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Veronica (04/05)
Adorei ler sobre sua experiência em LOS Angeles. Obrigada por compartil...
Veronica (04/05)
Adorei ler sobre sua experiência em LOS Angeles. Obrigada por compartil...
Tiago (02/05)
Tchê, muito obrigado por compartilhar as informações sobre o local. H...
fabio (02/05)
ola talvez possam me ajudar, estou com bolivares venezuelanos precisando...
ROSELI BORIN (28/04)
sou bisneta de Felicio Borin,imigrante italiano,chegou no Brasil,e morou ...
Totens de pedra milenares de cultura há muito desaparecida, em San Agustín, na Colômbia
Nessa viagem dos 1000dias, por estarmos no nosso próprio carro e completamente livres para poder escolher nossos destinos, quando e onde quisermos, raros são os lugares não interessantes que passamos. Ao contrário, em mais de 500 dias na estrada, dá para contar nos dedos as cidades ou locais que não valeram à pena. A maioria absoluta de lugares e dias que tivemos foram memoráveis, seja pela beleza cênica, cultural, de aventura ou de festa. Mas, mesmo sendo quase todos eles especiais, mesmo num "grupo" assim, alguns lugares ainda chamam mais a atenção do que os outros. São ainda mais especiais. Um desses locais nós conhecemos hoje. A mágica San Agustín, no sul da Colômbia.
Uma das cachoeiras ao lado da estrada entre Popayan e San Agustín, na Colômbia
E, pelo visto, essa não é uma impressão apenas nossa. Já há mais de dois mil anos que uma antiga e misteriosa civilização escolheu a área de San Agustín como o local de descanso dos seus entes queridos. Centenas de tumbas foram feitas ali, sempre adornadas com incríveis tótens de pedra, alguns com mais de 5 metros de altura, outros com poucos centímetros, representando figuras humanas, animais e também uma mistura entre elas, pessoas com manchas de jaguar ou com feições de águia. Essas estátuas começaram a ser redescobertas há pouco mais de um século e, desde então, milhares foram desenterradas e levadas para museus ou, melhor ainda, recolocadas no mesmo local onde foram encontradas. Um verdadeiro paraíso para arqueólogos profissionais e amadores que ficam ali tentando decifrar os mistérios e encantos desse povo desaparecido.
Fiona atravessa ponte sobre desfiladeiro enquanto, embaixo, pessoas descem seus caiaques de rapel para navegar no rio lá embaixo (na estrada entre Popayan e San Agustín, na Colômbia
Para se chegar lá, um dos mais impressionantes pontos turísticos do país, não é muito longe de Popayan, pouco menos de 150 km. Mas boa parte da estrada ainda é de terra, o que torna a viagem muito mais longa. Se meter numa estrada dessa no interior da Colômbia foi o teste final para afastarmos aquela idéia pré-concebida de que seria perigoso viajar por aqui. Que nada! As paisagens são magníficas, existe sempre movimento na estrada e, de tempos em tempos, lá estão postos do exército para nos assegurar que estamos seguros. Cada vez mais, aquela mensagem da propaganda institucional do país faz sentido para nós: "Viaje na Colômbia! O único perigo é não querer mais ir embora!"
Toten de pedra em San Agustín, na Colômbia
Bom, viajamos seguros por esta estrada, passamos por cachoeiras e atravessamos canyons, negociamos com caminhões e tratores (trechos do caminho estão sendo pavimentados) nossa passagem, saudamos e fomos saudados por jovens soldados, vencemos ladeiras e trechos enlameados e enfim, chegamos à San Agustín.
Tumbas com mais de 1000 anos em San Agustín, na Colômbia
Aí, aproveitando as últimas horas do dia, fomos diretamente ao Parque Arqueológico, local onde se encontram boa parte dos mais incríveis achados arqueológicos da região. Com pouco tempo, saltamos o museu e seguimos diretamente para as trilhas que nos levam às tumbas e, principalmente, às impressionantes estátuas de pedra, todos ainda no seu local de origem, em meio a uma belíssima paisagem. Aliás, essa é a descrição do local na wikipedia: "envolvido por uma paisagem selvagem e espetacular, está de pé o maior grupo de monumentos religiosos e esculturas megalíticas da América do Sul. Deuses e animais míticos são habilmente representados em estilos que variam da abstração ao realismo"
Totens de pedra milenares de cultura há muito desaparecida, em San Agustín, na Colômbia
Passear por entre essas esculturas é incrível. Em vários pontos, parecia que eu estava no meio de uma aventura de "Tintin e o Ídolo Roubado" (me entende quem teve a sorte de ler Tinitin na infância!). Imaginar esses lugares há mil anos repletos de pessoas, artífices e caciques é um delicioso exercício para a mente.
No ponto mais alto do incrível Parque Arqueológico de San Agustín, na Colômbia
O passeio teve dois pontos altos. O primeiro, foi alto mesmo! Chegamos ao ponto mais elevado do parque, de onde se tem uma vista incrível de toda a região, muito verde, muita mata, dezenas de colinas ao nosso redor. Tinha bom gosto esse povo! Aí, mesmo para um darwinista convicto como eu, sente-se uma estranha energia no lugar, algo que nos faz querer admirar e respeitar aquilo que vemos e também o que não vemos, apenas sentimos. Também aí há tótens de pedra, fitando impassivamente o horizonte com uma paciência milenar. Parecem desprezar os visitantes que aí chegam, pois sabem que eles passarão rapidamente. São o horizonte a a paisagem que miram os seus verdadeiros companheiros.
Visitando o interessantíssimo Parque Arqueológico de San Agustín, na Colômbia
O outro ponto alto foi a última trilha que fizemos, pelo bosque das esculturas. Com o parque já fechando, naquela meia luz típica do dia que termina e da noite que começa, éramos os únicos que estávamos ali. Pelo menos, os únicos vivos, hehehe. Nesse bosque, ao longo de uma trilha circular, foram colocadas esculturas que haviam sido retiradas de seus lugares de origem e levados para casas de particulares, praças de cidades ou a mercados internacionais. Recuperadas, ajudaram a compor esse bosque que hoje ficou meio mágico. Conforme eu e a Ana caminhávamos e a noite ía caindo, parecia que éramos observados. A gente ouvia barulhos, sentia presenças estranhas e, ao mesmo tempo, víamos aquelas estátuas que, durante tanto tempo adoradas por milhares de pessoas de um povo há muito desaparecido, pareciam nos olhar também!. Eu estava adorando isso, querendo aproveitar cada minuto por ali. Mas a Ana, com suas convicções, achou que era hora de sairmos. Nunca mais vou esquecer a sensação! Foi muito jóia!
Escultura com formas de águia, no Parque Arqueológico de San Agustín, na Colômbia
Já no escuro, era hora de voltarmos à cidade e encontramos um hotel para dormir. Mas, primeiro, o mais importante, o estômago. Fomos a um restaurante que nos foi indicado, comemos e, ao sair em direção ao carro, fomos abordados por um grupo de três pessoas, interessadas no que liam e viam na Fiona. Eram o Carlos, a Marcela e o Jaime. Todos colombianos, o Carlos é biólogo aposentado morando nos EUA e em visita à sua sobrinha querida, a Marcela, professora de artes casada com o historiador Jaime, moradores de Bogotá. Ficaram super interessados na nossa viagem e nos deram verdadeiras aulas sobre a história e a vida na Colômbia. Mas, mais do que isso, foi o nosso primeiro contato com a simpatia e a hospitalidade colombiana, algo que envolve rapidamente quem viaja por esse país.
Visitando o Parque Arqueológico de San Agustín, na Colômbia
O nosso papo durou horas, sempre regado com boa cerveja e já era meia noite quando resolvemos ir dormir, ainda sem hotel. Resolvemos isso indo para o hotel deles, justo em frente ao restaurante. Amanhã tem mais San Agustín: vamos fazer um passeio à cavalo pela região, visitar mais totens de pedra espalhados por fazendas na área. Depois, ainda queremos chegar até Cali. E lá em Bogotá, já temos amigos para visitar!
Com os novos amigos colombianos em San Agustín, na Colômbia
Depois de quase duas horas de caminhada, a chegada à praia da Lagoinha do Leste, na costa sul de Florianópolis, em Santa Catarina
A ilha de Florianópolis é o paraíso para os amantes de trilhas. Algumas melhor sinalizadas, outras nem tanto, algumas através dos vários costões beira-mar, ligando duas praias, outras atravessando o sertão da ilha ou contornando suas lagoas. A trilha de Naufragados, aquela da Costa da Lagoa, ou ainda as que ligam Ingleses à Brava ou a Mole à Joaquina estão entre as mais belas e conhecidas, mas nenhuma delas alcança a fama e a beleza da Trilha da Lagoinha do Leste, na costa sul da ilha.
Trilha da Lagoinha do Leste, na costa sul de Florianópolis, em Santa Catarina (mapa do site ecohospedagem)
Mapa da trilha entre a praia do Matadeiro, a Lagoinha do Leste e o Pântano do Sul, no sul de Florianópolis, Santa Catarina (mapa do site francisdiogenes)
A praia da Lagoinha do Leste permanece isolada da civilização, protegida por morros e costões de pedra. É a maior praia da ilha sem acesso por estradas e há mais de uma geração atrai aventureiros, mochileiros e surfistas que caminham até ela para passar o dia ou mesmo uma semana, acampados. Pela dificuldade de acesso, a praia mantem-se vazia, mesmo durante a temporada. Felizmente, desde 1991 toda a área foi transformada em uma reserva, o que impossibilita a construção de estradas e casas no local. Pelo menos por enquanto, esse paraíso parece protegido da especulação imobiliária e das “benesses” da civilização.
Praia da Armação, na costa sul de Florianópolis, em Santa Catarina
Ponte que liga a praia da Armação à praia do Matadeiro, na costa sul de Florianópolis, em Santa Catarina
A caminho da praia do Matadeiro, na costa sul de Florianópolis, em Santa Catarina
Pode-se chegar lá caminhando e de barco. Nessa segunda opção, parte-se do Pântano do Sul, mas o desembarque na praia é bem precário, já que a rebentação é forte. O melhor mesmo é ir caminhando e as trilhas chegam pelos dois lados da praia. A trilha mais curta vem do Pântano do Sul. Uma caminhada quase sempre sob a mata, subindo e descendo o morro que separa as duas praias. Deve demorar um pouco menos de uma hora, pelo menos para os não tão apressadinhos. A trilha mais bela, e bem mais longa também, vem do lado norte, saindo da praia do Matadeiro. Por aí, são pouco mais de duas horas de caminhada, quase sempre nos costões e trechos de vegetação baixa. Com isso, temos sempre uma visão mais ampla, seja das praias e ilhas mais afastadas, seja dos imponentes costões de pedra. O mais bonito é a chegada, ver a praia quase deserta e com ares de virgem lá de cima, a longa faixa de areia com mais de um quilômetro de extensão espremida entre o mar e a lagoa por trás. Aliás, é esta lagoa, formada por pequenos rios que descem das encostas, que dá nome à praia.
Chegando à praia do Matadeiro, na costa sul de Florianópolis, em Santa Catarina
Começo da trilha entre a praia do Matadeiro e a praia da Lagoinha do Leste, na costa sul de Florianópolis, em Santa Catarina
Estando de carro, nossa tendência é sempre querer voltar pelo mesmo caminho, já que o carro nos espera no início da trilha. Mas hoje quisemos fazer diferente e encarar o transporte público da cidade. Isso nos daria a chance de fazer as duas trilhas de acesso à praia. Fomos de carro até a praia da Armação, onde se pode deixar o carro. Daí, uma curta caminhada nos leva até a praia do Matadeiro, onde tomamos a bela trilha até a Lagoinha. Depois de algumas horas curtindo o paraíso, seguimos em frente, subindo e descendo o morro para chegar ao Pântano do Sul. Quem nos aguarda aí é o famoso Arante, um dos mais tradicionais restaurantes de Florianópolis. Depois do devido tempo para matar a sede e a fome, descolamos algum ônibus que nos deixe próximos da praia da Armação. Aí, é só caminhar de volta para a Fiona. Para quem tem um dia inteiro à disposição, não poderia haver melhor programa!
Vista do costão na trilha da Lagoinha, na costa sul de Florianópolis, em Santa Catarina
Ao longe, as dunas da Joaquina vistas da trilha da Lagoinha do Leste, na costa sul de Florianópolis, em Santa Catarina
Trilha da Lagoinha do Leste, na costa sul de Florianópolis, em Santa Catarina
Pois bem, planos feitos, mãos à obra. São 22 km ou pouco mais de meia hora do centro até a praia da Armação. Esse é um dos bairros pitorescos de Florianópolis e um dos meus preferidos. Já fiquei hospedado aí algumas vezes, principalmente quando vinha fazer a travessia da Lagoa do Peri. Ela é a “irmã mais nova” da Lagoa da Conceição, tão bela como a outra, mas muito menos desenvolvida turisticamente. A mata Atlântica ao seu redor está bem conservada e a água é muito boa para nadar. Mas hoje, a lagoa do Peri não era o nosso destino. Passamos diretamente por ela rumo à Armação, um dos mais antigos e prósperos povoamentos da ilha.
Vegetação ao longo da trilha da Lagoinha do Leste, na costa sul de Florianópolis, em Santa Catarina
Vegetação ao longo da trilha da Lagoinha do Leste, na costa sul de Florianópolis, em Santa Catarina
Vegetação ao longo da trilha da Lagoinha do Leste, na costa sul de Florianópolis, em Santa Catarina
Infelizmente, pelo menos para nossa cultura atual, essa prosperidade está ligada à caça às baleias. O próprio nome da praia vem dessa atividade. “Armação” era o nome que se dava ao conjunto de construções e maquinaria usada na dissecação e aproveitamento dos pobres cetáceos. A “armação” instalada aqui foi a primeira da ilha e a segunda do estado, ainda no séc. XVIII, em tempos do Brasil colonial. A armação prosperou, um igreja hoje ainda de pé foi construída e uma vila cresceu ao redor dela, atraindo famílias em busca de emprego.
Trilha da Lagoinha do Leste, na costa sul de Florianópolis, em Santa Catarina
Admirando o belo cenário da trilha da Lagoinha do Leste, na costa sul de Florianópolis, em Santa Catarina
O belo cenário da trilha da Lagoinha do Leste, na costa sul de Florianópolis, em Santa Catarina
As baleias eram arpoadas e capturadas em alto mar e trazidas para a praia vizinha, onde eram mortas. Não demorou muito para que ela fosse chamada de “Praia do Matadeiro”, nome que persiste até hoje. Depois, o cetáceo era “processado” na armação. Uma baleia de 30 toneladas chega a ter 6 mil litros de óleo, na época muito usado como combustível para iluminação. As barbatanas e nadadeiras seguiam diretamente para a Europa, onde viravam piteiras, tabaqueiras, guarda-chuvas, bengalas e outros itens de “primeira necessidade”. A carne, que não é muito saborosa para nossos padrões ocidentais, servia de alimento aos escravos. Ainda não haviam descoberto o mercado japonês...
Vista do costão de pedras na trilha da Lagoinha, na costa sul de Florianópolis, em Santa Catarina
O belo cenário da trilha da Lagoinha do Leste, na costa sul de Florianópolis, em Santa Catarina
Meio século de riquezas minguou com a escassez das baleias, cada vez mais próximas da extinção, e com a concorrência inglesa instalada nas ilhas do Atlântico Sul. Eles matavam as baleias por lá, antes que elas viajassem para cá. Já a partir da metade do séc. XIX, a armação era um negócio decadente. Mas a comunidade já estava instalada por aqui e passaram a viver de outras coisas, como agricultura e pesca. Nos últimos 30 anos, foi o turismo que passou a ser a força econômica dominante e as baleias até começaram a voltar, atraindo ainda mais turistas. A igreja construída há 250 anos continua sendo o centro da vila e nossa Fiona ficou aí pertinho.
Depois de quase duas horas de caminhada, a chegada à praia da Lagoinha do Leste, na costa sul de Florianópolis, em Santa Catarina
Alegria na chegada à praia da Lagoinha do Leste, na costa sul de Florianópolis, em Santa Catarina
A lagoa que dá nome à praia da Lagoinha do Leste, na costa sul de Florianópolis, em Santa Catarina
Nós atravessamos o rio que desagua a Lagoa do Peri no mar e uma pequena trilha nos levou à praia do Matadeiro. Hoje, além do nome, nada lembra seu passado sangrento. Ao contrário, é um poço de tranquilidade, poucas casas, mar calmo e distante do trânsito. Alguns restaurantes e música no final de tarde. Uma delícia de programa para passar o dia.
Onda deixa uma cabeleira para trás ao estourar na praia da Lagoinha do Leste, na costa sul de Florianópolis, em Santa Catarina
Grandes ondas na praia da Lagoinha do Leste, na costa sul de Florianópolis, em Santa Catarina
Mas, para nós, o programa era outro. No final da praia, lá está a placa indicando o início da trilha. Não tem como errar. Depois, é só ir seguindo o caminho. Aos poucos, a vista se abre e passamos a ver a praia e a ilha do Campeche e até as dunas da Joaquina, ao longe. Vamos contornando a costa, subindo levemente, o mar ficando para baixo, a vista mais e mais bela, os costões de pedra mais imponentes. Aqui e ali, alguma bifurcação, mas são apenas variantes do mesmo caminho, todas as trilhas se encontrando mais adiante.
A praia da Lagoinha do Leste, na costa sul de Florianópolis, em Santa Catarina
Chegando à praia da Lagoinha do Leste, na costa sul de Florianópolis, em Santa Catarina
Por fim, já altos o suficientes para cruzar o morro, avistamos a Lagoinha pela primeira vez. É um colírio para os olhos, a praia de areias claras espremida pelas montanhas cobertas de florestas. Achamos um bom mirante e aí ficamos por um bom tempo, apenas admirando aquela visão fantástica à nossa frente. As ondas são mesmo fortes, mas a lagoa atrás da praia inspira calma e tranquilidade. Uns poucos felizardos estão lá embaixo, perdidos no meio daquela vastidão selvagem e natural.
Na praia da Lagoinha do Leste, na costa sul de Florianópolis, em Santa Catarina
Refrescando-se na lagoa da praia da Lagoinha do Leste, na costa sul de Florianópolis, em Santa Catarina
Refrescando-se na lagoa da praia da Lagoinha do Leste, na costa sul de Florianópolis, em Santa Catarina
Devagar, vamos descendo. Não porque a trilha é difícil, mas porque as opções e tentações para fotografar são muitas. Enfim, chegamos às areias e seguimos diretamente para a lagoa. As águas são cristalinas e não resistimos a um bom banho de água doce. Daí para o sol, ara esquentarmos novamente, e para o mar, com a água muito mais fria. Depois, lagoa novamente. Só precisamos tomar cuidado para não pisar no fundo e levantar sedimentos. Boiando na água e mirando o céu, ouvindo o barulho das ondas ao fundo e cercados pela mata Atlântica, a sensação é a de total integração com a natureza. Não é difícil entender porque as pessoas acampam por aqui, para passar dias no meio dessa natureza pujante. Nessa época do ano, é preciso trazer toda a comida e bebida, mas na temporada, tem até uma vendinha.
A água cristalina da lagoa da praia da Lagoinha do Leste, na costa sul de Florianópolis, em Santa Catarina
Praia da Lagoinha do Leste, na costa sul de Florianópolis, em Santa Catarina
Curtindo a praia da Lagoinha do Leste, na costa sul de Florianópolis, em Santa Catarina
Bom, depois de nos esbaldarmos por algumas horas e explorarmos a praia de ponta a ponta, era hora de seguirmos para o Pântano do Sul. A trilha, com muita sombra, é uma pirambeira só até um mirante, bem no ponto mais alto do caminho. Mas a vegetação cresceu e quase não nos deixa ver a Lagoinha lá embaixo. Em compensação, a vista da praia do Pântano do Sul, do outro lado, é bem ampla. Vinte minutos de caminhada e já chegamos na areia, quase ao lado do famoso restaurante Arante.
Mirante no ponto mais alto da trilha entre a Lagoinha do Leste e o Pântano do Sul, na costa sul de Florianópolis, em Santa Catarina
A primeira visão da praia do Pântano do Sul, na costa sul de Florianópolis, em Santa Catarina
A primeira visão da praia do Pântano do Sul, na costa sul de Florianópolis, em Santa Catarina
Esse restaurante é praticamente uma instituição de Florianópolis. Instalado “com o pé na areia”, o restaurante tem mais de 50 anos de idade e, na década de 70, virou ponto de referência para estudantes que iam acampar no Pântano do Sul. Para avisar os amigos que chegariam mais tarde aonde já estavam acampados, eles deixavam bilhetes pregados nas paredes do restaurante. Aos poucos, a moda pegou e todo mundo queria deixar por lá o seu “recadinho” também, seja um agradecimento, poesia, desenho ou filosofia barata. De frente ao mar, a paisagem realmente nos estimula a isso. Virou uma tradição! O restaurante é grande, muitas salas, muitas paredes, um teto enorme. Mas é difícil encontrar algum lugar para deixarmos nossos bilhetes. Por sorte, já tem vários por lá apodrecendo, caindo e abrindo espaço para os mais novos.
Fim de tarde na praia Pântano do Sul, na costa sul de Florianópolis, em Santa Catarina
Restaurante Arantes, na praia do Pântano do Sul, na costa sul de Florianópolis, em Santa Catarina
Paredes e teto cobertos de bilhetes, tradição no restaurante Arantes, na praia do Pântano do Sul, na costa sul de Florianópolis, em Santa Catarina
Obviamente, mais interessante que deixar nossos recados, é ler os antigos. Ficamos lá garimpando e, com a ajuda de um garçom bem simpático, achamos umas preciosidades. Mas nem só de bilhetes vive o Arante. Além da vista, a culinária também é muito saborosa, embora o preço já reflita um pouco a fama que ele tem. Barato mesmo, só a cachaça, que é de graça! Como passar por lá e não tomar esse tesouro? Além de esquentar o corpo, ainda nos inspira a escrever mais, hehehe.
No tradicional restaurante Arantes, na praia do Pântano do Sul, na costa sul de Florianópolis, em Santa Catarina
Cerveja Devassa no restaurante Arantes, na praia do Pântano do Sul, na costa sul de Florianópolis, em Santa Catarina
Bom, depois de pingas e cervejas, pastéis e bolinhos de peixe e camarão, hora de encarar o transporte urbano. Não demorou muito e ainda ficamos amigos de uma simpática paraense que veio lá do outro lado do Brasil se instalar nessa ilha que ela adora. Só reclamou um pouco do frio. Comparado com Belém, parece até o polo norte! A conversa durou até chegarmos ao nosso ponto e, poucos minutos mais tarde, já estávamos a bordo da Fiona, voltando para o centro e felizes da vida com o dia pleno que tínhamos tido. Que delícia de ilha!
Tomando uma pinguinha no tradicional restaurante Arantes, na praia do Pântano do Sul, na costa sul de Florianópolis, em Santa Catarina
Observando a represa na Lapinha, região da Serra do Cipó - MG
Realmente, foi um enorme prazer hoje acordar e olhar a paisagem que nos cercava. Apesar de já sabermos que seria bonita, uma coisa é ouvir e outra é ver com os próprios olhos! O pequeno distrito está bem no pé de uma imponente serra,boa parte de pedra. Até serviu para afastar o sono de mais uma noite curta demais. Ai, ai, precisamos de dias mais longos... umas quarenta horas talvez.
Início da caminhada para a Cachoeira Bicame, na Lapinha, região da Serra do Cipó - MG
A Lapinha era praticamente desconhecida até uns dez anos. De lá para cá, vem ganhando fama e atraindo turistas e gente que vem morar aqui ou simplesmente comparar um terreno para fazer uma casinha. Assim, percebe-se que o distrito está em pleno crescimento. as pessoas vem atrás da calma, ar puro e belezas naturais da região. Principalmente mineiros de BH que é tão pertinho daqui.
Área de convívio da Pousada Travessia, na Lapinha, região da Serra do Cipó - MG
Nossa pousada éuma delícia e o café da manhã tinha leite da vaca, pães e bolos caseiros, iogurte recém feito, frutas recém colhidas, granola recém torrada e por aí vai. Mais saudável, impossível. Principalmente coma vista para a montanha aqui em frente. A minha definição de paraíso, pelo menos de café da manhã no paraíso, é bem próximo disso.
Cachoeira do Bicame vista por baixo, na Lapinha, região da Serra do Cipó - MG
O programa de hoje foi conhecer a mais bonita cachoeira da região, a Cachoeira do Bicame. Dez quilômetros de Fiona mais sete caminhando pelo alto da montanha, paisagens deslumbrantes para todos os lados. Ainda na parte da Fiona,onde só carros 4x4 podem passar, demos carona para um simpaticíssimo casal de mineiros, o Flávio e a Gislei, que nos acompanharam então no resto do passeio.
Nosso guia Walter procurando uma sombrinha ao pé da Cachoeira do Bicame, na Lapinha, região da Serra do Cipó - MG
A cachoeira realmente é linda, um poço bem grande de águas avermelhadas, parecido com Coca-cola. É possível caminhar atrás das duas quedas d'água e com tanta beleza junta, quem vai pensar em frio?
Tomando banho na Cachoeira do Bicame, na Lapinha, região da Serra do Cipó - MG
Depois do lanche de pão e nosso inseparável queijo mineiro voltamos para a Lapinha para o nosso passaeio da tarde, marcado para as 15:30. Mas levamos o cano do Ivan, que nos levaria de barco através represa pare ver as pinturas rupestres do outro lado e com isso o nosso quarto dia de maratona do Cipó ficou incompleto. Nadamos, nadamos para morrer na praia... Bem, fazer o quê? O passeio ficoupara amanhã cedo e nós fomos para o boteco tomar uma mais que merecida gelada. Há males que vem para bem e lá conhecemos mais dois casais muito simpáticos, o Dedé e a Flor e a Carina e seu namorado. Foi uma tarde agradabilíssima conversando e nos divertindo com eles, contando e ouvindo causos numa típica conversa mineira. Êta trem bom, sô!
Área da Cachoeira do Bicame, na Lapinha, região da Serra do Cipó - MG
Final de tarde trabalhando um pouco no computador (não há internet nem celular na Lapinha!) e de noite fomos encontrar os novos amigos no boteco novamente. Mais conversa, mais cerveja, mais petiscos mineiros, vidinha bem mais ou menos mesmo.
Novos amigos em boteco na Lapinha, região da Serra do Cipó - MG
Amanhã, a idéia é fazer logo cedo o passeio das pinturas rupestres e seguir para BH. A nossa tão esperada manhã em que não precisaríamos acordar cedo foi mais uma vez adiada. Com exceção da falta de tempo para dormir, esses dias aqui na região do Cipó foram muito, mas muito mesmo, legais. Não sei quantos dias aguentaríamos neste ritmo. Conhecer tantas pessoas interessantes, tantos visuais aluciantes, tantas comidas saborosas, tantas camas confortáveis, tudo isso em 4 dias, parece que vivemos mum mês nesses 4 dias. Espero não ter envelhecido tanto... hehehe
Primeira visão da Cachoeira do Bicame, na Lapinha, região da Serra do Cipó - MG
A luz de fim de tarde ilumina a face noroeste do Aconcágua entre nuvens, visto a partir dos 5 mil metros de altitude do Pico do Bonete, em frente à montanha, na região de Mendoza, oeste da Argentina (temporada de 1998/99)
Nós não subimos o Aconcágua durante os 1000dias. Esse post conta a história de minha outra viagem para cá, no final de 1998, início de 1999. Como não tivemos tempo de tentar subir a montanha dessa vez, achei interessante contar como foi chegar ao ponto mais alto das Américas, mesmo que tendo sido em outra viagem. A história virá em duas partes, com fotos da época. Meu companheiro daquela vez foi o Haroldo, um primo que também esteve conosco em diversas oportunidades durante os 1000dias. A última, quando subimos o vulcão Villarrica, conforme relatado nesse post
O ano de 1998, para mim, foi de altos e baixos. Ou, para ser mais exato, de baixos e altos. Cronologicamente, foi assim que funcionou, em sentido figurado e no literal também. Comecei o ano perdendo o emprego e o chão. Terminei o ano no meio de uma fantástica viagem que me levou pelos quatro cantos do mundo. Entre tantos lugares visitados, fui do ponto mais baixo da Terra, o Mar Morto, a 427 metros abaixo do nível do mar, ao ponto mais alto das Américas, o cume do Aconcágua, a 6.962 metros de altitude. Como disse, baixos e altos...
Mapa 3D da região do Aconcágua, na Argentina. Aí percebe´se claramente que a trilha se divide em Confluencia, à direita seguindo para Plaza Francia (nosso caminho de agora) e à esquerda para Plaza de Mulas (caminho que fiz em 1999)
Mapa de trilhas e altitudes da região do Aconcágua, a maior montanha das Américas, nos Andes argentinos. Nós caminhamos de Horcones até Confluencia no 1o dia. No 2o dia, fomos até Plaza Francia, em frente à Parede Sul e retornamos à Confluencia. No 3o dia
A crise econômica mundial causada pelo colapso da moeda da Tailândia, no final de 97, atingiu o Brasil com violência. Muitas empresas financeiras quebraram, inclusive aquela em que eu havia trabalhado por 3 anos. Fiquei sem emprego, mas com boas economias guardadas. Por algum tempo, fiquei na grande dúvida entre aplicar esse dinheiro em um MBA no exterior (cheguei a fazer provas e quase enviei as applications) ou dar uma bela de uma volta ao mundo. O sangue português dos grandes descobrimentos falou mais alto e optei pela segunda opção. Europa, Oceania, Ásia e norte da África, tudo isso em oito meses. O natal de 98 foi passado em Belém, cidade onde nasceu e cresceu Jesus, em Israel. No auge da détente entre israelenses e palestinos, Yasser Arafat passou a poucos metros de mim e outro bando de turistas. Poucos dias antes, eu havia visitado e nadado no Mar Morto, um antigo sonho de criança. Agora, meu objetivo era outro, quase inverso. Já há alguns meses, vinha combinando com um primo de nos encontrarmos na Argentina para subir o Aconcágua, a montanha que havíamos visto tão rapidamente sete anos antes, quando viajamos por Argentina e Chile. Daquela vez, só o vimos da janela do ônibus que nos levava de Mendoza a Santiago. Mas foi o bastante para nos prometermos voltar algum dia. Esse dia havia chegado!
Preenchendo papéis e registros na entrada do Parque Provincial Aconcágua, região de Mendoza, oeste da Argentina (temporada de 1998/99)
Com o Haroldo, entrando no Parque Provincial Aconcágua, região de Mendoza, oeste da Argentina (temporada de 1998/99)
O Haroldo, meu primo, já havia passado seu mês de férias viajando comigo na Nova Zelândia. Foi em Abril de 98. Agora, oito meses mais tarde, em 28 de Dezembro, a gente se reencontrava no aeroporto de Buenos Aires. Ele trazia cerca de 60 kg de bagagem do Brasil. Não só suas roupas e equipamentos para subir o Aconcágua, mas também boa parte dos meus. Afinal, eu não andava pelo mundo carregando esse peso todo. Ele também trazia uma parte da comida que levaríamos à montanha, aquela mais rica em energia, como frutas secas, chocolates e leite em pó. O resto, como macarrão e sopa, compramos juntos em Mendoza, para onde voamos, já reunidos, no mesmo dia. Foi em Mendoza também que alugamos nossas botas duplas e grampões, essenciais para enfrentar o frio e o gelo nas altas altitudes. Barraca e sacos de dormir também haviam sido trazidos pelo Haroldo. Por fim, em Mendoza pagamos pelo “permiso” para subir a montanha (na época, uns 70 dólares. Hoje, o preço é quase dez vezes maior!), compramos nossas passagens de ônibus para Puente del Inca (onde começava a caminhada) e contratamos mulas para levar boa parte do peso da nossa bagagem até Plaza de Mulas, o campo base para se subir o Aconcágua pela rota normal.
Perfil da caminhada até Plaza de Mulas, campo base para a rota normal de ascenso do Aconcágua, nos Andes argentinos, região de Mendoza
Nós iríamos tentar o Aconcágua sem guias ou expedição organizada. Naquela época, isso era mais comum, embora já houvesse muitas expedições comerciais também. Nos últimos quinze anos, agências que oferecem esse serviço se multiplicaram e eu diria que hoje, a maioria das pessoas que tenta o Aconcágua está nesses grupos. Outra coisa que mudou foram os preços e as regras, tudo bem mais controlado. O aumento de preço veio para controlar a quantidade de acessos que aumentava sem parar. Tudo bastante concentrado nos meses entre Dezembro e Fevereiro, quando as condições climáticas na região são mais amenas. Naqule ano, foram cerca de 4 mil pessoas. Esse número chegou a dobrar até 2010, mas o aumento de preços funcionou. Agora, na temporada 2013/14, foram pouco mais de 5 mil pessoas. O “permiso” é mais caro para quem vai sem grupo organizado, um estímulo para que se siga com agências e guias. A razão disso é a segurança, guias experientes sabem cuidar melhor de nós do que nós próprios, especialmente em uma região onde o tempo muda tão rapidamente e que eles conhecem muito melhor do que nós. Além disso, agora, em cada acampamento, precisamos nos registrar e fazer exames médicos. Pessoas continuam a morrer no Aconcágua, mas tenho certeza que seria muito pior sem essas novas regulações.
Cruzando o rio Horcones a caminho de Confluencia, o primeiro acampamento na trilha normal do Aconcágua, no oeste da Argentina (temporada de 1998/99)
Com o Haroldo, prontos para iniciar a caminhada rumo a Confluencia e Plaza de Mulas, no parque do Aconcágua, oeste da Argentina (temporada de 1998/99)
Bom, seja pela aventura, pelo preço ou pela liberdade, eu e o Haroldo, naquela época, preferimos ir sozinhos. Lemos tudo o que pudemos sobre a montanha, conversamos com pessoas que já haviam estado lá e montamos nosso plano de ataque. Como estávamos sós, tínhamos a liberdade de mudar esses planos conforme íamos subindo a montanha e nos aclimatando, de acordo com nosso cansaço, adaptação à altitude, estado de ânimo e condições meteorológicas na montanha. De maneira geral, tudo isso concorreu para que acelerássemos nossos planos iniciais. Nossa adaptação foi mais rápida do que havíamos imaginado e não queríamos perder as chances de bom tempo que o Aconcágua estava nos fornecendo.
Primeiro dia de caminhada, quase chegando em Confluencia, no parque Provincial Aconcágua, região de Mendoza, oeste da Argentina (temporada de 1998/99)
Nós havíamos feito todas as compras e burocracias na tarde do dia 28, em Mendoza. No dia 29, bem cedo, embarcamos para Puente del Inca, onde chegamos perto do meio dia. Aí encontramos nossa mula que seguiria, numa grande tropa, diretamente para Plaza de Mulas. Fizemos a divisão de bagagens e ficamos apenas com a barraca, sacos de dormir, um pouco de roupa e comida. O grosso seguiu com ela. Despachada a mula, caminhamos uns quatro quilômetros até a entrada do parque e outros dois até o posto de guarda-parques. Já estávamos ganhando altitude! Dos 2.800 metros de Puente del Inca até quase os 3 mil do posto de entrada da trilha, onde fizemos nossas últimas burocracias. Dia de céu azul, a tarde apenas começando, estávamos ansiosos para, finalmente botar o pé na trilha de verdade. E assim foi, viemos caminhando tranquilamente pelo vale do rio Horcones, esse mesmo trecho que eu e a Ana fizemos agora em 2014, até Confluencia. A diferença é que Confluencia era um pouco mais adiante, depois que as trilhas para Plaza Francia e Plaza de Mulas de dividem, logo após cruzarmos o rio Horcones novamente, agora para a margem esquerda de quem está subindo. A trilha havia sido tranquila e nós, agora, já estávamos acima dos 3.400 metros de altitude. Armamos nossa barraca, lanchamos e combatemos a dor de cabeça que se iniciava com dois excedrins cada um. Na época, não tínhamos neosaldina!
Acampado em Confluencia, a caminho de Plaza de Mulas e do Aconcágua, na região de Mendoza, oeste da Argentina (temporada de 1998/99)
Acampamento de Confluencia, a caminho de Plaza de Mulas e do Aconcágua, na região de Mendoza, oeste da Argentina (temporada de 1998/99)
No dia seguinte, véspera de réveillon, seguimos em frente. Muita gente, já naqueles dias, preferia passar duas noites em Confluencia para ajudar no processo de aclimatação. Aproveitavam para fazer um bate-volta e ir conhecer Plaza Francia. Foi o que não fizemos e só agora, 15 anos mais tarde, é que tive a chance de chegar perto da majestosa face sul do Aconcágua e sua temida parede de mais de dois quilômetros de altura. Nós estávamos era com pressa de chegar em Plaza de Mulas e ver de perto o que nos esperava, a rota normal em direção a Nido de Condores, Berlin e o cume do Aconcágua. Esse segundo dia de caminhada é mais longo que o primeiro e mais chato também. Atravessamos a chamada “Playa Ancha”, um interminável vale formado pelo leito quase seco do rio Horcones, chão formado por pedras e mais pedras que requerem concentração par não cair. Além disso, temos de cruzar riachos o tempo todo. Vamos ganhando altura bem lentamente até que damos de cara com a “Encosta Brava”. O nome já dá uma pista do que se trata. Uma pirambeira que vamos vencendo com muita determinação e ziguezagues. Lá no alto, já estamos a 4.300 metros de altitude. De um lado, ao pé da montanha, o acampamento de Plaza de Mulas, já com algumas dezenas de barracas. Do outro, uns 25 minutos de caminhada, o Hotel Refugio, mais refúgio do que hotel, mas considerado o hotel mais alto do mundo. Para ele seguimos, pois nossa ideia era armar nossa barraca ali do lado.
Acampado ao lado do refúgio em Plaza de Mulas, 4.300 metros de altitude, aos pés do Aconcágua, no oeste da Argentina (temporada de 1998/99)
O refúgio em Plaza de Mulas, o hotel mais alto do mundo, aos pés do Aconcágua, oeste da Argentina (temporada de 1998/99)
Estar perto do hotel fazia parte da nossa estratégia para conquistar a montanha. A melhor maneira de adaptar nosso organismo às grandes altitudes é fazer a tática do sobe-desce. Subimos cada vez mais altos para nosso corpo tomar contato com o ar rarefeito e descemos em seguida para descansar em lugares mais baixos. Com isso o organismo começa a se adaptar biologicamente, por exemplo, começando a produzir mais glóbulos vermelhos para carregar com mais eficiência o oxigênio cada vez mais escasso. Em algum momento da nossa programação, devemos subir até um ponto mais alto, armar nossa barraca por lá e descer para ganhar energias para o ataque final. Depois, subimos novamente, agora com muito menos peso, pois a barraca já está no alto. Dormimos uma noite por lá e atacamos o cume. Estratégia perfeita, mas requer duas barracas, pelo menos para os dias em que a barraca estiver armada no alto e nós estivermos mais abaixo. Duas barracas ou uma barraca e um hotel! Bingo! Para quem vai de expedição paga, essa logística não é preocupação. Jamais vai ter de carregar barraca e sempre haverá alguma lhe esperando quando chegar em qualquer acampamento. Para quem vai sozinho como nós, ou carrega a barraca o tempo todo, ou leva duas barracas, ou conta com um hotel. Foi a nossa opção! Então, ainda em Mendoza, já compramos 3 noites de hotel e várias refeições. Por isso, além de ter de carregar menos comida aqui para cima, como éramos clientes deles, poderíamos usar o tempo todo suas instalações. Isso incluía a cozinha coletiva, as mesas do restaurante e o delicioso salão aquecido com um fogareiro. Foi aí que jogamos incontáveis partidas de crapô, um jogo de cartas, para passar o tempo. Também nos divertíamos na mesa de ping-pong, conhecíamos outras pessoas e, se pagássemos 10 dólares, tínhamos até direito a um rápido banho quente. Pequenos confortos como esses nos recompõe a energia e ajudam muito no desafio de subir a montanha.
Rumo ao Pico do Bonete, atravessando os gelos penitentes, nossa primeira caminhada de aclimatação na regiaõ de Plaza de Mulas, aos pés do Aconcágua, oeste da Argentina (temporada de 1998/99)
Rumo ao Pico do Bonete, atravessando os gelos penitentes, nossa primeira caminhada de aclimatação na regiaõ de Plaza de Mulas, aos pés do Aconcágua, oeste da Argentina (temporada de 1998/99)
Agora em 2014, descobrimos que esse hotel-refúgio foi desativado há alguns anos. Uma pena, pois a energia lá era muito boa, um pouco de conforto a 4.300 metros de altitude. Não tem preço! Em compensação, grandes agências montam seus próprios pequenos hotéis, sob lona, tanto em Plaza de Mulas como em Confluencia. Com chuveiro, cozinha e restaurante. Mas duvido que seja como era o hotel-refúgio. Espero, sinceramente, que ele seja reaberto nos próximos anos. Aparentemente, foi até dilapidado pelo último concessionário e a falta de manutenção vem mostrando seus efeitos. Mas a estrutura ainda está lá e um pequeno investimento o recuperaria. Ainda bem que não o vi nesse estado e minhas memórias são daquela doce temporada de 98/99.
Um pouco acima dos 5 mil metros, no cume do Pico do Bonete, na nossa primeira caminhada de aclimatação na região de Plaza de Mulas, parque do Aconcágua, oeste da Argentina (temporada de 1998/99)
Pois então, chegamos até ele, armamos nossa barraca e começamos a usufruir da mordomia, principalmente do calor acolhedor do fogareiro. A noite foi fria na barraca, mas tínhamos roupas o suficiente, nossa bagagem trazida pela mula já nos esperava por lá. Nem precisei tomar excedrin para dormir, mas o Haroldo tomou os seus. Na manhã do dia 31, acordamos bem e queríamos dar prosseguimento ao nosso processo de aclimatização. Para isso, precisávamos caminhar. A escolha óbvia, o que quase todos ali fazem, era subir em direção a Nido de Condores, o próximo acampamento no caminho até o cume. Nós conseguíamos ver a trilha de longe subindo a encosta do Aconcágua. Era amedrontadora, não por ser perigosa, mas pelo tamanho inacabável da tal encosta. Um infinito ziguezague segue encosta acima, as pessoas quase sumindo na distância, apenas pequenos pontinhos que mais pareciam formigas se movendo em câmara lenta. Saber que teríamos de subir aquela encosta várias vezes nos dava preguiça só de pensar. Saímos dos 4.350 metros de Plaza de Mulas para subir até os 5.550 metros de Nido. Tudo isso em um só ziguezague. É massacrante, só de ver.
Festa de reveillon no refúgio em Plaza de Mulas, o hotel mais alto do mundo, aos pés do Aconcágua, oeste da Argentina (temporada de 1998/99)
Foi quando o Eduardo apareceu para nos salvar. Ele era a pessoas que estava tomando conta do hotel-refúgio naquela temporada e conhecia muito bem a região. Sugeriu que subíssemos outra montanha, para variar. O Pico do Bonete tem 5.100 metros de altura e fica atrás do refúgio e de frente para o Aconcágua. Pode-se caminhar até lá em cima, trilha razoavelmente bem marcada. Uma opção muito melhor que a encosta para Nido. Prontamente compramos a ideia e fomos para lá no início da tarde, com a ideia de voltar assim que ficássemos demasiado cansados ou que a dor de cabeça atrapalhasse. Mas, na verdade, não foi assim. Mal demos os primeiros passos e já resolvemos tomar nosso excedrin. Dor de cabeça, ninguém merece! Um pouco mais adiante, cruzamos com os gelos penitentes, uma das marcas registradas dessa região. São pequenas torres de gelo que parecem caminhar em uma procissão, em fila indiana. Daí o nome, “penitentes”. São uma pequena geleira e podemos caminhar entre eles. Esses que vimos não eram grandes, dois metros no máximo, mas em outros lugares eles podem ficar bem maiores. Mais uma hora de caminhada e chegamos ao pé da montanha. Depois, foi só subir, subir e subir. No fim da tarde, cheguei ao cume, feliz. De volta aos 5 mil metros, uma marca bem importante nesse nosso caminho para o topo do Aconcágua, quase dois quilômetros mais alto. O Haroldo chegou um pouco depois, quando o tempo já tinha fechado. Nossa primeira nevasca nas alturas. Bom para testar nossas roupas! Quando começamos a descer, o tempo voltou a abrir e o Aconcágua, grandioso e magnâmico, apareceu na nossa frente. Que lindo! Difícil acreditar que poderíamos chegar lá no alto daquele gigante!
Trilha, pontos de parada e altitudes no caminho entre Plaza de Mulas e o cume do Aconcágua, na Argentina. Nós atacamos o cume desde Nido de Condores
Um ótimo último dia do ano para nós, mas ele ainda não havia acabado e iria melhorar. O hotel organizou um grande churrasco-festa de réveillon e a gente se esbaldou! Que privilégio, passar a última noite do ano naquele lugar, naquela altitude e com aquela festa. Do lado de fora, céu estrelado e o Aconcágua a nos observar. Foi mágico! Nossa noite se esticou e resolvemos tirar o dia seguinte, o primeiro do ano de 1999, de folga. Estávamos merecendo. Tudo o que fizemos, além de jogar crapô e nos esquentar no fogareiro, foi caminhar os 25 minutos até o acampamento de Plaza de Mulas. Fomos vestindo (e estreando) nossas botas duplas alugadas em Mendoza. Nossa... que dificuldade! Nada como um calçado mais leve e ágil. Foi um bom exercício, mas imaginar ter de calçar aquilo e caminhar até o cume do Aconcágua foi desanimador. Tanto que, no dia seguinte, na primordial etapa do “porteio”, deixamos as botas duplas para trás e voltamos para as muito mais confortáveis botas simples.
Montanhas nevadas cercam Plaza de Mulas, acampamento aos pés do Aconcágua, no oeste da Argentina (temporada de 1998/99)
De Plaza de Muilas, visão do vale do rio Horcones, no parque do Aconcágua, região de Mendoza, oeste da Argentina (temporada de 1998/99)
Pois é, o dia 2 foi nosso dia de porteio. Carregamos nossa barraca, sacos de dormir, comida e fogareiro mais de 1.200 metros verticais para cima, até Nido de Condores. Vencer aquela encosta e os infinitos vai-e-vens da trilha foi um sufoco danado. Chegando em Cambio Pendiente, 250 metros abaixo de Nido de Condores, e justamente aonde a trilha deixa de ser tão inclinada, achei que não conseguiria dar mais nenhum passo. Era a altitude pesando no coração e no pulmão. Achei que já estava bem por não ter de tomar mais excedrin, mas estava enganado. Enfim, o Haroldo seguiu na frente e, quando finalmente cheguei lá, ele já estava montando nossa barraca. Estávamos um pouco adiantados na temporada, o maior número de pessoas só vem depois do réveillon. Assim, eram apenas outras dez barracas no acampamento. A ideia do Haroldo era montar a barraca e descer, mas eu queria passar a noite por lá, dar uma forçada no processo de aclimatação. Não chegávamos a um acordo, mas São Pedro estava do meu lado e enviou uma nevasca que convenceu o Haroldo a ficar. Tivemos uma noite duríssima, o excedrin nos salvando da dor de cabeça, mas nada ajudando contra a sensação de falta de ar que tínhamos durante o sono. Acordamos diversas vezes arfantes, mas tenho certeza que o esforço acelerou bastante as mudanças necessárias no nosso metabolismo.
Iniciando a caminhada rumo a Nido de Condores, acampamento avançado na encosta do Aconcágua, no oeste da Argentina (temporada de 1998/99)
Acordamos dia 3 bem cansados. Minha ideia na noite anterior era acordar e caminhar até Berlin, quase aos 6 mil metros, um último exercício de aclimatação. Depois, voltaríamos diretamente para Plaza de Mulas, para o conforto do hotel-refúgio. Mas a noite mal dormida nos fez mudar de ideia. Nada de Berlin, desceríamos imediatamente. A cada passo para baixo, era como se mergulhássemos no oxigênio renovador. Um belo sanduíche de hamburguesa e o calor do fogareiro do hotel ajudaram mais ainda na nossa recuperação. O resto do dia foi devotado ao crapô e ao descanso. Aliás, o dias seguinte também. Duas noites com cama e colchão completaram nosso processo de recuperação de energias. No dia 6, cedinho, estávamos prontos para subir novamente. Mas, dessa vez, iríamos mais para o alto. O cume era o limite e nossa maior preocupação era que a barraca, com todo o nosso material dentro, tivesse resistido à noite de ventos muito fortes que tínhamos passado. Isso, só iríamos descobrir quando chegássemos lá em cima...
Pausa para descanso na subida entre Plaza de Mulas e Nido de Condores, acampamentos ao longo da trilha normal para o cume do Aconcágua, no oeste da Argentina (temporada de 1998/99)
Kalilandia, nosso hotel em Feira de Santana - BA
No mesmo dia em que exploramos Igatu e nadamos no Poço Azul, seguimos para Feira de Santana, a segunda maior cidade da Bahia, com cerca de 700 mil habitantes. Já tínhamos passado por Feira na ida para a Chapada, sem parar na cidade. A razão da volta agora, nos desviando do nosso roteiro rumo ao Piauí, foi a revisão dos 20 mil km da Fiona. A rede de concessionárias da Fiona não é muito grande aqui no Nordeste. Fora das capitais, apenas em Barreiras, muito longe e para o oeste e em Feira. Não seria possível chegar até Teresina sem estourar a quilometragem então, a solução foi voltar para Feira.
Aproveitamos então para resolver outras pendências, enquanto a Fiona se tratava. A Ana finalmente colocou no correio nossas justificativas de voto do segundo turno enquanto eu fui cortar o meu cabelo. Tivemos algum tempo para mexer na internet e fomos muito bem tratados na nossa pousada, o Kalilandia, no bairro de mesmo nome, homenagem a um turco comerciante do séc XIX que morava naquela região.
Com o James, do hotel Kalilandia, em Feira de Santana - BA
Passamos um certo calor na cidade, que já fica no sertão da Bahia. Mas achei engraçado que, ao comentar com um taxista que seguiríamos para Petrolina, em Pernambuco, ele respondeu "Nossa... lá faz um calooor!" E eu pensei com meus botões: "Se um cara de Feira diz que lá é que é calor, o negócio é sério!"
Mas a minha lembrança mais forte de Feira será, com certeza, o jantar que tivemos ontem de noite. A melhor carne de sol que já comi na vida, no restaurante "Paraíso da Carne de Sol". Uma delícia! A gente se esbaldou! O engraçado foi que, querendo "economizar", pedi um prato só para mim e a Ana. As porções são grandes aqui. O prato veio e era gigantesco. A gente se arrependeu de não ter pedido meia porção. Aproveitamos para comer e comer e comer. Aí, veio a conta e não é que estavam cobrando só meia porção mesmo! O garçom disse que ele tomou a iniciativa de pedir a meia; já sabia que era mais do que o suficiente!
Andando de jegue em estrada no interior da Bahia
E assim foi nossa passagem por Feira: gente simpática, comida muito boa, pendências resolvidas, Fiona renovada e muito calor. Rumo à Petrolina, em Pernambuco, em frente a um velho amigo nosso, o São Francisco!
A cidade de Rosário, na Argentina
Quem acompanha essa nossa jornada por todos os países das Américas sabe que, quando vamos a um país, gostamos muito de conhecer suas belezas naturais e seus sítios históricos, mas não só isso. Procuramos conhecer também as grandes cidades daquela nação, pois acreditamos que para realmente entender um país e seu povo, é necessário ir aonde vive a maioria da população, e este lugar são as ruas e praças das grandes metrópoles. Além disso, é sempre nessas cidades onde se encontra os melhores restaurantes, os mais importantes museus e monumentos, a vida noturna mais agitada, os mercados mais interessantes.
Mapa mostrando as cinco miores cidades argentinas: Buenos Aires, Córdoba, Rosario, Mendoza e Tucumán. Nós passamos por todas elas!
Assim está sendo na Argentina. Das cinco maiores cidades do país, já havíamos estado na 5ª (Tucumán), na 4ª (Mendoza) e na 2ª (Córdoba), além de outras grandes cidades, como Corrientes, San Juan e Salta. Agora chegamos à 3ª (Rosário) e daqui, claro, seguimos para a maior de todas, Buenos Aires.
Arquitetura clássica em Rosário, na Argentina
A cidade que agora chegamos, Rosário, não é nem a capital de província (que por aqui é Santa Fé, um pouco adiante seguindo rio acima), mas é a segunda cidade mais rica do país, atrás apenas da capital. Toda essa riqueza vem do seu porto fluvial, já que a cidade está às margens do poderoso rio Paraná. Essa excelente localização não só atraiu a industrialização da região (pelas facilidades de transporte pelo rio) como também a exportação da produção agrícola e pecuária de toda a região central da Argentina.
Uma das igrejas em Rosário, na Argentina
No sentido inverso da riqueza (exportação!), chegaram por esse mesmo porto dezenas de milhares de imigrantes, principalmente na virada do séc. XIX para o XX, provenientes da Europa, desembarcando diretamente em Rosário. A população da cidade multiplicou por 10 em duas décadas e foi nessa mão-de-obra diversificada e multilíngue que se assentaram as bases da industrialização da cidade. Em compensação, durante as crises econômicas mundiais, era justamente Rosário, por sua economia estar tão ligada ao mercado externo, uma das cidades argentinas mais afetadas. Assim como ocorreu durante o processo de desindustrialização ocorrido durante o governo Menem, mais recentemente.
Igreja e o Palacio de Los Leones (prefeitura), em Rosário, na Argentina
Pois é, foi nessa cidade onde nasceram Che Guevara e o jogador de futebol mais premiado dos últimos tempos, Messi, que chegamos no início da tarde, vindos de Villa Nueva. Com o dia a mais que ficamos naquela cidade e na pressa que estamos para chegar a Buenos Aires, não podíamos perder mais tempo. Assim, tratamos de nos instalar rapidamente em um hotel no centro da cidade e sair a pé para começar nossas explorações da paisagem urbana local. Aqui, como em todas as outras metrópoles hermanas que passamos, os nomes de ruas, avenidas e praças mais importantes homenageiam as mesmas pessoas e eventos, quase sempre relacionadas à história do país no séc. XIX. De tanto ver esses nomes, praticamente já os decoramos. Mas, afinal, quem foram eles?
O grandioso Monumento Nacional da Bandeira, em Rosário, na Argentina
Monumento Nacional da Bandeira, em Rosário, na Argentina
A Argentina e quase todos os países da América do Sul eram colônias espanholas no início do séc. XIX. Era a época das guerras napoleônicas no velho continente e, após uma tensa aliança que durou alguns anos, a Espanha se rebelou contra a liderança francesa e acabou invadia e conquistada pelas tropas de Napoleão, que instalou no trono ibérico o seu irmão. Foi a gora d’água para que várias nações latino-americanas se rebelassem, dizendo-se aliadas ainda do antigo monarca agora preso, mas livres da dominação dessa nova Espanha. Na Argentina, mais precisamente em Buenos Aires, sede do Vice-reinado do Prata (uma das divisões espanholas aqui na América), a notícia da conquista napoleônica da metrópole e a decisão por seguir um caminho independente se deu em Maio de 1810. Por isso, encontramos tantas alusões e homenagens a este mês, como na famosa Plaza de Mayo, a principal da capital federal.
Visita ao Monumento Nacional da Bandeira, em Rosário, na Argentina
A chama que nunca se apaga no Monumento Nacional da Bandeira, em Rosário, na Argentina
Pois bem, algumas importantes batalhas foram lutadas aqui, entre os que defendiam esse movimento e aqueles que queriam continuar ligados à Espanha, mesmo sob domínio napoleônico, quase sempre com vitória dos primeiros. Acontece que Napoleão perdeu a guerra e o antigo monarca voltou ao trono. Mas agora, as nações sul-americanas já haviam sentido o gosto da liberdade e queriam mesmo a independência total, com ou sem Napoleão. No caso da Argentina, essa declaração foi feita durante um congresso reunido na cidade de Tucumán, no ano de 1816. A data: 9 de Julho! Eis aí a razão desse dia ser tão celebrado entre os hermanos, inclusive com a mais larga avenida do mundo, lá em Buenos Aires.
O grandioso Monumento Nacional da Bandeira, em Rosário, na Argentina
Prédio de apartamentos ao lado do Monumento Nacional da Bandeira, em Rosário, na Argentina
Interessante lembrar que este congresso não representava a Argentina de hoje, mas apenas uma coleção de províncias espalhadas por Argentina e Alto Perú, como era conhecida a Bolívia daquela época. Eram as chamadas “Províncias Unidas da América do Sul”, certamente inspiradas pelos primos ricos da América do Norte. Esse “país” que havia nascido na “Revolução de Maio” advogava uma nação com poder centralizado. A ele se opunha outro grupo de províncias, a “Liga federal”, que incluía até o Uruguay. Estes defendiam um maior poder local. Seus delegados nem participaram do Congresso de Tucumán. Durante a guerra que se seguiu, as províncias do Alto Perú se perderam e acabaram se juntando ao próprio Perú, inicialmente, para depois se transformarem na Bolívia. O Paraguay também acabou “desgarrando” desse grupo. Por fim, vencida a Espanha, foi a vez das “Províncias Unidas que restaram” e a Liga Federal” se enfrentarem, com vitória desses últimos. Por isso, nas suas primeiras décadas de existência, a Argentina era mais uma coleção de províncias “amigas”, mas com forte autonomia local, do que um país fortemente unido, com um poder central dominante.
Monumento à bandeira e o rio Paraná ao fundo, em Rosário, na Argentina
Bom, explicado as datas, vamos aos nomes! A própria luta pela independência gerou dois dos mais populares nomes de ruas e praças país afora: Belgrano e San Martín. O General Belgrano foi o primeiro grande líder militar das guerras de independência, com vitórias muito importantes no norte do país. Mas também teve suas derrotas, principalmente no Alto Perú e no Paraguay. Por isso, os líderes políticos do país que nascia passaram o controle das ações de guerra a outro militar, o General San Martín. Como Belgrano, ele também havia se educado na Europa e estava familiarizado com os novos ideais políticos que varriam aquele continente. Mas ao contrário de seu compatriota, vislumbrou outro caminho para se chegar até o poder central dos espanhóis na América do Sul, que ficava no Perú. Belgrano tentou chegar até lá através da atual Bolívia. San Martín resolveu seguir pelo Chile! Lá, junto com O’Higgins, libertou aquele país e seguiu para o norte onde, junto com Bolívar, venceu o último bastião das forças realistas espanholas. O interessante é que ambos, San Martín e Belgrano, defendiam o sistema da monarquia, o que não foi implantado na Argentina. Belgrano, inclusive, chegou a propor que o novo monarca fosse um descendente dos antigos Incas, e que a capital da nova nação fosse Cuzco, no Perú. Ou seja, assim como San Martín e o próprio Bolívar, sonhava com uma única grande nação hispano-americana.
A sempre presente declaração de soberania das Ilhas Malvinas, em Rosário, na Argentina
Pois é, mas nem a história nem seus compatriotas quiseram assim. A Argentina se tornou uma república cheia de divisões internas. Federalistas contra Unitaristas. O poder central de Buenos Aires contra o poder local das províncias. Cada província com seu próprio líder, os chamados “caudillos”, uma prática (e uma praga!) que se perpetuaria pela eternidade por toda a América Latina. Líderes carismáticos e populistas, salvadores da pátria muitas vezes se tornando ditadores sanguinários. E assim foi com o primeiro deles, Juan Manuel Rosas.
(continua...)
Cerveja muito popular na Argentina (em Rosário)
Mapa exposto na Ponta do Seixas, em João Pessoa - PB
Ontem ficamos amigos de duas hóspedes da nossa pousada, as recifences Cristina e Cristiana, mãe e filha. A conversa começou nas águas mornas da piscina, regada a caipirinha. Continuou pelo jantar, embalado com crepes. E se esticou no quarto delas, ajudado por champagne. Eu me recolhi mais cedo, por volta da meia-noite. Mas a Ana praticou um de seus esportes prediletos, a socialização, e a conversa com a Cristiane foi até às quatro da manhã.
Rio ao lado de nossa pousada na praia de Tabatinga, em Jacumã, distrito de Conde - PB
Assim, no dia seguinte, acordei sozinho e fui "compensar" as caipirinhas do dia anterior: primeiro, nadando pelo rio até o mar. Uma delícia! Só é difícil não pensar em crocodilos, principalmente num rio todo margeado de mangues. Bom, não há crocodilos na Paraíba e 300 metros mais tarde eu estava no mar. Aí fui caminhando/correndo através da praia de Tabatinga, da maravilhosa Tabatinga 2, com suas falésias gigantes e pela praia de Coqueirinho, uma das mais belas da Paraíba. Pena que não tinha máquina fotográfica... Além do rio, a chuva também atrapalharia. Pois é, também chove no litoral da Paraíba...
Visitando as falésias de Tabatinga, em Jacumã, distrito de Conde - PB
Voltei para o hotel e era quase meio-dia quando fui fotografar a Ana nadando no rio. Foi lá que ela acordou de vez! Depois, a gente se despediu das novas amigas e também do Almir, o simpático "faz-tudo" da Pousada dos Mundos.
Despedida da Pousada Dos Mundos e da Cristina, Cristiane e Almir, em Jacumã, distrito de Conde - PB
De Fiona, nós fomos até a Praia de Coqueirinho e, caminhando, até a Tabatinga 2 e suas falésias. A Ana também ficou impressionada com a beleza da praia, fizemos o devido registro fotográfico e partimos para João Pessoa.
Caminhando pela praia do Coqueirinho, em Jacumã, distrito de Conde - PB
Viagem bem curtinha e logo estávamos na Ponta do Seixas, o ponto mais oriental do Brasil e de todo o continente. Ficamos ali a observar o horizonte onde o sol se levanta mais cedo. Impossível não ceder a tentação e tentar achar a África. Na verdade, João Pessoa está mais próxima do Senegal do que de Porto Alegre. Mesmo assim, não deu para ver não. Quem sabe do alto do farol do Cabo Branco, logo ali atrás? É, inaugurado por Médici há 40 anos, não seria esse o farol livre para acesso de turistas...
Estação Cabo Branco, espaço cultural em João Pessoa - PB
Bem perto da Ponta do Seixas visitamos, este sim aberto à visitação, o belo espaço cultural Estação Cabo Branco. Lá, além da arquitetura interessante e de um ótimo mirante para se observar João Pessoa, ainda visitamos galerias de arte. Um pouco de cultura depois de tanta natureza...
Bela versão da Última Ceia, na Estação Cabo Branco, em João Pessoa - PB
Finalmente, perdemos mais de uma hora para encontrar vaga em hotel. É o verão... Enfim, instalamo-nos no Victory, bem na pontinha da Tambaú. E já temos programa para a noite de amanhã: show de Margarete Menezes, na faixa, na praia! Oba!
Na Ponta do Seixas, em João Pessoa - PB. O ponto mais oriental das américas.
A grotesca paisagem vulcânica, pouco mais de um ano após a erupção do vulcão Pacaya, próximo à Antigua, na Guatemala
Desde que saímos do Brasil e atravessamos o Paraguai, sul da Bolívia e norte da Argentina para chegarmos ao Chile que os vulcões se tornaram uma constante em nossos horizontes. Ao longo de toda a costa do Pacífico, do Chile à América Central, essas enormes montanhas em forma de cone, algumas adormecidas, outras bem vivas, são personagens centrais da história das regiões onde estão e dos povos que ali habitam ou habitaram.
O Vulcão de Fogo, próximo à Antigua, na Guatemala
Para nós brasileiros, que não temos nada parecido em casa, essas incríveis formações geológicas ainda exercem um fascínio maior, pelo seu exotismo. Bom, no caso meu e da Ana, depois de ver quase cem deles em cerca de cinco meses, posso dizer que já estamos meio acostumados. Mas, é só nos distrairmos um pouco e o gigantesco vulto do vulcão na janela já nos impressiona novamente.
A grandiosa paisagem com duas encostas vulcânicas observadas do vulcão Pacaya, próximo à Antigua, na Guatemala
Aqui em Antigua não apenas um, mas vários imponentes vulcões cercam a cidade. Dois ativos e dois dormentes, tem para todos os gostos. Um tem o sugestivo nome de Volcán del Fuego, pois é muito fácil observar, principalmente de noite, nos períodos mais ativos, as luzes das lavas e faíscas que ele expele. Muitas pessoas escalam o seu vizinho, o tranquilo Acatenango, para poder observar o “fuego” do vizinho com mais segurança.
Início da caminhada no vulcão Pacaya, próximo à Antigua, na Guatemala
Outro vulcão, também em repouso, se chama Volcán del Agua. Ficaríamos tentados a imaginar que esse é menos perigoso que seu irmão raivoso. Triste ilusão. Na verdade seu nome vem do fato que volta e meia uma enorme enxurrada desce lá de cima arrasando tudo em seu caminho. A explicação é que uma lagoa se forma em sua cratera com a água das chuvas. Quando enche muito, ela transborda, destrói parte da parede da cratera e milhões de litros de água descem as encostas se transformando numa corrente de barro e pedras mortal.
Fenda por onde passava o rio de lava do vulcão Pacaya, próximo à Antigua, na Guatemala
O quarto vulcão é o Pacaya, que entrou em erupção há pouco mais de um ano. Nos meses que antecederam a erupção explosiva, rios de lava desciam as encostas e faziam a alegria dos turistas. Vimos fotos incríveis de pessoas a poucos metros da corrente de pedras ardentes, sorrisos estampados em suas faces. Alguns meses depois da explosão (maio de 2010), os rios de lava secaram e esfriaram, mas suas marcas ainda estão bem claras.
Com o Byron, que nos guiou no vulcão Pacaya, próximo à Antigua, na Guatemala
Com tantos vulcões à nossa disposição, tínhamos de visitar algum! Escolhemos o Pacaya, com uma caminhada mais tranquila e um cenário mais, como posso dizer? ... vulcânico! Fica a cerca de 40 min de carro de Antigua e, no caminho, passamos por entre o Vulcão de Fogo e o Acatenango. Ao perguntar sobre o caminho a seguir no estacionamento onde estava a Fiona ficamos conhecendo o simpático Byron, que se ofereceu para ir conosco. No caminho, ainda foi nos dando informações e contando histórias da região, principalmente sobre as inundações causadas pelo Vulcão de Água.
Caldeira de lava com pouco mais de um ano de idade, no vulcão Pacaya, próximo à Antigua, na Guatemala
Chegando ao Pacaya, é obrigatório a contratação de um guia local. Adivinha o nome do nosso? Byron! Pois é, acompanhados dos dois Byrons seguimos vulcão acima. O Byron do Pacaya foi nos contando sobre como foi a última erupção. Ele e vários outros colegas estavam em um mirante bem próximo, observando os rios de lava que pareciam estar maiores. Junto com els, um grupo de jornalistas. Foi quando começou a erupção, enormes pedras de fogo e cinzas ferventes sendo arremessadas pelo ares a centenas de metros de altura e caindo com força mortal. O grupo que estava lá perto mal teve tempo de pensar. Desceram em disparada a montanha, se desviando da chuva ardente, numa legítima e literal corrida pela vida. Um dos jornalistas não teve sorte, foi atingido e morreu.
Esquentando-se numa das fontes de calor no vulcão Pacaya, próximo à Antigua, na Guatemala. Sinal de que a lava ainda está ali perto!
Hoje o ambiente era mais tranquilo, exceto pelo forte vento e clima nebuloso. Quando mais subíamos, pior ficava. Cruzamos aquela paisagem absolutamente extraterrestre, nenhuma planta, nenhum verde, apenas pedras para todos os lados. O Byron nos mostrou o antigo leito do rio de lava e o ponto em que ele fez um túnel. Aliás, numa dessas câmaras a gente se abrigou por um tempo, um calor bem gostoso vindo da terra. De pensar que há pouco mais de um ano aquilo estava repleto de lava... Um pouco mais adiante e chegamos a uma reentrância na terra onde o calor era ainda maior. Com um espeto grande, é até possível fazer um churrasco! Mas, não indo tão fundo, o calor foi ótimo mesmo para esquentar nossas mãos semicongeladas!
Caminhando em meio à fantasmagórica paisagem vulcânica no vulcão Pacaya, próximo à Antigua, na Guatemala
Restos da última erupção do vulcão Pacaya, próximo à Antigua, na Guatemala
Voltamos cruzando aquela incrível e desoladora paisagem novamente. A neblina conferia um ar ainda mais fantasmagórico ao local, apenas as cores de nossas roupas dando um pouco de vida na paisagem. Enfim, baixamos do nível das nuvens e o verde lá embaixo pareceu mais bonito e mágico do que nunca! É, eu gosto de vulcões. Mas gosto mais da vida!
Fenda criada por rio de lava em Junho de 2010, no vulcão Pacaya, próximo à Antigua, na Guatemala
Homenagem a Che em Santa Clara, em Cuba
Nosso ônibus saiu no horário de Santiago de Cuba e a maioria dos passageiros era estrangeira. Também, para poder pagar 51 CUCs pela passagem, o dobro do salário mensal de um cubano, só mesmo quem tem suas economias em moeda forte. Todos devidamente agasalhados, já que é conhecido o frio que se faz nos ônibus da Via Azul, com seus potentes ar condicionados. Há outras companhias que oferecem passagens mais baratas, mas o tempo de viagem é mais longo. Tem também o trem, que anuncia a viagem em 16 horas, mas muitas vezes demora dois dias. Todos os cubanos que conversamos nos disseram para a gente fugir do transporte ferroviário. Por fim, essa é a maneira que a maioria dos cubanos viaja, tem o caminhão, uma espécie de pau de arara do Caribe. Acho que teria sido a escolha na minha época de estudante, hehehe. Tempos “românticos”...
Esperando o trem passar, na viagem entre Trinidad e Camaguey, em Cuba
As primeiras horas da viagem passaram bem, todos dormindo enquanto o motorista nos levava através das estradas quase desertas. Mas, no meio da madrugada, todos acordamos com uma densa fumaça dentro do ônibus. O motorista encostou numa praça de uma cidade atravessada pela estrada e todos descemos apressadamente. Apesar do susto, o problema era “só” com o ar condicionado. Após retirar a fumaça e desligar o ar, voltamos à estrada. No fim, foi até bom, pois o motorista resolveu acelerar, já que durante o dia a temperatura interna do ônibus, de janelas fechadas, esquentaria muito. Não sei se por essa pressa ou não, mas nossa única parada com direito à rápida descida para café foi em Santa Clara, a principal cidade entre Santiago e Havana.
Parada na rodoviária de Santa Clara, em Cuba
Aí havia estado há dez anos, em visita ao memorial do mais celebrado herói da revolução, o argentino Ernesto Che Guevara. Nessa viagem de agora, não paramos na cidade no nosso caminho para Santiago, pois não há muito o que ver por lá, além do Memorial. E para quem gosta de história, as informações sobre a vida desse famoso revolucionário estão em toda parte, na ilha, nos livros e na internet. O tal Memorial é mesmo só para aficionados.
Salão da rodoviária de Santa Clara, em Cuba
Che Guevara, ainda estudante, fez duas grandes viagens pelo continente, a primeira delas retratada no filme “Diários de Motocicleta”. Ficou compadecido com a situação de miséria em que vivia o povo dos países que visitou. Depois de voltar para casa e se formar médico, colocou o pé na estrada novamente, indo parar na Guatemala no início da década de 50, onde um governo de tendência esquerdista promovia uma reforma agrária e outras reformas sociais. Acompanhou de perto como militares guatemaltecos ajudados e treinados pela CIA derrubaram esse governo, estabelecendo um sangrento governo ditatorial que duraria décadas. Essa experiência mudaria para sempre suas convicções, tendo cada vez mais certeza que apenas uma revolução seria capaz de levar o povo ao poder e defender-se das ingerências imperialistas.
Che, sempre presente nas ruas de Havana, capital de Cuba
Perseguido pelo novo governo da Guatemala, fugiu para o México, onde acabou entrando em contato com o cubano Fidel Castro, que em autoexílio, tratava de organizar um exército para derrubar o governo de Batista em seu país. Che se animou com a possibilidade e juntou-se ao grupo. Rapidamente se destacou nas “aulas de guerrilha e combate”, ministradas por um veterano da Guerra Civil Espanhola.
Livros à venda nas ruas do centro de Havana, capital de Cuba
Che realmente foi um bom aluno e a prova disso é que foi um dos únicos 11 sobreviventes do catastrófico desembarque do Granma em Cuba, no início de Dezembro de 56. Outros 70 morreram ou foram presos, um início desalentador para a revolução imaginada por Fidel. Che embarcou no Granma como médico, mas logo nesse primeiro combate, ao ver um companheiro cair morto e decidir carregar a munição que esse levava, deixando para trás seu equipamento médico, largou de vez a medicina para virar soldado.
Propagandas do socialismo, muito comum nas ruas de Havana - Cuba
Pelos próximos 23 meses, provou seu valor na Sierra Maestra, não só liderando ações militares, mas também promovendo a alfabetização da população local, organizando “fábricas” de armamentos para os rebeldes e ajudando a colocar no ar a Rádio Rebelde, importante arma na guerra de propaganda e informação contra o governo Batista, que mantinha sob forte censura a imprensa do país.
Che Guevara continua arrebatando corações! (em Havana - Cuba)
Elevado ao cargo de “comandante” por Fidel Castro, Che era um duro chefe. Requeria o máximo de seus comandados e não titubeava em fuzilar traidores. Ao mesmo tempo, comunista convicto, vivia e dividia tudo o que tinha com seus homens, não aceitando nenhum tipo de regalia e estando sempre na linha de frente do combate. Em Novembro de 59, liderou uma das colunas que cruzou o país, da Sierra Maestra à Havana. No caminho, muitas batalhas, a mais famosa delas a tomada de Santa Clara.
A figura de Che, sempre presente! (em Cienfuegos, em Cuba)
Foi aí que se deu a batalha decisiva da revolução. Com muito menos homes que o exército de Batista, mas com a moral muito mais elevada, a coluna de Che tomou um trem repleto de armas e soldados enviados pelo ditador para proteger a cidade. Foi uma batalha rápida, quase sem mortos, a tropa oficial amedrontada logo se rendendo. No dia seguinte, Batista fugiria do país, levando consigo parte das reservas do Banco Central. Passou o resto de sua vida recolhido em sua mansão na Espanha (passou também por Portugal), morrendo no início da década de 70. Quanto à Che e sua coluna, seguiram triunfantes para Havana, onde foram recebidos em festa.
Arte com a figura de Che Guevara em galeria de Trinidad, em Cuba
Transformado em cidadão cubano, Che acumulou vários cargos no governo revolucionário, a segunda pessoa mais importante do regime. Seu maior sucesso foi na campanha de erradicação do analfabetismo no país, feito conseguido em apenas um ano. Mas, no campo econômico, suas ações, movidas por seu idealismo comunista, não deram muito certo, não. Insistia que as pessoas deveriam tabalhar tendo como estímulo o bem comum, e não por prêmios em salários. Estabelecia cotas de produção e, quem as superasse, ganhava um “diploma de honra ao mérito”, e não um bônus monetário. Quem ficasse abaixo, aí sim, tinha o salário cortado. O resultado foi uma enorme queda de produção na economia cubana.
Interior de galeria de arte em Trinidad - Cuba
Após alguns anos de tentativas e erros na economia do país e de uma agressiva atuação na diplomacia internacional, Che simplesmente desapareceu. Ele foi um dos maiores incentivadores da instalação dos mísseis soviéticos em Cuba e ficou furioso com o desfecho da crise. Passou a criticar os soviéticos, alinhando-se mais com o comunismo da China de Mao, então rival de Moscou. Mas já era Moscou que sustentava a economia Cubana e isso gerou “desconfortos”.
Propaganda pró-revolução nas ruas de Camaguey, em Cuba
O fato é que Che deixou o governo cubano e, muitos meses mais tarde, reapareceu no Congo, lutando ao lado dos guerrilheiros de Kabila. Poucos meses de luta no continente africano o deixaram desiludido com a capacidade de luta e reais convicções de seus novos companheiros. Mal sabia ele o desastre que seria quando Kabila chegasse ao poder, três décadas mais tarde. Não viveria para isso...
Che com Fidel, nos primeiros tempos do governo revolucionário
Pouco tempo depois de sua aventura africana, voltou ao continente de origem. Idealizou e imaginou transformar os Andes na nova Sierra Maestra e fazer uma revolução socialista em todo o continente sulamericano. A Bolívia seria apenas o ponto inicial. Infelizmente para ele, a realidade nua e crua foi muito mais dura que seus sonhos. Nos meses de luta na Bolívia, a luta não seguiu como imaginava, conseguiu poucos adeptos e resultados. Recebeu menos apoio que pediu de Cuba, não se entendeu com os comunistas bolivianos e, provavelmente traído, acabou capturado pelo exército do país, ajudado pela CIA. No dia seguinte seria executado, perdendo a vida e ganhando um lugar para sempre no panteão de mártires da esquerda mundial.
A famosa foto de Che morto na Bolívia
Para muitos, Che morreu na hora certa. Antes que envelhecer, engordar (quem sabe, “enricar”) e, possivelmente, perder aquela imagem idealizada do revolucionário perfeito. Mas, mesmo para aqueles que não concordam com suas ideias e seus métodos (entre eles, a longa fila de mortes em seu currículo), acho difícil não admirar a coragem e convicção de largar uma vida garantida de segurança e conforto em Cuba para se embrenhar novamente na mata e nos rigores de uma vida de combate, tudo para lutar por seus ideais de um mundo sem diferenças sociais.
Che se tornou um grande admirador dos "puros"
Bom, talvez por isso ele estampe camisetas de jovens por todo o mundo. Além de outdoors por toda Cuba, sempre acompanhado de mensagens de autoajuda ou frases de efeito. Algo me diz que ele não gostaria muito disso. Se ainda estivesse vivo, como seria? Nunca saberemos… Passei as horas restantes de nossa viagem até Havana pensando na vida desse mito. É, ninguém pode negar, o “hermano” viveu sua vida intensamente...
A mais famosa foto de Che Guevara, tirada por Alberto Korda, durante cerimônia em Havana
Nadando em volta da Corveta em Fernando de Noronha - PE
A corveta é um tipo de navio militar. No final da década de 80, uma corveta da marinha brasileira bateu no "Cabeço da Sapata", bem na ponta de Fernando de Noronha. O Cabeço fica a alguns metros da superfície e fez um belo de um rasgo no casco da corveta, condenando o navio. Houve tempo suficiente para que a tripulação saísse do barco com seus principais pertences. Depois, mergulhadores da marinha retiraram do naufrágio aquilo que achavam que devesse ser retirado. Finalmente, para alegria dos mergulhadores civis, o barco foi "liberado" para visitas.
Preparando-se para mergulhar na Corveta, em Fernando de Noronha - PE
Ele está afundado de pé, sobre uma planície de areia a quase 60 metros de profundidade. Com a visibilidade excepcional das águas de Noronha, basta que afundemos um pouco para que começemos a vislumbrar uma sombra escura no fundo do mar. Um pouco mais fundo e a figura de um navio começa a se delinear. Mais fundo ainda e conseguimos ver o barco por inteiro, um ambiente ao mesmo tempo fantasmagórico e maravilhoso, silencioso e movimentado, já que o barco passou a atrair diversas tipos de peixes e crustáceos.
Descida para a Corveta em Fernando de Noronha - PE
Com o passar dos tempos, a atividade de mergulho, relativamente nova na história do homem, aprendendo com seus próprios erros, passou a ser mais rigorosa. Para mergulhar na corveta de Noronha cada vez são exigidos mais certificações e cursos preparatórios, tudo em prol da segurança de seus praticantes. Essa maior exigência ao longo dos anos foi o motivo primeiro de eu ter feito mais mais cursos de mergulho. De certa forma, foi a Corveta que guiou meus passos nesta área.
Deixando os stages do lado de fora da Corveta em Fernando de Noronha - PE
Na minha primeira vez em Noronha, como mergulhador básico, não me deixaram ir na Corveta. Tornei-me Avançado para poder descer lá, mas quando cheguei de volta à Noronha, as exigências já tinham aumentado. Pois bem, lá mesmo fiz o curso de Nitrox e desci pela primeira vez. Um espetáculo! Mas foi um mergulho muito rápido, porque descemos respirando ar normal o que traz a narcose nessa profundidade. Na descompressão, o nitrox e uma arraia manta gigantesca e inesquecível que acompanhou eu e meu guia Fernando por mais de 20 minutos. Na segunda descida, anos mais tarde, já tinha o curso de trimix. Agora acompanhado da Ana e do nosso eterno guia Fernando, pudemos ficar mais tempo lá embaixo, mas apenas do lado de fora. Para entrar, era preciso o curso técnico.
Sanitário no interior da Corveta em Fernando de Noronha - PE
Hoje, quatorze anos depois de ter ouvido falar da corveta pela primeira vez e dela começar a frequentar os meus sonhos, estava pronto para conhecê-la por dentro. Eu, a Ana e o Fernando fomos descendo aquele cabo que nos leva através do azul infinito até que a sombra da corveta apareceu. O Haroldo ficou mais acima, observando tudo do cabo. Como mergulhador básico com performance muito elogiada, ele pode fazer o que é chamado de "Aventura Profunda" e descer até os 40 metros para, pelo menos, poder vislumbrar o naufrágio por inteiro.
Roupas penduradas em cabides no interior da Corveta em Fernando de Noronha - PE
Enquanto isso, eu e a Ana deixávamos nossos cilindros de stage (que nos ajudariam na descompressão, durante a subida) do lado de fora do barco e entramos nele atrás do Fernando que foi nos mostrando os diversos compartimentos. O ambiente é muito mais fantasmagórico do que do lado de fora. Na verdade, muito mais do que todos os outros naufrágios que já conheci. É possível ver roupas penduradas em seus cabides; telefones e interfones ainda em seus suportes; banheiros com portas semi abertas e as privadas com suas tampas; mesas com louça desarrumada vagando pelo cômodo. Tudo isso num local escuro mas muito bem iluminado pelas nossas lanternas e com peixes e camarões como frequentadores. Nem é preciso dar asas à imaginação para ver marujos e oficiais passando por ali. Mas agora, aquele ambiente é dos peixes. Estranhos no ninho somos nós, mergulhadores.
Nadando em volta da Corveta em Fernando de Noronha - PE
Com todo o cuidado e curiosidade fomos transitando pelos quartos, cabines, banheiros e copas. Depois, de volta para o azul infinito do lado de fora. Um passeio pelo deck e pelos canhões antes da lenta subida com muitas paradas para descompressão, aceleradas pelo uso de misturas enriquecidas com oxigênio. Lá encima nos aguardava o Haroldo, que tinha conseguido ver a luz de nossas lanternas explorando o naufrágio.
Um grande badejo nada na Corveta em Fernando de Noronha - PE
Achei que tivesse, nessa visita, finalmente matado o vírus da curiosidade pela corveta. Engano meu! Ele apenas mudou de lugar. Saiu de mim e migrou para meu primo.
O haroldo nos aguarda na subida da Corveta em Fernando de Noronha - PE
Enquanto o vírus se instalava na sua nova casa, voltávamos pensativos para o porto. Mas não estávamos sós! Como que para comemorar o grande dia, fomos escoltados pelas personagens principais dos mares de Noronha: golfinhos rotadores. Foi uma grande e memorável manhã!
Golfinhos acompanham nosso barco em Fernando de Noronha - PE
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