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Para quem já viajou na Europa de carro, sabe como é fácil passar de um...
Depois de deixarmos a inesquecível ilha de Amantani hoje de manhã, ruma...
Depois do intenso dia de ontem, quando demos a volta na Ilha de Pascoa nu...
Pedro Junqueira (10/06)
Numa foto no Pico do Gaviao, com todos presentes, levei um susto e me vi ...
Ricardo Acras (10/06)
Muito legal este post, interessante ver como vocês estão sendo "embrulh...
Paulinha Ribas (09/06)
pois é Ro, meu tempo tá apertando e as x não consigo abrir diariamente...
Rodrigo (09/06)
Enquanto estamos por perto bem que vcs poderiam se encontrar com a gente ...
Rodrigo (09/06)
Oi Julio Há quanto tempo!!! Vc nunca será excluído de lista alguma! E...
Remando ao lado de uma grande geleira em Brown Bluff, na Antártida
Em 1520 o navegador português Fernão de Magalhães cruzou o estreito que hoje leva seu nome e que liga o Oceano Atlântico ao Pacífico, no extremo sul da América do Sul. Essa passagem fica entre o continente e a Terra do Fogo, uma grande ilha ao sul da América. Por quase um século ninguém sabia o que havia ao sul da Terra do Fogo e nem mesmo se ela era apenas uma ilha ou se o continente continuava mais abaixo. Até que, em 1616, o navegador holandês Willem Schouten liderou uma expedição ao sul da Terra do Fogo, o primeiro a passar pelo famoso Cabo Horn, ponto extremo das Américas. Daí para a Antártida eram apenas outros meros 800 km. Para quem já circunavegava o mundo naquela época, não parece muito. Mas foram precisos ainda outros 2 séculos até que alguém chegasse ao último continente.
Pinguins sobre um iceberg em Brown Bluff, na Antártida
Remando em frente ao cenário imponente de Brown Bluff, na Antártida continental
Quem chegou mais perto de descobrir a Antártida antes disso foi um dos maiores navegadores de todos os tempos, o inglês James Cook. Em 1773, com dois navios, ele deu toda a volta na Antártida, chegando a cruzar por três vezes o Círculo Polar e a se aproximar a menos de 120 km do continente. Mas o tempo rigoroso e os icebergs no mar o impediram de ir mais ao sul e ele não chegou a ver a Antártida. O continente polar continuaria a ser apenas uma lenda até o séc. XIX.
A Ana rema em Brown Bluff, na Antártida
Caiaque em Brown Bluff, na Antártida
Foi em 1819 que as ilhas do arquipélago de South Shetland, já ao lado da península antártica, foram descobertas. Finalmente, um ano mais tarde, em um intervalo de poucos dias, navegantes de duas nações, Rússia e Inglaterra, avistaram as terras do próprio continente. Estava descoberta a Antártida! O primeiro teria sido o capitão russo Von Bellingshausen, em Fevereiro de 1820, 300 anos depois da histórica viagem de Fernão de Magalhães.
O cenário imponente de Brown Bluff, na Antártida continental
Gelo e pedra se misturam em Brown Bluff, na Antártida
Remando ao lado de uma grande geleira em Brown Bluff, na Antártida
E hoje, outros 193 anos mais tarde, foi a nossa vez de avistar as terras do continente antártico pela primeira vez. Depois de muito navegar e desembarcar pelas ilhas de South Shetland, após uma maravilhoso e inesquecível caiaque em Kinnes Cove, finalmente ali estava, diante dos nossos olhos, os penhascos gelados que marcam a ponta da península antártica. Bastou ver o porte dessas enormes falésias e também das geleiras ao seu redor para termos certeza: aquilo não era mais uma ilha, estávamos diante de um continente!
Nosso roteiro e pontos de parada na região da Península Antártica
Nosso grupo faz caiaque ao lado de uma grande parede de gelo em Brown Bluff, na Antártida
A emoção tomou conta dos passageiros do Sea Spirit, mas nós, do pequeno grupo do caiaque, não iríamos diretamente para o tão sonhado desembarque em terras antárticas. Não! Iríamos aproveitar a oportunidade para mais uma sessão de caiaque, a última dessa nossa viagem pelos mares e terras do sul. Tínhamos de segurar nossas ansiedade por mais uma hora ou duas.
Fazendo caiaque ao lado de uma imponente parede de gelo em Brown Bluff, na Antártida
Caiaque em Brown Bluff, na Antártida continental
Remando ao lado das peredes monumentais de gelo de uma geleira em Brown Bluff, na Antártida
Há poucas centenas de metros da terra firme, fomos remar ao lado das imponentes paredes de gelo de uma gigantesca geleira que nasce nas terras altas da península antártica. A visão era de perder o fôlego. O poder que emana dessas paredes de gelo nos faz sentir minúsculas formigas em um universo infinito. Ainda mais impressionante que sua altura era sua extensão: literalmente a perder de vista!
Fazendo caiaque ao lado de uma imponente parede de gelo em Brown Bluff, na Antártida
Caverna de gelo em geleira em Brown Bluff, na Antártida
Nós remamos ao longo da parede, por quase uma hora. Testando os limites dados pela nossa guia, a gente se aproximava mais ou menos da massa de gelo. Quanto mais perto, mais noção tínhamos de sua imponência ou altura. Talvez 40, 50 metros de altura, em média, com algumas pontas indo bem além disso. Em alguns lugares, cavernas de gelo se formavam em sua base e a vontade era se aproximar ainda mais. Acho que era o espírito explorador de Magalhães, Drake e Cook que ainda corre em nossas veias...
Remando ao lado das peredes monumentais de gelo de uma geleira em Brown Bluff, na Antártida
Caverna de gelo em geleira em Brown Bluff, na Antártida
Uma dessas cavernas era tão perfeita e tão ampla que exalava um falso senso de segurança. Eu quase conseguia ver uma placa ali com os dizeres: “Seja bem vindo!”. Eu até brinquei com a Val sobre a tal placa. Ela riu, quase se convenceu, mas a responsabilidade falou mais alto e nós não fomos lá dentro. Mas a imagem das ondas batendo em seu interior todo de gelo, quase uma caverna de cristal, não sairão mais da minha mente.
Uma foca tenta localizar pinguins na região de Brown Bluff, na Antártida
Com muito estilo, pinguins adelie se atiram no mar na região de Brown Bluff, na Antártida
E assim foi nosso último caiaque aqui no sul, dessa vez no próprio continente. Certamente, o mais imponente de todos. Dessa vez, a beleza e a emoção estavam apenas no gelo e não nos animais que vivem por aqui. Em compensação, para os outros passageiros que seguiram diretamente para terra firme nos zodiacs, a história foi outra. Passaram longe dessa parede gigantesca de gelo, mas ao lado de pequenos icebergs e blocos de gelo. E ali testemunharam parte do drama diário de focas e pinguins. Uma grande foca caçava as pequenas aves e, com sua cabeça fora da água, tentava localizá-los encima do gelo flutuante. Já os pinguins, precavidos, pensavam duas vezes antes de se atirar no mar. E quando o faziam, era em grande estilo: pulos de ponta, ao estilo dos campeões olímpicos! Ou então, como flechas, voam para fora d’água aproveitando a grande velocidade com que conseguem nadar e, assim atingir os andares mais altos do pequeno iceberg onde já descansam, seguros, seus companheiros. Este show, perdemos. Mas as fotos contam bem a história.
Com muito estilo, pinguins adelie se atiram no mar na região de Brown Bluff, na Antártida (foto de Steve Denver)
Pinguins adelie saltam da água para o alto de icebergs na região de Brown Bluff, na Antártida
Com a Amelie em almoço em restaurante de Bogotá, na Colômbia
Mais uma vez São Pedro cooperou com o site (mas não conosco) e enviou um dia chuvoso, próprio para se ficar em casa sem dor na consciência. Conseguimos fazer mais alguns posts e enviar mais fotos, mas muito trabalho ainda resta para colocar o site em dia. Com paciência, chegamos lá...
Almoço com a Joana, Douglas, Amelie e Clara em Bogotá, na Colômbia
Conhecemos hoje a simpática Amelie. No início meio tímida, logo ficou muito amiga da Ana. Taí a razão de eu ter feito mais posts do que ela, hehehe. O nome dela vem do belo filme da Amelie Poulan, filme que também nos inspirou na nossa "valsa de casamento". Com uma coincidência dessa, só podia acabar em amizade, hehehe!
O Douglas, Amelie e Clara durante almoço em Bogotá, na Colômbia
Nossa única saída do dia foi para almoçar. Juntos com a simpaticíssima família que nos acolhe e também com o Angelo e a Joana. O Angelo é o dono da empresa de transporte que trabalha com o The Hall Effect. Ficamos amigos na nossa longa viagem de Cali até Girardot. Eles também estão nos tratando muito bem e já combinamos que amanhã vão nos levar para passear na cidade. Primeiro, ao Museu del Oro e depois ao Cerro Monserrate. Com ou sem chuva, porque dois dias em casa, aí já é demais!
Aproveitando a vista no alto da Serra das Broas em Carrancas - MG
Numa vida normal, quando fazemos uma bela viagem de final de semana ou aquela tão esperada viagem de 15-20 dias depois de um ano ralando, as memórias deste programa ficam vivas em nossas mentes por muito tempo, para não dizer para sempre. O que foge da nossa rotina nos marca, de alguma maneira, de forma mais intensa. Principalmente quando são boas memórias, de lugares lindos, pessoas interessantes, comidas exóticas.
Voltamos para nossa vidinha besta do dia à dia, mas aquelas memórias estão lá, fortes, presentes. É possível revivê-las e buscar de novo pelo menos parte do jubilo daqueles momentos ainda tão reais. Nem é preciso muito esforço, só um pouco de concentração.
Dia maravilhoso, céu azul em Carrancas - MG
Pois bem, isso ocorre em uma "vida normal". A nossa vida não tem sido muito "normal" ultimamente. Viajar sem parar, sempre para lugares interessantes e com tempo para curtir esses lugares é muito legal. Inegável! Vivemos intensamente praticamente todos os dias, o dia todo. Como já disse, uma maravilha. Mas, essa "rotina" (ou a falta de uma) tem seus side effects.
Cachoeira em rio do Complexo da Zilda em Carrancas - MG
Tantas memórias intensas acabam se sobrepondo. O que parece algo inesquecível um dia, que vai marcar por toda a vida, no dia seguinte se torna uma vaga lembrança, algo muito bom mas que já aconteceu há muito tempo, em algum lugar onde já não lembramos o nome. Talvez seja a idade, mas venho experimentando essa sensação por toda a viagem. Não é algo que goste. Afinal, cada boa experiência que passo, gostaria de guardar com riqueza de detalhes para sempre.
Pôr-do-sol no Mirante da Serra em Carrancas - MG
Não tem sido o caso. Triste. Tenho de fazer força para lembrar como foi o dia maravilhoso de 10 dias atrás.
O paliativo para isso são os blogs, com seus textos e fotos. É muito legal para mim ter tudo isso arquivado, de tão fácil acesso. Viva a internet. E, mais legal para mim do que ler o meu blog para reviver minha viagem é ler o blog da Ana. Aí, passo a ser espectador da viagem que participo e compreendê-la com outros olhos, ver coisas que não vi, ler coisas que não escrevi.
Sinceramente? Cada vez mais gosto dessa nossa idéia de ter dois blogs. Dá trabalho mas vale a pena.
Se equilibrando no alto da rocha em Carrancas - MG
A longa estrada em direção à Fiambalá e ao Paso san Francisco, na Argentina
Bem em frente a Corrientes, do outro lado do rio Paraná, está a cidade de Resistência, já na província do Chaco. Enquanto a primeira é conhecida nacionalmente como a “Cidade dos Murais”, Resistencia é conhecida como a “Cidade das Esculturas”. São mais de 300 delas, espalhadas pelas ruas e praças da cidade. Desde as clássicas de heróis nacionais sobre seus cavalos, até as mais modernas e abstratas. Tem para todo gosto. A mais simpática delas, talvez, seja a que homenageia uma das personagens mais queridas da cidade, o cão Fernando. Esse simpático vira-lata viveu no centro da cidade na década de 60 e, com sua alegria contagiante e irremediável boemia, conquistou a simpatia de todos. Quando morreu, lojas e restaurantes fecharam suas portas em sinal de respeito e foi até mesmo organizado um cortejo fúnebre. Fernando foi imortalizado com uma estátua e tem sempre gente por lá tirando fotos!
Estátua do cão Fernando, uma lenda na cidade de Resistencia, na Argentina (foto da internet)
Bom, deixamos Resistencia para trás e seguimos em frente, na direção oeste, rumo ao poente, atravessando as intermináveis retas do Chaco. Nós já conhecíamos o Chaco do outro lado da fronteira, no Paraguai, região de clima e vegetação hostil à ocupação humana. Foi uma área de colonização tardia na Argentina, pois os nativos também eram bem aguerridos. Aliás, daí vem o nome “Resistencia”: a cidade teve de resistir a diversos ataques indígenas durante as primeiras décadas de sua fundação. Enfim, foram horas e horas de estrada até chegar a Santiago del Estero, a mais antiga e considerada a “mãe das cidades argentinas”.
Cruzando o centro-norte da Argentina, do Chaco aos Andes, de Resistência a Fiambalá, passando por Santiago del Estero, a primeira cidade do país
Na verdade, outros povoados foram fundados antes de Santiago, nas primeiras décadas do séc. XVI, mas nenhum deles resistiu muito tempo. A própria Buenos Aires, fundada na década de 30, não resistiu aos ataques indígenas. Seus primeiros habitantes acharam por bem empacotar tudo, subir o rio Paraná, enveredar pelas águas do rio Paraguai e, finalmente, se estabelecer onde é hoje a cidade de Assunción. Pelos próximos 2 séculos, a atual capital paraguaia seria o maior e mais importante centro urbano espanhol desse lado da América. Já a cidade de Santiago del Estero, fundada em 1553, resistiu bem às dificuldades iniciais, prosperou e é mesmo o mais antigo povoamento em solo argentino. Além disso, foi daí que saíram expedições que fundaram algumas das mais tradicionais cidades hermanas de hoje, como Córdoba, Salta e Tucumán. Por isso o apelido de “mãe de todas as cidades”.
Visão aérea da praça da Catedral de Santiago del Estero, a mais antiga cidade da Argentina (foto da internet)
Tantas horas de enfadonhas estradas serviram para refletir um pouco sobre os primeiros séculos de história desse país pelo qual estamos viajando, nosso eterno e simpático rival nos campos de futebol. Algumas décadas depois do descobrimento do Novo Continente por Colombo, os espanhóis já exploravam as suas duas costas, ávidos em busca de metais preciosos. Do lado do Pacífico, deram de cara com o Império Inca e trataram logo de se apoderar de suas grandes riquezas. Do lado de cá, encontraram uma enorme boca de rio, o caminho mais fácil de entrar continente adentro em busca dos almejados tesouros. Tão confidentes estavam no que iriam encontrar, e também num golpe de marketing para atrair mais europeus para cá, que não pensaram duas vezes em batizar o grande rio de “Rio de La Plata” e as novas terras de “Argentina”, que vem da palavra latina “argentum”, que quer dizer “prata”.
Região desértica no caminho para Fiambalá, na Argentina
Pois é, não importa a propaganda, não acharam nada por aqui. Aqui não, mas lá na Bolívia, em Potosi, acharam uma montanha inteira de prata (veja aqui o nosso post de quando passamos por lá!). Rapidamente, a sua exploração passou a ser a maior atividade econômica do planeta! Por quase dois séculos, foi a prata extraída a mais de 5 mil metros de altitude, nessa remota montanha perdida no meio dos altiplanos bolivianos que sustentou a economia de todo o império colonial espanhol e, em certa medida, também dos outros países europeus. Dezenas de milhares de pessoas eram necessárias para trabalhar toda essa riqueza e, para sustentar essas pessoas, era preciso comida, roupas, meios de transporte (mulas) e muito mais. E nada disso podia ser produzido nas alturas de Potosi. Por isso, cidades foram criadas e rotas se estabeleceram no noroeste da Argentina, com clima e condições muito mais amenas do que no altiplano. Cidades como Córdoba e Tucumán prosperaram, seus produtos seguindo diretamente para a Bolívia e também para Lima, de onde eram exportados para a Europa.
Apenas ao final da época colonial foi criado o Vice-reinado do Rio da Prata. Antes disso, todo o comércio exterior era direcionado a Lima, no Peru
Pois é, a rica economia agrícola que se desenvolveu, inicialmente para sustentar Potosi, ganhou força para exportar para a Europa também. Uma nova e importante fonte de renda para a metrópole, que ganhava com a taxação desse comércio. Para facilitar o controle, a Espanha determinou que todos os produtos deveriam ser exportados a partir de Lima, sede do vice-reinado que administrava quase toda a América do Sul. Com isso, algo produzido aqui em Córdoba tinha de ser levado através de milhares de quilômetros através de Potosi e da Cordilheira dos Andes, ao invés de seguir para a vizinha Buenos Aires e ser embarcada de lá. Por isso, cidades na rota, como Córdoba e Tucumán foram, por 200 anos, maiores e mais influentes que Buenos Aires, um excelente porto, mas que era proibido de exportar. Claro que muita gente percebeu isso e Buenos Aires virou o paraíso dos contrabandistas. Percebendo o grande filão, os portugueses do Brasil até fundaram a cidade de Colonia do Sacramento, na margem norte do Rio da Prata, apenas para abastecer e comercializar com os contrabandistas portenhos. Mas a Espanha insistiu com sua política centralizadora e foi apenas em meados do séc XVIII, quando Potosi finalmente perdeu sua força, que a metrópole resolveu criar o Vice-reinado do Rio da Prata, com sede em Buenos Aires. Estava preocupada com a evasão de divisas e a força que Portugal vinha adquirindo na região do Prata. Finalmente, nossos hermanos puderam entrar na economia formal, regularizar seus negócios e deixar de ser um rincão perdido e abandonado da América Espanhola.
A longa estrada em direção à Fiambalá e ao Paso san Francisco, na Argentina
Chega de história, de volta à estrada. Chegamos na mãe de todas as cidades já de noite, enfrentamos o trânsito caótico do centro, achamos um hotel e fomos comer no delicioso Mia Mama, restaurante na praça central. Apesar de tão antiga, a cidade foi destruída por um violento terremoto em 1817. Portanto, os prédios mais antigos, como a catedral, são posteriores a essa data. Pela manhã, caminhamos em uma praça, fizemos compras de víveres e seguimos viagem, agora para a nossa conhecida Fiambalá. Pouco mais de dois anos atrás, já tínhamos passado por lá, no nosso caminho para o Paso San Francisco, sobre os Andes. Naquela época, ele estava fechado pela neve e tivemos de voltar. Como somos teimosos, vamos tentar de novo!
Nossa pousada perto das deliciosas termas de Fiambalá, na Argentina
O caminho até Fiambalá é lindo, assim como são deliciosas as termas da cidade. Já conhecedores do terreno, seguimos diretamente para lá, mas dessa vez não demos a sorte de encontrar um quarto livre dentro das próprias termas, como da outra vez. Mas não faz mal, ficamos ali do lado, compramos uma garrafa de vinho e fomos matar saudades das piscinas no meio de montanhas de pedra com temperaturas perto de 40 graus. Uma delícia! Ficamos pulando de piscina em piscina, algumas mais quentes e outras nem tanto, por horas a fio, embalados pelo vinho argentino. Tudo pronto para, finalmente, com dois anos de atraso, cruzarmos o famoso San Francisco. Quanto às fotos aqui das termas de Fiambalá, também se perderam no roubo que sofreríamos alguns dias depois, em La Serena, no Chile. Mas não tem importância, temos as belas fotos da vez passada, e o lugar continua o mesmo. Para quem quiser conferir, essas fotos estão aqui. Melhor ainda: as fotos do dia seguinte, da nossa passagem pelo Paso San Francisco, uma das mais fantásticas paisagens que conhecemos nesses 1000dias, estas sobreviveram. Assunto para o próximo post!
A incrível cor da Laguna Verde, no lado chileno do Paso San Francisco, passagem andina entre Argentina e Chile
O magnífico vulcão Osorno e o lago Llanquihue iluminados pela luz de fim de tarde, em Puerto Varas, no sul do Chile
Nossa balsa vinda da Ilha de Chiloé nos deixou no porto de Pargua de onde seguimos diretamente para Puerto Montt. Com 180 mil habitantes, Puerto Montt é disparado o maior centro urbano dessa região do Chile e quem visita Chiloé ou a Região dos Lagos certamente passará algum tempo por aqui. Mas não muito, já que ela é apenas um grande porto e hub de transportes locais. Para nós que viemos com nosso próprio meio de locomoção, a Fiona, essa passagem pôde ser bem rápida. Uns vintes minutos para atravessar a cidade quando chegamos da Carretera Austral e outros 15 minutos hoje, quando seguimos diretamente para a muito mais interessante Puerto Varas.
Apenas 20 quilômetros separam as duas cidades, mas há um mundo de diferenças entre elas. A começar pelo tamanho, já que a população de Puerto Varas não chega aos 40 mil habitantes. A cidade está às margens do segundo maior lago do Chile, o Llanquihue e é difícil imaginar um cenário mais bonito para uma cidade estar. Isso porque, quase do outro lado do lago está o majestoso vulcão Osorno, com sua forma cônica quase perfeita, cume eternamente coberto de neve e imagem refletida nas águas do lago. Parece um cenário de cinema, um grande outdoor. Nossos olhos não querem acreditar naquela beleza toda, mas sim, é tudo de verdade!
O lago Llanquihue e o vulcão Osorno ao fundo, em Puerto Varas, no sul do Chile
Não por menos, o turismo vem se desenvolvendo muito em todo o entorno do lago, em cidades como Frutillar, Puerto Octay e na própria Puerto Varas. Mas ao contrário de Pucón, tomada pelo turismo de pacote de grandes grupos, Puerto Varas conseguiu se manter mais verdadeira e tranquila, destino predileto de viajantes independentes no sul do país.
O magnífico vulcão Osorno e o lago Llanquihue, em Puerto Varas, no sul do Chile
Nós encontramos lugar em um hostel bem descolado, o Casa Azul, e logo fomos para a orla do lago acompanhar o espetáculo que se desenrolava. O Llanquihue tem 860 km2, mais de 350 metros de profundidade e formato de leque. É mais uma herança das eras glaciais e o estudo de seu contorno e seu leito mostrou que os glaciares chegavam até aqui, permanecendo a área a leste do lago coberta por florestas. Tanta importância teve no estudo sobre o avanço e retrocesso do gelo nessa região que seu nome foi dado à última era glacial na América do Sul, há cerca de 15 mil anos.
A cidade de Puerto Varas, no sul do Chile, às margens do lago Llanquihue
Praia do lago Llanquihue, em Puerto Varas, no sul do Chile
Pois bem, de frente às águas excepcionalmente azuis desse lago, assistimos às últimas luzes do dia iluminar o vulcão Osorno, à nossa frente. Com mais de 2.600 metros de altitude, ele domina completamente o horizonte. Parece saído de um desenho animado, tamanha a perfeição de sua forma e desenho. Ainda mais iluminado pela sol que se punha. Quando finalmente a noite caiu, outro espetáculo: agora era a lua, quase cheia, que iluminava aquela paisagem dos sonhos.
O lago Llanquihue e o vulcão Osorno ao fundo, em Puerto Varas, no sul do Chile
Não poderíamos ter começado melhor nossa exploração dessa que é considerada uma das mais belas regiões do país, a “Região dos Lagos”. Amanhã daremos a volta no Llanquihue, visitando as principais atrações do seu entorno, como Frutillar, Petrohué e o próprio vulcão Osorno. No final da tarde, já seguimos para Pucón, onde vamos encontrar meu primo Haroldo. Infelizmente, vamos perder sua prova de triatlo, a ser disputada durante o dia de amanhã, mas será por um bom motivo. Mas no dia seguinte já estamos combinados de subir juntos outro vulcão, tão famoso como o Osorno, o Villarrica. O mesmo que subimos juntos há 22 anos! Vai ser bem interessante!
Lua quase cheia nos céus de Puerto Varas, no sul do Chile
Bom, para celebrar esse espetáculo que assistimos no final da tarde e desejar boa sorte ao Haroldo na prova de amanhã, encontramos uma deliciosa churrascaria aqui em Puerto Varas. Foi um banquete, como há muito não comíamos. Agora, só falta uma longa e merecida noite de sono e estaremos prontos para os dias intensos que nos esperam aqui na Região dos Lagos!
O céu se pinta de violeta sobre o vulcão Osorno, na incrível imagem de fim de tarde em Puerto Varas, no sul do Chile
Floresta submersa no arquipélago de Anavilhanas, região de Novo Airão - AM
Anavilhanas é o nome do maior arquipélago fluvial do mundo. Como não poderia deixar de ser, está na bacia amazônica, mais precisamente no Rio Negro, na região de Novo Airão. São cerca de 400 ilhas que se estendem por quase 200 km ao longo do rio, formando centenas de canais, lagos e praias. Quer dizer, praias mesmo, só na época da seca. Agora na época do inverno, ou das chuvas, ao invés de praias, temos mesmo é igapós. Muitos igapós...
Camaleão vem nos fazer companhia no café da manhã na Pousada Bela Vista, em Novo Airão - AM
Chegando ao arquipélago de Anavilhanas, região de Novo Airão - AM
Igapós são pequenos canais que se formam na floresta alagada. Na época da seca, ninguém diria que por ali, corre água. Não devem ser confundidos com igarapés ou paranás. Os primeiros são pequenos rios (na escala amazônica!) que nunca secam, pois tem nascente. Os segundos, os paranás, são os grandes canais que ligam os lagos com o rio.
Um dos "paranás" (grandes canais) do arquipélago de Anavilhanas, região de Novo Airão - AM
Floresta submersa no arquipélago de Anavilhanas, região de Novo Airão - AM
As ilhas de Anavilhanas estão bem em frente à Novo Airão. Nos meses de seca, para se ir de lá até a outra margem do rio, contornando as grandes ilhas do arquipélago, são mais de quinze quilômetros. Nos meses de chuva, com a formação dos igapós e paranás, pode-se cortar caminho pelo meio das ilhas e aí, essa distância cai para menos de um terço da distância original! Em compensação, as dezenas de belas praias desaparecem sob um lâmina de água de mais de 5 metros. Não só as praias somem, mas um bom pedaço de vegetação também, incluído aí várias árvores, que "renascem" na seca seguinte. É o ciclo da natureza amazônica.
Atravessando o Rio Negro a caminho do arquipélago de Anavilhanas, região de Novo Airão - AM
Logo depois do café eu e a Ana seguimos de voadeira, junto com nosso guia Vermelho (seu apelido!), para dar uma espiada neste mundo diferente. Quase três horas vagando por um pequeno, mas representativo pedaço do arquipélago. Passamos pelas praias submersas, que só pudemos ver em nossa imaginação, por largos paranás, pela floresta alagada e por igapós que nos levaram aos lagos, um deles o maior de todos em Anavilhanas, o Apacú. Lá dentro, parace um mar, de tão grande. Nele fizemos uma parada para banho, sempre rodeados por barulhentos e curiosos botos Cor de Rosa.
Uma grande tarântula que habita a floresta inundada de Anavilhanas, região de Novo Airão - AM
Um pequeno visitante em nosso barco durante passeio ao arquipélago de Anavilhanas, região de Novo Airão - AM
Falando em bichos, cruzamos também os botos cinzas, que preferem ficar nos rios mais largos. Nos igapós, vimos enormes tarântulas, pequenos morcegos e ouvimos muitos pássaros. Até um pequeno a assustado jacaré apareceu, por um atmo de segundo. Nadar por ali, nem pensar. Mais seguro nos lagos...
Nadando no Apacu, o maior lago do arquipélado de Anavilhanas, região de Novo Airão - AM
A vegetação submersa e parcialmente submersa forma um emaranhado, um labirindo nas águas. O nível da água chega a variar mais de dez metros e a vegetação e a floresta se adaptaram a isso. Vemos grandes árvores, com troncos largos, brotando da água. Copas de árvores ainda cheias de folhas abaixo d'água, ou quase. Logo estarão por inteiro. É essa interação entre água e folhas que pinta o rio de negro, uma substância que a água rouba da vegetação.
Grande árvore na floresta inundade de Anavilhanas, região de Novo Airão - AM
Faltou para nós seguir por mais tempo rio acima, até umas grutas e cachoeira. Demoraria mais e custaria muito, apenas para duas pessoas. Ainda mais acima, chegaríamos às ruínas de Velho Airão. E um pouco mais adiante, ao Parque Nacional do Jaú. Para lá, a grande distância pede que se durma uma noite no parque. Ficamos muito interessados mas, de novo, faltava mais gente para se dividir os custos. Quem sabe quando passarmos por Manaus novamente, no segundo semestre do ano que vem?
A entrada pouco pretensiosa do restaurante Leão da Amazônia, em Novo Airão - AM
Depois do passeio, voltamos para a pousada, despedimo-nos do alemão Klaus, dono da Bela Vista e fomos almoçar no Leão da Amazônia, restaurante flutuante sobre o Rio Negro. Que ótima pedida! Comemos um maravilhoso Pirarucu ao encontro das Águas. É o filé do peixe servido com dois molhos, um claro e um escuro, um mais salgado e outro mais doce. Iguaria preparada pelo chef francês radicado em Novo Airão, o Cristophe. Ontem, tínhamos almoçado no restaurante dele na cidade. Hoje, na beira do rio. Comida requintada e saborosa da melhor qualidade!
O refinado prato "Encontro das Águas", no restaurante Leão da Amazônia, em Novo Airão - AM. Uma delícia!!!
Com o Cristoph, chef do restaurante Leão da Amazônia, em Novo Airão - AM
De lá, ainda saboreando a comida, voltamos para Manaus. Já era noite quando cruzamos de balsa o Rio Negro e voltamos para o Hotel Brasil. Amanhã é dia de ópera no Teatro Amazonas. Na segunda, embarcamos a Fiona. E na terça, rumamos todos juntos para Santarém. Assim esperamos!
O famoso dinossauro da praça de Novo Airão - AM
Dirigindo pelas ruas de Cap-Haitien, a segunda maior cidade do Haiti
A história moderna do Haiti começou em 1492, com a chegada de Cristóvão Colombo. Antes de retornar à Europa, ele fundou na costa norte do futuro país a vila La Navidad, a primeira tentativa de povoamento europeu no Novo Mundo. Apesar do nome tão pacífico, seus habitantes não o eram, matando e escravizando os indígenas e violentando suas mulheres. Os mesmos indígenas que haviam recebido tão amistosamente os exploradores europeus. Um dos principais líderes dos Tainos, os índios que habitavam a ilha, era uma jovem, formosa e inteligente mulher, chamada Anacaona. Uma “cacica”, cuja admiração inicial pelos espanhóis logo deu lugar ao ódio, ao perceber como seu povo era tratado pelos invasores. Anacaona organizou um exército que exterminou os espanhóis de La Navidad, pensando ter-se livrado da ameaça. Doce ilusão! Eles não pararam mais de chegar e a resistência indígena foi se enfraquecendo frente à superioridade militar dos europeus. Por fim, o governador da ilha, após pedir um encontro pacífico com os líderes indígenas, os matou quase a todos em uma emboscada. Anacaona escapou, mas acabou capturada após três meses de buscas. Seus companheiros foram todos condenados à morte, mas ela teve a escolha de sobreviver, se aceitasse tornar-se uma concubina de um dignitário espanhol. Preferiu a honra e seus companheiros e foi enforcada em praça pública.
Dirigindo pelas ruas de Cap-Haitien, a segunda maior cidade do Haiti
Duas gerações mais tarde, os Tainos estavam extintos e eram substituídos por negros africanos. Por algum tempo, os dois povos coexistiram, o suficiente para que os africanos herdassem dos Tainos parte de sua cultura e linguagem. Aparentemente, herdaram também o sofrimento que os índios passaram, pois nos próximos séculos, seriam eles as maiores vítimas da história da ilha. Já os espanhóis, mais interessados em Cuba e no México, abandonaram a parte ocidental da ilha de Hispaniola, o futuro Haiti, e ela foi prontamente ocupada por colonizadores franceses. As fazendas começaram produzindo, cacau, tabaco e algodão, mas foi a chegada do açúcar e café que trouxe riqueza à colônia, rapidamente transformando-a na mais rica de todo o Caribe. Pouco antes da Revolução Francesa, 40% do açúcar e 60% do café consumidos na Europa eram produzidos no Haiti. A produção dessa única colônia superava a soma da produção de todas as colônias inglesas nas Antilhas.
Dirigindo pelas ruas de Cap-Haitien, a segunda maior cidade do Haiti
É claro que toda essa riqueza, produzida por mão de obra escrava, era dividida apenas entre os colonizadores brancos e a nascente classe de mestiços, ou “gens de couleur”, em francês. Eram cerca de 700 mil escravos contra 30 mil pessoas livres, entre brancos e mestiços (filhos de senhores de escravos com suas concubinas negras). As condições de vida dos escravos do Haiti estavam entre as mais duras do Caribe e seu alto número só podia ser mantido por um enorme fluxo de novos escravos vindos da África. Nessa época, o Haiti era o destino de cerca de um terço dos escravos saídos da África. Na ilha, a vida era dura e curta, mal dando tempo para uma “produção local”. A consequência disso é que a população negra da ilha ainda tinha fortes raízes africanas, pois quase todos tinham nascido naquele continente. Por isso, a religião conhecida como “vudu”, uma espécie de mistura de ritos católicos com crenças africanas, se manteve forte na ilha.
Dirigindo pelas ruas de Cap-Haitien, a segunda maior cidade do Haiti
Para controlar uma população vinte vezes mais numerosa, os senhores de escravos eram extremamente violentos, e castigos como a morte no caldeirão de água fervente ou jogar um negro ferido e amarrado sobre insetos famintos eram uma prática comum. A Revolução Francesa e os ideais de igualdade vieram romper o frágil e tenso equilíbrio que existia nessa sociedade e uma revolta sangrenta se seguiu. Por fim, Robespierre aboliu a escravidão em suas colônias e os negros haitianos até mesmo auxiliaram o exército francês contra invasões espanholas e inglesas. Mas veio Napoleão e tudo mudou. O novo monarca tentou reinstituir a escravidão, mas ninguém voltaria a ser escravo sem uma boa luta.
Dirigindo pelas ruas de Cap-Haitien, a segunda maior cidade do Haiti
Na verdade, a luta foi umas das mais sangrentas e bárbaras em toda a história do continente, atrocidades cometidas de lado à lado. Por fim, com a ajuda de surtos de malária e febre amarela que dizimaram o exército de Napoleão, os franceses foram expulsos e o Haiti tornou-se a segunda nação livre do continente, depois dos Estados Unidos, em 1804. Mas, triste ironia, os Estados Unidos não reconheceram a nova nação, já que um país governado por negros livres era uma ameaça aos escravagistas que ainda imperavam nos estados do sul dos EUA. Foi apenas durante a Guerra Civil Americana, sessenta anos mais tarde, que os Estados Unidos reconheceram o governo do Haiti. Infelizmente, o problema não foi apenas com os Estados Unidos, mas também com os países europeus, também preocupados com o simbolismo da nova nação. França e Inglaterra se uniram para bloquear qualquer tipo de comércio com o Haiti, até que esse aceitasse pagar indenizações à antiga metrópole, para compensar sua perda de “patrimônio”, em terras e escravos.
Dirigindo pelas ruas de Cap-Haitien, a segunda maior cidade do Haiti
Vinte anos após sua independência, asfixiado economicamente, o Haiti cedeu negociou o pagamento de uma indenização. Para poder pagar, contraiu enormes empréstimos, comprometendo por décadas seu desenvolvimento econômico. Aqui, é triste lembrar, mas até mesmo as novas nações que foram surgindo nas Américas boicotaram o Haiti. Suas elites governantes também temiam o país governado por negros. Por isso, o segundo mais antigo país livre do continente permaneceu, por quase um século, isolado de seus próprios vizinhos.
Dirigindo pelas ruas de Cap-Haitien, a segunda maior cidade do Haiti
Bom, nem toda a culpa de seus problemas vinham do exterior. Por quase um século, o país foi governado por ditadores sangrentos, corruptos e ineficientes, numa sucessão interminável de golpes de estado. Quando finalmente houve um período de estabilidade política e econômica, no final do século XIX, o Haiti até se tornou um exemplo de desenvolvimento econômico para países da América Latina. Também a área cultural, literatura e pintura, atraiam a atenção de seus pares pelo mundo afora. Infelizmente, esse período foi a exceção. O início do século XX trouxe nova sequência de golpes, instabilidade política e econômica e até mesmo uma ocupação americana, entre 1915 e 1934. Entre erros e acertos, os americanos criaram o sistema de estradas do país e uma polícia nacional. Quando finalmente deixaram o Haiti, a alegria não durou muito: novos golpes e ditaduras se seguiram. Até que, em 1956, chegou ao poder François Duvalier.
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Mais conhecido como “Papa Doc”, o até então pacato médico se transformou em um dos mais sanguinários e terríveis ditadores que esse continente já conheceu (e olha que não foram poucos...). Ele governou com mão-de-ferro por 15 anos, contando com a ajuda da polícia secreta, uma verdadeira milícia armada de bandidos conhecida como Tonton Macoutes, o nome dado ao “bicho-papão” na religião vudu. Agindo com total impunidade, matavam adversários políticos e oposicionistas, praticavam extorsão contra empresários, torturavam e violentavam.
Dirigindo pelas ruas de Cap-Haitien, a segunda maior cidade do Haiti
Com um “apoio” desse, Papa Doc não foi desafiado até a sua morte, em 71. O poder foi herdado pelo seu filho de apenas 19 anos, Baby Doc, uma versão mais branda de seu pai. Ele manteve o poder também por 15 anos quando, em uma grave crise econômica e sob grande pressão internacional, deixou o país. Ele se foi, mais milionário do que nunca. Mas o país estava em frangalhos. O Haiti tinha chegado ao fundo do poço? Não, nada está tão ruim que não possa ser piorado... Nova sequência de juntas militares, governos corruptos e instabilidade política levaram o país ao caos econômico e social, com as forças policiais não conseguindo mais manter a ordem nas ruas. Foi pedida a intervenção da ONU.
Dirigindo pelas ruas de Cap-Haitien, a segunda maior cidade do Haiti
Os primeiros contingentes das Nações Unidas chegaram há dez anos, capitaneados por forças brasileiras. Inicialmente, eram forças de manutenção da ordem, mas depois as funções se ampliaram para obras de infraestrutura e saúde. Houve enfrentamentos armados, principalmente na “pacificação” de Cite Soleil, a maior e mais perigosa favela de Port-au-Prince, tarefa dos soldados brasileiros (estavam “treinando” para o Complexo do Alemão...). A ordem começou a voltar ao país e a esperança reapareceu. Mas ainda não era a hora. Pelo menos, não para a mãe-natureza. Em 2010, o mais mortífero terremoto dos últimos séculos atingiu em cheio a capital, matando mais de 200 mil pessoas e jogando o país em uma crise humanitária sem precedentes. Com ajuda das forças da ONU estacionadas no país e de doações internacionais o país, mais uma vez, começou a se levantar. Será que agora vai?
Dirigindo pelas ruas de Cap-Haitien, a segunda maior cidade do Haiti
Em meados de 2011 assumiu o último presidente eleito, um popular músico conhecido como “Sweet Micky”. Dois anos depois de sua posse, pelo que pudemos notar, o governo é bem popular. Aparentemente, Micky está jogando todas as suas forças na educação e nós somos testemunhas da enorme quantidade de crianças nas ruas indo e voltando uniformizadas de suas escolas. É uma visão alentadora! Nessa viagem, acho que nunca tínhamos visto tantas crianças indo estudar. Além disso, pelo menos nas conversas que tivemos por aqui, conhecemos vários haitianos que estão regressando do exterior para ajudar a reconstruir a economia do país. Foi gente que saiu na época dos anos de chumbo de Duvalier e que venceram na vida em outros países. Agora, sentem que é a hora de voltar. Há um sentimento no ar que as coisas vão melhorar.
Dirigindo pelas ruas de Cap-Haitien, a segunda maior cidade do Haiti
Será que vão mesmo? Olhando a história do país, é difícil acreditar. Mas, pensando bem, a história não precisa se repetir! A efervescência cultural que vemos nas ruas, a quantidade de arte produzida e vendida nas esquinas, as crianças indo para as escolas, os haitianos que voltam da diáspora trazendo na bagagem a experiência de ter vivido e vencido em outros países e culturas, a presença de um sem-número de ONGs que estão aqui para ajudar e cooperar, tudo isso pode se somar para criar um círculo virtuoso de crescimento em uma terra tão cheia de oportunidades e com um “material humano” tão rico. Pode ser inocência ou empolgação nossa, na linha de frente de um turismo que começa a renascer no país, mas achamos, sinceramente, que agora vai. Viva o Haiti!
Dirigindo pelas ruas de Cap-Haitien, a segunda maior cidade do Haiti
Se refrescando na cachoeira da Laje na volta do Bonete em Ilha Bela - SP
Acordo com a luz do sol entrando no quarto através das persianas e filtrada por cortinas que balançam sob o efeito de uma leve e doce brisa. Muito mais doce é o espetáculo que começo a observar logo ao meu lado: a minha linda, bronzeada e loiríssima esposa, também recém-desperta, passa os próximos minutos algo se espreguiçando, algo se alongando.
Caminhando pela Praia do Bonete em Ilha Bela - SP
Bem acordados agora, seguimos direto para a praia, já em trajes de banho. São pouco mais de 20 metros do nosso quarto até a areia do mar. A praia, ainda quase deserta, é o cenário ideal para uma rápida corrida, ida e volta, de ponta a ponta da praia. Agora com o corpo quente, o mergulho nas águas do mar é mais um grande prazer no dia que mal está começando. O toque da água fria que envolve todo o corpo é o golpe final nas últimas células que teimavam em dormir.
As coloridas canoas da Praia do Bonete em Ilha Bela - SP
Das braçadas no mar para o chuveiro de água doce, água fria também, já dentro da pousada. A troca da sunga molhada pela bermuda seca serve para completar a sensação de conforto que chega ao ápice após a proteção do repelente que afasta os poucos borrachudos que querem atrapalhar o meu dia ideal.
O café da manhã já está pronto. Com vista para o mar, refestelo-me na coalhada caseira, adoçada com mel local, enriquecida com granola da melhor qualidade e acompanhada de um melão suculento, tudo junto na cumbuca formando uma saudável gororoba. Pão de centeio feito na noite anterior, pão de queijo quentinho e suco de maracujá natural completam o banquete.
Caminhando pela Mata Atlântica voltando do Bonete em Ilha Bela - SP
Cheios literalmente de saúde, partimos para a caminhada de retorno. São 12 km de caminhada agradável, quase sempre à sombra, entre subidas, descidas e trechos planos, muita água pelo caminho, tanto para beber como para se refrescar e mergulhar.
Se refrescando na cachoeira da Laje na volta do Bonete em Ilha Bela - SP
Os últimos três quilômetros, desde a última cachoeira, são feitos à todo o vapor, em saudável corrida com um simpático bando de crianças ente oito e doze anos, todos primos e irmãos entre si. Entre eles, é a pequena e valente Flávia, jogadora de handbol que lidera a corrida. Só consigo alcançá-la por que nas subidas ela se cansa um pouco.
Final da trilha, voltando do Bonete, em Ilha Bela - SP. O grupo voltou conosco desde a cachoeira do Lajeado
Trocados Orkuts e Facebooks, seguimos para um almoço de comemoração num restaurante de vista e comida esplêndidas, o All Mirante. De lá de volta para a casa do Dudu e Celina. O quarto, os terraços, o deck, as varandas, a sala, tudo é um convite à contemplação, visão de mais de 180 graus do oceano que nos cerca, a exatos 84 metros abaixo de nós.
Vista da casa do Dudu e Celina em Ilha Bela - SP
O fim de tarde se torna noite e recebemos um telefonema do Dudu e do Leslen, seu filho. Após o dia treinando no mar, nos chamam para comer uma deliciosa moqueca na casa de um amigo, em casa ainda mais perto do mar. Lá somos muito bem recebidos. De bônus, além da moqueca, a sobremesa também é uma obra-de-arte. Uma não, duas: torta de coco com abacaxi e merengue de morango.
Celebrando a Trilha do Bonete no restaurante All Mirante, em Ilha Bela - SP
Para finalizar o dia em grande estilo, uma atividade intelectual: seguimos para o café-livraria Ponto das Letras, lotado pelos paulistanos em pleno feriado. Mas lá havia uma mesinha para nós, grande o bastante para folhearmos revistas, jogarmos conversa fora, observarmos pessoas e saborear alguma guloseima.
Ahhhh...se todos os dias fossem assim.
Um ferry sobre o Rio Magdalena, em Mompós - Colômbia
Para se ir de Mompós à Cartagena é preciso cruzar o Rio Magdalena. Aparentemente estão fazendo uma ponte mas o modo possível de fazer isso hoje é por ferry. Ao contrário dos rios brasileiros onde os ferries cruzam constantemente, aqui são poucos os horários para fazer a travessia. O primeiro é às seis da madrugada, totalmente fora de questão. O último é às cinco da tarde, o que significaria uma viagem noturna à Cartagena. Sobrou o ferry da uma da tarde para nós...
A Casa Amarilla, nosso hostal em Mompós, na Colômbia
Demos aquela enrolada básica em Mompós e na nossa pousada Casa Amarilla e fomos enfrentar a fila da balsa. Aproveitamos o tempo de espera para desenrolar todo o cabo do nosso guincho e limpá-lo para depois enrolá-lo novamente. Além disso, passamos um bom tempo respondendo perguntas de camioneiros curiosos com o nosso carro brasileiro e nossa viagem pela América do Sul.
Fila para o ferry sobre o Rio Magdalena, em Mompós - Colômbia
A viagem de ferry dura uns quarenta minutos rio acima, cruzando planícies alagadas repleta de pássaros. Uma paisagem belíssima que muito me lembrou o pantanal matogrossense.
Embarcados no ferry sobre o Rio Magdalena, em Mompós - Colômbia
Enfim, chegamos ao lado de lá do rio. Rompemos os "pedágios" particulares feitos por crianças (moda aqui na Colômbia) e seguimos para Cartagena. Pela primeira vez aqui na Colômbia, e logo duas vezes em menos de quinze minutos, fomos parados por policiais. Apesar da ultrapassagem em faixa dupla (na primeira das paradas), foram muito simpáticos conosco e nos deixaram seguir sem maiores problemas.
A linda paisagem na viagem de ferry sobre o Rio Magdalena, em Mompós - Colômbia
Já era noite quando chegamos à Cartagena de Indias. Atravessamos sua periferia horrorosa e chegamos ao belíssimo centro histórico. Foi só aqui que descobrimos que a cidade está em festa e, portanto, muito cheia. É a celebração da independência. Carnaval por cinco dias diretos. Na nossa terceira tentaiva de hotel, todos em Getsemaní, a vizinhança preferida dos mochileiros, conseguimos lugar. Estamos a apenas 300 metros da Plaza del Reloj, a principal entrada do centro histórico dentro dos famosos muros de Cartagena. Mas amanhã, antes dos obrigatórios programas turísticos, nossa prioridade será encontrar um barco para levar a Fiona ao Panamá. É chegada a hora...
No ferry sobre o Rio Magdalena, em Mompós - Colômbia
Deixando para trás Saint Laurent e a Guiana Francesa
Vamos ter de passar por muitas fronteiras nesses 1000 dias. A maioria delas, com a Fiona, mas algumas sem, especialmente nas ilhas do Caribe. Para passar por todas elas, a documentação básica é um passaporte válido por 6 meses, vacina de febre amarela, dinheiro e/ou cartão de crédito. Para os países que formos sem a Fiona, passagens aéreas saindo do país ou da região. Para os países continentais, aonde passaremos com a Fiona, um seguro internacional e a carteira de motorista internacional. E para alguns poucos países, um visto de entrada.
A Ana, que tem dupla nacionalidade, brasileira e italiana, consegue entrar em todos os países, ora usando um, ora usando outro. Eu, brasileiro puríssimo, preciso de visto para México, Estados Unidos, Canadá e Guiana Francesa. Os dois primeiros, consegui antes do início da viagem. O da Guiana, consegui em Macapá, em situação especial. O do Canadá, ainda falta resolver. A Ana, que descobriu que seu passaporte brasileiro está vencido, precisou fazer um visto para o Suriname, como italiana. Conseguimos fazer isso em Cayenne.
Bom... agora a nossa querida Fiona. Seguro internacional não é das coisas mais baratas. Paga-se por um período específico. Como só ficamos sabendo com certeza a data de entrar na Guiana com duas semanas de antecipação, foi aí que compramos o seguro. A nossa companhia, apesar de internacional, não está muito acostumada com seguros para as Guianas. Imagino que eu tenha sido o primeiro... Junte-se a isso o período de carnaval e o resultado é que o carro está segurado, mas eu só tenho um vago email escrito em português que diz que o carro está segurado no exterior ("extensão de perímetro").
Barco Gabrielle, que faz a travessia entre a Guiana Francesa e o Suriname
Foi com isso que chegamos à Guiana Francesa, e era o que me deixava mais preocupado na época. Bom, por alguma grande sorte, ou por falta de costume mesmo, o cara na fronteira simplesmente confiou em mim e nós passamos.
Agora, hoje, já não foi bem assim. Para sair da Guiana, a policial fronteiriça já nos atazanou bastante. Depois de consultar seus superiores por teleone, disse que só nos deixaria passar porque estávamos saindo. Se estivéssemos entrando, ela não deixaria de jeito nenhum. Queria, no mínimo, algo escrito em inglês, com os países especificados. Ao final, já nossa amiga, alertou: "Vão ter problemas do lado de lá..."
Apesar da reza durante a travessia, ela acertou na mosca. O simpático policial surinamês disse que a Fiona não poderia entrar. As alternativas eram voltar para a Guiana ou comprar um seguro ali mesmo. A primeira opção foi logo descartada, afinal, meu visto tinha vencido hoje. A segunda opção, bem, hoje era sábado e tudo estava fechado. Quem sabe na segunda-feira...
Chegando à Albina, no Suriname
Ou seja, teríamos de passar algumas noites na "simpática" Albina. Para quem não se lembra ou não quer "googar" essa cidade, Albina é o local onde, no natal de 2009, houve tumultos em que a comunidade local atacou a comunidade brasileira matando alguns e estuprando algumas. Um belo local para eu passar o fim de semana com minha linda esposa...
O guarda até nos emprestou seu celular para eu falar na linha internacional da companhia de seguros. Eles ficaram de mandar um fax com algum documento. Não sei se chegaram a mandar, mas o fato é que um anjo na forma de chefe do guarda apareceu por lá. O tal anjo entendia um pouco de português. Mostrei para ele o histórico de emails trocados com a companhia e, por milagre, ele resolveu nos deixar passar.
Assim, quase duas horas depois de chegarmos ao Suriname, conseguimos passar e deixar Albina para trás, rumo à Paramaribo, a capital do país. Não sei se sentia mais alegria por ter deixado aquele pesadelo para trás ou raiva da companhia por ter passado esse susto. Bom, o fato é que passamos e agora a briga continua para termos o tal documento em inglês antes de chegarmos à fronteira da Guiana. Como uma amiga disse que sempre gosto de fazer o "jogo do contente", vou ser positivo: o documento vai chegar!
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