladeira cheia de cervejas geladas e outras guloseimas. Enfim, quando não estivermos mergulhando (um dos melhores lugares de todo o Caribe para mergulhar!), teremos muito o que fazer...
Nosso primeiro entardecer em Little Cayman, no pier da pousada Sunset Cove
E foi nesse ambiente de paz total que passamos o resto do nosso dia. Éramos os únicos felizardos no hotel até que, no meio da tarde, chegaram a Gil e o Johnny, um simpaticíssimo casal de ingleses que veio ao paraíso para fazer Kitesurf. Vieram por quase duas semanas, então não estavam incomodados em ter de esperar dois dias pelo vento. Iriam aproveitar para já ir se aclimatando àquela vida dura no hotel.
Fantástico pôr-do-sol no nosso primeiro dia na Sunset Cove, em Little Cayman
Todos juntos, levados pelo Paul, fomos jantar num resort mais movimentado, ali do lado. Conversa muito agradável, troca de experiências e de sonhos, tudo acompanhado de boa comida e bebida, gente muito feliz. Quem não estaria, estando neste lugar, aqui e agora? E no meu caso e da Ana, ainda mais, ansiosos que estamos de conhecer o melhor mergulho do Caribe...
Fantástico pôr-do-sol no nosso primeiro dia na Sunset Cove, em Little Cayman
O belo Jefferson Memorial, à beira do Potomac, em Washington DC, capital dos Estados Unidos
O mais tradicional programa turístico a se fazer em Washington é ir caminhar pelo Mall, um dos eixos principais da cidade. Aí estão os principais museus, o Capitólio, as costas da Casa Branca, o Washington Monument e o Licoln Memorial.
Estação de metrô em Washington DC, capital dos Estados Unidos
Como Brasília, Washington é uma cidade planejada. Os planos originais são do francês L’Enfant. Ele desenhou uma cidade com avenidas largas, com muitos espaços abertos para parques e vegetação. O principal eixo seria uma avenida com cerca de uma milha de comprimento e mais de 100 metros de largura. Aí estariam os principais prédios públicos da capital.
O Washington Monument numa tarde chuvosa em Washington DC, capital dos Estados Unidos
L’Enfant foi despedido muito antes que a construção da cidade terminasse. Sua insistência em supervisionar cada detalhe da construção estava atrasando o ritmo da obra e acabou irritando o presidente Washington. Mas seus sucessores, que eram os antigos assistentes, acabaram mantendo a ideia geral de seu plano original.
Monumento à 2a Guerra Mundial, em Washington DC, capital dos Estados Unidos
O tal “eixo principal” é o “National Mall”, onde fomos caminhar hoje. Seguimos do Capitólio em direção ao Lincoln Memorial, passando em frente aos principais museus da cidade e também do Washington Monument e dos monumentos à 2ª Guerra na Europa e no Pacífico.
Chuva em Washington DC, capital dos Estados Unidos
Logo no início da caminhada, uma surpresa: chegavam juntos conosco, no Capitólio, um animado grupo de ciclistas, com mais de 200 pessoas, chegados de Nova York. Foi aquela comemoração!
Visita ao Lincoln Memorial, em Washington DC, capital dos Estados Unidos
Depois disso, nossa companheira por toda a caminhada foi a chuva. A cada intervalo, andávamos outros 200 ou 300 metros. A vantagem foi que os turistas sumiram e restaram apenas alguns poucos bravos para apreciar aquelas paisagens e monumentos solenes.
Lendo o discurso de Lincoln no início de seu 2o mandato, em plena guerra civil americana (em Washington DC, capital dos Estados Unidos)
Passei um bom tempo ledo o discurso de Lincoln no início de seu 2º mandato, esculpido nas paredes de seu memorial. Ainda em plena Guerra Civil, aí se percebe um grande estadista. Pouco depois, venceria a guerra, manteria intacta a União e a nação destinada a liderar o mundo por um bom tempo e, ironia, seria assassinado.
Observando o rio Potomac, em Washington DC, capital dos Estados Unidos
O passeio terminou às margens do Potomac, admirando o mais belo monumento da cidade, na minha modesta opinião, o Jefferson Memorial. Um dia e um passeio para não esquecermos, um dos marcos nesses nossos 1000dias por toda a América.
O belo Jefferson Memorial, à beira do Potomac, em Washington DC, capital dos Estados Unidos
Admirando a bela cachoeira de Misol-Ha, próxima à Palenque, em Chiapas, no sul do México
Saímos cedo de Ocosingo para enfrentar os pouco mais de 100 km de estradas até Palenque, mais para o norte. O problema não era a distância, mas as centenas de curvas e os incontáveis “topes” (as lombadas daqui) na estrada. Além disso, duas belas cachoeiras no trajeto. Planejamos uma para a ida e outra para a volta, já que nossa intenção era dormir novamente em Ocosingo. Ou seja, considerando a ida e a volta, os cem quilômetros se tornariam duzentos, as centenas de curvas se aproximariam do milhar e os incontáveis topes se transformariam em infinitos.
Nosso roteiro no México, das Lagunas de Montebello à Palenque
Esses eram os obstáculos planejados do dia. Havia também o inesperado, para nos atrasar um pouco mais. Vinte minutos depois da nossa saída, um controle do exército. Depois de termos passados incólumes por toda a Guatemala e também na viagem de ontem, hoje foi a nossa vez. Pararam a gente e, apesar do interesse na nossa viagem, cumpriram a sua obrigação e deram uma bela geral na Fiona, abrindo até a caixa da impressora que ganhamos de brinde na compra do computador em San Salvador. Bom, quase meia hora de “experiência” para nós e pudemos seguir viagem.
A cachoeira de Misol-Ha, próxima à Palenque, em Chiapas, no sul do México
Controles do exército são muito comuns nas estradas mexicanas. Em quase todo o país, a razão está no duro combate, uma guerra na verdade, que se trava entre o estado mexicano e o narcotráfico. Mas aqui em Chiapas há um segundo motivo. Afinal, essa é a área de atuação do EZLN, o Exército Zapatista de Liberação Nacional.
Passando por trás da cachoeira de Misol-Ha, próxima à Palenque, em Chiapas, no sul do México
Quando mais eu leio e vejo coisas aqui do México, mais eu percebo o quanto era ignorante sobre o país. Cidades e atrações lindíssimas das quais eu nunca tinha ouvido falar. Meu conhecimento se limitava à capital, Cancun e Cozumel, Guadalajara por causa da Copa de 70, Tijuana e Ciudad Juarez por causa da fronteira americana, Acapulco pelos filmes do Elvis e um pouco da história dos astecas e mayas. Além disso, um pouco de Chiapas por causa do ELZN.
Passando por trás da cachoeira de Misol-Ha, próxima à Palenque, em Chiapas, no sul do México
Em 1994, bem no dia do início da vigência do NAFTA e certamente não por coincidência, uma guerrilha até então desconhecida apareceu do nada para tomar várias cidades neste estado do sul do México, inclusive San Cristobal de Las Casas. Se tivesse sido alguns anos antes, certamente essa notícia teria sido suprimida e não chegaria aos meus ouvidos. Mas vivíamos a explosão da internet e isso fez que os guerrilheiros zapatistas ganhassem as manchetes do mundo inteiro. Uma guerrilha em pleno final do séc XX no México, ao lado dos EUA!!! Parecia inacreditável! O exército rapidamente retomou as cidades, mas o estrago havia sido feito. Os guerrilheiros voltaram para as montanhas e se engajaram numa guerra de marketing com o governo, a internet como sua principal arma. Seu rosto mais conhecido era a do Subcomandante Marcos, de balaclava, fuzil e charuto na boca. Ex-professor universitário, idealista e muito fluente, tornou-se ídolo rapidamente, atraindo gente do outro lado do mundo para a sua luta. Luta contra a globalização, FMI, EUA (aquelas coisas de sempre...) e à favor dos direitos indígenas.
A gruta ao lado da cachoeira de Misol-Ha, próxima à Palenque, em Chiapas, no sul do México
Houve muita negociação, o governo foi obrigado a ceder em vários pontos, os indígenas estão bem melhores hoje do que estavam naquela época, mas o EZLN perdeu um pouco do seu charme. Mas continua ativo, mais no marketing do que com as armas. De qualquer maneira, o exército está ali, sempre de olho.
A gruta ao lado da cachoeira de Misol-Ha, próxima à Palenque, em Chiapas, no sul do México
A imagem que fiquei de Chiapas do que via na TV naquela época se confirmou hoje. Uma terra montanhosa, sempre com matas impenetráveis e uma constante neblina entre as árvores e montanhas. Foi o que vimos hoje, na bela paisagem entre Ocosingo e Palenque. Subindo e descendo vales, as montanhas verdejantes e enevoadas estavam sempre lá, lugar ideal para esconder um misterioso exército zapatista. Imagens de filme que passavam ali, na nossa frente, ao vivo. Muito legal!
Mergulho na bela cachoeira de Misol-Ha, próxima à Palenque, em Chiapas, no sul do México
Passamos reto pela primeira cachoeira, Águas Azuis e paramos na segunda, com o curioso nome de Misol-Ha. Uma cachoeira bem cênica, formando um lago gostoso para um mergulho e uma trilha que passa atrás da queda d’água, possibilitando belas imagens. A trilha leva até uma gruta cavada por um rio subterrâneo que forma sua própria cachoeira. Tudo ali, bem pertinho. Cenário idílico, certamente frequentado já pelos mayas que construíram Palenque, quinze quilômetros adiante. Passamos uma boa hora por aí, eu meio aflito para seguirmos até as ruínas e podermos voltar com a luz do dia mas, ao mesmo tempo, sem ter forças para pressionar a Ana, que queria curtir aquele visual incrível. Afinal, como não aproveitar? Ela até nadou, enquanto eu me guardei para nadar na cachoeira da volta... Que ilusão! Eu tinha me “esquecido” que ainda tínhamos toda uma Palenque para explorar...
O Templo de La Calavera, nas ruínas mayas de Palenque, em Chiapas, no sul do México
As nuvens cobrem o Cerro Torre, no Parque Nacional Los Glaciares, em El Chaltén, na patagônia argentina
Não há dúvida de que a montanha mais famosa do Parque Nacional Los Glaciares é o Fitz Roy, não só pela beleza e imponência de seus 3.405 metros de altitude, mas também pela dificuldade técnica de se chegar lá encima. Coisa de profissionais! Mas há uma segunda montanha ali do lado que também tem sua dose de fama, não tão alta e bela como sua vizinha (tem 3.102 metros de altura), mas que consegue ser um desafio ainda maior aos alpinistas. Desde que foi conquistada pela primeira vez no início da década de 70, é possível contar nos dedos o números de homens que já chegaram ao seu cume. Estou falando do Cerro Torre, uma espécie de agulha de granito que se estica em direção ao céu e que nos apavora só de remotamente pensar na possibilidade de desafiar suas paredes e penhascos.
As principais trilhas feitas a partir de El Chaltén, ao lado do Parque Nacional Los Glaciares, na Argentina
Característica das principais caminhadas feitas a partir de El Chaltén, ao lado do Parque Nacional Los Glaciares, na Argentina
Foi em direção a esta incrível montanha que seguimos hoje. É claro que subi-la jamais passou por nossas cabeças. Só queríamos chegar mais perto, ter a exata noção de seu tamanho e tentar imaginar a loucura que se passa na cabeça dos montanhistas que resolvem desafiá-la. Na verdade, nosso objetivo era chegar até uma lagoa que se forma em sua base, a Laguna Torre, alimentada por um glaciar que nasce nas encostas da montanha, conhecido como Glaciar Grande. São 11 quilômetros de caminhada até lá, quase sempre ao lado do rio Fitz Roy, o mesmo que passa em El Chaltén. Ao longo do caminho, subimos e descemos várias vezes para vencer as imperfeições do terreno, mas ao final ganhamos muito pouco em altitude.
Início da caminhada para a Laguna Torre, no Parque Nacional Los Glaciares, perto de El Chaltén, na Argentina
No caminho para a Laguna Torre, as montanhas estão encobertas pelas nuvens no Parque Nacional Los Glaciares, perto de El Chaltén, na Argentina
Infelizmente, hoje o tempo não estava aberto como ontem a as montanhas mais altas estavam encobertas, como o Fitz Roy e o Cerro Torre. Mas não importa, as imagens que tivemos ontem ainda estavam frescas em nossas mentes e era quase como se pudéssemos ver através das nuvens. Enquanto caminhávamos em direção às montanhas, pensava e repensava todas as histórias que havia lido sobre essa mítica montanha. Ela é notória pelas controvérsias que causa entre alpinistas, inclusive uma que pudemos presenciar ontem, quando fomos a uma farmácia da cidade.
Descansando na trilha da Laguna Torre, no Parque Nacional Los Glaciares, perto de El Chaltén, na Argentina
Descansando na trilha da Laguna Torre, no Parque Nacional Los Glaciares, perto de El Chaltén, na Argentina
Já chego nessa última controvérsia, mas comecemos pelo começo. O problema em subir o Cerro Torre é que não há rota mais fácil. Quando muito, há rotas “menos impossíveis”. Por qualquer lado que se ataque a montanha, o alpinista vai se deparar com um paredão de granito de pelo menos 800 metros de altura. Soma-se a isso as condições de clima extremo que prevalecem boa parte do ano e podemos entender por que essa montanha foi considerada, durante muito tempo, a mais difícil de ser escalada do mundo. Tanto que foi apenas em 1959 que alguém alegou ter chegado lá encima pela primeira vez. Foi o italiano Cesare Maestri, mas o problema é que seu companheiro de escalada foi derrubado por uma avalanche e morreu. E era justamente esse companheiro que estava com a máquina fotográfica cujas fotos provariam o feito da dupla. Poucas pessoas acreditaram na história e as dúvidas se confirmaram quando, muitos anos mais tarde, alguém finalmente conseguiu subir por essa mesma rota e verificou que ela não combinava em nada com as descrições feitas por Maestri.
O vale do rio Fitz Roy, no caminho para a Laguna Torre, no Parque Nacional Los Glaciares, perto de El Chaltén, na Argentina
O vale do rio Fitz Roy, no caminho para a Laguna Torre, no Parque Nacional Los Glaciares, perto de El Chaltén, na Argentina
O rio Fitz Roy, no caminho para a Laguna Torre, no Parque Nacional Los Glaciares, perto de El Chaltén, na Argentina
Onze anos se passaram sem que mais ninguém conseguisse chegar ao cume até que, em 1970, o próprio Maestri retornou, agora com uma equipe de 5 outros alpinistas italianos. O grupo seguiu por uma rota diferente daquela de 59 e trouxeram consigo uma potente sonda para fazer furos no granito. Foram colocados grampos em mais de 350 metros de rocha e desse modo a montanha foi finalmente vencida. Ou quase. As condições de frio e vento na patagônia favorecem o aparecimento e crescimento de formações de gelo em forma de cogumelo no topo de montanhas estreitas como o Cerro Torre. Maestri chegou ao topo da rocha, mas havia um cogumelo de gelo com mais de dez metros de altura acima dele. O italiano resolveu retornar desse ponto, alegando que o cume era no final da pedra e não do gelo. A equipe deixou o famigerado compressor amarrado em um dos grampos quase no topo da montanha e foi muito criticado por ter usado métodos desleais para chegar ao cume do Cerro Torre. E pior, nem chegaram ao verdadeiro cume. Desde então, essa rota de subida é conhecida como a “rota do compressor”.
Chegando à Laguna Torre, no Parque Nacional Los Glaciares, perto de El Chaltén, na Argentina
Brincando com pedaços de gelo na Laguna Torre, no Parque Nacional Los Glaciares, perto de El Chaltén, na Argentina
A primeira ascensão até o alto do cogumelo ocorreu em 1974, por outro grupo de italianos (eles parecem gostar da patagônia!). A primeira ascensão no estilo alpino (quando os montanhistas levam todo o seu equipamento de uma só vez e não usam cordas fixas) foi conseguida em 77, agora por um grupo americano. E a primeira vez que alguém subiu pela rota do compressor, incluindo o tal cogumelo de gelo, foi em 79. A rota original de Maestri, aquela em que seu companheiro morreu, só foi conquistada em 2005.
A gelada Laguna Torre, no Parque Nacional Los Glaciares, perto de El Chaltén, na Argentina
O Glaciar Grande e a Laguna Torre, no Parque Nacional Los Glaciares, perto de El Chaltén, na Argentina
Enfim, chegamos à controvérsia a que me referi no início, que eu e a Ana fomos testemunhas. Há um movimento cada vez mais forte no meio do alpinismo que se chama de “purista”. A filosofia é que o alpinismo deve ser feito de maneira “leal”, ou seja, com o mínimo de equipamento possível. Devem ser usados aqueles que dão segurança, mas não os que facilitam a subida de uma montanha. Se um alpinista não consegue subir uma montanha dessa maneira, ele simplesmente deve desistir e não subir. Assim, nada de cordas fixas. Escadas, então, nem pensar! Mesmo os grampos para fixação de equipamentos de segurança devem ser retirados da montanha quando o alpinista descer. A montanha deve ser deixada limpa, sem marcas. É claro que, como em todos os movimentos, há aqueles mais radicais e aqueles mais moderados.
Bloco de gelo azul flutua na Laguna Torre, no Parque Nacional Los Glaciares, perto de El Chaltén, na Argentina
Um bloco de gelo azul na Laguna Torre, no Parque Nacional Los Glaciares, perto de El Chaltén, na Argentina
Pois bem, em um lugar como El Chaltén, que atrai grandes alpinistas do mundo inteiro, essas controvérsias ficam ainda mais evidentes. Por exemplo, muitos alpinistas defendiam que todos os grampos já instalados no Cerro Torre deveriam ser retirados. Havia consenso em não colocar novos grampos, mas não houve acordo sobre o que fazer com os antigos. Em uma votação, foi decidido que os grampos colocados por Maestri na rota do compressor deveriam ficar ali. Mas um exímio alpinista americano não concordou com essa votação e, por conta própria, em 2012, subiu o Cerro torre por aquela rota e retirou quase todos os grampos que já estavam na parede há mais de 40 anos. A revolta do resto da comunidade foi grande. Quando eu e a Ana estivemos na farmácia ontem de noite, estava sendo colocado um cartaz ali mostrando a foto do alpinista americano com os dizeres “Persona Non Grata em El Chaltén”.
A linha de frente do Glaciar Grande, na Laguna Torre, Parque Nacional Los Glaciares, perto de El Chaltén, na Argentina
O Glaciar Grande carrega toneladas de detritos das montanhas para a Laguna Torre, no Parque Nacional Los Glaciares, perto de El Chaltén, na Argentina
Bem, como se vê, é uma controvérsia bem fresquinha! Mas, enfim, eles que são alpinistas que se entendam. O Cerro Torre, com ou sem grampos, é apenas para meus olhos e jamais para minhas mãos!. Tudo o que queríamos hoje era chegar até a lagoa em sua base a desfrutar da vista. E mesmo com o tempo fechado nas partes mais altas, só posso dizer que a paisagem é absolutamente fantástica. Longe de qualquer controvérsia, valeu muito a pena os onze quilômetros caminhados ao longo do rio e através de florestas de lengas separadas por trechos de vegetação rasteira.
A superfície irregular formada por seracs do Glaciar Grande, no Parque Nacional Los Glaciares, perto de El Chaltén, na Argentina
Uma selfie com a Laguna Torre e o Glaciar Grande ao fundo, aos pés do Cerro Torre, no Parque Nacional Los Glaciares, perto de El Chaltén, no sul da Argentina
Não podíamos ver o Cerro Torre, mas tínhamos inteira visão do glaciar Grande, esse enorme rio de gelo que desce vagarosamente desde as partes mais altas da montanha. Os blocos de gelo na linha de frente da geleira acabam por se desprender e ficam flutuando na Laguna Torre como se fossem icebergs de água doce. Alguns deles são bem azuis, prova de que já tem uma certa idade que se conta por séculos e não por anos. Alguns desses pedaços de gelo são pequenos o suficiente para que eu possa carregá-los e posar para uma foto. Outros, são maiores e mais pesados do que caminhões de verdade. Mas é só dar tempo ao tempo que eles também vão ficar pequenos e, quem sabe, serem pegos no colo de algum turista por ali.
Um bloco de gelo pouco antes de se partir, na Laguna Torre, no Parque Nacional Los Glaciares, perto de El Chaltén, na Argentina
Um bloco de gelo se parte na Laguna Torre, no Parque Nacional Los Glaciares, perto de El Chaltén, na Argentina
Esses blocos de gelo, enquanto derretem, vão tomando formas estranhas, como nuvens no ar. Alguns chegam a formar túneis e arcos, estruturas que obviamente não são muito estáveis. Muitas vezes, na frente de nossos ávidos e curiosos olhos, esses grandes blocos de gelo viram na água, buscando uma posição mais estável, se partem ou simplesmente desmoronam. Eu mostrei um para a Ana que aprecia que não iria durar muito, uma estreita ponte de gelo unindo dois blocos já quase separados. Só não achei que seria tão rápido... Foi só o tempo da Ana tirar uma foto e a estrutura toda ruiu, para nosso deleite. A foto seguinte mostra bem o estrago!
Admirando a imponência do Glaciar Grande, no Parque Nacional Los Glaciares, perto de El Chaltén, na Argentina
Admirando a imponência do Glaciar Grande, no Parque Nacional Los Glaciares, perto de El Chaltén, na Argentina
Depois de um tempo ali na praia da Laguna Torre, resolvemos subir em direção ao Mirador Maestri, homenagem ao controverso pioneiro italiano. A trilha vai subindo pela crista da morena, que é basicamente uma enorme pilha de rochas deixada para trás por um glaciar que retrocede. Uma geleira está continuamente escavando as montanhas que a cercam pela fricção do gelo com a rocha. Esse entulho é trazido lentamente nas costas da geleira até o ponto onde pedaços de gelo se desprendem e caem na água. Aí as rochas ficam e, com o tempo, se acumulam. Se a geleira avança com o tempo, esse monte de rochas também é empurrado para frente. Se ela retrocede, o monte de pedras fica por ali, testemunho de um antigo limite do rio de gelo. Assim se formam as morenas frontais. As morenas laterais se formam com as rochas que caem lateralmente das geleias. Isso ocorre quando o rio de gelo atravessa um trecho mais estreito entre grandes paredes e desemboca em um terreno mais amplo, como um vale alargado ou mesmo uma planície. A altura dessas morenas laterais indicam o quão alto o rio de gelo já foi naquele ponto.
Observando o Glaciar Grande, no Parque Nacional Los Glaciares, perto de El Chaltén, na Argentina
Glaciar Grande e Laguna Torre, no Parque Nacional Los Glaciares, perto de El Chaltén, na Argentina
Pois bem, a morena lateral que subíamos mostra que o tal glaciar Grande já foi grande mesmo! Da mesma maneira que, no nosso caminho de vinda, cruzamos (subimos e descemos!) várias antigas morenas frontais, pontos onde o glaciar Grande já se deteve por tempo necessário para “construir” uma morena. Hoje, o crescimento da vegetação tenta esconder essas pistas de que, ao longo do tempo, as geleiras mudam muito de tamanho e de extensão.
O Glaciar Grande, aos pés do Cerro Torre, no Parque Nacional Los Glaciares, perto de El Chaltén, na Argentina
Visita ao Glaciar Grande, no Parque Nacional Los Glaciares, perto de El Chaltén, na Argentina
Enfim, fomos subindo e subindo essa morena lateral, a laguna Torre ficando cada vez mais para baixo. A informação da trilha diz que seriam apenas 50 metros de desnível, mas isso está completamente equivocado. Calculo pelo menos o triplo disso, um ganho de altitude de uns 150 metros em pouco mais de uma hora de caminhada para se chegar ao tal mirante. Qualquer que seja esse desnível, com certeza vale a pena, pois o visual lá de cima é de tirar o fôlego. Agora sim percebemos com perfeição todo o contorno do glaciar Grande e a nossa pequenez perto dessa paisagem absolutamente grandiosa.
Um condor observa a Laguna Torre, no Parque Nacional Los Glaciares, perto de El Chaltén, na Argentina
Um majestoso condor descansa ao lado da Laguna Torre, no Parque Nacional Los Glaciares, perto de El Chaltén, na Argentina
Outra coisa bem legal foi, ainda durante a subida, passar ao lado de uma pedra onde descansava um majestoso condor. Ele não pareceu se importar muito com a nossa presença e pudemos tirar quantas fotos quisemos. Só faltou ele alçar voo para tirarmos a foto final, mas ele estava muito feliz e confortável ali mesmo. Realmente, é uma ave que combina com esse ambiente. Nós tínhamos visto um par deles voando na região da Cueva de Las Manos, no deserto patagônico, mas eles pareciam meio fora do lugar, ali. Aqui não, entre montanhas e geleiras, somos nós que estamos fora do lugar, hehehe.
Um majestoso condor descansa ao lado da Laguna Torre, no Parque Nacional Los Glaciares, perto de El Chaltén, na Argentina
Um majestoso condor descansa ao lado da Laguna Torre, no Parque Nacional Los Glaciares, perto de El Chaltén, na Argentina
Na volta, até entramos rapidamente na mata viçosa que cresce ao lado da morena lateral, atraídos por um forte barulho de água. Era uma linda cachoeira, água vinda diretamente do gelo e neve no alto da montanha. Imagina só a temperatura do riacho. Só nos atrevemos a lavar as mãos e rosto e tirar umas fotos, claro. No meio daquele verde todo, era difícil acreditar que ali do lado houvesse uma geleira tão grande. Mas foi só subirmos a pequena encosta de pedras para voltarmos à paisagem mais ampla, a lagoa, a geleira e as montanhas.
Uma bela cachoeira na morena ao lado do Glaciar Grande, no Parque Nacional Los Glaciares, perto de El Chaltén, na Argentina
Vegetação cobre a morena ao lado do Glaciar Grande, no Parque Nacional Los Glaciares, perto de El Chaltén, na Argentina
Hora de voltar de mais uma esplêndida caminhada no Parque Los Glaciares. Começamos a descer a morena e eu fui me empolgando, passando do passo lento ao rápido e daí, ao trote. Até que, no meio do caminho, tinha uma pedra. Claro, o que mais há por ali são pedras! O tropeção me fez voar e pensar: “Nossa, tô frito!”. Em um terreno tão irregular assim, nem adianta muito as mãos para tentar se defender na queda. Ainda no ar, quase por inércia, virei de costas. Ali, ao menos, havia uma mochila para me proteger. Segundos que duraram uma eternidade, a Ana congelada mais acima, esperando o resultado do tombo, e eu congelado no ar, esperando o resultado da queda. A mochila foi mesmo a primeira a tingir o solo, quase servindo como uma almofada. Mas em seguida, a cabeça bateu em uma pedra e “estilingou”. Senti o choque, mas não senti a dor. Apenas uma sensação de vazio, um silêncio, e a certeza de que não deveria desmaiar. No momento seguinte, a Ana já está ajoelhada ao meu lado, mexendo no cabelo e perguntando coisas. Havia um pouco de sangue, mas o corte não era profundo. Um pouco tonto, levantei. Melhor caminhar do que esperar o corpo esfriar. A mochila passou para a Ana e eu segui sem peso, menos velocidade e mais atenção ao solo. Felizmente, foi só o susto. Mais uma peça do Maestri!
Laguna Torre e Glaciar Grande, aos pés do Cerro Torre, no Parque Nacional Los Glaciares, perto de El Chaltén, na Argentina
Observando as montanhas, glaciares e lagoas do Parque Nacional Los Glaciares, perto de El Chaltén, na Argentina
Sem mais percalços e com toda a calma do mundo, regressamos a cidade. Foi só chegando lá perto, com a fome aumentando, é que aceleramos novamente. Empanadas quentinhas e cervejas geladas foram um santo remédio e já estamos prontos para a caminhada de amanhã. Dessa vez, levamos a barraca nas costas, pois a ideia é dormir dentro do parque. Parece até que o tempo vai melhorar...
Voltano da Laguna Torre, uma neblina ocupa o Parque Nacional Los Glaciares, perto de El Chaltén, na Argentina
A cidade atual e as antigas ruínas de Ollantaytambo, no Valle Sagrado, perto de Cusco, no Peru
Como disse no outro post, chegamos à Ollantaytambo de noite, sem conseguir ver as belezas que cercam a cidade. Isso foi devidamente recompensado na manhã de hoje, quando acordamos e vimos, pela primeira vez, as magníficas ruínas incas que ficam praticamente no quintal da pequena cidade. Na verdade, eu e a Ana já havíamos estado aqui, ela há seis anos e eu há vinte e três. Tempo mais do que suficiente para esquecer o impacto que se tem quando se visualiza as ruínas pela primeira vez: uma série de terraços agrícolas subindo a montanha em frente à cidade intercalados com ruínas de templos e palácios. Ollantaytambo foi uma importante fortaleza do império. Na verdade, mais do que isso, foi o local da maior vitória militar inca sobre os espanhóis, uma das poucas que houve nessa guerra tão assimétrica.
Café da manhã com vista para as incríveis ruínas de Ollantaytambo, no Valle Sagrado, perto de Cusco, no Peru
Um saudavel café da manhã em Ollantaytambo, no Valle Sagrado, perto de Cusco, no Peru
Nós tomamos um delicioso e saudável café da manhã com vista para essas ruínas tão simbólicas e logo partimos para nossas explorações. Tínhamos apenas até o meio da tarde, quando sairia o nosso trem rumo à Águas Calientes e Machu Picchu. Assim, tratamos de não perder tempo e ir logo subindo as escadarias ao lado dos terraços agrícolas, rumo aos templos no alto das ruínas. Dali, temos uma belíssima vista para a cidade e para o vale onde ela se localiza, assim como para as montanhas do outro lado. Numa delas, as mesmas ruínas incas que tanto atraíram minha atenção na visita de 23 anos atrás. O guia da época nos apontou um penhasco de onde eram atirados os condenados à morte. Daquela vez, não tivemos tempo de ir até lá, mas hoje foi diferente. Após visitarmos as ruínas principais, deixei a Ana e o Gustavo tomando uma cerveja gelada no centro e corri para lá, para saciar a vontade contida de duas décadas. De lá, mais uma vista magnífica da cidade, dessa vez com as ruínas principais ao fundo. Uma pintura! A mesma “pintura” que era admirada pelos incas, quinhentos anos atrás, até mesmo por aqueles que teriam de pular do penhasco, nos seus últimos minutos de vida.
Mapa das ruínas de Ollantaytambo, no Valle Sagrado, perto de Cusco, no Peru
Chegando ao parque arqueológico de Ollantaytambo, no Valle Sagrado, perto de Cusco, no Peru
Lá de cima, sentado e reverenciando o que via, deixei a mente divagar para o passado. Ela passou rapidamente pelo mês de julho de 1990, quando um jovem Rodrigo esteve por aqui, e voou muito mais longe, para os atribulados anos de meados do século XVI, quando uma gloriosa civilização foi posta de joelhos por acontecimentos completamente imprevisíveis para eles apenas poucos anos antes, um dos mais claros exemplos de que a História não é justa ou injusta, é simplesmente História e pertence aos mais fortes e oportunistas.
Testando a solidez das ruínas de Ollantaytambo, no Valle Sagrado, perto de Cusco, no Peru
A Espanha vivia um verdadeiro frenesi no início do século XVI. Novas terras haviam sido descobertas, um continente inteiro de oportunidades e conquistas. A possibilidade de glórias e riquezas atraiam milhares de aventureiros que largavam tudo o que tinham em busca de um futuro dourado. O país, uma das primeiras nações modernas a se formar, tinha guerreiros calejados por séculos de batalhas entre mulçumanos e cristãos pela posse da Península Ibérica. Táticas militares e armamentos haviam se desenvolvido ao máximo, fazendo da Espanha a maior força militar daqueles tempos, pronta para ocupar esse novo continente recém descoberto.
Passagem nas ruínas de Ollantaytambo, no Valle Sagrado, perto de Cusco, no Peru
Entre os aventureiros que rumaram para a América, um criador de porcos, analfabeto mas perspicaz, chamado Francisco Pizarro. Já ciente das conquistas e glórias de seu primo distante, Hernán Cortes, que havia conquistado o Império Asteca, Pizarro estava decidido que no Novo Mundo teria uma nova vida. Começou participando ativamente da exploração do Panamá, mas logo voltou seus olhos para o sul, uma vasta região ainda desconhecida. Rumores apontavam para um reino rico e poderoso naquela região.
Explorando as ruínas de Ollantaytambo, no Valle Sagrado, perto de Cusco, no Peru
Pizarro não descansou enquanto não organizasse uma expedição para lá. Nativos hostis fizeram com que ela acabasse em fracasso, mas Pizarro tentou uma segunda vez e, depois, uma terceira. Finalmente, nessa última, chegou mais ao sul e teve seus primeiros contatos com a poderosa civilização inca, extremamente bem organizada e, tudo indicava, muito rica. Era o que Pizarro estava procurando! Agora, ele já tinha um alvo! Mas a quarta expedição atrasou, porque o governador-geral do Panamá não mais quis financiar ou permitir suas aventuras de conquista. Pizarro teve de voltar à Espanha e pedir ao próprio rei autorização para continuar. Foram quase quatro anos de espera, mas finalmente ele voltaria à América do Sul, disposto a repetir o feito de Hernán Cortes, embora contasse com uma força bem menor.
Com o Gustavo, nas ruínas incas de Ollantaytambo, no Valle Sagrado, perto de Cusco, no Peru
Mas, mal sabia Pizarro, nesse intervalo, um outro “general” espanhol havia chegado ao império Inca e causado grandes estragos. Era a varíola, que da costa da Colômbia, trazida pelos primeiros exploradores, avançara para o interior, fazendo dezenas de milhares de vítimas. Entre elas, o próprio imperador Inca, Huayna Capac, que estava em missão de conquista no norte do continente. Pior, com o pai morria também o primogênito e provável herdeiro, aquele que havia sido preparado para isso por toda a sua vida. No leito de morte, Huayna dividiu seu império entre dois outros filhos, Huascar e Atahualpa.
A bela vista do alto das ruínas de Ollantaytambo, no Valle Sagrado, perto de Cusco, no Peru
O Gustavo admira o vale em frente às ruínas de Ollantaytambo, no Valle Sagrado, perto de Cusco, no Peru
Os irmãos não se entenderam e agora, além da devastadora varíola, também uma guerra civil fratricida assolava o império. Mais de dois anos de batalhas até que, finalmente, os generais de Atahualpa conquistaram a capital Cusco e capturaram o irmão. O vencedor da guerra se dirigia para a capital imperial recém conquistada quando, um pouco antes de lá chegar, surgem no Império esses estranhos forasteiros, vindos do outro lado do mundo e se locomovendo nesses bizarros animais, os cavalos, desconhecidos na América.
Admirando a pequena cidade, do alto das ruínas de Ollantaytambo, no Valle Sagrado, perto de Cusco, no Peru
Pausa para admirar a paisagem do alto das ruínas de Ollantaytambo, no Valle Sagrado, perto de Cusco, no Peru
A pequena expedição espanhola, menos de 200 homens, era liderada por Francisco Pizarro e Diego Almagro. Pizarro estava impressionado com a devastação do país causada pela varíola. Vilas inteiras vazias e abandonadas. Mal parecia aquele rico império que havia visto poucos anos antes. Agora, com ajuda de intérpretes nativos, ele se dirigia ao altiplano peruano, disposto a encontrar os líderes incas. No caminho, foi formando um exército maior, juntando nativos que viam naqueles estranhos forasteiros uma chance de se livrar do jugo inca. Não imaginavam que estavam se livrando de um bandido para cair nas mãos do diabo. Pizarro usava a mesma tática usada por Cortes contra os astecas, no México: conseguir ajuda de tribos locais, inimigas centenárias de astecas ou incas. Hoje, vendo do futuro, é fácil ver o grave erro cometido por essas tribos. Na verdade, ficamos até indignados com elas. Mas, o que ocorreria hoje se um exército de marcianos pousasse na Terra e desafiasse o poder dos “incas” de agora, os americanos? Não tenho nenhuma dúvida que conseguiriam muitos aliados entre mulçumanos radicais do Oriente Médio ou esquerdistas latino-americanos, gente que não perderia a chance de puxar o tapete do Tio Sam. Bem, foi o que aconteceu naquela época...
Paisagem andina nas ruínas de Ollantaytambo, no Valle Sagrado, perto de Cusco, no Peru
Com o Gustavo, visitando as ruínas de Ollantaytambo, no Valle Sagrado, perto de Cusco, no Peru
Pizarro não apenas seguiu a tática de Cortes de conseguir aliados locais, mas também a de sequestrar o monarca local. Atahualpa foi inocente o suficiente para deixar a segurança de seu exército de 80 mil homens armados para se encontrar com os espanhóis acompanhado apenas de 2 mil homens desarmados. Os espanhóis não perderam a chance: com a ajuda de seus cavalos, armaduras e armas superiores, promoveram um verdadeiro banho de sangue e capturaram o líder inca. O pagamento do resgate: um sala inteira cheia de objetos de ouro e outras duas cheias de objetos de prata.
Terraços agrícolas de Ollantaytambo, no Valle Sagrado, perto de Cusco, no Peru
Enquanto essa fortuna vinha de todos os lados do império, Pizarro aproveitou para conhecer mais daquelas terras, suas riquezas e fraquezas. Por fim, com o resgate pago, Atahualpa foi executado e os espanhóis seguiram para Cusco. Com seu monarca morto, os incas passaram a lutar e resistir, mas estavam desorganizados, sem um líder. A cavalaria espanhola fazia estragos e os guerreiros incas perdiam valioso tempo e vidas para tentar matar um cavalo enquanto os conquistadores matavam dezenas de nativos. Os mais importantes generais incas e seus exércitos foram sendo mortos e o império ruiu.
Antigos armazéns incas na montanha em frente à Ollantaytambo, no Valle Sagrado, perto de Cusco, no Peru
Pizarro nomeou um novo inca, irmão mais novo de Huascar, que seria uma marionete para ele. Mas Manco Inca mostrou ter o seu valor também. Após ser continuamente humilhado pelos irmãos de Pizarro, conseguiu fugir da capital e iniciar uma rebelião. De sua base em Sacsayhuaman, quase reconquistou Cusco, matando um dos irmãos de Pizarro, justamente o mais cruel deles, em uma das batalhas. Mas, ao final, os espanhóis conseguiram manter o controle da cidade e os incas se refugiaram em Ollantaytambo.
A fonte sagrada de água, nas ruínas de Ollantaytambo, no Valle Sagrado, perto de Cusco, no Peru
Daí a rebelião continuava. Manco Inca decidiu enviar um de seus melhores generais para conquistar Lima, a cidade fundada por Pizarro para ser a capital do país. Quizo Yupanqui lutou e venceu quatro exércitos espanhóis no seu caminho para a cidade. Mesmo com seu exército enfraquecido pela varíola, o grande general ainda tentou invadir a cidade, cheia de reforços de espanhóis chegados da América Central. Morreu à frente de seu exército, na praça central de Lima, vencido pela cavalaria ibérica. Enquanto isso, os espanhóis eram fragorosamente derrotados na batalha por Ollantaytambo, naquela que foi a maior vitória inca da guerra.
Trajes típicos em Ollantaytambo, no Valle Sagrado, perto de Cusco, no Peru
Mas Manco percebeu que não poderia resistir ali por muito tempo e abandonou a fortaleza. Desceu os Andes em direção à região amazônica e estabeleceu sua capital em Vilcabamba. Daí, passou a fazer uma guerra bem sucedida de guerrilha, não dando trégua à seus inimigos. Ainda mais que esses estavam divididos. Almagro e os irmãos Pizarro haviam se desentendido e lutavam entre si, com vitória final para Pizarro e a execução de Almagro. Mas o filho do conquistador conseguiu a sua vingança quando, junto a um grupo de rebeldes, dentro do palácio em Lima, assassinou Pizarro. Com quase 70 anos de idade, o grande conquistador do Império Inca morreu assim como havia vivido: de forma violenta e valente, com a espada em punho. O filho de Almagro foi capturado e morto, mas os outros assassinos se refugiaram em Vilcabamba, acolhidos por Manco Inca.
Venda de tapeçaria em Ollantaytambo, no Valle Sagrado, perto de Cusco, no Peru
Alguns anos de vida na Amazônia os fizeram repensar sua estratégia. Para fazer as pazes com o governo espanhol, atraiçoaram Manco e o mataram a facadas, justamente quando o exército do inca estava em uma de suas expedições de guerra. Mas não conseguiram ir longe, capturados e devidamente executados pelos incas que os haviam acolhido.
Trilha para os antigos armazéns incas na montanha em frente à Ollantaytambo, no Valle Sagrado, perto de Cusco, no Peru
Pelas próximas três décadas, os incas de Vilcabamba mantiveram acesa a esperança de um ressurgimento do império. Algumas vezes em guerra, outras em paz com os espanhóis, eram reconhecidos como uma nação livre. Por fim, os vice-reis de Espanha resolveram colocar um fim nisso. Uma expedição foi enviada à Amazônia para conquistar Villacamba e capturar Tupac Amaru, o último dos incas. Resistiram ao máximo, mas outra vez os índios locais resolveram ajudar os espanhóis. Situação perdida, preferiram destruir sua cidade à entregá-la aos inimigos. Mas os espanhóis não queriam apenas a cidade, mas o imperador. Foi uma fuga desesperada pelos rios e florestas amazônicos, mas retardado pela esposa grávida que tanto amava, Tupac Amaru acabou capturado.
Chegando às ruínas dos armazéns, a vista para a cidade de Ollantaytambo, no Valle Sagrado, perto de Cusco, no Peru
E então, 70 anos depois de liderar um Império que cobria todas as terras conhecidas, um imperador inca desfilava pelas ruas de Cusco como um troféu de guerra, com uma coleira no pescoço, puxado por correntes e forçado a se ajoelhar frente ao vice-rei espanhol, aos safanões. Um julgamento sumário se seguiu e Tupac Amaru foi condenado à morte, por garrote, na Plaza de Armas da cidade, onde seus tios e avós reinavam soberanos poucas décadas atrás. Era o fim definitivo e inglório do Império Inca.
Visita às ruínas de antigos armazéns incas na montanha em frente à Ollantaytambo, no Valle Sagrado, perto de Cusco, no Peru
Por isso, preferi prestar minhas homenagens a essa incrível civilização não em Cusco, sua antiga capital, mas aqui em Ollantaytambo, local da grande vitória de Manco Inca contra os conquistadores. Do meu mirante estratégico, olhando aquela belíssima paisagem à minha frente, as ruínas dos templos e da fortaleza na montanha adiante. Como gostaria de poder voltar 500 anos no tempo e, de alguma maneira, tentar impedir a catástrofe que se aproximava. Mas, como disse, História não rima com Justiça e o máximo que podemos fazer é tentar não repetir os erros do passado no futuro, que algum dia chega. Se os marcianos chegarem, lutarei do lado dos americanos, hehehe.
Venda de artesanato em Ollantaytambo, no Valle Sagrado, perto de Cusco, no Peru
Caminhando na Gruta das Rãs, em Aurora do Tocantins - TO
Bem cedinho hoje fomos encontrar o Anselmo, grande conhecedor das grutas de Aurora do Tocantins. Ele foi uma ótima indicação do Osmane, lá de Azuis e, ainda na noite de ontem, já tinha me encontrado com o Anselmo, para combinar o passeio de hoje.
Com o Anselmo na Gruta do Sabiá, em Aurora do Tocantins - TO
Além de espeleólogo e artista plástico, o sergipano Anselmo é secretário do meio ambiente da cidade e também está envolvido em diversos conselhos e associações do município. Mesmo assim, ele ainda conseguiu arrumar um tempo para nos levar em duas das mais belas grutas da região, que já tem catalogada mais de 220 grutas! Como o próprio Anselmo nos disse, Aurora do Tocantins é um verdadeiro queijo suiço. Localizada na bela Serra Geral, a cidade também tem rios e cachoeiras como atrações. Um pólo turístico que o Brasil ainda não conhece...
Passando por quebra-corpo na Gruta do Sabiá, em Aurora do Tocantins - TO
Fomos primeiro na Gruta do Sabiá, bem ao lado da cidade, dentro de uma propriedade do próprio Anselmo. Ali ele está montando um centro de estudos de espeleologia, além de um alojamento para estudantes, pesquisadores e amantes das cavernas em geral.
Explorando a Gruta do Sabiá, em Aurora do Tocantins - TO
A gruta tem mais de uma dezena de salões, alguns deles só atingidos depois de se enfrentar longas passagens estreitas, onde é preciso rastejar e se espremer. Caverna de calcário, há uma enorme quantidade de espeleotemas espalhados pelos seus tetos, paredes e solo. A caverna acompanha as estações do ano e tem seus períodos secos e molhados. Com o fim das chuvas por aqui, ela agora está no seu período seco. Faz muito calor lá dentro, principalmente quando nos afastamos da entrada.
Rã na Gruta do Sabiá, em Aurora do Tocantins - TO
Outra coisa que nos chamou a atenção foi a fauna da caverna. Os morcegos são frequentadores, mas não estavam lá hoje. Quem estava eram as rãs que, pelo visto, não tem medo do escuro.
Teto repleto de estalactites, na Gruta das Rãs, em Aurora do Tocantins - TO
Por falar em pequenos anfíbios, foram eles que deram o nome para a segunda gruta do dia, a Gruta das Rãs. Esta é um pouco mais afastada da cidade e é necessário caminhar uns dois quilômetros pelos pastos de uma fazenda para se chegar em sua boca. Aliás, quando se chega em sua boca, a primeira impressão é que deve ser só um buraquinho...
Gruta das Rãs, em Aurora do Tocantins - TO
Que nada! Por dentro, ela é majestosa. Muito menos visitada que a Gruta do Sabiá, a impressão é de se estar entrando em território virgem. Aqui, a quantidade de espelotemas é ainda maior, o calcário parece ainda mais branco e o número de estalagtites no teto é impressionante.
Morcego hematófago na Gruta das Rãs, em Aurora do Tocantins - TO
Além das rãs, também vimos morcegos hematófagos e até peixes, no pequeno rio que corta a caverna. O calor também é intenso, mas praticamente esquecemos dele quando paramos para admirar e fotografar os diversos salões da caverna.
Explorando a Gruta das Rãs, em Aurora do Tocantins - TO
Depois desse calor todo, nada melhor do que um banho de rio para relaxar. Nós ainda tínhamos muita estrada pela frente, mas sempre se arruma um "tempinho" para um banho, certo? Passamos rapidamente na casa do Anselmo para descarregar as fotos tiradas hoje no computador dele e, de lá, seguimos para o Balneário Douradas, a 12 quilômetros da cidade. Construído numa curva em "U" do Rio Palmas, de águas bem verdinhas, o banho em suas corredeiras foi o coroamento de um dia de explorações. Uma delícia!
Saindo da Gruta das Rãs, em Aurora do Tocantins - TO
Depois do banho, adeus Tocantins, até breve, Região Norte. Da próxima vez, vamos entrar pela Venezuela, vindos da América do Norte. Nossa... tem tanta coisa para acontecer antes! Melhor pensar na próxima semana, e não no próximo ano.
Trilha em fazenda onde está a Gruta das Rãs, em Aurora do Tocantins - TO
Pois bem, a próxima semana será no estado de Goiás! Muita coisa para fazer por aqui! Já estivemos no estado em Julho/Agosto do ano passado, mas somente em Caldas Novas e Goiânia. Agora, vamos iniciar nossas explorações por Terra Ronca. Depois virão a Chapada dos Veadeiros, Goiás Velho e Pirenópolis. Só lugar feio, hehehehe
Hora do mergulho no Rio Palmas, no Balneário Douradas, em Aurora do Tocantins - TO
Hoje, conseguimos chegar até São Domingos, porta de entrada do Parque Estadual da Terra Ronca. Já chegamos no escuro, mas amanhã bem cedinho partimos para o parque e suas famosas cavernas gigantes. Esse é um lugar que está na minha lista de prioridades há 20 anos! Antes tarde do que nunca...
Formação de cortina na Gruta do Sabiá, em Aurora do Tocantins - TO
Blog da Ana
Blog da Rodrigo
Vídeos
Esportes
Soy Loco
A Viagem
Parceiros
Contato
2012. Todos os direitos reservados. Layout por Binworks. Desenvolvimento e manutenção do site por Race Internet
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)

.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)


.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)

.jpg)
.jpg)
.jpg)








.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)