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Dia de chuva, no Pinguim, em Ribeirão Preto - SP
Nosso primeiro compromisso do dia em Ribeirão Preto foi regularizar nossa situação eleitoral. No ano passado, no segundo turno das eleições, estávamos em Itacaré - BA e perdemos o horário para justificar o voto. Dia lindo com muito sol, nada mais justificável, certo? Errado! Pelo menos, foi o que pensaram nossos respectivos juízes, em Curitiba e Ribeirão, quando receberam nossas cartas com justificativas esfarrapadas. Então, hoje foi dia de resolvermos esse imbroglio no TRE aqui de Ribeirão. Felizmente, daqui mesmo também conseguimos regularizar a situação da Ana, lá de Curitiba. Multa de três reais para mim e de seis para a Ana, que tinha também uma pendência de 2006. Tudo resolvido e agora com documentação pronta para a emissão dos nossos novos passaportes, semana que vem, em Curitiba.
O famoso bar Pinguim, em Ribeirão Preto - SP
Feito isso, fomos para a "obrigação" seguinte, logo ali do lado: tomar um chopp gelado no Pinguim, o mais tradicional bar da cidade e um dos mais conhecidos do país. Todas as eleições, de prefeito à presidente, lá vão os candidadtos tomar um choppinho por lá, obrigação também de todos os visitantes dessa cidade.
O histórico teatro Pedro II, em Ribeirão Preto - SP
Sinceramente, acho que o chopp já não é mais aquele, das décadas de 80 e 90, quando não havia espuma, mas um creme delicioso de colarinho. Mas a atmosfera charmosa de outras épocas continua a mesma e o chopp ainda é bem gelado. O clima chuvoso não nos impediu de ir lá cumprir nossas obrigações!
Chopp gelado no Pinguim, em Ribeirão Preto - SP
Voltamos para a casa dos meus pais, infelizmente sem eles. Demos o azar de passar por Ribeirão Preto bem no período em que eles não estão, se divertindo em em suas próprias viagens. Vamos redobrar nossos esforços para que, nessa nossa nova etapa de viagem, mais internacional do que nunca, eles venham nos encontrar em algum lugar dessa bela américa. Opções não vão faltar!
Momentos de descontração no Pinguim, em Ribeirão Preto - SP
De noite, o último compromisso: reencontro com amigos antigos, colegas do tempo do colégio, gente que eu não via há mais de 20 anos! Há um mês, acompanhei de longe, via internet, o reencontro de quase 25 deles, de uma turma de 40. Muito legal! Hoje foram bem menos, oito deles, mas o bastante para já dar um gostinho e dar boas risadas de histórias antigas. Ano que vem, comemoração de 25 anos de formados. Onde será que estaremos? Será que vai dar para vir? Tomara!
Reencontro com os amigos da época do colegial, no Marista, em Ribeirão Preto - SP
Caminhando na Calle Jaen, em La Paz, capital da Bolívia
A cidade de La Paz nasceu no alto, em pleno Altiplano. Localizada a meio caminho entre os dois lados da América Espanhola, o Peru no lado do Pacífico e a Argentina do lado do Atlântico, não demorou muito para que os colonizadores e exploradores que percorriam essa longa rota decidissem fundar uma cidade de apoio naquela região. Mas também não demorou para perceberem que o local escolhido era muito frio, acometido constantemente por ventos gelados e num altitude que judiava dos pulmões. Então, trataram de mudar a nova cidade para um vale logo ali do lado, protegido dos ventos e quase 500 metros mais baixo que o altiplano.
A majestosa Plaza Murillo, em La Paz, capital da Bolívia
Desde então, La Paz cresceu e desenvolveu-se de uma maneira singular. Em quase toas as grandes cidades do mundo, os ricos preferem as partes mais altas da cidade, enquanto a classe mais pobre é empurrada para baixo, ou para a “baixada”. Em La Paz, é o contrário. Os pobres moram no alto. A cidade alcançou novamente o altiplano, aos 4 mil metros de altitude. Aí está o subúrbio de “El Alto”. É a parte mais “popular” da capital. Os ricos, por sua vez, continuaram a descer o vale, cada vz mais para baixo, quase 1.000 metros abaixo de El Alto. É onde estão os condomínios de alto padrão, clubes exclusivos e lojas requintadas.
Caminhando nas ruas de La Paz, capital da Bolívia
Hora do rush em La Paz, capital da Bolívia
Ligando tudo isso, a famosa avenida El Prado, que apesar de receber vários nomes ao longo de toda a sua extensão, é apenas uma. Corre sempre no fundo do vale e para ela seguem quase todas as outras ruas e avenidas. Em La Paz, apesar do trânsito complicado, ninguém se perde: basta descer que se chega no Paseo El Prado.
La Paz, capital da Bolívia, no fundo do vale e aos pés dos Andes
Todas as principais atrações estão próximas da grande avenida, a começar pela rodovia que liga El Alto ao centro e nos leva ao início da El Prado. Ainda lá no alto, a visão que se tem da capital boliviana preenchendo todo o vale, as montanhas nevadas dos Andes ao redor, é simplesmente fenomenal. É a imagem que nunca esqueci da La Paz que conheci há 23 anos, e será a imagem que vou me lembrar pelos próximos 23. Lá de cima, quase se percebe a verdadeira piscina de oxigênio e calor que é o vale e muito me estranha que os experimentados espanhóis não tivesse escolhido esse local logo na primeira tentativa.
Prado, a principal avenida de La Paz, capital da Bolívia
A catedral de La Paz, capital da Bolívia
Bem, seguindo pela Prado, chegamos na zona do centro. Aí está a grande Igreja São Francisco, a mais bela da capital, em plena avenida. Um pouco acima, o Mercado Negro, o maior mercado a céu aberto da capital. Aí, compra-se de tudo. Barato e, muitas vezes, de procedência meio duvidosa. Mas é muito interessante percorrer parte de suas ruelas e nos integrar ao frenético movimento de compra e vende ou, simplesmente, de observação. É fácil também se perder entre tantas barracas, mas como já disse, na dúvida, desça e chegará ao Prado!
Passeando no Mercado Negro, principal mercado ao ar livre de La Paz, capital da Bolívia
Fazendo amigos em La Paz, capital da Bolívia
Mas, se não se perder, siga para a rua mais famosa entre os turistas que visitam La Paz: bem pertinho do Mercado Negro está a Calle de las Brujas, onde se encontra todo e qualquer produto para magias, feitiçarias, encostos e benzeduras. É claro que, com tantos turistas, também não faltam pousadas, bares e restaurantes. Depois de navegar pelo “mar de bolivianos” no mercado, aqui predominam loiros e olhos azuis. Olhos não que não conseguem deixar de fitar as lhamas mumificadas vendidas por várias das lojas daquela rua.
Lhamas mumificadas à venda na região da Calle de las Brujas, em La Paz, capital da Bolívia
Nessa região estivemos, de dia e de noite. Primeiro, para ver as lojas e o público. Depois, atrás de boa comida em algum restaurante charmoso. Sucesso nas duas empreitadas! E, de quebra, ainda conhecemos o Museu da Coca, estrategicamente colocado onde mais passam turistas.
Lhamas mumificadas à venda na região da Calle de las Brujas, em La Paz, capital da Bolívia
Mas a nossa casa em La Paz não estava por aí, mas do outro lado do Paseo Prado. É onde está a Plaza Murillo, a principal da cidade. Na praça, o Palácio do Congresso, a Catedral e outros prédios imponentes, além das pombas que fazem a alegria da criançada e dos velhinhos.
Loja de produtos mágicos na Calle de Las Brujas, em La Paz, capital da Bolívia
A famosa e movimentada Calle de las Brujas, em La Paz, capital da Bolívia
Da outra vez que estive aqui, ficamos em um hotel a um quarteirão dessa praça. Eu queria voltar ao mesmo lugar, pela tradição e nostalgia. E assim fizemos! Encontramos um lugar no hotel Torino, o mesmo que, em uma noite fria de julho de 1990, assisti ao jogo final da Copa daquele ano. Era a reedição da final da copa anterior, Argentina x Alemanha. Claro que iniciei o jogo torcendo pelos germânicos. Mas como todos os outros hóspedes ali presentes eram europeus que também torciam pelos alemães, acabei virando argentino, sul-americano! Ao final, num pênalti roubado, venceu a Alemanha. A tristeza inicial logo foi substituída pela alegria, ao ver os jogadores hermanos chorando de tristeza. Mas, confesso, foi de partir o coração quando decidimos caminhar pela cidade logo depois do jogo e vimos dois portenhos abraçados, bêbados e chorosos, andando pela rua. Aí sim, senti-me mais perto da tragédia...
Pátio central do hotel Torino, em La Paz, capital da Bolívia
Enfim, achamos quarto no Torino. Infelizmente, o quarto que havíamos ficado, e toda aquela ala, foram desativados, Ficavam ao redor de um pátio entral, bem grandes e esbanjando uma decadência charmosa. Agora, o pátio virou restaurante e os quartos, salas de reuniões. Os novos quartos são cubículos em um prédio ao lado. Endim, tudo pela tradição, aí mesmo nos hospedamos.
A charmosa Calle Jaen, em La Paz, capital da Bolívia
Também desse lado do Paseo Prado está a charmosa Calle Jaen, a mais bem conservada rua dos tempos coloniais e do séc. XIX. Muitas das antigas casas foram transformadas em pequenos museus. Antes de nos instalarmos em um restaurante com uma mesinha na calçada, para saborear um bom vinho, percorremos os museus e os que mais me interessaram contavam um pouco da história de Murillo, aquele que dá nome à praça, e da briga boliviana por um acesso ao mar.
A charmosa Calle Jaen, em La Paz, capital da Bolívia
No primeiro, aprendi que Murillo foi o líder de um movimento de independência. Por algum tempo, tiveram sucesso, governando La Paz e prometendo democracia e igualdade racial. Mas as tropas enviadas de Cusco esmagaram a rebelião e todos os seus líderes foram presos, julgados, condenados e executados. Murillo foi o primeiro deles, mas o que mais me impressionou foi um outro, de quem me esqueci o nome. Os condenados eram garroteados, mas nesse, com um pescoço mais fino que o normal, o garrote não funcionou. Depois de apertar ao máximo, o carrasco quase morre de susto quando o condenado se levantou e disse ainda estar vivo. Trataram então de enforcá-lo, mas eis que, ao abrir o cadafalso, a corda arrebentou e o condenado saiu andando novamente. Aì, os espanhóis resolveram não mais arriscar: a pobre vítima foi degolada.
A majestosa Plaza Murillo, em La Paz, capital da Bolívia
No segundo, podemos ver antigos mapas em que a Bolívia ainda tinha mar, antes da Guerra do Pacífico, quando o Chile venceu Peru e Bolívia, quitando dessa suas praias e portos. Os bolivianos nunca se conformaram e a ideia do museu é manter viva a luta, não deixar que as novas gerações se esqueçam do “legítimo” direito boliviano de ter soberania sobre uma faixa de mar, por mais estreita que seja. Ler jornais da época e ver fotos dos combatentes ajuda a manter o clima aguerrido.
garoto boliviano na loja de sua mãe no Mercado Negro, em La Paz, capital da Bolívia
Enfim, foram dois dias intensos por aqui, na movimentada capital boliviana. Faltou falar de uma das grandes atrações, o Valle de la Luna, mas vou fazer um rápido post apenas sobre ele. Mas, já posso adiantar: pessoas me perguntam o que acho de La Paz. Bem, eu gosto de lugares em que eu me sinto bem. E eu me sinto bem em La Paz! Mudaria alguma coisa? Sim, diminuiria o número de fotos que vejo do presidente, em outdoors, faixas e cartazes. Tirando isso, acho La Paz uma joia, um mundo diferente e uma experiência cultural difícil de encontrar em outro lugar!
O presidente está em todos os lugares! (em La Paz, capital da Bolívia)
Manhã de sol em Iquique, no norte do Chile
Nesta época do ano a cidade de Iquique, assim como várias cidades na costa chilena e peruana, passa meses sem ver a cara do sol. Uma forte neblina, fruto da interação do Oceano Pacífico com o relevo litorâneo, cobre constantemente o local. Mas, há exceções! E hoje, para a nossa sorte, foi uma delas. A manhã começou como todas as outras, céu cinza e pesado. Mas aos poucos o azul foi aparecendo aqui e ali e, uma hora depois, o sol reinava glorioso num céu limpo e azul.
A enorme duna em Iquique, no norte do Chile
Isso fez com que eu e a Ana mudássemos nossos planos. Inicialmente, imáginávamos um passeio na praia no fim da tarde, apenas para cumprir tabela. Mas agora, com o sol brilhando, fomos correndo para lá, aproveitar a oportunidade rara. Fizemos um cooper pela orla e seguimos para a areia, para nosso primeiro banho de mar no Oceano Pacífico. Água gelada, mas muito limpa. A Ana ficou só na beirada, mas eu não resisti a um bom mergulho. O Pacífico me fascina faz tempo. Há algo de misterioso nele que me atrai. Bom, temos muitos meses pela frente para "nos conhecermos" melhor, hehehe
Enfrentando as águas frias do Oceano Pacífico em Iquique, no norte do Chile
Depois do mar, seguimos de carro para um passeio no centro da cidade. Iquique nasceu espanhola, virou peruana e tornou-se chilena, mas com forte influência inglesa. Terra natal de vários heróis peruanos desde a guerra de independência, foi conquista pelos chilenos na Guerra do Pacífico, em 1879. Desde então, sofreu um forte processo de "chilenização", com imigrantes chegando do sul do país para trabalhar na indústria salitreira que teve seu auge no início de séc. XX.
Passeando pelo centro de Iquique - Chile
A indústria salitreira era dominada pelo capital inglês e Iquique era a principal cidade da região. Então, para cá convergiam os chamados "barões do salitre" que construíam suas mansões e clubes no estilo da terra natal. O resultado ainda se percebe hoje no bem conservado centro histórico da cidade. Muito gostoso passear por suas ruas e na praça principal, testemunhos de uma época gloriosa que já ficou para trás.
Passeando no centro de Iquique - Chile
Nem só de rosas vivia essa época, infelizmente. As condições atrozes a que eram submetidos os milhares de trabalhadores das oficinas salitreiras hoje nos chocam, mas naquela época eram consideradas justas o bastante por seus patrões. Pudemos observar bem isso na nossa visita a Humberstone, uma das maiores oficinas daquela época, hoje cidade fantasma patrimõnio da Unesco. Essa forte tensão social culminou com uma greve geral no final de 1907. O resultado foi um dos maiores banhos de sangue que se tem notícia na história das lutas de classe. Reunidos em uma escola em Iquique, para onde haviam convergido trabalhadores em greve em toda a província, juntos com suas esposas e filhos, os trabalhadores se mantiam irredutíveis em suas demandas que hoje nos parecem tão óbvias. Mas o governo também foi irredutível em suas ordens para que o local fosse evacuado e a greve terminada. Exatamente na hora do ultimato, os primeiros a serem metralhados foram os líderes e negociadores do movimento. Na sequência, outras duas mil pessoas, não importa sexo ou idade, também foram massacrados. A greve terminou por falta de grevistas e tudo voltou à antiga paz, o governo escondendo, falseando e censurando dados do massacre por décadas. Enfim, em 2007, no governo Bachelet, uma justa homenagem foi feita aos milhares que tombaram naquele fatídico 21 de Dezembro de 1907.
A Torre do Relógio, no centro de Iquique - Chile
Bem, a cidade está mais calma hoje. O perigo maior são os terremotos e tsunamis, já que Iquique está bem próxima de uma importante falha geológica. Sinais de fuga em caso de tsunami estão espalhados por toda a cidade. Mas não foi dessa vez ainda que experimentamos algum desses fenômenos naturais, algo que, infantil e inocentemente, muito anseio, na minha curiosa curiosidade por mega catástrofes. Mas teremos outras chances, já que nesses 1000dias passaremos por muitos lugares acostumados não só com terremotos e tsunamis, mas com furacões e erupções vulcânicas. É só questão de estar no lugar errado, na hora errada. Vamos ver...
A praça central de Iquique - Chile
Voltando a um mundo mais "normal", seguimos para a ZOFRI, uma das mais movimentadas zonas francas do continente, que fica em Iquique. É para cá que convergem, por exemplo, centenas de caminhões paraguaios em busca de carros usados do mundo inteiro, importados pelo porto da cidade e levados diretamente para Assunción, via Atacama e Paso de Jama, por onde cruzamos com vários deles. O local é gigantesco e tem também um mega shopping, talvez o maior que eu já tenha visitado. Ali passamos algumas horas, buscando artefatos eletrônicos e lentes para a nossa Nikon. A tentação foi grande, mas ficamos apenas com uns poucos acessórios.
Visitando a Zona Franca de Iquique, ou ZOFRI (Chile)
Depois desse dia movimentado, amanhã é dia de pegarmos estrada novamente. O caminho será longo até a charmosa Arequipa, no sul do Peru. Mais um país na nossa jornada!
Correndo na praia depois do banho gelado na Playa Brava em Iquique, no norte do Chile
Detalhe do belo portal chines no coração da Chinatown de Victoria, capital da British Columbia, no oeste do Canadá
Ocupada há milhares de anos pelos povos nativos, Victoria e toda a Columbia Britânica são relativamente novas para o mundo ocidental. Foi apenas no final do século XVIII que esse litoral começou a ser explorado por nações como Rússia, Inglaterra, Espanha e França, todas em busca de oportunidades de comércio de pele de lontra, além da mítica “passagem noroeste”, um caminho mais curto entre o Atlântico e o Pacífico que por gerações encantou aventureiros, mas que ao final, não passava de um sonho (pelo menos em épocas pré-aquecimento global).
escola pública chinesa na Chinatown de Victoria, capital da British Columbia, no oeste do Canadá
Para se ter uma ideia, isso foi 300 anos após Colombo ter chegado ao Caribe. Nessa época, os Estados Unidos já tinham conseguido sua independência, as cabeças já rolavam nas guilhotinas francesas e os primeiros movimentos revolucionários começavam a agitar a América Latina. Essa região ao noroeste da América do Norte tornou-se um novo centro das atenções e cobiça das grandes nações. A confusão política na França acabou afastando essa nação da nova “corrida” e uma enfraquecida Espanha, mesmo após tantas viagens exploratórias pela região, não ousou se contrapor à poderosa Inglaterra. Mais ao norte, russos e ingleses finalmente chegaram a um acordo sobre esferas de influência, o embrião das atuais fronteiras de Canadá e Alaska. Mas mesmo com os rivais europeus afastados, a Inglaterra não pôde respirar aliviada, pois agora era sua antiga colônia e nova aspirante à potência mundial que se interessava por essa nova fronteira: os Estados Unidos. Foi a chamada “questão do Oregon”, que quase levou as duas nações à guerra em meados do séc XIX.
Caminhada pela mais antiga Chinatown do país, em Victoria, capital da British Columbia, no oeste do Canadá
Foi nesse contexto conturbado que nasceu a cidade de Victoria. Por décadas, toda aquela região ao norte da California tinha vivido numa espécie de “dupla nacionalidade”, com comerciantes americanos e ingleses disputando cada rota ou oportunidade. Com o crescimento do comércio, as tensões aumentavam. Parte da sociedade americana clamava por guerra (“América para americanos!”). Com suas posições mais ao sul em perigo, a Inglaterra construiu um novo forte onde hoje está Victoria, como que para afirmar: “Daqui para o norte, é meu!”. Muitas negociações se seguiram e, enfim, o território foi dividido entre as duas nações ao longo do paralelo 49, o mesmo que já separava EUA e Canadá ao leste das Montanhas Rochosas. Outro fator que também contribuiu para evitar essa guerra foi que os EUA já estavam envolvidos em outra disputa, no sul, contra o México. Não achou prudente lutar em duas frentes de batalha ao mesmo tempo, numa delas contra a mais poderosa nação no mundo daquela época. Assim, enquanto no sul os EUA levaram quase a metade do território original mexicano, no norte eles abriram mão de boa parte de suas pretensões iniciais. Foi a única disputa territorial ao longo da história americana em que eles tiveram de abrir mão de suas aspirações.
O belo portal chines no coração da Chinatown de Victoria, capital da British Columbia, no oeste do Canadá
Voltando à Victoria, o forte virou cidade e passou a dominar todas as rotas comerciais da região, ganhando importância política e econômica. Logo se tornou a capital dessa nova província e também principal porto de entrada dos novos imigrantes, notadamente os asiáticos. Japoneses, chineses e indianos afluíam aos milhares, em busca das novas oportunidades de trabalho que se colocavam. As grandes empresas, como as mineradoras, preferiam trazer imigrantes chineses do que contratar trabalhadores locais, de origem inglesa. Esses, tinham a “péssima mania” de se reunir em sindicatos, fazer greves e exigir seus direitos enquanto os chineses, esses sim eram bons trabalhadores, sem limites de jornada de trabalho e muito menos domingos ou feriados.
Foto de antiga família da Chinatown de Victoria, capital da British Columbia, no oeste do Canadá
Essa disputa acirrada pelos postos de trabalho foi um dos fatores no forte racismo que se criou contra os “amarelos”. Os chineses, hostilizados pela sociedade local, acabaram se reunindo em seus próprios guetos, formando os bairros conhecidos como Chinatown. A Chinatown de Victoria é a mais antiga e tradicional do Canadá. Foi justamente aí que nos hospedamos na cidade e onde começamos nossas explorações no dia de hoje. Hoje, ela é ocupada por imigrantes de 1ª, 2ª e 3ª geração de diversos países asiáticos, como a própria China, Coréia, Vietnã, Filipinas, etc... Diversas lojas, mercados e restaurantes compõem a paisagem, mas são mesmo as marcas e formas chinesas as que mais chamam a atenção, pela sua arquitetura e tradição.
Palácio do Governo Provincial, em Victoria, capital da British Columbia, no oeste do Canadá
The Empress, o hotel mais famoso de Victoria, capital da British Columbia, no oeste do Canadá
Depois de uma boa caminhada por aí, seguimos para outra das grandes atrações da cidade, o Beacon Hill Park. Os planejadores ingleses de cidades na segunda metade do século XIX tinham como norma reservar uma milha quadrada para espaços públicos para cada oito milhas destinadas à ruas, avenidas e residências. Dentro dessa boa política, toda uma área no alto de uma colina (a Beacon Hill) foi reservada para um grande parque, numa região quase central da cidade.
Enormes trepadeiras com cores de Outono sobem prédio no centro de Victoria, capital da British Columbia, no oeste do Canadá
No caminho para lá, sempre caminhando, passamos por três dos mais importantes marcos arquitetônicos da Victoria. O majestoso Palácio do Parlamento Provincial, escudado por uma estátua da rainha Vitória (que deu nome à cidade!), o suntuoso Empress Hotel, o mais tradicional de Victoria, construído pela companhia ferroviária para fomentar o turismo na cidade, e pelo melhor museu de toda a província (sorry, Vancouver!), o Royal BC Museum. Pelo adiantado da hora, resolvemos deixar o museu para amanhã, antes de viajarmos, e continuamos seguindo para o Beacon Hill, logo ali atrás.
As cores características do Outono no Beacon Hill Park, em Victoria, capital da British Columbia, no oeste do Canadá
O parque é realmente um oásis no meio da cidade. Adorado por seus frequentadores, agora no Outono ele ganha cores espetaculares, dignas da região da Nova Inglaterra. Não é por menos, pois foi de lá que foram trazidas várias Mapple Trees que hoje coloriam de vermelho esse belíssimo parque. E não foram só as Mapple Trees que foram “importadas”. Várias plantas de diversas partes do mundo, incluindo a maior de todas elas, as árvores sequoias, foram plantadas aqui. Aliás, no final do séc XIX, era muito chique ter a maior árvore do mundo plantada em seu jardim. Por toda a cidade foram plantadas essas gigantes avermelhadas. Hoje, apenas 120 anos mais tarde, elas ainda vivem na sua infância, mas já dão mostra do colosso que um dia serão. Quem viver mais uns 300 anos poderá conferir!
Tranquilidade em um dos lagos do Beacon Hill Park, em Victoria, capital da British Columbia, no oeste do Canadá
Pavão posa para fotos sobre um galho de sequoia no Beacon Hill Park, em Victoria, capital da British Columbia, no oeste do Canadá
Demos uma boa volta pelo parque, admirando não só as cores da flora, mas também da fauna. Uma colorida coleção de aves perambula livre pelo parque, de patos à pavões. Nada mais apropriado para um parque pintado com todas as cores e tons entre o verde e o amarelo e entre o amarelo e o vermelho. As aves soltas são a evolução do antigo zoológico que ali existia, numa época em que os pobres animais viviam toda a sua vida encarcerados em jaulas diminutas. Basta ver as suas fotos para perceber a tristeza em que viviam. Felizmente, pelo menos por aqui, essa barbaridade é coisa do passado.
Passeio no belo Beacon Hill Park, em Victoria, capital da British Columbia, no oeste do Canadá
Uma jovem sequoia de apenas 130 anos no Beacon Hill Park, em Victoria, capital da British Columbia, no oeste do Canadá
No caminho para casa, depois de passar pelo ponto mais alto do parque, de onde se pode observar o mar aberto e toda a glória do Oceano Pacífico, seguimos pela orla, mesmo caminho de vários corredores e caminhantes com seus cães. Fico sempre impressionado com a limpeza desses caminhos, nem um mísero cocô de cachorro para contar a história. Todos devidamente ensacados em sacolas de plástico biodegradável distribuídas gratuitamente em alguns pontos. Um show de cidadania do poder público e também dos donos de cachorros, pois os cães daqui fazem tanto cocô como os brasileiros. Mesmo assim, podemos andar tranquilamente pelas calçadas. Vantagens de uma sociedade mais “civilizada”, pelo menos nesse ponto.
As cores características do Outono no Beacon Hill Park, em Victoria, capital da British Columbia, no oeste do Canadá
Descanso sobre um tapete de folhas vermelhas no Beacon Hill Park, em Victoria, capital da British Columbia, no oeste do Canadá
Uma última parada antes de voltarmos à Chinatown e ao nosso hotel foi na casa onde viveu Emily Carr, uma importante pintora e escritora canadense que tão bem retratou as culturas nativas e as paisagens da Columbia Britânica. Temos visto quadros seus espalhados pelos museus das grandes cidades do país e agora que conhecemos de perto as paisagens que ela magistralmente retratou, fomos lá prestar nossas homenagens. Entre as muitas qualidades que não tenho está a arte da pintura, o que só mais me faz admirar quem tem. Ao menos, divido com ela a profunda admiração pelas paisagens fantásticas dessa parte do mundo e acabo me sentindo coautor de seus belos quadros, pelo menos na vontade, hehehe.
Casa onde viveu a famosa pintora Emily Carr, em Victoria, capital da British Columbia, no oeste do Canadá
Olha só a pose de remador!
Dois meses viajando! O tempo passa muuuuito rápido. Logo serão os 1000 dias. Brrrr... dá um arrepio só de pensar.
Vista do nosso quarto na Waldhaus, em Guaraú. Mais tarde, o dia abriu!
A comemoração noturna ainda vai ser. Vamos dar um pulo em Peruíbe. Já a comemoração diurna foi sensacional! Aproveitamos o tempo bom e fizemos aquela remadinha básica de sete quilômetros para ir, mais sete para voltar. E olha que pegamos maré contrária tanto na ida como na volta. Mas é íncrível como a canoa "rende", com correnteza contra ou a favor. Íamos três na canoa, a pessoa do meio bem diretoria, tirando fotos. Ontem, eu remei o tempo todo enquanto a Ana ía tranquilona. Mas hoje, dos quatorze quilômetros, ela remou uns cinco! Isso é que é esposa!!!
Ana remando para a cachoeira Itu, na Juréia - SP
Novamente, durante o percurso fomos tendo uma aula com o Amilton. Até aprendemos a diferenciar entre os três tipos de árvores que compõe o mangue: a branca, a vermelha e a preta. A quantidade e diversidade de aves também impressiona. Depois, tem os carangueijos e siris. E hoje, até tartarugas deram o ar da graça.
Rodrigo "trabalhando" em pleno mangue, na Juréia - SP
Eu, depois de tanto remo, já estava me sentindo o Daniel Boone (apenas os mais velhos vão lembrar. Os mais novos, que dêem uma olhada no YouTube...). Depois de vencer os dois km da base até o rio Guaraú e mais quatro rio acima (rio largo, mais de 50 metros de largura), pegamos um pequeno igarapé até a cachoeira. Um espetáculo de lugar, bem no meio da mata atlântica, verde para todo lado. O banho mais que refrescante nos deixou zerados para a jornada de volta. Logo estávamos na base novamente, felizes e revigorados, prontos para celebrar o aniversário de dois meses em Peruíbe.
Tomando banho, feliz da vida, na cachoeira Itu, na Juréia - SP
O nosso plano de seguir amanhã de madrugada para Santos para mergulhar na famosa lage é que dançou. Com medo do ciclone que se aproxima, todas as operadoras de mergulho cancelaram suas saídas. Assim, mudaram os planos, vamos direto para Sampa. Santos, se Deus quiser e não mandar mais ciclones e furacões, fica para quarta. A única vantagem é que não teremos de madrugar por aqui e poderemos curtir mais nossa celebração de hoje à noite. E ainda poderemos aproveitar nosso café da manhã incluso na diária!
Remada de volta para casa - Juréia/SP
Acariciando baleia Cinzenta na Baía Magdalena, região de Puerto López Mateos, na Baja California - México
O dia hoje nasceu radiante, céu azul e sol forte. A vista que tínhamos do terraço do nosso hotel, onde tomamos o café da manhã, estava linda. Ficamos imaginando como seria um passeio na Espíritu Santo hoje, com o tempo aberto. Puxa vida... erramos por um dia!
Dia de céu azul em La Paz, na Baja California, no México
Saindo de La Paz Baja California, no México. Tijuana ainda está longe!
Mas hoje era o dia de seguirmos em frente. Empacotamos a Fiona e em pouco tempo já tínhamos deixado La Paz para trás e entrado no deserto, cactos para todo lado, quase sem carros na estrada. Depois de meia hora atravessando uma longa planície, a estrada subiu para um platô de onde pudemos admirar uma paisagem fantástica para trás, de onde tínhamos vindo: a enorme planície desértica e o Mar de Cortez ao fundo, bem azul. A diferença de cores era gritante, assim como a “definição das fronteiras” entre terra, água e céu. Muito lindo! Para completar, lá estava ela, a ilha Espíritu Santo, onde estivemos ontem. Será que hoje as baleias estariam por lá?
Paisagem desértica com o Mar de Cortez ao fundo, na saída de La Paz, no sul da Baja California, no México
Bom, na verdade, hoje torcíamos que elas estivessem do lado de cá da península, no Oceano Pacífico! Afinal, era para lá que estávamos indo, a uma baía famosa pela presença desses grandes cetáceos, chamada Baía Magdalena. Nós escolhemos seguir diretamente para uma cidade que fica no seu lado norte, Puerto López Mateos. Muitos locais nos disseram que esse era o lugar com a maior chance de ver baleias, principalmente as “ballenas gris”, ou baleias cinzentas.
Barco leva turistas para ver baleias em Puerto López Mateos, na Baja California - México
Isso porque, bem em frente a cidade está um canal que liga a baía ao oceano aberto. Este esse canal, quando a maré está enchendo ou vazando, vira uma verdadeira estrada de baleias, as mães levando suas crias para um passeio pelas águas rasas e seguras da baía, longe dos predadores. Se fosse no início da temporada, há alguns meses, aí veríamos baleias grávidas, ou então, baleias “namorando”.
Turistas observam baleia em Puerto López Mateos, na Baja California - México
Chegamos à López Mateos no meio da tarde e fomos diretamente para o porto. Aí, descobrimos duas coisas. Primeiro, os passeios são rápidos, entre uma e duas horas. Paga-se uma lancha, preço que é dividido entre os clientes e navega-se uns 15 minutos até o ponto de observação. Segundo, a chance de ver baleias hoje era de 110%. Garantido! Vivaaaaa!
Enorme baleia cinzenta passa perto do nosso barco em Puerto López Mateos, na Baja California - México
Logo apareceu uma simpática família para dividir o barco e o custo com a gente. Assim, eu e a Ana pagamos 600 pesos para um passeio de duas horas até a boca do canal, onde as baleias se concentram, para lá poder ficar mais tempo, observando esses magníficos animais.
Enorme baleia cinzenta passa perto do nosso barco em Puerto López Mateos, na Baja California - México
No caminho, nosso guia foi explicando que apenas as baleias cinzentas entram no canal. Os outros tipos ficam em mar aberto, perto da costa. Na alta temporada, é possível ver baleias azuis, cachalotes, jubartes e orcas por aqui. Mas ele nos garantiu que as mais interessantes são mesmo as cinzentas, pois elas são mais interativas que as outras. Nossa... fiquei imaginando a emoção de ver uma baleia azul, com seus 40 metros de comprimento, o maior animal que já viveu na face da terra (e do mar!), desde sempre! Pois é, maior que qualquer dinossauro também! Algum dia, algum dia...
Mamãe baleia leva filhote para passear na Baía Magdalena, em Puerto López Mateos, na Baja California - México
Mas não hoje. Hoje era o dia das cinzentas mesmo. Não demorou muito para o pessimismo em encontrá-las ser substituído pela realidade! Lá estavam, para onde quer que se olhasse. Alguns adultos nadando sós e muitas mães acompanhados dos filhotes. Que coisa mais linda! De longe se podia ver, ou pela respiração barulhenta e o esguicho que fazem nas costas ou pelas pequenas exibições que fazem na superfície.
Filmando baleia cinzenta em Puerto López Mateos, na Baja California - México
Mas o melhor ainda estava para acontecer! Para minha surpresa, os barcos se aproximam das baleias, e elas dos barcos. São muito curiosas e adoram interagir. O guia nos orientou a fazer barulho na água com as mãos para atraí-las. Pois é, os filhotes adoram e logo se aproximam, vindo respirar ao nosso lado. Só o filhote já é do tamanho do barco, imagina a mãe! Que animal extraordinário!
Tocando baleia cinzenta durante passeio em canal da Baía Magdalena, em Puerto López Mateos, na Baja California - México
O guia nos disse que elas adoram ser acariciadas e assim o fizemos. A pele é macia e quentinha! Que experiência é tocar numa baleia! Ainda mais quando ela nos olha nos olhos. A gente vê inteligência e curiosidade por trás deles. É emocionante!
Enorme baleia ao lado do nosso barco na Baía Magdalena, em Puerto López Mateos, na Baja California - México
A gente ficou dividido entre tentar filmar, fotografar e tocar esses animais. A vontade era pular na água e observá-los lá de baixo. Mas não se pode fazer isso. O máximo de interação foi mesmo a respirada que a Ana levou nos rosto, de um filhote. Quase chorou de emoção, hehehe!
Feliz após encontrar mais uma baleia em Puerto López Mateos, na Baja California - México
E pensar que, no meio do século passado, os baleeiros entravam dentro do canal e faziam a festa com baleias grávidas, mães acompanhadas de filhotes e o que vissem pela frente... Quase levaram a espécie a extinção. Como pode? ? ? Felizmente, a caça foi proibida por aqui e a espécie se recuperou. E os tais baleeiros estão pagando uns bons anos no purgatório, espero! Ou então, reencarnaram como kril e hoje são comida de baleias!
Nosso guia e companheiros no passeio para ver as baleias cinzentas em Puerto López Mateos, na Baja California - México
No finalzinho da tarde estávamos voltando para o porto, ainda extasiados com o encontro com as baleias e admirando a paisagem ao nosso redor, o canal cercado por grandes dunas de areia. Parecia até que estávamos no delta do Parnaíba, lá no Piauí.
Dunas cercam o "canal das baleias", ligando o Oceano Pacífico à Baía Magdalena, em Puerto López Mateos, na Baja California - México
Despedimo-nos dos novos amigos, companheiros de barco. Moram aqui perto e o pai disse que todo ano vem fazer o passeio, ao menos uma vez por temporada. Tenho certeza que faríamos o mesmo! Uma tarde com as baleias faz muito bem para a alma!
Fotografia do reflexo do reflexo do belo entardecer, na estrada entre Puerto López Mateos e Loreto, na Baja California - México
Não conseguíamos tirar o sorriso do rosto durante a próxima hora, já na estrada a caminho de Loreto, curtindo o sol se pondo atrás de nós. Atravessamos a península mais uma vez para chegar em Loreto, outra vez na costa do Mar de Cortez. Já era oito da noite quando achamos nosso hotel. Fomos matar a fome e comemorar esse dia fantástico comendo um super burro. Um “burro” é um burrito grande. Dá para imaginar, então, como é um “super burro”, não dá? Estava uma delícia, num restaurante bem roots. Enfim, era hora de dormir. Os sonhos se dividiriam entre baleias e burros. Merecidamente!
O Dave traz mais passageiros de volta ao Sea Spirit, depois de visita a Stromness, na Geórgia do Sul
Se alguém me dissesse, um mês atrás, que estava viajando de Stromness para Grytviken, eu iria imaginar que essa pessoa deveria estar em algum recanto da Dinamarca, Suécia ou Noruega, mas jamais na América do Sul! Pois é, vivendo e aprendendo... E olha que eu não estaria tão errado assim. Sim, os dois lugares ficam sim na América do Sul, mais precisamente, na pequena ilha chamada Geórgia do Sul. Uma ilha que pertence aos ingleses, mas que, na prática, foi colonizada por noruegueses! Bingo! Daí esses nomes nórdicos...
A antiga estação baleeira de Stromness, na Geórgia do Sul
O Dave traz mais passageiros de volta ao Sea Spirit, depois de visita a Stromness, na Geórgia do Sul
Nas primeiras décadas do séc. XX, o governo inglês vendeu licenças a várias companhias norueguesas para se instalarem na ilha e praticarem a pesca e processamento de baleias e focas. Essa foi a primeira ocupação efetiva dessa pequena ilha quase perdida no Atlântico Sul e, desde então, nomes noruegueses são comuns por lá, mesmo depois que as estações baleeiras foram fechadas em meados do século. E hoje, após repetir parte do caminho por terra de Shackleton até Stromness, nós embarcamos no Sea Spirit rumo a Grytviken, a “capital” da Geórgia do Sul.
Guindaste do Sea Spirit recolhe um zodiac no deck, em Stromness, na Geórgia do Sul
A água gelada e azul da baía de Stromness, na Geórgia do Sul
O tempo havia estado fechado durante toda a manhã, enquanto fazíamos nossa caminhada. Mas na hora de embarcarmos no Sea Spirit, já em Stromness, o sol apareceu, assim como o céu azul. Quase sem vento, as águas da baía de Stromness estavam paradas, formando um grande espelho natural que só era desmanchado pelo vaivém dos zodiacs que transportavam os passageiros de terra firme para o navio.
O Bart limpa suas botas antes de entrar no Sea Spirit, em Stromness, na Geórgia do Sul
Limpando os pés antes de entrar no Sea Spirit, em Grytviken, na Geórgia do Sul
Ao chegar no Sea Spirit, a rotina de sempre. Enquanto limpávamos e desinfetávamos nossas botas para poder entrar no interior do Sea Spirit, os marinheiros já nossos amigos se ocupavam em “guardar” os zodiacs no deck do navio. Faça frio, faça vento, faça neve, lá estão eles fazendo seu trabalho, sempre com a ajuda do guindaste do barco.
Os marinheiros do Sea Spirit que sempre nos auxiliam a entrar e sair dos zodiacs, em Stromness, na Geórgia do Sul
Navegando por um estreito canal perto de Stromness, na Geórgia do Sul
O Sea Spirit começou sua curta viagem de hoje e o almoço já estava servido para os famintos passageiros. Aproveitando o dia lindo que agora fazia, aproveitamos para comer do lado de fora, lá no deck superior, com direito à linda paisagem da ilha à nossa frente. Com o tempo limpo, quem apareceu o longe foi o Mount Paget, montanha mais alta da Geórgia do Sul. Com 2.935 metros de altura, realmente é uma montanha imponente, considerando que nós estávamos ao nível do mar. É como se fossem quatro Corcovados, um em cima do outro. Foi escalado pela primeira vez em 1964, por uma equipe militar britânica. É uma escalada técnica, com muito gelo e neve no caminho.
As mais altas montanhas da Geórgia do Sul, como o Mount Paget, na região de Stromness
As mais altas montanhas da Geórgia do Sul, como o Mount Paget, na região de Stromness
Depois do almoço e do Mount Paget ficar para trás, chegamos a baía de Grytviken, um punhado de casas espremidas entre o mar e montanhas majestosas. Essa é a tal “capital” da ilha, onde vivem poucas dezenas de pessoas de forma permanente e muitos pesquisadores durante o verão e primavera. Um pouco mais ao fundo, na mesma baía, as ruínas da antiga estação baleeira. Foi para lá que seguimos.
Navegando ao lado das mais altas montanhas da Geórgia do Sul, entre Stromness e Grytviken
Aproveitando o sol para almoçar ao ar livre no deck do Sea Spirit, saindo de Stromness, na Geórgia do Sul
O primeiro programa foi visitarmos o cemitério para prestar nossas homenagens ao mais ilustre “hóspede” do local, Sir Ernest Shackleton. Vou falar disso no próximo post. Depois do cemitério, fomos caminhar pelas ruínas e alguns poucos prédios restaurados ou conservados.
Chegando a Grytviken, na Geórgia do Sul
Tarde de sol em Grytviken, na Geórgia do Sul
Entre eles, destaca-se a bela igreja que já é centenária. Carl Larsen, o fundador do posto baleeiro mandou fazê-la lá na Noruega e trazê-la para cá. Imaginou que um pouco de religiosidade serviria para aplacar os ânimos de tantos homens vivendo juntos por tanto tempo em espaço tão pequeno e longe de suas mulheres e famílias. Eram poucos os que tinham o privilégio de trazer suas esposas e filhos para cá. Então, trouxeram a igreja que é o principal cartão postal da cidade.
A bela igreja construída pelos noruegueses em Grytviken, na Geórgia do Sul (foto de Brian Myers)
Visitando a igreja norueguesa em Grytviken, na Geórgia do Sul
A bela igreja construída por baleeiros noruegueses em Grytviken, na Geórgia do Sul
Além da igreja, um pequeno museu e correio, que só abre quando chegam os navios com turistas. Receber uma correspondência da Geórgia do Sul não é para qualquer um! O museu conta a história e mostra artefatos da exploração baleeira da ilha e da breve ocupação argentina durante a Guerra das Malvinas. Mesmo para quem não admira a caça de baleias, é sempre interessante ver as fotos terríveis e ficar certo que aquilo realmente acontecia.
Interior da igreja norueguesa em Grytviken, na Geórgia do Sul
O museu e o correio de Grytviken, na Geórgia do Sul
Felizmente, não acontece mais e hoje a paz reinava nesse lado esquecido do mundo. Elefantes-marinho dormiam na praia, pinguins passeavam ao lado de um antigo barco baleeiro encalhado, turistas caminhavam entre ruínas de uma antiga fábrica e a tarde se punha sobre um oceano de águas azuis. Era a hora de voltarmos a bordo porque o dia de amanhã também será longo, com direito a mais desembarques, caiaque, pinguins e elefantes. Sem contar o jantar com um prato especial: rena assada. Isso mesmo... renas, daquelas que puxam o carro do Papai Noel. Assunto para os próximos post, depois de falar da epopeia de Shackleton.
O sol de fim de tarde esquenta o Sea Spirit ao lado de Grytviken, na Geórgia do Sul
Muitas canoas e barcos na enseada de Gancho de Fora, em Governador Celso Ramos, litoral de Santa Catarina
Finalmente, depois de 10 dias baseados em Florianópolis e explorando as belezas da região, retomamos nossa rota rumo ao norte. Aqui no litoral de Santa Catarina, já tão próximos de Curitiba, com tantas opções de praias para ver, rever e explorar, decidimos dar preferência àquelas onde temos lugar para ficar para não termos de pagar hotel. Assim foi, por exemplo, em Florianópolis, onde ficamos muito bem hospedados no apartamento do tio Walter. Daqui para o norte, também poderemos ficar em Bombinhas e em São Francisco do Sul, onde a Ana tem tias com apartamentos ou casas. Famílias paranaenses gostam do litoral catarinense! Não é difícil entender o porquê!
Nosso trajeto na manhã do dia 24/03, saindo de Florianópolis e indo até Governador Celso Ramos, dando a volta na península no sentido horário. Daí seguimos para Bombinhas, um pouco mais ao norte
Mapa da península de Governador Celso Ramos, com suas praias e atrações. Nós demos a volta nela de carro, no sentido horário
Isso não quer dizer que não passaremos por outras praias. Hoje, por exemplo, no nossa caminho para a península de Bombinhas, fizemos uma longa parada na região de Governador Celso Ramos. A cidade ficou famosa na TV brasileira há uns 20 anos por causa da infame “Farra do Boi”, por ser ali um dos redutos mais fortes dessa tradição de inspiração açoriana. Mas ela é muito mais do que isso. Suas praias são lindas e ainda menos exploradas que as praias de Florianópolis e Bombinhas, suas vizinhas do sul e do norte. A cidade, nascida da exploração da pesca da baleia, é super pitoresca, na orla de uma baía de águas tranquilas, e em uma de suas praias está a mais antiga igreja de Santa Catarina, datada de 1745.
A trnquila enseada de Gancho do Meio, onde está a sede do município de Governador Celso Ramos, litoral de Santa Catarina
A trnquila enseada de Gancho do Meio, onde está a sede do município de Governador Celso Ramos, litoral de Santa Catarina
O nome da cidade é uma homenagem a um político catarinense que foi governador do estado entre 1961 e 1966. No ano seguinte, para sua homenagem, o município que acabava de se desmembrar de Biguaçu, ganhou o seu nome. O interessante é que não foi uma homenagem póstuma, pois o ex-governador ainda vivia. Aliás, viveu mais trinta anos, até o final da década de 90. Deve ter sido um político muito querido no estado, pois um outro município catarinense, no interior, também ganhou o seu nome!
Barcos ancorados em Gancho do Meio, sede do município de Governador Celso Ramos, litoral de Santa Catarina
As águas calmas ad enseada de Gancho do Meio, em Governador Celso Ramos, litoral de Santa Catarina
Pesca, atividade comum em Gancho de Fora, em Governador Celso Ramos, litoral de Santa Catarina
Celso Ramos vem de uma família de tradição política. Seu pai também foi governador do estado quando esse cargo ainda levava o nome de “presidente”, entre os anos de 1910 e 1914. Mas o político mais famoso da família não é nenhum dos dois, mas o irmão de Celso, Nereu Ramos. Esse foi o único político catarinense a ser presidente do país. Não foi exatamente pelo voto direto, mas ele conduziu o país em um de seus momentos de maior tensão política. Getúlio Vargas havia se suicidado e os próximos na linha sucessória, o vice-presidente Café Filho e o presidente da Câmara dos Deputados, Carlos Luz, foram impedidos de assumir pelas forças políticas de então. O próximo da lista, então, era Nereu Ramos, que governou o país pelos próximos dois meses sob estado de sítio, até as próximas eleições. Nereu Ramos já era um político experiente, tendo sido governador de seu estado, presidente da Câmara dos Deputados, senador da república, ministro da Justiça e da Educação e vice-presidente do país de 1946 a 1951.
Chegando à praia de Palmas, a mais longa de Governador Celso Ramos, litoral de Santa Catarina
Praia de Palmas, quase uma nova Jurerê Internacional, em Governador Celso Ramos, litoral de Santa Catarina
Enfim, a bela Governador Celso Ramos está bem próxima de Florianópolis. Só temos de cruzar a ponte e contornar a baía norte para chegar até lá. Isso para quem vai por terra, pois muitos turistas seguem de barco, para passar o dia, saindo de Canasvieiras, no norte da ilha de Florianópolis. Não foi o nosso caso, que seguimos por terra mesmo. Demoramos mais tempo para dar a volta na península onde está a cidade, conhecendo rapidamente suas praias, do que para chegar até lá propriamente.
Praia da Armação da Piedade, em Governador Celso Ramos, litoral de Santa Catarina
Praia da Armação da Piedade, em Governador Celso Ramos, litoral de Santa Catarina
A Ana caminha na praia da Armação da Piedade, em Governador Celso Ramos, litoral de Santa Catarina
A estrada principal de acesso à cidade entra pelo norte da península. Foi por aí que chegamos, indo diretamente para a sede do município. Depois, sem muita pressa, fomos fazendo o contorno da península no sentido horário, até chegarmos à BR-101 novamente, para seguir nossa viagem até Bombinhas.
Praia da Armação da Piedade, a primeira a ser ocupada no município de Governador Celso Ramos, litoral de Santa Catarina
A igreja e a praia da Armação de Piedade, em Governador Celso Ramos, litoral de Santa Catarina
A sede do município fica na praia ou enseada de Ganchos. Baía bem tranquila, muito mais frequentada por barcos e canoas do que por banhistas. O gostoso aqui não é caminhar na areia e dar um mergulho, mas andar pela orla da baía e admirar o cenário pitoresco à nossa volta, barcos na baía, restaurantes na calçada, pessoas conversando, se divertindo e vendo a vida passar na sombra das árvores.
Capela Nossa Senhora da Piedade, construída em 1745, a mais antiga do estado, em Governador Celso Ramos, litoral de Santa Catarina
Capela Nossa Senhora da Piedade, construída em 1745, a mais antiga do estado, em Governador Celso Ramos, litoral de Santa Catarina
Tiramos nossa fotos por aí, respiramos fundo o ar para nos inspirar e, de carro, começamos a explorar as mais de 20 praias da península. Tem as mais isoladas e as mais movimentadas, as grandes e as pequenas, as de mar tranquilo e de mar revolto. Enfim, para todo gosto. Nós fomos primeiro para a maior e mais movimentada delas, a praia de Palmas, do outro lado do morro. É uma espécie de nova Jurerê Internacional, bairro planejado com muitos condomínios, terra de gente bacana. Visto lá do alto, é uma belíssima visão, praia cumprida e mar bem azul. Fico só imaginando como ela vai estar daqui a alguns anos, já que as construções novas não param.
Muitas garças na praia da Costeira, em Governador Celso Ramos, litoral de Santa Catarina
Muitas garças na praia da Costeira, em Governador Celso Ramos, litoral de Santa Catarina
Daí seguimos para o sul, passando por várias praias menores até chegar à Armação da Piedade. Aqui nasceu a cidade e, como o próprio nome indica, “Armação”, o motivo era a exploração das baleias. Sem nenhuma piedade, apesar de estar no nome. A colonização foi açoriana, como em boa parte do litoral catarinense. Mas foi aqui que eles chegaram primeiro e por isso foi nessa praia que foi erigida a primeira igreja do estado. Quase com o pé na areia, ela é simples e bela, um colírio para os olhos. No ano que vem completa 270 anos!
Praia da Fazenda da Armação, em Governador Celso Ramos, litoral de Santa Catarina
Chegando à praia do Antenor, em Governador Celso Ramos, litoral de Santa Catarina
Mais praias pequenas no caminho, onde víamos mais garças do que pessoas, até chegar à praia do Antenor, uma pequena e tranquila enseada escondida no meio da vegetação. Para quem está acostumado com o litoral de São Paulo, até parece até alguma praia de Ubatuba! Do alto da estrada, vendo um restaurante na ponta da praia, foi onde decidimos almoçar.
Restaurante na praia do Antenor, em Governador Celso Ramos, litoral de Santa Catarina
Escunas trazem turistas de Canasvieiras, em Florianópolis, para a fortaleza de Anhatomirim e para a praia do Antenor, em Governador Celso Ramos, litoral de Santa Catarina
Tudo estava bem tranquilo até que uma escuna cheia de turistas chegou à praia. Vem de Canasvieiras em passeio que passa pela histórica fortaleza de Anhatomirim, aqui do lado, e almoça por aqui. Nossa tranquilidade acabou, mas a praia continuava linda. Quando foi dado o toque de recolher e todos voltaram aos barcos, a tranquilidade voltou a reinar. Mas também já era a nossa hora de retomarmos nossa viagem. Uma outra península, a de Bombinhas, também com muitas praias e segredos, nos espera!
Da praia do Antenor, em Governador Celso Ramos, litoral de Santa Catarina, é possível ver, ao longe, os prédios da Av. Beira-mar, no centro de Florianópolis
Impressionados com a amplitude e formações dos salões da Caverna de Lanquin, na região de Semuc Champey, na Guatemala
Saindo de Semuc Champey de volta à Lanquín, passamos por um simpático hotel bem no meio da mata, o El Zapote. Não poderia haver melhor lugar para um lanche e uma cerveja, depois das horas passadas caminhando e nadando em Semuc Champey. Além da boa comida e cerveja gelada, ali conhecemos o Jairo, um dos donos do lugar, muito simpático e interessado no Brasil, na nossa viagem e, pasmem, em Curitiba! Isso porque ele gosta de ecologia e andou lendo umas reportagens em que a capital paranaense é citada como cidade ecológica
Pausa para cervejinha na Pousada El Zapote, próxima à Semuc Champey, na Guatemala
Ficamos conversando um bom tempo e ele até gravou um vídeo do Soy Loco, em espanhol e também na língua indígena local, que em breve a Ana vai postar. A empatia foi tão grande que ele até resolveu nos acompanhar até Lanquín e à sua famosa caverna de morcegos.
Parada para lanche na simpática pousada El Zapote, próxima à Semuc Champey, na Guatemala
Essa caverna já é explorada turisticamente faz tempo e até colocaram uma iluminação nos primeiros trezentos metros. Mal precisamos de lanternas. Ela segue bem à frente disso e, até hoje, ainda não se descobriu o seu fim. Mas para observar seus incríveis salões e as enormes formações, nem é preciso ir além da parte iluminada. Estalactites, estalagmites e enormes colunas adornam a caverna por todos os lados. A iluminação tira um pouco daquela áurea de mistério das cavernas mas, ao mesmo tempo, facilita bastante a visualização de toda a grandiosidade de seus salões.
Caminhando com o Jairo na Caverna de Lanquin, na região de Semuc Champey, na Guatemala
O Jairo, bem conhecedor das lendas mayas, foi nos contando vários causos durante a nossa caminhada. Dentro da caverna tem até um altar maya, ainda bastante utilizado pelos sacerdotes dessa cultura milenar. Os mayas vivem um ressurgimento da sua cultura, atualmente. Talvez seja essa história de 2012 e do tal fim do ciclo no calendário. O Jairo nos contou como eles podem se locomover rapidamente pela floresta, realizar trabalhos apenas com a força da mente e também se comunicar com os animais. Mas apenas aqueles que não foram batizados na fé católica. O batismo os priva de todo esse poder...
Observando uma gigantesca coluna na Caverna de Lanquin, na região de Semuc Champey, na Guatemala
A Ana estava muito interessada nessas histórias, mas eu me interessava mais era nos morcegos que passavam por nós constantemente. Fomos visitar a caverna estrategicamente no horário da saída deles para se alimentar, no início da noite. Seriam mais de dois milhões de morcegos na caverna, segundo algumas estimativas. A gente ia entrando e eles saindo, ainda meio timidamente, importunados pela luz acesa que os deixa meio confusos sobre se já é noite ou não. Por isso, todos os dias, as luzes são apagadas às seis da tarde, para que eles possam sair tranquilos!
Impressionados com a amplitude e formações dos salões da Caverna de Lanquin, na região de Semuc Champey, na Guatemala
Nessa exata hora, já estávamos de volta na boca da caverna, esperando pelo espetáculo diário da saída deles. Poucas pessoas simpatizam com esses animais. No nosso imaginário, associamos eles à sangue, aos vampiros, ao escuro e ao medo. Nada de bom! Na verdade, são dezenas de espécies de morcegos e apenas uma minoria se alimenta de sangue. A maioria prefere frutas e insetos. Imagina quantos insetos esses dois milhões de morcegos não comem por noite? Olha só o bem que eles fazem!
Junto com o Jairo, observando as belezas da Caverna de Lanquin, na região de Semuc Champey, na Guatemala
Mais incrível ainda é a classe deles para voar e se desviar de obstáculos. Tudo no escuro, com ajuda do radar que possuem. Só assim para ser capaz de voar numa caverna, cheia de curvas, buracos e estalactites bem no meio do caminho. Isso quando não tem um chato de um turista andando por ali também. Mais um obstáculo para os morcegos. Hoje, por exemplo, dezenas deles se desviavam no último instante do meu rosto. No começo, fiquei meio receoso, mas depois, só podia admirar a perícia deles.
Milhares de morcegos saem da Caverna de Lanquin, na região de Semuc Champey, na Guatemala, para se alimentar durante a noite
Agora, na boca da caverna, quase breu total, só podíamos ouvir o zunido de suas asas passando ao lado dos nossos ouvidos. Era acender as lanternas e podíamos vê-los passando por nós, às dezenas. Ou então, todos no escuro novamente, tirávamos fotos com flash, tentando captar aquele momento mágico. Pois é, um dia que começou com a mágica Semuc Champey e passou pela magia dos mayas só podia terminar assim, no escuro, cercados por centenas desses pequenos a incríveis mamíferos voadores. Puro encanto!
Posando na escuridão entre centenas de morcegos que saem da Caverna de Lanquin, na região de Semuc Champey, na Guatemala, para se alimentar durante a noite
A história de Santo Antônio de Lisboa, distrito tradicional de Florianópolis, Santa Catarina
Quando voltávamos de nossas explorações das praias do norte da ilha, na tarde do dia 19 (post aqui), já a meio caminho de casa no centro, paramos em uma das principais atrações turísticas de Florianópolis: Santo Antônio de Lisboa. Localizado a 17 km ao norte do centro, de frente para o estreito que separa a ilha do continente, Santo Antônio é o mais tradicional e antigo distrito da Ilha de Santa Catarina, centro gastronômico e oásis de tranquilidade na capital catarinense.
Santo Antônio de LIsboa está a 17 quilômetros ao norte do centro de Florianópolis, na Ilha de Santa Catarina. Nós paramos aí no dia 19, quando voltávamos das praias do norte da ilha
A origem de Santo Antônio de Lisboa, assim como de outras freguesias tradicionais da cidade, está ligada ao povoamento da ilha por açorianos a partir de meados do séc. XVIII. Santo Antônio é o mais antigo desses assentamentos e seu principal marco arquitetônico, a Igreja de Nossa Senhora das Necessidades teve o início de sua construção em 1750.
Igreja de feições açorianas de Santo Antônio de Lisboa, distrito ao norte de Florianópolis, Santa Catarina
Interior da igreja em Santo Antônio de Lisboa. região norte de Florianópolis, Santa Catarina
Já bem mais tarde chegaram ondas imigratórias de diversos países europeus, além dos escravos africanos. Mas são mesmo as raízes açorianas as que deixaram maiores marcas na arquitetura, comida e modo de vida simples de seus moradores. Com a vocação turística sendo desenvolvida já há meio século, várias casas e a própria igreja foram reformadas e se encontram em muito bom estado hoje, fazendo a festa dos visitantes que passeiam em suas tranquilas ruas de paralelepípedo.
O charme de Santo Antônio de Lisboa, mais antigo distrito de Florianópolis, Santa Catarina
Homenagem à primeira rua calçada do estado, em Santo Antônio de Lisboa, norte de Florianópolis, Santa Catarina
Alias, a primeira rua calçada, não só da ilha, mas de todo o estado, está em Santo Antônio de Lisboa. Foi um dos preparativos para a mais ilustre visita que o distrito recebeu. Foi em 1845, quando estiveram aqui o imperador Dom Pedro II e sua esposa, Teresa Cristina. Assim como os visitantes de hoje, o imperador se encantou com a pequena vila e deixou um vultuoso donativo para a diocese. Naquela época, era aqui que os navios estrangeiros aportavam na ilha e por isso a alfândega era localizada em santo Antônio de Lisboa.
Detalhe da charmosa arquitetura de Santo Antônio de Lisboa, distrito tradicional de Florianópolis, Santa Catarina
Detalhe da charmosa arquitetura de Santo Antônio de Lisboa, distrito tradicional de Florianópolis, Santa Catarina
De frente ao estreito, as águas são bem calmas, mas a praia estreita mal é frequentada por banhistas. Os visitantes preferem caminhar pela orla calçada e sombreada e apenas admirar a vista dos barcos ancorados, do mar de dentro, do continente no outro lado do estreito e das pontes que dão acesso à ilha, na direção sul.
Casarão em Santo Antônio de Lisboa, bairro tradicional de Florianópolis, Santa Catarina
Santo Antônio de Lisboa, distrito de Florianópolis, Santa Catarina
Nessa simpática orla se instalaram diversos restaurantes e vir aqui almoçar ou jantar desfrutando dessa linda vista virou programa tradicional entre habitantes de Florianópolis e visitantes da cidade. É o complemento perfeito do programa que se inicia com um passeio pelas ruas históricas, uma visita à igreja, ao museu e às lojas de artesanato e termina com uma refeição a céu aberto quase na beira da água.
A orla de Santo Antônio de Lisboa, bairro de Florianópolis, Santa Catarina
Restaurante na orla de Santo Antônio de Lisboa, em Florianópolis, Santa Catarina
Foi o que nós fizemos no dia 19, embora de forma inesperada. Na verdade, só queríamos comer algum petisco, pois já tínhamos jantar marcado para mais tarde. Mas, eis que por alguma daquelas grandes coincidências que sempre enriquecem as viagens, quando fomos dar uma olhada em um dos restaurantes, lá estavam o Delmar e sua esposa Marilia. Para quem não se lembra, o Delmar é um antigo chefe da Ana, lá de Porto Alegre, e que nos recebeu em seu apartamento na capital gaúcha três semanas atrás, para um delicioso churrasco (post aqui). Fizemos muita festa e foi impossível negar o convite de sentarmos em sua mesa. Daí para comermos mais do que havia sido planejado, foi um pulinho. Mas valeu cada mordida, com certeza!
A Fiona na praça principal de Santo Antônio de Lisboa, litoral norte de Florianópolis, Santa Catarina
Por uma feliz coincidência, encontro com o Delmar e a Marilia em Santo Antônio de Lisboa Florianópolis, Santa Catarina
O jantar para o qual ainda guardamos um lugar no estômago foi uma história curiosa. Como já disse, nós estamos hospedados no apartamento do tio Walter, a um quarteirão da Av. Beira-mar norte. Pois bem, lá na garagem do condomínio, a Fiona foi reconhecida por um leitor nosso. Ele entrou em contato conosco pelo facebook e nos convidou para jantar. Convite irrecusável, diante de tanta amabilidade. Então, depois de Santo Antônio de Lisboa, poucas horas mais tarde, lá estávamos nós jantando com o Francisco e a Ângela, amantes de viagens e nossos mais novos amigos florianopolitanos. Foi joia!
Convidados para jantar pelo Francisco e a Ângela, no mesmo prédio onde estamos hospedados em Florianópolis (casa do tio Walter), Santa Catarina
Convidados para jantar pelo Francisco e a Ângela, no mesmo prédio onde estamos hospedados em Florianópolis (casa do tio Walter), Santa Catarina
Falando em jantar, nossos mais costumeiros companheiros de jantar durante nossa temporada na cidade foram , sem dúvida, o Tio Walter e a Sílvia, sua namorada. Seja no apartamento do tio Walter, onde ele mesmo era o cozinheiro ou apenas pedia alguma pizza, seja no shopping Beira-mar, seja em algum restaurante de Jurerê Internacional, a companhia e a conversa sempre foram agradáveis e rendiam muitas risadas. Isso só fortalecia nosso sentimento de estarmos em casa, ainda mais que o tio Walter é família, irmão mais novo da mãe da Ana. Aliás, foi esse sentimento de lar, doce lar que foi nos fazendo esticar nossa estadia nessa cidade que adoramos tanto.
Jantar com o tio Waltinho e a Silvia, em Florianópolis, Santa Catarina
Macarronada na casa do tio Waltinho, em Florianópolis, Santa Catarina
A outra exceção a esta regra de “jantar em família” foi no dia que fomos encontrar outra amiga da Ana, também dos tempos de Porto Alegre. Ela e o marido Jeff nos receberam na casa deles na região do Cacupé, pertinho de Santo Antônio de Lisboa. Foi um delicioso churrasco com direito a muita cerveja gelada e também a companhia do amigo Marcio e do Joaquim, ainda dentro da barriga da mãe, grávida de 5 meses. Realmente, com família e tantos amigos em uma cidade onde já estivemos tantas vezes antes, a sensação é a de se estar em casa e não viajando.
Encontro com a Vivi, Jeff e Marcio, em Florianópolis, Santa Catarina
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