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adriane (11/07)
oi tudo bem gostaríamos de saber o que é imperdível se fazer em aspen ...
PAULO HENRIQUE CORREIA PERES ROMANI (09/07)
Gostei do site, mas porque você ficou chamando o teleférico de São Vic...
Paulo Vasconcelos (08/07)
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francisca (08/07)
Luciana (08/07)
Olá, ameiiii o blog de vocês. Preciso saber qual é a melhor época de ...
Chegando à Plaza de la Revolución, em Havana - Cuba
Depois do café da manhã na deliciosa casa com pé direito alto da Margarita e de descobrirmos a dificuldade do uso da internet no país (só em grandes hotéis e na empresa estatal de comunicação), saímos dispostos a uma boa caminhada aqui em Vedado e depois, para o centro.
Visitando a Necrópolis Cristóbal Colón, em Havana - Cuba
A primeira parada foi quase do lado de onde estamos, na Necrópolis Cristóval Colón, o maior e mais tradicional cemitério de Havana. Entre os mais de um milhão de túmulos, muitos dos quais ornados com esculturas clássicas e mausoléus, alguns nos interessavam mais. O cemitério já tem mais de 150 anos de uso, uma verdadeira cidade dentro de Havana. Logo na entrada, o imponente túmulo do General Máximo Gomez, um dos heróis da guerra de independência, no final do séc XIX. Ali perto também, o túmulo de Amélia Goyri, uma moça que morreu junto com seu bebê na hora do parto. Foram enterrados juntos e, alguns anos depois, quando o túmulo foi exumado, o bebê foi encontrado em seus braços. O marido ficou meio doido com isso, mas o fato é que ela acabou se tornando uma fonte de milagres e seu túmulo é o mais visitado pelos cubanos em busca de alguma dádiva.
Agradecimentos aos milagres de Amelia Goyri, na Necrópolis Cristóbal Colón, em Havana - Cuba
Túmulo de Eduardo Chibas, o fundador do Partido Ortodoxo e onde Fidel fez seu primeiro grande discurso, na Necrópolis Cristóbal Colón, em Havana - Cuba
Mas o túmulo que mais me interessava, curioso que sou sobre os anos que antecederam à revolução, era o de Eduardo Chibás. Ele foi o fundador do Partido Ortodoxo, onde militava um jovem e idealista advogado, Fidel Castro. Chibás fazia uma incansável campanha contra a corrupção que assolava o país, mas mesmo ele acabou perdendo suas esperanças. Num derradeiro golpe em sua cruzada, ele se suicidou ao vivo, durante um popular programa radiofônico. Seu enterro mobilizou multidões e foi sobre a sua lápide, logo após abaixarem o caixão, que o jovem advogado fez o primeiro de seus inflamados discursos que se tornariam sua marca pessoal ao longo das décadas seguintes. Estávamos em 1951 e, não tivessem sido as próximas eleições canceladas pelo golpe militar dado por Fulgêncio batista, certamente teria sido Fidel um dos mais votados deputados. Dois anos mais tarde viria o famoso e fracassado ataque ao quartel de Moncada, liderado pelo já rebelde Fidel, a prisão, o exílio no México e o retorno com mais tropas para formar a guerrilha que, após anos de luta, chegou ao poder no início de 59. Histórias que pretendo contar ao longo da estadia aqui em Cuba...
Propagandas do socialismo, muito comum nas ruas de Havana - Cuba
Monumento ao heroi da independência josé Martí, na Plaza de la Revolución, em Havana - Cuba
Bom, após prestar minhas homenagens a Chibás, deixamos a Necrópolis e seguimos caminhando até a mais emblemática praça da capital cubana, a Plaza de La Revolución. É um enorme espaço vazio para acomodar as milhares de pessoas que ali se reuniam para os grandes eventos comemorativos do sucesso da revolução cubana, que invariavelmente contavam com um dos longos discursos de Fidel, pelo menos até ele adoecer. No entorno da praça, o monumental obelisco em honra a José Martí, poeta, intelectual e herói da guerra de independência no final do séc XIX. Do outro lado, as enormes figuras de dois outros heróis, mais recentes: Che Guevara e Camilo Cienfuegos, os principais comandantes de Fidel durante a revolução e que acabaram ficando ainda mais populares que seu chefe, pelo menos entre os cubanos. Ambos mortos prematuramente, tornaram-se ícones pelo mundo e peça de propaganda constante dentro do país.
Plaza de la Revolución, com os herois Che Guevara e Camilo Cienfuegos, em Havana - Cuba
Entrada do famoso hotel Habana Libre, em Havana - Cuba
Continuamos nossa longa caminhada por Havana seguindo em direção ao centro. No caminho, alguns dos ícones dessa incrível cidade: os hotéis Habana Libre e Nacional, o incomparável Malecón e a mais incrível coleção de carros antigos ainda em atividade, digna de emocionar nossos pais e avós.
Fotos históricas da chegada dos guerrilheiros ao saguão do Hotel Habana Libre, em Havana - Cuba
O famoso Hotel Nacional, em Havana - Cuba
O Hotel Habana Libre era o mais novo e elegante hotel nos anos finais do regime de Batista. Com o ditador da fora do país e a revolução triunfantes, os guerrilheiros foram recebidos em festa nas ruas da cidade e se acomodaram neste hotel onde, por um bom tempo, funcionou a sede do novo governo. Nacionalizado, o hotel foi rebatizado com o nome que ainda tem hoje, reconhecido de longe pelo enorme mural que tem em sua parte exterior. Ali perto, já na beira do mar e do Malecón, está o imponente Hotel Nacional. Endereço mais chique da cidade na década de 30, passou por um longo período de decadência após a revolução, mas foi renovado recentemente. Além da vista magnífica para o mar em seus jardins, lá estão também os canhões espanhóis que lutaram contra os americanos durante a guerra hispano-americana do final do séc XIX. Tomar um morrito em seus jardins com essa vista é programa obrigatório para quem vem à Cuba!
Os famosos carros antigos de Cuba (em Havana)
Os incríveis carros antigos em Havana - Cuba
Assim que os revolucionários chegaram ao poder começaram as medidas de reforma agrária e nacionalização de empresas. Os grandes afetados por essas medidas foram exatamente as empresas americanas, então donas da maior parcela de terras do país e também das empresas dos setores de energia, telecomunicação, petróleo, entre outros. As relações com os Estados Unidos se deterioraram rapidamente, onde os poderosos lobbies logo começaram a atuar para desestabilizar o novo regime. Novas exportações para Cuba foram proibidas e é por isso que, ainda hoje, boa parte dos carros que rodam pelo país ainda são os carros que rodavam naquela época. Para quem gosta de carros, andar por Cuba e principalmente pelas ruas de Havana é uma verdadeira visita ao passado, às décadas de 50 e 40. Como o país passou mais de 20 anos sem importar novos carros, os cubanos tiveram que se virar com os que já tinham, tratando de conservá-los e mantê-los andando da maneira que tinham, improvisando peças de reposição. Na década de 80, uma nova onda de carros chegou, vindos da antiga União Soviética. Assim, Fords 48 e Chevrolets 56 dividem as ruas com Ladas 81 e Nivas 85. Uma paisagem surreal! Agora, nos últimos anos, chegaram alguns carros europeus e também os chineses, que ninguém sabe o nome, mas com uma aparência moderna. O cenário nas ruas ficou ainda mais variado. Mas, uma coisa é certa: os que melhor combinam com a arquitetura do centro da cidade são as banheiras americanas de 60 anos atrás. Para a gente se achar em um antigo filme de Hollywood, só faltava ser tudo em preto e branco!
Trânsito na famosa avenida Malecón, em Havana - Cuba
Observando a orla ao longo do Malecón em Havana - Cuba
Esse cenário dos carros e prédios antigos só perde para o do Malecón, ali em frente ao Hotel Nacional. Os carros antigos ainda estão lá, mas o fundo dos prédios antigos é substituído pela orla marítima com a imponente Fortaleza de San Carlos bem ao fundo, no alto de um promontório. Também chama a atenção a torre do Capitólio, réplica do congresso americano em pleno coração de Havana. Caminhar pelo longo calçadão do Malecón é um dos programas prediletos de cubanos e estrangeiros em Havana. O espaço também é disputado por pescadores e artistas solitários, que buscam no belo e tradicional cenário inspiração para a sua arte, ao mesmo tempo que servem de motivo para fotografias. A melhor hora para essa caminhada é no final de tarde, quando a avenida está mais cheia e a luz mais bonita.
Tarde ensolarada no Malecón, em Havana - Cuba
Inspirando-se no Malecón para fazer música (em Havana - Cuba)
Aproveitamos esses belos momentos e, depois de tanto caminhar, nos rendemos a um táxi para chegar mais rápido ao centro, na região do Capitólio, onde não havíamos estado ontem. Nova oportunidade de caminhar pelas ruas charmosas e decadentes do centro da capital e conhecer todos os tipos de pessoas, dos simpáticos e interessantes aos chatos e exploradores. Havana é um prato cheio para fotógrafos, oportunidades para todos os lados e todos os assuntos: arquitetura, pessoas, cores, sombras, detalhes, etc... Difícil mesmo é escolher as fotos depois, entre tantas boas imagens.
Moradias no centro de Havana - Cuba
Rua movimentada no centro de Havana - Cuba
A noite caiu e nós seguimos para a Fortaleza de San Carlos para ter a visão noturna da cidade, assistir à cerimônia do canhonaço e aprender um pouco mais de história. Aí contratamos uma amável e curiosa guia que nos levou rapidamente pela fortaleza, contando rapidamente trechos da história cubana pré-independência, as guerras de independência e todo o processo da revolução. A pressa era porque queríamos estar a postos na hora da cerimônia do tiro de canhão, ou canhonaço, uma réplica do que se fazia na época dos espanhóis, em finais do séc XVIII, quando o tiro de canhãp significava o fechamento das portas da cidade. Hoje a cerimônia é feita diariamente, com soldados vestidos a caráter (caráter de 200 anos atrás!), para a alegria dos turistas, sempre às nove da noite. Para quem vai, o bônus é a visão noturna de Havana logo ali em frente. E para quem paga um dólar a mais para ficar no “camarote” (nosso caso!), ainda ganha outro bônus: um morrito para assistir à cerimônia e ao canhonaço em grande estilo.
Chegando à Fortaleza de San Carlos, em Havana - Cuba
Nossa guia na Fortaleza de San Carlos, em Havana - Cuba
Essa gigantesca fortaleza, uma das maiores construídas pela Espanha no novo mundo, custou tanto aos cofres reais que o rei espanhol da época tentou vê-la com uma luneta desde Madrid. Disse que, para ter custado tanto, deveria ser muito alta! Ela ficou pronta um pouco tarde. Poucos anos antes a Inglaterra havia atacado e conquistado a cidade, onde permaneceram por vários meses. Só saíram depois de muitas negociações, o que incluiu, entre outras coisas, a barganha pelo estado americano da Flórida, que até então era espanhol. Vem daí o envolvimento histórico entre EUA e Cuba, quase sempre tão danoso ao país caribenho. Com a consolidação da independência americana duas décadas mais tarde, todo o comércio que se fazia com a Jamaica (açúcar!), então colônia britânica, foi suspenso. Foi o açúcar cubano que substituiu o jamaicano e já na primeira metade do séc XIX a cotrrente de comércio entre Cuba e EUA já era maior até que com a metrópole Espanha.
Visão noturna de Havana - Cuba, do alto da Fortaleza de San Carlos
Guarda vestido para a cerimônia do "canhonaço", na Fortaleza de San Carlos, em Havana - Cuba
Isso explica o fato de que, quando o grande general da independência latino-americana Simón Bolívar quis liberar Cuba também, os EUA disseram que “ali não!”. Tinham outros planos para a ilha... Por duas vezes tentaram comprá-la dos espanhóis, mas a decadente ex-potência europeia se negou a fazer negócio. Bom, se não fosse por bem, seria por mal, mas isso já é uma outra história. Vem no próximo post...
Interagindo com os cidadãos de Havana - Cuba
Aos 5.300 metros de altitude, quase no topo do monte Chacaltaya, onde existia a mais alta pista de esqui do mundo, perto de La Paz, na Bolívia (viagem de Julho de 1990)
Para quem acompanha nossas andanças por esse continente, sabe que quando nós passamos por La Paz, a capital da Bolívia, nós tentamos subir o Chacaltaya. Essa montanha ganhou fama internacional há algumas décadas porque nela se localizava a pista de esqui mais alta do mundo. Há um refúgio construído a 5.300 metros de altitude, quase no topo da montanha, e aí ficavam hospedados os esquiadores que vinham do mundo inteiro. Infelizmente, nos últimos anos, a montanha ganhou fama por outro motivo: um exemplo claro de como as mudanças climáticas estão afetando paisagens que antes eram cartões postais. O gelo e a neve simplesmente sumiram do Chacaltaya e a antiga e famosa pista de esqui é hoje apenas uma lembrança, um fantasma do passado a nos mostrar o que estamos fazendo com o nosso planeta.
A estrada que leva ao monte Chacaltaya, perto de La Paz, na Bolívia (viagem de Julho de 1990)
Início da caminhada até o refúgio no alto do monte Chacaltaya, perto de La Paz, na Bolívia (viagem de Julho de 1990)
Tanto eu como a Ana já havíamos estado no Chacaltaya em anos anteriores. Eu, em Julho de 1990, e ela, no inicio do milênio. Estávamos os dois ansiosos para voltar lá e ver com nossos próprios olhos as mudanças na montanha. Como eu disse no início do post, nós voltamos, mas não conseguimos subir novamente o Chacaltaya. Por um motivo meio estranho, devo admitir. Chegamos ao pé da montanha com a Fiona, mas na hora de fazer a caminhada, pegamos a trilha errada e subimos a montanha ao lado. O posts desta história inusitada estão aqui (1a parte) e aqui (2a parte), em duas partes. A experiência foi ótima, como está relatada nos posts, e pudemos ver muito bem como o gelo e neve sumiram lá de cima. Triste sensação. Mas ficou faltando também aquele gostinho de ter voltado ao cume do Chacaltaya. Como não estivemos lá, resolvi contar a história de quando estive lá, a montanha absolutamente cheia de neve e com esquiadores ao nosso lado. Foi durante meu primeiro mochilão pela América Latina, juntamente com o primo Haroldo e o amigo Marcelo.
O Marcelo descansa na caminhada até o topo do monte Chacaltaya, perto de La Paz, na Bolívia (viagem de Julho de 1990)
Muita neve na região do monte Chacaltaya, perto de La Paz, na Bolívia (viagem de Julho de 1990)
Depois da nossa viagem desde Bauru até a Bolívia e pegando o famigerado Trem da Morte (veja essa história aqui), nós chegamos à La Paz no início da tarde do dia 6 de Julho. Da rodoviária, seguimos a pé para o centro, em busca de um hotel. Mas antes disso, já paramos no Club Andino para inquirir sobre o Chacaltaya. Pela nossa programação apertada, tínhamos apenas 3 noites na cidade e ir ao Chacaltaya era uma prioridade para nós, loucos para ultrapassar a barreira dos 5 mil metros. Até a véspera, estávamos a menos de 1.000 metros de altura, ou seja, não estávamos aclimatados de maneira alguma. Nossa primeira experiência com alta altitude havia sido justamente nesse dia, quando chegamos aos 4 mil metros da periferia de La Paz. Mas ali no centro, já estávamos a 3.600 m. O corpo demora alguns dias para se adaptar a estas alturas e nosso plano era seguir para o Chacaltaya em nosso último dia na capital boliviana. Até lá, já estaríamos muito melhores.
Caminhando na neve para chegar ao topo do monte Chacaltaya, perto de La Paz, na Bolívia (viagem de Julho de 1990)
Muita neve na região do monte Chacaltaya, perto de La Paz, na Bolívia (viagem de Julho de 1990)
Mas planos são planos, realidade é realidade. No Club Andino fomos informados que havia nevado muito no Chacaltaya e que quase ninguém estava indo lá. Não havia excursões programadas para os próximos dias, exceto por uma, de esquiadores suíços. Eles já estavam em La Paz há quase uma semana e loucos para aproveitar essa neve toda na montanha. Partiriam no dia seguinte, bem cedo. Seria nossa única chance. Uma tática quase suicida, ir para cima dos 5 mil metros sem praticamente nenhum tempo de aclimatação, mas não tínhamos escolha. Para piorar, a estrada até o refúgio no topo da montanha estava interrompida pela neve e só se podia chegar de carro até a base do Chacaltaya, a 5 mil metros. Os últimos trezentos teriam de ser feitos caminhando mesmo. Era a oferta que tínhamos, pegar ou largar. Pegamos!
Muita neve na região do monte Chacaltaya, perto de La Paz, na Bolívia (viagem de Julho de 1990)
Lá no alto, o refúgio do monte Chacaltaya, a mais alta pista de esqui do mundo, perto de La Paz, na Bolívia (viagem de Julho de 1990)
No dia seguinte, cedinho, a van do Club Andino passava no nosso hotel para nos buscar. Conosco, iriam três suíços e uma suíça, todos esquiadores. Estavam indo para ficar duas noites lá em cima. Ficaram muito (mau) impressionados quando souberam que nós só tínhamos chegado a La Paz na tarde anterior. A impressão piorou ainda mais quando falamos para eles que nem óculos escuros levávamos. “Indo para o meio da neve a mais de 5 mil metros de altitude, sem aclimatação e sem óculos, assim são os latino-americanos” – devem ter pensado. E o pior é que eles tinham razão...
Naquela época, ainda existia muita neve e gelo no topo do monte Chacaltaya, perto de La Paz, na Bolívia (viagem de Julho de 1990)
O refúgio de apoio da antiga mais alta pista de esqui do mundo, quase no topo do monte Chacaltaya, aos 5.300 metros de altitude, perto de La Paz, na Bolívia (viagem de Julho de 1990)
Uma hora e meia de solavancos mais tarde na rústica estrada e chegamos ao pé da montanha, até um ponto onde o carro realmente não conseguia mais avançar. A neve fresca havia tampado tudo. Para nós, completamente desacostumados com neve, aquilo parecia o paraíso. Mas não podíamos nos excitar muito, pois isso acelera nossa respiração e o ar estava em falta por lá, já um pouco acima dos 5 mil metros. Nós carregávamos apenas um pequeno lanche e máquina fotográfica, enquanto os quatro suíços levavam nas costas grandes mochilas com o equipamento de esqui e suprimentos para os próximos dois dias. Dali para frente, tínhamos mesmo de caminhar. Inicialmente, pela estrada, ou o que aparecia dela por fora da neve. Depois, quando não havia mais vestígios dela, por meio da neve fofa mesmo, que em alguns pontos chegava na altura da nossa cintura. Para quem nunca tinha caminhado na neve, estávamos começando bem...
Com o Haroldo e o Marcelo, em frente ao refúgio da pista de esqui mais alta do mundo, aos 5.300 m de altitude, no monte Chacaltaya, perto de La Paz, na Bolívia (viagem de Julho de 1990)
Naquela época, ainda existia muita neve e gelo no topo do monte Chacaltaya, perto de La Paz, na Bolívia (viagem de Julho de 1990)
A dor de cabeça não demorou a chegar e foi logo combatida com um coquetel de aspirinas e pílulas para o “sorocho” (o mal da altitude). Isso pode ter ajudado contra a dor, momentaneamente, mas nada fez para recuperar o nosso fôlego, que insistíamos em perder depois de apenas alguns passos. Eu saí caminhando na frente, mas antes da metade do caminho, o Haroldo já me ultrapassava com folga. O Marcelo ficou bem para trás, sentindo bastante a altitude, e a simpática suíça com sua enorme mochila resolveu acompanhá-lo. O cansaço foi me pegando cada vez mais forte e, cinco minutos antes de chegar ao refúgio, dois dos suíços também me ultrapassaram. Naquela altura e condições, a minha máquina fotográfica parecia pesar do triplo das enormes mochilas que eles carregavam. Foi um esforço enorme para dar os últimos passos e a dor de cabeça já tinha voltado com força.
Com nossos conhecidos suiços, tentando recuperar as forças dentro do refúgio no alto do monte Chacaltaya, perto de La Paz, na Bolívia. Eles iriam esquiar por lá nos próximos dias (viagem de Julho de 1990)
Entrei no aconchegante refúgio e desabei no sofá. Dali ninguém me tiraria. O Haroldo estava muito melhor e eu ouvi de longe, no meio do meu torpor, os suíços o aconselhando e descer o quanto antes comigo e com o Marcelo, que só chegava agora e reclamava de dores e náuseas. Enquanto isso, a suíça já providenciava um chá de coca para todos nós, especialmente para os latino-americanos. Não sei se foi o chá ou os 10 minutos estatelados no sofá, mas eu comecei a melhorar. Se não me movimentasse muito rápido, até a dor de cabeça melhorava. Foi quando pude sair do refúgio a admirar aquela beleza impressionante ao nosso redor. Víamos La Paz ao longe, lagos congelados no pé da montanha, a pequena trilha que seguia para o topo logo ali e neve, muita neve, para todos os lados.
Com nossos conhecidos suiços, tentando recuperar as forças dentro do refúgio no alto do monte Chacaltaya, perto de La Paz, na Bolívia. Eles iriam esquiar por lá nos próximos dias (viagem de Julho de 1990)
Com o Haroldo e o Marcelo, em frente ao refúgio da pista de esqui mais alta do mundo, aos 5.300 m de altitude, no monte Chacaltaya, perto de La Paz, na Bolívia (viagem de Julho de 1990)
Comparando com o que vi dessa vez, com a Ana, 23 anos depois, parecem lugares ou mundos diferentes. Nesses 1000dias, passamos por muitos lugares onde os efeitos do aquecimento global são visíveis, especialmente nas regiões polares. Mas nunca tínhamos tido um ponto de comparação que nós mesmos tivéssemos registrado. Sempre há fotos antigas desses lugares, mas é completamente diferente quando foram nossos próprios olhos que registraram a mudança. Foi realmente muito triste ver o estado do Chacaltaya que encontramos em 2013...
Naquela época, ainda existia muita neve e gelo no topo do monte Chacaltaya, perto de La Paz, na Bolívia (viagem de Julho de 1990)
Bom, para terminar a nossa história de 1990, o Marcelo também melhorou (só um pouquinho!) a ponto de sair em algumas fotos. Depois, sem escolha, tínhamos de descer rapidamente. Para baixo, todo santo ajuda. Mas ele continuou a vomitar durante a viagem de volta a La Paz. Não havia sido fácil, mas ninguém de nós estava arrependido. Aproveitamos a única chance que tínhamos de chegar ao topo dessa montanha e da mais alta pista de esqui do mundo. Naquela época, isso era apenas uma leve desconfiança, mas agora sabemos com certeza que aquela pista estava fadada a desaparecer. Outro bom motivo para termos estado lá, mesmo nessas duras condições, e ter testemunhado a pista ainda funcionando. Que bela pista de esqui o mundo perdeu...
Aos 5.300 metros de altitude, quase no topo do monte Chacaltaya, onde existia a mais alta pista de esqui do mundo, perto de La Paz, na Bolívia (viagem de Julho de 1990)
P.S Para quem se interessar, os relatos dessa viagem de 1990 que estão no site dos 1000dias são:
1 - A viagem no Trem da Morte
2 - A subida do Chacaltaya, em La Paz (este post!)
3 - A Trilha Inca até Machu Picchu
4 - Viajando pelo rio Amazonas do Peru ao Brasil
Explorando o espetacular Canyon de Somoto, na Nicarágua
Saímos ontem de León ainda com meu computador meio capenga, infelizmente. O trabalho com as fotos e o uso da internet estão bem mais complicados, mas estou dando um jeito. Aparentemente, a solução será comprar um novo. Quem sabe Papai Noel não traz um?
Despedida do James, inglês que viaja de moto do Alaska à Patagônia, em León, na Nicarágua
A gente se despediu do James e do Kevin, que viajam de moto do Alaska à Patagônia e seguimos para a tranquila viagem até Somoto, já bem próxima da fronteira com Honduras. No caminho, pausa para fotos do vulcão Momotombo, o mais famoso do país, com seu cone quase perfeito. Ele fica bem em frente à capital Manágua, o grande lago separando a capital do vulcão. A gente passava agora do outro lado do Momotombo, o Lago de Manágua por detrás do vulcão. Aliás, para nós, agora, nada mais normal do que algum(ns) vulcão(ões) no horizonte. Estranho mesmo é quando não estamos vendo nenhum!
Gado pasta tranquilamente aos pés do magnífico vulcão Momotombo, visto de perto de León, na Nicarágua
Na pacata Somoto, cidade sem grande apelo turístico, a gente logo se instalou no hotel no Parque Central e contatamos um guia para nos levar ao canyon no dia seguinte (hoje!). Embora o canyon já tenha alguns milhões de anos de idade, ele só foi "descoberto" para o turismo há uma década. Antes disso, só fazia a felicidade dos habitantes locais. Os mesmo que hoje guiam os turistas em caminhadas para conhecer essa maravilha da natureza.
Finalmente, chega o nosso ônibus que nos levará à entrada do Canyon de Somoto, na Nicarágua
Hoje, então, lá fomos nós guiados pelo simpático e competente Roibin. São três passeios possíveis e nós optamos pleo mais longo, 6 horas de caminhada atravessando todo o canyon. Deixamos o carro na casa dele, quase na saída do canyon, e seguimos de ônibus até o ponto onde se entra no vale, alguns quilômetros rio acima.
Caminhando no Canyon de Somoto, na Nicarágua
Com o Roibin, nosso guia, no início da travessia do Canyon de Somoto, na Nicarágua, perto da fronteira com Honduras
A área é um parque protegido, financiamento vindo de Luxemburgo. Começamos caminhando ao lado do rio, mas logo já o estamos atravessando e depois, nadando por suas águas. Em alguns pontos, o canyon se fecha bastante formando verdadeiras gargantas com paredes de quase 100 metros de altura. Visual memorável!
Vacas atravessam o rio Coco, no Canyon de Somoto, na Nicarágua, perto da fronteira com Honduras
Admirando o Canyon de Somoto, na Nicarágua, perto da fronteira com Honduras
Até a metade do caminho não encontramos ningém, exceto simpáticas vacas que atravessavam o rio em fila indiana. Por falar nisso, as águas são transparentes, mas não se pode beber. As vacas por ali são um bom motivo para isso... Bem na metade do caminho, encontramos a trilha de quem opta por um caminho mais curto. É quando começou a aparecer outros turistas.
Feliz da vida na caminhada pelo Canyon de Somoto, na Nicarágua
Atravessando o Canyon de Somoto, na Nicarágua
É bem aí também que encontramos os maiores trechos estreitos, onde o único meio de locomoção é nadando. Sensação de estar entrando em um mundo perdido, nadar em águas verde escuras por entre enormes paredes de pedra. Finalmente, chegamos à área dos saltos, uma profunda piscina natural cerdada de paredes por todos os lados formando plataformas ideais para quem gosta de pular. Pontos com 5, 10 e até 15 metros de altura (até um pouco mais!)
O Canyon de Somoto, na Nicarágua
Uma bela cachoeira no Canyon de Somoto, na Nicarágua
O nosso guia saltou do ponto mais alto, para delírio que quem assistia. Eu subi lá, ensaiei, ensaiei e acabei desistindo. Estava com algum mal pressentimento. Desci e saltei de pontos mais baixos, cerca de 10-11 metros de altura. Aí foi a vez da Ana. De uma altura de cerca de 8 metros, foi saltar e acabou escorregando na "decolagem". Chegou na água meio de lado, mas ao final foi só mesmo o susto e um bom tapa na perna. Estava explicado o meu pressentimento anterior...
Escalando rochas no Canyon de Somoto, na Nicarágua
Saltando de 10 metros de altura em piscina natural no Canyon de Somoto, na Nicarágua
Seguimos em frente, sempre nadando, e chegamos a outro ponto de salto, ainda mais bonito que o anterior. Como o pressentimento já tinha se realizado, achei que agora não teria mais problemas. E lá fui eu saltar de quase 15 metros, visual absolutamente maravilhoso. O salto foi ótimo, mas a nossa querida Sony deixou de funcionar outra vez. Que uruca! Salto devidamente filmado, mas não fotografado. Algum dia teremos chances de mexer nesses filmes...
Voltamos para a casa do Roibin onde fomo muito bem tratados por sua enorme família. Ficou até a promessa de pararmos aqui na volta, daqui a uns 7 meses. Se viermos por esse caminho...
A bela paisagem ao final do Canyon de Somoto, na Nicarágua, perto da fronteira com Honduras
A decisão só vai ser feita na época. Mas a passagem por essa fronteira, amanhã, vai nos ajudar a decidir. Dizem que esta é uma das mais tranquilas fronteiras entre Nicarágua e Honduras. Veremos!
Com a família do Roibin, nosso guia, ao final da travessia do Canyon de Somoto, na Nicarágua, perto da fronteira com Honduras
Reverenciando a Cachoeira do Frade, em Ubajara - CE
Pela primeira vez nessa viagem, a Fiona andava em "comboio". Comboio de dois carros, hehehe. Estávamos indo para a Cachoeira do Frade, passando pela Cachoeira do Boi Morto (que nome!) no caminho, o casal do America Sin Fronteras atrás da gente.
Fiona ultrapassa pampa carregando um enorme porco, em Ubajara - CE (foto de America Sin Fronteras)
Fiona atravessando a Cachoeira do Boi Morto, em Ubajara - CE
A Cachoeira do Boi Morto, na verdade, é uma represa onde a água quase sempre está "sangrando". É possível passar de carro bem por onde a água sangra. Assim, quem foi à cachoeira foi a própria Fiona! Bom para dar uma lavadinha nela...
Pequena cachoeira à caminho da Cachoeira do Frade, em Ubajara - CE
Com a Andrea, descendo o rio à caminho da Cachoeira do Frade, em Ubajara - CE
De lá para nosso objetivo principal. Quem tinha dado as cordenadas era o Herbert. Morando há tanto tempo por aqui, ele já explorou toda a região e descobriu a tal Cachoeira do Frade logo depois da outra vez que passei por aqui. Deixamos os carros numa propriedade rural a 23 km de Ubajara e caminhamos mais um quilômetro morro abaixo, até um rio. Aí, é só descê-lo até as cachoeiras. São várias menores até a maior delas, no meio do canyon, a Cachoeira do Frade. Resolvemos descer diretamente pela trilha, para chegar lá rapidamente, e depois voltar pelo leito do rio, conhecendo as cachoeiras menores.
Escalada para chegar à Cachoeira do Frade, em Ubajara - CE (foto de America Sin Fronteras)
Cachoeira do Frade, em Ubajara - CE
Com uma escalada aqui, outra ali, chegamos até ela. Primeiro até a parte de cima. Depois, a gente desce um paredão e chegamos em baixo. Fomos tomar uma ducha deliciosa quando descobrimos que era possível entrar atrás da cachoeira. Não só entrar como levar a máquina fotográfica também! Deste modo, além do banho delicioso, pudemos tirar fotos maravilhosas! A visão lá de trás, luz de fim de tarde filtrada pela água que caía, estava absolutamente mágica!
Tomando banho na Cachoeira do Frade, em Ubajara - CE
Fotografando por detrás da Cachoeira do Frade, em Ubajara - CE (foto de America Sin Fronteras)
Difícil foi ir embora. Mas o dia estava no fim e precisávamos de luz para subir o leito do rio. Apesar de um pequeno tombo do Pablo, que tentava carregar a Andrea de um lado do rio para o outro para que ela não molhasse o tenis, chegamos lá em cima são e salvos.
Cachoeira do Frade vista por trás, em Ubajara - CE
Explorando a Cachoeira do Frade, em Ubajara - CE
Depois, por mais de uma hora, ficamos trocando fotos e mapas. Eles nos passaram os mapas de GPS de vários países da América do Sul por onde já passaram. Viva o mundo moderno! Agora a Fiona já sabe andar por quase todo o continente!
Feliz da vida na Cachoeira do Frade, em Ubajara - CE
Cachoeira do Frade, em Ubajara - CE
Finalmente, já escuro, nos despedimos. Eles dormiriam ali perto mesmo, já que têm por regra não dirigir de noite. Seguem amanhã para Canoa Quebrada. Nós, em direção oposta. Viemos dormir em Piripri, já no estado do Piauí, que tantas boas recordações nos traz. Ao lado desta cidade está o Parque Nacional de Sete Cidades, que visitaremos amanhã.
Bem feliz após a visita à Cachoeira do Frade, em Ubajara - CE
Cachoeira acima da Cachoeira do Frade, em Ubajara - CE
Ao Pablo e Andrea, uma boa viagem, cheia de aventuras e momentos memoráveis. O mesmo que esperamos para nós! Graças à internet, vamos sempre poder nos acompanhar. Como disse acima, viva a tecnologia!
Com a Andrea, em Ubajara - CE (foto de America Sin Fronteras)
Chegando de volta no apartamento do curitibano Rodrigo, na Cidade do México, capital do país
Torcendo para não acontecer mais nada com o nosso pneu, tivemos uma viagem tranquila de Viñales até Havana. Nossa última pelas pouco movimentadas estradas cubanas. O único movimento que tem é o de caronistas. Enorme! Como quase não tem carros, imagino que a taxa de sucesso deles deve ser bem pequena. No fim, não tem jeito, acabam por subir no caminhão mesmo, a maneira mais popular de se viajar no país.
Caronistas, muito comum nas estradas cubanas (estrada entre Pinar del Rio e Havana)
Em Havana, mais uma rápida passagem pelos chiques subúrbios de Miramar e já estávamos em Vedado. Não é difícil se orientar em Havana, ruas numeradas, pares perpendiculares às ímpares. Logo estávamos na loja da Cubacar em frente à estação da Via Azul. O cálculo do combustível deu certinho e chegamos lá na reserva! Em Cuba, alugamos carros com tanque cheio, mas pagamos pelo combustível no início. Na hora da entrega, o negócio é devolvê-lo no osso mesmo.
Transporte por caminhão, o mais popular em Cuba (estrada entre Pinar del Rio e Havana)
Mas, para ir ao aeroporto, fomos no próprio carro. Assim, pelo sim, pelo não, botamos mais uns três litros, meia hora para ir e outra meia hora para o motorista voltar. O táxi nos cobraria 20 CUCs pela corrida. Se devolvêssemos o carro diretamente no aeroporto, seriam 25 CUCs. E com o motorista nos levando, apenas 10 CUCs. Não foi difícil escolher, certo?
Check-in feito, malas despachadas, faltava a imigração. A oficial que me atendeu demorou um bom tempo para me liberar. Não conseguia entender como eu tinha entrado pelas Ilhas Caiman e estava saindo para o México. Ao saber dos 1000dias, queria saber o porquê disso tudo. No fim, viu e reviu todas as folhas do passaporte com stamps de vários países e deixou eu passar, mesmo com uma pulga atrás da orelha.
Comboio de carga na estrada entre Pinar del Rio e Havana
Pouco menos de três horas de voo e já estávamos sobre a gigantesca Cidade do México. Parecia que tínhamos mudado de universo. Abaixo de nós, numa só cidade, mais de duas vezes a população de Cuba e, provavelmente, um número cem vezes maior de automóveis. A imigração no aeroporto da Cidade do México foi muito mais tranquila do que quando entramos vindos da Guatemala, quando a chata da oficial encrencou com a mistura de nomes e sobrenomes nos meus passaportes e vistos do México e EUA. Aqui não! O cara olhou e deixou passar. Que beleza! Falta agora só entrar nos EUA para eu esquecer essa história de vistos... Coisa chata!
As largas avenidas de Miramar, bairro chique de Havana - Cuba
Bem, de volta à nossa velha conhecida Cidade do México, lá fomos nós, de táxi, atravessar toda a cidade rumo à Santa Fé. Impossível não se impressionar novamente com o movimento nas enormes freeways que cortam a cidade. São de deixar a gente louco! Uma hora mais tarde e já estávamos na garagem do prédio, matando as saudades da nossa querida Fiona, o pneu traseiro direito completamente no chão! O Rodrigo já tinha nos avisado disso... Falando nele, apareceu quando estávamos lá embaixo, voltando do trabalho. Logo subimos os três para o apartamento que já vemos como a “nossa casa na Cidade do México”.
Hotel em Miramar, bairro chique de Havana - Cuba
Pronto! Foi como se toda essa viagem ao Caribe tivesse passado num piscar de olhos! Estávamos de volta ao ponto inicial, como se Jamaica, Ilhas Caiman e Cuba tivessem sido apenas um pensamento rápido, um sonho, uma ilusão. Ainda bem que temos os posts e fotos para nos provar que realmente estivemos lá, hehehe. Agora, é mudar nosso canal mental, esquecer do Che e do Fidel e voltar a pensar no Pancho Villa e no Zapata. Alguns dias aqui na maior cidade do continente vão nos ajudar nisso...
Pilotando o nosso Boeing, em visita à fábrica da companhia, 30 km ao norte de Seattle, no estado de Washington, nos Estados Unidos
No começo do século passado, logo após a invenção dos aviões, vários empreendedores americanos mergulharam de cabeça na nova indústria que nascia. O sobrenome de cada um deles se confunde com a própria história da aviação, pois passaram a ser o nome das empresas que, ao longo dos últimos 100 anos, revolucionaram a lógica do transporte pelo nosso planeta.
A tradicional foto com o fundador da companhia, na fábrica da Boeing, 30 km ao norte de Seattle, no estado de Washington, nos Estados Unidos
Entre esses pioneiros, destacam-se William Boeing, James McDonnell e Donald Douglas. De suas empresas sairiam os aviões civis que transportaram gerações de pessoas em voos transoceânicos e transcontinentais. Os períodos mais lucrativos dessas empresas sempre vieram em tempos de guerra, quando o governo americano fazia enormes encomendas, mas eram as dificuldades dos tempos de paz que faziam as empresas, no seus esforços pela sobrevivência financeira, mais inovarem e avançarem na tecnologia do transporte civil. Daí vieram as famílias de aviões MD, DC-x e 7x7.
Diversos aviões novos, esperando pela pintura na fábrica da Boeing, 30 km ao norte de Seattle, no estado de Washington, nos Estados Unidos
A nova concorrência vinda da Europa (Airbus) tornou o mercado ainda mais competitivo e as empresas americanas passaram por um processo de fusões, primeiro entre a Douglas e a McDonnell, ainda no final da década de 60 e depois, essa empresa sendo adquirida pela Boeing, na década de 90. Hoje, o espírito dessas três empresas sobrevive justamente naquela de maior sucesso, a Boeing, cuja sede é aqui em Seattle.
Bandeiras de todos os países que já compraram aviões da Boeing, expostas no salão de visitantes da empresa, 30 km ao norte de Seattle, no estado de Washington, nos Estados Unidos
Seu fundador, William Boeing, já vinha de uma família rica. Seu pai, imigrante alemão, havia feito fortuna na indústria da madeira, e assim começou também o filho. Mas ao participar de uma feira em 1909, conheceu e se fascinou prontamente por uma estranha máquina que podia voar, o aeroplano. Ele rapidamente comprou uma daquelas máquinas da primeira empresa de sucesso do setor, a Glenn Martin (que hoje é parte da gigante aeroespacial Locheed-Martin), e teve aulas de pilotagem com seu fundador, Martin. Coincidência ou não, foi justamente trabalhando para Martin, em sua companhia, que os engenheiros McDonnell e Douglas se conheceram. Todos esses pioneiros muito se respeitavam, mas suas respectivas companhias foram concorrentes atrozes enquanto seus fundadores estiveram vivos.
Hall de exposições na fábrica da Boeing, 30 km ao norte de Seattle, no estado de Washington, nos Estados Unidos
Boeing gostou tanto dos aeroplanos e, ao mesmo tempo, viu tantos problemas no avião que comprara, que decidiu abrir sua própria companhia. Estava nascendo um dos maiores gigantes econômicos do capitalismo. A Boeing nasceu como uma empresa que fabricava e voava com seus próprios aviões, Mas o governo americano, acusando uma prática monopolista, obrigou a empresa a se dividir, na década de 30. A parte de fabricação de aviões seguiu chamando Boeing enquanto a empresa de transporte é a que hoje conhecemos como United Airlines.
A poderosa e moderna turbina Rolls Royce, exposta na fábrica da Boeing, 30 km ao norte de Seattle, no estado de Washington, nos Estados Unidos
Tão grande e poderosa se tornou a Boeing, especialmente após a 2ª Guerra, que sua performance influenciava toda a economia de Seattle. Essa dependência já não é tão marcante hoje, embora a companhia ainda represente parcela significativa do PIB e empregos na cidade e região. Na verdade, virou até atração turística e milhares de pessoas visitam suas instalações todos os meses.
A poderosa e moderna turbina Rolls Royce, exposta na fábrica da Boeing, 30 km ao norte de Seattle, no estado de Washington, nos Estados Unidos
Hoje foi a nossa vez! Cerca de 30 quilômetros ao norte da cidade está a principal fábrica da Boeing, onde se encontram as linhas de montagem de vários de seus aviões. Todos eles feitos no maior prédio do mundo, muito maior, em termos de volume, que a pirâmide de Queops ou o Burj Khalifa, em Dubai. Cada uma de suas várias portas tem quase o tamanho de um campo de futebol, pois por aí passam aviões com mais de 70 metros de envergadura.
O gigantesco prédio da fábrica da Boeing, 30 km ao norte de Seattle, no estado de Washington, nos Estados Unidos. Cada porta é do tamanho de um campo de futebol!
A visita é feita de forma guiada e não se pode levar máquinas fotográficas nem telefones celulares. Temos de guardar tudo é na memória mesmo, as informações e as imagens fantásticas de uma linha de produção de aviões gigantes. Ver quatros deles em fila, em diferentes estágios de construção, sempre com dezenas de trabalhadores no seu interior ou ao redor, é uma imagem inesquecível! Mais impressionante é ver, em um mesmo prédio, várias dessas linhas de produção, uma para cada modelo produzido pela Boeing.
A estrela atual da companhia, exposto na fábrica da Boeing, 30 km ao norte de Seattle, no estado de Washington, nos Estados Unidos
Maquete do avião da concorrente, exposto na fábrica da Boeing, 30 km ao norte de Seattle, no estado de Washington, nos Estados Unidos
O atual xodó da companhia é o novíssimo jato 787, mais moderno e bem mais econômico que os antecessores. É em seu sucesso comercial que a Boeing joga todas as suas fichas e parece que as vendas vão muito bem. A fabricação desse modelo está completamente globalizada e aqui em Seattle é feita apenas a montagem final das partes, que vem da Europa, Ásia e de outros estados americanos. Avião bonito e elegante, a vontade que dá é pegar aquele lá no finalzinho da linha de montagem, quando só está faltando a pintura final da companhia que o comprou, e já sair voando.
Avião exposto na fábrica da Boeing, 30 km ao norte de Seattle, no estado de Washington, nos Estados Unidos
Além da visita à fábrica, também podemos visitar um pequeno museu, ali no prédio de visitantes. Muitas informações históricas da companhia e de todo o setor. Podemos ver as potentes turbinas Rolls-Royce (imagina a Fiona com uma dessas, hehehe!), entrar na cabine de um jato e fingir pilotar um avião e até mesmo admirar os produtos da principal concorrente da Boeing na atualidade, a europeia Airbus. Aí deu para ver também como a indústria está constantemente evoluindo, embora pareça que o transporte pouco evoluiu nas últimas décadas. Um gráfico ali exposto me mostrou que isso não é verdade e o exemplo dado não poderia ter sido melhor para minha própria experiência. O gráfico mostrava os voos da longa rota entre Londres e Sydney e o número de escalas necessárias para se ir de uma cidade à outra ao longo dos últimos 60 anos. Obviamente, o número de escalas foi diminuindo. Quando eu fiz esse voo, em 1998, era necessário apenas uma escala. Pois bem, hoje já não mais! Voa-se da Inglaterra à Austrália em um voo direto, cortando o tempo total em algumas horas.
Evolução dos voos e diminuição das escalas, no longo trajeto entre Londres e Sydney, em painel na fábrica da Boeing, 30 km ao norte de Seattle, no estado de Washington, nos Estados Unidos
Enfim, mesmo para aqueles que não entendem muito de aviões, o programa é muito interessante. Caminhar por aquele prédio que tem o tamanho de uma cidade, ver tantos boeings emparelhados (na fábrica) ou desmontados (no museu) e aprender um pouco da história desses incríveis empreendedores que ajudaram a moldar a sociedade em que vivemos é uma chance que não se pode perder. Minha esperança, depois de ver de perto toda essa história e evolução é que o mesmo aconteça com a indústria espacial privada, que dá agora seus primeiros passos. Se evoluir como evoluiu a aviação, acho que não vou ter de esperar minha próxima encarnação para dar um pulinho do lado de fora da atmosfera e ver, lá de cima, todo o nosso continente de uma vez só. Será?
A Ana se fazendo de pilota de jatos, em visita à fábrica da Boeing, 30 km ao norte de Seattle, no estado de Washington, nos Estados Unidos
Uma típica estrada patagônica, a caminho de El Chaltén, na Argentina
Além da inesquecível visita à Cueva de Las Manos, ainda tínhamos na programação de hoje outros 500 quilômetros de estrada, entre asfalto e rípio, desde a estância onde dormimos até a cidade de El Chaltén. Essa é a principal entrada ao Parque Nacional Los Glaciares, onde está a famosa montanha Fitz Roy e, muito provavelmente, as mais belas paisagens da patagônia argentina.
A Fiona enfrenta mais uma estrada de rípio no nossa caminho para El Chaltén, na patagônia argentina
A Fiona enfrenta mais uma estrada de rípio no nossa caminho para El Chaltén, na patagônia argentina
Dirigindo essas vastas distâncias em um lugar tão pouco populado (quase não há cidades!), só precisamos estra atentos às condições do carro. Ficar sem meio de transporte no meio de alguma estrada de rípio, longe de tudo e de todos, em um lugar onde as temperaturas noturnas facilmente chegam abaixo de zero, não deve ser nada agradável. Felizmente, estamos viajando com a Fiona e nossa confiança nela é total. Aliás, ela hoje completou 160 mil quilômetros de idade! Parabéns, Fiona querida!
Antes de chegar a El Chaltén, na Argentina, a Fiona completa 160 mil quilômetros de estradas!
Só precisamos mesmo é ficar de olho no combustível! Postos de combustível também são mercadoria rara aqui no sul da patagônia. Então, é preciso um pouco de planejamento e nunca perder a oportunidade de encher o tanque. Hoje, por exemplo, só tínhamos duas oportunidades e tratamos de aproveitá-las! Primeiro, num lugarejo chamado Bajo Caracoles, 60 quilômetros ao sul de onde reencontramos a ruta 40, vindos da estância. E por último, em Três Lagos, 350 km ao sul de Bajo Caracoles e 130 km antes do destino final, em El Chaltén. E olha que nos disseram que não há postos de combustível em Chaltén, então precisamos estar com combustível suficiente para regressarmos a Três Lagos. Diesel, aqui na Patagônia, é sempre o simples, de qualidade duvidosa. Mas como não há opção, nem pagando mais, é ele mesmo que colocamos.
Paisagens e o céu típico da patagônia, no nosso caminho para El Chaltén, na Argentina
Trecho de paisagem bem rochosona no caminho para El Chaltén, na patagônia argentina
Enfim, tudo planejado e executado direitinho, nossas atenções podiam ser direcionadas a coisas muito mais agradáveis, como a beleza do caminho. Mesmo já estando acostumados com a vastidão das paisagens patagônicas, continuamos a nos impressionar com o que vemos da janela da Fiona. Realmente, um mundão infinito, estradas desertas cruzando paisagens desertas, um horizonte que nunca chega, retas que nunca terminam.
A caminho de El Chaltén, uma placa muito comum nas estradas patagônicas!
Outra vez, nosso grande e fiel companheiro é o vento. Sem obstáculos nessa paisagem quase plana, ele corre sem parar. Placas nos advertem dos trechos mais críticos e a Fiona, pesadona, faz o melhor que pode para nos deixar grudados no chão. Carros menores, motos e bicicletas devem passar por emoções bem mais fortes do que nós, com certeza!
Chegando ao lago Cardiel, no caminho para El Chaltén, na patagônia argentina
As águas azuis do lago Cardiel, no caminho para El Chaltén, na patagônia argentina
Além da alternância constante entre asfalto e rípio, também se alterna o tipo de paisagem, algumas vezes mais rochosa, outras com um solo mais arenoso que permite o crescimento de mais vegetação. Árvores, quase não há, o vento não permitiria. E hoje, ao nos aproximarmos dos Andes novamente, voltaram a aparecer os lagos. São enormes e a cor da água, verde leitosa, não deixa dúvidas sobre sua fonte: o gelo que derrete no alto das montanhas.
Paisagens e o céu típico da patagônia, no nosso caminho para El Chaltén, na Argentina
A arrebatadora patagônia, caminho para El Chaltén, na Argentina
De novo, o que mais chama a nossa atenção é o enorme céu desse lugar. A paisagem, de alguma maneira, se repete, mas o céu não. As nuvens estão em constante movimento e as cores são mais nítidas e fortes. Muitas vezes, a sensação é que estamos dentro de algum quadro ou pintura. Ou então, de algum grande outdoor.
Um grupo de guanacos, no caminho para El Chaltén, na patagônia argentina
Um grupo de cavalos e outro de guanacos se encontram nos campos da região da Cueva de Las Manos, no sul da patagônia, na Argentina
Outro ponto alto da nossa viagem de hoje foram os encontros com os animais. É muito mais comum vê-los do que a outras pessoas ou carros. Os guanacos, por exemplo, são senhores totais dessa paisagem, correndo graciosamente pelas planícies. Já estão por aqui há algumas dezenas de milhares de anos e, até por isso, conhecem bem os caminhos. Recentemente, pelo menos para eles, começaram a aparecer coisas estranhas no seu mundo. Estradas e cercas. Mas eles não parecem ligar muito para essas novidades não. Ao contrário, quase as ignoram. Cruzam as estradas como se elas não estivessem ali. As cercas também, são apenas um pequeno obstáculo. É incrível a facilidade com que saltam esses obstáculos de até 1,6 metros.
Encontro com ñandus (as nossas emas!) na região da Cueva de Las Manos, no sul da patagônia, na Argentina
Encontro com ñandus (as nossas emas!) na região da Cueva de Las Manos, no sul da patagônia, na Argentina
Outros que também conhecem essas paisagens de longa data, na escala dos milênios, são os ñandus, ou choiques (as nossas emas). Quando mais para sul, maiores eles tem ficado, quase do tamanho dos primos avestruzes. Também correm de um lado para o outro e ignoram as estradas. Mas não tem tanta facilidade com as cercas como os guanacos. Algumas vezes passam por baixo, outras se arriscam por cima, outras se embananam, mas sempre dão um jeito.
Cavalos correm pelos campos no nosso caminho para a Cueva de Las Manos, no sul da patagônia, na Argentina
Cavalos bebem água tranquilamente nos campos da região da Cueva de Las Manos, no sul da patagônia, na Argentina
Um terceiro animal que também combina muito com as planícies infinitas da patagônia são os cavalos. Mas, diferentemente de guanacos e choiques, eles são recém chegados. Pouco mais de duzentos anos, talvez. Mas se adaptaram bem. Um dos animais que melhor representam o espírito de liberdade, não poderiam estar em melhor lugar. Foi interessante ver e fotografar o encontro de um grande grupo de cavalos com uma manada de guanacos. Eles não se misturaram. Existe ali uma mescla de respeito e curiosidade. Mas é cada um em seu quadrado. Fico imaginando que os guanacos, depois de mais de dois séculos de convivência, já não mais se assustem...
No caminho da Cueva de Las Manos, no sul da patagônia, na Argentina, uma rara visão de dois condores voando juntos
Encontro com um simpático tatu, no caminho para El Chaltén, na patagônia argentina
Também no céu os animais deram o ar de sua graça. Tivemos a sorte de observar um raro voo de dois condores juntos. Enormes, como quase tudo aqui na patagônia. Graciosos, como os cavalos galopando ou os guanacos pulando cercas. Será que era um casal? Sempre associei esses enormes pássaros às montanhas, mas aqui eles também parecem muito bem adaptados à planície. De qualquer maneira, os Andes estão por perto...
Encontro com um simpático tatu, no caminho para El Chaltén, na patagônia argentina
Encontro com um simpático tatu, no caminho para El Chaltén, na patagônia argentina
Por fim, um encontro fortuito com outro animal, muito comum por toda a América do Sul. Mas nós nunca tínhamos tido a chance de ver um tão de perto e nunca pensamos que isso ocorreria aqui, tão perto do fim do mundo. Estou falando do simpático tatu, um bicho que parece saído diretamente da pré-história. Aparentemente, são mais destemidos que seus parentes brasileiros e esse até se deixou fotografar bem de perto, ao invés de correr para se esconder. Foi joia! Seria uma vergonha terminar esses 1000dias sem fotografar um mísero tatu, hehehe. Enfim, uma coisa a menos na nossa lista de coisas por ver e fazer. O próximo item da lista é o que muitos consideram ser a mais bela montanha do mundo: o Fitz Roy. E não vai demorar! No final da tarde, depois da longa e movimentada jornada, chegamos à El Chaltén!
Chegando a El Chaltén, na patagônia argentina
Ao lado de paredão colorido no Parque Nacional da Serra do Catimbau, em Buique - PE
Saímos cedo de Paulo Afonso em direção à Pernambuco, passando por Alagoas e bem ao lado da fronteira de Sergipe. Imagino que essa tenha sido a nossa despedida final de todos esses estados, pelo menos durante esses 1000dias. Aliás, despedidas não faltaram essa manhã. Ao cruzar a ponte entre Bahia e Alagoas, deixamos para trás também um velho companheiro de viagens, o rio São Francisco. Boas lembranças e muitas fotos desse rio nos acompanharão. Depois, alguns quilômetros à frente, deixamos para trás a estrada que daria acesso ao vizinho e próximo estado de Sergipe. Olhamos para ela uma última vez, garganta apertada, pensando no nosso celular que lá ficou, nas mãos de Lampião. Nesses quase 280 dias de viagem ele sempre nos ajudou, como telefone, máquina fotográfica e meio de acesso à internet. Vai deixar saudades... Por fim, quem ficou para trás foi o estado das Alagoas. Mais uma vez, uma estrada em boas condições nos levou através do sertão e da caatinga, grandes pontes sobre grandes rios temporários. Um cenário que, de alguma forma, sempre me traz um sentimento de nostalgia. Hmmm... acho que é o ano que termina que me faz ficar mais suscetível à saudades e nostalgias. Ou então, o distante sangue português...
Leiro quase seco de um rio no interior de Alagoas. Visão comum no sertão
Chegamos à pequena Buique, em pleno sertão pernambucano. O que nos trouxe aqui foi o Parque Nacional da Serra do Catimbau, logo ao lado da cidade. Eu sempre gostei de mapas e desde criança os devoro. No início da vida adulta, comecei a me interessar por "manchas verdes" nos mapas. Geralmente representam algum parque nacional ou estadual. Portanto, são uma ótima pista para lugares belos e/ou interessantes para serem visitados. Desde que comecei a viajar, há vinte anos, várias "manchas verdes" novas apareceram nos mapas. Uma destas foi exatamente esse parque aqui no meio de Pernambuco. Só isso já era motivo suficiente para, quando tivesse a chance, passar por aqui. Mas havia outro...
Morro do Cachorro, no Parque Nacional da Serra do Catimbau, em Buique - PE
O nome do parque também me atraiu. "Catimbau" foi um nome muito forte na minha infância. Na fazenda da minha família, tinha um cavalo "sagrado" com esse nome. Sagrado porque eram poucas as pessoas que tinham acesso a ele. Primeiro, uma tia e depois, a irmã mais velha. Ninguém mais podia. Era um cavalo "bravo", diziam. Arisco e inteligente. O melhor marchador da fazenda e o que mais sabia "abrir porteiras". Além disso, invencível nas corridas de curta distância. Nas longas, cansava. Pois bem, esse cavalo foi envelhecendo e nós também. Com o tempo, todos nós passamos a montá-lo. Mesmo assim, ele mantinha uma dignidade. Quem nasce rei, morre majestade, já diz o ditado. E esse foi o caso do Catimbau. Lembro-me que, já bem velhinho, numa última corrida de uma temporada na fazenda, ele disparou na frente como era seu costume. Eu vinha atrás, em outro cavalo mais forte, jovem e resistente. Sabia que seria uma questão de tempo ultrapassá-lo. Ledo engano. Ele se manteve firme na ponta até a cocheira. Talvez porque quem o montava era o mais leve de nós. Ou, prefiro pensar assim, para mostrar aos cavalos jovens e aos meninos que adolesciam quem ainda mandava naquela cocheira. No dia seguinte, voltamos para nossas cidades. E, antes do início da próxima temporada de fazenda, chegou a notícia: o Catimbau tinha se "aposentado". Partiu como rei.
Pedras que lembram o casco de tartarugas, no Parque Nacional da Serra do Catimbau, em Buique - PE
Olha aí o espírito do ano que termina me influenciando novamente... Bom, a gente se instalou na pousada e fomos logo para o pequeno distrito de Catimbau, 12 km de estrada de terra. Ali encontramos o Márcio, nosso guia neste parque nacional tão pouco conhecido aí no sul/sudeste do Brasil. É uma área de canyons e montanhas, estranhas formações rochosas, pinturas rupestres e muita caatinga. Caatinga que nesta época do ano está verdinha! Cenário magnífico!
Com o Márcio, nosso guia no Parque Nacional da Serra do Catimbau, em Buique - PE
O Márcio é um guia excelente. ALém da simpatia, foi nos dando verdadeiras aulas de geologia e de botânica, nos apresentando para as plantas da região, seus usos medicinais e alimentares. Ficamos boquiabertos com a riqueza deste bioma. Mais boquiabertos ainda ficamos com as formações rochosas, as vistas dos canyons e das torres de pedra. Para completar, as pinturas rupestres que mostram que os povos antigos também gostavam de frequentar esse lugar especial.
Pedras que lembram o casco de tartarugas, no Parque Nacional da Serra do Catimbau, em Buique - PE
Hoje estivemos em quatro lugares incríveis. O primeiro foi numa área onde as pedras parecem cascos de tartaruga. Enormes áreas onde elas estão todas fraturadas em forma geométrica. Difícil acreditar que a natureza pode ser tão caprichosa. Mas foi. Cabe aos geólogos tentar entender como isso ocorre. Há várias explicações, algumas convincentes, mas nenhuma definitiva. E assim, podemos dar asas à imaginação...
Pinturas rupestres no Parque Nacional da Serra do Catimbau, em Buique - PE
Depois seguimos para uma pequena toca, a Casa de Farinha, onde pudemos observar pinturas da tradição agreste. Qual seria o intercâmbio que existia entre esses povos e aqueles que viviam na Serra da Capivara, tão distante daqui, há 5 mil anos? Certamente havia trocas. Culturais, inclusive. Nossa, é tão difícil imaginar como seria a vida cotidiana naquela época... É sempre bom lembrar que aquela cultura que fez essas pinturas por milhares de anos não é a mesma dos índios que habitavam o continente quando os portugueses chegaram. Nossos índios conhecidos não faziam e não fazem pinturas rupestres. O que terá acontecido com o povo que pintava?
Admirando o Parque Nacional da Serra do Catimbau, em Buique - PE
No alto de formações rochosas no Parque Nacional da Serra do Catimbau, em Buique - PE
Depois das pinturas visitamos as Torres, enormes pináculos de rocha que se erguem no alto da serra, nas mais variadas formas. Do alto, a visão de todo o vale é maravilhosa. Assim como o é caminhar por entre esse labirinto de pedras, a cada esquina uma nova forma e uma nova visão do vale lá embaixo.
Admirado com as incríveis rochas coloridas do Parque Nacional da Serra do Catimbau, em Buique - PE
Formações coloridas de erosão vertical no Parque Nacional da Serra do Catimbau, em Buique - PE
Por fim, descendo das Torres para o vale passamos pelos "Lapiais", uma região de barrancos e encostas coloridas, vários tons indo do branco ao preto, do amarelo ao vermelho, tudo separado em faixas e camadas, sinal de uma história geológica complexa e variada. Soma-se a isso processos de erosão horizontal e vertical e o resultado, visualmente falando, é absolutamente fantástico. Parece que estamos no meio de grandes pinturas, carregadas nas cores vivas.
Cores fortes, quase surreais, nos rochedos do Parque Nacional da Serra do Catimbau, em Buique - PE
É um mundo magnífico, este que vivemos. É só sabermos para onde ir. Viva as manchas verdes no mapa. Viva os cavalos marcantes da infância. Viva o ano que se acaba e o outro que começa, trazendo mais tempo para que possamos conhecer mais manchas verdes...
Parque Nacional da Serra do Catimbau, em Buique - PE
Subindo Agulhas Negras com Prateleiras ao fundo - RJ
Bem cedinho partimos os três casais e o Anderson rumo á entrada do parque. Fomos divididos em dois carros para enfrentar a péssima estrada: a Fiona e o sempre valente Fusca, do Anderson.
Grupo no alto de Agulhas Negras - RJ
Lá na entrada do parque, uma notícia ruim, seguida por outra boa. Havia uma multidão na guarita, além de quatro ou cinco vans. Só me faltava essa: em pleno dia de semana um congestionamento nas Agulhas Negras. Depois, a notícia salvadora: a multidão estava indo para Prateleiras. Ufa! Mas que coicidência! Quando vimos a multidão, os novos amigos logo olharam para mim, sorrindo. Isso porque, na noite anterior, durante o jantar, tivemos uma longa discussão sobre turismo. Mais especificamente, sobre o acesso dos turistas às atrações. Eu dizia que reconhecia o direito das pessoas de irem à todos os lugares mas que, ao mesmo tempo, adorava chegar em alguma cachoeira, caverna oumontanha e não encontrar ninguém. Disse que a precariedade da estrada para o parque cumpria essa função: afastar as massas dali! E não é que chegamos lá e damos com 50-60 pessoas?!?
Cooper a 2.500 metros de altitude
Bom, passado o susto e a guarita todos passaram para a Fiona pois, a partir dali, nem o Fusca enfrentaria a péssima estrada. O pessoal veio para a Fiona e eu saí, percorrendo os 3 km até o Abrigo Rebouças correndo. nada como um cooperzinho a 2.500 metros de altitude para desenferrujar.
Exército praticando no Parque de Itatiaia - RJ
De tão ruim a estrada que eu cheguei antes da Fiona no abrigo. Ele está ocupado pelo exército, que está fazendo treinamentos na região. Cerca de 300 cadetes estavam lá em cima fazendo toda sorte de exercícios, subindo e descendo pedras com mochilas pesadas e rifles pendurados no pescoço. Enfim, toda a área em volta do refúgio estava bem movimentada. Esse parque é praticamente o quintal da AMAN. Não é à tôa que eles tem esse nome!
Início da subida para Agulhas Negras. Prateleiras ao fundo - RJ
Olhando para Agulhas Negras - RJ
A subida ao pico foi em gostosa e tranquila. Os dois casais andavam muito bem e não demorou muito para chegarmos lá em cima. Em dois trechos, para maior segurança, usamos corda.
Descendo Agulhas Negras - RJ
Lá de cima a vista estava maravilhosa. Para trás das Prateleiras, um mar de nuvens cobria a paisagem. Para os outros lados, identificamos o Pico do Papagaio, em Aiuruoca e a Pedra da Mina, nosso próximo objetivo.
No alto de Agulhas Negras - RJ
Foi minha quinta vez neste parque pai de todos os outros aqui no Brasil, que a minha mãe já visitava na década de 50! Sempre subi no pico, entre outras atrações da parte alta do parque: cachoeiras, Prateleiras, Couto, etc. Mas foi apenas na primeira vez, num distante 1989, que eu consegui assinar o livro de registro, no alto da montanha. Isso porque, quando chegamos lá no alto, descobrimos que o pico verdadeiro fica um pouco adiante. E para chegar lá é necessário descer uma pedra bem exposta e subir outra. Qualquer escorregão e são dezenas de metros para baixo. Um estrago! Não sei como mas, na primeira vez, com dois amigos da Unicamp, consegui fazer isso sem cordas. Depois, nunca mais! E olha que eu pelejei! Desta vez, junto com o Anderson e com a ajuda de cordas, voltei ao mesmo lugar e assinei o nome! Tirei um espinho encalacrado da garganta!
Último esforço para se chegar ao livro no topo das Agulhas Negras - RJ
Assinando o livro no alto das Agulhas Negras - RJ
Assinando o livro no alto das Agulhas Negras - RJ
Lá do alto, fiquei imaginando toda aquela região, já tão linda, nevada. Seria inacreditável! Vocês sabiam que de 11 para 12 de Junho de 85, portanto nem tão antigamente assim, nevou por 9 horas sem parar por aqui. Foi capa do Globo e do Jornal do Brasil (os jornais estão lá na Pousada dos Lobos). O pessoal, os sortudos que estavam aqui, faziam bonecos de neve e guerras de bolas de neve. Os carros pararam de funcionar e várias pessoas acampadas se refugiaram no Alsenne (naquele tempo, os chatos do ICMBio não tinham embargado o hotel). Será que veremos isso novamente?
No topo das Agulhas Negras - RJ
Bom, devaneios à parte, descemos a montanha, eu fizmais um cooper e voltamos para a Pousada dos Lobos. Antes de partir para Passa Quatro ainda deu tempo de ver a Argentina de Don Diego Maradona ganhar mais uma e conhecer mais um simpático casal que acabara de chegar: a Mirim e o Rogério. Nesses lugares, quase 100% das pessoas que conhecemos são muito interessantes.
No topo das Agulhas Negras - RJ
Com o sol de pondo, partimos de volta às Minas Gerais,em direção à Passa Quatro e à Pedra da Mina, a mais alta montanha da Serra da Mantiqueira.
Início da subida para Agulhas Negras. Prateleiras ao fundo - RJ
A bela e pitoresca cachoeira de Svartifoss, no parque de Skaftafell, no sul da Islândia
Acordamos hoje na maior atração turística do sul da Islândia, o Parque Nacional de Skaftafell. Criado para ajudar a proteger a natureza exuberante da região, com montanhas nevadas, cachoeiras pitorescas e um lago repleto de icebergs, o grande tesouro do parque é, sem dúvida, a Vatnajoekull, simplesmente a maior geleira da Europa. Era exatamente aí que queríamos ir, mas há mais coisas para se ver neste parque.
Turistas caminham na trilha que leva à cachoeira de Svartifoss, no parque de Skaftafell, no sul da Islândia
A primeira visão da bela cachoeira de Svartifoss, no parque de Skaftafell, no sul da Islândia
Nossa ideia era fazer uma caminhada sobre a geleira, o que deve ser feito com um guia. Logo cedo fomos à portaria do parque para agendar um grupo e só conseguimos marcar nosso horário para o meio da manhã. Assim, ganhamos um tempo para percorrer uma outra trilha, dessa vez em terreno seco mesmo, rumo a outra das atrações populares de Skaftafell: a pitoresca cachoeira de Svatifoss.
A bela e pitoresca cachoeira de Svartifoss, no parque de Skaftafell, no sul da Islândia
A trilha para se chegar até ela não é longa e dura uns 30 minutos. Até por isso, é uma das mais concorridas entre os turistas que visitam a região. Svatifoss não se destaca pela altura da queda d’água e nem pelo volume, principalmente se comparada com as cachoeiras que temos visto neste país, mas pela beleza geológica de seu visual. Tubos hexagonais de rocha negra compõe o cenário, resultado de sua formação vulcânica onde a lava quente se esfriou rapidamente em contato com o ar gelado da Islândia. Soma-se a isso a erosão gradual causada pela água e pela diferença de temperatura entre dias e noites, entre verões e invernos, e temos esse resultado inusitado e pitoresco, uma verdadeira catedral natural. Aliás, falando em “catedral”, a principal igreja da capital Reikjavik tem sua arquitetura baseada exatamente nessa bela cachoeira aqui do sul do país!
A estranha formação rochosa na cachoeira de Svartifoss, no parque de Skaftafell, no sul da Islândia
Seu único defeito, assim como de todas as outras cachoeiras islandesas, é a impossibilidade de tomar banho ou dar um mergulho. Primeiro, pela temperatura da água, claro! E segundo porque a base da cachoeira é formada por pedras pontudas, escorregadias e cortantes (que coquetel!), o que dificulta muito nossa chegada embaixo d’água. Essas pedras são o que sobrou de antigos tubos hexagonais que caíram lá de cima em decorrência da erosão. Enfim, nada de banho e muitas fotos! Depois, acelerado de volta à entrada do parque onde tínhamos outro programa pela frente: cinco horas de “glacier walking”!
A bela e pitoresca cachoeira de Svartifoss, no parque de Skaftafell, no sul da Islândia
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