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Ricardo Acras (30/07)
hailton (28/07)
estou extremamente satisfeito em ler uma materia de viajem tao completa, ...
andre fabian (28/07)
olha...por vcs estou realizandi um sinho de conhecer o méxio e os estado...
Lina (27/07)
Nice post!!! Brought memories back... Faltou referencias ao Paul Revere.....
Romulo (27/07)
Olá bom dia adorei as fotos.Sou de Conceicao do Mato Dentro queria saber...
Início do passeio de caiaque em direção à baía bioluminescente, em Fajardo - Porto Rico
Finalmente, chegou por email a foto que compramos do nosso passeio de Caiaque pelo mangue em direção à baía luminescente, em Fajardo, que descrevi no post abaixo "Show de la Naturaleza"
Foi surreal, remar no escuro, num estreito canal atravessando o mangue e chegar naquela laguna onde a água brilhava a cada movimento...
Praia Requesón ocupada por trailers de americanos, região de Mulegé, na Baja California - México
Começamos o dia com um passeio a pé pelo simpático centro histórico de Loreto, espremido entre a praça da igreja e a orla do Malecón. Muitos restaurantes gostosos, casas charmosas, uma rua peatonal na sombra de árvores e uma praça ainda com pouco movimento pela manhã. A “Capital Histórica de Todas as Californias” parece ter parado no tempo, há uns 200 anos. Ainda bem!
Alameda peatonal em Loreto, na Baja California - México
Vegetação característica da região de Loreto, na Baja California - México
Depois, hora de pegar estrada e seguir no nosso incansável rumo norte. A próxima cidade no caminho é Mulegé, também na orla do Mar de Cortez. O caminho entre as duas cidades primeiro passa um longo trecho de deserto, para depois seguir ao lado do mar. É exatamente neste trecho que estão as mais belas praias da península da Baja California.
Litoral entre Loreto e Mulegé, no Mar de Cortez, na baja California - México
A magnífica praia de Requesón, próxima a Mulegé, na Baja Califórnia - México
Depois de acompanhar um longo trecho de litoral rochoso e belíssimo, chegamos a um local que mais parece uma pintura: a praia Requesón. É uma estreita faixa de areia branca que liga a costa com uma ilha logo em frente, separando uma baía de águas calmas e cristalinas em duas. Muito linda! Nessa faixa de areia estão alguns trailers estacionados, americanos que ficam acampados em grande estilo por lá por até 10 dias.
Praia Requesón, em Mulegé, na Baja California - México
Caminhando na belíssima praia Requesón, próxima à Mulegé, na Baja California - México
Esse é um programa muito popular entre californianos (do norte!) mais descolados. Empacotam tudo em suas casas rodantes e vem para a Baja California acampar em alguma das belas praias que existe nessa área de Mulegé. Por aqui, foram pequenas comunidades provisórias, todos com seus cachorros, uma boa parte deles já aposentada, só curtindo a vida. No Requesón havia uns 5-6 traillers, mas nas praias mais adiante, vimos mais de uma centena.
Paciente cão tenta pescar no Mar de Cortez, praia de Requesón, em Mulegé, na Baja California - México
Nós também fomos até a praia, com a nossa Fiona. Até chegamos a cogitar em acampar por ali mesmo, fazer parte daquela pequena comunidade por um dia. Mas o vento frio e forte que soprava hoje nos desanimou. A água estava convidativa, mais quente do que do lado de fora, mas a sensação térmica causada pelo vento não animava. Conversamos um pouco com os americanos de bem com a vida que ali estavam e seguimos viagem.
Encontro com um simpático grupo de americanos em restaurante em praia próxima à Mulegé, na Baja California - México
Logo em seguida, mais praias apareceram, sempre com seus trailers por ali. Numa das primeiras, tinha um restaurante mais roots, onde resolvemos parar para um brinde àquela beleza toda. Logo ficamos amigos de outro grupo de americanos felizes, em seu caminho em direção à Los Cabos, no extremo sul da península. Todos de San Diego, até nos convidaram para ficar em suas casas, mas vamos passar por lá antes que retornem de sua própria viagem.
O farol de Mulegé, na Baja California - México
Visitando a Missión Santa Rosalía, em Mulegé, na Baja California - México
Algumas paradas em outras praias mais adiante e finalmente chegamos à Mulegé, construída bem num ponto onde um oásis encontra o mar. A cidade também oferece bons restaurantes e pousadas charmosas, mas a gente já tinha decidido seguir mais à frente. Mas ainda visitamos o farol, que fica bem no encontro do rio com o mar e também a bela missão jesuítica de Santa Rosalía.
Visitando a Missión Santa Rosalía, em Mulegé, na Baja California - México
Essa fica um pouco mais afastada da costa, no alto de um morro de onde se tem uma bela vista do rio, do oásis, do deserto que o cerca e do mar ao fundo. Sabiam muito bem aonde construir suas igrejas, esses jesuítas! Passamos aí algum tempo para tirar fotos e explorar o prédio histórico, quase os únicos turistas por ali. A única companhia era de três italianos, também maravilhados com a beleza do lugar.
Dirigindo no final da tarde entre Mulegé e Santa Rosalía, na Baja California - México
Da missão para a cidade de Santa Rosalía, uma hora de estrada mais ao norte. Chegamos lá de noite, depois de acompanhar um fim de tarde belíssimo no deserto. Nessa cidade mineira, parecida com uma vila dos filmes de faroeste, a gente se instalou no Hotel Frances, um casarão no alto do morro que já foi um grande bordel. Bordel da época clássica, daqueles dos filmes de faroeste também. Ele é dessa época, e foi criado no início do século passado para atender aos trabalhadores da mina da cidade, explorada por uma empresa francesa. Hoje, o hotel e seus quartos são um charme só, pé direito bem alto, tudo feito de madeira e quartos sem janelas, com paredes revestidas de longos tecidos avermelhados. Tudo para garantir a intimidade dos clientes. De hoje e de outrora, hehehe!
Uma linda "jacaroa de olhos azuis", em restaurante de praia próxima à Mulegé, na Baja California - México
Pela manhã, caminhando pela praia de Kalalau, na Na'Pali Coast, costa norte de Kauai, no Havaí
A beleza cênica da praia de Kalalau realmente impressiona. Posicionada em plena Na’Pali Coast, ela está cercada de montanhas que parecem alcançar ao céu como enormes torres de sustentação. Essas montanhas, por sua vez, estão cobertas de vegetação que se aproveita da umidade de uma das áreas mais chuvosas do mundo. De certa maneira, até lembram um pouco da nossa Serra do Mar, com a diferença que aqui as montanhas são mais íngremes, formando verdadeiros penhascos e paredões que mergulham sobre o mar.
Pela manhã, caminhando pela praia de Kalalau, na Na'Pali Coast, costa norte de Kauai, no Havaí
A praia é longa, com quase um quilômetro de extensão. A faixa de areia é larga, uma das extremidades cercada por grandes paredões. É por esse paredão que escorre uma cachoeira, o lugar perfeito para um banho de água doce depois de um mergulho no mar. No mesmo paredão, mais adiante, já no final da praia, uma grande caverna. Dentro da caverna, um lago. Mas qualquer tentação de querer entrar ali logo termina quando descobrimos a enorme colônia de morcegos lá dentro, que utilizam o tal lago como se fosse seu banheiro. Enfim, muito belo e sadio, de longe.
Indo conhecer a caverna na praia de Kalalau, em Kauai, no Havaí
Além de uma cachoeira, também tem uma caverna nos rochedos da Kalalau Beach, na Na'Pali Coast, costa norte de Kauai, no Havaí
Dependendo da época do ano, o mar pode ser calmo ou violento. Agora, no inverno, é a época das ondas, então não convém muito que se vá além das canelas, principalmente em dias mais nervosos. Em compensação, a faixa de areia é tranquilíssima, propícia a uma boa caminhada, ao relaxamento puro e simples ou a outras atividades lúdicas.
Dia ensolarado e tranquilo na praia de Kalalau, em Kauai, no Havaí
Não há construções na praia, o que ajuda a lhe conferir um aspecto ainda mais natural e selvagem. Agora em dezembro, os únicos frequentadores são aqueles que se dispõe a caminhar os 17 quilômetros de trilha para chegar até lá. Quase todos com suas barracas nas costas e víveres na mochila para lá passar um ou mais dias. Ao longo da praia, escondido sobre árvores, muitas áreas de camping. Quem chega primeiro logo ocupa os lugares mais próximos da cachoeira ou com vista para o mar.
A cachoeira que escorre nos rochedos da Kalalau Beach, na Na'Pali Coast, costa norte de Kauai, no Havaí
Uma praia tão maravilhosa e isolada da civilização atrai gente das mais diferentes tribos. Tem aqueles que adoram um acampamento, os que odeiam a civilização, os esportistas que tentam ir e voltar no mesmo dia, os naturalistas, os que um dia tomaram alguma coisa e nunca mais voltaram, os turistas perdidos e aqueles que, como nós, se acham acima dessas divisões, mas que, no fundo, tem um pouco de tudo isso.
Com o Rafa, caminhando na praia de Kalalau, na Na'Pali Coast, costa norte de Kauai, no Havaí
Ver e interagir com todos esses tipos diferentes é um dos charmes de se ir ao Kalalao. A gente se instalou quase no começo da praia, longe da cachoeira, que já estava toda tomada. Algumas pessoas vêm para cá e passam semanas, ou mesmo meses. Em teoria, isso não é permitido pelo parque, mas na prática, a teoria é outra. Enfim, ficamos em um local mais tranquilo, a bela praia na nossa frente. Num cenário assim, tão idílico, não foi difícil tomar a decisão de passar mais um dia por ali, nem que isso representasse bastante economia da nossa comida prevista para apenas a metade do tempo.
Admirado com a grandeza da paisagem na Kalalau Beach, na Na'Pali Coast, costa norte de Kauai, no Havaí
Admirando o mar da Kalalau Beach, na Na'Pali Coast, costa norte de Kauai, no Havaí
Logo cedo, sentados na praia, a gente se divertiu com uma moça que, nua, dançava na areia. Em pé ou deitada, mas sempre com estilo, dava seus passos de hulahula e fazia poses para os helicópteros que sobrevoavam a praia e mesmo para um barco que passava ao largo. A presença de plateia parecia incentivá-la. Fazia festa também para as poucas pessoas que ali estavam, nós inclusive. Um de seus namorados, aparentemente, preferiu enfrentar o mar bravio do que as carícias da moça. Foi um daqueles que passou um susto sobre as ondas, que eu descrevi no post anterior. Já a moça, a sua loucura era só dançar pelada. Quando convidada a entrar no mar, pareceu bem sana ao recusar: “Eu não sou louca...”.
Luz do sol filtrada pelas nuvens e montanhas, na Kalalau Beach, na Na'Pali Coast, costa norte de Kauai, no Havaí
O grandioso background da praia de Kalalau, na Na'Pali Coast, costa norte de Kauai, no Havaí
Depois desse show matinal, nós fomos caminhar na praia. Foi quando conhecemos a caverna dos morcegos e pudemos admirar as gigantescas ondas quebrando contra os rochedos ou na própria areia. Eu ainda ameacei entrar no mar, mas melhor não. Exatamente como fizera a moça um pouco antes, loucura, só com muita responsabilidade.
estréia da nossa barraca nova em kalalau, na Na'Pali Coast, costa norte de Kauai, no Havaí
Acampando de frente ao mar, na praia de Kalalau, na Na'Pali Coast, costa norte de Kauai, no Havaí
Em seguida, nos separamos. Eu e a Ana fomos fazer uma caminhada de duas milhas até uma cachoeira próxima, enquanto o Rafa e a Laura resolveram passar o dia por ali mesmo. O Rafa, amante de pescarias, conseguiu uma vara emprestada e foi reforçar a nossa dieta. Pescou um peixe maior e outro menor. Esse, como forma de agradecimento, foi doado ao dono da vara, um desses que está na praia há bastante tempo e que foi a segunda pessoa a entrar no mar (e a quase morrer...), na descrição do post passado. Já o peixe grande, esse ficou para o nosso jantar.
Caminhando na mata em direção a uma cachoeira próxima à Kalalau, na Na'Pali Coast, costa norte de Kauai, no Havaí
Percorrendo trilha entre a praia e a cachoeira, em Kalalau, na Na'Pali Coast, costa norte de Kauai, no Havaí
Enquanto isso, eu e a Ana desbravamos a trilha, cheio de atalhos e variantes. Pergunta daqui, erra dali, acabamos achando nosso caminho. Na trilha, cruzamos com um outro camping, esse bem mais perto do rio que do mar. Gente mais do mato ainda. Alguns, pareciam ter nascido por ali, outros que mal balbuciavam alguma palavra. Difícil imaginá-los em outro ambiente que não ali, na parte campestre do Kalalau. Fiquei até com a impressão que els tinham um certo desprezo pelo pessoal que acampava perto da praia, por serem civilizados demais.
Cachoeira próxima à Kalalau, na Na'Pali Coast, costa norte de Kauai, no Havaí
Delicioso mergulho em piscina natural próxima à Kalalau, na Na'Pali Coast, costa norte de Kauai, no Havaí
Nós achamos a cachoeira e as piscinas naturais e tomamos uma banho delicioso, cercado de montanhas, água na temperatura certa. Aquele paraíso tão perto do outro, três quilômetros trilha abaixo. Aqui, mais uma vez, cheguei à conclusão que, entre, entre o rio e o mar, entre a cachoeira e a praia, entre a água doce e a salgada, fico com os dois! E o Kalalau é o lugar perfeito para se ter os dois!
Chegando de volta à praia de Kalalau, depois de caminhada até uma cachoeira, na Na'Pali Coast, costa norte de Kauai, no Havaí
delicioso fim de tarde na praia de Kalalau, na Na'Pali Coast, costa norte de Kauai, no Havaí
Voltamos à praia já no fim da tarde, mais uma vez impressionados com a beleza grandiosa do cenário. Lá, fomos recebidos pelo Rafa com um grande sorriso, segurando o fruto da sua pescaria. Ali mesmo, perto das nossas barracas, ele e a Laura ainda conseguiram uns limões de um limoeiro. O peixe já tinha tempero! Faltava só a grelha. Fomos os quatro em busca de lenha e gravetos, o Rafa improvisou um espeto e, com simplicidade e perícia, grelhou o peixe com maestria!
O Rafa grelha um peixe que ele mesmo pescou durante a tarde na praia de Kalalau, na Na'Pali Coast, costa norte de Kauai, no Havaí. Que luxo!!!
Fogueira para o peixe e fogareiro para o macarrão no nosso banquete na segunda noite em Kalalau, na Na'Pali Coast, costa norte de Kauai, no Havaí
Foi só o aperitivo do macarrão que se seguiria, agora feito pela Ana no nosso fogareiro novo. Depois de um dia economizando comida, tiramos a barriga da miséria. Tudo ao som das ondas do Kalalau, não poderia ter sido mais perfeito. Ao redor da fogueira, muita conversa se seguiu e um consenso apareceu entre quatro grandes viajantes que, juntos, conhecem praias pelo mundo afora, do Caribe à Tailândia, da Turquia à Noronha, da Austrália à Riviera: o Kalalau é a praia mais bonita que conhecemos. Felizes aqueles que podem vir aqui conferir...
Últimas luzes na praia de Kalalau, na Na'Pali Coast, costa norte de Kauai, no Havaí
Com a Fiona, na praia do Oceano Pacífico, no Parque Nacional Chiloé, costa oeste central da ilha, sul do Chile
Hoje, domingão, foi nosso último dia na ilha de Chiloé. Resolvemos aproveitar o dia de sol como muita gente fez pelo mundo afora em dias de domingo: ir ao parque. Não ao parque da esquina, mas a uma grande reserva que protege boa parte da costa oeste da ilha, o Parque Nacional Chiloé, região de florestas originais, dunas e praias quase selvagens.
Para chegar até lá saindo de Castro, primeiro precisamos seguir para o sul, onde aproveitamos para ver mais algumas igrejas (posts anteriores). Depois, a partir da pequena cidade de Chonchi, tomamos o rumo oeste e atravessamos a ilha num percurso de pouco mais de 30 km. No final do dia, a volta é pelo mesmo caminho, até Chonchi, Castro e para o norte, até o porto de Chacao, onde tomamos a balsa de volta ao continente. Essa é a rodovia 5, o finalzinho da famosa “Rodovia Panamericana” aqui no Chile, a mesma estrada em que já dirigimos tantas vezes nos países sul e centro americanos na costa do Pacífico. Enfim, uma velha conhecida nossa e da Fiona...
Pier no lago Huillinco, na região centro oeste da Ilha de Chiloé, no sul do Chile
O belo lago Huillinco, na região centro oeste da Ilha de Chiloé, no sul do Chile
Mas, voltando ao nosso “domingo no parque”, no trecho entre Chonchi e a costa oeste de Chiloé, passamos pelos lindos lagos Huillinco e Cucao que, unidos por um canal, na verdade formam um único e o maior lago do arquipélago, mais de 100 km2. Têm origem nas antigas e enormes geleiras que chegavam até aqui, há 15 mil anos, sua água é salobra e a paisagem é de cartão postal.
O lago Huillinco, que junto com o lago Cacao, formam o maior sistema lacustre da Ilha de Chiloé, no sul do Chile
Ao final dos lagos, já quase chegando à costa, uma parada estratégica. Um simpático restaurante na beira do lago anunciando “empanadas”. Nunca consigo resistir a uma placa dessas, ainda mais num lugar tão lindo. Fizemos então o nosso lanche, armazenando energia para as explorações que se seguiriam.
Um sinal que sempre me faz ter vontade de parar (chegando ao Parque Nacional Chiloé, na costa oeste da ilha, no sul do Chile)
Chegando ao Parque Nacional de Chiloé, parada estratégica para nos alimentar de deliciosas empanadas (costa oeste de Chiloé, no sul do Chile)
Um pouco mais adiante, logo após atravessarmos o pequeno rio que liga os lagos ao Oceano Pacífico, chegamos à entrada do parque. Ele é dividido em três seções, mas a parte norte e a parte central tem acesso bastante restrito. É apenas aqui no sul que turistas e visitantes podem fazer suas explorações sem a necessidade de permissões especiais ou agências especializadas.
Trilha em meio à mata nativa do Parque Nacional Chiloé, na costa oeste da ilha, no sul do Chile
Trilha em meio à mata nativa do Parque Nacional Chiloé, na costa oeste da ilha, no sul do Chile
Muita gente vem para acampar, outros apenas para caminhar ou passar um longo dia na praia. Logo na entrada, um centro de visitantes nos dá uma ideia geral dos ecossistemas protegidos (dunas e matas nativas) e da rica fauna da região. São mais de 100 tipos de pássaros, além de pequenos répteis e mamíferos. Entre eles, se destaca o “pudú”, a menor espécie de veado do mundo. Eles são encontrados nas encostas andinas do continente também e o fato de estarem aqui em Chiloé mostra que o arquipélago já foi unido com a América, seja por uma ponte de terra ou de gelo.
A densa mata nativa do Parque Nacional Chiloé, na costa oeste da ilha, no sul do Chile
Um Pudú, a menor espécie de veado do mundo, no Parque Nacional Chiloé, na costa oeste da ilha (foto de Jorge Navarro)
Os pudús têm apenas 45 centímetros de altura nas costas e 85 centímetros de comprimento. Pesam cerca de 12 quilos e não são animais sociais, vivendo sós em florestas densas onde se escondem de predadores como raposas, corujas e pumas. Machos, que são os únicos com chifres, só se encontram com fêmeas para copular. Os filhotes, um ou dois, vivem com a mãe até um ano de idade, embora já se pareçam adultos antes disso. Nós tínhamos muita esperança de encontrar algum deles por aqui hoje, mas não tivemos sorte. De qualquer maneira, coloquei no post uma foto e um vídeo de turistas que foram mais afortunados do que nós.
Entre as trilhas disponíveis, resolvemos fazer uma com poucos quilômetros chamada de El Tepual. É uma trilha interpretativa que travessa uma mata nativa de árvores baixas, retorcidas e folhagem densa. Não deve ser fácil para os pudús caminhar entre elas, e muito menos para os predadores que os caçam. Para nós, foi um pouco mais fácil, a trilha já aberta e quase toda construída numa longa passarela. Placas informativas nos ensinam sobre a fauna e flora da região.
Trilha em meio à mata nativa do Parque Nacional Chiloé, na costa oeste da ilha, no sul do Chile
A enorme praia na costa oeste de Chiloé, de face para o Oceano Pacífico, no Parque Nacional da ilha
Depois da caminhada, voltamos para a Fiona e seguimos pela estrada, já dentro da área do parque, na direção norte. Aos poucos, a estrada se junta à praia e, ao final, é sobre a areia que dirigimos. Nós e centenas de locais, todos aproveitando o domingo de sol nessa pela e quase interminável praia, chamada também de Cucao. Faixa de areia bem larga e piso plano e firme, uma verdadeira autoestrada. Rumamos alguns quilômetros para o norte, longe da muvuca, e aí passamos algum tempo admirando a grandeza do Oceano Pacífico. Algumas pessoas enfrentavam a água fria, outras remavam seus caiaques na boca do rio, mas nós preferimos ficar mesmo apenas na contemplação.
A enorme praia na costa oeste de Chiloé, de face para o Oceano Pacífico, no Parque Nacional da ilha
Pessoas aproveitam o domingo de sol para passar o dia no Parque Nacional Chiloé, na costa oeste da ilha, no sul do Chile
Por fim, hora de retornar e enfrentar o longo caminho de volta. Atravessamos a ilha novamente até Castro e seguimos até o extremo norte de Chiloé, local de embarque na balsa em direção ao continente, de Chacao para Pargua, naquele barco chique que tem até wifi. Talvez nossa última balsa dos 1000dias. Será? Ainda não tenho certeza, mas a enorme ilha que ficava para trás certamente não será nossa última. Sei de pelo menos mais uma pela frente, não tão grande como Chiloé, mas certamente tão bela e interessante quanto. Belezas diferentes, claro! Falo da Ilha de Florianópolis, local que ainda não passamos nesses 1000dias, mas que certamente não será esquecido! Afinal, para quem quer conhecer toda a América, que pecado seria não passar por Floripa!
Balsa atravessa o canal de mar que separa a costa norte da ilha de Chiloé do continente, entre Chacao e Pargua, no sul do Chile
Divertindo-se no Vale do Vai Quem Quer, em Taquaruçu - TO
O dia começou com um saudável café da manhã em companhia do João Luís, proprietário da pousada Lokau. A pousada, bem recomendada pelo Lonely Planet e por um amigo, realmente é muito jóia. Além de pousada, também é farmácia natural e sebo. Tinha até uns gibis muito antigos, da época da minha infância, do Fantasma e do Recruta Zero. Para alguém nostálgico e saudosista como eu, uma delícia!
A Pousada Lokau também é um sebo, em Taquaruçu - TO
O João Luís também é uma pessoa super interessante. Além de nos dar dicas sobre a região e sobre Tocantins, ainda nos contou a história do Pipes, milionário lá de Carolina, dono das balsas de toda a região, além do complexo turístico da Pedra Caída. História interessantíssima de alguém que começou do zero e soube aproveitar as oportunidades da vida. Inspirador!
Com o João Luís, proprietário da Pousada Lokau, em Taquaruçu - TO
Antes de seguirmos viagem, ainda fomos visitar o Vale do Vai Quem Quer, com um riacho de águas cristalinas cheio de quedas d'água. Para chegar lá, primeiro a gente sobe um morro, de onde se tem uma vista magnífica de todo o Vale do Taquaruçu, de um lado, e do Tocantins, do outro. Depois, temos de descer no tal vale do Vai Quem Quer (e chega quem pode...). Foi-nos muito recomendado que deixássemos a Fiona estacionada lá encima e descêssemos à pé, pois a estrada era muito ruim e ela não daria conta de subir de volta. Sei... Depois da travessia Maranhão-Jalapão, a tal descida parecia brincadeira de criança. A Fiona iria ficar humilhadíssima se não a deixássemos ir...
O cenário inspirou uma sessão de ioga, no Vale do Vai Quem Quer, em Taquaruçu - TO
Lá embaixo, seguimos rio abaixo, uma queda atrás da outra, cada recanto mais bonito e inspirador que o anterior. Finalmente, encontramos uma queda maior, com uma pequena piscina, e lá ficamos por algum tempo, admirando e curtindo aquele riacho limpo e a cachoeira acolhedoura.
Cachoeira de águas cristalinas, no Vale do Vai Quem Quer, em Taquaruçu - TO
O cenário lembrava muito Visconde de Mauá, no Rio. Mesmo tipo de cachoeira, mesma cor de água, mesmo verde em volta. Até o nome do vale combina com Mauá! Só uma coisa nos fazia lembrar que estávamos no Tocantins: a temperatura agradável da água. É bem fresquinha, mas não é gelada.
Banho refrescante em cachoeira no Vale do Vai Quem Quer, em Taquaruçu - TO
Por volta da uma da tarde, tínhamos de partir. A Fiona nos levou de volta com um pé nas costas e pudemos seguir viagem para Natividade, para nossa última noite no estado de Tocantins e na região Norte do país. Goiás e Centro-oeste, aí vamos nós!
O vale do rio Tocantins, visto de Taquaruçu - TO
A praça central de Minas, no Uruguai
Aproveitamos nossa última manhã em Colonia del Sacramento para, pela internet, pesquisar, escolher e reservar um hotel na pequena e isolada Cabo Polonio, uma praia no Uruguai onde não se pode chegar de carro. Marcamos para a próxima quinta e sexta, portanto temos outros três dias para chegar até lá. Essa era nossa última preocupação para reservar hotéis aqui no país, já que nas outras cidades, teremos tempo e tranquilidade para definir nossa estadia no momento em que chegarmos. O pagamento, fizemos por um sistema que existe no Uruguai chamado Rede Pago, presente em todas as cidades. Pagamos aqui, em alguma casa comercial associada ao sistema e o dinheiro chega lá. Com esse assunto resolvido, hora de pegarmos estrada!
Antes de seguirmos para a praia, ainda queríamos passar no interior do país, em uma das poucas regiões de serra do Uruguai. Quando estamos explorando um país, é claro que gostamos de conhecer suas atrações mais conhecidas. Mas sempre procuramos também alguma região ou cidade desconhecida dos turistas. Quase sempre, é aí que chegamos mais perto da alma do país e de seus habitantes. Para descobri-lo, alguma pesquisa na internet, livros-guia e, principalmente, conversas com os habitantes locais. Normalmente, é daí que saem as melhores ideias. E foi assim que surgiu o nome de Minas. Mineiro que sou, já simpatizei logo de cara. Depois, ao descobrir que se tratava de uma região de serra, aí me decidi de vez! É para lá que vamos! Quem sabe, achamos até uma cachoeira e uma goiabada?
Chegando à fábrica da Patricia, a mais popular cervejaria do uruguai, na região de Minas, no sul do país
Cervejaria Patricia, estrategicamente construída ao lado do parque Salus, fonte da melhor água mineral do país, na região de Minas, no Uruguai
Minas fica a nordeste de Montevideo, na direção do interior. Nosso caminho de Colonia até lá não passa pela capital, desviando-se um pouco antes. São quase 300 quilômetros, ou cerca de três horas nas sempre tranquilas estradas uruguaias. Mas não fomos diretamente. Um pouco antes, paramos no parque Salus, onde está a principal fonte de água mineral do país. Aliás, é esta a água que bebemos em todo o Uruguai, a marca Salus, tão comum em restaurantes e supermercados. Uma boa maneira de começar a compreender um país é exatamente em seus supermercados, observando quais as marcas mais populares, de água a chocolate, de sabão em pó a cerveja. Aqui no Uruguai, a água é Salus e Salus é aqui de Minas. Aliás, o próprio nome da região e da cidade, Minas, refere-se às minas de água presentes nessa região serrana.
Chegando ao parque Salus, de onde vem a famosa água do país, na região de Minas, no Uruguai
Nós chegamos ao parque esperando encontrar uma das “instituições” uruguaias, mas, ao invés disso, encontramos duas delas! Isso porque, além da engarrafadora de água mineral, ali também está instalada a fábrica da Patrícia, a cerveja mais popular do Uruguai. Como todos sabemos, o principal ingrediente de uma cerveja é a água e a Patricia foi esperta o suficiente para fazer sua fábrica justamente ao lado da fonte mais saudável de seu principal ingrediente! Realmente, esse parque vale ouro para o país, hehehe!
A fonte de água mineral Salus, na região de Minas, no Uruguai
bebendo a água direto da fonte! No parque salus, região de Minas, no Uruguai
Nós não entramos na fábrica da Patricia e nos contentamos em fotografá-la de fora. Depois, fomos até a engarrafadora Salus. Com nossas garrafas em mãos, seguimos até a fonte pública e ali nos abastecemos da mais pura água uruguaia. Aproveitamos também para dar um bom passeio nos bosques e jardins do parque, repleto de flores. Não sei o quão popular é o parque entre os habitantes locais, mas hoje, uma segunda-feira, éramos só nós por ali, aproveitando o ar puro, água fresca, sombra e visual florido.
Muitas flores nos bosques e jardins do parque Salus, na região de Minas, no Uruguai
Muitas flores nos bosques e jardins do parque Salus, na região de Minas, no Uruguai
Depois do parque, rumo a Minas. É uma cidade pequena, cercada por serras e centrada em uma grande praça. Mais ou menos como o livro guia havia dito, “o principal charme dessa cidade pequena é exatamente ser uma cidade pequena”. Não sei se influenciado pelo nome, mas a minha sensação era a de estar em alguma cidade no interior da minha Minas Gerais. A praça, bem arborizada, está em frente à maior igreja da cidade. Ali do lado também está o principal hotel, o banco (no caso, não é o banco do Brasil, como seria, se estivéssemos mesmo em Minas Gerais), algumas lojas e restaurantes. Entre eles, o mais famoso de Minas. Na verdade, uma confeitaria, a Irisarri. Puro charme e tradição, foi aí que nos refestelamos em suas guloseimas, quando passamos pela cidade no dia seguinte. Não tinha a minha goiabada, mas o que não faltava em seus balcões eram doces. Respeitando as devidas proporções, vir a Minas e não parar na Irisarri é como ir ao Vaticano e não ver o papa!
Muitas flores nos bosques e jardins do parque Salus, na região de Minas, no Uruguai
Muitas flores nos bosques e jardins do parque Salus, na região de Minas, no Uruguai
Por fim, como não poderia deixar de ser, uma estátua adorna o centro da praça. Ela faz uma homenagem a uma batalha ocorrida a quase 190 anos, nos campos de Sarandi, não muito longe daqui. Outra vez, precisamos nos acostumar com a ideia de que, aqui no Uruguai, pelo menos na história, nós brasileiros somos os vilões. A batalha de Sarandi foi o primeiro grande combate entre os valentes uruguaios que buscavam sua independência e o exército imperial opressor dos brasileiros. O ano era 1825 e o resultado da batalha foi uma vitória acachapante uruguaia.
Muitas flores nos bosques e jardins do parque Salus, na região de Minas, no Uruguai
O Uruguai havia sido ocupado por tropas luso-brasileiras oito anos antes e seu herói nacional, o general Artigas, vencido e expulso para o Paraguai. A jovem nação tinha sido rebaixada e rebatizada como Província Cisplatina. Com a independência brasileira em 1822, o vasto Império do Brasil ia do Oiapoque ao Rio da Prata, uma promissora nação destinada a se tornar potência mundial. Mas sua fronteira sul enfrentava problemas e a também nascente nação argentina não se conformava com a perda dos territórios da Banda Oriental, como era conhecido Uruguai entre eles. O nome vinha do fato de se referir às terras situadas na margem oriental do rio Uruguay.
Estátua homenagenado a batalha de Sarandi, primeira grande vitória uruguaia na guerra de libertação contra as forças imperiais brasileiras, em 1825 (na praça central de Minas, no Uruguai)
Em 1825, um grupo de homens conhecido como os “Treinta y Tres Orientales” atravessaram o rio Uruguay, vindos de Buenos Aires e liderados por Lavalleja, e desembarcaram na Província Cisplatina. O intuito era iniciar a guerra de liberação do país. Rapidamente, as vilas do interior do Uruguai foram liberadas e as duas principais cidades do país, Montevideo e Colonia del Sacramento, cercadas. As tropas imperiais reagiram, uma coluna de 1.000 homens entrando na província rebelde vindos do Rio Grande do Sul e outra coluna de mesmo tamanho partindo da capital uruguaia rumo ao norte, para se juntar a seus compatriotas. Por mais que as tropas rebeldes de Lavalleja fustigassem as duas colunas, não conseguiram impedir que elas se encontrassem nas proximidades de Sarandi. Os revoltosos decidiram então, num ato de grande valentia, dar cabo desse grande exército reunido, num só golpe.
Estátua homenagenado a batalha de Sarandi, primeira grande vitória uruguaia na guerra de libertação contra as forças imperiais brasileiras, em 1825 (na praça central de Minas, no Uruguai)
Foi exatamente o que ocorreu em 12 de Outubro de 1825. Forças de tamanho similares se enfrentaram nos campos de Sarandi e, talvez pegos de surpresa pelo ataque impetuoso e inesperado, o exército brasileiro foi fragorosamente derrotado. Entre os dois mil combatentes imperiais, houve 400 mortes e outros 400 feitos prisioneiros, enquanto as baixas uruguaias ficaram em apenas 10% dessas cifras. A vitória catapultou a rebelião e, em breve, quase todo o território uruguaio estava em suas mãos. A última região a cair foi o nordeste do país, restando apenas as cidades de Montevideo e Colonia, que permaneceram sob cerco terrestre, mas sob domínio brasileiro, até o final da guerra, três anos mais tarde.
Gravura sobre a batalha de Sarandi, a primeira grande vitória dos uruguaios contra as tropas imperiais brasileiras, em 1825
As derrotas terrestres eram contrabalançadas pela superioridade naval do Império do Brasil. A ajuda escancarada dos argentinos na guerra fizeram com que o Brasil declarasse guerra àquele país e fizesse um bloqueio naval de sua principal cidade e porto, Buenos Aires. O cerco estrangulou a economia do país e, após três anos de hostilidades, o país vizinho estava pedindo água. Foi nesse impasse que a Inglaterra fez uso de sua poderosa diplomacia e “convenceu” os países beligerantes que a solução seria a criação de um terceiro país, o Uruguai. Nâo era esse o intuito inicial daqueles “33 orientales”, que sonhavam com uma república federalista e não centralizada, mas unida, de todas as províncias de língua espanhola na Bacia do Prata. Por fim, brasileiros ficaram felizes que o Uruguai não pertenceria à Argentina; argentinos ficaram felizes de ter seu porto liberado e que o Uruguai não pertenceria ao Brasil; uruguaios ficaram felizes de ter sua própria nação, livres do Império do Brasil e da Argentina de governo centralizado fortemente em Buenos Aires; e a Inglaterra ficou feliz de criar uma nação livre entre as duas maiores potências do continente e de mostrar ao mundo que ela ainda tinha força de exercitar sua diplomacia dentro do “quintal” da mais nova e emergente potência imperialista do mundo, os Estados Unidos e sua recém-criada doutrina Monroe (América para americanos).
Gravura sobre a batalha de Sarandi, a primeira grande vitória dos uruguaios contra as tropas imperiais brasileiras, em 1825. Eram 2 mil homens de cada lado e as tropas brasileiras sofreram mais de 400 mortes
Depois da aula de história, seguimos adiante. Minas não era nosso destino final hoje. Queríamos chegar verdadeiramente à região serrana do país e, para isso, precisávamos seguir mais alguns quilômetros. A pequena Villa Serrana e o Parque Salto del Penitente não estavam longe.
Almoçamos na Irisarri, a mais tradicional confeitaria de Minas, no Uruguai, uma verdadeira institução local
Curtindo o mar em Manuel Antonio, no litoral do Oceano Pacífico, na Costa Rica
Os dois oceanos que cercam nosso continente, o Atlântico e o Pacífico, sempre são uma referência para mim. Nessa nossa longa viagem pelas Américas, estamos sempre zanzando de um lado ao outro, de um oceano à outro, as vezes mais do lado de cá, as vezes mais do lado de lá. A cada vez que deixamos o mar para trás, fico imaginado quando vamos nos encontrar novamente, em que condições e em que país. Enfim, para mim os encontros com o mar são uma maneira de ver que o tempo está passando, que etapas foram vencidas ou que ainda temos muito chão pela frente.
Fazendo compras antes de sair de La Fortuna, região da Laguna Arenal, na Costa Rica
Por exemplo, no dia 15 de Dezembro do ano passado, passamos uma deliciosa tarde em Venice Beach, em Los Angeles. Caminhamos pela praia e colocamos os pés na água fria. Vínhamos de uma temporada no Hawaii e estávamos “íntimos” do Oceano Pacífico. Aquela caminhada era uma despedida, um até logo para esse majestoso oceano. Fiquei imaginado quando seria a próxima vez... sabia que seria na Costa Rica, mas não sabia em quanto tempo. Antes disso, passaríamos pelo Oceano Atlântico, um outro mar, um outro mundo. Mas voltaríamos ao Pacífico...
Encontro com um simpático casal (um carioca e uma peruana que vive no Brasil) que reconheceram na rua a expedição 1000dias! Estamos ficando famosos, hehehe, (em La Fortuna, na Costa Rica)
Esse dia chegou. Hoje! Mas antes de lá chegar, tínhamos de deixar para trás as montanhas do país, percorrer a estrada cheia de curvas, reconhecer alguns trechos de estrada que percorremos há mais de 15 meses e, enfim, chegar ao mar querido. Para enfrentar o longo caminho, começamos com uma parada na quitanda, ainda na cidade de La Fortuna. De volta ao mundo tropical, frutas são boas, baratas, abundantes e irresistíveis!
Comprando um delicioso queijo local, ainda pertos de La Fortuna, na Costa Rica
A Ana foi fazer as rápidas compras enquanto eu e a Fiona aguardávamos. Esses poucos minutos na rua foram o suficiente para sermos reconhecidos por dois outros viajantes, um casal formado por um carioca e uma peruana que mora no Brasil. Simpaticíssimos, eles reconheceram a Fiona, pois são leitores do nosso site! Que legal! Disseram até ter usado algumas das nossas dicas de posts antigos. Que gostoso ter nossos 15 segundos de fama, hehehe.
Chegando às praias da região de Manuel Antonio, no litoral do Oceano Pacífico, na Costa Rica
Depois da “glória”, a estrada. Região montanhosa, lindas paisagens, muita neblina e também deliciosos queijos. Não resistimos e nos abastecemos, quijo parecido com aquele que tem no sul de Minas, de fazer nó. Junto com as frutas e algumas bolachas, foram nosso alimento pelas próximas horas, até que chegássemos na costa e na pequena cidade de Manuel Antonio.
Caminhando em praia de Manuel Antonio, no litoral do Oceano Pacífico, na Costa Rica
A cidade fica na entrada de um pequeno parque nacional com o mesmo nome. É um dos menores, porém mais bonitos parques desse país repleto de áreas de conservação. Protege uma área de mata cheia de vida, como macacos, pássaros e bichos-preguiça, além de praias cinematográficas. Não fosse pelo parque, certamente teriam sido tomadas por condomínios ou hotéis. Felizmente, estão ali, quase virgens, seu aspecto natural quase intocado. O parque vai ser nosso programa de amanhã.
Praia de areia escura em Manuel Antonio, no litoral do Oceano Pacífico, na Costa Rica
Hoje a gente se satisfez com as praias do lado de fora mesmo. Areias claras, águas quentes, orla cercada pela vegetação. Resumindo: uma maravilha! O Oceano Pacífico em todo o seu esplendor! Cada vez mais gosto desse Oceano, eu que sempre fui tão “Atlântico”. Mas, em um lugar como esse, difícil não se apaixonar.
Lindo entardecer em Manuel Antonio, no litoral do Oceano Pacífico, na Costa Rica
Ainda mais com o fim de tarde que tivemos, o sol reaparecendo sob as nuvens nos minutos finais, uma bola de fogo avermelhada afundando vagarosamente no mar. Foi cinematográfico! Bastou um mergulho para nos sentirmos em casa novamente. Ainda bem que a “temporada pacífica” vai ser longa pois, depois de Manuel Antonio, seguimos para a Península de Osa, também desse lado do continente.
Fantástico pôr-do-sol em Manuel Antonio, no litoral do Oceano Pacífico, na Costa Rica
Para celebrar o reencontro, ainda teve um jantar especial em um lugar meio “diferente”. Um antigo avião militar destinado à guerrilha dos Contras, que durante a década de 80 lutou contra o governo sandinista da Nicarágua e que tinha diversas bases na Costa Rica, foi transformado em um restaurante. Sem dúvida, um papel muito mais nobre que a do passado! Assim, tivemos a nossa melhor refeição em um avião desde o início dos 1000dias e voltamos para nossa hotel ansiosos pelo dia de amanhã, entre praias e animais silvestres, a cara desse belo país!
Restaurante em antigo avião militar destinado aos Contras, da Nicarágua, em Manuel Antonio, no litoral da Costa Rica
Ana participa de banda de jazz em New Orleans, na Louisiana - Estados Unidos
Sempre achei que algumas poucas cidades dos Estados Unidos eram especiais, diferentes das outras. Entre elas, San Francisco, Nova Iorque e New Orleans. As duas primeiras eu já conhecia e realmente são incríveis. Mas New Orleans e sua famosa Bourbon Street, cidade de origem francesa onde se respira o jazz, essa eu só conhecia pela fama. Desde o início da nossa viagem dos 1000dias, estava no topo da lista de cidades que queríamos passar aqui no Tio Sam. Finalmente, chegou a hora e esses dois dias por aqui apenas confirmaram as nossas expectativas. New Orleans é especial!
Despedida do Andrew, em frente à sua casa em Tuscaloosa, no Alabama - Estados Unidos
Chegando à Louisiana, no sul dos Estados Unidos
A gente saiu ontem pela manhã de Tuscaloosa, depois de nos despedirmos do Andrew e Jen e nos prometer que o próximo encontro não demorará outros 13 anos. Cruzamos o Alabama, passamos outra vez pelo Mississipi e chegamos à Louisiana, estado à beira do Golfo do México. Não demorou muito e já estávamos cruzando a longa ponte sobre o lago Ponchartrain que nos leva até New Orleans, na boca do rio Mississipi.
A longa ponte para chegar à New Orleans (que já aparece ao fundo!), na Louisiana - Estados Unidos
O Superdome, qie ficou famoso na época do Katrina (em New Orleans, na Louisiana, nos Estados Unidos)
Passamos pelo Super Dome, enorme ginásio coberto que ficou famoso na época do Katrina e fomos para o Garden District, onde estão as melhores opções de hospedagem na cidade, charmosas casas transformadas em hotéis e pousadas. Não demorou muito para descobrirmos que chegar à New Orleans às vésperas de um final de semana sem reserva não é uma boa. Em todos os hotéis que averiguamos até havia lugar para a noite de ontem, mas para a de hoje, estavam lotados. Finalmente, depois de uma hora de procura, achamos um hostal meio escondido, numa rua lateral. Ótima opção, preço razoável, localização excelente.
Casa típica do Garden District, em New Orleans, na Louisiana - Estados Unidos
Afinal, além da vizinhança charmosa do Garden District, com suas casas centenárias, estávamos a um quarteirão da linha de bonde, o mais que simpático transporte para o French Quarter, o centro da cidade. Uns 10 minutos de bonde, ou trinta minutos de caminhada. É lógico que preferimos o bonde e assim foi nesses dois dias, bonde na ida e táxi na volta, já de madrugada.
Pegando o bonde em New Orleans, na Louisiana, nos Estados Unidos
O simpático bonde de New Orleans, na Louisiana, nos Estados Unidos
New Orleans tem origem francesa, os primeiros colonizadores de toda a região ao longo do Mississipi. A cidade era a mais importante em todo o curso do rio, pois controlava sua foz e portanto, o acesso à navegação do Mississipi. Em 1760, com a derrota na Guerra dos 7 Anos, a França cedeu todas as suas colônias na América do Norte, a parte ao leste do Mississipi para a Inglaterra e ao oeste para a Espanha. New Orleans passou a ter um governador espanhol.
Homenagem aos grandes nomes do jazz em New Orleans, na Louisiana, nos Estados Unidos
Quarenta anos mais tarde, o cenário tinha mudado. Os Estados Unidos tinham conseguido sua independência e controlavam todo o território ao leste do Mississipi. O rio já era uma importante artéria de comércio, toda a produção ao oeste dos Apalaches fluindo por suas águas. Para o novo país, era essencial manter o acesso livre no rio. Enquanto isso, na Europa, a França vivia sob Napoleão, mais forte do que nunca, mas sempre às turras com a Inglaterra. Os franceses tinham acabado de perder sua mais rica colônia no Caribe, o Haiti, depois de uma violenta rebelião dos escravos (o Haiti foi o segundo país das Américas a conseguir sua independência, logo depois dos EUA). Napoleão tinha grandes planos para o Novo Mundo e isso incluía o Haiti e a Louisiana, região onde está New Orleans, então sob controle espanhol.
St Louis Cathedral, em New Orleans, na Louisiana - Estados Unidos
Sob forte pressão francesa, os espanhóis acabaram cedendo toda a região novamente, num tratado secreto. Ao mesmo tempo, Napoleão mandou seus soldados reconquistarem o Haiti, que seria o centro do império francês nas Américas. A Louisiana serviria apenas para abastecê-lo. Para os americanos, um péssimo cenário, com uma grande potência logo ali do lado e controlando a foz do rio que já era vital para sua economia. Mas os planos de Napoleão foram vencidos pela febre amarela. Quase dois terços de seus soldados morreram no Haiti, depois de vitórias militares, mas sem saber lidar com a doença. Voltaram para casa de mãos abanando. Sem a posse da ilha, Napoleão já não via muito sentido na posse da Louisiana. Os americanos viram a grande oportunidade e se ofereceram para comprar a cidade e arredores. Para sua surpresa, Napoleão ofereceu muito mais: toda a região que ia da foz do rio até a fronteira atual com o Canadá, ao norte, e até as Montanhas Rochosas no oeste (claro que ninguém perguntou para os índios que ali moravam o que eles achavam do negócio...). Sem acreditar em tamanha sorte, os americanos não titubearam e fecharam negócio na hora. Por 15 milhões de dólares, duplicaram seu território e ainda garantiram a posse da tão ambicionada New Orleans. Junto com a terra, vieram algumas dezenas de milhares de católicos de origem francesa e espanhola, o que mudaria para sempre a composição da população americana, que na época era quase completamente protestante. Já Napoleão, usou todo o dinheiro da venda para financiar sua tão sonhada invasão da Inglaterra, o que nunca aconteceu. Muito pelo contrário, a França acabou ficando sem o Haiti, sem a Louisiana e sem Napoleão, vencido e preso pelos ingleses.
Banda de jazz toca nas ruas de New Orleans, na Louisiana - Estados Unidos
A posse da cidade era tão importante que foi justamente ali que se deu a principal vitória americana na guerra contra os ingleses, em 1811. A guerra terminou empatada, com algumas vitórias e derrotas para os dois lados. A capital, Washington, foi ocupada e queimada, mas New Orleans e o controle do rio resistiram ao ataque e, desde então, nada mais ameaçou a posse americana da região. Ao contrário, foi exatamente essa batalha que ajudou a cimentar o sentimento de nacionalidade americana entre os habitantes da região.
Homenagem a Louis Armstrong no parque que leva o seu nome, em New Orleans, na Louisiana - Estados Unidos
Outro componente essencial de New Orleans foi sua população negra. Os espanhóis transformaram a cidade no seu centro de distribuição de escravos. Então, quando a cidade passou para as mãos dos americanos, os negros já eram sua maioria. Na Guerra da secessão, New Orleans começou ao lado dos confederados, mas foi logo conquistada pela União. O caldeirão de culturas da cidade, espanhola, francesa, americana e africana, católica e protestante acabou criando, entre outras coisas, o jazz, música-símbolo de todo o país. Criou também o “Madrigas”, ou carnaval americano. Nasceu numa praça de New Orleans, hoje chamada de Congo Square, único lugar da cidade, e provavelmente do país, onde a população escrava podia se divertir de forma permitida e oficial, por alguns dias. As festas que ali faziam continuaram depois da abolição da escravatura, sempre com muita música. Acabou virando um festival e o maior carnaval do país.
Marujos caminham na famosa Bourbon Street, em New Orleans, na Louisiana, nos Estados Unidos
Casa de shows na Bourbon Street, em New Orleans, na Louisiana, nos Estados Unidos
Nessa cidade passamos dois deliciosos dias. Íamos de bonde para o centro e caminhávamos pela Bourbon Street. A mais famosa rua da cidade está tomada de bares que oferecem cerveja barata e shows de reputação duvidosa, meninas na porta, sempre com pouca roupa, convidando solteiros e casados a entrarem e darem uma olhada. A concorrência é enorme, não só na oferta, mas também na demanda. Afinal, são milhares de pessoas caminhando por ali, desde marinheiros nos dias de folga até excursões de estudantes vindas de todo o país. Soma-se a isso turistas de todo o mundo, famílias caminhando juntas e os convidados das dezenas de casamentos que são realizados na cidade todos os finais de semana (New Orleans concorre com Las Vegas como centro “casamenteiro” mais querido do país) e tem-se a Torre de Babel misturada com Gomorra que é a Bourbon Street. Sempre ao som de jazz que escapa das dezenas de bares e das bandas que se apresentam pela rua.
Congo Square, um raro lugar de diversão para os escravos em New Orleans, na Louisiana - Estados Unidos
Para poder respirar um pouco, seguíamos para as ruas laterais, para admirar a arquitetura completamente distinta da cidade, nada de arranha-céus envidraçados e lojas de fast-food. Pelo menos, não ali no centro histórico. Aliás, falando em comida, come-se muito bem por ali, cozinha típica do sul. Nosso jantar na noite de hoje, no Irene´s, fez cada minuto de espera ter valido à pena, um verdadeiro banquete, não na quantidade, mas na qualidade da comida. Uma delícia! Já de dia, ficávamos com os sanduíches locais, conhecidos como po´boys.
Po-Boy e cerveja da Louisiana em New Orleans, na Louisiana - Estados Unidos
Imperdível também é um passeio pela orla do Mississipi, quase em frente à principal praça da cidade, a belíssima Jackson Square. Por ali passam réplicas dos famosos barcos com aquelas enormes rodas d’água na popa. Hoje esses barcos levam turistas rio acima, mas por dezenas de anos eram o transporte mais conhecido da região, um verdadeiro símbolo de uma época e da navegação no Rio Mississipi.
Vendedor de rosas na Bourbon Street, em New Orleans, na Louisiana, nos Estados Unidos
O barco tradicional do Mississipi, que hoje faz passeios com turistas em New Orleans, na Louisiana - Estados Unidos
De noite, a melhor pedida é seguir para a Frenchmen Street, a poucos quarteirões dali. A rua se parece com o que deveria ser a Bourbon Street antes de ser tomada pelos shows de reputação duvidosa. São vários pequenos bares, um ao lado do outro, tocando excelente música e com plateia bonita e animada. Para quem gosta de jazz, vai adorar. Para quem não gosta, vai aprender a gostar! São jovens e velhos, homens e mulheres, brancos e negros, todos se misturando em bandas ecléticas tocando música da melhor qualidade. O prazer em transitar entre esses bares foi o mesmo que tivemos em Memphis, quando estávamos no meio do Blues. Que delícia ver com os próprios olhos (e ouvir com os próprios ouvidos!) que existe muita música além do rock. Ou, para baixar o nível, além do sertanejo e do Michel Teló. Não só existe a música como também uma legião de fãs entusiasmados que sabem apreciá-la.
Muito jazz nos bares da Frenchman Street, em New Orleans, na Louisiana, nos Estados Unidos
Muito jazz nos bares da Frenchman Street, em New Orleans, na Louisiana, nos Estados Unidos
Falando em música, ainda de tarde tivemos a sorte de passar pela catedral da cidade, justo na hora em que a banda da Marinha se apresentava por ali, aproveitando a excelente acústica do interior da prédio. Igreja lotada para o concerto, no meio da multidão dois brasileiros deslumbrados pela oportunidade de ouvir clássicos do jazz tocados de forma primorosa por uma banda de mais de 50 marinheiros. Muito joia!
Interior lotado da St. Louis Cathedral, em dia de apresentação de banda da marinha (em New Orleans, na Louisiana, nos Estados Unidos)
Apresentação da banda da marinha na St. Louis Cathedral, em New Orleans, na Louisiana, nos Estados Unidos
Amanhã cedo deixamos a cidade rumo à Flórida. Mesmo antes de sair daqui, já estamos com saudades. O clima festivo de New Orleans é contagiante, assim como o prazer de caminhar nas suas ruas charmosas onde as pessoas descansam em suas varandas e leem jornais na porta das casas, num ritmo de vida mais adaptado ao calor, sem o frenesi nova-iorquino, um tipo de ritmo baiano em pleno Estados Unidos. Só trocaram o axé pelo jazz...
Tarde de leitura em New Orleans, na Louisiana - Estados Unidos
Velejando na grande barreira de corais, em Belize
Sentados em um restaurante de frente à praia, com os pés na areia e curtindo o fim de tarde na pequena cidade de Hopkins, no sul de Belize, não demorou muito para conhecermos outras pessoas. Meninas garifunas que queriam nos vender algo, cidadãos locais para quem perguntávamos sobra a famosa batida de tambor do local e um solitário indivíduo de cabelos que começavam a embranquecer, pele curtida pelo sol e alta estatura que se divertia com seu cão. Era o Gaston, dono de um veleiro que estava “estacionado” ali na frente.
Amarras do nosso veleiro na grande barreira de corais, em Belize
Detalhe do nosso veleiro na grande barreira de corais, em Belize
Conversa vai, conversa vem, contamos a ele sobre nosso caminho pelas Américas, assim como ele nos contou sobre sua própria jornada. Ele trabalha como mergulhador durante alguns poucos meses por ano, em projetos no mundo inteiro. Trabalho altamente especializado, com poucas pessoas aptas para fazê-lo. Por isso, paga-se bem e ele pode se dar ao luxo de, em boa parte do ano, fazer o que mais gosta: viver em seu pequeno veleiro perambulando pelo litoral da América Central e Caribe. Não é uma vida luxuosa. Para isso, ele teria de trabalhar mais. Mas prefere a vida simples, sempre perto do mar, pescando a própria comida, casa apertada, mas com o maior e mais belo quintal do mundo, o oceano.
Vela içada na grande barreira de corais, em Belize
Chegando á ilhota na grande barreira de corais, em Belize
Ele também é amigo da Trisha, a dona da nossa pousada. Já de noite, foi visitá-la, enquanto a simpática e falante nova-iorquina preparava o jantar para sua clientela. Ali, continuamos nossas conversas. Ele nos ofereceu um passeio em seu veleiro até a grande barreira de corais, cerca de 25 quilômetros mar adentro. Ali, quase em frente à Hopkins, está uma pequena ilha, assentada justamente sobre a barreira de corais, chamada Tobacco Caye. Tão pequena que podemos dar a volta nela, caminhando, em uns 10 minutos. Alie estão três hotéis, entre o caro e o barato e uns cinquenta habitantes, além de uns poucos turistas felizardos. Pode-se chegar até lá de lancha também, saindo de Dangriga. Até cogitamos fazer isso também, mas foi o charme de poder velejar até lá, ao ritmo dos ventos, que mais nos apelou.
A sala de estar e refeições do nosso veleiro na grande barreira de corais, em Belize
Nossa suíte no veleiro na grande barreira de corais, em Belize
Então, nessa noite mesmo, nos decidimos: íamos com ele. Acertamos preço e condições. Duas noites no barco, três dias no veleiro. Além de Tobacco Caye, velejaríamos ao largo da barreira também, conhecendo outras ilhotas e fazendo snorkel sempre que possível. A saída seria no dia seguinte, logo depois de eu pegar dinheiro em Dangriga (não há bancos em Hopkinns) e da Ana e o Gaston comprarem comida em uma quitanda local.
Início da nossa velejada na grande barreira de corais, em Belize
Vida dura no veleiro na grande barreira de corais, em Belize
Feito isso, eram pouco antes das 11 da manhã quando abordamos o The Rob (“A Foca”, em holandês), o veleiro até o qual já tínhamos nadado no dia anterior, para conhecer nossa nova “casa”. Com sua namorada, o Gaston já tinha feio isso outras vezes: receber um casal de clientes para uma temporada pelos mares. Depois de muitos anos nesse tipo de vida, a namorada sentiu falta da vida agitada e da terra firme. Atualmente, está na Europa, onde organiza festas eletrônicas. Em poucas semanas, o Gaston voará para lá, para matar as saudades.
Dias lindos a bordo de nosso veleiro na grande barreira de corais, em Belize
Chegando à Tobacco Caye, na grande barreira de corais, em Belize
O veleiro não é grande, pouco mais de 10 metros de comprimento. Na parte interna, a sala de refeições, uma cozinha e um quarto, que ele cedeu para nós. Do lado de fora, a “varanda” de comando e um deck com passagens apertadas, por entre amarras e velas dobradas. Espaço mais que suficiente para pendurar uma rede ou para se tomar sol admirando o mar azul, cor de piscina, a nossa volta.
Recolhendo âncora para zarpar, na grande barreira de corais, em Belize
A bordo do veleiro na grande barreira de corais, em Belize
O barco tem um pequeno motor, principalmente para quando o vento está muito preguiçoso. O Gaston o comprou na década de 90, na Europa, de onde o barco nunca havia saído. O The Rob vai fazer 100 anos muito em breve, um respeitável senhor construído no início do século XX por um famoso construtor de barcos holandês. Passou pela mão de uns 5 proprietários até que o Gaston o comprasse de um casal alemão. Não muito tempo depois, na companhia de um casal de amigos, fez a travessia oceânica, trazendo “a foca” para as ágas quentes do Caribe, de onde não mais saiu.
Um pequeno coqueiro na popa do Rob, nosso veleiro na grande barreira de corais, em Belize
Por aqui, ficou muito tempo no Panamá, navegando pelas paradisíacas ilhas de San Blás, de doces memórias para nós também. Também teve uma temporada em Honduras e agora por aqui, entre Belize e Guatemala. Isso sem falar de passagens mais rápidas pelo litoral da Venezuela e de algumas ilhas no sul do Caribe. Mas atualmente, sua casa é mesmo a grande barreira de corais de Belize, a não ser quando se aproxima um furacão, quando o gaston e toda a torcida do Corinthias levam seus barcos para as águas seguras de Rio Dulce, um rio na Guatemala considerado pela marinha americana como o local mais seguro para barcos no lado caribenho da América Central.
O Gaston mostra nosso jantar fresquinho, na grande barreira de corais, em Belize
Tudo isso fomos aprendendo nas interessantes conversas com o Gaston, ao longo desses três dias no mar. A melhor hora das conversas era durante as refeições, sempre preparadas por ele mesmo. Algumas vezes, até mesmo pescadas por ele. Por gosto e necessidade, ele ficou craque em pesca submarina e peixe fresco e gratuito é o item principal de sua dieta. Junte-se a isso sua classe em criar molhos e temperos, mistura da herança europeia e condimentos caribenhos e será fácil concluir que nós passamos bem nesses três dias, muito bem alimentados.
Hora do jantar no veleiro, na grande barreira de corais, em Belize
Na parte de bebidas, além de umas poucas cervejas geladas e de sadios sucos de laranja, caprichamos bem era nos rum punches, sabor aveludado com o uso de água de coco como um dos ingredientes. A Ana ficou especialista na sua confecção. Entre um mergulho e outro, entre uma ilha e outra, sempre tínhamos a nossa jarra pronta para saborear.
Uma velha loba do mar, na grande barreira de corais, em Belize
De resto, só posso dizer que foi uma experiência incrível, ver e sentir de perto como funciona um veleiro e como seria viver no mar. Na parte de dentro da barreira de corais, exceto em poucas situações, o mar é sempre tranquilo e nem a Ana teve problemas de enjoo. A gente observou o uso das velas, como se joga ou se recolhe uma âncora, a escolha do melhor lugar para “estacionar” e como dirigir o timão. Foram três dias que nos ajudarão e responder nossa eterna pergunta: poderíamos ou não passar alguns anos dentro de um barco desses, conhecendo aquelas partes do mundo em que a Fiona não pode nos levar?
A bordo do Rob, nossa casa nesses 3 dias velejando pela grande barreira de corais de Belize
É claro que só tivemos noções básicas e navegamos apenas por um mar tranquilo. Mas é preciso começar em algum lugar, certo? E nós começamos por aqui, na barreira de corais de Belize, a bordo do The Rob, “capitaneados” pelo nosso agora muito amigo Gaston, que nos levou com segurança e conforto por esses três dias inesquecíveis. Já de volta à Hopkins, a despedida foi calorosa, com uma pequena esperança de reencontro em poucos dias, na Guatemala. Mas, se não for por lá, será em algum outro lugar desse mundão, que não é tão grande assim... Meu caro Gaston, muito obrigado pela oportunidade e aprendizado!
Despedida do nosso capitão e amigo, o holandes Gaston, já em terra firme, em Hopkins, no litoral sul de Belize
Nosso roteiro para atravessar Cuba, de Havana à Santiago
Depois da cara feia que ganhamos no aeroporto de Havana por termos chegado “apenas” uma hora antes do nosso voo para a Isla de La Juventud, hoje resolvemos não arriscar: chegamos uma hora e quinze antes do voo. Pois é, de nada adiantou a nossa “antecipação”. Quando fomos fazer o check-in, a companhia se surpreendeu com a nossa chegada, pois já tinham aberto a lista de espera e chamado em casa as pessoas que estavam na fila. Aí, foi aquele “Deus nos acuda”, chora daqui, chora dali, éramos turistas, no Brasil não é assim, blá, blá, blá. O resultado foi levarmos uma descompostura e , enfim, entramos no avião, enquanto aqueles que estavam felizes de terem sido chamados para abordar voltaram decepcionados para casa. Depois desse susto, a promessa foi de chegar sempre bem cedo nos aeroportos cubanos...
Parada técnica com nosso carro, no caminho para Cienfuegos, em Cuba
Voo rápido para Havana com direito a mais uma leitura do Granma e lá chegando, táxi para o terminal internacional (são bem separados, os três terminais do aeroporto) para pegarmos nosso carro que o Rafa já havia reservado do Brasil. Não demorou muito e já estávamos os quatro iniciando nossa jornada pelas “carreteras” do país. Serão mais de 1.000 km até Santiago de Cuba, quase na ponta leste da ilha, passando por Cienfuegos e região, a histórica Trinidad, Camaguey, Playa Santa Lucia, na costa norte do país e, finalmente, Santiago
Antigos aviões de guerra em campo próximo à Cascata del Nicho, região de Cienfuegos, em Cuba
Esse primeiro trecho da viagem, com pouco mais de 250 km, foi quase todo pela principal estrada de Cuba, a Autopista Nacional, estrada com pista dupla. Algumas das minhas mais fortes lembranças da viagem que fiz pela ilha há dez anos eram exatamente das estradas do país. Quase nenhum movimento de carros, mesmo no principal eixo rodoviário da ilha, centenas bicicletas e carroças, além de muita gente pedindo carona, principalmente nos entroncamentos. Dez anos mais tarde, aparentemente nada mudou! Aquela estradona toda sem carros, pronta para receber um fluxo dez vezes maior que o existente hoje. Dos poucos carros que cruzamos, muitos são de turistas estrangeiros e o resto, na maioria, faz um trânsito local. Caminhões e ônibus predominam. Efetivamente, cubanos não conseguem viajar pelo seu país com o seu próprio carro. Considerando que o litro de gasolina custa entre 1 e 1,40 CUCs (dependendo da qualidade) e que o salário médio no país é por volta de 25 CUCs mensais, é fácil entender o porquê!
Trilha para a Cascata del Nicho, próxima à Cienfuegos, em Cuba
Caminhada na região da Cascata del Nicho, próxima à Cienfuegos, em Cuba
Bom, desse jeito a viagem foi bem tranquila. A não ser quando entramos nas estradas secundárias. Aí, é preciso tomar muito cuidado com o tráfego de carroças e bicicletas. Pouco mais de três horas de estrada, com direito a parada para lanche, chegávamos à Cienfuegos. Chegávamos e passávamos, diretamente. Isso porque resolvemos ir direto para uma das mais belas atrações da região, a Cascata del Nicho. Depois de cruzar a infindável e monótona planície entre Havana e Cienfuegos, foi um respiro começar a se aproximar das montanhas onde está o belo rio que forma a cachoeira. Foram quase 70 km de estradas curvilíneas para chegar até a entrada do parque, bem na hora que os turistas levados por vans saíam de lá.
Trilha na Cascata del Nicho, próxima à Cienfuegos, em Cuba
A surpreendente Cascata del Nicho, próxima à Cienfuegos, em Cuba
Deste modo, tivemos o parque só para nós, um único outro turista por ali, um espanhol viajando com dois amigos cubanos. Rio de águas bem claras e esverdeadas, formando poços excelentes para um bom mergulho, além de uma queda d’água que parece uma pintura. Passamos aí mais de uma hora nos esbaldando nas águas e caminhando na trilha agradável que corta o pequeno parque. Um mirante permite admirar a belíssima região, um vale com centenas de tonalidades de verde, um dos trechos de natureza mais bem conservados do país. Quem ainda teve de se conter um pouco na hora do mergulho foi a Ana, ainda na luta contra a infecção no ouvido. Mas não resistiu a um bom mergulho, cuidando para não molhar a cabeça.
Caminhada na região da Cascata del Nicho, próxima à Cienfuegos, em Cuba
Delicioso banho num dos poços da Cascata del Nicho, próxima à Cienfuegos, em Cuba
De volta a Cienfuegos, localizamos a Casa de Hóspedes que já tínhamos reservado e nos instalamos no final do dia. A simpática e falante dona estava preocupada por não termos chegado até tão tarde. Todas as nossas acomodações até Santiago já estão reservadas, trabalho feito pela mesma pessoa que nos colocou na casa da Margarita, em Havana. Esse proprietários de Casas de Hóspedes, a nascente burguesia do país, formam verdadeiras teias de contatos entre eles, sempre se indicando mutuamente, fazendo reservas e, claro, ganhando comissões. Fora de Havana, essas casas são ainda mais baratas e, de forma geral, pagamos 25 CUCs por casal, 5 dos quais são a comissão de quem nos fez a reserva. Para mim e a para a Ana, depois dos preços da Jamaica e Ilhas Caiman, 25 CUCs são música nos nossos ouvidos!
Delicioso banho num dos poços da Cascata del Nicho, próxima à Cienfuegos, em Cuba
O Rafa encontra um carangueijo de água doce na Cascata del Nicho, próxima à Cienfuegos, em Cuba
Ainda demos uma volta na praça central pela noite, a iluminação valorizando mais ainda os prédios históricos. Depois, cama. Amanhã dormimos aqui novamente, mas a ideia é passar o dia na Playa Giron, bem na entrada da famosa Baía dos Porcos, local da fracassada invasão anti-castrista no início da década de 60, patrocinada pela CIA e pelos EUA de Kennedy.
Cai a noite na cidade de Cienfuegos, em Cuba
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