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Virgilio (22/10)
Nossa Ana essa sobremesa Pessêgo com Cereja... Deve ser uma delícia....
Debora (21/10)
Ahhh que legal! Rodrigo e Ana, nós mudamos os planos da viagem e estarem...
mabel (21/10)
Muito bom encontrar brasileiros fora. E olha que não é muito difícil,...
mabel (21/10)
Quer dizer que Vancouver é "Ubachuva" do Canadá? rsrsrsr Quando eu con...
mabel (21/10)
Adoro museus! Vocês devem ter visto em Nova York os animais em seu habit...
Mirante do Brejo do Amparo, próximo à Januária - MG
Com a visita ao Parque do Peruaçu assegurada para amanhã, tratamos de aproveitar ao máximo o dia de hoje, dirigindo pela estrada de terra que cruza o parque e seus diferentes ecossistemas e as regiões e comunidades em seu entorno.
Estrada no Vale do Peruaçu, próximo à Januária - MG
Algumas comunidades ainda vivem dentro da APA que circunda o parque. Desde vaqueiros até crianças em escolas. A proximidade e contato com essas pessoas nos faz lembrar de um Brasil que julgamos só existir em livros e novelas, principalmente quando vivemos na cidade grande, "no esquema escola-cinema-clube-televisão" (como dizia um dos grandes poetas da minha geração).
Vaqueiro no Vale do Peruaçu, próximo à Januária - MG
Crianças no Vale do Peruaçu, próximo à Januária - MG
Escola no Vale do Peruaçu, próximo à Januária - MG
Uma coisa chocante de ver, também muito próximo da área do parque, foram as diversas ruínas de casas destruídas por terremotos que assolaram a região há cerca de dois anos. Terremotos? Isso mesmo! Inclusive, a única vítima fatal de terremoto em território brasileiro que se tem notícia foi aqui. Uma pobre criança, morta nos escombros da casa desabada de sua família. O governo estadual agiu rápido e assentou as famílias que perderam suas casas em Itacarambi, um município próximo. Hoje em dia, essas famílias mantêm as casas novas mas, aos poucos, voltam às antigas propriedades, onde também têm espaço para uma pequena roça. Mas a visão dos escombros ainda hoje são uma lembrança de que o Brasil, apesar da propaganda, não é à prova de terremotos...
Ruínas do terremoto brasileiro, no Vale do Peruaçu, próximo à Januária - MG
Depois dessa visão inesperada, seguimos para uma muito mais agradável: um mirande de onde se pode admirar toda a região. A vegetação varia da caatinga ao cerrado, passando pela floresta seca. Ao longe, pode-se ver o São Francisco, cortando a planície.
Mirante no Vale do Peruaçu, próximo à Januária - MG
E foi para lá que seguimos, em plena Itacarambi, observar o Velho Chico mais de perto. Ao contrário de Januária, aqui o rio não tem ilhas e tem um visual muito mais clean e bonito. Diversos barcos navegavam por ali e pessoas se refrescavam em suas águas. Nós também ficamos com vontade, inclusive de pousar na cidade mesmo. Havia uma pousada super charmosa em frente ao rio e o ar mais interiorano das ruas e praças era bem tentador.
Barco solitário sobe o Rio São Francisco, na cidade de Itacarambi - MG
Mas ainda tínhamos um último programa para o dia: visitar a Gruta dos Anjos, localizada no alto do morro de Brejo do Amparo, um distrito histórico de Januária, também muito charmoso e cheio de botecos e casario antigo. O carro fica estacionado ao lado do campo de futebol e a gente sobe por uma trilha uns 20 min, até o alto do morro. De lá, podemos admirar o próprio distrito, a cidade de Januária a poucos quilômetros dali e o sempre presente São Francisco.
Mirante do Brejo do Amparo, próximo à Januária - MG
Depois, entramos na caverna que, para a minha surpresa, é quente! Normalmente, as cavernas são frescas, mantém temperatura constante ao longo do dia e do ano. mas essa, no alto do morro, mais perto do sol, é quente mesmo. Além disso, por ser de fácil acesso, tem a entrada toda pichada. Uma tristeza... Mas, uma vez vencido o primeiro salão, que é até onde a grande maioria das pessoas sem equipamentos consegue chegar, chegamos à uma párte da caverna razoavelmente intacta. Ali, ficamos admirando as formações, matando a saudade de cavernas, passando um pouco de calor e treinando técnicas de fotografias.
Com nosso guia Rosivaldo em um salão da Gruta dos Anjos, em Brejo do Amparo - Januária (MG)
Foi um belo, variado e instrutivo dia. Tudo em preparação para o grande amanhã quando, com quinze anos de atraso, vou (vamos) conhecer a caverna do Janelão, uma das mais belas e imponentes do mundo! Mal posso esperar...
Uma Ana é pouco, duas é bom e três é melhor ainda, Gruta dos Anjos, em Brejo do Amparo - Januária (MG)
Caverna Lambari, no PETAR
Da Água Suja seguimos para a mais conhecida e visitada caverna da região, a Santana, que dá nome a este núcleo do parque. Na última vez que estive aqui, era uma fila só. Os caminhos dentro da Santana são todos demarcados. Há escadas, pontes, muros de pedra. Os grupos de turistas entram e saem pelo mesmo caminho. Muitas vezes, os congestionamentos são inevitáveis. E toda a aura da caverna se perde no meio desses problemas tão mundanos. Isso sem contar o som de dezenas de conversas, amplificadas pelo eco nas paredes, que abafam qualquer som natural ou, mais ainda, aquele silêncio profundo tão característico de uma caverna.
Formação dentro da caverna Santana, no PETAR
Mas desta vez, plena sexta-feira, só éramos nós nessa linda caverna. Dos seus quase 7 km de galerias e túneis conhecidos, um décimo disso está aberto à visitação. É o suficiente para vermos diversos tipos de espeleotemas, dos mais clássicos, como estalactites e estalagmites até os mais belos ou raros, como acortinados e ninhos de pérola. Ao longo do circuito, o simpático Edson vai nos ilustrando sobre a geologia, biologia e mineralogia do local. Vai nos mostrando formas que ganharam nomes, como o bolo da noiva ou a pata do elefante, contando causos antigos, um pouco da história do local. Estamos sempre perto de um rio, mas aqui não é preciso se molhar. As pontes e escadas estão em locais estratégicos. Lá dentro da caverna, fazemos o tradicional apagão de luzes, para curtir aquele mundo estranho apenas através dos outros sentidos que não a visão. É sempre uma experiência de solidão, mas também de sentidos bem aguçados, a audição perto da perfeição. Lá longe, o som da água correndo por entre as pedras e, fora isso, um silêncio ensurdecedor.
Formação dentro da caverna Santana, no PETAR
Um pouco mais de uma hora após termos entrado, saio com a sensação de, agora sim, ter conhecido essa maravilhosa caverna. Ou, pelo menos, a parte aberta ao público. Vale muuuuito à pena!
Deixamos apressados o Núcleo Santana em direção ao Núcleo Ouro Grosso, a vinte minutos de carro. No caminho, vamos devorando nosso lanche, para não perder mais tempo. Vamos em direção a caverna Lambari, prontos para nos encharcarmos novamente. A entrada é através de um enorme desabamento, para dentro de uma galeria gigantesca. É difícil acreditar no que os olhos vêem: uma verdadeira montanha suspensa sobre nossas cabeças, cinquenta metros acima de nós. Após chegarmos ao fundo do desabamento, seguimos pelo rio através de uma galeria cavada ao longo de milênios. Quase não há espeleotemas por aqui, já que a água do rio os leva, no período de cheias. A graça aqui está em explorar esse caminho pluvial por dentro da montanha. Cada vez mais fundo, a água chegando até o pescoço, num túnel com poucos metros de altura e de largura. Se a água não fosse limpa, a sensação seria a de estar explorando os esgotos subterrâneos de uma grande cidade. Ao final, do lado de lá da montanha, uma pequena saída, nada suntuosa. Quase um buraco no meio da mata. Realmente, a entrada é muito mais digna! E é por lá que saímos, após fazer o caminho de volta. A pequena saída está numa propriedade particular e temos de voltar pelo parque.
Enfrentando a água fria da caverna Lambari, no PETAR
No caminho até a Fiona cruzamos uma bela e assustada jararaca. Por isso é sempre bom caminhar fazendo barulho. Dá tempo dos bichos nos ouvirem e saírem do nosso caminho. Eles não gostam muito da gente não. Sorte nossa.
Fiona vencendo um obstáculo, na volta da caverna Lambari, no PETAR
Chegamos ainda molhados na pousada. São 17:20 e desistimos do bóia-cross. Assim, escapamos do escuro que chegou vinte minutos mais tarde, junto com uma tempestade de verão em pleno Outono. Ao invés disso, ganhamos um jantar caseiro e um chuveiro quentinho. Bela troca e belo fim para um dia tão intenso. Amanhã tem mais!
Fiona na volta da caverna Lambari, no PETAR
Praia do Arpoador, já no fim do nosso passeio pelas praias da Juréia - SP
Por coincidência, chegamos na Juréia Norte, região de Peruíbe, bem no Dia da Mata Atlântica. Eu já tinha estado aqui duas vezes. Na primeira, com a família, choveu o feriado inteiro. Ficamos todos presos no Waldhaus, uma pousada muito bem localizada na encosta de um morro, com uma bela vista para a praia de Guaraú, afastada de Peruíbe e vizinha da Juréia. A segunda vez foi com a Ana e com um casal parceiro de viagens, o Rafa e a Laura. O tempo esteve bom e deu para passear no parque de carro, além de fazer um passeio de canoa pelo mangue.
Praia Juquiá, na Juréia - SP
Desta vez, tínhamos objetivos bem claros: conhecer as praias que só podem ser acessadas com um guia e ir de canoa até uma cachoeira da região, sete quilômetros de remadas para ir e outras sete para voltar. Esse programa é mais legal fora de temporada senão corremos o risco de chegar na cachoeira e encontrar uma escuna com cinquenta pessoas à bordo farofando por lá. Lá da Barra do Ribeira liguei para o Remo, dono da Waldhaus e da agência de canoagem para marcar os passeios. Infelizmente, ele não poderia ir com a gente, mas prontificou-se a tentar achar um guia que nos acompanhasse.
, com nosso guia, o Amilton
Dito e feito! Chegamos aqui às dez da manhã e já estava tudo acertado com o Amilton, um caiçara local que cursou Biologia. Assim, ele tem todos os conhecimentos práticos e teoricos da rica biodiversidade local. O passeio de hoje foi pelas praias do parque. Primeiro, remamos cerca de dois quilômetros através de um canal do mangue até cruzarmos o rio Guaraú. Do lado de lá começa oficialmente a Juréia e a necessidade de estar acompanhado de um guia/monitor. Depois foram alguns quilômetros caminhando pelas praias e por trilhas no meio da mata, cruzando alguns morros para se chegar na praia seguinte. Praias lindas, com um quê de litoral norte, com as montanhas e a vegetação chegando bem perto do mar. A diferença é que as ondas não são de tombo, são aquelas que quebram lá longe, bem devagar. Sonho de surfistas, especialmente uma que se chama Parnapoá.
Figueira na Mata Atlântica, Juréia - SP
Durante a remada e depois, na trilha, o Amilton foi dando uma verdadeira aula para gente, sobre a fauna e flora locais. Foi ele que nos informou que hoje era o dia da Mata Atlântica, o que fez o passeio mais especial ainda. De bônus, ele tem vários parentes que moram dentro do parque, gente que nos acolheu muito bem em suas casas e com os quais tivemos aquele tradicional "dedinho de prosa" que não tem preço. Muitas histórias, inclusive de onças, antas e afins.
Casa de moradores locais, dentro do parque, na Juréia - SP
No final, tivemos um merecido banho de mar na praia do Arpoador e, alguns minutos depois, um refrescante banho de cachoeira, a um minuto de distância da areia. Muito luxo!
Piscina natural em pequeno rio na praia do Arpoador, na Juréia - SP
A remada de volta para casa já foi feita com o céu escurecendo e a lua cheia nascendo. Um final perfeito para um dia especial. Viva a Mata Atlêntica! E amanhã, temos 14 quilômetros de remadas...
A lua apareceu durante o trecho de canoa pelo mangue - Juréia/SP
A caminho do topo do Mount Washington, nas White Mountains, região de Lincoln, em New Hampshire - Estados Unidos
Juntos com a Rosana, armamos um roteiro para passar um dia inteiro explorando a região das White Mountains, em New Hampshire. Tempo curto demais e, como sempre, vamos deixar coisas para trás. Servirão como belos motivos para voltarmos, algum dia! A Rosana, a simpática dona do nosso hotel, já mora aqui faz tempo e nos deu dicas valiosas, não só daqui, mas também do Maine. Resumindo seus conselhos, para quem tem pouco tempo, as duas mais belas atrações dos estados do norte são as White Mountains e o litoral do Maine. Então, neles vamos nos concentrar!
Viajando pelas White Mountains, região de Lincoln, em New Hampshire - Estados Unidos
Passeio nas White Mountains, região de Lincoln, em New Hampshire - Estados Unidos
Começamos a jornada percorrendo uma famosa estrada cênica que corta o sul da região, a Kancamagus Highway. Subindo e descendo montanhas, cheia de mirantes com painéis explicativos de onde se pode admirar a grandiosidade das montanhas e aprender sobre sua formação geológica, flora, fauna e história da exploração e preservação da natureza. Uma verdadeira aula ao mesmo tempo em que os olhos são brindados com vistas maravilhosas.
Trilha para a cachoeira Sabbaday, nas White Mountains, região de Lincoln, em New Hampshire - Estados Unidos
Rio de águas claras e geladas nas White Mountains, região de Lincoln, em New Hampshire - Estados Unidos
Depois, para esticar um pouco as pernas, uma pequena trilha até uma das inúmeras cachoeiras nos rios e riachos da região, a Sabbaday Falls. Trilha pela mata de pinheiros e mapples, pouco mais de um quilômetro de caminho muito agradável entre as centenas de quilômetros de trilhas que existe em toda a região, paraíso de caminhantes, ciclistas e amantes da natureza.
A cachoeira Sabbaday, nas White Mountains, região de Lincoln, em New Hampshire - Estados Unidos
Água gelada e proibida aos banhistas, na Sabbaday, se prestando apenas à admiração e às aulas de geologia, desde placas tectônicas até eras glaciais. A estrutura e a quantidade de informações que encontramos nesses parques americanos sempre me impressionam. O que se perde em senso de aventura, ganha-se em conforto e cultura. Outra coisa que salta aos olhos é a quantidade de idosos, sempre em ótima forma, que encontramos nesses lugares. Acho que a expressão “melhor idade” é mais verdadeira do que nunca, por aqui.
A bela paisagem durante a subida do Mount Washington, ponto mais alto das White Mountains, região de Lincoln, em New Hampshire - Estados Unidos
Depois da cachoeira, hora de seguir para a maior atração das White Mountains, literalmente. O Mount Washington, ponto culminante de uma cadeia de montanhas onde todos os picos tem nomes de presidentes é também a mais alta montanha de todo o nordeste dos Estados Unidos, chegando perto dos 1.950 metros de altura.
A caminho do topo do Mount Washington, nas White Mountains, região de Lincoln, em New Hampshire - Estados Unidos
Pode-se chegar lá encima caminhando através das várias trilhas existentes ou de trem ou de carro. Nós optamos pela última opção, irmos no conforto da Fiona até lá. Afinal, enfrentar a subia à pé e, quando chegarmos no topo, nos depararmos com prédios, museus, restaurantes e um exército de turistas não era uma perspectiva atraente. O Mount Washington já atraia turistas há mais de 150 anos e, antes do advento do automóvel, já foi construída uma estrada para que carruagens pudessem levar as pessoas até lá. Foi um empreendimento de sucesso, atraindo mais e mais pessoas. Depois da épica subida do primeiro automóvel (um golpe publicitário de uma oficina mecânica!), a estrada foi melhorada, assim como também foi construída a linha de trem.
No topo do Mount Washington e das White Mountains, região de Lincoln, em New Hampshire - Estados Unidos
Experimentando fantasia de alce na lojinha do Mount Washington, nas White Mountains, região de Lincoln, em New Hampshire - Estados Unidos
Todos queriam conhecer o “pior clima do mundo”. Pois é, o clima lá encima muda rapidamente e pode ficar brutal. Ali se mediram os mais rápidos ventos em toda a história, durante uma tempestade em 1936. Ventos de 231 milhas, ou mais de 370 quilômetros por hora! Durante o inverno, é comum a estrada e a ferrovia ficarem fechadas por semanas à fio. Aí sim, quando algum alpinista chega ao cume caminhando, vai encontrar o pico vazio, sem turistas, recompensa desejada por todos que escalam uma montanha.
O belo visual do alto do Mount Washington, nas White Mountains, região de Lincoln, em New Hampshire - Estados Unidos
Bom, hoje o clima estava muito mais ameno. Céu azul e pouco vento. A Fiona nos levou até lá encima com um pé nas costas, tiramos nossas fotos e visitamos a lojinha de presentes. Demos uma olhada no museu e nas fotos centenárias dos antigos turistas e dos dias de tormenta. Gráficos e painéis explicam a história da região, sobre como uma enorme geleira vinda do norte cobriu tudo por aqui com um lençol de gele de mais de um quilômetro de espessura, remodelando todo o relevo, há pouco mais de 15 mil anos.
Fiona nos leva pelas estradas das White Mountains, região de Lincoln, em New Hampshire - Estados Unidos
A gente também pode admirar, lá de cima, as trilhas que sobem (ou descem, depende da perspectiva!) a montanha, cheia de mochileiros indo e vindo. É muito comum as pessoas virem de trem e descerem à pé. Os mais corajosos fazem o inverso. Com o sol que fazia hoje, era difícil acreditar que estávamos no mesmo lugar que meu primo me mostrou em um vídeo todo branco de neve, quando subiu a montanha no inverno e mal conseguia ficar de pé, por causa do vento. Certamente, quando ele chegou ao cume, estava mais vazio do que hoje...
Hotel onde se realizou a famosa conferência de Bretton Woods, nas White Mountains, região de Lincoln, em New Hampshire - Estados Unidos
Visitando Bretton Woods, nas White Mountains, região de Lincoln, em New Hampshire - Estados Unidos
Descemos da montanha, demos a volta nela de carro e passamos em frente ao hotel mais famoso da região, um monumento nacional. Aqui foi feito história em Julho de 44, uma ano antes do final da 2ª Guerra Mundial. Durante três semanas, enviados de 44 países realizaram a mais importante conferência econômica da história, definindo as regras e sistemas que regeriam o sistema econômico mundial no pós-guerra. Estou falando de Bretton Woods onde, entre outras coisas, se criou o FMI, a Banco Mundial e se estabeleceu o dólar como moeda internacional de transações e reserva de valor. Para um economista como eu, concordando ou não com o que foi decidido por ali, um templo sagrado a ser visitado! Curiosamente, o que mais atiçou minha curiosidade nesse momento foi como seria o dia a dia dessas centenas de delegados de tantos países nesse enorme e luxuoso hotel instalado numa das regiões mais belas do país. Devem ter sido três semanas bem interessantes, cheias de histórias secretas de negociações, discussões abertas e fechadas e comida e bebida da melhor qualidade...
The Basin, lembrança da última era glacial nas White Mountains, região de Lincoln, em New Hampshire - Estados Unidos
Terminamos nosso tour pelas estradas da região passando por outro vale cheio de atrações, entre trilhas, cachoeiras e formações geológicas. O “Franconia Notch” foi transformado em um Parque Estadual e mereceria outro dia inteiro de explorações. Nós escolhemos uma pequena trilha para pelo menos sentir um gostinho do parque. Fomos até a “Basin”, outro resquício da última era glacial, uma piscina circular escavada no granito por pequenas rochas trazidas pelas fortes correntes proveniente do degelo. Mais um belo lugar para fotografias, mas proibido para banhistas.
Um urso negro usado em apresentações em Lincoln, em New Hampshire - Estados Unidos
Voltamos acelerados para nossa base em Lincoln, pois ainda queríamos tomar um banho de lago no final de tarde. Isso não impediu que parássemos alguns minutos em frente a um local de apresentação de ursos. Pois é, se ainda não vimos um na natureza, pelo menos podíamos ver esses agora, curtindo seus momentos de férias e pouco se importando com quem passasse na estrada. E eu que achava que Ursos Negros eram pequenos, que nada! Cruzar um desse no meio de uma trilha deve ser um susto danado! Ainda mais se, por azar, formos parar entre uma mãe e seus filhotes. Aí, o estrago pode ser grande...
Ponte refletida em lago cristalino, nas White Mountains, região de Lincoln, em New Hampshire - Estados Unidos
Delicioso mergulho no Mirror Lake, nas White Mountains, região de Lincoln, em New Hampshire - Estados Unidos
Terminamos o dia nadando no Mirror Lake, outra dica da Rosana. Cerca de onze quilômetros ao sul de Lincoln, ela nos ensinou um caminho até a parte de trás do lago, longe da praia pública, onde pudemos nadar no final da tarde, temperatura de água perfeita e cenário deslumbrante. Quantas vezes já não tinha visto filmes americanos com jovens nadando em lagos no meio de matas de pinheiros e agora, era a nossa vez! Foi muito gostoso, um dos pontos altos do dia. Uma bela despedida de New Hampshire, já que amanhã, partimos para o litoral do Maine.
Fim de tarde no Mirror Lake, nas White Mountains, região de Lincoln, em New Hampshire - Estados Unidos
Caminhando na ilha de Steeple Jason, no noroeste das Ilhas Malvinas
Dois mil quilômetros depois, estamos para chegar às Ilhas Malvinas, um pequeno arquipélago no Atlântico Sul que entrou no meu mundo e radar há mais de 30 anos. Foi quando, numa noite do início de Abril de 1982, o Cid Moreira anunciou solenemente nas manchetes do Jornal Nacional que a Argentina havia invadido aquelas ilhas remotas. Ondas de euforia tomaram não apenas as ruas e praças de Buenos Aires, mas também de todas as grandes cidades da América Latina, numa espécie de patriotismo continental. No dia seguinte o correspondente da Globo falava “diretamente de Comodoro Rivadavia e a caminho das Malvinas”. Comodoro Rivadavia é um porto no sul da Argentina, de onde saíam os aviões militares para o arquipélago. O otimista repórter da Globo nunca obteve a permissão para voar para lá, mas a curiosidade nascida no jovem adolescente não se arrefeceria enquanto ele mesmo chegasse nas tais ilhas. Por isso, este arquipélago sempre esteve no roteiro dos 1000dias. Pois seja argentino, seja britânico, faz parte do continente, independentemente de “sentimentos patrióticos”. O jovem adolescente, hoje bastante envelhecido, vai finalmente realizar seu sonho antigo: ver de perto as Malvinas. Ou seriam Falkland?
As ilhas Falkland e sua localização no Atlântico Sul
Localizado a menos de 500 km da costa argentina e a muitos milhares de quilômetros das ilhas britânicas, a tendência é logo optarmos pela primeira opção: Ilhas Malvinas. Mas será que essa análise rápida e no “olhômetro” é mesmo justa? Analisando a composição das rochas das ilhas, os cientistas chegaram a uma conclusão surpreendente: as ilhas nunca fizeram parte da América do Sul. Na verdade, a julgar pelo seu passado remoto, não deveriam ser nem argentinas, nem britânicas, mas sul-africanas. Isso mesmo, elas nasceram lá na África do Sul, ainda no tempo do super-continente chamado Gondwana, uma soma da atual América do Sul, África, Austrália, Antártida e Índia. Esses três últimos se separaram, rumando para o sul, enquanto África e a nossa América também “quebraram”, criando o Oceano Atlântico. Foi quando as Malvinas (ou Falkland!), há 100 milhões de anos, separaram-se da costa oriental da África do Sul (isso mesmo, eu disse “oriental”, aquela virada para o Oceano Índico), deram a volta no Cabo da Boa Esperança e rumaram para oeste, vindo de encontro à plataforma patagônica, onde estão hoje. É impressionante como as rochas sabem contar a sua história, pelo menos para quem sabe escutá-las.
Pela estrutura e composição das rochas, os estudiosos deduziram que as Falkland "nasceram" no antigo supercontinente de Gondwana, no leste da atual África do Sul
Ao longo desse caminho foram sofrendo a erosão do tempo, das glaciações e do mar, chegando a forma atual como as conhecemos. É um arquipélago com mais de 700 ilhas, mas as duas principais, East Falkland e West Falkland, representam 91% da área total de 12 mil km2. Isso é aproximadamente o dobro da área do nosso Distrito Federal, as ilhas distribuídas numa região com 220 km de leste a oeste e 140 km de norte a sul. Há uma grande presença de fiordes, prova indiscutível de glaciações no passado, e as duas maiores ilhas são separadas por um estreito (“sound”, em inglês) com 20 km de largura e profundidade média de 40 metros. Durante a época do gelo, quando o nível do mar era mais baixo, muito provavelmente as duas ilhas formavam uma única massa terrestre. Mas nem no auge das glaciações houve alguma ponte de terra ligando o arquipélago ao continente, como chegaram a defender alguns estudiosos argentinos. O oceano é muito profundo entre as Falkland e a Patagônia.
Mapa detalhado das ilhas Falkland, mostrando as ilhas do arquipélago, estradas e cidades (produzido por Eric Gaba)
Aliás, essa “ausência” de uma ligação terrestre entre o arquipélago e o continente só adiciona mais sabor ao maior mistério biológico das ilhas: a presença de uma espécie de lobo, o único mamífero terrestre de Falkland quando os primeiros europeus chegaram às ilhas. Conhecido como “Warrah”, ou “Falkland Wolf”, esses animais foram descritos por Darwin (incrível! Esse cara esteve em todos os lugares!) em 1834, mas já eram conhecidos desde o final do séc. XVII. O famoso biólogo inglês usou a diferenciação entre os lobos de East Falkland e West Falkland como mais um exemplo, ou prova, de sua teoria de evolução das espécies. Darwin previu também que os lobos estariam logo extintos, devido à maior ocupação das ilhas por seres humanos. Infelizmente, o animal não tinha nenhum medo de nós e, caçado pelo valor da sua pele e o perigo que representava para as criações de ovelhas, realmente foi extinto em 1876. Alguns espécimes ainda chegaram a ser levados para o zoológico de Londres, mas nada que evitasse mais uma tragédia evolucionária causada pela mais assassina criatura do planeta: os seres humanos.
Ilustração do já extinto "Lobo de Falkland", ou Warrah, o único mamífero terrestre do arquipélago
Eles sumiram para sempre, mas o mistério continua: como chegaram às ilhas? A primeira teoria era que tivessem sido levados pelos primeiros habitantes das Américas, que teriam chegado às Malvinas em canoas rústicas. Mas como nenhuma prova conclusiva que o homem tenha estado no arquipélago antes da chegada dos europeus foi encontrada, essa hipótese perde força. O mais provável é que, no auge de alguma glaciação, alguma ponte de gelo (e não de terra!) tenha existido entre as ilhas e o continente e os lobos, intrépidos exploradores, tenham a atravessado. Pesquisas genéticas recentes, tanto com os Warrahs como com antigos canídeos extintos da América do Sul parecem corroborar essa tese. O fato é que os “Falkland Wolves” parecem ter sido capazes de sobreviver durante alguns milênios se alimentando de pinguins e gansos, mas não resistiram a poucos séculos de contato com seres humanos.
A vegetação rasteira de Steeple Jason, no noroeste das Ilhas Malvinas
Vegetação em Carcass Island, no noroeste das Ilhas Malvinas
Além de não nos temerem, eles não tinham onde se esconder. Não há florestas nem árvores naturais no arquipélago, apenas espécimes importadas trazidas bem mais recentemente pelos colonizadores. A ilha é constantemente assolada pelos ventos, o que favorece uma vegetação mais rasteira, gramínea e herbácea. Com um relevo formado principalmente por colinas, embora haja uns poucos terrenos escarpados (a maior altitude é de cerca de 700 metros), a região é um paraíso para a criação de ovelhas. Com efeito, essa passou a ser a principal atividade econômica do arquipélago desde o declínio da indústria de reparação de navios, em meados do séc. XIX. Só que não vieram apenas as ovelhas de fora, mas também gatos, cães, raposas e até guanacos, para servirem aos amantes da caça. E claro, vieram os ratos também. Quem sofreu com isso foram as populações originais de pássaros, como gansos e pinguins. Com tanta concorrência assim, principalmente dos seus ovos por parte dos roedores, os pássaros acabaram desistindo das ilhas principais, refugiando-se nas ilhas pequenas, onde esses animais invasores não chegaram.
Caminhando em Steeple Jason, no noroeste das Ilhas Malvinas
Caminhando nas colinas de Carcass Island, no noroeste das Ilhas Malvinas
Mas nem ali eles estavam seguros. Entre 1864 e 1866, apenas nas Jason Islands, pequenas ilhas ao noroeste do arquipélago e um dos locais onde vamos desembarcar, mais de 2 milhões de pinguins foram mortos e cozinhados para extração de óleo. Felizmente para eles, a consciência da humanidade parece ter mudado desde então. Por exemplo, Steeple Jason, uma das Jason Islands, foi comprada por um filantropo americano e doada para uma associação de defesa dos animais. Se não podemos mais salvar os lobos, ao menos os pinguins estão seguros agora!
A paisagem de Steeple Jason, no noroeste das Ilhas Malvinas
A paisagem de Carcass Island, no noroeste das Ilhas Malvinas
Falei da parte natural, mas ainda falta a ocupação humana das ilhas. Hoje são cerca de 3 mil habitantes, além de 700 militares ingleses. Para manter a mesma comparação com o nosso Distrito federal, duas vezes menor do que a área total das ilhas, a sua população é 1.000 vezes maior que do arquipélago. Isso mostra o quão vazio as ilhas ainda são. Ainda mais se lembrarmos que, da população total, 2.200 vivem na única cidade de fato, Port Stanley, sobrando umas poucas centenas para todo o resto das ilhas, região chamada pelos “kelpers” (nome dado aos habitantes das Falkland) de “camp”. A grande maioria da população tem origem escocesa e galesa, embora haja uma crescente minoria chilena. Essa é a população fixa das ilhas, mas há também um número cada vez maior de visitantes, quase todos eles chegando em grandes navios de cruzeiro. Somente em 2010 foram 70 mil turistas. Em um só dia, num grande navio, mais de 3 mil visitantes. Ou seja, a população literalmente dobrou naquelas poucas horas de desembarque. O turismo representa uma parte cada vez mais substancial da economia das ilhas.
Início da manhã em Steeple Jason, no noroeste das Ilhas Malvinas
A paisagem grandiosa de Steeple Jason, no noroeste das Ilhas Malvinas
Pois bem, qual a história dessa ocupação que ainda hoje continua tão conflituosa? Tudo indica que foram mesmo os europeus os primeiros a avistar as ilhas, ainda no início do séc. XVI. O primeiro desembarque foi em 1690, pelo capitão inglês John Strong. Ele resolveu homenagear o principal financiador de sua viagem, o 5º Visconde de Falkland (nome de uma cidade escocesa) com o nome do estreito que separa as duas ilhas principais do arquipélago. Um século mais tarde, pelo menos entre os ingleses, esse nome passou a denominar todo o arquipélago. Já o nome espanhol, Islas Malvinas, deriva do nome francês, “îles Malouines”, dado pelo explorador francês Louis-Antoine de Bouganville em 1764, referência ao porto de onde havia partido, na França, St, Malo.
Um arco-íris nos recebe em Steeple Jason, no noroeste das Ilhas Malvinas
Foi esse mesmo explorador francês que fundou o primeiro povoado das ilhas, Port Louis, em 1764. Dois anos depois foi a vez dos ingleses fundarem Port Egmont, no norte do arquipélago. Aparentemente, um povoado não sabia da existência do outro. Os franceses logo repassaram seu povoado aos espanhóis que, ao saber da existência do povoado inglês, trataram de conquistá-lo. Isso quase levou as duas nações à guerra e os espanhóis acharam por bem devolvê-lo. Alguns anos mais tarde, em 1774, os ingleses resolveram abandoná-lo, mas pelo sim, pelo não, lá deixaram uma placa dizendo que a soberania do arquipélago era do rei George III, monarca britânico. Sem a presença da concorrência, a Espanha não deu muita bola para as ilhas, mantendo ali apenas uma pequena colônia penal. Até que, no contexto das guerras napoleônicas, abandonaram eles também aquelas ilhas isoladas.
Escarpa montanhosa em Steeple Jason, no noroeste das Ilhas Malvinas
Na década seguinte, já independente, eram as Províncias Unidas do Rio da Prata, futura Argentina, que se julgavam as detentoras do arquipélago. Mas não tentaram sua ocupação. Ao contrário, resolveram “arrendá-la” a um comerciante alemão para que ele as explorasse. Ao tentar forçar navios baleeiros e pesqueiros a lhe pagar “direitos”, acabou causando a ira do governo americano que bombardeou a ilha. O governo de Buenos Aires resolveu então instalar um batalhão na ilha, mas os próprios soldados de amotinaram em 1832. A situação só foi finalmente pacificada no ano seguinte, com o retorno das tropas inglesas, sob a alegação que as ilhas sempre foram de Sua Majestade. Um século e meio de protestos argentinos não demoveram os ingleses dessa ideia.
Uma espécie invasora, flores amarelas embelezam a paisagem de Carcass Island, no noroeste das Ilhas Malvinas
Vegetação em Carcass Island, no noroeste das Ilhas Malvinas
Na verdade, as Falkland tiveram valor estratégico durante a 1ª e 2ª Guerras mundiais, mas desde então eram um peso desnecessário para o orçamento inglês, sustentar aquelas ilhas distantes perdidas no meio do oceano. Negociações entre argentinos e ingleses avançavam no sentido de uma transferência de soberania, como a que acabou ocorrendo em Hong Kong, com a China. As negociações ocorriam sem a participação dos próprios kelpers e pareciam que seguiam bom caminho. Mas o golpe militar de 76 e o governo sangrento que se seguiu parecem ter atrapalhado um pouco o andamento das conversas. A situação se encontrava nesse impasse quando a decrépita ditadura militar, em grave crise econômica e política em seu país, resolveu dar sua última cartada. Mas isso é um assunto para quando chegarmos a Port Stanley, amanhã. Antes disso, ainda temos dois desembarques para fazer por aqui, em pequenas ilhas no noroeste do arquipélago, onde a paisagem ainda se parece com o que era antes dos europeus chegarem. Infelizmente, sem os lobos...
Admirando a belíssima paisagem de Carcass Island, no noroeste das Ilhas Malvinas
Abatido, depois de uma noite com febre de mais de 40 graus (esperando o avião de Saba para St. Maarten)
Pois é, foi como o dito popular:"De onde menos se espera, é que não sai nada mesmo!". Nada de milagre para que eu pudesse mergulhar. Ao contrário, minha temperatura de manhã era de 39,3. A única vantagem é que acabaram-se todas as dúvidas: nada de mergulho para mim.
A Ana seguiu para o mergulho enquanto eu segui na cama. Mais um paracetamol para ver se a febre baixava. Ao menos, além da alta temperatura e consequente sensação de cansaço, não sentia mais nada. A temperatura baixou um pouco e eu pude ir tomar um café gostoso e desfrutar da vista maravilhosa. Engraçado que, mesmo esta vista, quando estamos tão debilitados, deixa de ser inspiradora. Pelo menos, não é tanto quanto a nossa cama, onde podemos nos deitar.
Quando a Ana voltou, já era duas da tarde. Fora a hora e pouco que tinha passado na varanda do El Momo, todo o resto tinha estado deitado. A Ana conseguiu negociar e fazer um terceiro mergulho, já que eu não tinha ido e tínhamos pago o pacote. Pelo menos isso. Ela também disse que os mergulhos não tinham sido tão bons como os anteriores. Será que foi para me animar?
Nova medição de temperatura e novo recorde. Agora, 40,4. Pois é, não me lembro de ter passado dos quarenta anteriormente. Tomei mais um anti-térmico, agora fornecido pelo motorista de táxi amigo nosso que nos leva para o porto todos os dias, compadecido pela minha ausência, e resolvemos que era hora de procurar um médico. Domingão, tudo fechado. A Ana até tinha ficado de comprar frutas e remédios na volta, mas não viu nada aberto. Ela foi falar com o Andres, dono do El Momo, que já acompanhava nossa história. Juntos, localizaram uma enfermeira de plantão no hospital que ficou de chamar o médico. O Andres emprestou o carro e seu assistente foi nos levar até The Bottom, capital da ilha, onde está o hospital.
Despedida do Andres e do El Momo, em Windwardside - Saba
Lá chegando, o médico rapidamente nos atendeu. Nova medida de temperatura, dessa vez no ouvido, após o anti-térmico, e deu 39,5. Rapidamente, ele descobriu a causa: inflamação nos dois ouvidos e na garganta. Pela cor das mucosas, "red as red can be!", ele ficou impressionado de eu não estar sentindo nada. Antibiótico imediatamente, três vezes ao dia.
No caminho de volta, ainda conseguimos achar um lugar para comer um pouco, apesar de eu já não sentir fome, só vontade de deitar. Chegar no hotel e na cama foi um grande alívio. Psicologicamente, estava melhor, pois agora parecia que tomava a medicação correta. Mas o fato é que eu me sentia completamente esgotado. Já tinha perdido o mergulho e agora, a bola da vez era a caminhada até o topo do Mt. Scenery, programada para o dia seguinte, pela manhã, já que de tarde voaríamos para St. Maarten e de lá para Sint Eustatius.
Pois bem, nova medição às sete da noite e estava novamente acima dos 40. Quanto tempo demora para antibiótico fazer efeito? Dormi e, perto das dez, acordei com muito frio, tremendo descontroladamente. A Ana me vestiu um casaco e, mesmo com dois edredons, continuava tremendo. Era a temperatura que aumentava... Sempre ouço dizer que, acima dos 40, tudo fica perigoso. A única coisa que me acalmava é que, aparentemente, continuava plenamente consciente. Tinha até um lado meu, afeito a recordes, que pensava: "Vamos lá! É só uma vez! Vamos bater o recorde de temperatura!". Dito e feito. Vinte minutos de tremação e tudo se acalmou novamente. Nova medida de temperatura: 41,6. E olha que eu desconfio que este nosso termômetro diminui a temperatura, pois quando estamos "normais", ele marca de 35,8 até 36,2. Enfim, muito preocupante mesmo! Ali, naquela hora, só pude tomar mais um paracetamol e um banho de chuveiro. Aliás, que esforço para chegar lá. O banheiro era fora do quarto. Ahhnn... tomei também a segunda dose do antibiótico.
A noite foi dormida em pedaços. Uns cento e cinquenta pedaços. Mas foi. E, aparentemente, o pico de febre de ontem foi o canto do cisne. Hoje, acordei com 37 e meio. E assim ficou o dia inteiro, um pouco para cima, um pouco para baixo. O que não melhorou foi a sensação de cansaço. A subida do Mt. Sceney, obviamente, foi para o espaço. A minha caminha era infinitamente mais atrativa. De qualquer maneira, ele esteve encoberto o dia inteiro, como que para diminuir nosso remorso.
Sala de espera para embarque no aeroporto de Saba - Caribe
Agora, o que estava em jogo era nosso vôo. Com a febre já bem baixa, achamos que dava. A Ana, junto com o Andres, já fechou uma reserva num hotel em Oranjestad, capital de Sint Eustatius. Arrumou nossas várias mochilas enquanto eu, da cama, dava apoio moral. Voltou ao hospital de carona para pagar a consulta e comprar a medicação, já que ontem estava tudo fechado mesmo. Providenciou o táxi para nos levar ao aeroporto. Aí, ela já não podia mais fazer as coisas por mim. Fiz o esforço para descer até o táxi, enfrentar o caminho para o aeroporto, aguardar na deliciosa sala de espera (ao ar livre, muito legal mesmo!), voar para St. Maarten, aguardar uma hora e meia no aeroporto de lá, e voar para Sint Eustatius.
Nesse meio tempo, sem esquecer dos antibióticos, a febre sumiu e o cansaço melhorou um pouco. Tanto que, do aeroporto, fui corajoso o suficiente para, com os protestos da Ana, dispensar o táxi e caminhar os cerca de 400 metros até nosso hotel. Aqui, o valoroso prêmio alvejado já há quase 4 horas: uma cama limpinha nos esperando!
E assim foram esses meus dois últimos dias. Nem só de flôres vive um viajante. Mas, como já diziam os gauleses: depois da tempestade, virá a bonança. Amém!
Chegada à ilha de Sint Eustatius, mais conhecida como Statia (Caribe).
Aproveitando o dia de sol no teto do catamaran de Ilha Grande para Angra dos Reis - RJ
Há cinco anos, numa tarde ensolarada na Ilha do Mel, depois de um dia muito gostoso pelas praias da ilha, eu e a Ana demos nosso primeiro beijo. Era o pontapé inicial numa bela história que hoje faz aniversário num dia frio e nublado aqui em Curitiba. Dois anos mais tarde, aproveitando a mesma data, demos um passo adiante e nos tornamos noivos. O "evento" foi num restaurante especializado em fondues aqui em Curitiba, com a presença da família dela e também da minha, via telefone. Hoje, três anos depois, voltamos ao mesmo restaurante para celebrar, um verdadeiro banquete de fondues variados e vinho francês. O duplo aniversário merecia!!!
Também hoje, numa bela coicidência, chegou nosso novo passaporte. Azul, moderno e com chip. Não vou ficar com o meu por muito tempo. Na segunda-feira ele segue para São Paulo, para o consulado canadense. A produção do "dossiê" está em fase final. Depois, falo mais disso. Além do passaporte, pegamos a Nikon também, novinha em folha e pronta para mais 20 mil fotografias, com o devido cuidado com a areia das praias e desertos...
A homenagem no post de hoje não poderia ser outra, né? Algumas fotos do casal nesses primeiros 450 dias de viagem:
Início da viagem, apaixonados em Miami
Balada no Nikki - South Beach
Primeira vez no Caribe, já entrando no clima praiano
Felizes na praia - Harbour Island - Bahamas
Enfrentando juntos o friozinho das montanhas do sul de Minas
Pôr-do-sol no Pico do Gavião em Andradas - MG
Sempre à procura de belas cachoeiras!
A bela Cachoeira do Bicame, na Lapinha, região da Serra do Cipó - MG
Juntos até embaixo d'água!
Mergulhando na Laje de Santos - SP
Devidamente abençoados!
Tradicional foto com o Cristo Redentor, no Rio de Janeiro - RJ
A hora certa, no lugar certo, com a pessoa certa!
Felizes da vida, no Riacho Doce, fronteira da Bahia com Itaúnas - ES
O clima inspirador do sul da Bahia...
Pôr-do-sol em Caravelas - BA
Como diz a música: "Almoça junto todo dia..."
Almoçando no Daniel, na ilha de Boipeba - BA
Sem conforto, mas com muuuita vista!
No nosso local de acampamento, ao lado da queda da Fumaça, próxima à vila do Capão, na Chapada Diamantina - BA
Olha só a devoção!
Viva a Serra da Capivara, próximo à São Raimundo Nonato - PI
Admirando, juntos, ao espetáculo diário da natureza. De cadeira cativa!
Autofoto assistindo ao pôr-do-dol em Jericoacoara - CE
Chegando ao famoso Aquário de Monterey, no litoral da Califórnia, nos Estados Unidos
O percurso da Route One entre Santa Cruz e Monterey não é grande coisa e, sem paradas para fotografias ou caminhadas, não demorou muito para que chegássemos à antiga capital da Califórnia, desde a época do controle espanhol e mais tarde, mexicano.
Chegando à Montery, no litoral da Califórnia, nos Estados Unidos
A cidade se iniciou como uma missão franciscana, mas logo foi fortificada, já nas últimas décadas do séc. XVIII, para se defender de uma possível invasão russa, que nunca aconteceu. Pois é, naqueles tempos, quem disputava a supremacia da costa oeste americana eram os espanhóis e os russos, já instalados no Alaska e com pretensões de se estabelecerem mais ao sul.
Chegando à Montery, no litoral da Califórnia, nos Estados Unidos
Parque em Monterey, na Califórnia, nos Estados Unidos
Mas, o mundo dá voltas. Os russos ficaram mesmo lá pelo norte enquanto os espanhóis perderam todo o território mexicano na luta daquele país por sua independência. Expulsaram os ibéricos, mas não mantiveram o poder da Califórnia e sua capital, Monterey, por muito tempo. Um dos resultados da guerra entre americanos e mexicanos na metade do séc. XIX foi que o estado passou ao controle dos americanos. Já sob domínio ianque, Monterey continuou com sua longa lista de “primeiros” da costa oeste: primeiro teatro, primeiro prédio público, primeira biblioteca publica, primeira casa de tijolos, primeiro jornal e por aí vai.
Muitos campos de golfe na 17 Mile Drive, em Monterey, no litoral da Califórnia, nos Estados Unidos
Nesta tradicional cidade chegamos perto da hora do almoço de ontem, já impressionados com a beleza de suas praias ao norte. Seguimos diretamente para o centro de visitantes, bem no meio de um lindo parque e lá fomos recebidos por um senhor que nos deu uma verdadeira aula, não só sobre as atrações da cidade, mas também sobre como receber turistas. Respondia todas as perguntas sem titubear, inclusive sobre o que era mais ou menos interessante. Nada de enrolação!
Os elegantes ciprestes ao longo da 17 Mile Drive, em Monterey, no litoral da Califórnia, nos Estados Unidos
Ele também nos falou sobre as partes mais bonitas da rodovia, entre Monterey e Los Angeles. Acabou por nos convencer a ficar mais um dia na cidade (nosso plano inicial era seguir viagem já hoje de manhã!). As principais atrações são a estrada-parque que liga Monterey à vizinha Carmel e o aquário da cidade, um dos melhores do mundo. Por fim, ele também nos deu as dicas de regiões de hotéis para ficar, tanto em Monterey como na estrada pelo Big Sur.
Fim de tarde em praia de Carmel, no litoral da Califórnia, nos Estados Unidos
Celebrando os últimos momentos do dia em Carmel, no litoral da Califórnia, nos Estados Unidos
Resolvemos aproveitar o resto da tarde para já percorrer a “17 Mile Road”. Ele vai serpenteando a encosta, espremida entre campos de golfe de um lado e o glorioso Oceano Pacífico do outro. No caminho, muitos mirantes para admirar a paisagem e também a vegetação da região, principalmente os belos ciprestes, típicos dali. A única preocupação era driblar o trânsito concorrente, já que em pleno feriado, tinha muita gente fazendo o mesmo percurso.
No final da tarde, muitas fogueiras na praia em Carmel, no litoral da Califórnia, nos Estados Unidos
No final da tarde, muitas fogueiras na praia em Carmel, no litoral da Califórnia, nos Estados Unidos
Chegamos à charmosa Carmel bem no finzinho da tarde, ainda em tempo de estacionar a Fiona, encontrar um lugar na praia e assistir de camarote ao pôr-do-sol. Clima de total descontração na praia repleta de cães. A cidade é uma das mais “dog-friendly” do país. Vários restaurantes, lojas e hotéis não fazem restrição aos nossos amigos de quatro patas. Andam felizes e soltos pela praia, socializando com seus pares. Quem socializa também são as pessoas, fazendo seus piqueniques e montando suas fogueiras. Depois do espetáculo do sol se pondo atrás do mar, eram dezenas de fogueiras espalhadas pela praia. Sem dúvida, de todas as praias americanas que estivemos nessa viagem, essa de Carmel, principalmente pelo clima descontraído, foi uma das que mais gostamos.
Iluminação natalina nas ruas de Carmel, no litoral da Califórnia, nos Estados Unidos
Já no escuro e com muita fome, fomos andar um pouco pela cidade para encontrar um bom restaurante. Carmel também nasceu como uma missão franciscana em tempos espanhóis. No início do séc XX, principalmente após o terremoto que abalou San Francisco em 1906, virou reduto de artistas, poetas, pintores e músicos. Já em 1910 os jornais de San Francisco anunciavam que em Carmel se respirava cultura. Esses mesmos artistas foram construindo suas casas e até se metendo na política local. Um bom exemplo é o ator Clint Eastwood, que foi prefeito da pequena cidade na década de 80. Como artistas gostam de boa comida, a cidade também virou um celeiro de bons restaurantes e o único trabalho que tivemos por lá foi escolher algum entre tantos deles. Foi delicioso caminhar pela cidade enfeitada para o natal, entre pequenos e concorridos restaurantes. Ficou aquela vontade de passar uma longa temporada por lá. Já está na nossa lista de “cidades que um dia voltaremos!”...
Litoral de Monterey, na Califórnia, nos Estados Unidos
Correndo pela orla de Monterey, no litoral da Califórnia, nos Estados Unidos
Já bem de noite, voltamos para Monterey, agora pela estrada rápida. Tínhamos achado um hotel bem legal, longe do centro, mas bem perto da praia. Pura inspiração para começarmos o dia de hoje de maneira bem saldável! Pois é, logo cedo já estávamos correndo por uma simpática trilha ao longo da orla da cidade, uma região cheia de parques e casas bacanas.
O belo parque na faixa costeira de Monterey, no litoral da Califórnia, nos Estados Unidos
Manhã saldável de corrida na costa de Monterey, no litoral da Califórnia, nos Estados Unidos
Corremos mais de três quilômetros, admirando o mar forte que batia nas pedras e os corajosos surfistas que enfrentavam não só as ondas, mas o frio da água. Junto com eles, as simpáticas e raras lontras de água salgada, o animal que foi quase extinto pela caça comercial ao longo do séc. XIX, por causa da sua pele. Parada para fotos e admiração da baía de Monterey e, depois, volta correndo para o hotel. Mas antes de chegar lá, um desvio para a praia, para mais uma corridinha. Sem as roupas de borracha dos surfistas, só animamos de molhar os pés e canelas. Doía até os ossos, mas valeu a pena!
Correndo em praia de Monterey, no litoral da Califórnia, nos Estados Unidos
Mar gelado em Monterey, no litoral da Califórnia, nos Estados Unidos
A tarde de hoje foi dedicada à exploração do famoso aquário da cidade. Depois de termos conhecido o fabuloso aquário de Atlanta, achei que nunca mais me impressionaria com outro e, até por isso, estava com uma certa preguiça de entrar em um. Mas o senhor do escritório de turismo me convenceu que deveríamos ir lá. E ele estava certíssimo!
Observando a floresta de Kelps no enorme aquário de Monterey, no litoral da Califórnia, nos Estados Unidos
A sensação de estar abaixo de uma onda, no Aquário de Monterey, no litoral da Califórnia, nos Estados Unidos
Certamente, o aquário não é tão impressionante como o de Atlanta, com seus enormes tubarões-baleia. No seu tanque principal, uma pitoresca floresta de Kelps, as gigantescas algas que crescem nessa parte do Pacífico, alimentando um complexo ecossistema que começa com peixes pequenos e chega até os tubarões-martelo. Todos eles representados no aquário, nadando naquela floresta subaquática. Muito legal!
Observando tubarões no Aquário de Monterey, no litoral da Califórnia, nos Estados Unidos
Coleção de moréias coloridas no Aquário de Monterey, no litoral da Califórnia, nos Estados Unidos
Mas, para mim, o que mais impressionou foi a exposição das águas-vivas. Dezenas de espécies, de todos os tamanhos e cores, desde as minúsculas e inofensivas até as gigantes e venenosas, passando pelas incríveis luminescentes, habitantes das profundezas. Um verdadeiro show! Foi mesmo emocionante ver de perto esses verdadeiros alienígenas. Como bem disse um cientista, “o mundo extraterrestre mais perto nós está bem aqui, no nosso quintal, embaixo de nossos narizes. O mar!”. Basta ver esses seres sem braços ou pernas, olhos ou ouvidos, mas tão graciosos e cientes do que se passa a sua volta para concordamos com ele.
Isso aí é um cavalo-marinho muito bem fantasiado de planta, no Aquário de Monterey, no litoral da Califórnia, nos Estados Unidos
O Aquário de Monterey tem uma fantástica exposição de águas-vivas (no litoral da Califórnia, nos Estados Unidos)
Amanhã, pegamos estrada novamente. Será o dia de conhecer a parte mais bonita da One, justamente aquela que atravessa a região conhecida como Big Sur. Nossa ideia é passar o dia explorando esse trecho de cerca de 100 quilômetros e dormir por ali mesmo. No dia seguinte, dia 27, acordamos cedinho e seguimos diretamente para o aeroporto de Los Angeles. Nossas explorações dessa cidade ficam para quando voltarmos do Havaí...
Incríveis águas-vivas luminescentes, no Aquário de Monterey, no litoral da Califórnia, nos Estados Unidos
Praia em Key West
Madrugamos hoje, para dar conta do recado e da extensa programação. Às cinco estávamos de pé e às seis pegando estrada (que, na verdade, era mais uma avenida, cheia de irritantes semáforos). Nosso objetivo era chegar em Key Largo às 07:30 para mergulhar com a Ocean Divers por lá. Como tínhamos perdido o horário no dia anterior para fazer a reserva, tínhamos de chegar assim que a loja abrisse, para garantir um lugar no barco.
Key Largo é a primeira das Keys, uma sequência de ilhotas ao sul da Flórida que avançam pelo Mar do Caribe, formando a terceira maior barreira de corais do mundo (depois da australiana e da de Belize). Já foram cenário de vários filmes americanos. Uma das coisas que as faz famosas é exatamente a estrada que as liga ao continente, ponte por ponte, sempre cruzando o lindo mar esmeralda logo abaixo. Coisa de americano! Fiquei imaginando que se eles conquistassem o Brasil, logo fariam uma estrada ligando Paranaguá à Ilha do Mel e de lá para a Ilha das Peças, Superagui, Ilha do Cardoso, Ilha Cumprida e de volta para o continente. Uffff, prefiro do jeito que é hoje! Mas, aqui nas Keys, não posso reclamar não. A estrada (depois de uns 30 km de avenida irritante cheia de semáforos, a US-1 vira mesmo uma estrada) é linda, super cênica. Uma atração em si mesma.
Estrada para Key West
Pois bem, a estrada fica bonita mesmo depois de Key Largo, no trecho que vai até a última e mais famosa das Keys, Key West. Mas isso, só vimos de tarde. Lá em Key Largo conseguimos entrar no barco da Ocean Divers, que parece ser a principal operadora do local. O mergulho principal da manhã foi no Duane. Na velocíssima lancha da operadora, em meia hora já estávamos no local do mergulho. Eu e a Ana ainda nos batíamos com o equipamento recém comprado, ainda não batizado. Entre configurá-los para um mergulho recreacional, ajustá-los ao nosso tamanho e a Ana lutar contra o enjôo do barco, todos os outros mergulhadores já tinham pulado do barco e só restava a gente lá em cima. Na verdade, nós e o Marcos, o dive master que descobrimos ser meio brasileiro. Ele nos ajudou bastante e, mesmo atrasados, saltamos também para o nosso mergulho inicial da viagem.
O mergulho, depois de alguns minutos para nos ajustarmos, agora em baixo d'água, ao nosso equipamento e à corrente, foi muito jóia. É um enorme naufrágio artificial, perto dos 40 m de profundidade. A visibilidade devia ser de uns 25 m, talvez. Com tão poucos mergulhadores no local, e num barco tão grande, acabamos fazendo nosso mergulho totalmente sozinhos. E assim, vamos nos acostumando a nossa nova realidade: mergulhos sem guias. O naufrágio tem muitos peixes, mas o mais legal são as diversas penetrações possíveis. Numa delas, o ponto alto do mergulho: eu vinha atrás da Ana e ela passou sem olhar para o lado, num quarto mais escuro. Quando eu passei, apontei a lanterna e vi um monstro: um enorme Mero de mais de 200 kg, dentro de um quartinho 3x3. Visão incrível! Ele ficou lá, me olhando, meio paradão, como geralmente ficam os Meros. Chamei rapidamente a Ana para ver, mas não entrei no quarto não. Fiquei meio cabreiro com a possível reação dele. Já vi outros Meros grandes em Noronha, mas de tão perto e num espaço tão pequeno, foi a primeira vez. Valeu o mergulho!
O segundo mergulho foi de "desintoxicação", num recife rasinho. Agora, bem mais senhores dos equipamentos e da situação, aproveitamos bem o que parecia ser uma visita a um aquário.
De volta a Key Largo, após confabularmos, decidimos deixar nossas coisas num típíco hotel americano de estrada, desses que aparecem em tantos filmes e seguir para o fim das Keys, Key West. Um longa e linda viagem de 2 horas voando sobre o oceano. Seria corrido, afinal teríamos de voltar no mesmo dia, mas estávamos tão perto desse cenário maravilhoso que tínhamos de ir. Depois de tantos dias trabalhando dentro de um apartamento, decidimos que era bom para desenferrujar!
Bar na praia, em Key West
Passamos um fim de tarde bem gostoso numa prainha tranquila, bebericando num bar cheio de figuras engraçadas e interessantes, a começar pelo casal que tocava no bar. Tenho a impressão que Key West é um centro para americanos alternativos. E também para aqueles que querem uma boa vida, na cidade mais tropícal que o país deles oferece. Na hora do pôr-do-sol, resolvemos ir para o lado oeste da ilha. Já idealizei um cenário idílico, só eu, a Ana, a praia de areias brancas, o mar verde esmeralda e um coqueiro solitário. Doce ilusão. A torcida do Flamengo e a do Corinthias pensaram a mesma coisa. O centro comercial de Key West está nesta parte da ilha. São dezenas e dezenas de barzinhos sempre lotados, com música ao vivo e turistas de todas as partes. Plena quarta-feira e tudo lotado. Acho que é a vida normal da cidade. E na hora do pôr-do-sol, todos se dirigem aos piers estrategicamente construidos para este evento diário. Com estrutura para receber shows, artistas performáticos e turistas ávidos para consumir. Enfim, não foi o cenário que imaginei, mas foi bem legal. O clima é ótimo, de festa, todo mundo feliz. O pôr-do-sol é aplaudido de pé e acompanhado por toda sorte de shows, de jazz a pirofagia, de mágicos a palhaços, de dança à pura reflexão. Não poderia ter uma vibração melhor.
Pôr-do-Sol em Key West
Logo após o pôr-do-sol e após passearmos na praça dos shows, fomos disputar um lugar num dos incontáveis restaurantes. Todos servidos com a já comentada eficiência capitalista americana. Bem alimentados, enfrentamos mais 2 horas de volta para Key Largo para mais um mergulho, dessa vez no rei dos naufrágios, o Spiegel Grove.
Portal para entrar na praça central de Bariloche, na Argentina
São Carlos de Bariloche, ou simplesmente Bariloche, é o sonho de consumo de dezenas de milhares de brasileiros. Aliás, não só o sonho, mas o destino de férias. A cidade com cerca de 125 mil habitantes aos pés da cordilheira dos Andes é a segunda cidade argentina mais visitada por brasileiros, atrás apenas da capital Buenos Aires. Quase todos eles atrás de frio, neve e a chance de esquiar. Nove em cada dez brasileiros visita a cidade durante o inverno e só a conhece branquinha de neve.
Bariloche, na Argentina, espremida entre as montanhass andinas e o lago Nahuel Huapi
Final de tarde, a praça central de Bariloche está vazia (Patagônia Andina, na Argentina)
Por isso é possível dizer que a cidade que visitamos hoje é desconhecida de quase todos os brasileiros: Bariloche na primavera! As estações de esqui já estão fechadas faz tempo e as ruas turísticas do centro da cidade estão vazias, mas nem por isso Bariloche deixa de ser interessante. Muito pelo contrário, a região oferece um sem número de possibilidades para aqueles que gostam de botar o pé na trilha, remar (ou mesmo nadar!) em lagos tranquilos ou rios cheios de corredeiras, cavalgar por bosques e montanhas, dirigir por estradas belíssimas ou comer em bons restaurantes. E para quem gosta mesmo de neve ou gelo, sempre se pode fazer um trekking até o alto do Cerro Tronador, eternamente coberto de branco.
Pinheiro, árvore típica em Bariloche, na patagônia andina na Argentina
O estranho nome “Bariloche” vem do termo “vuriloche”, que na língua mapuche quer dizer “povo de trás da montanha”. Ou seja, só pelo nome já podemos ter uma boa noção da história da região! “Mapuches” eram indígenas que viviam no que hoje é o Chile, do outro lado dos Andes, e migraram para a região de Bariloche já em tempos coloniais. Aqui, desocuparam os antigos habitantes que se referiam a eles como “vuriloche”, pois tinham vindo do outro lado dos Andes. Daí para algum europeu ouvir a palavra vuriloche e entender “bariloche” foi um pulinho!
Dia ensolarado na praça central de Bariloche, na Argentina
Torre do Relógio em Bariloche, na Argentina
Falando em europeus, eles só começaram a se estabelecer na região no início do séc. XX. Algum tempo depois chegava a primeira estrada de terra e logo depois, os primeiros visitantes ilustres, como o ex-presidente americano e grande explorador Theodore Roosevelt. Quem também viveu por aqui durante alguns anos, ainda antes da chegada da estrada, foram os famosos bandidos americanos Butch Cassidy e Sundance Kid (Paul Newman e Robert Redford, respectivamente, no clássico do cinema dos anos 70), mas tiveram de fugir para a Bolívia quando a polícia apertou o cerco. Por fim, com o lugar atraindo tanta gente conhecida assim, o governo argentino resolveu investir no turismo e, na década de 30, cria o Parque Nacional Nahuel Huapi, nos arredores da cidade, e remodela o centro de Bariloche, construindo os prédios históricos que hoje são o cartão postal daqui, como o Centro Cívico, a catedral e o hotel Llao Llao.
Visita ao club Andino para conseguir mapas e informações sobre trilhas na região de Bariloche, na patagônia andina na Argentina
Lago Nahuel Huapi, em frente a Bariloche, na Argentina
Finalmente, foi a vez das atividades de esqui se desenvolverem e logo o turismo passou a ser a principal atividade econômica da região. A pequena e tranquila Bariloche, que em 1970 ainda tinha uma população de apenas 25 mil habitantes, hoje multiplicou isso por cinco, transformando-se na maior cidade argentina no lado andino. Tornou-se referência mundial como centro de esqui, atraindo turistas de todo o mundo, mas principalmente chilenos e brasileiros. Não é a toa que os próprios argentinos chamam a cidade de “Brasiloche”.
Belo prédio no Centro Civico de Bariloche, na Argentina
Bom, esse apelido realmente serve para a temporada de inverno, mas não agora. Quase não vimos brasileiros nas ruas da cidade e os poucos turistas eram, na sua maioria, nacionais. Melhor assim, pois desse modo conhecemos uma Bariloche argentina. Chegamos ontem de tarde e não foi difícil encontrarmos um hotel com bons preços. Com a Fiona devidamente guardada na garagem, fomos conhecer o centro a pé. A cidade pode ter crescido, mas o centro continua do mesmo tamanho e é facilmente conhecido com duas ou três caminhadas. Charmoso e compacto, destoa bem dos bairros da periferia onde vive a maioria da população local em condições muito mais duras. Bariloche é conhecida por viver sob forte tensão social, um grande abismo social entre ricos e pobres. Deu para perceber isso através da janela da Fiona enquanto entrávamos na cidade.
Final de tarde, caminhando na orla de Bariloche, na patagônia andina na Argentina
A bela região de Bariloche, na patagônia andina na Argentina
Enfim, fomos passear pela praça central, pelo Centro Cívico e pela orla. A cidade está na beira de um enorme lago alimentado por águas de degelo, o Nahuel Huapi, águas limpas e frias. Difícil imaginar que uma enorme onda varreu esse lago causando destruição e morte na cidade em 1960. Mas foi o que aconteceu, reflexo de um enorme terremoto no vizinho Chile. Mas ontem, e hoje também, suas águas estavam plácidas, ideais para refletir a luz do entardecer ou para um passeio de catamarã. Outra cena típica que vimos no Centro Cívico foram as fotos de turistas com os cães São Bernardo, algo que já virou tradição para quem visita a cidade. Para quem quiser uma atividade mais “séria”, uma boa pedida é visitar aí mesmo, em um dos prédios históricos, o excelente Museu dos Povos Patagônicos. História, arte, cultura, costumes, está tudo ali, um pouquinho de tudo.
Turistas posam para foto com cachorro São Bernardo na praça central de Bariloche, na Argentina
Levando o São Bernardo para passear em Bariloche, na Argentina
Cervejaria Antares, em Bariloche, na Argentina
Depois da cultura, a alma! Fomos a uma das cervejarias artesanais da cidade que estão se multiplicando por aqui. Uma delícia, como pode-se perceber pelas fotos. E foi lá que, enfim, encontramos nossa amiga Rowan, a escocesa que também viajou para a Antártida no Sea Spirit e que, desde então, veio por terra desde Ushuaia até aqui, com duas ou três paradas. Ela chegou a Bariloche já no escuro, deixou suas coisas na pousada e veio nos encontrar. Vai ser nossa companheira nos próximos dias enquanto exploramos as belezas dessa região magnífica. Companheira de trilhas, aventuras e copo, já deu para perceber lá na cervejaria, hehehe.
Hora de uma cerveja gelada em Bariloche, na Argentina
Deliciosa cerveja artesanal em Bariloche, na Argentina
Um brinde ao reencontro com a Rowan, na Cervejaria Antares, em Bariloche, na Argentina
Depois da cervejaria ainda fomos jantar num delicioso restaurante. Mais tempo para conversar e nos conhecer melhor. No navio, a Rowan estava com seu namorado, um dos guias da expedição, e não tivemos muita chance de socializar. Por isso, foi meio estranho quando combinamos de viajar juntos por alguns dias aqui na Argentina. Mas bastou algumas horas de conversa para perceber que ela é mesmo da nossa turma e acho que vai ser bem legal a convivência.
Encontro com a Rowan, nossa companheira de viagem pelos próximos dias na região de Bariloche, na Argentina
Encontro com a Rowan, nossa companheira de viagem pelos próximos dias na região de Bariloche, na Argentina
Hoje cedo nos reunimos novamente para botar o pé na estrada. Antes, uma parada estratégica no Club Andino, organização que centraliza as informações sobre parques e trilhas na região de Bariloche. Com mapas na mão e muita conversa, montamos nosso roteiro para os próximos dias, uma verdadeira corrida para estarmos de volta à Bariloche no dia 4 de tarde para pegarmos nossos aviões, nós para o Brasil e ela para a Escócia, ambos via Buenos Aires. Planos feitos, não tínhamos mais um minuto a perder, pé na estrada!
Com a Rowan, no início da nossa viagem pela região de Bariloche (ao fundo!), na patagônia andina na Argentina
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