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rEINALDO (19/03)
Meus queridos !!! Que alegria ler um relato como este ! Parabéns por est...
Carol Schrappe (19/03)
Me orgulho de Vocês!!!! Que delicia ver que vocês aprenderam e tomaram ...
Luis (18/03)
Mergulho fabuloso! Nós que fomos a Tulum muuuuittttooooos anos ficamos b...
Karina (18/03)
Estive há dois dias no Encanto Azul o que se vê é indescritível. Pude...
Milene (17/03)
Olá Rodrigo, boa noite! Parabéns pelo seu Blog, realmente contém imag...
O maravilhoso mergulho noturno com arraias manta, em Kona, na Big Island, no Havaí
Depois do passeio pela região da Green Sand Beach, chegamos à Kona com tempo contadíssimo para nossos compromissos. Um engarrafamento na entrada sul da cidade quase colocou nossa apertada programação a perder, mas no final deu tudo certo. Passamos rapidamente pelo nosso excelente Bed & Breakfast, com uma vista maravilhosa do litoral, deixamos a bagagem por lá e seguimos diretamente para a empresa de mergulho, no lado norte de Kona.
Ainda chegamos a tempo de fazer o check-in para o mergulho com as arraias, mas tivemos a triste notícia de que nosso mergulho com as criaturas abissais seria cancelado. Éramos os únicos clientes e o barco só sai com um mínimo de três mergulhadores. Após muito conversar com instrutores da empresa e sobre os aspectos que tornam esse mergulho tão especial, possibilidade única no mundo, resolvemos “bancar” o terceiro mergulhador. Comovidos com a nossa insistência, o pessoal da Big Island Divers aumentou ainda mais o nosso desconto (iríamos fazer os dois mergulhos com eles) e o tal “terceiro mergulhador” até que saiu barato. Melhor assim: nossos dois mergulhos ficavam dessa maneira garantidos, o segundo deles praticamente particular.
A caminho do nosso mergulho com as arraias manta, em Kona, na Big Island, no Havaí
Pois é, apenas nós dois no segundo mergulho, mas barco lotado para o primeiro. Não só o nosso barco, mas vários outros que se encaminhavam para o mesmo lugar, a baía das arraias mantas. Todos os dias, são dezenas de pessoas mergulhando e fazendo snorkel com esses graciosos animais da família dos tubarões, a maior espécie de arraias que habita os oceanos. Pior, todos caem na água no mesmo horário, um pouco depois de escurecer.
Lindo entardecer no barco a caminho do mergulho com as arraias manta, em Kona, na Big Island, no Havaí
Ao saber de toda essa multidão, fiquei meio decepcionado. Como quase todos os mergulhadores, não gosto de muvuca lá embaixo. Quanto mais gente, mais sujeira e menos peixes. Essa costuma ser a regra. Mas não nesse caso! Bastaram alguns minutos lá embaixo para eu aprender que esse é mesmo um mergulho diferente. Inclusive pelo fato que mais gente por ali só torna o mergulho ainda mais interessante!
A caminho do nosso mergulho com as arraias manta, em Kona, na Big Island, no Havaí
Tudo funciona da seguinte maneira: praticamente 75% das pessoas que vão ali só fazem snorkel. Eles ficam reunidos ao redor de boias apontando suas lanternas para baixo, imóveis. Nós, os mergulhadores, mergulhamos a uma profundidade de cerca de 12 metros, num grande campo de areia. Ali, encontramos alguma pedra, seguramos nela e ficamos imóveis também, lanternas apontadas para cima. Tantas luzes assim, no fundo e na superfície, fazem o mar parecer uma discoteca. Mas o melhor vem em seguida! As luzes das lanternas atraem os minúsculos seres marinhos, o plâncton. Atrás do plâncton vêm as enormes arraias. Batendo suas asas, elas nadam entre nós, em busca do alimento fácil que se reúne sobre nossas lanternas.
Lindo entardecer no barco a caminho do mergulho com as arraias manta, em Kona, na Big Island, no Havaí
E assim passamos meia hora lá embaixo, admirando esses animais maravilhosos. Eles dão verdadeiras rasantes sobre nós e, em seguida, já de ponta cabeça, atacam os plânctons do “andar de cima”, nas luzes das lanternas dos que fazem snorkel. Num verdadeiro balé subaquático, as arraias se alimentam ao mesmo tempo em que se desviam com perfeição de nós e das outras arraias. Um sentido apurado para o campo elétrico emitido por todos os seres vivos as faz desviar de nós com perfeição, ao mesmo tempo que podemos admirá-las bem de perto. Apesar da enorme boca, são absolutamente inofensivas.
Nessa noite, eram sete delas, nadando para lá e para cá. Para nós, que não as conhecíamos, pareciam dezenas, tamanho o alvoroço que faziam. Mas nosso instrutor é especialista em reconhecê-las. Cada uma delas tem suas manchas dorsais características, como se fosse uma impressão digital. São pouco menos de cem arraias na população local e nosso instrutor conhece quase todas elas, inclusive pelo nome. E eu que achei que elas migravam, que nada! Pelo menos essas daqui da Big Island, talvez contentes com a refeição fácil de todas as noites, daqui não saem. E não deixam a notícia correr os oceanos, para evitar a concorrência, hehehe! A gente até que tentou fotografar esse espetáculo, mas fotografia submarina noturna em movimento não é nossa especialidade. Fizemos filmagens também, que ficaram bem melhores, Mas ainda não tivemos tempo de fazer uma edição básica (um dia...). Então, melhor do que mil palavras, coloquei uma filme da internet. Só posso dizer que nossa sessão foi ainda mais legal que essa retratada pelo filme, pois havia mais arraias.
Depois desse inesquecível mergulho, o barco voltou para a marina, onde todos os outros passageiros desceram. Aí, apenas conosco e o instrutor, ele rumou para alto mar, para nosso próximo mergulho. Alto mar, no Havaí, significa apenas 3 milhas. Aì, a profundidade do mar já é abissal, chegando aos três mil metros! Afinal, a ilha em que estamos é apenas a ponta de uma enorme montanha submarina. É por isso que esse tipo de mergulho não pode ser feito no continente, cercado pela plataforma continental, sempre rasa. É preciso estar sobre grandes profundidades, pois é de lá que vem os seres vivos que queremos observar. Todas as noites, na maior migração de matéria orgânica existente no planeta, cem milhões de toneladas de seres vivos nadam das produndezas escuras para perto da superfície, onde se encontram para se alimentar e procriar. Antes do sol nascer, voltam lá para baixo.
Mergulhando com seres luminescentes abissais, em Kona, na Big Island, no Havaí
São esses os seres que queremos ver. Completamente diferentes dos que conhecemos, de dia ou de noite, nos corais. Ou, se comparados com o que vemos em terra, aí sim estamos em outro mundo! Como bem definiu um pesquisador, o mundo extraterrestre mais perto de nós não está em alguma estrela distante, mas bem aqui no nosso quintal, a poucos metros de nós, escondidos sob as águas dos oceanos. Se pensarmos bem, em terra, somos todos parentes próximos. Um crocodilo, um macaco, um sapo ou uma gavião, todos tem cabeça, tronco e quatro patas (ou duas patas e duas asas, no caso dos pássaros). Sinal que que somos muito próximos! Os peixes são um pouco mais diferentes, mas lá está a coluna vertebral que nos une a todos. Mesmo insetos, com suas muitas patas, olhos e boca, cérebro, também nos são familiares. Mas, como definir uma água-viva? Ou qualquer outra daquelas incríveis criaturas que vemos flutuando pelas águas escuras que nos rodeiam?
O estranho mergulho funciona de um modo diferente do que estamos habituados. O barco nos leva para um local de grande profundidade, o que no Havaí é bem perto da costa. Aí, ele desliga os motores e simplesmente segue junto com a corrente, silenciosamente. Os mergulhadores são presos a cordas nas extremidades do barco, um em cada canto. A corda tem um peso, para ficar esticada para baixo. Todos temos nossas lanternas e ficamos variando nossa profundidade entre 10 e 15 metros, sempre ao redor de nossas respectivas cordas. Iluminando para um lado e para o outro, logo achamos esses seres de outro planeta, ou bioluminescentes ou com grande capacidade de refletir luz (no caso, a luz de nossa lanternas). Normalmente, são seres pequenos, com até 15 centímetros. Mas podem se reunir em grandes colônias, chegando a atingir vários metros.
Ficamos ali, por uns quarenta minutos, em meio à escuridão total do oceano, apenas nossas lanternas a iluminar estreitas faixas de água, observando esses exóticos animais que dividem conosco o mesmo planeta. Como se locomovem sem membros? Como enxergam sem olhos? Como tomam decisões sem cérebros? Que mundo estranho! E tão perto de nós! Talvez, 0,1% da população humana já tenha feito algum mergulho e observado peixes em seu habitat. É uma minoria absoluta que passou a saber que o mundo é muito maior que nosso quintal. Pois bem, dentro dessa minoria, talvez outros 0,1% tenham feito esse mergulho noturno com seres abissais. É bom lembrar que a superfície da Terra tem ¾ de sua área coberta pelos Oceanos, a enorme maioria disso em grandes profundidades. Esse planeta em que vivemos não é nosso, é deles! Dos seres abissais. E apenas 0,1% de 0,1% das pessoas já deu uma olhadinha nos verdadeiros terráqueos. É... temos todos muito o que aprender... Por falar em aprender, nossas fotos dos verdadeiros terráqueos ficaram um desastre. Os filmes, nem tanto. Mas, de novo, precisam daquela ediçãozinha básica. Enquanto isso, outro vídeo do YouTube, pelo menos para ajudar a ter uma ideia do que vimos hoje. Sem dúvida nenhuma, o mais estranho mergulho que já fizemos. Inesquecível!
A Fiona desbravando a estrada Top of The World Highway, já no lado canadense da rodovia
Depois do show cósmico de ontem, nos demos ao luxo de dormir até mais tarde, já que a viagem de hoje não era longa, entre Tok, no Alaska, e Dawson City, no Canadá. A estrada que liga as duas cidades tem o singelo nome de “Top of The World Highway”, certamente devido ao fato de que é uma das rodovias em latitudes mais ao norte das Américas e do mundo. Mas não é só por causa disso não, mas também porque em boa parte dela estamos sobre a crista de montanhas, com vistas maravilhosas para vales e planícies que nos rodeiam.
Percorrendo a estrada Top of The World Highway, entre Tok, no Alaska, e Dawson City, no Yukon - Canadá
Percorrendo a estrada Top of The World Highway, entre Tok, no Alaska, e Dawson City, no Yukon - Canadá
Boa parte da rodovia é em estrada de terra (ou “gravel”, como dizem aqui), tanto em território americano como canadense. Até mesmo o posto de fronteira está num trecho assim, completamente perdido no mundo, certamente a border-crossing mais roots entre esses dois países. Estados Unidos e Canadá tem a mais longa fronteira desmilitarizada do mundo, um ótimo exemplo de convivência entre dois países. Mas não foi sempre assim...
Moradia típica ao longo da estrada Top of The World Highway, ainda do lado do Alaska
Os maiores problemas se deram em 1812, quando o Canadá ainda era britânico. As escaramuças de fronteira se escalaram em guerra aberta em que ninguém ganhou e apenas os índios perderam. Os EUA tiveram sua capital federal invadida e queimada e o Canadá, diante de tanto sofrimento, formou sua identidade de nação. Nos acordos ao final da guerra, as fronteiras foram definitivamente marcadas e não houve mais problemas. Quer dizer, não nessa parte da fronteira...
Fiona bem empoeirada (nem se vê mais a América do Sul!), depois de muitos quilômetros na estrada Top of The World Highway, no Alaska
Acontece que os Estados Unidos compraram o Alaska e ganharam de brinde mais alguns milhares de quilômetros de fronteira com o país vizinho. Ao fazer a compra dos russos, os antigos “proprietários”, aceitaram os termos de um tratado que definia a fronteira num meridiano qualquer. É por isso que a fronteira entre o Alaska e o Canadá é “reta”. Foi uma divisão matemática entre britânicos e russos sobre áreas de caça, já que era o comércio de pele que movimentava a economia da região. Nas primeiras décadas após a compra, não houve problemas de fronteira, já que os americanos pouco se preocupavam com seu novo território, umas terras perdidas perto do Polo Norte. Mas tudo mudaria em 1896, com o início da Klondike Gold Rush, a última grande corrida do ouro da história.
Na verdade, estamos deixando o Alaska, na estrada Top of The World Highway
A história desse Gold Rush, vou falar no próximo post, quando contar sobre Dawson City, a cidade que foi criada do nada para abrigar as dezenas de milhares de pessoas que chegaram atrás da fortuna fácil (só no sonho...). Mas uma das consequências dessa corrida e súbito interesse na região foram novos problemas de fronteiras. Toda a região costeira onde estavam os portos que davam acesso às pessoas e mercadorias rumo ao novo El Dorado passou por um grande boom e, obviamente, atraiu os interesses das duas nações. Esta área estava no lado “canadense” do meridiano, mas tinha sido ocupada historicamente pelos russos. Felizmente, a pendência não foi resolvida por uma guerra, mas por uma arbitragem internacional que acabou favorecendo os Estados Unidos. É por isso que o Alaska tem aquela língua de terra avançando sobre o Canadá. Aí já estava a capital russa do Alaska, a cidade de Sitka, assim como os principais portos de acesso à região do Klondike, onde o ouro foi descoberto. Rapidamente, o governo do Canadá apressou-se em ocupar a região onde o próprio ouro estava sendo minerado, para não arriscar perder essa área também. Afinal, quase 70% das pessoas que chegaram à região em busca de ouro eram americanos e não demoraria muito para pedir a anexação da área à pátria amada. O exemplo do Texas (antigo território mexicano) estava apenas há poucas décadas de distância...
Devorando um delicioso morango na viagem pela estrada Top of The World Highway, entre EUA e Canadá
As medidas do governo canadense para se fazer notar na região foram, desde um rígido controle das fronteiras para os americanos que se dirigiam à Dawson e um autoridade policial efetiva da nova metrópole, até a construção de novas rotas de acesso àquela área. Foi dessa época o início da marcação do caminho, que acabou virando trilha, que evoluiu para uma estrada, que ganhou o nome de Top of The World Highway, ligando regiões auríferas canadenses com a fronteira com o Alaska, de onde se atingia novas áreas mineradoras. Para não ficar atrás, o governo americano também fez a sua parte da estrada e, com isso, hoje, pode-se dirigir por uma rodovia muito mais ao norte que a própria e lendária Alaska Highway. Quer dizer, só durante alguns meses do ano, pois quando o clima daqui começa a esfriar, eles rapidamente fecham a estrada, para não precisar fazer a manutenção de uma rota por onde passam tão poucos carros.
Um simpático porco-espinho atravessa a estrada Top of The World Highway, entre EUA e Canadá
Pois é, a gente passou na véspera do fechamento e, ao longo dos cerca de 270 km da rodovia, cruzamos menos de uma dezena de veículos. Ao contrário, ao invés de sinais da civilização, vimos foi muita natureza, um horizonte vasto, planícies e montanhas cortadas por rios que já foram escrutinados cuidadosamente em busca do vil metal, mas que hoje podem respirar tranquilos novamente.
As belas paisagens da rodovia Top of The World Highway
Quem pode respirar tranquilo novamente também são os caribous, caçados à exaustão nessa região, mas que agora estão protegidos. De uma manada com mais de 500 mil indivíduos na década de 30, a população encolheu para poucos milhares, com grave risco de extinção. Felizmente, o bom senso chegou à tempo e, com a ajuda de vários programas de restauração, a espécie vem se recuperando. Depois de muitas décadas sem que isso acontecesse, um pequeno grupo foi visto cruzando o rio Yukon, na antiga e milenar rota anual de migração. Na sua época áurea, dizem, esse evento, com dezenas e dezenas de milhares de caribous, chegava a parar a água do rio. Uma visão inesquecível, segundo os testemunhos da época.
Placa informativa sobre os caribous, típico animal dessa parte do Alaska e do Canadá
Desde os tempos de América Latina que não pegávamos uma estrada com tanta poeira. A Fiona matou a saudade, mas ficou suja prá burro. Mas nós três sentíamos falta disso, nessa América tão civilizada que é a do Norte. O posto de fronteira, que mencionei lá em cima, nesse post, nem parecia a linha divisória de EUA e Canadá, mas talvez, as fronteiras de Nicarágua e Honduras ou Paraguai e Bolívia. Bom, só na aparência e jamais na eficiência! Foram poucos minutos para deixarmos os EUA para trás e adentramos o Canadá pela terceira vez nesses 1000dias. Sempre muito bem recebidos, diga-se!
O posto de fronteira mais roots na longa fronteira entre EUA e Canadá
As belas paisagens da rodovia Top of The World Highway
O último obstáculo para chegar à Dawson, depois de mais uma hora de paisagens magníficas, era cruzar o rio Yukon, um dos três maiores do continente, junto com o Mississipi e o Mackenzie. Foi por ele que chegaram (ou tentaram chegar!) a enorme maioria das cerca de 100 mil pessoas que partiram do sul rumo à Dawson, durante a corrida do ouro de 115 anos atrás. A cidade fica do outro lado do rio e não há pontes para atravessá-lo, mas uma balsa. Outra vez, reminiscências da nossa América Latina, especialmente do Brasil, onde por tantas vezes cruzamos esses rios lagos em balsas.
Chegando ao majestoso rio Yukon, onde está Dawson City, no Canadá
Uma balsa faz a travessia de veículos através do rio Yukon, em Dawson City, no Canadá
Chegamos em Dawson, a única cidade com personalidade nessa parte do mundo, no final da tarde. Na temporada, ouvimos falar, ela fica repleta de turistas em busca da rica história da região. Mas agora não, era apenas a verdadeira Dawson, com seus saloons, suas calçadas de madeira e sua arquitetura de faroeste. Nós nos instalamos em um hotel num prédio quase centenário e saímos em busca de um bar para celebração de uma data importantíssima: o aniversário da Ana.
O rio Yukon, ao lado de Dawson City, no noroeste do Canadá
Prédio em Dawson City, no Yukon Territory, noroeste do Canadá
Pois é, esse também foi um dos motivos que nos fez mudar de roteiro. Queríamos estar em uma cidade com alma para poder celebrar o aniversário dela. E por aqui, Dawson era o melhor lugar para isso, com certeza! Assim, a comemoração que começou com o presente cósmico lá em Tok, terminou com cervejas geladas em um dos muitos bares de Dawson, cidade com 115 anos de tradição nesse setor. Foi uma maneira de tornar inesquecível a terceira passagem de anos na estrada da minha esposa amada e aventureira. Tin-tin!
Celebrando em grande estilo a chegada à Dawson City, no Yukon Territory, noroeste do Canadá
Um brinde á famosa Rota 66, que ligava Chicago à Los Angeles (em Seligman - Arizona)
Saímos do nosso desvio pelo deserto de Mojave e caímos na estrada novamente, rumo ao Grand Canyon. Chegaríamos lá de noite, mas ainda queríamos aproveitar as poucas horas de dia que tinham sobrado para avançar no caminho. O chato de viajar essa época do ano aqui no hemisfério norte é que fica escuro muito cedo. Antes das cinco e lá se vai o sol... Parece até que estão roubando um pedaço do nosso tempo.
Chegando ao Arizona, o estado do Grand Canyon, nos Estados Unidos
De volta à estrada principal e logo estávamos entrando no glorioso estado do Arizona, onde está o canyon mais famoso do mundo. Mais um pouco e a nossa estrada juntava-se com outra, que vem de Las Vegas. Foi justamente por aí que viemos, em 11 de Abril desse ano, quando começávamos nossa viagem pelos Estados Unidos. Lá se vão oito meses...
Chegando à Seligman (Arizona), cidade na famosa Rota 66, que ligava Chicago à Los Angeles
Naquele dia, rumávamos para Flagstaff, deixando o Grand Canyon para depois, pois tínhamos pressa para chegar à costa leste. Hoje, esse “depois” chegou! E isso ficou bem claro quando chegamos à cidade de Seligman, já em plena Route 66. Foi aí que paramos, em um café na beira da lendária estrada, para comer algo. Hoje, não resistimos à tentação: saímos da estrada para parar naquele mesmo café do 11 de Abril.
Nove meses depois e uma volta pela América do Norte, de volta à Seligman, no Arizona, na Rota 66 (Arizona - EUA)
Para nós, foi um momento histórico. Estávamos completando uma volta inteira nos Estados Unidos. Quer dizer, nos EUA, Canadá e Alaska! Eu, a Ana e a Fiona! A comida nem foi tão memorável, mas fomos sentar na mesma mesa. E aí pensamos na enorme volta que demos nesse tempo todo, daqui à costa leste, subindo até o Canadá, atravessando o continente novamente, mais ao norte, até Yellowstone, subindo até o Alaska e descendo toda a costa oeste até Los Angeles. Foram mais de 20 mil milhas nessa brincadeira toda. O Google não permite que façamos um mapa mais detalhado (são muitos pontos!), mas segue um mapa resumindo dessa nossa “voltinha” pela América Anglo-saxônica. E não podemos esquecer também que, nesse meio tempo, demos um pulinho no Caribe, nas Bermudas, na Groelândia e no Havaí. Mas aí, sem a querida Fiona.
Exibir mapa ampliado
Depois de celebrado e curtido o momento histórico, estrada novamente. Logo escureceu e, sem a luz do sol, esfriou rapidamente. Além disso, para chegar ao Grand Canyon, nós temos de subir bastante, ganhar altitude. Afinal, o alto do canyon está a mais de 2 mil metros de altura. Traduzindo: mais frio!
Conforme vamos ganhando altitude em direção ao Grand Canyon, no Arizona )EUA), vai ficando mais frio!
Não demorou muito e estávamos pulverizando nossos recordes de temperatura negativa. O recorde ainda vinha da Argentina, a quase 4 mil metros de altura, quando tínhamos chegado a menos 13, marcados pela valente Fiona. Pois bem, agora, já estava a menos 14! Uma surpresa para nós, pois estávamos no deserto! Tudo bem que é inverno, mas não precisava tanto! E olha que ainda estávamos no começo da noite, com algumas centenas de metros para subir.
A Fiona (e nós!) enfrenta temperatura negativa de 17 graus celcius, na beirada do Grand Canyon, no Arizona, nos Estados Unidos
Pois é, a temperatura continuou a cair, empurrando o recorde para baixo. A gente finalmente chegou ao hotel em que ficaríamos, na pequena cidade um pouco antes da entrada do parque. Trincando de frio, fizemos o check-in e, mesmo já tão tarde e gelado, fiz questão de levar a Ana até a beirada do canyon. Eu já tinha estado lá há 18 anos, no final de 94. Foi uma passagem relâmpago, inclusive com uma corrida até o rio. Vou falar disso em outro post, mas o fato é que queria ver aquela maravilha novamente, nem que fosse iluminada apenas pela lua e pelas estrelas. Não iria aguentar esperar até amanhã e não seria um frio qualquer que me impediria.
Fotografia noturna do Grand Canyon, em noite estrelada e gelada, no Arizona, nos Estados Unidos
O tal “frio qualquer”, quando chegamos na beirada do canyon, estava a menos 17. Dezessete graus negativos!!! Nosso recorde absoluto! É claro que os únicos loucos naquela hora e temperatura por lá éramos nós! Mas valeu a pena! Mesmo na penumbra, o canyon estava maravilhoso e ficamos impressionados com sua majestade e grandeza. Outro momento inesquecível para nós no dia de hoje. Um momento que ficará congelado nas nossas memórias, enquanto os corpos, coitados, também se congelavam.
O maravilhoso reflexo do céu nos rios que cortam a Reserva do Mamirauá, região de Tefé, no Amazonas
Como mostrei no post anterior, tínhamos todo o conforto para as horas de descanso na pousada Uacari, em Mamirauá, mas não foi para relaxar que tínhamos ido até o coração da Amazônia. Fomos para lá para explorar e aprender, ver e fotografar, sentirmo-nos mais perto dessa natureza exuberante. E para isso, os melhores momentos eram mesmo os passeios realizados pela reserva de desenvolvimento sustentável.
Encontro das águas na região de Tefé, no Amazonas
Uma gigantesca Samaúma, na região de Tefé, no Amazonas
No processo de fazer a reserva na pousada, um dos questionários que temos de preencher e enviar são as nossas preferências e interesses de conhecimento. Podemos dizer que priorizamos ver a floresta, seus animais, sua fauna ou as comunidades que lá vivem. Podemos dizer se preferimos caminhar ou navegar, e mesmo se queremos pescar piranhas. Assim, questionários envolvidos, o pessoal da pousada tenta montar a melhor programação de passeios possíveis para se adequar aos nossos interesses.
Enttrando na belíssima Reserva do Mamirauá, na região de Tefé, no Amazonas
A floresta alagada na Reserva do Mamirauá, na região de Tefé, no Amazonas
Nós chegamos à Pousada Uacari justamente entre duas semanas muito movimentadas, grupos grandes. Na nossa semana, ao contrário, não eram muitas pessoas, o que facilitou ainda mais a adequação da programação aos gostos de cada um. Quem queria pescar piranha, pescou, quem queria dormir isolado na casa da floresta, dormiu, quem queria sair a todo momento de canoa, saiu. Muito legal!
Guia nos dá explicações durante passeio de canoa motorizada pela Reserva do Mamirauá, na região de Tefé, no Amazonas
Durante passeio na canoa motorizada, observando a flora e fauna da Reserva do Mamirauá, região de Tefé, no Amazonas
Nessa época do ano, como já disse, só se pode passear com canoa. Não há terra firme para caminhar. Os rios Solimões e Japurá “se levantam” mais de 10 metros e cobrem todo o solo da floresta, seus igarapés e lagos, restando apenas a copa das árvores acima do nível da água. Na verdade, viram um só rio, com largura de dezenas de quilômetros, entremeados pela copa da floresta. No leito “normal” dos rios, a água corre forte rumo ao oceano. Nos pontos de alagamento, nas florestas e trechos que são lagos durante o período seco, mal se percebe o seu movimento, embora ele exista. É neste verdadeiro mar de água doce, ora em águas abertas, ora em águas “fechadas” pela floresta, que fazemos nossos passeios.
Depois de mais um passeio, chegando de volta à Pousada Uacari, na Reserva do Mamirauá, região de Tefé, no Amazonas
O maravilhoso reflexo do céu nos rios que cortam a Reserva do Mamirauá, região de Tefé, no Amazonas
Para ir a distâncias maiores, seguíamos nas canoas grandes, motorizadas, todo o grupo a bordo. Era o momento de ficarmos nos trechos de águas abertas, a hora ideal de admirar a grandeza da paisagem, observar a floresta e suas imensas árvores de longe, o esplendor do entardecer refletido nas vastas extensões cobertas pela água. A cada momento, a cada ângulo, a chance de uma nova foto. Era também o momento mais fácil de observarmos os pássaros da região, as dezenas de espécies de diferentes cores, formas e tamanhos que voavam sobre nós, de uma borda do rio à outra, de uma parte da floresta alagada para outra parte da floresta alagada. As vezes solitários, muitas vezes em duplas, outras vezes em bandos que variavam de poucos indivíduos às centenas deles.
Procurando jacarés durante passeio noturno na Reserva do Mamirauá, região de Tefé, no Amazonas
Retornando à Pousada Uacari após passeio noturno na Reserva do Mamirauá, região de Tefé, no Amazonas
Foi nesse tipo de canoa que fomos visitar uma comunidade ribeirinha, assunto que vou falar com mais detalhes em outro post. Foi nela também que procuramos os famosos botos cor-de-rosa, uma dos mais emblemáticos animais dos rios amazônicos. Também foi em uma canoa motorizada que seguimos até um grande lago a quase uma hora de distância da pousada. “Lago” , como disse, é apenas modo de falar, pois é apenas mais um pedaço do enorme rio que cobre tudo o que vemos por aqui. Mas por estar relativamente isolado dos canais principais, ele se parece mesmo um lago e foi aí que tivemos um espetacular pôr-do-sol seguido por uma chuva de proporções amazônicas. Felizmente, tivemos tempo de chegar a uma estação de pesquisa localizada no tal lago e esperar que a chuva passasse, todos admirados com a força do rio que vinha de cima. Depois, passada a chuva, já no escuro, com a ajuda de holofotes e sempre à procura dos olhos brilhantes de jacarés, retornamos ao conforto de nossa casa.
Nosso guia nos leva para um passeio na floresta alagada na Reserva de Mamirauá, perto de Tefé, no Amazonas
Fruta muito comum nessa época do ano na Reserva do Mamirauá, na região de Tefé, no Amazonas
Por mais lindos e panorâmicos que fossem esses passeios pelas águas abertas, não tenho dúvida que a grande estrela dos passeios são mesmo as excursões em canoas pelas matas alagadas. Saímos em duplas, acompanhado pelo guia e remador, pelas proximidades da pousada, e passamos horas explorando cada recanto desse incrível ambiente que é uma floresta alagada. Percorremos quase que exatamente o mesmo caminho que, durante a seca, se faz à pé, através das trilhas na floresta. Só que agora, muito mais altos pelo alto nível das águas, estamos muito mais próximos das copas das árvores e, consequentemente, dos animais que lá vivem.
Fotografando a floresta alagada na Reserva de Mamirauá, perto de Tefé, no Amazonas
Passeando confortavelmente na floresta alagada na Reserva de Mamirauá, perto de Tefé, no Amazonas
O guia vai nos explicando e mostrando particularidades das floresta e de suas árvores. Mostra a utilidade de cada uma delas, seja na medicina, seja das características da madeira. Ele nos explica como os animais se adaptam a esse ambiente transitório, desde onças a jacarés até as formigas. Pois é, esses insetos sociais, a cada mudança de estação, se mudam da terra para as árvores, e das árvores para a terra. Constroem enormes colônias penduradas nos grandes galhos de árvores e, se precisarem nadar um pouco, não hesitarão. Como terá a evolução chegado a essa perfeição que é uma colônia de formigas? Cada indivíduo é fraco e frágil, mas a soma de todos eles é invencível e funciona como um relógio. Sinceramente, não consigo entender...
Durante passeio na floresta alagada, nosso guia nos mostra árvore repleta de formigas em seu interior, na Reserva do Mamirauá, região de Tefé, no Amazonas
Olhando para a copa da floresta alagada, na Reserva do Mamirauá, região de Tefé, no Amazonas
Navegando sob as árvores, esquilos, bichos-preguiça e macacos ficam mais perto do que nunca. Esses últimos são fáceis de localizar pela algazarra que fazem, seja quando se movimentam pelas árvores, seja quando estão comendo. Nosso prazer era localizar o seu som e seguir até lá, curiosos sobre qual espécie encontraríamos dessa vez. Falo um pouco da fauna de Mamirauá no próximo post.
Visita a uma das comunidades ribeirinhas na Reserva do Mamirauá, região de Tefé, no Amazonas
Entrando de canoa na floresta alagada, na Reserva do Mamirauá, região de Tefé, no Amazonas
Eu e a Ana não fomos pescar piranhas, já que pescaria não é muito a nossa praia, mas pudemos admirar as fotos tiradas por outros que foram. Também não optamos por dormir na Casa da Floresta, uma pequena construção toda cercada de telas verdes a 10 minutos de canoa da pousada. Na época da seca, ela está há quase quinze metros do solo, erguida sobre palafitas.Mas agora, na cheia, a água do rio quase a alcança e ela parece pairar sobre as águas. Ideal para quem quer dormir no meio da floresta. Mas, para quem quiser experimentar esse quarto de 3 metros por dois, não pense em uma noite romântica! A presença de um guia é mandatória! Nós preferimos ficar no conforto d nosso quarto na pousada, mas isso não impediu que a fôssemos conhecer também, em um de nossos passeios pela floresta alagada.
Visitando a Casa da Floresta, na Reserva de Mamirauá, perto de Tefé, no Amazonas
A casa na Floresta, quase alagada, sobre palafitas de mais de dez metros de altura, na Reserva do Mamirauá, região de Tefé, no Amazonas
Enfim, tem programas para todos os gostos. Era sempre o ponto alto de nosso dia, nos ajeitarmos em nossos assentos na canoa, apenas imaginando o que veríamos naquelas próximas horas de exploração de um mundo tão diferente desse que acostumamos a viver. Mas esse outro mundo, o da floresta alagada, é nosso também, parte integrante do nosso pequeno planeta. Nada melhor que conhecer melhor nossa própria casa!
Passeio na floresta alagada na Reserva de Mamirauá, perto de Tefé, no Amazonas
Vista do nosso quarto na pousada Pelicane,em North Caicos
Após o habitual stress de todas as manhãs com compromisso, embarcamos no moderno e veloz ferry boat que nos leva de Provo a North Caicos em meia hora. Se fosse numa das barcas da Ilha do Mel, acho que seriam umas 2 horas, no mínimo!
Nesta manhã, o stress acho que foi um pouco maior. Além de deixarmos para arrumar tudo na própria manhã (mochilas que vão, mochilas que ficam, checkout do hotel, achar um táxi, etc), chegamos ao porto com muito pouco dinheiro em cash para os próximos dois dias. Ocorre que em North e Middle Caicos, não se aceita cartão. O banco qua havia por lá quebrou e deixou todo mundo na mão. Agora, só em dinheiro vivo, da verdinha! E nós no porto, o barco para zarpar, com vários cartões de crédito inúteis. Bom, depois de alguns telefonemas lá da administração, conseguimos achar uma santa que alugaria um carro (imprescindível, por lá) no cartão. Faltava só o hotel. Para a comida, tínhamos dinheiro! Embarcamos. Qualquer coisa, dormiríamos no carro ou na praia mesmo!
Barco que faz a ligação entre Provo e North Caico
Voamos sobre o mar esmeralda (um show!) e logo chegamos em Sandy Point, em North Caicos, onde encontramos a senhora do Pelican, que aluga carros. Para nossa felicidade, ela também tem um hotel. Dois coelhos numa cajadada só!
Havia mais de 10 anos que eu não dirigia na mão inglesa. Nas movimentadas estradas de North e Middle Caicos, onde em dois dias cruzamos uns 3 carros, rapidamente me acostumei. Nosso primeiro carro alugado da viagem! Agora, falta a moto (ou scooter), depois de tanto trabalho e correria para se conseguir a carteira de habilitação!
Pequeno lago com 80 m de profundidade em North Caicos - Turks e Caicos
Popularmente conhecida como "Senzala"
Antes de seguir para o hotel já passamos em duas das atrações turísticas da ilha. A primeira, uma pequena lagoa de água meio turva, cheia de pássaros e com mais de 80 metros de profundidade. Mal acostumados que estávamos com o Dean's Blue Hole, achamos o barrento Cottage Pond meio sem graça. Depois, seguimos para as ruínas do Wade's Plantation. É o equivalente inglês de latifúndio. Bom, latifúndio, dependendo da escala. Pode ser grande por aqui, mas se fosse no Brasil, deste tamanho, não chegava nem a sítio. Chácara, talvez. De qualquer maneira, tinha o Slave's Quarter (a popular "senzala", no Brasil. Em inglês, fica mais chique), a Casa Grande, etc... Enfim, as ruínas são meio mais ou menos. Legal é a história por trás. O pessoal que lutou a favor do rei, na independência americana, foi recompensado com terras nas Bahamas e por aqui. Se deram bem por um lado (clima, mar) mas não durou muito não. Em uma geração, uma combinação de solo pobre, furacões e a guerra de 1812 ente EUA e Inglaterra acabou com as plantations daqui. Só sobraram as ruínas e os nomes das famílias, que continuam nos sobrenomes de todos por aqui.
Mar em frente à pousada em North Caicos
Por fim, fomos ao hotel e à maior atração turística da ilha: suas praias maravilhosas e semi-desertas. O hotel, Pelican Beach Hotel, fica bem em frente à praia, assim como o nosso quarto. A vista que tínhamos era de chorar! O clima era bem parecido com o da Ilha do Mel, tranquilo, relaxado. A diferença era esse mar, sem igual. Até covardia comparar...
Passamos o resto do dia andando e relaxando na praia e socializando com o Cliff, dono do hotel e ex-piloto de avião e com a Maqui, que trabalha para ele, imigrante dominicana. Muito simpáticos, os dois. E eu e a Ana mandando ver no inglês e no castelhano.
No início da noite, um bônus para esse dia incrível: um lançamento de foguete, lá na Flórida, a centenas de quilômetros de distância, se transformou num show para nós, iluminando a noite com uma luz estranha que demoramos para decifrar. OVNI? Avião? Satélite? Que nada! Foguete americano! Muito legal mesmo! Deu para ver o primeiro estágio se separar do segundo e seguir sua viagem enquanto o primeiro despencava pelos céus.
Que incrível! Nós, perdidos na periferia da periferia de uma ilha, no meio do oceano e, para nos lembrar que estamos no séc XXI, um foguete passa sobre as nossas cabeças!
Boteco da Pousada Pelicane, em North Caicos
Bom, e para nos lembrar que não estávamos no paraíso, a partir do início da noite milhões de mosquitos nos atacaram. Tivemos de abandonar o tão agradável quiosque à beira mar e nos refugiar atrás das santas telas protetoras, primeiro no restaurante e depois no nosso quarto.
O resultado final do dia foi descobrir que Turks e Caicos tem alma e que ela é parecida com a alma da Ilha do Mel. Que legal!
Caminhando pelo convés na nossa primeira manhã no trecho entre Buenos Aires e as Ilhas Malvinas
Nossos primeiros dias no Sea Spirit foram de pura navegação. Afinal, são pouco mais de 2 mil quilômetros entre Buenos Aires e as Ilhas Malvinas, a primeira terra firme no nosso caminho. Saímos da capital argentina no início da tarde do dia 3 com previsão de chegada na manhã do dia 7. Pouco mais de 3 dias, tempo mais do que suficiente para nos adaptarmos à nossa nova casa e às rotinas do dia a dia. Em uma primeira impressão, pode até parecer que seríamos tomados pela monotonia, tanto tempo sem ver nada ou ter o que fazer, cercado de água por todos os lados. Impressão errada! A programação foi intensa, a quantidade de coisas para ser ver, fazer e aprender também e o Sea Spirit, nossa casa pelas próximas 3 semanas, se mostrou muito além de nossas expectativas, tanto de conforto como de desempenho.
A planta do Sea Spirit, num quadro na ponte de comando do navio
A planta do Sea Spirit e seus cinco andares. Nosso quarto era o 334, no Oceanus Deck, o mesmo do auditório e da recepção, por onde se entra no navio
Nos próximos posts vou falar do intenso programa de palestras, da incrível fauna que já vimos neste caminho e também dos “eventos sociais” e dos nossos amigos e colegas da expedição. Agora, quero falar é do Sea Spirit e da nossa rotina no barco que conhecemos e exploramos nesses primeiros dias de viagem.
Um dos corredores de acesso aos quartos no Sea Spirit
Uma janela do tipo escotilha no Sea Spirit
O barco foi construído em 1991 e tem praticamente 90 metros de comprimento. São 7 andares, dois deles com acesso restrito. Nós, passageiros, circulamos entre o segundo e o sexto, onde estão as cabines, restaurante, auditório, ginásio, jacuzzi e outras amenidades. O Sea Spirit acondiciona até 114 “hóspedes” e 80 membros do staff e tripulação. Todas as cabines de passageiros têm vista para o exterior, banheiro próprio, telefone via satélite e tela flat screen com DVD. As mais chiques tem até varanda própria, mas duvido que sejam muito usadas nos gelados ambientes polares.
Nossa espaçosa cabine, com quarto e até uma pequena sala, no Sea Spirit, navio que nos leva até a Antártida
Nossa espaçosa cabine, com quarto e até uma pequena sala, no Sea Spirit, navio que nos leva até a Antártida
O navio tem uma pequena academia de ginástica, mas não é muito fácil usá-la com o barco em movimento. Tem também uma biblioteca joia, uma grande jacuzzi ao ar livre com água bem quente, wi-fi (cara e lenta! Na prática, serve só para e-mails de texto), uma pequena loja de lembranças e, o melhor de tudo, um aconchegante bar com bebidas já incluídas, exceto as mais caras pelas quais pagamos um pequeno valor. Por exemplo, uísques 8 anos já estão incluídos, mas por pouco mais de um dólar fazemos o up-grade para os doze anos. Para compensar essa fartura e facilidade de bebidas, podemos caminhar e até fazer cooper ao ar livre no deck que dá toda a volta no quarto andar, chamado de “Club Deck”, num circuito de quase 200 metros. Um dia, pela manhã, cheguei a dar dez voltas correndo por aí!
Lendo um livro na nossa cabine do Sea Spirit, no trecho entre Buenos Aires e as Ilhas Malvinas
Banheiro da nossa cabine no Sea Spirit
Uma das grandes vantagens que tivemos nessa viagem foi que o barco seguiu relativamente vazio. Ao invés da capacidade máxima de hóspedes, o que costuma acontecer nas viagens entre Dezembro e Janeiro, nós éramos apenas cerca de 70 pessoas. Isso facilitava bastante na hora das refeições e nas operações de embarque e desembarque. Geralmente, esses pontos de visita tem um limite máximo de pessoas e nas viagens feitas por grandes navios, os passageiros têm de fazer turnos de visita. No caso do Sea Spirit, mesmo com a lotação máxima, não se chega a este limite, mas de qualquer maneira, perde-se muito menos tempo na operação de levar e trazer de terra firme nos botes infláveis 70 passageiros que os 114 da lotação máxima.
A sala de estar do Sea Spirit com o Jeff ao piano, um dia antes de chegarmos às Ilhas Malvinas
Guloseimas servidas durante o horário do chá, no trecho entre Buenos Aires e as Ilhas Malvinas (foto da Rukimini)
O Sea Spirit tem cabines duplas e triplas. Obviamente, a segunda opção é mais barata, mas essas cabines triplas são separadas entre homens e mulheres e eu e a Ana não quisemos ficar separados tanto tempo. Assim, pagamos um pouco mais e optamos pela dupla. Nós já tínhamos visto fotos da cabine nos folders e internet, mas nunca dá para acreditar muito nessas fotos. Assim, nossa expectativa estava mais baseada no que lemos de relatos de outros viajantes para a Antártida. Eles tinham viajado em outros navios, mas imaginávamos que era tudo do mesmo padrão. As descrições eram de cabines mais rústicas, eficientes, mas pouco confortáveis. Assim, para nós foi uma gratíssima surpresa o padrão da nossa cabine, muito mais confortável do que a maioria dos hotéis que temos ficado por aí. Uma vasta cama, muitos armários, uma pequena sala com sofá, uma bela janela e um banheiro pequeno, mas muito bem acomodado. Uma delícia! Quando vimos, dávamos pulos na cama, muito felizes com a escolha que fizemos e com as 3 semanas que nos esperavam. O quarto, assim como todo o interior do navio, está aclimatizado a agradáveis vinte e poucos graus e podemos estar sem casacos. É um local muito agradável e muitas vezes eu me refugiava por lá para ler algum livro enquanto a Ana socializava pelo navio. De noite, tinha sempre a opção de algum filme na TV, mas usamos isso muito pouco, com tantas coisas mais interessantes para se fazer.
Visita à ponte de comando do Sea Spirit, no trecho entre Buenos Aires e as Ilhas Malvinas
Visitando a ponte de comando do Sea Spirit, no trecho entre Buenos Aires e as Ilhas Malvinas
Nosso quarto estava no 3º andar, o chamado “Oceanus Deck”. O mesmo andar do auditório do navio, onde ocorriam todas as palestras. É também o andar da recepção, pois é por aí que abordamos o navio quando ele atraca em algum porto (Buenos Aires, Port Stanley, nas Malvinas, e Ushuaia, no final da viagem). Um andar abaixo de nós, no “Main Deck”, está o restaurante para as três refeições. É também desse andar que abordamos os “Zodiacs”, que é o nome dos botes infláveis nos levam e trazem para terra firme ou passeios no mar. Mas o caminho para chegar até eles não é o mesmo do restaurante! A escada de acesso para lá fica na parte externa do Oceanus Deck.
Mapa de navegação na ponte de comando do Sea Spirit, no trecho entre Buenos Aires e as Ilhas Malvinas
Mapa de navegação na ponte de comando do Sea Spirit, no trecho entre Buenos Aires e as Ilhas Malvinas
Um andar acima do nosso é o chamado Club Deck, aquele que podemos dar a volta inteira pela parte externa do navio. Aí está o bar, a sala de estar e a biblioteca, tudo num mesmo ambiente, amplo e aconchegante. Tem até um piano de calda. É aí que ocorrem as animadas festas do navio e outros eventos sociais. Todas as tardes era servido café, chá e várias guloseimas para acompanhar. Certamente um dos locais prediletos do navio, seja para conversar, seja para ler. A biblioteca tem livros de todos os tipos, mas o forte realmente é a literatura sobre os polos, seja de aventura, exploração, científica, fotográfica ou puramente informativa.
Aproveitando as águas quentes da jacuzzi do Sea Spirit, enquanto a temperatura fica cada vez mais fria no trecho entre Buenos Aires e as Ilhas Malvinas
A Ana se esquenta na jacuzzi no trecho entre Buenos Aires e as Ilhas Malvinas
Por fim, um andar acima está o “Sports Deck”, onde está a pequena academia de ginástica e a jacuzzi ao ar livre. É também o andar que tem o deck ao ar livre mais amplo, local preferido para se esquentar ao sol ou observar a vida selvagem, como pássaros, baleias e golfinhos. Aí quase sempre estava o Jim, o nosso guia ornitólogo, sempre com seu binóculo e máquina fotográfica a nos apontar as muitas espécies de pássaros que vivem nesse mundo isolado. Também aí era servido, se as condições do tempo permitissem, um almoço mais light e com menos variedade. Mas muita gente se servia lá embaixo e vinha comer aqui em cima, simplesmente pelo prazer de estar ao ar livre, principalmente nos dias de sol e sem vento.
Rumo ao frio e ao sul, para lá segue o Sea Spirit um dia antes de chegarmos às Ilhas Malvinas
Nosso capitão observa os instrumentos da sala de controles do Sea Spirit, um dia antes de chegarmos às Ilhas Malvinas
Nessa andar também, mas no outro lado do navio, na proa, está a ponte de comando. Para chegar lá, passamos pelo corredor de acesso às cabines mais caras, aquelas com varanda que ninguém usa, e entramos pela porta que nunca está trancada (passageiros são benvindos!) para chegar a grande sala de comando, com uma linda e ampla vista do que segue adiante. A sala é cheia de aparelhos analógicos e digitais, muitas telas de informações, centenas de botões, mapas e cartas náuticas e sempre dois ou mais marinheiros, algumas vezes o próprio capitão, se revezando no comando da embarcação. São sempre simpáticos em nos responder as dúvidas e nos ensinar um pouco sobre a arte de navegar em mar aberto ou nos mostrar em algum mapa onde estamos, de onde viemos e para onde vamos, a qualquer hora do dia ou da noite.
Os instrumentos da sala de controles do Sea Spirit, um dia antes de chegarmos às Ilhas Malvinas
As telas do Sea Spirit anunciam a programação do dia 4/11, com palestras pela manhã, filmes e um coquetel de tarde e de noite
Enfim, é nesse ambiente que estamos vivendo. Acordamos cedo e, tanto na recepção como na biblioteca, já estão pequenos jornais com o resumo do que aconteceu no mundo no dia anterior. Tem versões focadas na Austrália, Inglaterra e Estados Unidos (muitos passageiros desses três países) e uma versão mundial. Também de manhã, as telas espalhadas pelo navio mostram a programação do dia. Tipicamente, café das 08:00 as 09:30 e almoço das 12:30 as 13:30, fartos e em sistema de buffet, sempre acompanhados de vinho branco e tinto e bebidas não alcóolicas. Saladas incrivelmente frescas (não sei a mágica...). Jantar as 19:30, em sistema a La Carte, com três opções de entrada, de principal e de sobremesa, de novo acompanhado pelos vinhos.
Buffet do nosso almoço no trecho entre Buenos Aires e as Ilhas Malvinas (foto da Rukimini)
Mesa de jantar um dia antes de chegarmos às Ilhas Malvinas
Durante a manhã, palestras sobre biologia, geologia ou história relacionados ao que estamos vendo naqueles dias. De tarde, a chance de observar a vida na natureza, sempre acompanhado de um guia para nos dar as explicações pertinentes. No auditório, algum filme de um festival de cinemas que está ocorrendo a bordo, uma (ótima!) experiência que estão fazendo pela primeira vez nessa nossa viagem. Enfim, como eu disse no início do post, uma programação intensa. Que temos a opção de acompanhar inteiramente, parcialmente ou ignorar, ficando lendo sossegado algum livro interessante na biblioteca ou no aconchego do quarto. Mas a nossa experiência foi que as palestras são muito interessantes e não devem ser perdidas. Nem a chance de se observar a vida selvagem lá do deck. A não ser que a jacuzzi esteja muito apetitosa...
Aproveitando as águas quentes da jacuzzi do Sea Spirit, enquanto a temperatura fica cada vez mais fria no trecho entre Buenos Aires e as Ilhas Malvinas
Um delicioso mergulho no Salto do Saci, na região de Antonina, litoral do Paraná
Chegamos ontem de noite à Antonina e foi simpatia à primeira vista. Antonina é uma cidade histórica paranaense às margens da baía de mesmo nome, na verdade um “pedaço” da Baía de Paranaguá. Eu já tinha estado uma vez na cidade, dez anos antes, e a imagem que tinha ficado não era boa. Por falta de cuidados e preservação, era uma cidade com sinais claros de decadência e abandono. Uma infelicidade, pois o potencial turístico e de beleza arquitetônica estava lá. Parece que descobriram isso nesse tempo em que não voltei, pois a cidade é outra, revitalizada e charmosa. Achamos um hotel delicioso para nós e fomos caminhar pelas ruas centenárias. Mas já estava escuro e mal pudemos fotografar.
Chegando de noite à Antonina, cidade histórica no litoral do Paraná
Iluminação noturna da igreja matriz de Antonina, no litoral do Paraná
Hoje pela manhã, saímos logo da cidade para nossa intensa programação do dia: Salto do Saci e uma visita à cidade vizinha de Morretes. Só retornamos de noite, novamente. Mas amanhã teremos tempos para, com calma, fotografar a cidade com a ajuda da luz do sol. Aí sim, faço um post sobre essa linda cidade cheia de histórias. Antes disso, vamos à última cachoeira dos 1000dias e ao famoso Barreado de Morretes.
Antiga construção em estrada na Mata Atlântica na região de Antonina, litoral do Paraná
A densa Mata Atlântica na região de Antonina, litoral do Paraná
Quando chegamos ontem de noite, a Ana ainda teve tempo de ligar para um amigo que mora na cidade, o Marcelo. Ele é dono de uma empresa de turismo, a Carona 4x4, e a Ana perguntou sobre passeios na região. Infelizmente, ele não está na cidade, mas pelo telefone mesmo recomendou muito que fôssemos a este Salto do Saci, uma bela cachoeira em plena Mata Atlântica. Não apenas recomendou, como também nos ensinou, passo a passo, a como chegar até lá. Uma estrada rústica de terra e barro e uma trilha no meio da mata. Estando de Fiona, não teríamos problemas. Enfim, uma última chance também de botar nossa companheira no meio do mato!
A Fiona enfrenta a rústica estrada na Mata Atlântica em direção ao Salto do Saci, na região de Antonina, litoral do Paraná
Seguindo suas instruções, deixamos o centro da cidade hoje cedo rumo ao Bairro Alto e aí pegamos uma estrada de terra que adentrava a região de Mata Atlântica. A estrada foi aberta décadas atrás e servia de suporte para a construção da Usina Hidrelétrica Parigot de Souza, a única central subterrânea do sul do país. A água canalizada atravessa a Serra do Mar em um túnel! A obra foi inaugurada em 1971 e, desde então, a manutenção na antiga estrada é mínima. Por isso, fazer esse programa em um carro alto e tracionado é muito mais seguro, especialmente na época das chuvas. Aliás, é bom lembrar, terra de Mata Atlântica é sempre terra muito úmida, com bastante chuva.
Depois de 40 min na trilha, chegando ao salto do Saci, região de Antonina, litoral do Paraná
O Salto do Saci, em meio à Mata Atlântica na região de Antonina, litoral do Paraná
A Fiona seguiu estrada acima tranquilamente, mesmo nos momentos em que o mato se fechava quase engolindo o caminho. Passamos por antigas construções abandonadas que hoje praticamente sumiram, escondidas pela densa vegetação. Finalmente, chegamos ao ponto onde o carro deveria ser deixado e encontramos a trilha para nos levar à cachoeira.
O Salto do Saci, em meio à Mata Atlântica na região de Antonina, litoral do Paraná
O Salto do Saci, em meio à Mata Atlântica na região de Antonina, litoral do Paraná
Foram pouco mais de trinta minutos em meio à mata úmida, trechos de barro e roupas ficando encharcadas. Mas o pior era não estar certos se aquela era mesmo a trilha a ser seguida. Não há indicações e estávamos confiando na descrição que o Marcelo havia feito para a Ana pelo telefone. Foi só quando começamos a ouvir o barulho da queda d’água que ficamos mais tranquilos. na verdade, até houve uns alarmes falsos antes disso, mas esse último “barulho” não deixava dúvidas: estava cada vez mais próximo e contundente!
felicidade ao chegar ao Salto do Saci, na região de Antonina, litoral do Paraná
Depois da trilha para chegar à cachoeira, admirando a Mata Atlãntica na região de Antonina, litoral do Paraná
De fato, mais uns poucos minutos e lá estava ele, o Salto do Saci! Uma legítima cachoeira de Mata Atlântica, toda cercada de verde exuberante. Linda, quase sinônimo de natureza saudável e intocada. Ficamos ali admirando aquela beleza toda, não só a própria queda d’água, mas também a mata ao seu redor e o riacho escorrendo entre pedras e troncos caídos. Aproveitamos também para descansar, as camisas molhadas por uma mistura de suor e água de chuva.
Riacho corta a Mata Atlântica na região de Antonina, litoral do Paraná
Riacho corta a Mata Atlântica na região de Antonina, litoral do Paraná
Depois, coragem para entrar na água. Ir até lá e não entrar seria um pecado. Mesmo com o tempo nublado e a água fria, não dá para resistir. A cachoeira forma uma pequena piscina em sua base e podemos entrar aos poucos, até nos acostumar com a temperatura. Depois, vira festa! Vamos até embaixo da ducha forte, lavamos o corpo, a alma e o espírito. Uma delícia!
Coragem para enfrentar a água fria e entrar no Salto do Saci, na região de Antonina, litoral do Paraná
Um delicioso mergulho no Salto do Saci, na região de Antonina, litoral do Paraná
Duro mesmo é pensar em voltar. Deixamos para trás aquele paraíso secreto e tão pouco conhecido e encaramos a trilha novamente. Caminho de volta é sempre mais curto que caminho de ida, principalmente quando o fazemos pela primeira vez. Não demorou e já estávamos na Fiona novamente, outra vez molhados pelo vapor de água que quase sempre permeia a Mata Atlântica. O esforço tinha aberto nosso apetite. Um estímulo a mais para irmos até Morretes e nos fartar com seu famoso barreado! Ahn... antes que eu me esqueça... não, não vimos nenhum saci! Apesar do quê, se eu fosse um saci, era ali mesmo que eu gostaria de morar!
Um delicioso mergulho no Salto do Saci, na região de Antonina, litoral do Paraná
Grand Canyon: grandiosidade de tirar o fôlego! (no Arizona, nos Estados Unidos)
O Grand Canyon não é nem o maior nem o mais profundo canyon do mundo, mas certamente é o mais famoso. Com mais de 400 quilômetros de comprimento e até 29 de largura, suas dimensões colossais impressionam qualquer pessoa que se aproxime de suas bordas. Por mais de 15 milhões de anos, o rio Colorado vem escavando através de diversas camadas de solo, desnudando cerca de dois bilhões de anos de história geológica da América do Norte, fazendo a alegria dos geólogos que tem ali o seu melhor laboratório de estudos do planeta. O clima do deserto não só preservou em perfeitas condições essas diversas camadas que agora podemos ver como também dá as cores amareladas e avermelhadas tão características do Grand canyon, algo que faz dele uma das mais belas e impressionantes paisagens da Terra.
A vista majestosa do Grand Canyon, no estado do Arizona, nos Estados Unidos
A vista majestosa do Grand Canyon, no estado do Arizona, nos Estados Unidos
Ao longo de milhões de anos, camada sobre camada de terreno foi se formando. Ao mesmo tempo, placas tectônicas se movimentavam e se chocavam, levantando montanhas e afundando continentes. O mar avançava e retrocedia até que, mais recentemente, um encontro de placas levantou toda essa área a mais de dois quilômetros de altitude, formando o Kaibab Plateau. Desde então, com uma paciência milenar, o rio Colorado e seus tributários vem escavando esse platô em seu caminho para o mar. Dependendo da época, se é mais úmida ou seca, do degelo de antigas geleiras ou de secas que podem durar décadas, o rio aumenta ou diminui de tamanho. Quanto mais água, mais rápida a erosão. Outro fator que determina essa velocidade é a camada de solo em que o rio se encontra. As rochas podem ser mais resistentes ou não, dependendo do processo de formação daquela camada específica. O rio Colorado já atravessou várias delas, deixando seu rastro de erosão nas paredes coloridas do canyon, cada cor ou tom representando uma camada e alguns milhões de anos de história.
Visitando a borda sul do Grand Canyon, no Arizona, nos Estados Unidos
Visitando a borda sul do Grand Canyon, no Arizona, nos Estados Unidos
Apenas no último piscar de olhos da história geológica chegou o ser humano por aqui. Isso representa alguns milhares de anos, que é o tempo em que nativos americanos aprenderam a viver nas condições nada fáceis do interior e arredores do canyon. Mais recente ainda é a “descoberta” do canyon para o mundo ocidental, o que aconteceu em meados do séc XVI por uma expedição espanhola. Mas, como não havia ouro por aqui, o canyon foi deixado para trás e, apenas duzentos anos mais tarde, passou a ser explorado novamente.
Muita neve na parte alta do Grand Canyon, no Arizona, nos Estados Unidos
Foi apenas em 1869 que um grupo liderado pelo major John Powell conseguiu atravessar todo o canyon pelo leito do rio Colorado, numa épica expedição que durou quase dez meses. Novos aventureiros se seguiram e, atrás deles, começaram a chegar os turistas. Um deles, o presidente americano Theodore Roosevelt, passou a lutar por sua preservação. Uma reserva foi criada em 1906, tornando-se parque nacional em 1919. Infelizmente, a proteção não veio a tempo de impedir que animais como lobos, águias e leões da montanha fossem exterminados dali. Ruim para eles, bom para veados, cervos e cabras montesas e coelhos, que perderam seus implacáveis inimigos.
Muita neve na parte alta do Grand Canyon, no Arizona, nos Estados Unidos
Ao menos, atividades como criação de animais e mineração foram proibidas e a beleza cênica do canyon continua indiscutível. Como estamos nos Estados Unidos, a infraestrutura para se conhecer e admirar essas belezas é invejável, assim como as possibilidades de fazê-lo. Pode ser no conforto do seu carro, num espetacular voo de helicóptero, caminhando sobre uma ponte de vidro que avança sobre o canyon ou fazendo um trekking até o interior do mesmo. Tudo depende do seu bolso e curiosidade.
Grand Canyon: grandiosidade de tirar o fôlego! (no Arizona, nos Estados Unidos)
O parque engloba os dois lados do canyon, mas é na parte sul, o South Rim, que está a melhor infraestrutura. Para lá vão a grande maioria dos milhões de turistas que visitam uma das sete maravilhas do mundo natural anualmente. São vários lodges quase na beirada do precipício, assim como restaurantes com uma vista de perder o fôlego. Uma trilha asfaltada também acompanha a borda do canyon por quilômetros, dando acesso a diversos mirantes com visões privilegiadas. Para quem quiser gastar um pouco menos, uma cidade perto da entrada do parque se desenvolveu, com várias opções de hospedagem e alimentação. Foi aí que nos hospedamos, ontem de noite, num concorrido hotel de rede. Dez minutos de Fiona e já estávamos na boca do canyon.
Grand Canyon: grandiosidade de tirar o fôlego! (no Arizona, nos Estados Unidos)
Hoje, tiramos o dia para percorrer as trilhas e a estrada que dão acesso aos mirantes do South Rim. Cada um mais belo e impressionante do que o outro. O inverno chegou com força aqui nesses últimos dias e nós tivemos uma bela amostra disso ontem de noite, com aqueles 17 graus negativos. Uma das consequências disso foi a neve que caiu na parte alta do canyon, pintando tudo de branco. Foi o bastante para fecharem o North Rim até a próxima primavera, mas aqui, do lado sul, tudo é mantido aberto o ano todo.
Turistas se aglomeram em um dos mirantes do Grand Canyon, no Arizona, nos Estados Unidos
A neve branca misturada com o terreno e as paredes vermelhas e amarelas conseguiu fazer uma paisagem já maravilhosa ficar ainda mais bonita. De mirante em mirante seguimos, nunca nos cansando de admirar e tirar fotos. A vontade que dá é sair voando por aquele infinito espaço vazio, como faziam as águias de antigamente. A opção para isso é fazer um dos voos de helicóptero, por pouco mais de 200 dólares.
Visita ao Parque Nacional do Grand Canyon, no Arizona, nos Estados Unidos
Vista do rio Colorado, no mirante conhecido como Desert View, na borda sul do Grand Canyon, no Arizona, nos Estados Unidos
Mas a nossa vontade era mais conhecer por baixo, pelo interior do que pelo ar. Para isso, a opção é botar o pé na trilha para enfrentar os cerca de mil metros de desnível entre a borda sul e o rio Colorado. Nosso medo era o frio, pois acampar a menos 17, ninguém merece. Mesmo querendo tanto usar nossa barraca nova, desse jeito estávamos quase desistindo dela e encarando o lodge que existe lá embaixo, opção bem mais cara. Outro medo era enfrentar o gelo e a neve da parte alta da trilha. Felizmente, uma conversa com o park ranger resolveu os dois problemas. Primeiro, a temperatura estava esquentando desde ontem e, embora ainda fosse negativa, não chegaria mais ao exagero de ontem. Segundo, lá embaixo é bem menos frio do que aqui e a previsão para a noite seguinte, perto do rio, era de apenas poucos graus negativos. Finalmente, o gelo do início da trilha poderia ser enfrentado com umas correntes com pregos que colocamos nos calçados. Poderíamos comprar isso no supermercado e, caso não as usássemos, poderíamos até devolvê-las e receber o dinheiro de volta. Coisa de país de 1º mundo...
Vista do rio Colorado, no mirante conhecido como Desert View, na borda sul do Grand Canyon, no Arizona, nos Estados Unidos
O sol ilumina as paredes do Grand Canyon, no Arizona, nos Estados Unidos
Então, estava resolvido! Amanhã, caminharíamos até o rio para acampar lá embaixo! Passamos num supermercado para comprar a comida e estávamos prontos para a aventura. Mas antes disso, ainda hoje, ainda fechamos o dia no mais belo mirante do lado sul do canyon, o Desert View. De lá, podemos até ver o rio lá embaixo, pois dos outros mirantes o Rio Colorado está escondido dentro do canyon interior. A luz do fim de tarde tornava as cores ainda mais belas, o vermelho e amarelo das enormes paredes mais vermelhos e mais amarelos. Uma visão absolutamente mágica, anda mais com a neve na parte alta e o grande deserto ao fundo, que é o que dá nome a este mirante.
A incrível paisagem do Grand Canyon, no Arizona, nos Estados Unidos
No mirante Desert View, é possível observar o rio Colorado no fundo do Grand Canyon, no Arizona, nos Estados Unidos
Amanhã cedo, então, pé na trilha. Logo cedo vamos passar no escritório que emite as permissões para se acampar, deixar a Fiona por lá e seguir de ônibus para o ponto inicial da trilha. Depois, para baixo todo santo ajuda, serão horas de caminhada tranquila e muitas fotografias. O tempo vai estar aberto e mal podemos esperar! Dezoito anos mais tarde e vou poder voltar ao fundo do Grand Canyon, dessa vez com tempo para desfrutar e na melhor companhia do mundo! Ahn... amanhã é 21 de Dezembro, dia do fim do mundo. Tem lugar mais especial para se estar num evento dessa envergadura? Aliás, também é o aniversário de 1000 dias da nossa viagem, Assunto para amanhã...
1000dias no Grand Canyon! (no Arizona, nos Estados Unidos)
Vista de Penedo - AL
Depois do passeio à foz do São Francisco, achamos um restaurante gostoso na beira do rio para comer um peixe e voltamos para a histórica Penedo.
Orla do rio São Francisco em Penedo - AL
Lá, mais fotos da cidade e suas igrejas. Infelizmente, chegamos tarde demais para visitar a Igreja NS das Correntes, vizinha da nossa pousada. O que mais me atraiu lá foi a existência de azulejos portugueses raros, com outras cores que não o azul, a cor tradicional. Com ela fechada, só pudemos fotografá-la por fora, ao lado da charmosa pousada em que ficamos. Um belo conjunto!
A Pousada Colonial e a Igreja NS das Correntes, em Penedo - AL
Depois da sessão de fotos, balsa para Sergipe. Mais uma vez, atravessamos o São Francisco. Logo logo estaremos com ele novamente, dessa vez nos famosos canyons acima da barragem de Xingó. Mas isso é para depois de visitarmos Aracaju e redondezas.
Nosso quarto na Pousada Colonial, em Penedo - AL
E foi para lá (ou cá!) que seguimos. Finalmente, iria conhecer essa capital, uma das poucas que ainda não conheço no Brasil. Na verdade, uma vez pousei por aqui, mas nem saí do avião. E outra vez, vi a cidade da BR, indo para Maceió. Nenhuma dessas conta, certo?
A Pousada Colonial e a Igreja NS das Correntes, em Penedo - AL
A Ana veio dirigindo e eu matutando. Em Aracaju, a gente se instalou no Hotel Jangadeiros, bem no centro. A cidade está bem vazia, sábado de natal. Amanhã teremos dia de explorações!
Atravessando o Velho Chico de balsa, em Penedo - AL
Nossos últimos dias em Mauá e em Itatiaia tiveram duas coisas em comum: foram muito interessantes e sem possibilidade de acesso á internet
No dia 20 passeamos com o Pedro, ìris, Bebel e Haroldo no Vale do Alcantilado em Mauá. Percorremos uma trilha com nove cachoeiras. Depois, juntos, assistimos ao jogo do Brasil.
No dia 21 viajamos para o Parque de Itatiaia mas não pudemos entrar no Parque pois já estava tarde. A gente se hospedou na deliciosa Pousada dos Lobos.
No dia 22 subimos o Pico das Agulhas Negras e viemos para Passa Quatro, onde já agendamos uma longa caminhada amanhã bem cedo até a Pedra da Mina, onde devemos acampar e dormir na noite do dia 23, a quase 2.800 metros de altitude.
No dia 24 voltamos para cá e finalmente teremos internet e tempo para postar textos e fotos. Muitas fotos legais que já temos e outras que vamos fazer nessa linda caminhada
Abs a todos
Rodrigo
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