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Lillian Brandão (24/09)
Oi Rodrigo, Incrível o passeio de avião. Infelizmente não fiz porque ...
ZUPO (24/09)
Ana e Rodrigo ! Tudo de bom para vocês ! Por duas vezes hoje, buscando ...
Virgilio (24/09)
Jorge Martins (24/09)
Último que eu esqueci ... Para ir a Whittier o túnel é o mesmo para au...
Jorge Martins (24/09)
Oi Rodrigo, Se puder sugerir tb: visitem o Kenai e Seward. Boa viagem Jo...
Flamingos se alimentam nas águas vermelhas da Laguna Colorada, no sudoeste da Bolívia
Conforme combinado ontem o Cristóbal e a Krasna apareceram logo cedo no nosso hotel para partirmos juntos rumo à Bolívia. Já tínhamos enchido o tanque da Fiona e comprado comida e agora só faltava a burocracia da alfãndega de saída, o que deve ser feito ainda en San Pedro de Atacama.
Com a Cristóbal e a Krasna, nossos caronas na travessia até o Salar de Uyuni (na fronteira entre Chile e Bolívia, a caminho da Laguna Colorada)
De volta à Bolívia, a caminho da Laguna Colorada
Feito isso, estávamos prontos! A Fiona, pela primeira vez, carregava quatro pessoas e suas respectivas bagagens para uma viagem de vários dias. Subimos a nossa ladeira velha conhecida de 30 km, que nos leva dos 2.400m para 4.700m e, lá no alto, tomamos o desvio para a Bolívia, que é exatamente ali do lado. Um pouco antes dos diversos tours que saem diariamente do Chile para a Bolívia, chegamos à fronteira. Ali encontramos os muitos jipes bolivianos que vem encontrar os tours que vem do Chile para pegar seus passageiros e levá-los até o Salar de Uyuni. Esses mesmos jipes trazem os turistas que vem no sentido contrário e ali trocam de condução, para chegarem à San Pedro, tudo muito bem combinadinho, horário e local, para que nenhuma van ou jipe faça algum trecho sem passageiros. É a chamada "otimização". Melhor do que isso, só quem faz tudo de Fiona, sem ter de trocar de veículo na fronteira, hehehe.
Jipes levam turistas para a Laguna Colorada, na Bolívia
Bem, nada é perfeito e, para quem vem de Fiona, os passaportes são carimbados ali, mas a documentação do carro deve ser feita em outro lugar, um pequeno desvio mais à frente, na saída do Parque Nacional Abaroa. A entrada desse parque fica uns poucos quilômetros depois da fronteira, mais uma rápida parada nesse nosso primeiro dia de viagem rumo ao Salar de Uyuni.
A Laguna Verde, a primeira de muitas lagoas altiplânicas na rota para a Laguna Colorada e o Salar de Uyuni, na Bolívia
A Laguna Verde, a primeira de muitas lagoas altiplânicas na rota para a Laguna Colorada e o Salar de Uyuni, na Bolívia
Depois da entrada no parque, as primeiras atrações são as Lagunas Verde e Blanca. Já tínhamos visto essas lagunas no dia que chegamos pelo Paso de Jama, de longe, da estrada. Vimos também durante a nossa subida ao Cerro Toco. Agora era hora de vê-las de perto. Bem de perto! Tanto que, na Laguna Blanca, pude até caminhar sobre ela, já que estava completamente congelada. Apesar de ser uma cena comum em filmes, para mim foi a primeira oportunidade na vida de se caminhar sobre uma lagoa. Muito legal!
Filmando a congelada Laguna Blanca, no caminho para a Laguna Colorada, no sudoeste da Bolívia
Caminhando sobre o gelo da Laguna Blanca, no caminho para a Laguna Colorada, no sudoeste da Bolívia
Outra grande atração do parque é a vista do Licancabur. Do lado boliviano ele é bem menos íngrime e é por aqui que a maioria das pessoas tentam subi-lo. Para nós, foi só a visão. E agora, é um motivo a mais para voltar para essa região tão linda, para se chegar aos seus 6 mil metros de altura.
O magnífico cenário no caminho para a Laguna Colorada, na Bolívia
Maravilhosa piscina de águas quentes a quase 4.500 metros de altitude e temperatura externa próxima do 0 graus, no caminho para a Laguna Colorada, na Bolívia
A próxima lagoa no caminho guardava uma magnífica surpresa: águas termais! Uma pequena barragem formou uma piscina e a tentação de entrar nela foi tão grande que, apesar do frio que fazia fora, eu não me acanhei de estar sem calção. Afinal, cueca serve para quê? A sensação de nadar a esta altitude, naquele frio e com aquela paisagem ao redor é indescritível. Um dos momentos mágicos dessa viagem que não esquecerei jamais! A Ana, que estava na dúvida se entrava ou não, depois de ver o meu prazer e desobrir que aquela seria a única água quente nas próximas 48 horas, tambem não titubeou. Aí, já com duas pessoas dentro d'água, as pessoas foram se animando e, quando resolvemos sair, já eram mais de dez na piscina. Muito melhor do que aquela nos Geisers El Tatio, diga-se!
Novo recorde da Fiona, enfim acima dos 5 mil metros de altura, na aduna boliviana da região da Laguna Colorada
Em seguida, saímos da estrada principal rumo ao ponto onde devemos fazer a alfândega da Fiona. Nesse caminho, duas surpresas: primeiro, ultrapassamos a marca dos 5 mil metros de altitude. É o recorde absoluto da Fiona! A segunda foi, ao chegarmos no ponto dessa alfândega, uma das mais altas do mundo, vermos um campo de futebol! Isso mesmo, um campo de futebol acima dos 5 mil metros! Imagino que seria aqui que a Bolívia gostaria de mandar seus jogos, se a FIFA permitisse, hehehe.
Campo de futebol a 5 mil metros de altura!!! (na aduana Boliviana da região da Laguna Colorada)
Nem tudo são flores e também passamos nossas "dificuldades". O cara da alfândega era meio ruim da cabeça e ficou nos enrolando um tempão. Antes de nós, enrolou também um casal de poloneses que trouxe seu carro da Polônia para fazer 20 dias de viagem na América do Sul, do Uyuni à Patagônia. Isso é que é disposição! E dinheiro! Na nossa vez, ele nos fez assistir um filme de uns 20 min de quando nevou por ali, há 3 semanas. Como ele tinha a faca, o queijo e o poder nas mãos, aguentamos tudo pacientemente. No fim, nos deu o documento e estávamos, enfim, todos legalizados mais uma vez em terras bolivianas.
Chegando à fantástica Laguna Colorada, no sudoeste da Bolívia
De lá seguimos para a fantástica Laguna Colorada. Que coisa mais maravilhosa! Incrível o poder e a classe da natureza em inventar coisas novas. Coisas que nossos olhos não querem acreditar!. O normal é que essas lagoas altiplânicas sejam meio prateadas. As vezes brancas, por causa do gelo. Quando são azuis ou esmeralda, já é uma benção, um colírio para os olhos. Mas essa é diferente de todas as outras! É colorada mesmo! A cor vem de um microorganismo que, não sei porque, só atingiu grande concentração nessa lagoa. Uma coisa absolutamente mágica, bem no meio do altiplano boliviano, rodeada por montanhas nevadas e vulcões.
Visitando a Laguna Colorada, no sudoeste da Bolívia, no caminho para o Salar de Uyuni
E mais! Habitada por centenas de flamingos, colorados também, por causa dos camarões de que se alimentam. A gente viu esse cenário de fábula meio de longe e fomos diretamente para nosso refúgio. Ali conseguimos quartos privados com banheiro coletivo, água fria, por supuesto. Banho, nem pensar! O Cristóbal e a Krasna ficaram por lá e eu e a Ana seguimos para perto da laguna maravilhosa.
As incríveis águas vermelhas da Laguna Colorada, a mais de 4 mil metros de altitude, no sudoeste da Bolívia
Mais fotos. Muitas fotos. Muito linda e diferente para ser verdade! Então, na dúvida, o negócio é fotografar mesmo! A lagoa e os flamingos. Depois, de volta ao refúgio, para socializarmos com nossos companheiros de viagem e também com os outros, que chegaram lá em tours ou em bicicleta. No primeiro grupo, tinha até brasileiros, um casal e um solteiro. Todos gente boníssima, ótimos de conversa e amantes de vinho e cerveja. Quanto aos ciclistas, eram alemães e vinham no sentido contrário. Tinham começado em Uyuni, já há vários dias, e demorariam mais 3 dias para chegar até San Pedro. Nossa, que disposição em enfrentar aquele frio, aquele vento e aquelas estradas. E tinham acampado vários dias. Hoje sim, estavam "diretoria", dormindo no refúgio!
Paisagem da Laguna Colorada, no sudoeste da Bolívia
E assim foi nossa noite, todo mundo tentando se aquecer ao lado do fogareiro do refúgio, até que ele se apagasse, Aí, todos para os quartos, embaixo de várias camadas de cobertas para enfrentar o frio que, de madrugada, deve ter chegado perto dos 15 graus negativos. Brrrrrrrr, coitada da Fiona. Vamos ver se amanhã ela pega... Tem de pegar, pois temos um longo caminho até o famoso Salar de Uyuni...
Nosso refúgio na Laguna Colorada, no sul da Bolívia
Admirando a magnífica paisagem do rio Yukon e Dawson City, no Yukon Territory, no Canadá
Hoje pela manhã, deixamos a cidade de Dawson, a capital dessa parte do mundo na virada do séc XIX para o XX. Para ver com são as coisas... quando estávamos chegando ao Alaska, há duas semanas, escolhemos a rota mais direta e decidimos que não valeria o esforço de chegar até aqui. Há poucos dias, quando fizemos nossos planos para ir embora do Alaska, também não incluímos Dawson no roteiro. Nossa ideia era ficar pelo sul do Alaska mesmo, até pegar o ferry. Mas São Pedro tinha outros planos e nos fez mudar de roteiro. Para nos convencer, mandou alguns raios e trovoadas. Assim que cedemos aos seus argumentos, ele nos recebeu com tempo limpo e as duas mais belas noites de Aurora das nossas vidas. E agora, na hora de deixar Dawson para trás, nenhum de nós duvida que essa foi a cidade mais interessante que encontramos no extremo norte do nosso continente. Nada como ter um roteiro “flexível”...
Rio Yukon, visto do alto do morro do Dome, em Dawson City, no Yukon Territory, no Canadá
Ainda de ir embora da cidade, dirigimos até o Morro do Dome, de onde se tem uma fabulosa vista da Dawson e do vale do Yukon. Nessa época do ano, Outono por aqui, não poderia ficar mais bonito. Ter visto a Aurora aqui de cima teria sido sensacional. Mas, ao mesmo tempo, não teríamos tido o reflexo das luzes celestiais no rio Yukon. Não dá para ter tudo... Legal foi ver uma foto de 1899 com mais de cem pessoas aqui em cima, todo mundo posando para a foto. Dá para ver o rosto de cada um. Cada pessoa com seus sonhos, problemas e alegrias do dia a dia. Hoje, todo mundo sete palmos embaixo da terra. Lembrança que a vida é curta e devemos vivê-la da melhor forma possível porque, daqui a pouco, seremos nós embaixo dos sete palmos...
No alto do morro do Dome, em Dawson City, no Yukon Territory, no Canadá
Seguimos viagem para o sul e, vinte minutos mais tarde, chegávamos ao início da rodovia Dempster Highway. Essa estrada nasce aqui e segue diretamente para o norte, num percurso de mais de 700 quilômetros ultrapassando o Círculo Polar Ártico, deixando Yukon para trás e entrando nos Northwest Territories, chegando à Inuvik, já bem perto do Oceano Ártico. Se vocês acham que nós chegamos ao fim do mundo, é porque não conhecem Inuvik. Deu aquela coceira danada de seguirmos para lá, desbravarmos a tundra novamente e chegarmos mais perto do Papai Noel. A paisagem da estrada certamente é belíssima, mas não muito diferente do que temos visto ultimamente. O que nos faria realmente pensar em seguir a estrada seria a chance de chegar ao Oceano Ártico e ver ursos polares. Mas, de novo, esse não era o caso...
Fiona se despedindo de Dawson City, no Yukon Territory, no Canadá
Quando pensamos em ursos polares, logo pensamos que é fácil encontrá-los aqui no Canadá ou no Alaska. Pois é, descobrimos que não é! Tanto a estrada que leva a Prudhoe Bay, no Alaska, como essa aqui, a Dempster, nos levam para o norte, mas não a esses animais fantásticos. De ambos os lugares, seria ainda preciso pegar um avião para seguir ainda mais adiante. Aqui, se estivéssemos no Inverno, seria possível, com correntes, seguir com a Fiona em uma estrada no gelo até as próximas cidades e, aí sim, chegar ao Oceano Ártico. Seria bem legal, mas estaríamos no escuro, já que o sol não nasce durante o Inverno naquelas latitudes. Quem sabe, numa noite de lua cheia? E mesmo chegando numa praia do Ártico, ainda não é lá que estão os ursos brancos. Não tem jeito... tem de pegar o bendito aviãozinho.
Início da Dempster Highway, região de Dawson City, no Yukon Territory, no Canadá
Agora sabemos que, sem contar os zoológicos, a maneira mais fácil de chegar perto dos ursos polares teria sido lá do outro lado do Canadá. De Toronto, pegar um trem para Churchill, nas margens da Hudson Bay. Dali, numa excursão em um daqueles ônibus árticos, com rodas gigantes próprias para andar no gelo, pode-se chegar, com segurança, perto desses animais. Os ursos polares são os únicos carnívoros da Terra que nos veem, sim, como uma refeição. Grizzlies, leões, tubarões, todos eles podem ter curiosidade por nós, mas não estamos no seu cardápio, pelo menos até a primeira vez em que eles tiverem provado. E para isso acontecer, só se estiverem com muita fome. Com ursos polares, a história é outra. Assim que entramos no seu campo de visão, viramos um alvo. E para um bicho daquele tamanho, haja bear spray! O negócio é estar mesmo dentro de um ônibus. Passeio para a nossa próxima vinda ao Canadá...
Painel explicativo sobre a Dempster Highway, na região de Dawson City, no Yukon Territory, no Canadá
Assim, deixamos a Dempster Highway para trás e seguimos para o sul, rumo à Whitehorse. Mas ela não saía da minha cabeça. Só que agora, o motivo não era os ursos polares, mas um assunto bem diferente, a “Beringia”. A Dempster corta um bom pedaço dessa misteriosa região, por onde nossos antepassados chegaram às Américas há uns 15 mil anos. Sempre fui muito curioso sobre as teorias que tentam explicar o povoamento do nosso continente. A teoria mais aceita diz que o homem chegou da Ásia, caminhando por uma ponte natural entre Sibéria e Alaska, formada na última era glacial, quando o nível dos oceanos era bem mais baixo. O que eu não conseguia entender era como eles teriam caminhado sobre tanto gelo. Afinal, passamos por lugares muito mais ao sul, nos Estados Unidos, que eram cobertos por espessas geleiras naquela época. Se South Dakota já era coberta por geleiras, imagina como era a Beringia, uma terra entre o Alaska e a Sibéria???
Início da Dempster Highway, região de Dawson City, no Yukon Territory, no Canadá
Pois é, por aqui, finalmente descobri a resposta. A Dempster Highway cruza um território que não é nunca foi coberto por gelo e neve. Não porque não seja frio, mas simplesmente porque não há precipitação! É muito seco! Toda a umidade é barrada por uma cadeia de montanhas e o lugar é como se fosse uma espécie de Deserto do Atacama dos polos. Assim, durante a última era glacial, o que aconteceu foi que formou-se um enorme corredor sem gelo, mas cercado de enormes geleiras, entre a Ásia e a América. Os animais passavam por aí, como bisões e mamutes, E atrás deles, como parasitas, uma população de humanos, que vivia da caça desses grandes herbívoros. O corredor da Beringia terminava em enormes paredes de gelo, uns poucos milhares de quilômetros adiante. Com o fim da era glacial, o estreito de Bering foi retomado pelas águas, fechando a passagem de volta para a Ásia. Em compensação, as planícies americanas se abriram para esses desbravadores. Tinham um continente inteiro pela frente!
Distância em quilômetros para as próximas cidades na Dempster Highway, na região de Dawson City, no Yukon Territory, no Canadá
Aqui, só um parêntesis. Depois de passar por tantos países e ter conhecido tantos sítios arqueológicos, do Brasil ao México, não estou entre aqueles que acreditam que os primeiros homens a pisar no continente foram esses aventureiros que cruzaram a Beringia, há 15 mil anos. Tudo parece indicar que o homem chegou aqui por outras rotas também. Pelo Pacífico Sul, pulando de ilha em ilha, pelo Atlântico Norte, via Groelândia, ou mesmo pela Beringia, em alguma glaciação anterior. Também é bom lembrar que minha conterrânea Luzia, um fóssil de uma mulher que habitou as Minas Gerais há mais de dez mil anos tem características negroides, muito mais próximas da África do que da Ásia. No Piauí, na Serra da Capivara, temos sinais claros da presença humana bem anterior à última era glacial. Enfim, é um mistério que ainda não foi resolvido e talvez nunca seja. Mas, independente de quando e como chegaram os primeiros homens na América, pesquisas genéticas parecem indicar que toda a população nativa do continente, do Chile ao Canadá, descende de um mesmo grupo de pessoas, pequeno, de poucas dezenas de membros, que teria chegado à América há 17-15 mil anos. O que pode ter acontecido é que essa nova população substituiu a antiga, seja por meio de guerras, maior adaptabilidade, melhor tecnologia resistência à doenças ou a combinação disso tudo.
Cores de Outono na estrada entre Dawson e Whitehorse, no Yukon Territory, no Canadá
Depois de tantas elucubrações, chegamos à Whitehorse, onde paramos para um almoço tardio, já nos sentindo íntimos da cidade, pois aí havíamos estado há duas semanas. Devidamente alimentados, seguimos para Haines Junction, na Alaska Highway, no único trecho de estrada repetida em todo esse looping que fizemos no extremo norte da América. Agora, nesse trecho da viagem, minha mente divagava sobre o futuro, e não mais o passado. Quando será possível cruzar novamente a Beringia por terra? Esperar até a próxima Idade do Gelo para cruzar para a Ásia me parece muito tempo para esperar. Apenas 85 km separam os dois continentes e acho um absurdo que não haja, até hoje, uma ligação entre eles. Já pensaram... ser possível sair de carro da Patagônia e chegar até a Cidade do Cabo, na África do Sul? A Europa não passa de uma grande península da Ásia e a África está ligada ao continente asiático pela Península do Sinai. Então, uma ponte entre Alaska e Sibéria unificaria praticamente todo o mundo! Ficariam de fora a Oceania e a Antártida, mas também, aí já é querer demais...
Curva e corredeiras do rio Yukon, na estrada entre Dawson e Whitehorse, no Yukon Territory, no Canadá
Pois bem, o projeto dessa ponte já existe! Assim como de um túnel. O Estreito de Bering, que separa os dois continentes, não é fundo, pouco mais de 50 metros de profundidade. Entre eles, há duas ilhas, uma americana e outra russa. As ilhas estão separadas por míseros 5 quilômetros entre si (quem diria que EUA e URSS, inimigos mortais, estavam tão próximos um do outro???), além de outros 40 km, cada qual do seu continente. Três pontes resolveriam isso. Custaria bem menos que manter as tropas americanas no Iraque por um ano. E essa conta já inclui as estradas que deveriam ser construídas das saídas da ponte até as próximas cidades. O que falta é, evidentemente, vontade política. Porque razões econômicas sobram. Certamente, não me refiro aos turistas que passariam por lá, mas aos bilhões de dólares de mercadorias entre um continente e outro. O ponto negativo seria o impacto sobre o meio ambiente dessa rota, dado a quantidade de trens e caminhões que transitaria por aí. É... pensando melhor, pelo bem da tundra, dos ursos polares, dos caribous e das paisagens fantásticas que vimos com nossos próprios olhos, melhor deixar essa história de ponte prá lá...
Estrada entre Whitehorse e Haines Junction, no Yukon Territory, no Canadá
Caneel Bay, USVI
Após toda a chateação da mudança, chegamos ao nosso hotel em St john, a ilha mais tranquila das USVI. Resolvemos aproveitar a nossa tarde e seguimos à pé em uma das muitas trilhas da região. Foi jóia, trilha muito bem marcada, visual lindo. Chegamos até Honey Moon Beach, a menos de uma milha da cidade.. Ainda estava claro e aproveitamos para fazer snorkel.
Caminhada de Cruz Bay até Caneel Bay - USVI
Água limpíssima, visibilidade de mais de 30 m, temperatura super agradável. Pedir o quê? Muita vida! Isso nós tínhamos: linguados, arraias, peixes variados, corais de muitos tipos, tudo no raso, com o ar do pulmão.
Caminhada de Cruz Bay até Caneel Bay - USVI
Depois. continuamos nossa caminhada até um resort, onde tomamos uma cerveja local. Sabor manga! Que beleza! A propaganda não dizia nada sobre isso e, logo depois do primeiro gole, a Ana não se conteve: "Manga?" O barman se compadeceu e deu uma cerveja normal, de homem, para gente. Talvez para mostrar que nem todas as cervejas daqui são com sabor. Bem melhor, mesmo. Depois das cervejas, voltamos para um pôr-do-sol maravilhoso na Honey Moon Beach e, de lá, para o hotel.
Caminhada de Cruz Bay até Caneel Bay - USVI
Ainda pegamos uma noitada por aqui, a Ana entrando nos bares e incomodando as americanas que, ao vê-la entrando na pista de dança, vinham logo marcar seu espaço. Impressionante, acompanhar de camarote essa guerra de "fêmeas". Na verdade, a Ana se divertindo também. Foi bem legal!
Amanhã vamos alugar um carro e virar essa ilha de cabeça para baixo!
Preparando-se para o embarque da Fiona, no porto de Colón, no Panamá
Ainda na República Dominicana, poucos dias antes de embarcarmos de volta ao Panamá, recebemos a grande notícia pela qual ansiávamos: havia aparecido um outro carro para dividir conosco os custos do contêiner! Uma bela economia para nós, de mais de 500 dólares! Agora sim, estávamos mais prontos do que nunca para realizar essa passagem da América Central para a do Sul, a parte mais chata dessa jornada pelo continente. Bom preço e timing perfeito! Afinal, chegaríamos, na quarta de manhã, tiraríamos a Fiona do Bond (porto seco) no mesmo dia e, na quinta, faríamos a burocracia na Cidade do Panamá. Na sexta, faríamos a burocracia em Colón e despacharíamos a Fiona, que viajaria no domingo, para chegar à Cartagena na terça. Enquanto isso, a gente, com uma combinação de ônibus, avião e barcos, cruzaríamos a fronteira entre os dois países e continentes por terra, algo que queríamos muito! Chegaríamos à Colômbia junto com a Fiona! Só faltava comprar a passagem no pequeno avião que nos levaria da Cidade do Panamá até a fronteira com a Colômbia, uma região bem bonita chama Zapzurro. Tudo estava bom demais para ser verdade...
Recuperando a Fiona no Bond (Porto Seco) na Cidade do Panamá, a capital do país
Depois de 3 semanas, lá está a Fiona, no Bond (Porto Seco) na Cidade do Panamá, a capital do país
O negócio começou a desandar já no aeroporto em Santo Domingo. A companhia aérea não queria nos deixar embarcar sem mostrarmos uma passagem de saída do Panamá. Mostramos a documentação do carro e eles ligaram para a migração do Panamá. De nada adiantou, o idiota de plantão do lado de lá disse que teríamos de ter uma passagem de saída do país. Sem muito tempo para argumentar e brigar, compramos ali mesmo uma passagem da Cidade do Panamá à Cartagena. Ao menos, a passagem seria reembolsável, menos o custo de emissão, de 25 dólares. Um preço ainda pequeno, se todo o resto desse certo.
Encontro com os suiços Tina e Marco, que vão dividir o conteiner para a Colômbia conosco (na Cidade do Panamá, a capital do país)
Pois bem, adivinha se, no aeroporto do Panamá, alguém perguntou sobre a tal passagem de saída? Claro que não! Enfim... Bem, fomos direto ao nosso hotel deixar a bagagem e, em seguida, ao Bond. Lá, para nossa surpresa (boa!), o processo foi muito mais rápido que o esperado. Nem tivemos de ir à Aduana. Estávamos novamente com nossa querida Fiona e voltamos ao hotel. Lá, a primeira bomba: pela internet, verificamos que não havia mais passagens para Zapzurro pelas próximas duas semanas. Teríamos de arrumar outra rota. Ou outra maneira de chegar lá, sem a ajuda do avião. Mas aí, veio a segunda bomba. Nossa agente disse que os burocratas daqui não trabalhariam na quinta. Ou seja, teríamos de esperar até sexta para fazer os papeis aqui na capital. Isso significava que só poderíamos fazer os papéis de Colón no dia seguinte e que perderíamos o navio desse domingo. O próximo? Só no outro domingo... Acabávamos de ganhar (ou perder!) uma semana!
Com os suiços Tina e Marco, na Aduana em Colón, no Panamá
Mais uma etapa burocrática vencida, em Colón, no Panamá
Bom, parte desse tempo extra, vocês acompanharam no post anterior: muitos passeios por aqui. O outro pedaço, ainda chego lá. Bom, na sexata cedo, fomos encontrar o simpático casal de suíços, o Marco e a Tina, viajando da California à Argentina e, daí, só Deus sabe. Já estão por aqui há uns 10 dias, esperando por nós. Juntos com a agente que está nos ajudando, fomos à Aduana daqui fazer a burocracia necessária. Ali, ficamos sabendo que, na verdade, poderíamos sim, ter feito isso no dia anterior. Foi tudo um “desentendimento”. Que nos custou essa semana valiosa... Enfim, não adiantava chorar pelo leite derramado, tínhamos de aproveitar de alguma maneira esse tempo extra.
Chegando ao porto de Colón, no Panamá
A Fiona e seu companheiro de conteiner na viagem para a Colômbia (no porto de Colón, no Panamá)
Nessa hora, já tínhamos desistido da rota por Zapzurro. Chegar lá por terra e por mar seria muito trabalhoso, 7 horas numa lancha meia boca pulando sem parar. Decidimos então, tentar o plano B (o “C” seria seguir diretamente para Cartagena, mas teríamos de trocar as datas das nossas passagens, de qualquer maneira), pela ilha de San Andres. Essa é uma ilha colombiana, mas que fica no meio do Caribe, ao lado da Nicarágua. Uma aberração geográfica. Vou falar disso no post seguinte, mas o fato é que conseguimos as passagens para viajar na terça, depois de despachar a Fiona em Colón, na segunda.
Entrando no contéiner em direção à Colômbia! (no porto de Colón, no Panamá)
O companheiro de viagem da Fiona, no porto de Colón, no Panamá
O companheiro de viagem da Fiona, no porto de Colón, no Panamá
Segunda? Isso mesmo! Essa é uma das vantagens de enviar o carro em um contêiner. Não precisamos esperar a data de saída do navio, que será só no outro domingo, como seria o caso se a estivéssemos enviando como carga solta (que foi como fizemos na vinda para cá, há 18 meses).
Amarrando a Fiona no interior do contéiner no porto de Colón, no Panamá
Os casais se despedem de seus carros embarcados no contéiner, no porto de Colón, no Panamá
Assim, resolvido nosso destino, passamos mais um fim de semana na Cidade do Panamá e segunda cedinho, viajamos os 80 quilômetros para Colón, onde reencontramos os amigos suíços e o agente que nos ajudaria por lá. Fomos juntos na Aduana e de lá, finalmente para o porto. Tendo alguém para nos levar pelos meandros e labirintos de repartições é sempre mais fácil e, em menos de duas horas, estávamos com os dois carros prontos para entrar no contêiner já com as portas abertas.
Fechando o contéiner da Fiona no porto de Colón, no Panamá
Fiona devidamente embalada para viagem, no porto de Colón, no Panamá
Tiramos as fotos, embarcamos os carros com cuidado, colocamos as amarras nas rodas, fechamos o contêiner e o selamos. Os carros estavam empacotados! Só espero que o navio respeite o sinal de “This Way Up!”, hehehe. Até logo, Fiona querida, nos vemos novamente em Cartagena! Ela vai ficar seis dias por aqui, parte no domingo, chega na segunda e é descarregada na terça. É quando começamos o processo de desembaraçá-la, já em terras colombianas. Felizmente, a última vez que teremos de fazer isso...
O lacre do contéiner da Fiona, no porto de Colón, no Panamá
Chegando em Tijuana e na fronteira com os Estados Unidos!!!
Ontem, dia 24, ainda no alto da maravilhosa Sierra de San Francisco e em pleno Deserto Vizcaino, iniciamos nossa longa viagem para Tijuana, já na fronteira entre México e Estados Unidos. E a primeira etapa dessa longa viagem só durou cinco minutos! É o tempo que leva para dirigir os 3 km entre nosso hostal, onde tínhamos nos despedido da simpática Jadira, até a Cueva del Ratón, onde já nos aguardava o nosso guia, que tem o sugestivo nome de Refugio.
Com a simpática Jadira, gerente do nosso hostal na Sierra de San Francisco, na Baja California - México
Refugio, nosso guia na Cueva Ratón, na Sierra de San Francisco, na Baja California - México
A tal cueva tem esse nome porque quando foi redescoberta, em finais do século XIX, pensou-se que uma das figuras ali pintadas parecia um rato. Ledo engano, que deve ter feito o milenar artista tremer em sua cova. Não, não era um rato, mas um puma! Esse e outros animais estão ali, magistralmente desenhados por artistas de muitos milhares de anos atrás que deixaram para nós marcas de sua cultura e sociedade há tanto desaparecidas.
Incríveis pinturas rupestres na Cueva Ratón, na Sierra de San Francisco, na Baja California - México
De novo, foi emocionante ter estado lá, diante dessa arte que ainda parece tão presente, ao mesmo tempo que evoca um passado tão distante. Outra vez, o mistério das pinturas estarem em paredes e tetos altos, inacessíveis sem uma boa plataforma. E, outra vez também, a figura do misterioso feiticeiro, túnica metade negra, metade vermelha e um capuz que faz seu rosto ficar escuro. Deve ter sido uma pessoa importante e poderosa, esse cara.
Admirado com a altura das pinturas rupestres na Cueva Ratón, na Sierra de San Francisco, na Baja California - México
O mesmo misterioso feiticero está na Cueva Ratón, na Sierra de San Francisco, na Baja California - México
Meia hora de visita e reverência e estávamos prontos para os próximos 800 km de estradas. A parte norte da península da Baja California é menos interessante que a parte sul e resolvemos atravessá-la rapidamente, depois de termos ficado quase 10 dias na parte meridional. Alguns quilômetros de estrada de terra precária nos levaram até o asfalto e daí para a estrada principal, que nos levaria até a fronteira. Nesse trecho, mesmo apesar do longo caminho à frente, impossível não parar para tirar mais umas fotos do cenário maravilhoso. As montanhas e canyons da Sierra de San Francisco e a vastidão da planície desértica à nossa frente, lá embaixo. Uma pintura!
O magnífico visual da Sierra de San Francisco, na Baja California - México
A enorme planície desértica de Vizcaino vista do alto da Sierra de San Francisco, na Baja California - México
Bom, descemos para a planície e seguimos em direção à costa do Pacífico. Nesse trecho, aí sim vimos aquele deserto que todos temos em nossas mentes, cheio de areia e quase sem vegetação. Mas não demorou muito e chegamos à Guerreiro Negro, já na orla do mar e cidade que marca a fronteira dos estados de Baja California (onde está Tijuana) e Baja California Sur, onde tínhamos ficado todo esse tempo. A placa animadora no final da cidade marcava 699 quilômetros para Tijuana e 407 km para San Quintin, onde pretendíamos passar a noite.
Atravessando o deserto Vizcaino a caminho de Guerrero Negro, na Baja California - México
Em Guerrero Negro, já mais "perto" de Tijuana, na Baja California - México
Dois desafios nos esperavam até lá. O primeiro, as constantes barreiras do exército para revistar os carros. Passamos por umas cinco, entre ontem e hoje. Algumas mais rápidas, outras demoradas, mas sempre muito simpáticos e curiosos conosco. O segundo, a total ausência de postos de combustível. Depois de uns 30km de Guerreiro Negro, lá veio a placa: “Próximo posto – 217 km”! Ô loco! Ainda bem que o tanque da Fiona é grande! Assim que vimos a placa, comecei a controlar, pelo computado de bordo, o cálculo de autonomia do carro. No início, era um número parecido com a distância do posto. Mas foi só tirar o pé do acelerador que a autonomia foi aumentando e, quando enfim chegamos ao posto, o computador ainda marcava uns 60km!
Um dos muitos postos de vistoria do exército na Baja California - México
No trecho final da estrada de ontem, o deserto ficou para trás e a paisagem foi sendo tomada pelo verde. Finalmente, depois de tanto tempo sem ver cidades, elas apareceram, uma grudada na outra, crescendo na beirada da estrada, já com cara de cidades americanas. Até aqui, a menos de 300 km da fronteira, eles chegam aos montes em busca de praias e “exotismo”. Parte da cultura já foi adotada, inclusive a dos eficientes motéis de beira de estrada. Num deles, em San Quintin, a gente se instalou para um respiro depois de tanto asfalto.
Região de San Tomás, área de produção dos melhores vinhos do México (próximo à Enseñada, na Baja California)
Hoje saímos para uma etapa mais curta, depois de ficar até tarde no nosso quarto. Pouco mais de duas horas de estrada e chegamos à Enseñada, uma cidade que só cresceu de verdade quando aí foi instalado um hotel-cassino construído para os americanos na década de 30, época da famosa Lei Seca. Oitenta anos antes a pequena cidade havia sido ocupada pelo flibusteiro americano William Walker, que a declarou capital da República da Baja California. Esse louco foi expulso pelos mexicanos e tentou de novo criar sua república escravocrata na América Central. Chegou a conquistar e governar a Nicarágua, mas acabou sendo capturado pela marinha inglesa e entregue aos hondurenhos, que o fuzilaram.
Tomando um bom vinho mexicano em Enseñada, na Baja California, no México
Enseñada hoje recebe milhares de americanos, muitos dos quais chegam em cruzeiros. Um aspecto bem mais interessante da cidade é que ela fica no centro da principal região vinícola do país. Ou seja, é fácil encontrar um bom vinho nos diversos cafés e restaurantes da cidade. Nós prestamos nossa homenagem a isso, parando para almoçar e bebericar um pouco, vinho nacional, é claro!
Delicioso almoço e ótimo vinho em Enseñada, na Baja California, no México
De volta ao asfalto, seguimos pela famosa autoestrada que liga Enseñada à Tijuana. É uma belíssima estrada costeira, mas o tempo não ajudou. Depois de tatos dias de sol, chovia hoje. Brincamos que era o México triste com a nossa partida. Hmmmmm...
Chegando com chuva em Tijuana, na fronteira do México com os Estados Unidos
Bom, entramos na mais famosa cidade fronteiriça do continente embaixo de muita água. Tanto ouvimos falar dessa cidade e de seus perigos que a chegada foi uma surpresa. Afinal, é uma cidade grande e organizada, avenidas largas e trânsito tranquilo. Chato mesmo, só a chuva.
Dirigindo no centtro de Tijuana, na fronteira do México com os Estados Unidos
A gente se instalou num hotel recomendado pelo guia e, já de noite, saímos para jantar. Mas acabamos saindo depois da hora e foi uma luta achar restaurante aberto. De qualquer maneira, dirigimos por quase uma hora pela cidade, entre as 10 e as 11 da noite, sem nenhum problema. Qualquer resquício de temor desapareceu de vez. Pelo menos para nós, Tijuana foi uma cidade tão tranquila como qualquer outra. Bom, vamos ver amanhã, quando passaremos pela fronteira. Parece que é ali perto que as coisa “rolam”...
Campo florido próximo à Cueva Ratón, na Sierra de San Francisco, na Baja California - México
Fazenda do Aroldo e Ana Elisa em Perdões - MG
Ontem, dia 5, o dia amanheceu bem chuvoso. Perfeito para ficar em casa, lendo um jornal ou livro. Ou então para viajar e não perder um dia de sol dentro do carro. A Lalau e filhos já tinham partido no dia anterior e o Guto e família logo cedo. Restava a Gogóia, Tio Carlos, Chico e Luisa para nos desejar boa viagem quando apareceram o Betinho e a Cláudia para nos dar um alô e conhecer a Fiona. Desse modo, a despedida ficou ainda mais calorosa.
Despedida de Poços de Caldas (Gogóia, Cláudia, Betinho, Chico e Luisa
O destino da viagem de ontem era Perdões, pequena cidade no sul de Minas, à beira da rodovia Fernão Dias. A prima Ana Elisa e seu marido, o Aroldo, têm uma fazenda lá (ou aqui!). Faz tempo que a gente queria conhecer e não poderia haver melhor hora. A chuva nos acompanhou durante toda o trajeto mas a Fiona manda bem na água, dando muita segurança. Enquanto a Ana dormia (seu passatempo predileto durante as viagens de carro) eu relembrava com carinho aquele trajeto tão conhecido da infância. Durante os primeiros treze anos da minha vida, umas quatro vezes por ano, junto com pais e irmãos, viajávamos os 450 km de Belo Horizonte à Poços de Caldas. Uma longa viagem para um criança que, junto com os irmãos, inventava os mais diversos passatempos para, justamente, passar o tempo da viagem. À bordo de um possante Dodge e dos braços firmes do meu pai, eram cerca de 5 horas de viagem. Isso quando o carro não quebrava no meio do caminho, especialmente quando, por a família ser tão grande, trocávamos o Dodge por uma C-14. Pois bem, ontem refizemos parte desse trajeto tão conhecido na distante década de 70. A enorme torre da igreja de Elói Mendes continua lá, como que para dizer que o tempo não passa!
Aqui chegando fomos recebidos pela Ana Elisa. O Aroldo, por coincidência, estava terminando uma cavalgada até Carrancas, para onde devemos seguir amanhã. Fomos logo na casa da Tia Marlúcia, mãe da Nê (Ana Elisa). Ela acabou de se mudar para uma casa antiga, pé direito alto, muito legal. Ver essa minha tia sempre reaviva, de novo, as memórias da infância. Para quem me conhece e sabe o quão nostálgico eu sou vai saber que isso sempre me faz muito bem, reviver memórias...
Fazenda do Aroldo e Ana Elisa em Perdões - MG
Avestruz e Mula dividindo o mesmo pasto na fazenda em Perdões - MG
De lá seguimos para a fazenda da Nê, pertinho de Perdões. O ar não poderia ser mais campestre: vacas, cavalos, mulas, galinhas, casas de fazenda. O toque mineiro é o relevo, morros para todos os lados. E, além do toque mineiro, há também um toque africano: um casal de avestruzes num pasto bem em frente à sede da fazenda. A gente ficou se escondendo do frio na aconchegante cozinha com seu forno à lenha, bebericando uma cerveja. Vidinha bem difícil, principalmente o almoço de comida mineira feito nesse fogão tradicional.
Fogão de lenha na cozinha da fazenda em Perdões - MG
Mais tarde o Aroldo chegou e nos encontramos todos na cidade, para uma visita à casa de festas que eles possuem no centro (que bela estrutura!). Além de poder usar a internet de lá (na fazenda não há), ainda nos divertimos na boate, totalmente VIP para nós, o Aroldo de DJ.
Finalmente, o jantar foi uma das especialidades da região: Traíra sem espinhos. Acompanhada de feijão tropeiro e outras mineirices, uma delícia! Restou desabar na cama, dormir e acordar com barulho de fazenda. Coisa melhor não há.
Hoje cedo, enquanto o Aroldo e a Nê foram a um batizado eu e a Ana aproveitamos o dia ensolarado para tirar fotos da fazenda. Além de trabalhar um pouco. De tarde, vamos passear. Carrancas ficou para amanhã cedinho.
Avestruz na fazenda do Aroldo e Ana Elisa, em Perdões - MG
Rodrigo fotografando o avestruz na fazenda em Perdões - MG
Casal de avestruzes na fazenda do Aroldo e Ana Elisa, em Perdões - MG
A Ana, acamada pela febre, em Brasília - DF
Pois é, minha amada esposa, depois de 4 meses de viagem, ficou doente, de cama. E quando ela fica doente, são um ou dois dias de febre alta, bem acabada. Tadinha.
O belo Santuário Dom Bosco, em Brasília - DF
Assim, ela passou o dia no hotel hoje, sem sair do quarto. Eu pude sair duas vezes. Na primeira, para buscar remédio para ela numa farmácia homeopática. Aproveitei para ir ver e fotografar a belo Santuário Dom Bosco. A igreja é linda e todas as suas paredes são feitas de vitrais azuis. A luz do sol atravessando esses vitrais dá um ar meio mágico ao ambiente.
O belo Santuário Dom Bosco, em Brasília - DF
A segunda saída, já no final da tarde, foi uma gostosa corrida pelos meandros do poder político brasileiro. Desci o plano piloto desde a torre de TV até o Palácio do Planalto, dando a volta no Congresso e subindo novamente até o nosso hotel. Era final de tarde, as pessoas deixando os ministérios e demais repartições sob o quase sempre espetacular pôr-do-sol aqui do planalto central. Acho que quem é daqui já está acostumado com ele. Não eu! Principalmente quando, além do pôr-do-sol, posso observar também tantos prédios do Niemeyer.
A Catedral e o Museu Nacional, em Brasília - DF
Enfim, é uma corrida bem interessante. O primeiro prédio digno de nota é a Biblioteca Nacional que, para a minha surpresa, homenageia o Leonel Brizola. Quem diria... Depois, o Museu Nacional (que parece um forno de pizza) e a Catedral, fechada para reforma. Aí, aqueles prédios horríveis dos ministérios até chegar ao Itamaraty. A partir daí fica legal: o Congresso, STF, o Palácio da Alvorada e o Palácio da Justiça. Na volta, mais ministérios e o Conjunto Nacional.
O Congresso, em Brasília - DF
De volta ao hotel, volto a pajear a minha linda. Vamos ver como vai ser amanhã... Bem, se precisar ir numa farmácia, descobri uma quadra aqui perto com dezenas delas, uma do lado da outra. Coisa mais esquisita, essa cidade...
Quadra das farmácias em Brasília - DF
Um dos grandes Geisers del Tatio, na região do Atacama, no norte do Chile
Um dos programas mais espetaculares da região do Atacama é ir conhecer os Geisers El Tatio. Brasileiros, normalmente, só conhecem geisers pelos desenhos animados do Zé Colméia. Então, para nós, é ainda mais especial. Ainda mais que estes são os mais altos do mundo, localizados na puna chilena a mais de 4.300 metros de altitude.
Amanhecer nos fantásticos Geisers del Tatio, na região do Atacama, no norte do Chile
Geisers del Tatio, na região do Atacama, no norte do Chile
A melhor hora de se observá-los é quando o sol está nascendo, usualmente a hora mais fria do dia. Assim, além da beleza normal das primeiras luzes a manhã pintando o céu, temos uma maior diferença de temperatura entre a água quente que brota da terra e o ar frio da atmosfera. O resultado é uma coluna de vapor mais alta e visível, uma espécie de chaminé de fumaça branca que pode ser vista a quilômetros. Uma não, dezenas de "chaminés" formando um espetáculo incomum aos nossos olhos.
Fiona nos Geisers del Tatio, na região do Atacama, no norte do Chile
Um dos Geisers del Tatio, na região do Atacama, no norte do Chile
A maior dificuldade está em chegar lá na hora certa. São quase cem quilômetros de distância por estradas precárias e cheias de curva, o que faz a viagem levar umas duas horas. Para quem segue num tour, o problema está em acordar de madrugada e depois ter a paciência de passar por uns dez hotéis, até encher a van ou microônibus. Depois, é tentar relaxar e dormir novamente, ignorando os solavancos, para acordar já diantes dos geisers, com o sol nascendo.
Visitando os incríveis Geisers del Tatio, na região do Atacama, no norte do Chile
Aquecendo as mãos no vapor dos Geisers del Tatio, na região do Atacama, no norte do Chile
Para quem vai de Fiona, acordar de madrugada é só o início das dificuldades! Depois, temos de achar a estrada durante a noite fria e escura e conseguir seguir por ela nas próximas duas horas. São duas estradas e eu e a Ana optamos pela mais curta, aquela indicada pelas placas. Só que, em pleno inverno, esta estrada que segue pela parte mais alta do altiplano, acima dos 4 mil metros, está cheia de neve. Não é para menos: o termômetro da Fiona bateu seu recorde mais uma vez, chegando aos 11 graus negativos! Em alguns lugares dá para passar por cima da neve, mas em outros, na grande maioria, existe desvios que seguem paralelos à estrada principal. De dia é fácil localizá-los, mas de noite... Enfim, com todo o cuidado, fomos seguindo em frente até conseguir chegar em El Tatio justo na hora certa. Apenas um pouco antes da maioria dos ônibus, que vieram pela estrada mais longa mas em muito melhor estado.
A água frevente dos Geisers del Tatio, na região do Atacama, no norte do Chile
Observando os Geisers del Tatio, na região do Atacama, no norte do Chile
A primeira visão realmente impressiona. Nossos olhos não querem acreditar no que veem. São dezenas de colunas de fumaça nascendo do chão, um berçário de nuvens para encher o céu de algodão. Pagamos o ingresso e podemos chegar bem mais perto, até começar a passar por entre os geisers. Aí, deixamos o carro e começamos a caminhar ali, entre um geiser e outro, entre uma piscina de água fervente e um rio de água colorida, entre uma miniatura de vulcão de água e um sonoro geiser que lembra uma panela de pressão.
Saltando sobre um dos Geisers del Tatio, na região do Atacama, no norte do Chile
São dezenas e dezenas de turistas fazendo a mesma coisa, mas a área é tão grande e os geisers tão numerosos que não é difícil estar ali sozinho, posando para fotos ou simplesmente admirando aquela aberração da natureza, aquela prova de que há algo muito vivo sob os nossos pés. Aos poucos, vamos nos acostumando com o cenário, tornando-nos íntimos daquela força da natureza. Tanto que já somos capazes de passar por entre as colunas de fumaça e mesmo saltar por cima das chaminés. O calor que sai das fontes serve também para aquecer nossas mãos, congeladas pelo frio da madrugada.
No meio de uma das colunas de vapor dos Geisers del Tatio, na região do Atacama, no norte do Chile
Depois de muitas e muitas fotos e explorações, o sol já começa a nos esquentar um pouco. Mas o frio ainda é intenso e é preciso coragem para enfrentar o ar gelado, tirar os casacos e roupas e entrar na piscina de água quente que existe no local. Ainda mais que ela nem é tão quente assim, mas isso descobrimos tarde demais, hehehe. Só então entendemos porque todos os turistas corajosos se aglomeravam em apenas um lado da piscina, cada um buscando a mancha de água mais quente.
Banho aquecido na manhã gelada a mais de 4,3 mil metros de altitude nos Geisers del Tatio, na região do Atacama, no norte do Chile
Com o sol mais alto, os geisers se "acalmam" e as colunas de fumaça ficam mais baixas e tênues. É o sinal para ir embora. A volta para San Pedro foi bem mais tranquila, ajudado pela luz do dia e pela estrada mais longa, porém muito mais rápida. O resto do dia foi muito bem utilizado para recuperar o sono atrasado, tentar botar o trabalho em dia e comer, beber e socializar na medida certa. Nosso tempo por aqui está acabando e o próximo destino é o Salar de Uyuni, na Bolívia. Uma longa jornada de três dias que, dizem, é uma experiência inesquecível. Estamos loucos para conferir!
Visita aos Geisers del Tatio, na região do Atacama, no norte do Chile
Placa trilíngue, em Provo, dá pista dos problemas sociais trazidos com a imigração haitiana. Nossa experiência com as pessoas do Haiti foram ótimas e estamos super ansiosos para visitar o país!
Vamos viajando e ficando mais descolados na comunicação em outras línguas. Tanto no espanhol como no inglês. A primeira, praticamos um tanto em Miami e agora aqui, em Turks e Caicos. Além da imigração haitiana, também há muitos dominicanos no país. Todos falam inglês, com mais ou menos sotaque. Mas, assim que reconhecemos um, mudamos para o espanhol e eles adoram. E assim, vamos praticando o nosso. Enfim, vamos ouvir e falar muito esse idioma nesta viagem. Vamos ver se, ao final, vamos ser craques em reconhecer os diferentes sotaques e, quem sabe, até imitá-los.
O inglês também melhorou muito, principalmente o entendimento. Só temos que nos acostumar, de vez em quando, com algum sotaque mais ardido. Mas, no geral, temos nos virado muito bem. A fluência nossa também melhora a olhos vistos (nesse caso, seria mais certo dizer "orelhas ouvidas"). É só deixarmos a vergonha e o perfeccionismo de lado.
A Ana, com um vocabulário menor que o meu, manda ver. É a vantagem de ser mais social e desavergonhada (no bom sentido!). No entendimento, muitas vezes ela é mais rápida do que eu também. Danada! Realmente, está bem interessante acompanhar o nosso desenvolvimento nas duas línguas. E continuará sendo!
Aqui em Provo, tivemos contato com outras duas línguas. Primeiro, o creoulle, uma espécie de francês bem distorcido, falado principalmente no Haiti. Por enquanto, o máximo que consigo entender são os números. Isso também vai ter de evoluir. A outra língua é o próprio francês. No táxi que nos trouxe de volta do porto hoje, havia três haitianos conversando em creoulle. A Ana ficou me testando, para ver o quanto eu entendia (afinal, sempre disse a ela que eu já falei francês e ela vive me testando, querendo me ouvir falar essa língua. Até hoje, sempre me esquivei) e, ao final da corrida, mais uma vez me chateou, dizendo que o tal do meu francês era estória da carochinha, só para impressioná-la nos tempos de namoro. Pois bem, não é que a funcionária que nos recebeu, também haitiana, ao descobrir que éramos brasileiros, resolveu mandar ver no francês (eles falam as duas línguas, creoulle e francês). Dessa vez, com a Ana ali do lado, olhos arregalados e atentos, resolvi enfrentar. E foi muito jóia, bem melhor do que a encomenda. Já deu para ver que, basta eu esquentar um pouco e tomar uma cervejinha e vou mandar muito bem! He he he, que moral que fiz com a amada esposa! Agora, depois dessa, fiquei bem curioso em chegar à Guiana Francesa.
Por fim, não sei se vocês já perceberam, mas não é só nós que estamos falando outras línguas. O site (os blogs) também! É só clicar nas bandeirinhas aí acima, inclusive para traduzir os comentários. Aqui, falamos até alemão e japonês!. É bem engraçado nos ler em outras línguas. Em geral, são boas traduções, mas às vezes há erros bizarros. Testem o post em que falo da barata na bota da Ana. Barata (o inseto) virou cheap. E como o google traduz primeiro para o inglês para depois traduzir para as outras línguas, todas as outras traduções carregam o mesmo erro. Só não consegui conferir isso na tradução japonesa, por motivos óbvios. Alguém aí consegue conferir isso para mim?
Como todos os que tem nos acompanhado sabiam, o dia 27 de Março era a data escolhida para o início da nossa viagem de 1000 dias. Desse modo, a data de chegada seria 21 de Dezembro de 2012 (27/03 + 1000), que é a data do fim do mundo segundo os maias (ou segundo algumas interpretações do calendário maia). A brincadeira era essa: não precisaríamos pagar nossas contas quando chegássemos. Mas ainda daria tempo de se despedir dos amigos e família.
Era um bom plano. Mas, para isso, precisaríamos sobreviver à nossa última semana em Curitiba. Foi uma correria danada! Além de terminar toda a burocracia da viagem, acabar de comprar os equipamentos, negociar com os apoiadores, equipar a Fiona, fazer festa de despedida, tentar montar o nosso site junto com nossos desenvolvedores, além de tudo isso, ainda tínhamos de organizar e efetivar a mudança do nosso apartamento alugado em Curitiba, apartamento que nos acolheu tão bem por tantos anos.
O grosso da mudança foi feito na véspera, levando nossos móveis para casa de parentes e também para um depósito. O dia, que deveria ter terminado no fim da tarde, só terminou no outro dia, às duas da manhã. Com isso, a partida para os 1000 dias ficou, por bem, adiado em um dia.
Santa inocência, a nossa. O dia seguinte, dia 27, também foi pesadíssimo. Ainda faltava configurar todo o nosso equipamento, além de distribuir camisetas e brindes para amigos e apoiadores. Resultado: também fomos para a cama às duas da manhã. Mas desta vez, dispostos a iniciar a viagem de um jeito ou de outro. E assim foi: dia 28 de Março, data inicial dos 1000 dias! Agora, para ser capazes de terminar a viagem, me desculpem os maias, mas o fim do mundo vai ter de esperar!
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