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No Paso de Jama, fronteira entre Argentina e Chile, a 4.400 metros de altitude
Hoje era o dia de deixarmos a Argentina e entramos no Chile. Sem querer correr riscos, saímos cedinho de Susques em direção à fronteira, cem quilômetros à frente. Difícil mesmo foi enfrentar o frio. O termômetro da Fiona marcava seis graus negativos na hora da saída!
A linda paisagem do Paso de Jama, ntre Argentina e Chile
Para variar, a paisagem era magnífica. Cruzamos mais um salar, muitas montanhas e chegamos, finalmente, ao Paso de Jama. Ali vencemos as burocracias normais de saída de um país e entramos na fila. A fronteira entre os dois países está funcionando num esquema especial, devido ao excesso de neve no lado chileno. Só passa quem chega lá até às 10:30, hora em que a fronteira abre e os carros e caminhões que cumpriram o horário limite e as burocracias podem entar no Chile.
A Fiona enfrenta seu frio recorde, pouco antes de chegar ao Paso de Jama, fronteira entre Argentina e Chile
Aí, por uns 20 km, podemos dirigir, parar e fotografar ao nosso bel prazer. E paisagens impressionantes não faltam! Salares, lagoas congeladas, montanhas nevadas, vastidões inexploradas, tudo pedindo para ser fotografado e filmado.
No Paso de Jama, fronteira entre Argentina e Chile, a 4.400 metros de altitude
Aí, chegamos a um bloqueio dos carabineiros (a polícia daqui) chilenos. Neste ponto, todos os carros e caminhões que passaram a fronteira são reunidos e seguem em comboio por uns 40 km, guiados pelo carro da polícia. Em muitos pontos, a neve tomou conta da estrada e só meia pista está aberta. Em outros, só usando um desvio.
Nosso primeiro salar no Chile, a caminho de San Pedro de Atacama
Lindas lagoas na puna chilena, a caminho de San Pedro de Atacama
Ao nosso lado vão aparecendo antigos vulcões, uma visão que encanta qualquer brasileiro, já que não estamos acostumados com isso. Junta-se a isso a neve e o gelo e parece que estamos em outro planeta. Mas é apenas o Chile, país muito perto do Brasil!
Comboio para enfrentar a neve no lado chileno da fronteira
A estrada ainda ganha bastante altitude, chegando aos 4.750 metros, novo recorde da Fiona. Aliás, o segundo do dia, pois o termômetro chegou a marcar nove graus negativos! Quando finalmente começamos a abaixar o carro da polícia nos deixa passar e o comboio se dispersa. Lá embaixo, numa enorme planície, avistamos o deserto do Atacama pela primeira vez. Ele está uns 50 km à frente e 2 km abaixo. Mas a dimensão do deserto e das montanhas e a limpeza do ar nos engana e tudo parece muito mais perto.
Trator limpa a estrada entre o Paso de Jama e San Pedro de Atacama, no Chile
Os olhos não querem acreditar mas o relógio não mente. São quase 30 minutos de descida sem curvas, saindo dos 4.500 metros e chegando nos 2.500 metros de altitude do Atacama. Chegamos diretamente na cidade de San Pedro, onde finalmente é feita a aduana chilena. Nós e a Fiona somos legalizados no Chile, o vigésimo-segundo país desse nosso giro pelas Américas. Deixamos a nossa querida Argentina para trás, por onde ainda vamos viajar bastante nessa viagem, e chegamos ao Chile, país com atrações naturais que atrai turistas do mundo inteiro. Agora, temos de achar um hotel e começar logo nossas explorações por esse lugar mágico que é o Deserto do Atacama.
A primeira visão do deserto do Atacama, 2 mil metros abaixo de nós, no Chile
Criança faz malabarismo com fogo durante festa na praia de Little Beach, ao sul de Kihei, em Maui, no Havaí
O voo entre as vizinhas Big Island e Maui, no pequeno bimotor da empresa regional, dura cerca de meia hora. Foi com tristeza que vimos a Big Island ficar para trás, tantas coisas ainda por ver e fazer, mas com felicidade sobrevoamos Maui, nossa segunda ilha nesse tour pelo Havaí. Aqui, amanhã de noite, se juntarão a nós a Laura e o Rafa, nossos queridos padrinhos e companheiros de viagem em ilhas no meio dos oceanos.
Maui e as ilhas adjacentes, no Havaí
Maui é a segunda ilha mais nova do Havaí, após a caçula Big Island. Já se afastou do hotspot que cria as ilhas do arquipélago, mas não ainda a uma distância suficiente para garantir que seus vulcões estejam extintos. Pelo menos, não tecnicamente, mas que já estão bem preguiçosos, isso estão. Tanto que a taxa com que a ilha é “derretida” pelo mar já é bem mais alta do que a taxa de criação de novas terras por seus combalidos vulcões. Tanto é assim que a erosão causada pelo oceano já dividiu a ilha original em quatro ilhas menores. Maui é o nome da maior ilha desse grupo, ainda formada por dois grandes vulcões e uma extensa planície que une esses dois gigantes. Mais algumas dezenas de milhares de anos e o mar tomará isso de volta também e a atual Maui será novamente dividida. Lá do alto, chegando de avião, dá para perceber bem essa geografia. E olhando o mapa do Hawaii, é quase possível ouvir Maui dizer para a Big island: “Você se acha grande? Aproveite o vigor da juventude, pois eu sou você amanhã...”
Um dos vulcões que formou a ilha de Maui, no Havaí
Maui pode não ser mais a maior ilha do arquipélago, mas certamente é a mais chique. A quantidade de campos de golfe que se vê lá de cima é um bom indicativo disso. Uma das consequências (ou causas?) disso é que tudo aqui é mais caro. Dos hotéis aos restaurantes, da gasolina ao entretenimento. É a ilha dos ricos e famosos e a quantidade de ferraris que se vê nas ruas impressiona. Com muito custo, achamos um hotel um pouco mais em conta, desses das grandes cadeias americanas, localizado na cidade de Kihei, na costa oeste da ilha. Vamos usá-la como base para todas as nossas explorações de Maui, já que as distâncias aqui não são tão longas como na Big Island.
Chegando à ilha de Maui, no Havaí
Nosso avião pousou no aeroporto de Kahului, do outro lado da planície que liga (ou separa?) os dois antigos vulcões e ali mesmo pegamos o nosso carro. É um jipão do mesmo modelo do que tínhamos em Big Island, só que agora é branco. Na verdade, era um jipe menor, mas tanto choramos que eles fizeram um upgrade para nós, sem aumentar o preço. Por aqui, não precisaremos da tração, mas do tamanho sim. Afinal, a partir de amanhã à noite, seremos quatro. Quanto ao nosso roteiro na ilha, uma conversa com o rapaz da companhia de carros confirmou o que já havíamos pensado: com apenas quatro dias, nem vale a pena dar um pulo nas ilhas vizinhas de Molokai ou Lanai; Maui já tem atrações suficientes.
Chegando à Maui, no Havaí
Mal chegamos ao nosso hotel e o telefone tocou. Era o Sidney, nosso grande amigo que nos recebeu tão bem em San Francisco. Quis o destino que, mesmo sem saber, marcássemos uma viagem para o Havaí exatamente na mesma época. Ele está viajando para cá com a Ane, sua irmã com quem também estivemos em San Francisco, com o Marco, um amigo que também conhece a Ana, lá do Brasil, além de outro pessoal, americanos mesmo. Mas ao invés de viajarem pelas quatro ilhas, como nós, vão se concentrar apenas na Big island e no Kauai. A gente quase se encontrou no aeroporto de Kona, mas lá no Kauai esse reencontro não vai escapar!
Tarde movimentada na Little Beach, ao sul de Kihei, em Maui, no Havaí
Pois é, o Sidney ligava para perguntar aonde estávamos. Eles tinham acabado de chegar à Kona. Outra coincidência deliciosa, vamos chegar praticamente no mesmo horário em Kauai e o encontro já está marcado, no aeroporto mesmo. Vai ser joia! Antes de desligar, o Sidney ainda nos deu uma bela dica: ele já esteve aqui em Maui, em outra viagem, e se lembrou que todos os domingos rola uma festa noturna bem legal, numa praia chamada Little Beach. Outra vez a sorte, ela fica pertinho do nosso hotel!
Maravilhoso fim de tarde com p céu avermelhado, na Little Beach, ao sul de Kihei, em Maui, no Havaí
Assim, já tínhamos programa para hoje! Chegamos ao hotel, instalamo-nos no nosso quarto cavernoso (o preço em conta tem seu “preço”!) e fomos aproveitar um happy hour no restaurante do hotel vizinho, bem em frente à praia. Sushis pela metade do preço e cervejas com preços abaixo do extorsivo, o que não é coisa fácil por aqui. Muito bem alimentados, seguimos então para a praia da festa.
Maravilhoso fim de tarde com p céu avermelhado, na Little Beach, ao sul de Kihei, em Maui, no Havaí
A Little Beach fica no meio de um parque estadual. O carro chega até um estacionamento de onde caminhamos uns 300 metros até Big Beach, uma longa praia de areias amareladas. Já final de dia, as pessoas estavam saindo da praia, mas estranhamente, o estacionamento ainda estava bem cheio. Sinal de que os donos dos carros estavam em outro lugar! É, a tal festa faz sucesso mesmo!
Criança faz malabarismo com fogo durante festa na praia de Little Beach, ao sul de Kihei, em Maui, no Havaí
A Little Beach fica ao lado da Big Beach. Para chegar até lá, caminhamos até o fim da praia, subimos um barranco e descemos do lado de lá. É uma praia para os amantes do nudismo, mas nesse dia de festa, é invadida também por aqueles que usam sunga, bermuda ou um biquíni. Fica todo mundo ali, peladões e os vestidos, socializando como se fosse a coisa mais normal do mundo. E ali naquele ambiente, para falar a verdade, parece normal mesmo! O sol se pondo de um lado, pintando o céu com cores espetaculares, e um pessoal fazendo uma batucada bem gostosa do outro, clima totalmente Hawaii.
Garota mostra suas habilidades pirotécnicas durante festa na praia de Little Beach, ao sul de Kihei, em Maui, no Havaí
O sol de pôs e sua luz foi substituída pela luz das tochas de fogo. Homens, mulheres e até um menino se revezaram, por mais de uma hora, em malabarismos com fogo, um verdadeiro show de luzes e perícia que emprestava um tom ainda mais tropical e praiano à festa. Foi muito joia! Maui não poderia ter nos recebido de maneira mais simpática. A tal ilha mais chique do Havaí também tem o seu lado relax. Só precisamos achá-lo! E hoje, graças ao Sidney, nós achamos!
Rapaz se apresenta durante festa noturna na praia de Little Beach, ao sul de Kihei, em Maui, no Havaí
Parada para fotos em um rio maravilhoso no caminho entre Bariloche e San Martín de Los Andes, na Argentina
Nesse nosso primeiro dia de explorações por essa belíssima região da Argentina, resolvemos percorrer de carro uma das estradas que liga Bariloche à San Martín de Los Andes, no norte. Digo “uma das estradas” por que são várias as rotas que ligam essas duas cidades, algumas mais rápidas, outras nem tanto, algumas mais curtas, outras nem tanto. A mais famosa e cênica delas é a chamada “Ruta de los Siete Lagos”, exatamente por que passamos por vários lagos ao lado da estrada. Esse será nosso caminho de volta, ao longo dos próximos dias. Hoje resolvemos seguir por uma das estradas mais a leste. Por aí segue a principal rota entre as duas cidades, já toda asfaltada, embora seja mais longa. Nós pegamos apenas o início dessa estrada e, um pouco à frente, tomamos um desvio de rípio que corta o belíssimo Parque Nacional Lanin, em meio a lagos e rios. É um caminho mais curto, porém muito mais demorado e empoeirado. Mas já que estamos de Fiona, não temos nada a temer!
Paisagem do Parque Lanin, na região de San Martín de Los Andes, na Argentina
Ainda antes de sairmos de Bariloche, nos armamos de um lanche até de uma garrafa de vinho. A ideia era passar o dia na estrada, parar em lagos e rios e encontrar um bom lugar para fazer um piquenique. Chegaríamos à San Martín apenas no final do dia, que como vocês já sabem, é bem tarde por aqui nessa época do ano. Depois das compras e da conversa no Club Andino para obtermos mapas e informações, já era quase meio dia quando partimos. Não faz mal, ainda tínhamos umas oito boas horas de luz pela frente!
Estrada que atravessa o parque Lanin, na região de San Martín de Los Andes, na Argentina
Estrada que atravessa o Parque Lanin, na região de San Martín de Los Andes, na Argentina
O primeiro trecho da viagem foi rápido, sempre no asfalto e contornando o lago Nahuel Huapi, onde está Bariloche. Apenas uma parada aqui ou ali para admirar e tirar fotos do lago e da cidade que ficava para trás. Depois, a bifurcação de estrada aonde chega o tal caminho dos 7 Lagos, por onde voltaremos em dois dias. Por fim, o asfalto continua até o ponto onde pegamos o “atalho” de rípio. Boa parte do movimento de carros segue pelo asfalto, pouca gente animada em enfrentar a estrada empoeirada. “Rípio” é uma espécie de estrada de terra encascalhada que é muito comum aqui na região andina, tanto no lado argentino como chileno. Certamente, ao longo dos próximos meses, vamos ter de enfrentar muitas centenas de quilômetros nesse tipo de piso, então é bom já irmos acostumando! Tanto nós como a Fiona!
Uma belíssima curva de rio na região de Bariloche, na Argentina
Rio de águas azuis, transparentes e geladas na região de Bariloche, na Argentina
Já no rípio, a estrada bifurca novamente. Em frente para a pequena Villa Trafull, nosso destino em dois dias. Para o norte, o caminho que pegamos hoje, rumo à San Martín. Agora já estamos em pleno Parque Nacional Lanin e a beleza do cenário que nos cerca não deixa nenhuma dúvida sobre o porquê dessa região ser protegida. Cruzamos montanhas e descemos vales. Do alto das primeiras temos uma visão panorâmica de toda a região, no fundo dos últimos cruzamos com rios e lagos cuja água são de um azul inacreditável, transparentes e puros. E gelados! Essa água é constantemente abastecida pelo degelo da neve das grandes montanhas andinas justo ali do lado, seja inverno, seja verão.
Rios azuis e montanhas ao fundo, paisagem patagônica na região de Bariloche, na Argentina
Parada para fotos em um rio maravilhoso no caminho entre Bariloche e San Martín de Los Andes, na Argentina
Os rios são realmente verdadeiros cartões postais. Essa é uma das melhores regiões do mundo para se praticar a “fly fish”, ou pescaria de mosca. É aquele tipo de pesca em que o pescador usa grandes botas e roupa a prova d’água, entra no rio e atira sua isca apenas na superfície da água. A isca tem o formato de mosca, o prato predileto dos peixes. Vimos muito isso no Alaska, onde os pescadores dividiam o rio com ursos. Aqui na Patagônia andina essa modalidade de pesca também é bem popular e muitos americanos e canadenses viajam para cá apenas para fazer isso. Eu não sou muito de pesca, mas só de ficar num cenário maravilhoso desse o dia inteiro já está valendo a pena!
Um rio que mais parece um cartão postal, no Parque Lanin, região de San Martín de Los Andes, na Argentina
Um rio que mais parece um cartão postal, no Parque Lanin, região de San Martín de Los Andes, na Argentina
Nós encontramos uma curva de rio perfeita para esse tipo de pesca, onde as águas ficam um pouco mais paradas. Perfeita para a pesca e perfeita para fotos e admiração. Agora na primavera fica tudo ainda mais bonito, pois os campos e cabeceiras de estradas se cobrem de flores brancas e amarelas. Misture essas cores com o verde dos bosques e o azul do céu e dos rios e terá a receita para a foto perfeita!
Época de primavera, muitas flores na região de Bariloche, na Argentina
Lago Lacar, chegando a San Martín de Los Andes, na Argentina
Bom, depois dos rios, vieram os lagos. Alguns mais esverdeados, outros mais azulados, são como grandes espelhos refletindo as montanhas ao seu redor. Passamos por alguns menores e outros maiores e até resolvemos pegar um desvio para seguir até um dos mais belos da região, o Filo Hua Hum. Ao chegar pelo alto e admirar suas margens, praias e entorno, logo decidimos: aí seria nosso piquenique. Por estar fora da rota principal, o lago é um dos menos visitados e ali teríamos toda a tranquilidade desejada. Seus únicos frequentadores são os pescadores de mosca que, reconheço, sabem bem escolher um lugar!
Lago espelhado na região de Bariloche, na Argentina
Chegando ao lago Fila Hua Hum, no parque Lanin, região de San Martín de Los Andes, na Argentina
Praia do lago Fila Hua Hum, no parque Lanin, região de San Martín de Los Andes, na Argentina
Descemos com o carro até perto do lago, deixamos ele num camping e caminhamos um pouco para encontrar uma praia. Aí estendemos nossas cangas e, inspirados pelo cenário, tratamos de abrir nossa garrafa de vinho e os queijos que havíamos trazido. Depois, foi só relaxar e curtir...
Caminhando em praia do lago Fila Hua Hum, no parque Lanin, região de San Martín de Los Andes, na Argentina
Abrindo um vinho em praia do lago Filo Hua Hum, no parque Lanin, região de San Martín de Los Andes, na Argentina
A Rowan toma um vinho em praia do lago Filo Hua Hum, no parque Lanin, região de San Martín de Los Andes, na Argentina
Talvez animada pelo vinho e já acostumada pelas temperaturas das highlands escocesas, a Rowan não titubeou. Colocou seu maiô e foi enfrentar as águas geladas do lago. A Ana não deixou por menos e entrou também. E eu fiquei me prometendo, e a elas também, que seria o próximo a dar um mergulho. Mas enrolei, enrolei e acabei preferindo ficar seco e quentinho na praia mesmo. Enquanto isso, elas nadaram e se reenergizaram naquelas águas quase sagradas. Bem fizeram elas e se arrependimento matassem não estava aqui escrevendo essas linhas, hehehe.
A Rowan entra nas águas geladas do lago Fila Hua Hum, no parque Lanin, região de San Martín de Los Andes, na Argentina
A Ana e a Rowan nadam no lago Fila Hua Hum, no parque Lanin, região de San Martín de Los Andes, na Argentina
A Ana nas águas geladas do lago Fila Hua Hum, no parque Lanin, região de San Martín de Los Andes, na Argentina
Pouco mais de uma hora de deleite e estava na hora de voltarmos à estrada. Dirigimos de volta à nossa estrada de rípio original e rumamos para o norte, agora passando pelo lago Meliquina, mais inspiração para muitas fotos. Muitas fotos e curvas depois e chegávamos ao último lago do dia, o Lacar, justamente onde está San Martín de Los Andes, bem na seu extremo oriental. De longe já vimos a pequena cidade de 25 mil habitantes, uma espécie de Bariloche de antigamente, espremida entre o lago e as montanhas verdes atrás. Na baía, muitos barcos e veleiros. Esse era o nosso destino de hoje depois de um dia tão prazeroso de estradas e tantos lagos...
O belo cenário do lago Meliquina, no parque Lanin, região de San Martín de Los Andes, na Argentina
Chegando à San Martín de Los Andes, na Argentina
No catmaran de Angra dos Reis para Ilha Grande - RJ
Deixamos a Fiona guardadinha numa vaga que só a Ana consegue manobrar, na casa em frente ao nosso hotel em Angra e partimos para a Ilha Grande, de catamaran. Para a nossa felicidade, o dia amanheceu com céu azul, contra nossas expectativas e previsões. Com sol, tudo fica mais bonito, o mar, as montanhas, a água e até a feia cidade de Angra. Depois da sutileza de Parati, a dureza de Angra machuca um pouco os sentidos. Mas na manhã de sol, olhando do cais, ela pareceu bem simpática...
O cais de Santa Luzia, em Angra dos Reis - RJ
Agora, muito mais que simpática, muito linda mesmo é a travessia da baía. Quarenta minutos de visões que são um colírio para os olhos. Na chegada à Abraão somos recebidos pelos enviados de várias pousadas, brigando por hóspedes. A pequena vila é formada quase que na sua totalidade por pousadas, restaurantes e lojas que vivem em função dos turistas. Nesta época do ano, fora de temporada, a oferta supera em muito a demanda e os preços caem lá embaixo. Nenhuma vez na nossa viagem tivemos tanta qualidade por tão pouco. Vai ser difícil não ficar mal acostumado...
Fotografando a baía de Angra dos Reis, a caminho de Ilha Grande - RJ
Travessia de Angra dos Reis para Ilha Grande - RJ
Depois de descobrirmos que o tempo deve virar amanhã novamente, resolvemos aproveitar o sol de hoje para caminhar até a praia de Lopes Mendes, considerada uma das mais bonitas do Brasil. São pouco mais de seis quilômetros subindo e descendo morros, passando por praias e cruzando a mata atlântica. Para ajudar na trilha, nossa mais nova aquisição: uma eficiente bolsa térmica para manter até quatro latas de cerveja geladas! Muito prática de carregar, maravilha da tecnologia! Hehehe
Feliz da vida com a nova sacola térmica de cervejas, na trilha para Lopes Mendes, na Ilha Grande - RJ
No caminho, uma constatação e uma surpresa. A surpresa é que há jacarés na lha Grande! Não, não vimos nenhum, mas vimos várias placas de sinalização. A constatação é que quase todos os turistas na Ilha, numa sexta-feira de trabalho, são gringos. Ingleses, franceses, alemães, israelenses, tem de tudo por aqui. Até brasileiros, mas em menor número.
Jacarés na Ilha Grande - RJ ?
Chegamos à linda Lopes Mendes mais ou menos junto com as nuvens que começaram a cobrir o sol. Mesmo assim, a praia é linda, Praia de mar aberto, ondas para surfistas. Areias branquinhas, águas verde azuladas, nenhuma construção à vista, só a vegetação e as montanhas. Realmente, uma beleza!
A famosa praia de Lopes Mendes, na Ilha Grande - RJ
Uma hora mais tarde e já era tempo de voltar. A Ana de barco e eu correndo. Fomos juntos até a praia do Pouso, de onde saem os barcos e lá nos separamos. Para incredulidade dos barqueiros, disse que chegaria antes do barco, que faz o percurso em 45 minutos. Saímos juntos e eu iniciei minha corrida pela praia e depois pela trilha. Nas partes mais íngremes, descanso em caminhada acelerada. Nas outras subidas, trote. Nos trechos planos e de descida, pé na tábua. Para mim, é sempre uma diversão correr em trilhas com raízes, pedras e trechos escorregadios. Nossos olhos seguem atentos, calculando os próximos passos. O pé tem de pisar exatamente em cima de uma pedra x, ou entre aquelas duas raízes. O engraçado é que, quando finalmente vou pisar aonde tinha calculado, os olhos já estão olhando bem à frente, dois ou três passos adiante. Na descida, sigo naquele limite entre o ritmo controlado e a descida desembestada. Quando há uma reta logo abaixo, posso perder o controle, pois sei que vou ter espaço para recuperá-lo. Se não houver uma reta e eu erra o cálculo e perder o controle, procuro alguma árvore para frear. Nas muitas trilhas em que já saí correndo, em algumas já tive tombos. Alguns, memoráveis. O maior dano foi um dedo quebrado, na Chapada Diamantina. Normalmente, é só o susto e alguns arranhões. Mas, a maioria das vezes não tem tombo não, é só a adrenalina.
Enfrentando o mar agitado de Lopes Mendes, na Ilha Grande - RJ
Bom, tudo isso ia pensando no caminho, junto com a extrema atenção para não cair. E nem vi a trilha passar. Quando percebi, entrava na praia do Abraão, exatamente quando o barco fazia a curva da baía. Chegamos quase juntos, eu um pouco antes, em tempo de sentar num banco na frente do píer e observar os passageiros e a orgulhosa esposa desembarcarem.
A famosa praia de Lopes Mendes, na Ilha Grande - RJ
Para amanhã, mesmo com previsão de chuvas, a programa é ambicioso: ir e voltar à pé (não há opção de barco) de Parnaioca, do outro lado da ilha. Quase uma maratona. Depois dou notícias...
A famosa praia de Lopes Mendes, na Ilha Grande - RJ
Gustavo caminha de manhã, na última parte da trilha na nossa volta das ruínas de Choquequirao, no Peru
Conforme tínhamos acertado na noite anterior, o nosso despertador tocou com o céu ainda escuro e não demorou muito para que eu já estivesse vestido e calçado, do lado de fora da barraca, pronto para o esforço que me esperava. Ainda deu tempo de comer uma barra de granola e, sem mais delongas, pé na trilha! Eu partia, a Ana e o Gustavo começavam a dobrar as barracas e o cozinheiro do outro grupo de turistas que repartia conosco o acampamento já estava atarefado preparando o café da manhã de seus clientes, que ainda se espreguiçavam dentro de suas barracas.
Ainda de madrugada, o Gustavo caminha na parte final da trilha de volta de Choquequirao, no Peru
O ziguezague desse lado da trilha é menos “agressivo” que do outro e, com a ajuda do forte luar e sem necessitar de lanterna, fui subindo em bom ritmo. Aqui e ali, paradas estratégicas para admirar a paisagem que as primeiras luzes do dia me mostravam. Quanto mais claridade, mais cores. Quanto mais cores, mais bonito. Difícil se sentir sozinho envolvido por paisagens tão fantásticas. Quantas pessoas essa trilha já não viu passar nesses últimos séculos? Poucos nessa pressa, talvez...
O dia nasce e revela a paisagem grandiosa no último dia de caminhada na trilha de Choquequirao, no Peru
O dia nasce e revela a paisagem grandiosa no último dia de caminhada na trilha de Choquequirao, no Peru
Na última sequência de ziguezagues, o sol finalmente nasceu, banhando as encostas das montanhas com seu calor muito bem vindo. Foi quando cheguei ao alto do mirante, ansioso por parar e me maravilhas com as montanhas nevadas iluminadas ao fundo. Que coisa mais linda e pura! Que mundão!
Pausa para respirar e admirar a paisagem da trilha de Choquequirao, no Peru
Um condor faz seu voo matinal no vale do rio Apurimac, na trilha de Choquequirao, no Peru
Agora, cerca de 9 quilômetros de trote em ligeiro e confortável declive até a vila de Cachora. A sensação de vida saudável ao estar correndo naquelas longínquas paragens, em meio a tanta natureza e nessas horas da manhã também foi incrível. Ai se todos os meus dias começassem assim... Enfim, em cerca de uma hora eu voltava à vila onde iniciamos nossa caminhada há três dias. Não demorou muito para eu estar na Fiona acelerando no sentido contrário.
Admirando a fantástica paisagem da trilha de Choquequirao, no Peru
Com dois terços do caminho, já encontrei o Jose Luis com as mulas. Um pouco adiante, já tendo caminhado quase dois quilômetros desde o mirante, lá vinham a Ana e o Gustavo, em ritmo acelerado. Contaram que a subida havia sido muito boa, luzes perfeitas para fotografias, sem ter tempo de cansar. Subiram na Fiona e alcançamos o Jose Luis mais a frente. Aì, para alegria das mulas, tiramos o peso de suas costas e passamos para a Fiona, nossa querida “mula” particular, que tem carregado sem reclamar nossas bagagens pelos últimos 150 mil quilômetros.
As montanhas que separam as ruínas de Choquequirao, no Peru, do mundo exterior
Passamos rapidamente por Cachora e, de lá, acelerados, montanha acima, até o asfalto da transoceânica. Depois, respeitando o sem número de curvas necessárias para cruzar a cordilheira, conseguimos chegar até o ponto de fechamento da estrada, onde tivemos de esperar apenas uns poucos minutos. Tudo dando certo, ainda a energia boa dos incas nos conduzindo, hehehe.
Nossas companheiras mulas ganham um tempo para descansar na volta de Choquequirao, no Peru
De volta à Cusco, retornamos ao nosso hotel original, já deixado reservado há uma semana, lá na Plaza San Francisco. Chegamos bem na hora de um delicioso almoço, a primeira comida diferente de macarrão e sopa nos últimos dias. Carne de alpaca de primeira qualidade!
Restaurante anuncia carne de alpaca, no bairro de San Blas, em Cusco, no Peru
Um pouco de descanso de tarde e saímos de noite para comemorar com o Gustavo sua estadia conosco. Amanhã, antes das cinco da madrugada, ele estará voando para Lima e, de lá, para o Brasil. Fim de sua deliciosa e intensa estadia conosco aqui em terras incas, memoráveis passagens por Cusco, Valle Sagrado, Machu Picchu e Choquequirao na bagagem. E além do prazer de sua companhia, ainda nos prometeu dar de presente um vídeo de nossa aventura em Choquequirao. É só o tempo de fazer as edições necessárias quando voltar à Curitiba e vai nos enviar. Estamos curiosíssimos!
Loja se especializa em todos os produtos relacionados com a folha de coca, no bairro de San Blas, em Cusco, no Peru
Mas, antes disso, ainda teve a noite de despedida. Voltamos, é claro, ao nosso lugar preferido na cidade, o bairro de San Blás. Com seus restaurantes, bares e ruas estreitas, é um charme só, um convite a dias e noites de explorações. Antes de encontrar o nosso bar, ainda conhecemos uma interessante loja especializada apenas em produtos relacionados com folha de coca e nos esbaldamos em uma pizzaria bem acolhedora.
Um delicioso bar onde fizemos a despedida do Gustavo, no bairro de San Blas, em Cusco, no Peru
Depois, sim, esse ótimo bar com música ao vivo, gringos de todas as partes do mundo encantados com a banda peruana que só cantava clássicos da música latina, de cubanas e mexicanas à argentinas e peruanas, passando até por uma brasileira. Estava muito legal e ficamos até a música acabar e o bar fechar suas portas, perto das duas da manhã. Depois, ainda encontramos um lugar na rua para comer aquela comida tradicional de fim de noite, não muito saudável, mas muito saborosa. Uma noite para fechar com chave de ouro a estadia peruana do Gustavo que, por 10 dias, fez parte dos 100odias. Vamos ver se vai ter repeteco lá na Ilha de Páscoa, né Gustavo? Um grande abraço e obrigado pela “visita”.
Junto com o Jimmy Hendrix, na despedida do Gustavo em um delicioso bar no bairro de San Blas, em Cusco, no Peru
Mar e céu azuis, na Ponta da Lagoinha, em Búzios - RJ
A grande e melhor surpresa do dia foi acordar e se deparar com o céu azul e sol radiante. Contra todas as previsões dos meteorologistas, não é que as nuvens se foram? Que beleza!
Mirante de João Fernandes, em Búzios - RJ
Saímos logo, para poder aproveitar o tempo. Hoje foi a vez de colocar a Fiona para fazer exercícios. Nós já tínhamos feito ontem. Para esquentar, botamos ela para subir "montanha" e fomos à dois mirantes que existem por aqui, dos quais temos uma bela visão da península de Búzios. Num dia como hoje, fica tudo mais bonito e o mar as vezes parece verde, as vezes parece azul.
Ponta da Lagoinha, em Búzios - RJ
Feito os mirantes, passamos às praias. Na verdade, ainda antes das praias fomos na Ponta da Lagoinha, uma lagoa formada pela maré alta em cima da costa rochosa. Nessa mesma costa foram retirados minerais que comprovaram que Búzios já esteve encostado na África, quando a América do Sul colidiu com aquele continente, há muitas dezenas de milhões de anos atrás. Foi uma colisão chamada "Orogenia", quando uma placa continental entra embaixo de outra, levantando-a. Mais ou menos o que a Índia faz com a Ásia hoje, formando os Himalaias. Os geólogos, mesmo sendo bons chutadores, não tiveram a coragem de chutar a que altitude Búzios chegou. Para se ter uma idéia, o Himalaia tem quase 9 mil metros e continua subindo... A "nossa" orogenia foi semelhante?
Observando o encontro do mar e das rochas, na Ponta da Lagoinha, em Búzios - RJ
Bom, depois da aula teórica e prática (passeando pelos rochedos) de geologia, fomos finalmente para as praias. A primeira foi a tranquila Ferradura. Mar muito tranquilo para nós, além de um certo excesso de portenhos. Aliás, eles são a enorme maioria, quase uma unanimidade por aqui, se não fossem alguns italianos. Todos os vendedores ambulantes mandam ver no espanhol, com sotaque de Buenos Aires. Só precisamos nos acostumar a ver os mulatos daqui falando castelhano. E a Ana com essa cara, todos eles chegam para vender para nós em espanhol. É até divertido fingir que somos e ver até onde vai a brincadeira...
Observando o oceano na praia da Ferradurinha, em Búzios - RJ
Depois da Ferradura, a Ferradurinha, bem mais charmosa. Aí passamos algumas horas. Exploramos rochedos, nadamos na pequena baía de água fria e agitada, lanchamos na praia e até fizemos amizade com uma cadela simpática chamada Mel. Outra Mel.
A simpática cadela Mel, na praia da Ferradurinha, em Búzios - RJ
Com a tarde avançando, resolvemos seguir até a muito maior Geribá. Praião de ondas e de pinquins. Os coitados se perdem da corrente de água fria que passa em alto mar e vem dar aqui. A maioria não aguenta o calor e acaba morrendo. Os pobres que encontramos estavam moribundos, prontos para fazer a festa das gaivotas.
Pinguim perdido, na praia de Geribá, em Búzios - RJ
A última praia do dia foi a das Tartarugas. Um belíssimo fim de tarde observando dezenas de Mergulhões se banqueteando nas muitas redes de tainhas. Um espetáculo naquela luz do final do dia.
Barcos de pesca no fim de tarde na praia da Tartaruga, em Búzios - RJ
Amanhã, devemos partir rumo a um novo estado, o Espírito Santo. Se o sol sorrir para nós novamente, ainda vamos fazer uma parada na bela Arraial do Cabo. Vamos dormir torcendo e sonhando.
Praia da Ferradurinha, em Búzios - RJ, depois de um banho de mar
Boteco em Diamantina - MG
Aconselhados pelo Tinho, seguimos para Diamantina por um caminho alternativo, próprio para carros altos com tração. Através de uma estrada sobe-desce vales, passamos pelo alto da Serra do Espinhaço, com belas paisagens de campos, flores e muitas formações rochosas. Por fim, chegamos a Biribiri,uma vila particular, criada e mantida por uma indústria têxtil. Hoje, ela é um museu, toda a vila. Mas, no seu auge, tinha mais de 600 moradores, todos trabalhadores e familiares da tal indústria, com padaria, barbearia, igreja, escola, etc...
Ipê na Serra do Espinhaço - MG
De lá, ainda fomos nos refrescar em duas cachoeiras antes de seguir para a cidade. Nos fins de semana, essas cachoeiras atraem muita gente de Diamantina. Mas, como chegamos cedinho, não havia movimento nenhum. cachoeira dos Cristais e Cachoeira do Sentinela, são os nomes. Quando fomos embora, os carros da cidade começavam a chegar.
Cachoeira dos Cristais, próxima à Diamantina - MG
A cidade estava cheia, sábado de seresta. Muitos grupos de turistas vindos de cidades vizinhas e BH para aproveitar o tradicional evento. As ruas estreitas do centro, com o movimento de turistas não favorecia muito o deslocamento da nossa ogra Fiona. As pousadas também estavam cheias. Por telefone, achamos uma, a Gameleira, muito bem localizada. Simples, mas charmosa, com um pé direito bem alto, deixamos a Fiona por lá e saímos à pé mesmo, muito mais prático.
Igreja em Diamantina - MG
Primeiro, um almoço de petiscos num dos botecos charmosos do centro da cidade. Depois, uma caminhada pelas igrejas e a casa de JK. Sempre simpatizei com Juscelino e agora que conheci sua casa, mais ainda. Vida simples e regrada, simpatia estampada no rosto, saiu de Diamantina para mudar o Brasil. Muito estudo e trabalho. Que diferença dele para nosso sapo barbudo...
Subindo ladeira em Diamantina - MG
Gostaria de ter mais tempo para ler sobre seus últimos 10 anos de vida, período em que esteve com os direitos políticos cassados pelos militares, e sobre seu estranhíssimo acidente, justo quando poderia retornar à vida pública. Duvido que Tancredo tivesse alguma chance contra ele...
A casa de JK em Diamantina - MG
De noite, mais um passeio pelo centrinho movimentado, os seresteiros fazendo a festa dos grupos de turistas de terceira idade, muitos deles vestidos à carater.
Amanhã, vamos conhecer a casa de outra cidadã famosa da cidade, Chica da Silva. E depois, seguir para Milho Verde, uma pequena cidade cuja simpatia já começa pelo nome.
Boteco em Diamantina - MG
Vista do nosso quarto na pousada Pelicane,em North Caicos
Após o habitual stress de todas as manhãs com compromisso, embarcamos no moderno e veloz ferry boat que nos leva de Provo a North Caicos em meia hora. Se fosse numa das barcas da Ilha do Mel, acho que seriam umas 2 horas, no mínimo!
Nesta manhã, o stress acho que foi um pouco maior. Além de deixarmos para arrumar tudo na própria manhã (mochilas que vão, mochilas que ficam, checkout do hotel, achar um táxi, etc), chegamos ao porto com muito pouco dinheiro em cash para os próximos dois dias. Ocorre que em North e Middle Caicos, não se aceita cartão. O banco qua havia por lá quebrou e deixou todo mundo na mão. Agora, só em dinheiro vivo, da verdinha! E nós no porto, o barco para zarpar, com vários cartões de crédito inúteis. Bom, depois de alguns telefonemas lá da administração, conseguimos achar uma santa que alugaria um carro (imprescindível, por lá) no cartão. Faltava só o hotel. Para a comida, tínhamos dinheiro! Embarcamos. Qualquer coisa, dormiríamos no carro ou na praia mesmo!
Barco que faz a ligação entre Provo e North Caico
Voamos sobre o mar esmeralda (um show!) e logo chegamos em Sandy Point, em North Caicos, onde encontramos a senhora do Pelican, que aluga carros. Para nossa felicidade, ela também tem um hotel. Dois coelhos numa cajadada só!
Havia mais de 10 anos que eu não dirigia na mão inglesa. Nas movimentadas estradas de North e Middle Caicos, onde em dois dias cruzamos uns 3 carros, rapidamente me acostumei. Nosso primeiro carro alugado da viagem! Agora, falta a moto (ou scooter), depois de tanto trabalho e correria para se conseguir a carteira de habilitação!
Pequeno lago com 80 m de profundidade em North Caicos - Turks e Caicos
Popularmente conhecida como "Senzala"
Antes de seguir para o hotel já passamos em duas das atrações turísticas da ilha. A primeira, uma pequena lagoa de água meio turva, cheia de pássaros e com mais de 80 metros de profundidade. Mal acostumados que estávamos com o Dean's Blue Hole, achamos o barrento Cottage Pond meio sem graça. Depois, seguimos para as ruínas do Wade's Plantation. É o equivalente inglês de latifúndio. Bom, latifúndio, dependendo da escala. Pode ser grande por aqui, mas se fosse no Brasil, deste tamanho, não chegava nem a sítio. Chácara, talvez. De qualquer maneira, tinha o Slave's Quarter (a popular "senzala", no Brasil. Em inglês, fica mais chique), a Casa Grande, etc... Enfim, as ruínas são meio mais ou menos. Legal é a história por trás. O pessoal que lutou a favor do rei, na independência americana, foi recompensado com terras nas Bahamas e por aqui. Se deram bem por um lado (clima, mar) mas não durou muito não. Em uma geração, uma combinação de solo pobre, furacões e a guerra de 1812 ente EUA e Inglaterra acabou com as plantations daqui. Só sobraram as ruínas e os nomes das famílias, que continuam nos sobrenomes de todos por aqui.
Mar em frente à pousada em North Caicos
Por fim, fomos ao hotel e à maior atração turística da ilha: suas praias maravilhosas e semi-desertas. O hotel, Pelican Beach Hotel, fica bem em frente à praia, assim como o nosso quarto. A vista que tínhamos era de chorar! O clima era bem parecido com o da Ilha do Mel, tranquilo, relaxado. A diferença era esse mar, sem igual. Até covardia comparar...
Passamos o resto do dia andando e relaxando na praia e socializando com o Cliff, dono do hotel e ex-piloto de avião e com a Maqui, que trabalha para ele, imigrante dominicana. Muito simpáticos, os dois. E eu e a Ana mandando ver no inglês e no castelhano.
No início da noite, um bônus para esse dia incrível: um lançamento de foguete, lá na Flórida, a centenas de quilômetros de distância, se transformou num show para nós, iluminando a noite com uma luz estranha que demoramos para decifrar. OVNI? Avião? Satélite? Que nada! Foguete americano! Muito legal mesmo! Deu para ver o primeiro estágio se separar do segundo e seguir sua viagem enquanto o primeiro despencava pelos céus.
Que incrível! Nós, perdidos na periferia da periferia de uma ilha, no meio do oceano e, para nos lembrar que estamos no séc XXI, um foguete passa sobre as nossas cabeças!
Boteco da Pousada Pelicane, em North Caicos
Bom, e para nos lembrar que não estávamos no paraíso, a partir do início da noite milhões de mosquitos nos atacaram. Tivemos de abandonar o tão agradável quiosque à beira mar e nos refugiar atrás das santas telas protetoras, primeiro no restaurante e depois no nosso quarto.
O resultado final do dia foi descobrir que Turks e Caicos tem alma e que ela é parecida com a alma da Ilha do Mel. Que legal!
Maravilhoso pôr-do-sol na Laguna Chaxa, no deserto do Atacama - Chile
Começamos o dia em ritmo lento. A primeira tarefa foi mudar de pousada. Uma de nossas mais tediosas rotinas desses 1000dias é exatamente isso, desarrumar e arrumar mochilas, carregá-las e descarregá-las da Fiona, ocupar e desocupar quartos. Quando chegamos em algum lugar onde pretendemos ficar mais tempo é um paraíso. O nosso quarto passa a ser o nosso lar. Infelizmente, aqui em San Pedro, onde pretendemos ficar por uns 4-5 dias, isso não ocorreu, já que tivemos de mudar de pousada pela dificuldade de encontrar vagas, ocupadas por chilenos gozando de seu fim de semana esticado pelo feriado. Bom, paciência...
Ruínas Tulor, no deserto do Atacama - Chile
Mudamos para nossa pousada mais simples, de banheiro coletivo e sem garagem e fomos passear mais um pouco na movimentada San Pedro, depois de trabalhar um pouco na internet. Pelas ruas ouve-se de todas as línguas, especialmente nos horários entre-tours, no meio do dia ou de noite. Durante as manhãs e as tardes, San Pedro fica vazia, ao contrário das vans que partem lotadas em todas as direções. Os franceses dominam (depois dos chilenos, claro!), mas também é bem fácil encontrar brasileiros. A maioria vem de avião, mas tem também aqueles que vem de moto ou de carro.
Reconstrução de moradia Tulor, no deserto do Atacama - Chile
Reconstrução de moradia Tulor, no deserto do Atacama - Chile
O Atacama, junto com a Patagônia, é o principal destino dos raros brasileiros que viajam para o exterior em seus próprios veículos. Com uma boa esticada, são cerca de três dias de viagem até aqui. Não é tão longe e, se o caminho for bem escolhido, as paisagens são altamente recompensadoras. É uma coisa que todos deveriam pensar em fazer. Mas, por algum motivo misterioso para mim, brasileiros não gostam de viajar de carro mais de 500 km. Principalmente para o "perigoso" mundo das estradas fora de nossas fronteiras. Enfim, dos poucos que saem, muitos vem para cá. Pudemos comprovar isso pela quantidade de adesivos de expedições brasieliras que encontramos nas cidades entre o Brasil e Atacama e também nos Pasos de Jama e San Francisco.
Vulcões vistos pela janela e pelo retrovisor da Fiona no deserto do Atacama - Chile
Depois do café da manhã misturado com almoço partimos para as atrações do dia. A primeira foram as ruínas de Tulor, bem próximas da cidade. Como quase todas as atrações famosas do Atacama, tem de se pagar ingresso. Essa é especialmente cara pelo que oferece, mas não deixa de ser interessante. Antigas casas geminadas, há muito tomadas pelo deserto. Seu povo as abandonou há séculos, junto com o rio que tomou outro curso. As condições quase estéreis do deserto contribuíram para a sua conservação e hoje só podemos tentar imaginar como era a vida neste local quando havia um rio ali por perto. Hoje, cercadas por quilômetros de areia por todos os lados, elas parecem não fazer muito sentido. Na verdade, o sentido começa a aparecer quando entramos numa das duas casas reconstruídas no mesmo adobe original. O frescor interno contrasta com o calor do deserto e nos mostra que não seria impossível morar por lá. Resta saber de onde viria a comida...
O salar do Atacama, no deserto do Atacama - Chile
A próxima atração foi a lagoa Chaxa, em pleno Salar do Atacama, a pouco mais de 40 km de San Pedro. O salar é bem diferente daqueles que vimos na puna Argentina. Aqui, ele é bem rugoso, terreno nada apropriado para veículos, a não ser que você tenha um tanque de guerra que se movimente sobre esteiras. Através da rápida evaporação, a água que aflora do solo, vinda por canais subterrâneos diretamente das montanhas dos Andes, forma cristais e colunas de sais com até 70 cm de altura. Mas a água também forma grandes e rasas lagoas, verdadeiros oásis dentro do deserto. Uma dessas lagoas é a Chaxa, atração obrigatória para quem visita a região.
Laguna Chaxa, no deserto do Atacama - Chile
Flamingos na Laguna Chaxa, no deserto do Atacama - Chile
Nas lágoas há um pequeno crustáceo, um tipo de camarão, que faz a alegria de várias espécies de pássaros. Os mais belos entre eles são os flamingos que, de tanto comer camarão, acabam ficando rosas. Na Chaxa podemos ver centenas deles, aparentemente indiferentes à presença humana, mantida à boa distância por força de lei. Todos ficamos ali, a mais de cem metros dos principais grupos de flamingos, torcendo para que os mais corajosos se aproximem um pouco mais. E isso acontece, claro, para delírio dos turistas, todos com suas câmeras fotográficas mais ou menos potentes esperando capturar aquele momento especial, de um sobrevôo ou de um mergulho.
Vulcões refletidos na Laguna Chaxa, no deserto do Atacama - Chile
Flamingo sobrevoa a Laguna Chaxa, no deserto do Atacama - Chile
Por si só, esse cenário já seria inesquecível. Mas é muito mais do que isso. No horizonte, uma sequência interminável de vulcões e montanhas nevadas nos observam. A escala de tempo e de espaço dessas "criaturas" nos lembram da nossa pequeneza e insignificância. Estão ali há dezenas de milhões de anos. Seu tamanho descomunal engana completamente nossas impressões de distância. Parecem estar a 20 minutos de carro, mas alguns chegam a estar a 400 km de distância em linha reta! Parecem que podem ser escalados numa subida de final de tarde, mas muitos deles estão 4 km acima de nós, que já nos encontramos acima dos 2 mil metros. Realmente, é um horizonte alucinante, inesquecível para quem teve a chance de observá-lo.
Turistas observam pôr-do-sol na Laguna Chaxa, no deserto do Atacama - Chile
Por fim, para quem vai na hora certa (é claro que as vans chegam neste horário!), ainda tem o impressionante e magnífico pôr-do-sol. Com o reflexo na lagoa, as luzes do final de tarde são maravilhosas. Coisa para nunca mais se esquecer! Gostei mais do que o pôr-do-sol visto da duna, ontem. Milhares de fotos tiradas pelas centenas de máquinas presentes. Cada "click" mais do que merecido! Fizemos os nossos também, claro! E aí, na hora de ir embora, dirigindo de volta à estrada principal, seguindo em direção aos Andes e àquele horizonte que relatei um pouco antes, eis que uma bola prateada parece nascer por detrás dos vulcões e montanhas. É a lua cheia, esplendorosa. Agora, é a vez dela lembrar aos mesmos vulcões e montanhas que são eles os insignificantes na escala de tempo e espaço. Nós, então... Mas, é a nós que cabe a honra de admirar esse espetáculo inesquecível: a lua nascendo por detrás de um vulcão nevado que desponta quilômetros acima de um dos mais belos desertos da Terra, um deserto que, entre outras coisas, possui lagoas habitadas por multidões de flamingos. Que mundo mágico vivemos...
Lua cheia nasce no deserto do Atacama - Chile
Relachando no teto do barco, no trecho entre Coari e Codajás, no Baixo Solimões, a caminho de Manaus, no Amazonas
Já se tornou quase um jargão dizer que os rios são as rodovias da Amazônia. E como rodovias são o nosso forte, foi por esse caminho que decidimos voltar para Manaus, lá de Tefé. Dessa vez, sem a Fiona, que já nos espera na capital amazonense, mas com um dos muitos barcos que fazem a rota pelo rio Solimões, ligando Manaus à fronteira com o Peru. São cerca de 36 horas no barco, saindo no final da tarde de Tefé e chegando à Manaus no início do manhã de dois dias depois. Esse tempo já conta as paradas nas duas maiores cidades do caminho, Coari e Codajás, onde temos tempo de descer e passear.
Viagem de barco descendo o Rio Solimões de Tefé (A) a Manaus (B), com paradas em Coari (C) e Codajás (D). O Google Maps não sabe, mas o rio é a estrada!
Na verdade, essa é a nossa segunda viagem de barco aqui na Amazônia durante esses 1000dias. A primeira foi de Manaus para Santarém, já há mais de dois anos. Naquela vez, a Fiona foi com a gente, apertadinha no deck de baixo do barco. E nós fomos dormindo dentro dela! Agora não, fomos viajando como legítimos ribeirinhos, com nossas redes penduradas no deck superior. Aliás, compramos as redes duas horas antes de embarcar e fomos logo nos instalando, para achar um bom lugar. Redes amarradas, lugares marcados, bagagem colocada entre nós, um olho nelas e o outro na linda tarde que se punha sobre Tefé. Aos poucos, o barco foi enchendo e ficando mais movimentado, a Ana logo fazendo amizades. Por fim, perto das seis da tarde, partimos correnteza abaixo, Tefé e o sol ficando para trás, aquele mundão de água doce à nossa frente.
Nosso barco para descer o Rio Solimões, ainda em Tefé, no Amazonas
Nosso barco para descer o Rio Solimões, ainda em Tefé, no Amazonas
Transporte fluvial é uma coisa séria aqui na Região Norte e vem se tornando mais segura e profissional. Nós poderíamos ter vindo de cabine também, mas o preço já seria bem mais salgado. Além disso, queríamos mesmo era vir de rede, aquela brisa amazônica no rosto. O barco tem dois andares e um “telhado”, onde tem um bar e um terraço, além de uma grande televisão. Na hora do JN ficava lotado lá encima, mas de tarde era bem sossegado ficar lá encima tomando uma cervejinha e admirando a natureza exuberante ao nosso redor.
A capacidade do barco que nos levou até Manaus, no Amazonas
O barco que nos levará até Manaus se enche de redes, ainda em Tefé, no Amazonas
O valor da passagem foi de 70 reais, com direito à todas as refeições. A comida é simples e satisfatória, mas temos de enfrentar uma fila para chegar até ela. Com esse preço, nada mais justo! Durante as paradas em Coari e Codajás, também dá tempo de comer, para quem quiser. Eu, por exemplo, fui surpreendido na manhã do segundo dia, em Coari, por um vendedor dentro do barco com um pão de queijo quentinho. Para mim, depois de tanto tempo, foi uma delícia!
Ainda em Tefé, pronto para a viagem de barco até Manaus, no Amazonas
Um belíssimo fim de tarde sobre o Rio Solimões, em Tefé, no Amazonas
No barco, além de balançar na rede, admirar o rio e a floresta ou dormir, a diversão maior está em socializar com os outros viajantes. Isso pode ser lá na nossa rede mesmo, conversando com os vizinhos, ou no bar lá no telhado, repartindo uma cerveja. A grande maioria dos viajantes são locais, gente que faz viagens como essa frequentemente. Para falar a verdade, nesse nosso barco, não encontramos nenhum turista. Experiência 100% amazônica!
Menina se despede de Tefé, antes da partida para Manaus, no Amazonas
Hora do café da manhã em nosso barco, ancorado em Coari, às margens do rio Solimões, no Amazonas
O que muda a rotina da viagem são mesmo as paradas. Logo na primeira manhã, ficamos umas 4 horas ancorados em Coari. Muita gente desceu aí mesmo, mas mais gente ainda subiu no barco. A gente, depois de vencer a preguiça na rede, onde acabávamos de acordar, fomos passear um pouco na cidade. Foi a melhor coisa que fizemos!
Igreja matriz de Coari, às margens do rio Solimões, no Amazonas
Trânsito intenso de motocicletas na cidade de Coari, às margens do rio Solimões, no Amazonas
Fomos conhecer as praças da cidade, a igreja matriz e a grande atração: o mercado. Nas ruas, cuidado com as motos. Como todas as cidades ao longo dos rios amazônicos, são elas que dominam o trânsito, às centenas. Mas com cuidado, driblamos elas e chegamos ao mercado. Aqui, o movimento e o barulho eram de pessoas e não de motores.
Frutas típicas vendidas no mercado de Coari, às margens do rio Solimões, no Amazonas
Venda de Noni em Coari, às margens do rio Solimões, no Amazonas
No mercado, ainda mais que no de Tefé, a gente se surpreende com a quantidade de frutas diferentes das que estamos acostumados. Um paraíso! Cores, formas, cheiros, tudo diferente. Muito joia! Uma fruta que achamos de monte foi o Noni, aquela cujo suco virou moda há pouco mais de uma década e que era bom para tudo, de câncer à AIDS, de dor no dente à queda de cabelo. Lembro que uma garrafa do tal suco custava mais que vinho importado. Por aqui, pode-se levar uma dúzia dessas frutas baratinho para casa!
Orgulhoso,pescador nos mostra seus peixes em Coari, às margens do rio Solimões, no Amazonas
Muitos tipos de peixe a venda em Coari, às margens do rio Solimões, no Amazonas
Nem piranha escapa dos pescadores em Coari, às margens do rio Solimões, no Amazonas
Ainda mais que as frutas, nós nos divertimos foi com os peixes. Chegavam fresquinhos nas canoas que passaram a noite em pescaria. De novo, de todos os tipos e tamanhos. Uma verdadeira salada de peixes! Alguns, até reconhecíamos, como tucunarés, peixes-gato e as famosas piranhas. Se não as fotografamos lá em Mamirauá, aqui, não perdemos a chance!
O majestoso rio Solimões, no trecho entre Coari e Codajás, a caminho de Manaus, no Amazonas
São diversos "encontro das águas" ao longo do rio Solimões, como esse, no trecho entre Coari e Codajás, no Amazonas
Chegando em Codajás, última parada antes de Manaus, no Amazonas
Por fim, voltamos ao nosso barco para continuar descendo o Solimões. O rio, a floresta e a vida, todos passam bem devagar por aqui. Mas de conversa em conversa, de cerveja em cerveja, de balanço em balanço, chegamos em Codajás. Nova troca de passageiros, mais um tempo parados e partimos novamente. Depois, veio a noite, a nossa segunda no barco, e nos recolhemos aos nossos aposentos, ou seja, às nossas redes. Quando abrirmos os olhos, já estaremos em Manaus! Devagar e rápido ao mesmo tempo, se é que me entendem. E certamente, muito mais interessante que viajar de avião!
Aproveitando o amanhecer para fazer ioga, em Coari, cidade no Rio Solimões, nosso caminho para Manaus, no Amazonas
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