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Quando eu era criança em meados da década de 70, mesmo antes de aprende...
Aproveitamos o dia de chuva hoje aqui em Anchorage no quarto do quentinho...
Para a nossa felicidade, e também a de outros tantos, o passeio para o B...
EXPEDIÇÃO BORDAS DO BRASIL (05/05)
Grandes Amigos Ana e Rodrigo!!! Estamos também acompanhando vocês, e to...
Leandro Mattera (05/05)
Olá! A fase da Transamazônica é uma das que mais aguardo na expediç...
Ari (05/05)
Oi Ana e Rodrigo! tô pegando carona agora.. rs. Digo... lá pelos tanto...
Paulinha Ribas (05/05)
E vc acreditou na morte do BL? Sei não... Com o Saddam fizeram o maior...
px (04/05)
Passeando na Praça dos Girassóis, em Palmas - TO
Depois da noitada de ontem, o dia começou devagar. Levantamos em tempo de nos esbaldar no café da manhã do hotel, mas voltamos para a cama depois. Quando levantamos em definitivo, já era mais de uma da tarde! Acho que batemos o recorde da viagem até agora, hehehe!
Palácio Araguaia, sede do governo de Tocantins, em Palmas - TO
Aí, combinamos com o Marco de fazer uma rodada pelas praias de Palmas, ainda nesta tarde. Mas, antes disso, formos passear na Praça dos Girassóis, quase do lado do nosso hotel. É nela que estão as sedes dos poderes estaduais e muitas secretarias e autarquias. Mas, o que mais chama a atenção na praça é, sem dúvida, seu tamanho! Também, ela simplesmente é a maior praça das américas! Quiçá do mundo, embora as Praças Vermelha (em Moscou) e da Paz Celestial (em Pequim) também sejam sérios concorrentes à este posto.
Maquete da maior praça das américas, a Praça dos Girassóis, em Palmas - TO
Palmas é uma cidade que cresce rapidamente. Está fazendo 22 anos, praticamente a mesma idade do estado de que é capital, que foi criado pela constituinte de 88. Em 90, tinha uma população de 25 mil habitantes; quando estive aqui, em 2000, já tinha 130 mil; e hoje, é algo como 250 mil habitantes. Para quem chega na cidade, impossível não lembrar de Brasília: as mesmas super avenidas, a mesma divisão em setores e quadras, os mesmos espaços vazios. Não é à tôa, as duas cidades foram planejadas e construídas praticamente do zero. Deste modo, assim como sua "irmã mais velha", não é uma cidade para se andar à pé, já que tudo é longe e o calor impera o ano inteiro. Mas, tendo carro, o trânsito ainda é tranquilo e o deslocamento fica fácil. Construída ao lado do rio Tocantins, que neste ponto está represado formando um grande lago, é no rio que estão as mais próximas opções de lazer, com suas praias fluviais. E assim, planejamos nosso dia na cidade: praça e praias, sempre de carro. Com ar condicionado, claro!
Admirando mural dentro do Palácio Araguaia, em Palmas - TO
Quer dizer, na praça, nossa vizinha, fomos à pé mesmo (embora tenha dado uma dúvida, hehehe). Realmente, é gigantesca, cheia de grandes espaços vazios. Na sua única elevação fica o Palácio Araguaia, sede do governo. De lá se pode ver as montanhas, de um lado, e o Tocantins, do outro. Tiramos fotos, admiramos os belos murais dentro do palácio, estudamos a maquete da praça gigante. Depois, era hora das praias!
Praia do Caju, em Palmas - TO
Já junto com o Marco, Carol e filhos, fomos à mais distante Praia do Caju, que é também a mais popular. Barracas apinhadas, campeonato de forró (os ganhadores seriam premiados com uma caixa de Nova Skin) e o rio ali do lado, cheio de gente também, mesmo sem a proteção das redes. Pois é, redes são colocadas nas outras praias para proteger os banhistas de ataques de piranhas, que segundo nos contaram, são bem comuns por aqui. Pelo menos hoje, não houve ataques. Nós, ainda com a memória da paradisíaca e deserta Prainha do Rio Novo fresca na cabeça, prefirimos ficar só observando. Mas o Marco e seu filhinho Arthur passaram um bom tempo dentro d'água.
O Marco e o Arthur se refrescando no rio Tocantins, na Praia do Caju, em Palmas - TO
Ana e Carol de bate-papo em barraca da Praia do Caju, em Palmas - TO
Um pouco antes do pôr-do-sol corremos (de carro!) para a praia do Prata, já um pouco mais chique e organizada que a Caju, e com rede de proteção. Chegamos bem em tempo para a Ana tirar belas fotos do céu avermelhado, tão característico do cerrado.
Campeonato de forró na Praia do Caju, em Palmas - TO
Já no início da noite, fomos à mais central Praia da Graciosa, com uma orla charmosa com vários restaurantes. Bem ao lado da Ponte Fernando henrique, de 8 quilômetros, que cruza toda a represa em direção à cidade de Paraíso.
Pôr-do-sol na Praia do Prata, em Palmas - TO
Foi um dia bem tranquilo, de explorações da mais nova capital brasileira e de suas diversas classes sociais. A grande maioria dos moradores, à exemplo do Marco, são forasteiros que vieram tentar a sorte nesta cidade cheia de novas oportunidades. É um lugar em que quase se pode sentir o cheiro de dinheiro no ar mas que, ao mesmo tempo, preserva um ar de simplicidade e segurança de cidade do interior. Até quando essa combinação interessante vai se manter, essa é a questão. Não só a questão, é o verdadeiro charme de Palmas!
Praia da Graciosa, em Palmas - TO
A cidade de Rosário, na Argentina
Rosas, um rico estancieiro e teoricamente um federalista, se tornou líder da mais rica das províncias, justamente a província de Buenos Aires, logo após ajudar as tropas federalistas a vencer as forças unitaristas. Pelos próximos 20 anos, se transformou, na prática, no líder inconteste de todo o país. Apesar de, teoricamente, presidir apenas a sua província, ninguém ousava contestá-lo. Aliás, os que ousavam, terminavam nas salas de tortura da poderosa polícia política do regime, outra invenção desse primeiro caudillo a ser imitada por muitos dos caudillos posteriores. O poder de Rosas só ruiu quando levou o seu país a uma derrota fragorosa contra inimigos externos, incluindo o Império do Brasil. Acabou se exiliando na Inglaterra, onde viveu até sua morte. Um dos principais nomes da história argentina só começou a ser reabilitado recentemente, quando Menem resolveu trazer seu corpo de volta e enterrá-lo na Argentina. Mesmo assim, ainda não encontramos nenhuma rua, avenida ou beco que fizesse homenagem a essa figura controversa.
Monumento ao General Belgrano em Rosário, na Argentina
Uma das pessoas que teve atuação decisiva para derrubar Rosas foi um antigo aliado seu e presidente da província de Entrerrios, Justo Jose Urquiza. Afastado o antigo caudillo, Urquiza se tornou o próximo líder e convocou um congresso para, finalmente, escrever uma constituição. Urquiza, assim, se tornou o primeiro presidente constitucional do país, selando também a vitória do unitarismo e de um governo centralizado. A única província que se rebelou foi justamente a de Buenos Aires, que manteve-se afastada do país até o fim de seu mandato. De qualquer maneira, hoje é muito comum ver o nome de Urquiza nas cidades argentinas.
Pescadores e pedestres ao lado do rio Paraná, em Rosário, na Argentina
Caminhando entre o rio Paraná e antigos armazéns, hoje tranformados em oficinas de arte, em Rosário, na Argentina
O próximo presidente, agora sim com todo o país reunido, foi Bartolome Mitre. Foi em seu governo que Buenos Aires foi definitivamente escolhida para ser a capital do país. A outra séria candidata foi justamente Rosário, escolhida pelo legislativo, mas renegada pelo executivo, tanto por Mitre como pelo próximo presidente, Sarmiento. Os governos desses dois presidentes também foram marcados pela guerra mais sangrenta da história do continente, quando Brasil, Uruguai e Argentina venceram o Paraguai de outro caudillo famoso, Solano Lopez.
Grandes cargueiros navegam no rio Paraná em Rosário, na Argentina
Grandes cargueiros navegam no rio Paraná em Rosário, na Argentina
Enfim, Mitre também marcou seu nome na história e nas avenidas hermanas e foi sucedido por Domingo Faustino Sarmiento. Este, jornalista e escritor, investiu pesadamente em educação, mudando para sempre a face de seu país. Apesar de seu governo não ser muito popular naquela época, hoje ele é considerado como um dos melhores de todos os tempos pelos historiadores. Portanto, muito justo que encontremos tantas praças e ruas com o seu nome!
O belo passeio público nas margens do rio Paraná, em Rosário, na Argentina
Agora já sabemos de onde vem todos os artistas de semáforo que operam no Brasil! (em Rosário, na Argentina)
Foi justamente o ministro da educação de Sarmiento, Nicolas Avallaneda, que o sucedeu. Vindo desta área, continuou as reformas educacionais de seu predecessor. Mas, infelizmente, seu governo também é lembrado por outro “feito”. Foi ele que conquistou o “deserto” da patagônia, matando milhares de índios no processo. Até então, toda essa área era “terra de ninguém” e o país praticamente duplicou de área em seu governo. Pior para os índios, melhor para os imigrantes, que continuavam a chegar ao país aos milhares e buscavam terras para plantar. Então, sob um ponto de vista econômico e político, a tal “Campanha do Deserto” foi um grande sucesso. E assim, Avallaneda também ganhou seu quinhão de ruas e avenidas.
O belo e chique Boulevard Oroño, em Rosário, na Argentina
O belo e chique Boulevard Oroño, em Rosário, na Argentina
Por fim, que o sucedeu foi exatamente o seu ministro da guerra, que idealizou e liderou a campanha para a conquista da Patagônia. Seu nome: Julio Roca, outra figurinha fácil na lista de nomes de logradouros. Certamente falarei mais dessa “vitoriosa” campanha quando estivermos viajando pela Patagônia. Enfim, chegamos assim a virada do séc. XIX para o XX e, com isso, já podemos entender boa parte dos nomes que tanto aparecem nos catálogos de endereços. No séc. XX, o grande nome da história seria Perón, mas esse, estranhamente, não aparece tanto como esses do séc. anterior. Pelo menos, não que percebêssemos.
Frase de autoajuda, as margens do rio Paraná, em Rosário, na Argentina
Igreja no Boulevard Oroño, em Rosário, na Argentina
E assim volto ao nosso passeio em Rosário. Após uma rápida caminhada pelo centro com seus prédios de arquitetura clássica, chegamos ao grande marco da cidade e um dos principais do país: o monumento da Bandeira Nacional. Pois foi aqui que o General Belgrano criou a bandeira da Argentina, ainda no início de suas campanhas militares para libertar o país. Além da grandiosidade do próprio monumento, podemos aproveitar a vista que se tem do rio Paraná, que corre ali embaixo e nos chama para a sua orla, quase como um ímã.
Praia de riobastante movimentada, perto da ponte que cruza o rio Paraná, em Rosário, na Argentina
E para lá seguimos, não sem antes passar m outro monumento, dessa vez homenageando o próprio Belgrano. Por fim, atravessamos a rua e chegamos à Costanera, o passeio público que segue toda a orla do rio. Aí, podemos admirar os enormes cargueiros que vem do oceano e chegam até aqui, trazendo e levando produtos para todo o mundo. Além deles, há também as famílias e os pescadores que vem se divertir por esse enorme parque, a maior área verdade da cidade. Caminhar por aí é uma delícia, entre o rio e antigos armazéns que foram transformados em oficinas de arte.
Praia de riobastante movimentada, perto da ponte que cruza o rio Paraná, em Rosário, na Argentina
Nós percorremos toda a Costanera Sur, até o Boulevard Oroño, uma linda avenida que já foi o ponto mais chique da cidade há um século. Aí morava toda a classe alta da cidade, em mansões luxuosas cercadas por enormes jardins. Muitas delas continuam de pé, transformadas em universidades ou bancos. É um local onde as pessoas vem aproveitar das sombras das árvores e fazer seu exercício todo final de tarde. E depois, encontrar um bom restaurante entre os muitos que aí estão. Foi o que fizemos, nos deliciando com a comida e com a vida que passava a nossa frente. Depois, outra caminhada, já no escuro e agora pelas ruas mais centrais, de volta ao nosso hotel.
Molhando os pés no rio Paraná, em Rosário, na Argentina
Rosário, na Argentina, na beira do rio Paraná
No outro dia pela manhã, já com a bagagem na Fiona, foi a vez de seguirmos à Costanera Norte. Aí estão as principais praias fluviais de Rosário e nós queríamos aproveitar o dia de sol intenso na cidade. Escolhemos uma das mais famosas, chamada Florida, e aí passamos umas duas horas. Deu até para lanchar e tomar uns refrescos, além de admirar a bela fauna local. Fomos também nos molhar no rio, o mesmo rio lá do nosso estado do Paraná, no Brasil. Ele não parece se importar com sua nacionalidade, se é brasileiro ou argentino. Com tranquilidade e sabedoria, simplesmente corre para o mar. Aqui ele é muito mais largo e, de onde estávamos, tínhamos uma ótima visão da bela ponte que atravessa para o outro lado. Esse não é o nosso caminho agora, já que ele segue em direção ao Uruguai. Quem sabe uma outra vez... Agora, seguimos mesmo é para o sul, rumo à capital federal, a última cidade que nos resta daquela lista das maiores cidades do país...
Feliz da vida em dia de muito sol em praia do rio Paraná, em Rosário, na Argentina
Deliciosa casa do Sérgio em Ubatuba - SP
Após um jantar de gala e comemoração em alto estilo ontem de noite em Campos (fondue ao lado de uma lareira, 0 graus do lado de fora!), partimos meio atrasados hoje para tentar veo o jogo do Brasil já em Ubatuba. Antes de sair, uma última paradinha numa farmácia. Enquanto a Ana se divertia lá dentro fui abordado por um simpático sujeito atraído pela Fiona, seu guincho e seus adesivos. Tem sido assim outras vezes. Ela é uma ótima propaganda ambulante do nosso projeto. Falta só a gente avisar a montadora...
Depois, à toda para o litoral tentando driblar os radares. Estrada bem tranquila, como era de se imaginar, nesse dia e horário. Exceção ao centro de Taubaté, que atravessamos seguindo cegamente o GPS. Se não fosse por ele, acho que ainda estaríamos por lá. Bom, também se não fosse por ele, não teríamos nos arriscado em cruzar a cidade...
A descida da serra também foi vagarosa. Não por causa do trânsito, que como já disse era inexistente. Mas, primeiro, para quem conhece a estrada, sabe que não dá para acelerar muito na descida de Taubaté. Algumas curvas mais fechadas a Fiona quase tem de manobrar. Segundo que o ferio dela está esquentando muito.Assim, passamos a usar bastante o freio motor, variando entre primeira e segunda marchas. Um pouco de cautela não faz mal a ninguém. Principalmente para quem pretende rodar mais de 100 mil km neste carro, inclusive descer estradas pelos Andes à fora...
Em Ubatuba, após algumas tentativas frustradas, acabamos encontrando um simpático churrasquinho de gato para assistirmos o jogo. Deu sorte e faturamos o Chile. Que venha a Holanda. A de 94 ou 98 e não a de 74!
Depois, fizemos umas comprinhas e chegamos à casa do Sérgio, na Praia Vermelha. Depois de tanto tempo fora de casa, nada como chegar em uma que quase consigo chamar de lar. Só é estranho não cruzar com os familiares queridos pelos corredores ou salas. Principalmente os pais, que são a alma dessa casa.
De qualquer maneira, após 16 ou 17 temporadas, o sentimento é de home, sweet home.
Prédio no Parque Céspedes, em Trinidad, em Cuba
A cidade de Trinidad foi o terceiro povoamento espanhol em Cuba, ainda na segunda década do séc XVI. Apesar disso, continuou um lugar bem pacato pelos próximos 300 anos. Foi quando um evento numa ilha vizinha à Cuba mudou para sempre a sua história. Violentas rebeliões de escravos estavam ocorrendo no Haiti e os senhores brancos com juízo saíram correndo (ou nadando!) de lá. Apesar de franceses (o Haiti era colônia francesa), foram muito bem recebidos em Cuba, principalmente na região de Trinidad. Foi aí que fundaram diversos engenhos, transformando a região na principal área produtora de açúcar do país.
Vida tranquila na cidade histórica de Trinidad, em Cuba
Parque Céspedes em Trinidad - Cuba
Exatamente nessa época um enorme mercado consumidor desse produto se abria ao norte. Eram os EUA, que até pouco tempo antes compravam seu açúcar da Jamaica, colônia inglesa. Mas a guerra com a antiga metrópole em 1811 os fez mudar de mercado, buscando ao açúcar cubano. Tudo isso trouxe muita riqueza à Trinidad, que acabou se traduzindo em grandes obras na cidade, igrejas, teatros, palácios, casarões, ruas bem calçadas, sempre com um toque de influência francesa.
Rua em Trinidad, em Cuba
Vida tranquila na cidade histórica de Trinidad, em Cuba
A “festa” durou apenas meio século, o bastante para mudar a cara da cidade para sempre. Mas nas guerras de independência a partir de 1860 acabaram destruindo as plantações e engenhos da cidade. Quando a paz voltou, o cultivo de cana havia se mudado para outras províncias e a região de Trinidad nunca mais recuperou sua antiga posição econômica. A cidade novamente parou no tempo. Um verdadeiro golpe de sorte para nós, turistas! Foi por causa disso que Trinidad não se modernizou, permanecendo seu centro histórico muito parecido com o que era há quase 200 anos. Não é à toa que foi declarada Patrimônio Mundial pela Unesco! Tudo por causa dos escravos haitianos, migrantes franceses, mercado americano e guerras de independência!
Morador de Trinidad, em Cuba
Antigo morador de Trinidad, em Cuba
Para aí seguimos hoje, nos instalando em mais uma Casa de Hóspedes já agendada antes da partida de Havana. A primeira coisa que fiz foi tentar usar a internet. O Rafa já havia tentado em Havana, reclamando muito do preço e da qualidade. Agora, era a nossa vez. Fomos ao prédio da companhia de telecomunicações, que tem a internet mais rápida. O serviço era bom e nem era tão caro assim, mas descobrimos um grande “porém”. Impossível, tanto ali como nos poucos internet cafés da cidade, fazer upload de qualquer coisa. Assim, nada de postagem de fotos. E posts, só o que escrevêssemos ali mesmo, diretamente no site, já que não podíamos colocar nosso pen drive no computador deles (wifi, para usar nossos próprios computadores, como fazemos em todos os lugares, nem pensar!). Foi quando fizemos o nosso único post diretamente de Cuba:
“Oi gente
A viagem segue maravilhosa. Passamos dias incríveis no paraíso de Little Cayman e depois viemos para Cuba, onde encontramos os padrinhos Rafa e Laura.
Aqui ja passamos por Havana, Isla de Juventud, Cienfuegos e chegamos agora à histórica Trinidad. Estamos de carro e seguiremos ate Santiago de Cuba, de onde retornamos à Havana para mais dois dias pelo oeste da ilha, voltando para o México no dia 27
O único porem daqui e o acesso a internet. Difícil e caro! Só conseguimos agora e não podemos fazer upload de posts (já temos uns 5-6 prontos) e fotos (umas duzentas!). Paciência, algum dia faremos. Nada se perdera!
Um grande abraço a todos e feliz carnaval”
Arte com a figura de Che Guevara em galeria de Trinidad, em Cuba
Arte em galeria de Trinidad, em Cuba
Passada a obrigação, passamos à exploração. Caminhar pelas ruas de paralelepípedo da antiga cidade é uma delícia. Muitas vezes, parecia que eu estava numa das cidades históricas de Minas, pessoas sentadas nas calçadas e praças vendo a vida passar, casas e ruas com aparência centenária, aquela sensação de que o tempo, aqui, passa mais devagar.
Ensaio de música cubana para o show da noite na Casa de La Trova em Trinidad - Cuba
O simpático e culto poeta de rua em Trinidad,- Cuba
Visitamos galerias de arte, feirinhas, casas de música e torres de construções, com direiro a vista privilegiada da charmosa cidade colonial e dos telhados de suas casas. Interagimos e fotografamos pessoas, sempre muito amáveis e curiosas sobre nós, brasileiros. A Ana e a Laura ficaram amigas de um poeta de rua que prontamente declamou seus conhecimentos sobre o nosso país. A Ana até fez um vídeo com ele para a seção do “Soy Loco”. Muito legal!
A charmosa cidade vista do alto do Museu Nacional de La lucha Contra Bandidos, em Trinidad - Cuba
Esperando as esposas na calçada em frente ao museu em Trinidad, em Cuba
No fim de tarde, eu e a Ana subimos um morro ao lado da cidade, onde pudemos assistir a um belíssimo pôr-do-sol, o mar lá no fundo e a cidade abaixo de nós. Depois, já de noite, passamos ótimos momentos na Casa de La Trova, onde diariamente pode-se ouvir a excelente música cubana.
Jogo de dominó nas ruas de Trinidad, em Cuba
A charmosa cidade vista do alto do Museu Nacional de La lucha Contra Bandidos, em Trinidad - Cuba
Para fechar o dia e a noite com chave de ouro, fomos a uma discoteca que foi feita dentro de uma caverna de verdade. A paisagem é surreal, bem “cavernosa” mesmo. Eles aproveitaram um grande salão da caverna, com estalactites pendurados no teto e aí fizeram a boate. As luzes coloridas se perdem nos recantos da caverna e a música ecoa em todas as suas reentrâncias. Aliás, adivinha qual a música que começou a tocar exatamente quando entrávamos na caverna? Para quem pensou em Michel Teló, acertou. Pois é, até em Cuba esse cara chegou... É, a gente pode não ser muito fã da música, mas ouvi-la ali, bem naquela hora, foi uma “experiência”. Já os gringos, boa parte dos frequentadores, e os cubanos, adoraram!
Trinidad vista do alto do Cerro de La Vigia (Cuba)
Magnífico pôr-do-sol visto do alto do cerro de La Vigia, em Trinidad - Cuba
E nós, adoramos essa cidade e o dia de hoje! Amanhã, vamos para uma praia aqui perto para passar o dia e voltamos para Trinidad para mais uma tarde e noite memoráveis. Numa cidade com tanta história e cultura pelas ruas, não tem jeito de não ser...
Balada em uma disco dentro de uma caverna em Trinidad, - Cuba
Treze Tilias, um pedacinho do Tirol austríaco em Santa Catarina
Começo da década de 30. São anos difíceis na Europa. O crash da bolsa de Nova York derrubou a economia mundial e atingiu com força os países do Velho Mundo, especialmente aqueles que haviam sido derrotados na 1ª Guerra Mundial e forçados a pagar pesadas indenizações pelo Tratado de Versalhes. A Áustria é um deles. Um século antes e Viena era a capital do poderoso Império Austro-húngaro. Agora, os habitantes da antiga potência passam fome.
Visitando a praça central de Treze Tilias, em Santa Catarina
Visitando a praça central de Treze Tilias, em Santa Catarina
Já há várias décadas que a solução encontrada para fugir dessas crises que assolam a Europa é a imigração. Estados Unidos, Brasil, Argentina e Austrália recebem centenas de milhares de viajantes que vêm apenas com a passagem de ida, em busca de uma nova pátria e de uma nova chance de viver. Assim, não é de se estranhar que, outra vez, a solução para a mais nova crise seja a imigração.
A prefeitura de Treze Tilias, em Santa Catarina
Homenagem ao ministro austríaco da agricultura que, no início da década de 30, organizou a imigração de seus conterrâneos para Treze Tilias, em Santa Catarina
Dessa vez, quem lidera o movimento é Andreas Thaler, presidente da Associação de Agricultores e Ministro da Agricultura da Austria. Ele mesmo já não vê futuro em seu país e decide que imigrar é a melhor coisa a fazer. Já havia viajado pela América do Sul nas décadas anteriores e negocia com o governo brasileiro uma área no centro-oeste do estado de Santa Catarina. Junto com diversas famílias do Tirol, região alpina na fronteira entre Áustria e Itália, viaja de navio para o Brasil e, no dia 13 de Outubro de 1933, funda a cidade de Treze Tílias.
A igreja matriz de Treze Tilias, em Santa Catarina
Roupas típicas austríacas vendidas em Treze Tilias, em Santa Catarina
A ideia era replicar por aqui o modo de vida austríaco. A região onde foi fundada Treze Tílias foi escolhida pelo clima parecido com o da antiga pátria. Até a neve era comum por aqui naquela época, caindo em todos os invernos, o que já não ocorre mais. As famílias trataram de tocar sua fazendas e construir suas casas, sempre com o estilo arquitetônico do país europeu. Aprenderam a falar português, mas não esqueceram o alemão. Não só isso, os filhos e netos continuaram a falar o idioma, para ajudar a preservar a cultura trazida do hemisfério norte.
Prédios típicos em Treze Tilias, em Santa Catarina
Os primeiros anos, claro, não foram fáceis. Algumas famílias chegaram a desistir e voltaram para a Europa. Não tinham ideia do buraco em que estavam se metendo. Os mais teimosos aqui ficaram, inclusive Andreas Thaler. Com isso, escaparam de ver seu país ser anexado pela Alemanha de Hitler para, alguns anos mais tarde, participar da 2ª Guerra Mundial. É, mesmo com as dificuldades de adaptação, muito melhor mesmo era ter ficado no Brasil do que ir lutar na temida frente russa...
Prédios típicos em Treze Tilias, em Santa Catarina
Quem não viu esse trágico destino da antiga pátria foi o fundador de Treze Tílias. Andreas Thaler morreu em uma grande cheia que atingiu Treze Tílias em 1939. Mas seus filhos e netos prosperaram e ainda podem ser encontrados na cidade em que chegamos ontem de noite e conhecemos melhor hoje pela manhã.
Maquete da cidade de Treze Tilias, no parque Lindendorf, em Santa Catarina
Nossa viagem de 1000dias é apenas pelas Américas, mas nem por isso deixamos de conhecer o resto do mundo. Afinal, o continente que conhecemos hoje foi feito por imigrantes de todos os outros continentes. Vimos pedacinhos da Alemanha e da Itália no Brasil, EUA e até no Paraguai, entre outros. Chineses estão por toda a parte. Na Guiana, há quarteirões que parecem ter saído da Índia e o Caribe, em alguns lugares, é totalmente africano. Até um pedacinho da Rússia visitamos no Alaska. França e Holanda também estão bem representadas no Caribe, há pedacinhos suecos e dinamarqueses espalhados por aí. Pois bem, hoje foi a vez de chegarmos à Áustria!
Uma deliciosa cerveja Bock, feita em Treze Tilias. Perfeito para o clima frio da cidade, em Santa Catarina
Goulash e Spatzle, deliciosos pratos típicos servidos em Treze Tilias, em Santa Catarina
A arquitetura realmente não engana, estamos muito perto do Tirol. Mas ontem de noite, o que nos fez sentir em terras tirolesas foi mesmo a comida e a bebida. Cerveja da melhor qualidade e pratos típicos suculentos como o Spätzle com goulash. Hmmmmm... uma delícia! Cardápio e garçons falando alemão, claro! Mas com a devida tradução em português, afinal, estamos ao sul do equador!
Uma Tilia, árvore comum na Áustria e, agora, em Treze Tilias, em Santa Catarina
Hoje sim, passeamos pelas ruas admirando a arquitetura dos prédios, da prefeitura, dos grandes hotéis e das igrejas. Assim como as Tílias, a árvore trazida da Áustria e que deu nome à cidade. É bem fácil encontrá-las nos jardins, nas praças e nos parques.
Um sempre curioso avestruz, no parque Lindendorf, em Treze Tilias, em Santa Catarina
Parque Lindendorf, em Treze Tilias, em Santa Catarina
Aliás, falando em parques, foi no principal deles que terminamos nossa visita à Treze Tílias. O Lindendorf tem uma enorme maquete da cidade, trilhas ao redor de um lago e cercados onde vivem animais como um avestruz, além de um restaurante típico. Ainda não tínhamos fome para almoçar, mas não resistimos e nos refestelamos com uma deliciosa apfelstrudel na beira do lago. Queríamos ir embora com um gostinho bem austríaco e, para isso, a torta de maçã fazia bem mais sentido que o desengonçado avestruz, hehehe. Gula saciada, rumo ao Rio Grande do Sul. A maior cachoeira horizontal do mundo nos espera por lá...
Apfelstrudel, ou torta de maçã, a sobremesa típica e deliciosa servida em Treze Tilias, em Santa Catarina
Uma das freiras do Convento de Santa Catalina, em Arequipa - Peru
Poucas décadas depois da fundação da cidade de Arequipa pelos espanhóis, ainda no séc XVI, a cidade já despontava como uma das mais importantes do que é hoje o Peru, principalmente pela sua localização próxima a vales muito férteis. E como tal, já possuía uma elite rica e poderosa. Naquela época, assim como nos séculos posteriores, era muito comum que as famílias mais abastadas mandassem algum de seus filhos ou filhas, normalmente o segundo pela ordem de nascimento, para seguir a vida religiosa. No caso das mulheres, eram mandadas para algum convento.
Caminhano no Convento de Santa Catalina, em Arequipa - Peru
Assim, foi criado em Arequipa o convento de Santa Catalina, para abrigar essas filhas de famílias mais ricas que estavam destinadas a se transformarem em freiras. Apesar dos rigores da Ordem, que pregava uma vida simples e de total devoção a Deus, completamente isoladas da sociedade e mesmo da família, esse convento desenvolveu suas próprias características. A principal delas foi permitir às freiras uma vida mais "confortável" e até serviçais podiam levar para dentro do convento. Essas regalias duraram alguns séculos até que uma madre superiora mais rigorosa acabasse com a festa.
Interior do Convento de Santa Catalina, em Arequipa - Peru
O convento, construído numa grande área bem no centro da cidade acabou se tornando uma pequena cidade dentro de outra cidade, inteiramente cercada por grandes muros que isolavam suas habitantes da agitada vida de Arequipa. Tinha diversas ruas que abrigavam as "celas" ou pequenas casas das freiras, grandes pátios comuns, igreja, biblioteca, refeitórios, cozinhas e até uma piscina para banho.
Caminhano no Convento de Santa Catalina, em Arequipa - Peru
Uma das celas (ou quartos) do Convento de Santa Catalina, em Arequipa - Peru
A arquitetura da pequena cidade e de suas casas foi se modificando com o passar dos séculos, principalmente depois de cada terremoto que, de tempos em tempos assolavam toda a região. A experiência e a tecnologia iam ensinando a arte de construir casas mais sólidas e resistentes às intempéries naturais.
A Pinacoteca do Convento de Santa Catalina, em Arequipa - Peru
Caminhando na Plaza de Armas de Arequipa - Peru
Por fim, há cerca de 50 anos, quase todo o complexo foi finalmente aberto à visitação pública, enquanto as freiras se recolheram a uma parte menor dentro da enorme área. Hoje, Santa Catalina é a maior atração turística dentro de Arequipa, uma verdadeira aula de arquitetura, história e costumes para aqueles que o visitam. Foi o nosso principal programa de hoje, uma espécie de dia de descanço entre a longa viagem ao Colca, ontem, e o trekking ao cume do El Mistí, a partir de amanhã.
Catedral de Arequipa - Peru
Também passeamos na linda e majestosa Plaza de Armas da cidade, uma das mais belas do país, com sua fileira de arcos duplos que cercam três lados da praça, enquanto no outro está a grande catedral. Aí também passamos quase uma hora visitando seu museu, sua torre e a catedral em si. De seu campanário, uma das mais belas vistas da praça, logo em frente, e do vulcão, nosso destino de amanhã.
A Plaza de Armas vista do alto da Catedral de Arequipa - Peru
O El Mistí visto do alto da Catedral de Arequipa - Peru
Foi um dia tranquilo e sem correria em que fechamos nosso grupo para o trekking de amanhã, com direito à guia, transporte, comida e barraca alugada. Vinte e um anos depois, El Mistí, aí vou eu!
Cerveja em um dos muitos restaurantes da Plaza de Armas de Arequipa - Peru
Chegando a bela região de Bariloche, nos Andes argentinos
Ontem de tarde, depois do nosso chá galês em Gaiman (ver último post), estava na hora de pegar estrada novamente. Tínhamos um longo caminho até Bariloche, 850 km cruzando a Patagônia, primeiro de leste a oeste e depois de sul a norte, já pertinho dos Andes. Para quem conhece a Patagônia, sabe que essa é uma das regiões mais desabitadas do continente. Mas, mesmo aqui, há lugares mais e menos populados. A costa do Atlântico e a região andina têm sim suas cidades importantes. Já o interior, justamente a região que precisávamos cruzar, aí não vive quase ninguém. É uma região de estâncias, algum tipo de gado e muito, mas muito pouca gente mesmo.
Cenário da estrada cortando as longas extensões patagônicas, do interior rumo aos Andes, na Argentina
Como já disse em outros posts, nessa época o dia vai longe por aqui, perto das 10 da noite (ou no caso, da tarde). Então, mesmo já sendo depois das 5 da tarde quando saímos de Gaiman, ainda tínhamos muitas horas para dirigir com a ajuda da luz do dia. De nada adianta cruzar uma região linda e grandiosa como a Patagônia se o fazemos de noite! Embora o Googlemaps mostre diversas estradas cruzando a Patagônia de leste a oeste, na verdade poucas delas são asfaltadas. Um bom mapa de papel ajuda bastante nessa hora e nos dá uma visão muito melhor do todo. Ali onde estávamos, nossa única opção era fazer a travessia patagônica pela rodovia 25, pelo menos até onde vai o asfalto. Aí, onde começa a terra, mudamos para a 62, também asfaltada, que nos leva até a rodovia 40, a mais famosa e emblemática da Patagônia. Por ela seguimos até Bariloche, sempre no asfalto. A rodovia 40, ou ruta 40, é a estrada que liga a Argentina de norte a sul, sempre ao lado dos Andes. Já percorremos vários trechos dela na região de Salta e Mendoza. Mais tarde, quando voltarmos do casamento na Ilha do Mel, vamos percorrê-la até o sul do país. Aí sim virão os trechos de terra, pois ela ainda não foi asfaltada na sua totalidade.
Mas, voltando à nossa travessia patagônica de agora, há vários outros caminhos na região, inclusive algumas rotas mais curtas, mas todos de terra. Mal consigo imaginar as belezas de cada uma dessas estradas, mas o fato é que agora estamos com tempo contado e o asfalto é nossa melhor e mais rápida opção. Uma rápida pesquisa nos fez achar o único lugar para dormirmos no caminho, bem no meio do país: Los Altares. Uma vilazinha que mal se percebe da estrada e onde há um posto afiliado à ACA, o Automovel Clube Argentino. Ali há um camping e uma pequena pousada. Passou a ser nosso objetivo do dia.
Cenário da estrada cortando as longas extensões patagônicas, do interior rumo aos Andes, na Argentina
Logo que deixamos Gaiman a estrada já ficou deserta. Uma hora dirigindo e dá para contar nos dedos o número de carros que cruzamos. Típico das estradas patagônicas. Outra coisa bem típica, e isso em todas as estradas do país, são altares ao Gauchito Gil, o santo gaúcho mais popular na Argentina. A gente já percebe de longe, aquele monte de pequenas bandeiras vermelhas ao lado da estrada. E não tem nada a ver com o MST ou com o PT. É apenas mais uma homenagem ao santo protetor. Ele também está presente nas estradas aqui, mesmo que não haja movimento de carros. Para nós, depois de tanto dirigirmos nas estradas hermanas, já passou a fazer parte do nosso cotidiano.
Altar para Gauchito Gil, tradição nas estradas argentinas (entre Gaiman e Los Altares, na Patagônia)
Por fim, a paisagem patagônica típica: uma planície infinita, levemente ondulada, coberta por vegetação baixa. Longas, quase intermináveis retas e um horizonte sem fim. Ausência de cidades, casas ou carros. Essa é a Patagônia. E então, no meio daquela vastidão toda, um acidente geográfico. Pode ser um vale, uma montanha, um rochedo. Como está no meio dessa planície sem fim, esse acidente geográfico ganha ainda mais destaque, fica soberano no meio de uma paisagem em que nada rivaliza com ele, pelo menos até onde os olhos alcançam. E olha que os olhos alcançam longe!
O belo cenário da região de Los Altares, no interior da Patagônia, na Argentina
O belo cenário da região de Los Altares, no interior da Patagônia, na Argentina
Bom, foram horas dirigindo assim, sem nenhum contato com a civilização (exceto pela própria estrada) até que os enormes rochedos que deram o nome à região de Los Altares apareceram no horizonte. Outra meia hora dirigindo e lá chegamos, a Fiona ávida por combustível e nós por um lugar para dormir. O cenário era de uma beleza magnífica, principalmente depois de 100 quilômetros de “nada”. O cara do posto feliz em nos receber, raros que são os clientes por aqui. Hoje, por sinal, além de nós um grupo de motoqueiros. Celular ou internet, nem pensar. Cartão de crédito? Tá brincando? Tem de ter dinheiro vivo mesmo! Serve para o quarto, para o diesel e para o bife de lomo!
Deixando Los Altares, no interior da Patagônia, rumo a Bariloche, nos Andes, Argentina
Deixando Los Altares, no interior da Patagônia, rumo a Bariloche, nos Andes, Argentina
De noite, um céu estrelado que pouca gente conhece, digno dos céus que vimos a bordo do Sea Spirit, em alto-mar. Pela manhã, uma serenidade quase celestial, o barulho do rio ecoando nos grandes paredões que nos cercam. A vontade é de passar mais um dia por aqui, caminhar e explorar um pouco, sentir a calma que flutua sobre Los Altares. Esse foi um dos últimos refúgios dos índios tehuelches na guerra de conquista e extermínio que o governo central moveu contra eles no final do séc. XIX. Hoje, os poucos habitantes daqui são seus descendentes, ainda habilidosos para trabalhar com a pedra e a madeira, alegria do punhado de turistas que passam por aqui e compram artesanato.
Deixando Los Altares, no interior da Patagônia, rumo a Bariloche, nos Andes, Argentina
Mas tínhamos de seguir em frente. Com os rochedos de Los Altares sumindo no nosso retrovisor, estávamos novamente no meio do nada. Depois, um rio aqui, um vale ali, outra pedra ali. Até que, no horizonte, montanhas começaram a aparecer. Montanhas de verdade, com “m” maiúsculo. Eram os Andes. Imperiais, como sempre. Antes deles, picos menores, a cordilheira pré-andina. Chegávamos à ruta 40.
Deixando Los Altares, no interior da Patagônia, rumo a Bariloche, nos Andes, Argentina
Daqui para o norte. Estrada lindíssima, passando por lagos azuis, florestas bem verdes, vales quase encantados, montanhas nevadas ao fundo. Agora sim, estamos na Patagônia Andina, região de Bariloche. A cada curva, mais um cartão postal. Não é a toa que a ruta 40 tem a fama que tem. Passamos por Esquiel, também de origem galesa e El Bolsón, coração da Patagônia hippie e alternativa. Quando estivermos indo para o sul, em pouco mais de uma semana, vamos passar com calma por aqui. Hoje, foi só de passagem, fotos e muita inspiração só da janela do carro. Nosso objetivo era mesmo Bariloche. E aí chegamos, ainda com tempo de luz para achar um hotel, dar uma boa volta pela cidade e nos encontrar com a Rowan, que chega bem de noite. Fica para o próximo post...
Chegando a bela região de Bariloche, nos Andes argentinos
Chegando a Port Stanley, a capital de Falkland
Os habitantes de Falkland são chamados de “kelpers”. O nome vem de um tipo de alga, “kelp”, que é muito abundante ao redor da ilha. Uma boa parte dos moradores da ilha está envolvida com a principal atividade econômica de Falkland, que é a criação de ovelhas. São quase 700 mil delas em um arquipélago onde vivem menos de 3 mil pessoas. E uma parte importante da alimentação desse enorme rebanho é justamente o kelp, que os poucos humanos disponíveis vão coletar no mar. Daí a denominação, kelpers!
Chegando a Port Stanley, capital de Falkland (foto de John Pairaudeau)
O Sea Spirit ancorado em Port Stanley, a capital de Falkland
Pois bem, para os kelpers, o arquipélago está dividido em duas partes. E eles não estão se referindo às ilhas East e West Falkland. Não! Para eles, existe o “town” e o “camp”. “Town” é a capital, e única cidade de verdade em Falkland, Port Stanley. E “camp” é o resto. Todo o resto. Então, até agora, nós conhecemos o “camp”. Carcass Island e Steeple Jason fazem parte do “camp”. As outras pequenas ilhas, toda a West Falkland e boa parte da East Falkland, dos quais não vimos nada, também são o “camp”. Quando muito, vimos de longe, das janelas e do convés do Sea Spirit. Mas agora, o que queríamos mesmo era ver a outra metade do país, o “town”.
Caminhando do porto até Port Stanley, a capital de Falkland
Caminhando do porto até Port Stanley, a capital de Falkland
E assim foi. Nosso dia de hoje foi devotado à exploração da capital, do “town”, de Port Stanley, com seus pouco mais de 2 mil habitantes. Logo de manhã nosso barco já estava ancorado lá, nossa única chance nessas três semanas de poder sair do Sea Spirit sem estar vestindo as botas de borracha ou nossa roupa de caiaque. Tiramos nossos tênis do fundo da mala, bem felizes e estávamos prontos. Hoje, nem de guia precisaríamos. Nossa liberdade de volta, desde que respeitássemos os horários, claro!
Memorial Wood (Bosque da Memória), em Port Stanley, a capital de Falkland
Caminhando no Memorial Wood (Bosque da Memória), em honra oas mortos na guerra de 82, em Port Stanley, a capital de Falkland
Na verdade, três de nossos simpáticos guias estariam sim, a nossa disposição, liderando grupos “temáticos” pela cidade. Um para falar de história, outro dos pássaros e a terceira das baleias. Eram tours facultativos e nós, eu e a Ana, optamos pela exploração seguindo nosso próprio nariz. Como disse, era nossa única chance nessas 3 semanas.
Ave se esquenta ao sol em pier em Port Stanley, a capital de Falkland
Pássaros Rock Shags em Port Stanley, capital de Falkland (foto de Ken Haley)
O porto está a pouco mais de 2 km do centro da cidade. Microônibus poderiam nos levar e trazer de volta, a cada meia hora. Para quem quisesse, podia seguir a pé. Umas dez pessoas optaram pelo exercício, assim como nós. Alguns, com o espírito ainda mais livre, ao chegar à estrada, viraram para o outro lado. Preferiram ir até uma península, uma baía e à famosa praia de “Gipsy Cove” do que seguir para “town”. Nós não, queríamos era um pouco de urbanidade mesmo.
Cemitério em Port Stanley, a capital de Falkland
Braço de mar em frente a Port Stanley, a capital de Falkland
Port Stanley virou a capital de Falkland em 1845, principalmente pelo fato de ser um bom porto. Afinal, a principal atividade econômica de Falkland naquele tempo era a reparação de navios. Para chegar à costa oeste dos Estados Unidos, a principal rota passava pelo sul da América e não eram poucos os navios que necessitavam de reparos após a passagem pela perigosa “Passagem de Drake”. Falkland, estando “logo ali”, soube aproveitar-se desse mercado, facilitado pelas excelentes condições de Port Stanley, de calado mais profundo.
A arquitetura de Port Stanley, capital de Falkland (foto de John Pairaudeau)
Arquitetura de Port Stanley, capital de Falkland (foto de Susan Pairaudeau)
A bonança continuou até que os navios a vapor, muito mais resistentes, se popularizassem. O golpe final nessa indústria veio no início do séc. XX, com a abertura do Canal do Panamá. Agora, os navios não necessitavam mais enfrentar os rigores da Drake Passage e Port Stanley ficou a “ver navios”. Isso abriu espaço para o crescimento de outra indústria nas ilhas, a criação de ovelhas, principal força econômica do arquipélago até hoje.
Depois da caminhada, quase chegando ao centro de Port Stanley, a capital de Falkland
Arquitetura britânica em Port Stanley, a capital de Falkland
A cidade, como sua própria população indica, é bem pequena e pode ser percorrida a pé em poucas horas. Entre as principais atrações, alguns poucos museus, igrejas, o belo visual da rua em frente ao mar, os vários monumentos que relembram a guerra de 82, naufrágios de antigos barcos que podem ser avistados no mar e os quatro pubs que existem no centro da cidade.
O efeito do vento no crscimento de uma árvore, em Port Stanley, a capital de Falkland
O belo visual da rua costeira de Port Stanley, a capital de Falkland
Nós começamos nossa visita por alguns dos memoriais de guerra, como uma floresta que foi plantada onde cada árvore homenageia um dos mortos britânicos naquele conflito. Vou falar desse assunto no próximo post, mas vistamos também o cemitério que tem uma linda vista para o braço de mar em frente à cidade.
Catedral anglicana de Port Stanley, a capital de Falkland
Interior da catedral anglicana de Port Stanley, a capital de Falkland
Os ossos de baleia azul e a catedral anglicana, uma das cenas clássicas de Port Stanley, a capital de Falkland
Em seguida, fomos a um dos mais vistosos prédios de Port Stanley, a Catedral Anglicana. Com mais de 130 anos de existência, ela é a catedral mais ao sul do mundo, elegante por fora e com uma tranquilidade inspiradora em seu interior. Bem em frente a ela, um dos principais cartões postais da cidade: um monumento feito apenas com os ossos de mandíbula do maior animal que já existiu em nosso planeta, a baleia azul. Usando 4 desses ossos, foi feito um grande arco, convite irresistível à fotografias de turistas. Esse maravilhoso animal era abundante na região, mas foi caçado quase até a extinção nos séc. XIX e XX. Os ossos ali dispostos, em frente a uma igreja, servem para nos lembrar da estupidez de nossa raça que levou tantas outras espécies a extinção total. Quando chegarmos à Geórgia do Sul, certamente vou falar mais dessa perseguição implacável feita às baleias aqui nos mares do sul...
Cartão postal de Port Stanley, a capital de Falkland, os enormes ossos de maxilar de baleias azul, a maior criatura do planeta
A Kim salta entre ossos de maxilar de uma baleia azul, em Port Stanley, capital de Falkland (foto de Jeff Orlowski)
Mas, falando em baleias, há um pequeno museu em homenagem a elas. Antes de chegar lá, ainda passamos no correio da cidade para enviar alguns postais para casa, uma espécie de prova definitiva que passamos nesse lugar tão isolado do mundo. Acho que já fazia alguns anos que eu não enviava postais, prática tão comum entre os viajantes de até pouco tempo atrás. A internet, facebook e Skype mudaram nossos hábitos, mas achamos que, aqui de Port Stanley, no meio do oceano, a ocasião valia a pena!
A prova de que Port Stanley, a capital de Falkland, ainda é inglesa
Visita ao correio de Port Stanley, a capital de Falkland, para enviar alguns postais como prova de que lá estivemos!
O pequeno museu mostra o esqueleto de algumas espécies de baleias, mas o que mais chama a atenção na exposição é um canhão que lançava arpões. Apenas aquele canhão teria matado mais de 20 mil baleias! Hoje, a máquina de matar serve a melhores propósitos. Ao seu lado, um cartaz pede que se proíba a caça às baleias. Deveria vir com tradução em japonês.
Visita a um pequeno museu de baleias, em Port Stanley, a capital de Falkland
Um arpão assassino, exposto em museu de baleias em Port Stanley, a capital de Falkland
Pequeno museu sobre baleias, em Port Stanley, a capital de Falkland
Nesse ponto da nossa visita encontramos o Jeff e passamos a caminhar juntos. O Jeff trabalha com cinema e um dos filmes que ajudou a filmar, o espetacular “Chasing Ice”, é parte do Festival de Cinema que está ocorrendo a bordo do Sea Spirit. É mais um assunto a que preciso dedicar um post, mas como trata de aquecimento global, acho que vou esperar chegarmos à Antártida. Enfim, caminhávamos juntos quando ocorreu o fenômeno mais natural possível para os kelpers, mas que chama bastante a atenção de visitantes como nós!
Junto com o Jeff, protegendo-se da neve repentina em Port Stanley, a capital de Falkland
De repente, uma forte nevasca em Port Stanley, a capital de Falkland
O clima da ilha e especialmente aqui em Port Stanley muda rapidamente, várias vezes ao dia. Mesmo para padrões britânicos, que moram naquela ilha conhecida pelo seu clima instável, as Falkland assustam. Do sol à chuva ao frio ao fim do vento à neve ao céu azul, tudo assim, sem vírgulas e em poucos minutos. Assim, caminhávamos tranquilamente num fim de manhã onde o azul do céu parecia que iria vencer as nuvens quando, de repente, estávamos procurando abrigo atrás de um carro contra o vento e a forte neve que caía. Nossa primeira neve nessa viagem. Mesmo o Jeff, que acabou de passar por lugares como Islândia, Groelândia e Alaska (trabalhando naquele filme que citei acima), se impressionou. Quem não pareceu dar muita bola foram uns cavalos que assistiram toda a cena, eles mesmos pouco se importando com a neve que caía. Afinal, já sabiam que algum tempo depois viria o sol. Cavalos kelpers!
Com o Jeff, caminhando em terreno nevado em Port Stanley, a capital de Falkland
Cavalos parecem estar acostumados à subita queda de neve em Port Stanley, a capital de Falkland
Pois é, o tempo melhorou mesmo e pudemos continuar nossa caminhada. Primeiro, de volta à rua litorânea, um dos visuais mais belos da cidade. E depois para o museu histórico, que eu queria muito visitar. Aí passei mais de hora, primeiro lendo tudo o que havia sobre os warrahs, os lobos extintos de Falkland, assunto sobre o qual tenho estranha obsessão. E depois, sobre a guerra de 82 que, como disse, tratarei no próximo post.
O Museu Histórico de Port Stanley, a capital de Falkland
Representação do extinto Warrah, ou Falkland Wolv, no museu histórico de Port Stanley, a capital de Falkland
Depois do museu, só nos faltava fazer uma coisa que já vínhamos sonhando faz tempo, antes mesmo de entrarmos nesse navio em Buenos Aires. Queríamos passar algum tempo num legítimo pub inglês aqui em Port Stanley, cidade de coração e alma britânica. Então, de volta ao centro e para dentro do pub. Lá já estavam outros passageiros, todos preferindo o conforto do bar que o ar frio lá de fora. Tratamos logo de pedir uma legítima Guinness para brindarmos nossa passagem por lugar tão distante. Uma verdadeira benção, poder estar no meio do Atlântico Sul e, ao mesmo tempo, tomar uma Guinness. Muito joia mesmo! Agora, mais do que nunca, estamos certos de que vamos conhecer e viajar por todos os países das Américas. Até mesmo pelas isoladas, praticamente perdidas e esquecidas Falkland e Geórgia do Sul. Merece até outra Guinness!!!
Um dos pubs de Port Stanley, a capital de Falkland
Interior de um pub em Port Stanley, a capital de Falkland
Celebrando com uma Guinness em um pub a nossa visita a Port Stanley, a capital de Falkland
E assim, de Guinness em Guinness, já era hora do último micro-ônibus de volta ao porto e ao Sea Spirit. Fomos os últimos a chegar, já no segundo tempo da prorrogação. Mas valeu muita a pena a correria e as cervejas. Que ótimo foi ter estado na instável Port Stanley, um pedacinho da Inglaterra aqui nos mares do sul. Saímos ao convés para um último adeus à cidade e a este arquipélago. Pela primeira vez nessa viagem, pisamos em gelo no convés, uma rápida chuva de granizo. Pois é, não poderia faltar em um típico dia nessa cidade. Depois das despedidas formais, de volta ao calor do nosso navio e ao conforto do nosso bar. Mais uma cerveja para comemorar, agora ao início da nossa viagem à Geórgia do Sul e a mais dois dias em alto mar!
Zarpando de Port Stanley, a capital de Falkland
Neve no convés do Sea Spirit em Port Stanley, capital de Falkland
Admirando a magnífica paisagem do rio Yukon e Dawson City, no Yukon Territory, no Canadá
Hoje pela manhã, deixamos a cidade de Dawson, a capital dessa parte do mundo na virada do séc XIX para o XX. Para ver com são as coisas... quando estávamos chegando ao Alaska, há duas semanas, escolhemos a rota mais direta e decidimos que não valeria o esforço de chegar até aqui. Há poucos dias, quando fizemos nossos planos para ir embora do Alaska, também não incluímos Dawson no roteiro. Nossa ideia era ficar pelo sul do Alaska mesmo, até pegar o ferry. Mas São Pedro tinha outros planos e nos fez mudar de roteiro. Para nos convencer, mandou alguns raios e trovoadas. Assim que cedemos aos seus argumentos, ele nos recebeu com tempo limpo e as duas mais belas noites de Aurora das nossas vidas. E agora, na hora de deixar Dawson para trás, nenhum de nós duvida que essa foi a cidade mais interessante que encontramos no extremo norte do nosso continente. Nada como ter um roteiro “flexível”...
Rio Yukon, visto do alto do morro do Dome, em Dawson City, no Yukon Territory, no Canadá
Ainda de ir embora da cidade, dirigimos até o Morro do Dome, de onde se tem uma fabulosa vista da Dawson e do vale do Yukon. Nessa época do ano, Outono por aqui, não poderia ficar mais bonito. Ter visto a Aurora aqui de cima teria sido sensacional. Mas, ao mesmo tempo, não teríamos tido o reflexo das luzes celestiais no rio Yukon. Não dá para ter tudo... Legal foi ver uma foto de 1899 com mais de cem pessoas aqui em cima, todo mundo posando para a foto. Dá para ver o rosto de cada um. Cada pessoa com seus sonhos, problemas e alegrias do dia a dia. Hoje, todo mundo sete palmos embaixo da terra. Lembrança que a vida é curta e devemos vivê-la da melhor forma possível porque, daqui a pouco, seremos nós embaixo dos sete palmos...
No alto do morro do Dome, em Dawson City, no Yukon Territory, no Canadá
Seguimos viagem para o sul e, vinte minutos mais tarde, chegávamos ao início da rodovia Dempster Highway. Essa estrada nasce aqui e segue diretamente para o norte, num percurso de mais de 700 quilômetros ultrapassando o Círculo Polar Ártico, deixando Yukon para trás e entrando nos Northwest Territories, chegando à Inuvik, já bem perto do Oceano Ártico. Se vocês acham que nós chegamos ao fim do mundo, é porque não conhecem Inuvik. Deu aquela coceira danada de seguirmos para lá, desbravarmos a tundra novamente e chegarmos mais perto do Papai Noel. A paisagem da estrada certamente é belíssima, mas não muito diferente do que temos visto ultimamente. O que nos faria realmente pensar em seguir a estrada seria a chance de chegar ao Oceano Ártico e ver ursos polares. Mas, de novo, esse não era o caso...
Fiona se despedindo de Dawson City, no Yukon Territory, no Canadá
Quando pensamos em ursos polares, logo pensamos que é fácil encontrá-los aqui no Canadá ou no Alaska. Pois é, descobrimos que não é! Tanto a estrada que leva a Prudhoe Bay, no Alaska, como essa aqui, a Dempster, nos levam para o norte, mas não a esses animais fantásticos. De ambos os lugares, seria ainda preciso pegar um avião para seguir ainda mais adiante. Aqui, se estivéssemos no Inverno, seria possível, com correntes, seguir com a Fiona em uma estrada no gelo até as próximas cidades e, aí sim, chegar ao Oceano Ártico. Seria bem legal, mas estaríamos no escuro, já que o sol não nasce durante o Inverno naquelas latitudes. Quem sabe, numa noite de lua cheia? E mesmo chegando numa praia do Ártico, ainda não é lá que estão os ursos brancos. Não tem jeito... tem de pegar o bendito aviãozinho.
Início da Dempster Highway, região de Dawson City, no Yukon Territory, no Canadá
Agora sabemos que, sem contar os zoológicos, a maneira mais fácil de chegar perto dos ursos polares teria sido lá do outro lado do Canadá. De Toronto, pegar um trem para Churchill, nas margens da Hudson Bay. Dali, numa excursão em um daqueles ônibus árticos, com rodas gigantes próprias para andar no gelo, pode-se chegar, com segurança, perto desses animais. Os ursos polares são os únicos carnívoros da Terra que nos veem, sim, como uma refeição. Grizzlies, leões, tubarões, todos eles podem ter curiosidade por nós, mas não estamos no seu cardápio, pelo menos até a primeira vez em que eles tiverem provado. E para isso acontecer, só se estiverem com muita fome. Com ursos polares, a história é outra. Assim que entramos no seu campo de visão, viramos um alvo. E para um bicho daquele tamanho, haja bear spray! O negócio é estar mesmo dentro de um ônibus. Passeio para a nossa próxima vinda ao Canadá...
Painel explicativo sobre a Dempster Highway, na região de Dawson City, no Yukon Territory, no Canadá
Assim, deixamos a Dempster Highway para trás e seguimos para o sul, rumo à Whitehorse. Mas ela não saía da minha cabeça. Só que agora, o motivo não era os ursos polares, mas um assunto bem diferente, a “Beringia”. A Dempster corta um bom pedaço dessa misteriosa região, por onde nossos antepassados chegaram às Américas há uns 15 mil anos. Sempre fui muito curioso sobre as teorias que tentam explicar o povoamento do nosso continente. A teoria mais aceita diz que o homem chegou da Ásia, caminhando por uma ponte natural entre Sibéria e Alaska, formada na última era glacial, quando o nível dos oceanos era bem mais baixo. O que eu não conseguia entender era como eles teriam caminhado sobre tanto gelo. Afinal, passamos por lugares muito mais ao sul, nos Estados Unidos, que eram cobertos por espessas geleiras naquela época. Se South Dakota já era coberta por geleiras, imagina como era a Beringia, uma terra entre o Alaska e a Sibéria???
Início da Dempster Highway, região de Dawson City, no Yukon Territory, no Canadá
Pois é, por aqui, finalmente descobri a resposta. A Dempster Highway cruza um território que não é nunca foi coberto por gelo e neve. Não porque não seja frio, mas simplesmente porque não há precipitação! É muito seco! Toda a umidade é barrada por uma cadeia de montanhas e o lugar é como se fosse uma espécie de Deserto do Atacama dos polos. Assim, durante a última era glacial, o que aconteceu foi que formou-se um enorme corredor sem gelo, mas cercado de enormes geleiras, entre a Ásia e a América. Os animais passavam por aí, como bisões e mamutes, E atrás deles, como parasitas, uma população de humanos, que vivia da caça desses grandes herbívoros. O corredor da Beringia terminava em enormes paredes de gelo, uns poucos milhares de quilômetros adiante. Com o fim da era glacial, o estreito de Bering foi retomado pelas águas, fechando a passagem de volta para a Ásia. Em compensação, as planícies americanas se abriram para esses desbravadores. Tinham um continente inteiro pela frente!
Distância em quilômetros para as próximas cidades na Dempster Highway, na região de Dawson City, no Yukon Territory, no Canadá
Aqui, só um parêntesis. Depois de passar por tantos países e ter conhecido tantos sítios arqueológicos, do Brasil ao México, não estou entre aqueles que acreditam que os primeiros homens a pisar no continente foram esses aventureiros que cruzaram a Beringia, há 15 mil anos. Tudo parece indicar que o homem chegou aqui por outras rotas também. Pelo Pacífico Sul, pulando de ilha em ilha, pelo Atlântico Norte, via Groelândia, ou mesmo pela Beringia, em alguma glaciação anterior. Também é bom lembrar que minha conterrânea Luzia, um fóssil de uma mulher que habitou as Minas Gerais há mais de dez mil anos tem características negroides, muito mais próximas da África do que da Ásia. No Piauí, na Serra da Capivara, temos sinais claros da presença humana bem anterior à última era glacial. Enfim, é um mistério que ainda não foi resolvido e talvez nunca seja. Mas, independente de quando e como chegaram os primeiros homens na América, pesquisas genéticas parecem indicar que toda a população nativa do continente, do Chile ao Canadá, descende de um mesmo grupo de pessoas, pequeno, de poucas dezenas de membros, que teria chegado à América há 17-15 mil anos. O que pode ter acontecido é que essa nova população substituiu a antiga, seja por meio de guerras, maior adaptabilidade, melhor tecnologia resistência à doenças ou a combinação disso tudo.
Cores de Outono na estrada entre Dawson e Whitehorse, no Yukon Territory, no Canadá
Depois de tantas elucubrações, chegamos à Whitehorse, onde paramos para um almoço tardio, já nos sentindo íntimos da cidade, pois aí havíamos estado há duas semanas. Devidamente alimentados, seguimos para Haines Junction, na Alaska Highway, no único trecho de estrada repetida em todo esse looping que fizemos no extremo norte da América. Agora, nesse trecho da viagem, minha mente divagava sobre o futuro, e não mais o passado. Quando será possível cruzar novamente a Beringia por terra? Esperar até a próxima Idade do Gelo para cruzar para a Ásia me parece muito tempo para esperar. Apenas 85 km separam os dois continentes e acho um absurdo que não haja, até hoje, uma ligação entre eles. Já pensaram... ser possível sair de carro da Patagônia e chegar até a Cidade do Cabo, na África do Sul? A Europa não passa de uma grande península da Ásia e a África está ligada ao continente asiático pela Península do Sinai. Então, uma ponte entre Alaska e Sibéria unificaria praticamente todo o mundo! Ficariam de fora a Oceania e a Antártida, mas também, aí já é querer demais...
Curva e corredeiras do rio Yukon, na estrada entre Dawson e Whitehorse, no Yukon Territory, no Canadá
Pois bem, o projeto dessa ponte já existe! Assim como de um túnel. O Estreito de Bering, que separa os dois continentes, não é fundo, pouco mais de 50 metros de profundidade. Entre eles, há duas ilhas, uma americana e outra russa. As ilhas estão separadas por míseros 5 quilômetros entre si (quem diria que EUA e URSS, inimigos mortais, estavam tão próximos um do outro???), além de outros 40 km, cada qual do seu continente. Três pontes resolveriam isso. Custaria bem menos que manter as tropas americanas no Iraque por um ano. E essa conta já inclui as estradas que deveriam ser construídas das saídas da ponte até as próximas cidades. O que falta é, evidentemente, vontade política. Porque razões econômicas sobram. Certamente, não me refiro aos turistas que passariam por lá, mas aos bilhões de dólares de mercadorias entre um continente e outro. O ponto negativo seria o impacto sobre o meio ambiente dessa rota, dado a quantidade de trens e caminhões que transitaria por aí. É... pensando melhor, pelo bem da tundra, dos ursos polares, dos caribous e das paisagens fantásticas que vimos com nossos próprios olhos, melhor deixar essa história de ponte prá lá...
Estrada entre Whitehorse e Haines Junction, no Yukon Territory, no Canadá
A aniversariante curtindo a vista maravilhosa do alto do Pico do Papagaio, na Ilha Grande - RJ
Aniversário da Ana! Resolvemos comemorar em alto estilo. Ou, mesmo sem muito estilo, pelo menos no alto, lá no alto. A segunda maior montanha da Ilha Grande é o Pico do Papagaio, com quase mil metros de altura. Há uma trilha bem sinalizada que sai da estrada que liga Abraão a Dois Rios e que leva ao pico. Foi para lá que eu e a Ana rumamos, logo cedinho.
O Pico do Papagaio, visto do catamaran de Ilha Grande para Angra dos Reis - RJ
Faz tempo que queria ir lá com a Ana. Mas, da outra vez que estivemos na Ilha, ficamos hospedados do outro lado da Ilha, na Praia Vermelha. Muito longe para este passeio. Desta vez, ficamos esperando o bom tempo. E a previsão já dizia que seria hoje. Por increça que parível, ela acertou! A noite estava encoberta e o dia nasceu ensolarado! Viva, foi o presente de S. Pedro!
Energia para a subida do Pico do Papagaio, na Ilha Grande - RJ
Só tínhamos um pequeno problema: queríamos pegar o catamaran das 12:30, para podermos viajar para o Rio e chegarmos em boa hora. O próximo barco era só às 17:00. Então, saímos cedinho, já desocupando o quarto da pousada. Caminhada morro acima pela estrada até o início da trilha. Até ali já conhecíamos e passou rapidinho.
Início da trilha do Pico do Papagaio, na Ilha Grande - RJ
Depois, pé na trilha, subindo pirambeiras e descansando nos trechos planos. Apesar de muito nos recomendarem irmos acompanhados de um guia, ele realmente não é necessário. A trilha está muito bem marcada. Mas, pensando bem, tivemos um guia sim. Um guia quadrúpede! Um simpático vira-lata que nos viu comprando água na padaria e dispensando o conselho de levar um guia resolveu nos levar. Eu que no início não dava nada por ele foi me surpreendendo, me surpreendendo e, lá pelas tantas, dei o braço a torcer: realmente, ele iria conosco até lá em cima! Na falta de melhor nome, apelidamos ele de “Dog”. Não só foi até lá em cima como, em vários trechos da mata, ele se embrenhava no mato para fuçar bastante e depois reaparecia, todo lampeiro. Uma graça!
O Dog, nosso companheiro de caminhada, no alto do Pico do Papagaio, na Ilha Grande - RJ
Buenas, seguimos a trilha sem sobressaltos exceto um. Um sobressalto beeeeeem sonoro. Começamos a ouvir um barulho de motosserra lá na frente. Motosserra? Ali, em pleno parque? Muito estranho. Fomos nos aproximando e o barulho aumentava. Por trás da motosserra, ouvia algumas vozes. Cada vez mais estranho. Olhei para trás, procurando a Ana e vi que ela carregava um galho grande.”Hmmmm... defesa pessoal”, imaginei. Realmente, não estava gostando da idéia de encontrar madeireiros ilegais ali, só eu e o Dog para proteger a loira linda atrás de mim. Bom, cada vez mais atentos, fomos seguindo. Até que percebemos que o barulho, na verdade, eram de um gripo enorme de macacos. Bugios Gritadores, é o nome. O líder grita muuuito alto. Chega a ser amedrontador. Só não ficamos com medo porque, no dia anterior lá no Centro de Visitantes, conversamos muito sobre ele e seu instinto gritador. Foi uma experiência incrível, no meo daquela mata, ouvir aquela gritaria toda, tão perto de nós.
Com o Dog, no alto do Pico do Papagaio, na Ilha Grande - RJ
Após os macacos, seguimos até o cume. Saímos às 07:30 e chegamos à 10:15 lá em cima. Vista impressionante do mar, da baía e da própria Ilha Grande, com suas praias como a Lopes Mendes e a enseada do Abraão. Ficamos uns 15 min lá em cima, só nos três (não esqueçam do Dog!), admirando a vista.
No cume do Pico do Papagaio, na Ilha Grande - RJ
Depois, tempo de voltar em disparada. Só tínhamos duas horas. Viemos acelerados pela trilha e depois pela estrada. Até que, já perto de Abraão e também do prazo fatal, a gente se separou. Eu fui correndo para a pousada pegar nossa bagagem onde fui recebeido em grande festa pelas atendentes, que não tinham acreditado que conseguiríamos. Consegui até uma chuverada rápida no chuveirão do jardim. A Ana foi comprar as passagens e a gente se encontrou no píer. Cinco minutos depois, zarpava o catamaran. Foi em cima!!!
No alto do Pico do Papagaio, na Ilha Grande - RJ
Relaxamos no teto durante a volta e, chegando em Angra, descolamos um banho de chuveiro no Hotel Kuxixo, onde tínhamos ficado hospedados. O pessoal foi muito amável conosco. Gente boníssima. O dono do hotel até nos fez prometer que, após ficar admirado e emocionado com nossa viagem, passássemos em Aparecida para agradecer Nossa Senhora, depois dos 1000dias. Promessa feita, será cumprida! Mas ela vai ter de nos proteger!
Descendo a trilha do Pico do Papagaio, na Ilha Grande - RJ
Depois, direto para o Rio, para o alto Leblon, no apartamento do Pedro, Íris e Bebel. Tivemos tempo de ir comprar vinhos, uma torta, a Íris fez uma deliciosa pasta e celebramos juntos, em família, a aniversário da minha lindona.
Aproveitando o dia de sol no teto do catamaran de Ilha Grande para Angra dos Reis - RJ
E agora, temos alguns dias pela frente para explorar essa cidade que adoramos tanto...
Celebrando o aniversário da Ana no apartamento do Pedro e da Íris, no Rio de Janeiro - RJ
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