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MARCELO VILLELA (18/06)
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Paulo Pereira (17/06)
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Visitá à Universidade de Harvard, em Boston, em Massachusetts - Estados Unidos
Hoje o nosso caminho de metrô era mais curto. Apenas duas estações nos levaram até Harvard Square, o centro nevrálgico da vizinhança onde está a mais famosa universidade do mundo.
Caminhando pelo campus de Harvard, a famosa universidade em Boston, capital de Massachusetts, nos Estados Unidos
Harvard foi criada em 1636, o que a faz a mais antiga universidade dos Estados Unidos. A criação de um instituto de ensino superior apenas uma geração mais tarde que a chegada dos primeiros peregrinos ao novo continente mostra bem que eles não vieram para cá para explorar, fazer dinheiro e voltar para casa, como foi o caso de boa parte da colonização da América Latina. Ao contrário, vieram mesmo para ficar e desde o início tomaram os passos necessários para construir uma grande nação.
Momento de descanso nos jardins de Harvard, depois de caminhada pela famosa universidade em Boston, capital de Massachusetts, nos Estados Unidos
Três anos após a criação do “New College”, a universidade foi rebatizada “Harvard”. Uma homenagem ao seu primeiro grande doador, o religioso John Harvard, graduado em Cambridge, na Inglaterra, que doou para a instituição toda a sua vasta biblioteca de 400 livros. Mal sabia ele que seu nome seria, para sempre, associado com excelência em estudos e pesquisas. Hoje, sua estátua no campus da universidade é ponto obrigatório de visitas e fotografias de estudantes do mundo inteiro, muitos deles sonhando em serem aceitos na prestigiosa universidade.
A estátua de John Harvard, local de peregrinação de estudantes de todo o mundo, na famosa universidade em Boston, capital de Massachusetts, nos Estados Unidos
Estátua de John Harvard, o primeiro grande doador para a universidade que leva o seu nome, em Boston, em Massachusetts - Estados Unidos
De doação em doação, a universidade foi crescendo, aumentando seus cursos, se qualificando, até se tornar o que é hoje, com cerca de 2.500 professores e 20 mil estudantes. Passaram por aqui diversos futuros presidentes americanos, como os Roosevelt, Kennedy e Obama, além de presidentes de vários outros países, como Colômbia, Chile e Costa Rica; gente “pobre”, como Bill Gates, poetas como T.S Elliot, enfim, gente famosa em todos os aspectos da vida humana, como físicos, biólogos, atores e diretores de cinema, etc...
Interior pomposo de prédio da Universidade de Harvard, em Boston, capital de Massachusetts, nos Estados Unidos
O campus é cheio de jardins e praças, cercado por prédios pomposos ou “modernosos”. Confesso que fiquei mais impressionado com o campus de Princeton, outro celeiro de prêmios Nobel, mas foi uma delícia caminhar com a afilhada e esposa por esse lugar que transborda ciência e conhecimento. Junto conosco, estudantes de todo o país e também de muito longe, muitos se preparando para tentar ser admitidos na universidade, um verdadeiro passaporte para um futuro promissor. Fiz no meu papel de tio e atazanei a Bebel para que, também ela, ficasse com vontade de estudar por aqui. Ele não pareceu se animar muito, não, mas quem sabe, lá no fundo, foi plantada aquela sementinha, hehehe!
Em dia de chuva, visita à Trinity Church, em Boston, em Massachusetts - Estados Unidos
Voltamos então para nosso Inn, empacotamos a Fiona e seguimos para o centro da cidade. Não queríamos deixar Boston sem conhecer o que é considerado como um dos 10 prédios mais belos do país. Falo da Trinity Church, um colosso arquitetônico no coração da cidade. Não sei se foi por causa da chuva, ou do fato que a entrada é cobrada, mas o ponto é que entramos e éramos os únicos visitantes dentro daquele prédio magnífico. Enquanto eu e a Ana caminhávamos pelos corredores e admirávamos os vitrais e altares, a Bebel aproveitou o enorme espaço para cantarolar, se divertindo com o eco que reverberava pelas colunas e o alto teto do vão central. Apenas quando entraram outros turistas é que o tio teve de reprimir a sobrinha querida, distraída em sua própria voz.
O magnífico interior da Trinity Church, em Boston, Massachusetts - Estados Unidos
Agora sim, estávamos prontos para deixar a cidade. Fica aquela vontade de passar uma temporada por aqui, não como turista, mas como morador. Aí sim, com o tempo necessário para explorar suas ruas, restaurantes, lojas, museus, praças, museus e recantos perdidos e charmosos em cada uma de suas muitas vizinhanças. Quem sabe daqui a alguns anos, quando a afilhada vir estudar por aqui...
Os belos vitrais da Trinity Church, em Boston, em Massachusetts - Estados Unidos
Nosso destino agora era a península cheia de praias que atrai ricos e famosos da costa nordeste dos EUA, principalmente durante o verão. Cape Cod é famosa por sua beleza, pela qualidade de seus restaurantes, pelo luxo de suas mansões, mas também pelos terríveis congestionamentos que se formam para chegar até lá.
O altar da famosa Trinity Church, em Boston, em Massachusetts - Estados Unidos
Felizmente, ainda é uma quarta-feira e chegamos antes da turba. O congestionamento já estava lá, mas ainda bem pequeno, nada que alguém que já tenha passado pelo litoral norte de São Paulo na alta estação não tire de letra. Chegamos juntos com a noite e nos instalamos na pequena Falmouth, cidade logo no início da famosa península e um dos pontos de onde saem ferries para a ilha de Marta Vineyard. Teremos dois dias por aqui, uma para percorrer a península em busca das praias que atraem tantos americanos e o outro para fazer uma visita à ilha. Relatos nos próximos posts!
A peninsula de Cape Cod, no sul de Massachusetts
As incríveis paisagens do Monument Valley, no Arizona, nos Estados Unidos
Hoje foi o dia de visitar a paisagem mais cinematográfica, literalmente, dos Estados Unidos. Estou falando do Monument Valley, que tantas vezes apareceu em filmes de Hollywood, propagandas de TV e até mesmo em desenhos animados. Quem não gostava de assistir, na infância, ao velocíssimo Papaléguas dando um baile no pobre coiote? Pois é, era aqui o cenário em que essas duas personagens travavam sua eterna luta de perseguição que terminava sempre com o coiote caindo de algum precipício ou sendo atropelado por algum trem. O coiote não tinha muita sorte, mas ao menos, tinha o dom da imortalidade!
Chegando ao Monument Valley, no Arizona, nos Estados Unidos
Chegando ao Monument Valley, no Arizona, nos Estados Unidos
Quanto à Hollywood, esse era o cenário clássico dos filmes de faroeste. John Wayne, solitário, cavalgando em sua montaria ou acampado ao lado de uma fogueira, o céu estrelado iluminando as enormes formações rochosas do Monument Valley. Aliás, era sempre preciso tomar cuidado pois, de trás de alguma delas, poderia aparecer um bando de índios selvagens e sanguinários.
Cartaz do famoso filme "No Tempo das Diligências", em exposição no Museu Navajo, no Monument Valley, no Arizona, nos Estados Unidos
Enfim, mesmo que inconscientemente, todos crescemos com esse cenário em nossas mentes. Eu já tinha passado por aqui uma vez, há 18 anos, bem rapidamente. Mas a Ana e a Fiona não conheciam e a gente jamais cogitou sair dos Estados Unidos sem passarmos por aqui. No ano passado, passamos pertinho, um pouco mais para o sul, na nossa corrida para atravessar o país. Agora, na nossa volta ao Arizona, já apontando nossos narizes para o México, era chegada a hora de atravessarmos o famoso Monument Valley.
Muita neve nessa época do ano no Monument Valley, no Arizona, nos Estados Unidos
Formação conhecida como "Three Sisters", no Monument Valley, no Arizona, nos Estados Unidos
Conforme expliquei no post anterior, o Monument Valley fica em pleno território Navajo e é por eles administrado. Eles tem vivido na área há mais de 600 anos e era justamente esse vale a área mais sagrada de seu vasto território. Hoje, é possível admirar essa grandiosidade toda da estrada de asfalto que corta a região, mas é quando nos aproximamos mais e entramos na área administrada pelos Navajo é que temos a visão mais clássica e bela dessa terra grandiosa. Vários mirantes e uma estrada de terra em forma de loop nos levam a pontos privilegiados para melhor admirar o maior estúdio a céu aberto de Hollywwod.
A visão clássica do Monument Valley, nessa época com neve, no Arizona, nos Estados Unidos
As belas paisagens do Monument Valley, no Arizona, nos Estados Unidos
Embora a imagem que tenhamos desse lugar seja de um grande deserto avermelhado, nessa época do ano a neve também se faz presente. Pois é, até aqui! E como em todos os outros lugares que estivemos desde que saímos de Los Angeles, ela só faz a paisagem ficar ainda mais bonita, adicionando cores e reflexos ao cenário. A temperatura próxima de zero grau e a data logo em seguida ao natal faz com que poucos turistas estejam por aqui, tão longe de qualquer cidade grande.
A Fiona visita o Monument Valley, no Arizona, nos Estados Unidos
A Fiona visita o Monument Valley, no Arizona, nos Estados Unidos
Depois da nossa interessante visita ao Museu da Nação Navajo, de que trato no post anterior, passamos cerca de duas horas dando a volta de 27 quilômetros ao redor do parque. Até por estar sob administração indígena e não do governo americano, a estrada é bem mais rudimentar do que estamos acostumados aqui nos EUA. É de terra ou areia, cheia de buracos e seu estado torna o passeio bem mais autêntico. Diante de tanta beleza e grandiosidade, a gente nem percebe as dificuldades da estrada e, quando percebemos, já estamos em outro mirante fotografando as formações à nossa frente.
Visitando o cinematográfico Monument Valley, no Arizona, nos Estados Unidos
Fruto do trabalho de dezenas de milhares de anos de erosão pela água, gelo e ar sobre um solo que se formou ao longo de milhões de anos de sedimentação, camada geológica sobre camada geológica, essas formações rochosas são a marca do Monument Valley. O Mexican Hat, as Three Sisters, o Elephant Butte ou qualquer uma das dezenas de formações, todas elas fruto da imaginação humana em tentar descrever as caprichosas formas da natureza, são como um ímã para os nossos olhos e um mistério para o nossos cérebro. Conforme vamos dando a volta na estrada, nós as vemos de diferentes ângulos, cada um deles digno de muitas fotografias.
Admirando a beleza cênica do Monument Valley, no Arizona, nos Estados Unidos
Basta alguns minutos por lá para entendermos porque os Navajos consideram aquilo uma área sagrada. Afinal, não há melhor maneira de descrevê-la do que como um jardim dos deuses, dado o gigantismo de tudo o que vemos por ali, a altura dos monumentos variando de 30 até quase 500 metros de altura. Essa região é o sonho de qualquer rock climber!
1000dias no Monument Valley, no Arizona, nos Estados Unidos
Depois de muitas e muitas dezenas de fotos, algumas das quais certamente se tornarão emblemáticas da nossa jornada de 1000dias, era a hora de partir. Mais uma vez eu deixaria o Monument Valley para trás. Mas não vai demorar muito para nos revermos. Tenho certeza que, muito em breve, ele figurará em algum novo filme de cinema. Quem não quer filmar por aqui? Que o digam Tom Cruise ou Tom Hanks e até o almirante Kirk. Ou então, na próxima vez que eu passar casualmente na frente de uma TV sintonizada no Cartoon, alguma criança hipnotizada por aquele “bip-bip” tão característico do Papaléguas. Não será apenas a criança a ficar hipnotizada...
Dirigindo nas estradas do Colorado, nos Estados Unidos, durante o pôr-do-sol
Dirigindo nas estradas do Colorado, nos Estados Unidos, durante o pôr-do-sol
Fomos nos afastando, o sol se pondo no nosso retrovisor, as gigantescas formações rochosas ficando menores e menores. Cena típica de um road movie, o que tem sido a nossa vida nesses últimos anos. Felizmente, esse nosso filme tem vários capítulos e, enquanto esse do Monument Valley se acabava, um outro começava à nossa frente. Eram as montanhas conhecidas como Mesa Verde, já no estado do Colorado, que cresciam no horizonte.
Chegando ao Mesa Verde National Park, no Colorado, nos Estados Unidos
Praia do Sancho vista do avião, em Fernando de Noronha - PE
Nosso avião para Noronha estava marcado para às 12:50 e nós estávamos a apenas 80 km de Recife, em Gravatá. Mas ainda tínhamos um longo caminho... Eu queria alinhar e balancear a Fiona numa ofina em Boa Viagem. Ali do lado, a Ana encontrou pela internet um salão. E ainda tinha Sony para consertar, lá em Santo Amaro. Felizmente, para surpresa nossa, ela voltou a funcionar e nós pudemos cortar esse "pequeno desvio".
Mesmo antes de sair, ainda tínhamos de rearrumar o carro e empacotar nosso material de mergulho que seguiria para Noronha. Foi uma corrida! O resultado foi que a Ana chegou atrasada ao salão e só pôde fazer metade do que queria. A oficina da Fiona estava sem luz, assim como todo o quarteirão e a Fiona continua meio tortinha. Vamos ter de resolver isso na volta. E eu e a Ana nos desencontramos e só fomos nos ver novamente já no aeroporto. Apenas contratempos menores perto da grande alegria de estar sentado num avião rumo à Fernando de Noronha!
Será minha quarta vez neste arquipélago maravilhoso. Para quem gosta de mergulhos, é o paraíso. Para quem gosta de praias bonitas, é o lugar certo. Para quem gosta de calma e tranquiidade, esta época ainda é o tempo certo. Enfim, não tem como não voltar, principalmente para que deseja ir aos pontos mais bonitos do continente em 1000dias.
Chegando em Fernando de Noronha - PE
Desta vez viemos de Gol, num avião maior. A desvantagem de estar num avião de grande porte é que ele não dá aquela tradicional volta na ilha, com fazem os aviões da Trip, onde podemos admirar toda a ilha e suas praias. Uma pena! Mas o pequeno e charmoso aeroporto continua o mesmo e lá encontramos com meu primo Haroldo que já nos encontrou em outros pontos dessa jornada, como em Maresias e em Mauá e que vai passar os seis dias de Noronha conosco.
Ainda tivemos tempo de aproveitar o final da tarde nas praias do Meio e da Conceição e passar na Noronha Divers para marcar nossos mergulhos de amanhã. De noite, jantar gostoso e muito caro, como quase tudo por aqui, num restaurante italiano. A partir de amanhã, certamente muitas fotos e muitas histórias desta ilha maravilhosa.
Com o Gêra e o Antônio em São Carlos - SP
A manhã começou bem preguiçosa em São Carlos, friozinho gostoso de ficar na cama. Aliás, desde Rio Verde a gente já vem se acostumando com o frio que deve ser nosso companheiro nos próximos meses. Até Ribeirão Preto estava fria!!! Imagina Curitiba... Imagina a Bolívia a 5 mil metros de altura! Brrrrrrrrrr...
Com os sobrinhos João Pedro e Antônio, em São Carlos - SP
De volta à São Carlos, a manhã se estendeu comigo atazanando o Antônio, brincando com a Lola (a cadelinha) e batendo papo com a Lalau. Mais tarde, Gêra e João se uniram à nós mas, infelizmente, era tempo de ir, iniciar a longa viagem até Tibagi, no Paraná.
Cruzando um rio Tietê já bem mais limpo, no interior de São Paulo, próximo à Jaú
Seguimos pelo interior, passando por cidades como Jaú e Bauru e até pelo rio Tietê, neste ponto bem mais bonito e limpo do que quando cruza a capital do estado. Incrível o poder de renovação da água, um rio que parece morto ganha vida novamente, pouco mais de uma centena de quilômetros à frente. Outro lugar interessante que passamos foi o centro geodésico de São Paulo, marcado por um pequeno monumento sem muitas informações. Bom, estávamos na metade de São Paulo, no meio do caminho de volta ao Paraná!
Cruzando um rio Tietê já bem mais limpo, no interior de São Paulo, próximo à Jaú
E já era noite quando chegamos à pequena Tibagi, pacata cidade de carnaval muito agitado, principal base para se explorar uma das maravilhas naturais do estado e do país, o canyon do Guartelá. Belo programa para amanhã, após uma confortável noite em quarto aquecido. O sonhos serão facilitados pelo vinho que tomamos antecipando o dia dos namorados e comemorando a volta ao estado de onde iniciamos nossas peripécias há 440 dias!
Magnífica lua cheia no Valle de la Luna, em San Pedro de Atacama - Chile
Chegamos em San Pedro em pleno feriadão chileno. Assim, a cidade estava cheia de turistas chilenos e encontrar hotel não foi tarefa fácil. Nem para nós nem para os outros turistas desavisados, vários deles brasileiros, que chegaram sem alguma reserva. Achamos um hotel, o La Ruca, que tinha quarto para hoje apenas. Depois, só na segunda-feira, final do feriado. No sábado e domingo, mudaremos para outro que a própria menina do La Ruca nos ajudou a achar.
A bela igreja de San Pedro de Atacama - Chile
Resolvido a moradia, passamos ao estômago. A cidade é cheia de restaurantes, principalmente na rua Caracoles. O centro, com sua praça e sua rua peatonal é facilmente percorrido à pé. Ruas de terra, casas de adobe e todos os restaurantes com grandes áreas sem teto, já que por aqui raramente chove. Achamos um lugar jóia para comer e, bem alimentados, caminhamos pela cidade atrás de caixas automáticos e atrações turísticas, como a simpática igreja pintada de branco e com a parte interna feita de cardon (cactus).
Caminhando na praça de San Pedro de Atacama - Chile
Enfim, já com o final de tarde se aproximando, começamos nossas explorações do entorno da cidade e do deserto, que é justamente o que atrai turistas do mundo inteiro para cá. O local escolhido foi o Valle de La Luna, a poucos quilômetros do centro de San Pedro e para onde alguns corajosos vão de bicicleta. São várias as atrações dentro desse parque, inclusive o mais tradicional programa turístico do Atacama: assistir ao pôr-do-sol de cima das enormes dunas do deserto.
Uma das dezenas de agências de turismo em San Pedro de Atacama - Chile
Nós fomos de carro mesmo e assim ainda tivemos tempo de percorrer outras atrações do vale. A estrada faz um circuito que passa pelas atrações cênicas, formações rochosas distintas e mirantes que nos dão magníficas visões do deserto. Nosso único trabalho é tentar driblar as hordas de turistas.
Paisagem desértica do Valle de la Luna, em San Pedro de Atacama - Chile
A absoluta maioria deles chega no Atacama sem condução própria e quase todos passam a conhecer as atrações através das agências que oferecem dezenas de tours. A exceção são algumas atrações mais próximas em que alguns turistas mais "aventureiros" chegam de bicicleta. Mais sorte tem aqueles que estão de Fiona e podem fugir das vans e ônibus carregados de turistas, quase todos chegando ao mesmo lugar ao mesmo tempo, sem precisar pedalar por quilômetros à fio sob o forte sol do deserto.
Filmando o pôr-do-sol no Valle de la Luna, em San Pedro de Atacama - Chile
A gente chegou meio tarde ao parque e demos uma volta pelo vale até as "Três Marias" enquanto os ônibus e vans já levavam seus clientes para as dunas. Mas nossa paz não durou muito já que não queríamos perder o pôr-do-sol também. Aí, não teve jeito, lá fomos nós para o meio da multidão assistir a esse duplo espetaculo da natureza: o sol se pondo de um lado e a lua cheia nascendo do outro. O primeiro nos lembrou muito nossa querida Jericoacoara, pela duna, pelo astro e pela multidão. Muito lindo por aqui mas em Jeri é ainda mais bonito. O segundo, para esse não há palavras... Que coisa mais maravilhosa é a lua sobre o deserto!
Assistindo o pôr-do-sol no Valle de la Luna, em San Pedro de Atacama - Chile. A lua cheia, atrás, é testemunha!
Fim de festa para quase todos os turistas, já que suas vans e ônibus tem seus horários a cumprir. Mas não para nós, pois a Fiona é bem mais relaxada com as horas. Seguimos para outra das grandes atrações do vale, um canyon com várias cavernas cavadas pela água em meio ao solo rico em sal. Naquela hora, éramos apenas nós e mais dois ciclistas que também não dependiam das agências. Aproveitamos as últimas luzes no céu para entrar nas cavernas, já que tínhamos deixado nossas lanternas no carro (ufff!). São verdadeiros túneis se esgueirando por entre barrancos, a claridade entrando aqui e ali através de pequenas aberturas. Mas, fim do dia, fim da luz, as cavernas já estavam escuras como breu em algumas partes. Tivemos que sair no meio do caminho, por uma rota alternativa, enquanto os ciclistas, com suas lanternas, puderam seguir até o fim.
Início da noite no Valle de la Luna, em San Pedro de Atacama - Chile
Agora, já no lado de fora das cavernas, mas ainda dentro do canyon, decidimos continuar nosso passeio. A lua cheia seria nosso guia. Nossa... que caminhada mais incrível nós tivemos! A largura do canyon varia de poucos metros a uns vinte, enquanto suas paredes tem outros vinte de altura. Àquela hora, talvez devido à diferença de temperatura entre o dia e a noite, as rochas e paredes estalavam a todo momento, preenchendo o silêncio da noite com barulhos e ecos. A noite, como já disse, era iluminda pelo mais puro luar prateado de uma lua cheia que fazia sombras tão fortes como se fosse dia. Percorremos quase um quilômetro de canyon, sempre imaginando o que nos esperava depois da próxima curva de canyon, sentidos aguçados ao máximo. Finalmente, depois de mais uma curva, lá estava uma enorme duna de areia. Enquanto na duna do pôr-do-sol só podíamos pisar dentro de uma trilha demarcada e, mesmo assim, dividir aquele exíguo espaço com outras centenas de pessoas, agora essa duna era nossa, toda nossa. Quer dizer, nossa, da lua maravilhosa acima de nós e das dezenas de espíritos e entidades que nos acompanharam naquela nossa caminhada pelo canyon. Foi realmente muito especial! A melhor boas vindas que esse deserto poderia nos oferecer.
Noite de lua cheia no Valle de la Luna, em San Pedro de Atacama - Chile
Depois de algum tempo admirando a lua e a chuva de meteoros no céu estrelado do deserto (estrelado mesmo com lua cheia!), era hora de voltar. Que mais de bom poderia nos acontecer? Pois é, depois dessa experiência, difícil imaginar alguma coisa. E não é que, jantando num gostoso restaurante conhecemos uma importante repórter de uma grande rede de TV brasileira? Quem sabe não sai alguma coisa desse encontro? Bom, mesmo que não saia, foi uma gostosa conversa. E para amanhã, mais deserto, que nós só estamos começando nossas explorações desse lugar mágico chamado Atacama...
A lua cheia ilumina o canyon no Valle de la Luna, em San Pedro de Atacama - Chile
Fim de tarde bo deserto Vizcaíno, na Baja California - México
Acordamos hoje deliciosamente instalados na cama do nosso (ex) bordel preferido, o Hotel Frances, em Santa Rosalía. Vencida a preguiça, levantamos, abrimos a porta do quarto que dá para uma enorme varanda e demos de cara com a vista maravilhosa do mar à nossa frente e da cidade abaixo de nós. A mesma vista que tinham as antigas moradoras desse lugar. Como será que era a vida delas?
A enorme varanda e a bela vista do Hotel Frances, em Santa Rosalía, na Baja California - México
O nosso café da manhã foi servido no antigo saloon do estabelecimento, igualzinho aos dos filmes de cawboy. Mas ao invés de tomarmos a famosa dose de uísque cawboy, ficamos no copo de chá mesmo. A todo momento parecia que o John Wayne entraria pela porta, ou alguma mulher de reputação duvidosa desceria pela escadas, mas isso ficou só na imaginação mesmo. Se pudéssemos viajar no tempo...
Café da manhã no antigo saloon do Hotel Frances, em Santa Rosalía, na Baja California - México
Empacotamos a Fiona e descemos para a cidade, para uma última olhada rápida e algumas fotos, já que ontem estava escuro quando chegamos. Mas, logo na primeira volta, encontramos um chaveiro. Já faz tempo que a fechadura da nossa capota da caçamba é só psicológica (ainda bem que ninguém sabe disso!) e era uma boa hora para consertá-la. Assim, enquanto a Fiona ficou lá de molho, eu e a Ana pudemos passear tranquilamente por essa cidade de faroeste e até almoçar.
Cenário de faroeste com carros em Santa Rosalía, na Baja California - México
A arquitetura de Santa Rosalía realmente lembra essas cidades dos filmes de John Ford. A gente já tinha visto uma igual, lá no deserto de Atacama, uma antiga cidade mineira também. Só que lá a cidade foi toda transformada num museu, ninguém mais mora ali. Aqui não, continua uma cidade normal, com seu ritmo cotidiano de vida. Muito interessante!
A Fiona em Santa Rosalía, na Baja California - México
O principal prédio é a igreja Santa Bárbara, desenhada e construída por ninguém menos que Alexander Eiffel, o mesmo da famosa torre parisiense. A igreja esteve exposta na Feira Internacional de Paris, quando foi inaugurada a famosa torre. Ganhou um prémio pelo design inovador. Depois, desmontada, foi parar num depósito na França. O dono da companhia mineira aqui de Santa Rosalía era francês e resolveu trazer a igreja para cá. Com uma reforma ou outra, continua de pé, orgulhando os habitantes da cidade.
A igreja irmã da Torre Eiffel, em Santa Rosalía, na Baja California - México
A fechadura da Fiona finalmente ficou pronta e a gente se despediu da cidade e também do Mar de Cortez, que não vamos mais ver nessa viagem. Adiós, amigo!
Nossa última visão do Mar de Cortez, na orla de Santa Rosalía, na Baja California - México
A gente seguiu para o meio do deserto, seguindo a fronteira do parque que protege essa maravilha natural, o enorme Deserto Vizcaino. Nessa época do ano, ele está florido, o que o ainda faz mais belo. Pois é, para que acha que deserto só tem cactos, deveria vir passear por aqui...
Atravessando o deserto na estrada entre Santa Rosalía e San Ignacio, na Baja California - México
A gente seguiu até a cidade de San ignacio, que também cresceu ao redor de uma antiga missão jesuítica. Vamos usar a cidade como base para explorar o deserto, suas paisagens maravilhosas e uma outra atração: algumas das mais belas pinturas rupestres do mundo.
Época de deserto florido na Baja California - México (estrada entre Santa Rosalía e San Ignacio)
caminhando em bela alamenda na Pionner Square, no centro de Seattle, no estado de Washington, nos Estados Unidos
Os primeiros brancos se estabeleceram na área onde hoje fica a cidade de Seattle por volta de 1850, pouco mais de meio século após o explorador George Vancouver passar por lá. Quem viu o grande explorador e seus estranhos barcos navegarem pelo Puget Sound (um braço do Oceano Pacífico) foi um jovem menino índio, ainda na sua terna infância. Apesar da pouca idade, nunca mais o pequeno Si’ahl esqueceu daquela imagem.
A única foto existente de Chief Seattle, um ano antes de sua morte, durante visita à cidade que já tinha o seu nome (no estado de Washington, nos EUA)
Agora, 50 anos mais tarde, Si’ahl era um dos principais chefes indígenas daquela região cheia de tribos e etnias distintas. Os colonizadores brancos ocidentalizaram seu nome para “Seattle” e mantinham com ele relações de amizade. Foi isso que fez com que “Chief Seattle” não aliasse seu povo às outras tribos indígenas (muitas delas, inimigas por várias gerações) na sua luta contra os invasores cara-pálidas. A aliança indígena perdeu a guerra e foram todos enviados às “reservations” criadas pelo governo branco para os índios. Para lá também seria enviado o povo de Chief Seattle, para compartir a mesma terra com seus inimigos milenares. Afinal, na mentalidade branca, os índios eram um povo só, e eles que se entendessem dentro das reservas. Novamente, os amigos brancos de Chief Seattle conseguiram impedir uma barbaridade dessas, mas de qualquer maneira, o seu povo também foi confinado em uma outa reserva. Já nessa época, em 1860, a região passou a ser chamada de Seattle, justa homenagem ao chefe índio que sempre procurou uma política de apaziguamento com os brancos. Em 1869 a cidade foi, enfim, reconhecida como tal. Manteve o nome, três anos após a morte do velho líder.
Pronta para abraçar um totem na Pinner Square, centro de Seattle, no estado de Washington, nos Estados Unidos
Artista de rua no centro de Seattle, no estado de Washington, nos Estados Unidos
A partir daí, começou a crescer e viver num sistema de ciclos, grandes booms seguidos de crises agudas. O primeiro boom veio da exploração da madeira. A mesma madeira usada para construir toda a cidade, que ardeu em chamas num grande incêndio em 1889. A cidade já vinha de uma crise, onde a minoria asiática (chineses) sofria com o forte racismo provocado pelos trabalhadores brancos desempregados. Mas a tragédia resultou em novo boom de construções, uma nova cidade refeita sobre os escombros da antiga. Aliás, uma das maiores atrações turísticas da Seattle de hoje é um tour subterrâneo pela cidade antiga, literalmente sob as praças e prédios da cidade nova. Esse novo boom não durou muito, pois a grande depressão de 1893 quase levou todo o país à bancarrota, a jovem cidade entre as mais atingidas pela crise econômica.
Capa de jornal com a histórica manchete da descoberta de ouro no Yukon (Museu da Klondike Gold Rush, em Seattle, no estado de Washington, nos Estados Unidos)
Foi quando uma descoberta mais de mil quilômetros ao norte mudou para sempre a história de Seattle. Estou falando do ouro de Klondike, lá no Yukon, que gerou a mais famosa corrida do ouro da história. Já tratei da Klondike Gold Rush em outros posts, quando passamos por Dawson e pelo litoral sul do Alaska. Mas aqui, em visita ao museu, vimos a mesma história de um ângulo diferente.
A cidade soube se aproveitar da corrida do ouro! (Museu da Klondike Gold Rush, em Seattle, no estado de Washington, nos Estados Unidos)
A cidade vivia em plena crise econômica. Boatos esparsos de uma grande descoberta de ouro circulavam. Foi quando um navio vindo do Alaska anunciou sua chegada. Um repórter mais proativo pagou um barco mais rápido para levá-lo até o navio antes que ele aportasse. Ali, ele entrevistou mineiros, constatou a veracidade da descoberta e, na manhã seguinte, seu jornal estampava, em letras garrafais: “GOLD! GOLD! GOLD!”. No dia seguinte, eram os jornais de todo o país. Foi o bastante para que se esgotassem todas as passagens possíveis em barcos seguindo para o norte. Foi, literalmente, uma questão de horas.
Mantimentos obrigatórios para quem quisesse entrar no Canadá durante a corrida do ouro (Museu da Klondike Gold Rush, em Seattle, no estado de Washington, nos Estados Unidos)
O resultado dessa corrida, já falei em outros posts. Apenas uma minoria da minoria conseguiu fazer dinheiro com ouro. Mas vários o fizeram prestando serviços ou vendendo mercadorias para aqueles que buscavam o metal dourado. E quem mais capitalizou com essa febre foi a própria cidade de Seattle, propagandeando país afora a cidade como o destino inicial para o Alaska, o ponto onde se comprariam mantimentos e se fariam os preparativos. Foi o início de um novo boom econômico.
Poucos garimpeiros se deram bem na corrida do ouro (Museu da Klondike Gold Rush, em Seattle, no estado de Washington, nos Estados Unidos)
A febre passou, mas a cidade já estava revitalizada, pronta para os novos ciclos que viriam. Por exemplo, uma longa greve nos portos tiraram de Seattle boa parte do fluxo comercial que passava por ali, levando para o rival porto de Los Angeles. Nova crise! Do mar para o ar, foi aqui que nasceu e cresceu a maior empresa de aviação do país e do mundo, a Boeing. Tão grande e tão forte que passou a influenciar a economia da cidade. Quando estava bem, toda a cidade ia bem, quando estava mal, toda a cidade estava mal. Nós ainda vamos lá na fábrica da Boeing para aprender e contar um pouco dessa história...
A roda gigante na orla de Seattle, no estado de Washington, nos Estados Unidos
Foi para fugir um pouco dessa dependência de uma só indústria que a cidade tudo investiu numa grande feira no início da década de 60. A Space Needle foi construída justamente aí, atraindo milhões de visitantes apenas no seu primeiro ano de existência. Desde então, a indústria do turismo não parou mais de crescer...
Museu de Artes de Seattle, no estado de Washington, nos Estados Unidos
Quem, aos onze anos, como prêmio de um concurso de ciências, pôde almoçar no restaurante giratório no alto da Space Needle foi um promissor garoto da cidade. Seu nome, Bill Gates, e a empresa que fundaria mais tarde, a Microsoft, ajudaria também a ampliar o espectro econômico da cidade, da aviação para o software.
REI, quase uma instituição em Seattle, no estado de Washington, nos Estados Unidos
Compras na REI, loja de Outdoors em Seattle, no estado de Washington, nos Estados Unidos
Não com a mesma força econômica, mas certamente com influência para mudar a imagem que se tem de Seattle, é a indústria e as atividades relacionadas à aventura, ou outdoors. Localizada próxima à diversos parques nacionais e regiões selvagens, Seattle é uma meca das pessoas que gostam de montanhismo, cross-country e outras aventuras. Não é a toa que também nasceu na cidade uma das melhores cadeias de lojas nesse setor, a REI. Foi uma de suas lojas que nos fez sair do hotel em dia de intensa chuva. Não só para comprar uma barraca nova, mas para conhecer essa verdadeira instituição. A loja tem até cachoeira e guarda-florestal. Um show!
Propaganda no Duke Restaurant, na orla do Lake Union, um dos lagos de Seattle, no estado de Washington, noroeste dos Estados Unidos
Show também foi o nosso jantar celebrando nossa vinda à terra natal do Nirvana e do Pearl Jam, bandas que simbolizam a cultura jovial e independente da cidade. Na beira do Lake Union, no Duke Restaurant, especializado em salmões pescados pelo próprio dono no Alaska, comemos uma de suas criações: salmão ao molho de blackberries e queijo de cabra. Foi de dar água na boca! E isso foi apenas o início de nossas andanças pela cidade...
Delicioso salmão ao molho de black berries e queijo de cabra, no Duke Restaurant, na orla do Lake Union, um dos lagos de Seattle, no estado de Washington, noroeste dos Estados Unidos
Nosso "escritório" em Provo, Turks e Caicos
As pessoas não tem muita idéia sobre o trabalho que dá tentar manter o nosso site atualizado. A parte mais tranquila é escrever os textos. Na média, demora uma meia hora. Dependendo do dia e da inspiração, mais que o dobro disso. Mas essa é a parte legal. Só estamos mexendo com a nossa criatividade. E, de certa maneira, até nos ajuda a viajar novamente, perceber coisas que não havíamos percebido antes.
A parte mais complicada são as fotos. Isso para não falar na edição de vídeos, que a Ana está começando. Mas as fotos, sou eu que mexo com elas. Quer dizer, quem tira mais, e as melhores, tem sido a Ana. Mas depois, arquivá-las, classificá-las, decidir quais serão guardadas, quais serão descartadas, quais irão para o nosso álbum de fotos (semana que vem, essa página deve estar funcionando!) e quais irão para o meu blog, isso sou eu que faço.
O que dá mais trabalho é legendá-las e colocar as key words para cada uma. Fazendo isso direitinho, o álbum de fotos vai funcionar muito bem, cada internauta podendo montar o seu, escolhendo por datas, lugares, pessoas ou atrações. Mas, para fazer isso, ufff... E depois disso, ainda preciso diminuí-las de tamanho, empacotá-las e enviá-las ao servidor. Trabalho repetitivo e sacal. Às vezes, fico até torcendo para a Ana tirar menos fotos... He he he
Enfim. a sorte é que sempre temos belos "escritórios" para trabalhar. Mas, ao mesmo tempo, estamos perdendo horas preciosas de viagem, de lazer, de sono. There's no free lunch!
Enfim chegamos à Antártida! (Brown Bluff, na ponta da península antártica)
Quando começamos nossa viagem pelas Américas, ainda em Março de 2010, tínhamos um vago plano de passar por todos os países e regiões do continente. Aonde pudéssemos chegar de carro, a Fiona nos levaria. Se fosse uma ilha ou lugar sem acesso por estrada, pediríamos ajuda para aviões, barcos, cavalos ou mesmo a força de nossas próprias pernas. A ideia era bonita, mas sabíamos muito bem das dificuldades que nos esperavam. Alguns lugares, a ideia estava mais próxima de um sonho do que da realidade. Seja pelo preço, seja pela segurança, sempre tivemos nossas dúvidas. Lugares como o próprio Alaska, a Groelândia, ilhas distantes como Páscoa ou Galápagos, regiões teoricamente menos seguras, como partes da Colômbia, México ou Haiti, sempre foram desafios. Mas todos eles foram “caindo”, um a um. De uma maneira ou de outra, chegávamos lá. E assim, toda a América foi mesmo cabendo dentro do nosso bolso. Faltava, então, apenas o maior de todos esses desafios: a Antártida.
Pinguins, gelo, neve e rochas: visual de Brown Bluff, na península antártica
Praia de Brown Bluff, na Antártida: frequentada por pinguins e blocos de gelo
Aqui, o problema maior não era a segurança. Longe das dificuldades encontradas pelos primeiros exploradores, como relatei nos dois últimos posts, a proibição maior era mesmo o preço. Não há viagem barata para a Antártida. Principalmente se, como era o nosso caso, o roteiro também incluir a Georgia do Sul e as Malvinas. O único caminho é uma excursão nos poucos barcos que oferecem esse roteiro. Todos com muito conforto e segurança, mas com um investimento equivalente a vários e vários e vários meses da nossa viagem pelo continente. Mas agora, tão perto do nosso objetivo final, tão carinhosamente planejado e sonhado anos atrás, resolvemos fazer uma loucura, daquelas que fazemos uma vez na vida e bancamos a viagem. Caro? Sim! Mas valeu cada centavo do investimento! Malvinas e a maravilhosa Geórgia do Sul no currículo, mas ainda faltava a Antártida!
Icebergs na baía de Brown Bluff, na Antártida
A enorme geleira em que fizemos caiaque no início da tarde, em Brown Bluff, na Antártida
Pinguins gentoo observam um estranho bloco de gelo na praia de Brown Bluff, na Antártida
Pois é, nessa época do ano que viajamos, final de Novembro, a temporada está apenas se abrindo. Ainda há muito gelo nos mares que rodeiam o continente e nada é garantido. Chegamos até as ilhas próximas da península, mas pisar no continente verdadeiro, isso só é decidido na véspera. Todos os passageiros ficam ansiosos, colocando pressão na chefe da expedição. Após muita tensão, finalmente ela sorriu de orelha à orelha e anunciou as boas novas: “Sim, vamos desembarcar na Antártida!”. Alívio geral! E para nós, finalmente, o último grande desafio para cumprirmos nosso sonho parecia, enfim, vencido. Mas a vitória veio lenta, uma ansiedade crescente, cada vez mais difícil de ser controlada. Afinal, o dia começou com uma sessão de caiaque numa ilha próxima, o continente já dentro do nosso campo de visão. Depois, quando o Sea Spirit se aproximou da praia de Brown Bluff, o pequeno grupo de caiaqueiros ainda saiu para uma última sessão de remadas, nossa despedida, enquanto os outros passageiros já foram se refestelar em terra firme. Só aí, então, chegou a nossa vez: o tão sonhado desembarque numa praia continental.
A área da Antártida praticamente dobra entre o verão e o inverno, passando de 14 milhões para 28 milhões de quilômetros quadrados
Mapa da Antártida se todo o gelo derretesse, aumentando o nível dos oceanos. Assim deve ter parecido o continente há 40 milhões de anos
A Antártida é mesmo um continente sui generis. Há pouco mais de 100 milhões de anos fazia parte do super continente de Gondwana, junto com América do Sul, África, índia e Austrália. Foi quando a nossa América do Sul se separou e o restante do continente começou a migrar para o sul. Ainda era coberto por matas tropicais. Ao se aproximar das regiões polares, sentindo aquele frio gelado, Austrália e Índia trataram de se separar e voltar para o norte enquanto a Antártida, agora sozinha, foi parar bem encima do polo sul, aonde ainda se encontra hoje. A antiga e rica flora e fauna desapareceu, encoberta por bilhões de toneladas de gelo. Aliás, tanto gelo que antigas ilhas hoje parecem unidas em uma única massa continental. Não só isso; todo o mar ao redor do continente também se congela, formando vastas plataformas de gelo que chegam a duplicar a área do continente. No inverno, a área da Antártida, incluindo os mares transformados em gelo, chegam a incríveis 28 milhões de quilômetros quadrados, maior que a nossa América do Sul (17,8 milhões de km2) e até que a América do Norte (24,7 milhões de km2). Mas no auge do verão, principalmente agora em tempos de aquecimento global, essa área cai pela metade, com “apenas” 14 milhões de km2. Agora no final de Novembro, certamente ela ainda está com muito mais do que isso. Por isso a dúvida de podermos ou não chegar até a península antártica. Aliás, este é o ponto mais ao norte do continente, já a meio caminho da América do Sul. Para quem quiser ir mais para baixo, mais para o sul, certamente tem de esperar até Janeiro ou Fevereiro para o mar descongelar mais um pouco.
Observando e fotografando um grupo de pinguins adelie em Brown Bluff, na Antártida
A baía de Brown Bluff, na Antártida
Fosse a Antártida nos trópicos, como um dia já foi e como algum dia voltará a ser, sua área seria ainda menor. Na verdade, o continente se revelaria diferente: uma grande massa continental a leste e um arquipélago com muitas ilhas a oeste, incluindo a península antártica onde desembarcamos hoje. Num mundo sem gelo ou icebergs, a área total da Antártida seria de pouco mais de 7 milhões de km2, menor até que o Brasil. Mas isso, só no tempo dos dinossauros ou num futuro distante. A Antártida, tal como a conhecemos hoje, continua indissociável do gelo, E foi nesse continente gelado e maravilhoso que, enfim, desembarcamos hoje.
Bloco de gelo repousa na praia de Brown Bluff, na Antártida, enquanto o Sea Spirit nos aguarda ao fundo
Um pinguim gentoo na praia de Brown Bluff, na Antártida (foto de Brian Myers)
Celebração por chegar ao continente, em Brown Bluff, na Antártida (foto de Marla Barker)
A praia em que descemos se chama Brown Bluff, bem na pontinha da península, que já é a pontinha do continente. Ao redor da praia, enormes falésias e paredões gelados, entremeados com geleiras colossais, formavam um cenário grandioso. Pelo porte das geleiras, era fácil concluir que aquilo não era uma simples ilha, mas uma massa continental considerável. O sinal mais claro e evidente que estávamos em um continente. Já a praia em si, era muito parecida com tantas outras que conhecemos nesses últimos dias. Praia rochosa e frequentada por muitos pinguins. Para estes, tanto faz se estamos em uma ilha ou continente; tudo o que querem é um espaço para caminhar, esticar as pernas, namorar e colocar seus ovos em paz.
Pinguim adelie examina um de seus ovos na praia de Brown Bluff, na Antártida
Pinguim adelie examina um de seus ovos na praia de Brown Bluff, na Antártida
Pinguim adelie choca seus dois ovos em Brown Bluff, na Antártida
Pois é, além de ser nossa despedida da Antártida (justo no dia que chegamos nela, hehehe), era também nossa despedida dessas simpáticas aves. Temos visto dezenas de milhares delas, de quatro ou cinco espécies diferentes. Mas hoje, por ser a despedida, foi um momento especial. Nos observávamos, fotografávamos ou apenas os seguíamos para lá e para cá. O maior número deles era da espécie adelie. Mas havia também os gentoo e, como sempre, para mim é muito interessante observar quando espécies diferentes se encontram. Mas eles não se dão muita bola não. Gostam mesmo é de ficar entre os iguais. Fico só imaginando se há alguma incompatibilidade de língua...
Uma fila de pinguins adelie na praia de Brown Bluff, na Antártida
Pinguins caminham organizadamente na praia de Brown Bluff, na Antártida
Pinguins parecem seguir turista na praia de Brown Bluff, na Antártida
Bom, a diversão com os pinguins foi grande. Vê-los caminhar em fila, saltar de pedras até o chão, entrar na água gelada e pegar um jacaré ou chocar seu ovo tranquilamente é hipnotizante. Como também é hipnotizante ficar olhando o mar à nossa frente, os enormes icebergs ao fundo, as montanhas geladas atrás de nós ou pequenos blocos de gelo encalhados na praia rochosa. Esses blocos de gelo foram cuidadosamente esculpidos pela natureza, verdadeiras obras de arte que poderiam estar em qualquer museu do mundo, mas que estão ali, naquela praia perdida no fim do mundo, para uns poucos e felizardos olhos humanos que podem admirá-los. Os milhares de olhos de pinguim que ali também estão não parecem dar muito valor para essa arte...
Iceberg toma formas curiosas na baía de Brown Bluff, na Antártida
Iceberg toma formas curiosas na baía de Brown Bluff, na Antártida
Iceberg confortável o suficiente para a Rowan e a Sara entrarem dentro dele! (emBrown Bluff, na Antártida)
Mas nós damos! O gelo é azul, formado pela mais pura das águas. Alguns dos blocos são tão grandes e com tantas reentrâncias que é até possível nos acomodarmos dentro deles. Uma pose para foto que não tem preço. Aquele mesmo bloco de gelo e suas formas peculiares nunca mais estarão lá. É um momento único devidamente eternizado em uma foto. Assim como também é único a sequência do cuidadoso salto do pinguim, agora registrado em várias fotos, para dar a devida ideia do movimento.
Pinguim adelie demonstra habilidade ao saltar de bloco de gelo na praia de Brown Bluff, na Antártida
Pinguim adelie demonstra habilidade ao saltar de bloco de gelo na praia de Brown Bluff, na Antártida
Pinguim adelie demonstra habilidade ao saltar de bloco de gelo na praia de Brown Bluff, na Antártida
Pinguim adelie demonstra habilidade ao saltar de bloco de gelo na praia de Brown Bluff, na Antártida
Por fim, único também, e especial de uma maneira difícil de explicar ou compreender, é o momento que temos para contemplar aquela beleza toda que nos cerca, o sentimento de estar numa praia da Antártida ainda razoavelmente protegida dos rigores da civilização, uma paisagem muito parecida com o que teria sido há dez, dez mil ou dez milhões de anos atrás. Por aqui, o tempo passou muito pouco. E é uma benção poder ver isso tudo de perto. A parte mais difícil de nossos sonhos de conhecer toda a América estava sendo realizado. E como foi bom chegar até aqui...
Caminhando na praia de Brown Bluff, na Antártida, entre blocos de gelo e pinguins das espécies gentoo e adelie
A bela igreja metodista de Asheville, na Carolina do Norte, Estados Unidos
Saímos do Mammoth Cave National Park, no Kentucky, em direção à Carolina do Norte. Queríamos chegar até uma estrada chamada Blue Ridge Parkway, a mais conhecida estrada cênica do país. É um caminho que percorre boa parte dos Apalaches, a cadeia de montanhas paralela à costa do Atlântico e que serviu, durante mais de um século, como uma barreira natural à colonização branca do interior do continente.
A pomposa arquitetura do centro histórico de Asheville, na Carolina do Norte, Estados Unidos
Tanto lemos e ouvimos falar dessa estrada e de suas belezas que foi por ela que decidimos subir a costa leste dos Estados Unidos. Certamente, não é o caminho mais rápido, pois a estrada é estreita e cheia de curvas. Mas a ideia ali não é a da velocidade, mas exatamente a de ter tempo de admirar uma das regiões mais belas do país, montanhosa, cheia de florestas e vales, repleta de parques e pequenas cidades charmosas.
Caminhando pelo centro histórico de Asheville, na Carolina do Norte, Estados Unidos
Certamente vou falar muito da estrada e de sua história nos próximos posts, pois vamos passar uns cinco dias percorrendo e explorando a região, entre os estados da Carolina do Norte e da Virginia. E já começamos isso ontem, viajando até a cidade de Asheville, a mais conhecida cidade na rota.
A bela igreja metodista de Asheville, na Carolina do Norte, Estados Unidos
No caminho, entre vales e montanhas cobertas por florestas, passamos pelo território inicialmente desbravado por um certo Daniel Boone. Os mais velhos certamente se lembrarão de um enlatado americano que passava nas nossas TVs na década de 70, contando as histórias e lendas dessa personagem que realmente existiu. Com seu chapéu de pele de castor e sua machadinha, Boone criou fama de desbravador, numa época em que todo o território a oeste dos Apalaches era território indígena. Abriu rotas, fundou cidades e, enfim, encarnou o espírito americano da conquista do oeste, numa época (final do século XVIII) em que “oeste” ainda significava Kentucky e Tennessee, e não Texas ou Arizona.
Clip de abertura do seriado "Daniel Boone"
Eu era pequeno na época dessa série de TV, mas nunca me esqueci da música e da abertura de cada episódio. Graças ao YouTube, pude dar boas risadas revendo isso, depois de me emocionar na estrada vendo placas e sinais de onde teria passado e vivido Daniel Boone. Mas me lembro muito bem de um outro filme, que ainda hoje me emociona, principalmente na sua antológica cena final: “O Último dos Moicanos”. Pois é, tanto o filme como a história se passam por aqui, nos Apalaches. É a mesma época de Daniel Boone, e a linda fotografia do filme até lhe valeu um Oscar. Boa parte filmada nas cercanias de Asheville, a cidade onde chegamos ontem e passamos o dia de hoje.
A emocionante cena final do filme "O Último dos Moicanos", filmado nos Apalaches
Descubro agora que, assim como Boone, os moicanos também existiram. Mas, ao contrário do que afirma o livro e o filme, eles nunca foram extintos. Ao contrário, estão aí até hoje, embora tenham sido deslocados mais para oeste. Aliados dos americanos em suas guerras contra os franceses, ainda na época de colônia, e também contra os ingleses, na guerra de independência, acabaram se dando mal, traídos pelos “amigos”. Mas, felizmente, não chegaram a desaparecer...
A catedral católica de Asheville, na Carolina do Norte, Estados Unidos
Com moicanos e Boone na cabeça, passamos o dia de hoje explorando a simpática Asheville, cidade que figura em vários rankings de melhores lugares para se viver nos Estados Unidos. Para quem gosta de música, boa comida e linda arquitetura, isso é certamente verdade!
Deliciosa e apimentada comida mexicana requintada, em Asheville, na Carolina do Norte, Estados Unidos
Driblando a chuva que teimava em cair, caminhamos por suas ruas, admiramos o prédio neoclássico da prefeitura e as pomposas edificações das igrejas católica e metodista. Esbaldamo-nos num restaurante de cozinha mexicana refinada e depois, uma suculenta sobremesa em casa especializada.
Uma das milhares de cervejas artesanais americanas, em Asheville, na Carolina do Norte, Estados Unidos
De noite, entre diversos pubs com boa música, escolhemos um em que havia uma jam session. Pessoas se alternavam no palco, sem nenhum tipo de ensaio, muitas vezes sem se conhecer, formando bandas ou grupos de até sete pessoas. A música, típica da região, era o folk, músicos fazendo milagres com seu violinos, guitarras, baixos e outros instrumentos de corda. Um espetáculo! Enfim, depois desse dia gostoso por aqui, estamos prontos para pegar a estrada amanhã. E que estrada!
Balada com jam session com muita música Folk, em Asheville, na Carolina do Norte - EUA
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