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Com os sobrinhos Antonio e Bebel no Beach Park, em Fortaleza, capital do Ceará
Há três anos, em janeiro de 2011, nós viajávamos pelo Ceará, já dentro do projeto 1000dias. Aliás, naquela época, estávamos impressionados com o quão longe a Fiona já tinha nos levado, hehehe. Hoje, para nós, o Ceará é quase como se fosse a esquina de casa! Enfim, passamos mais de duas semanas de explorações nesse estado maravilhoso, da capital ao interior, do litoral ao sertão, do calor das praias ao frescor das serras.
Sem o GPS da Fiona, foi o mapa do ipad que nos ajudou a dirigir de Fortim, no litoral leste cearense, até o Beach park, na capital Fortaleza
Com a bebel e o Antonio, chegando ao Beach Park, em Fortaleza, capital do Ceará
Entre tantos lugares visitados, um deles foi o Beach Park, na região metropolitana de Fortaleza. Foram horas e horas descendo e se divertindo em seus escorregadores (veja o post aqui) num dia nublado e sem muita concorrência no parque. Um dia para voltar a ser criança e realizar um sonho de muito tempo, desde quando essas parques aquáticos nem existiam no Brasil.
O sempre movimentado Beach Park, em Fortaleza, capital do Ceará
O sempre movimentado Beach Park, em Fortaleza, capital do Ceará
O Beach Park é hoje o maior desses parques aquáticos em toda a América Latina. Além das piscinas e tobogãs, também tem hotéis, restaurantes, lojas e uma grande área de praia. Apenas em seus tobogãs, são quase 1 milhão de visitantes por ano, capacidade de receber 8 mil turistas em um único dia. Mas ele começou bem menorzinho! Em 1985, era apenas um restaurante na beira da praia. O primeiro brinquedo aquático foi criado em 1988 e o parque aquático, inaugurado com três toboáguas no ano seguinte. E aí, de atração em atração, de hotel em hotel, ele acabou se transformando nessa máquina de fazer dinheiro que conhecemos hoje.
Com os sobrinhos Antonio e Bebel no Beach Park, em Fortaleza, capital do Ceará
A Bebel em brinquedo do Beach Park, em Fortaleza, capital do Ceará
Pois bem, estamos passando essa semana em Fortim, litoral leste do estado, numa grande reunião familiar. Meus sobrinhos mais jovens, a Bebel e o Antonio, ambos com 14 anos, queriam muito conhecer o famoso parque aquático. Desde que a família decidiu que o encontro seria no Ceará, eles vem fazendo planos para se divertir nos tobogãs gigantes. Só faltava alguém para levá-los até lá. Eu e a Ana, os tios relapsos que passaram os últimos quatro anos longe da família, nos candidatamos para a tarefa. Assim, enquanto “tomássemos conta” deles, também teríamos nossa chance de voltar a ter 14 anos! Estávamos de volta à máquina do tempo!
O Antonio desce acelerado um dos grandes escorregadores do Beach Park, em Fortaleza, capital do Ceará
Essa nuvem de água é a chegada do Antonio depois de descer um dos escorregadores do Beach Park, em Fortaleza, capital do Ceará
Assim, a bordo de um dos carros alugados pela família para ir de Fortaleza até o hotel em Fortim, tomamos o sentido inverso, agora em direção à capital. Resolvemos sentir ao menos o gostinho desses viajantes que saem por aí dirigindo seus carros até outros países em companhia de seus filhos. No nosso caso, sobrinhos! Já entrando no clima e voltando a ser adolescente, passei quase toda a viagem de carro atazanando eles, fazendo terrorismo de que o parque estaria fechado por causa da chuva. Realmente, São Pedro tinha mandado nuvens bem carregadas o perigo de chuva era real, o que colaborava com minhas ameaças.
São e salvo depois de mais uma descida nos escorregadores do Beach Park, em Fortaleza, capital do Ceará
Chegando perto do parque, não vimos nenhum movimento em seus brinquedos. Os dois realmente começaram a temer pelo programa. Mas a explicação para a falta de movimento não era a ameaça de chuva, mas o horário. Chegamos ali justamente na hora de abertura do parque, ao meio-dia. Bastaram alguns minutos para todos as atrações ganharem vida. Na verdade, a ameaça de chuva foi até positiva para nós. Exatamente como há três anos, o tempo nublado nos proporcionou um parque um pouco mais vazio e com menos filas, dando mais tempo para que a gente curtisse as atrações.
A Bebel desce acelerada um dos grandes escorregadores do Beach Park, em Fortaleza, capital do Ceará
Sã e salva depois de mais uma descida nos escorregadores do Beach Park, em Fortaleza, capital do Ceará
Já que o terrorismo da chuva e do parque fechado tinha perdido a sua credibilidade, passei a investir na ideia de que eles não teriam coragem de descer o “Insano”, o mais alto e famoso tobogã do Beach Park. Com 41 metros de altura, o equivalente a um prédio de 14 andares, esse brinquedo não é mesmo para qualquer um. Ao menos o coração deve estar em ordem! A gente literalmente despenca lá de cima, atinge velocidades acima dos 100 km/h, percorre os 41 metros de altura em apenas 5 segundos e se esbolacha na piscina lá embaixo.
Preparando-se para descer de boia com o Antonio mais um dos escorregadores do Beach Park, em Fortaleza, capital do Ceará
Preparando-se para descer de boia com o Antonio mais um dos escorregadores do Beach Park, em Fortaleza, capital do Ceará
É claro que eles não deixariam de ir no Insano. Sentia um certo nervosismo e tensão nos tons de voz, mas o medo não os impediria. Ao contrário, seria um estimulante a mais! De qualquer maneira, a gente resolveu “esquentar” nos tobogãs menores e outras atrações do parque. Aliás, houve uma renovação desde que estivemos aqui em 2011 e a nova atração do parque é um brinquedo chamado Arrepius. Nós subimos em uma torre com quase 30 metros de altura e lá entramos em uma espécie de cápsula com portas de vidro, para que possam nos ver do lado de fora. Aí começa uma tensa contagem regressiva, como se um foguete fosse ser lançado. Mas quando ela chega no zero e as sirenes disparam, ao invés de nós decolarmos, o chão simplesmente se abre sob nossos pés e nós caímos em queda livre. O coração vem na boca quando não sentimos mais nossos pés e nossos rostos não escondem o enorme susto, para delírio de quem nos assiste. Depois de uns poucos metros de queda, chegamos a um tobogã e por ele seguimos até a piscina lá embaixo. Muito legal!!!
O mar visto do alto de um dos escorregadores do Beach Park, em Fortaleza, capital do Ceará
Com os sobrinhos Antônio e Bebel, no alto de um dos escorregadores do Beach Park, em Fortaleza, capital do Ceará
Além desse, a gente também se divertiu muito no Ramubrinká, um tobogã em curvas e túneis em que descemos em boias duplas e quádruplas. Não é muito veloz, mas tem a graça de estarmos juntos e podermos fazer bagunça ao mesmo tempo. Quando queríamos competição, descíamos em um escorregador mais largo, onde várias pessoas descem ao mesmo tempo e apostam corrida para ver quem chega em primeiro lugar.
O temido Insano, o mais alto escorregador do Beach Park, em Fortaleza, capital do Ceará
O Antonio "despenca" pelo Insano, o maior escorregador do Beach Park, em Fortaleza, capital do Ceará
Mas a maior atração continua mesmo sendo o Insano. Depois de algumas escorregadas nas outras atrações, não teve mais como segurar e fomos todos à torre do Insano. Subir até o alto já dá tanto trabalho que, depois de um esforço desses, não descer pelo tobogã deixa de ser uma alternativa. Quando muito, podemos passar um tempo lá em cima aproveitando a bela vista da região, enquanto recuperamos o ar nos pulmões e ganhamos coragem. Quando chega a vez delas na fila, muita gente resolve deixar as pessoas que vem atrás passarem na frente. Alguns ficam lá por meia hora, só se concentrando. É uma questão de vida ou morte para eles, pois se não descerem, vão aguentar gozações dos amigos pelo resto da vida. Esse não foi o nosso caso, claro, por mais que eu tentasse instigar o medo neles. Que nada! Chegou a vez de cada um, muito sérios e compenetrados foram para o ponto de lançamento e se jogaram no abismo, deixando o tiozão muito orgulhoso dos sobrinhos!
A bebel enfrenta sem medo o Insano, o mais alto escorregador do Beach Park, em Fortaleza, capital do Ceará
Ainda vivos, depois de passar pelo Insano, o mais alto escorregador do Beach Park, em Fortaleza, capital do Ceará
Depois da primeira vez, o medo quase sumiu e muitas outras descidas se seguiram. O rosto tenso no momento da partida agora era um sorriso de orelha à orelha. O tio mesmo só foi duas vezes. A experiência de três anos atrás me ensinou que, mais tarde, as dores nas costas cobram o seu preço. Então, melhor não abusar!
Com os sobrinhos Bebel e Antonio, depois de mais uma escorregada no famoso Insano, no Beach Park, em Fortaleza, capital do Ceará
E assim foi nosso retorno ao Beach Park. Em 2011, teve o charme da primeira vez. Mas agora, teve a companhia e a graça dos sobrinhos, alegria compartilhada entre quatro pessoas e não mais apenas duas. Teve o orgulho de tio e teve o deleite do brinquedo novo, aquele do piso que se abre sob nossos pés. E teve também o prazer de compartilhar um pedacinho dos 1000dias com essas duas figuras, Bebel e Antonio. Nem preciso ser mais explícito, então, para dizer qual das duas vezes gostei mais. Ou preciso?
Com os sobrinhos Antônio e Bebel, no alto de um dos escorregadores do Beach Park, em Fortaleza, capital do Ceará
Para quem ainda não viu, segue o link no youtube do nosso primeiro vídeo postado lá, feito com muito carinho e zelo pela Ana. Ficou super profissa! Podem clicar que não é vírus!!!
http://www.youtube.com/watch?v=NtpZyYBXyQo
Igreja de São Joaquim - SC
Preguiçosamente tomamos nosso café da manhã na cobertura do hotel em São Joaquim, de onde se tem uma ampla visão da cidade e dos arrededores. Céu azul, ar gelado, dia típico de inverno nessa cidade que atrai tanta gente atrás de neve. Para nós, só veio o gelo e ainda não foi dessa vez que vimos os famosos flocos num país dito tropical. Não faz mal, ainda temos uma vida pela frente para presenciar o belo fenômeno em terras brasileiras...
Botamos as coisas em dia na internet e partimos para a longa viagem até Curitiba. Optamos por seguir pela BR-116, pelo interio do país, para não repetir o mesmo caminho da vinda, na BR-101, estrada litorânea. Caminho mais curto, mas a pista é simples e deve-se sempre "negociar" com os caminhões, coisa que a Ana fez com maestria.
Dia de sol na região de São Joaquim - SC
Ao longo da viagem, que corta belas paisagens e feias cidades, fui aproveitando os poucos pontos de cobertura de celular para tentar falar com o despachante em São Paulo que cuidou da entrega do meu passaporte e dossiê no consulado do Canadá. Durante toda a semana, esse era o fantasma que me assombrava, sabendo que a data fatídica se aproximava.
Como não poderia deixar de ser, o resultado só saiu no segundo tempo da prorrogação, isto é, nos últimos minutos da tarde de hoje. E o resultado... POSITIVO!!! Viva!!! Nada mais nos segura nessa viagem, hehehe! Rumo ao Alaska, agora.
Olha só quem nos esperava em Curitiba - PR!
Para isso, o primeiro passo foi chegar em Curitiba, depois de uma longa viagem em que tivemos até de mudar de estrada, andando 60 km à mais, devido a um acidente feio próximo à Mandirituba, que fechou a estrada. Mas, com paciência, chegamos! E, conforme a tradição, já seguimos diretamente para a casa dos cunhados, Dani e Dudu, e da linda sobrinha Luiza, que fez 1 ano ontem, mas cuja festa será celebrada amanhã. Juntos, com um delicioso vinho trazido lá de Bento Gonçalves, brindamos ao reencontro, à mais uma volta à Curitiba, à aniversariante Luiza (como passou rápido esse ano!!!) e, claro, ao visto canadense, o que dá início à mais uma etapa da nossa viagem.
A neblina dá ares de mistério ao Parque Nacional Corcovado, na Península de Osa, no sul da Costa Rica
O Parque Nacional Corcovado tem uma área grande demais para ser explorada a pé, a não ser para pesquisadores que têm meses a sua disposição. Para visitantes mais “comuns”, como nós, é preciso escolher uma área do parque, para nela se concentrar nos exíguos dias de permanência na região. A área do parque é dividida em alguns “núcleos” que podem receber turistas e, felizmente para nós, um deles, o núcleo Sirena, tem em sua pequena área tudo aquilo que o visitante está procurando: trilhas na mata, acomodação, rios, praias e, acima de tudo, a rica fauna que todos procuram quando vêm para cá.
Em praia de Bahía Drake, pronta para viajar para o Parque Nacional Corcovado, na Península de Osa, no sul da Costa Rica
Em Bahía Drake, esperando o barco para o Parque Nacional Corcovado, na Península de Osa, no sul da Costa Rica
Como expliquei no post anterior, pode-se chegar ao núcleo Sirena através de uma árdua caminhada de dia inteiro vindo de Carate, na área de Puerto Jimenez, ou diretamente de barco, a partir de Bahía Drake. Na verdade, há um terceiro caminho, outra caminhada de dia inteiro, cruzando a península pelo seu interior. Alguns viajantes mais intrépidos chegam por aí e se vão pela trilha de Carate. Para quem tem tempo, parece uma boa alternativa, conhecendo as várias facetas do parque. De qualquer maneira, seriam dois dias inteiros só de caminhadas e nós não tínhamos esse tempo. Optamos pelo acesso de barco para poder passar pouco mais de um dia apenas ao redor do núcleo Sirena, fazendo nossas explorações. Para quem tem um pouco mais de dinheiro no bolso, pode-se voar para lá também! Sirena tem um rústico aeroporto de pista de grama que acomoda pequenos aviões. Vimos e ouvimos dois deles pousando e decolando no meio da selva, numa exótica cena que nos lembra filmes de Indiana Jones...
Em Bahía Drake, embarcando para o Parque Nacional Corcovado, na Península de Osa, no sul da Costa Rica
De barco, a caminho do Parque Nacional Corcovado, na Península de Osa, no sul da Costa Rica
Para nós, que optamos pelo barco, o dia começa cedo. Pouco depois das cinco da manhã já estamos de pé, ainda em Bahía Drake. Uma curta caminhada nos leva até a praia, ainda vendo o sol nascer. Na pequena cidade, os poucos hotéis mais chiques e também algumas agências de viagem organizam tours ou excursões de um dia até Sirena. Os barcos partem um pouco depois das seis, chegam ao parque 07:30 e, no início da tarde, dependendo do horário da maré, trazem os turistas de volta. Levam seus guias e comida para o lanche, caminham por algumas das trilhas e dão aos visitantes um gostinho do parque. No nosso barco, éramos os únicos que íamos para ficar, levando roupas, barraca, sacos de dormir e comida para as refeições. Estávamos indo com um grupo de hoje e voltaríamos com um grupo de amanhã. Sempre seguindo as valiosas dicas do nosso amigo guia que encontramos em Puerto Jimenez.
Desembarcando rm praia do Parque Nacional Corcovado, na Península de Osa, no sul da Costa Rica
Chegando ao Parque Nacional Corcovado, na Península de Osa, no sul da Costa Rica
Quinze minutos depois de termos deixado Bahía Drake para trás e após passarmos pelo último dos hotéis mais chiques, começamos a bordear a área do parque. A densa mata ainda estava envolta na neblina da manhã, um ar de mistério no ar, uma terra virgem a ser explorada. No trecho final, o piloto da lancha tem de ser habilidoso para driblas as fortes ondas do mar, a última “defesa” do parque para que possamos, enfim, desembarcar.
Caminhando na mata para o lodge Sirena, no Parque Nacional Corcovado, na Península de Osa, no sul da Costa Rica
Mapa de trilhas da área de Sirena, no Parque Nacional Corcovado, na Península de Osa, no sul da Costa Rica
Não há sinais de civilização na praia, exceto por umas poucas pegadas. Bem no ponto que descemos, uma falha na mata mostra ser a entrada de uma trilha. Por ali chegam os caminhantes que vieram de Carate. A trilha se embrenha para o interior, quase dois quilômetros no meio da mata para chegar até as casas e abrigos que formam o núcleo de Sirena. Já nesse caminho, para quebrar logo o gelo, tivemos um emocionante encontro com a fauna local. Mas isso é assunto para o próximo post, dedicado inteiramente ao maior atrativo do Corcovado: a possibilidade de ver de perto a vida animal em seu próprio habitat.
Caminhando na pista do aeroporto da estação Sirena, no Parque Nacional Corcovado, na Península de Osa, no sul da Costa Rica
Caminhando em trilha do Parque Nacional Corcovado, na Península de Osa, no sul da Costa Rica
Chegando à sede do núcleo Sirena, somos recebidos por um guarda-parque que nos mostra o local, o mapa de trilhas e as regras a serem seguidas durante nossa estadia. Por exemplo, nada de caminhar de noite! Depois das seis, todo mundo ali, ao redor do lodge! Nada de dar sorte ao azar!
AS várias barracas no lodge Sirena, no Parque Nacional Corcovado, na Península de Osa, no sul da Costa Rica. A nossa é a primeira da direita, em primeiro plano
Cozinhando um delicioso jantar na cozinha do lodge Sirena, no Parque Nacional Corcovado, na Península de Osa, no sul da Costa Rica
Sirena tem um número limitado de camas em dormitórios para receber visitantes. Mas, como já havia nos avisado o guia em Pueto Jimenez, é muito melhor ficar na barraca mesmo. A razão: o intenso calor que faz por ali! Os quartos são muito quentes e as barracas, armadas em um cômodo sem paredes, mas com teto para nos proteger da chuva, ficam bem mais arejadas. Principalmente porque podemos montá-las sem a parte de cima, já que estamos sob um teto. Fica só a parte de tela para nos proteger dos insetos. É engraçado ver, dez ou doze barracas montadas pela metade, apertadas nessa pequena varanda, o interior de cada uma completamente a vista para quem passar ali do lado.
Comendo um saboroso frango xadrez no Parque Nacional Corcovado, na Península de Osa, no sul da Costa Rica
Temos acesso a banheiros com água corrente e a uma grande cozinha comunitária, melhor local para socializar com os outros visitantes, principalmente na hora do jantar, quando estão todos ali. A Ana resolveu inovar dessa vez e preparou para o nosso jantar um delicioso frango xadrez. Tínhamos também arroz e suco, uma verdadeiro banquete para aquelas condições. Depois do dia inteiro de caminhadas, não poderia ter sido melhor. As outras refeições (café da manhã e lanches) foram todos feitos à base dos tradicionais sanduíches. Saíamos para percorrer as trilhas com duas pequenas mochilas, uma para a máquina fotográfica e outra para o lanche e comíamos no meio da mata mesmo, ou ao lado do rio, ou na extensa praia, sempre com o cuidado de trazer o lixo de volta.
Flores vermelhas se destacam em meio ao verde da floresta do Parque Nacional Corcovado, na Península de Osa, no sul da Costa Rica
Árvore multi-centenária no Parque Nacional Corcovado, na Península de Osa, no sul da Costa Rica
Uma vez instalados, estudamos bem o mapa de trilhas. São diversas delas, para todas as direções, com extensão de poucos quilômetros. Com um pouco de planejamento, é possível combiná-las em loops de forma a quase não repetir caminhos. Algumas trilhas seguem ainda mais para o interior, outras nos levam até a praia e algumas vão em direção aos dois rios que marcam os limites do núcleo Sirena.
Rio Sirena, no Parque Nacional Corcovado, na Península de Osa, no sul da Costa Rica. O aviso é por causa dos tubarões e dos crocodilos!
O rio Sirena, frequentado por crocodilos e tubarões, no Parque Nacional Corcovado, na Península de Osa, no sul da Costa Rica
Um dos rio é o que deu nome a essa área: Sirena. É o mais caudaloso e nadar ali é proibido, além de não ser mesmo muito recomendável. A razão é simples: suas águas são frequentadas por crocodilos e tubarões. Isso mesmo, tubarões! Quando a maré está enchendo, os tubarões-touro entram rio adentro procurando alimento; Não é muito sábio estar em seu caminho. Normalmente, apenas as grandes marés lhe dão espaço para cruzar pela foz, mas nunca é bom arriscar. Além disso, mesmo que eles não estejam por lá, tem sempre o risco dos crocodilos. Assim, o melhor é apenas caminhar pela sua orla, olhos atentos para ver se observamos algo mais “interessante”.
Procurando tubarões-touro na foz do rio Sirena, Parque Nacional Corcovado, na Península de Osa, no sul da Costa Rica
Garças na foz do rio Sirena, no Parque Nacional Corcovado, na Península de Osa, no sul da Costa Rica
O outro rio é o Claro. Com menos água, é por ele que cruzam os caminhantes que vem de Carate. Na maré baixa, claro!. Um pouco mais acima, no leito, pedras e corredeiras afastam tubarões e crocodilos e formam belas piscinas naturais, convite irrecusável para um bom mergulho. Aí relaxamos no final da tarde do nosso primeiro dia no parque, depois de muitos quilômetros de trilhas percorridas. Tanto gostamos que arrumamos tempo para voltar no dia seguinte, antes da nossa volta, para um novo e refrescante mergulho.
O rio Claro, no Parque Nacional Corcovado, na Península de Osa, no sul da Costa Rica
Nadando no belo e seguro rio Claro, no Parque Nacional Corcovado, na Península de Osa, no sul da Costa Rica
Aliás, além do rio Claro, a única outra opção para se refrescar são os chuveiros do lodge. A extensa praia de mar também é tentadora, mas nadar aí não é aconselhável Tanto pelas pedras como pelos tubarões-touro que, dizem, estão sempre por ali. Percorrendo as várias trilhas, passamos algumas vezes pela praia e aí observamos um inesquecível pôr-do-sol. Desses de cinema, o sol entrando devagarinho na água, a densa mata atrás de nós, natureza pura de todos os lados. Tudo isso a sós, eu, a Ana e aquele pedaço maravilhoso de mundo chamado Corcovado. A trilha sonora era de pássaros e macacos, cantando e gritando. Um espetáculo!
Caminhando na praia do Parque Nacional Corcovado, na Península de Osa, no sul da Costa Rica
Trilha nos leva até o mar, no Parque Nacional Corcovado, na Península de Osa, no sul da Costa Rica
Do alto de um "mirante", observando a longa praia do Parque Nacional Corcovado, na Península de Osa, no sul da Costa Rica
Nesses nossos dois dias em Sirena, creio que haviam umas outras cinquenta pessoas por lá. De noite, no lodge, fica movimentado. Mas quando saímos às trilhas, ficamos completamente sós (estou me referindo a seres humanos!), cruzando pessoas apenas a cada 30 ou 40 minutos, todos envoltos em suas próprias explorações. Pelo histórico e pelo que observamos, a área é bem segura, tanto com relação aos animais como a outros “perigos” também. Por exemplo, nesses dois dias, lá estavam dois grupos de mulheres, estudantes em San Jose. Vieram caminhando sem guias, cada grupo com cinco meninas, e por aqui perambulavam para lá e para cá, sem que ninguém as molestasse. Era até meio surreal caminhar no meio da mata por uma hora sem ver ninguém (exceto os bichos) e, de repente, cruzar com elas em sentido contrário, cinco moças de biquíni voltando do rio. “Será que estamos no meio de uma mata primária nos confins da Costa Rica, ou estamos em um resort?”, era a dúvida que vinha na minha cabeça, diante daquela situação inusitada.
Curtindo o entardecer no Parque Nacional Corcovado, na Península de Osa, no sul da Costa Rica
Um belíssimo pôr-do-sol na costa do Parque Nacional Corcovado, na Península de Osa, no sul da Costa Rica
Enfim, essas cerca de 30 horas no parque foram suficientes para percorrermos quase todas as trilhas, algumas mais de uma vez, e observarmos uma incrível quantidade de animais selvagens. Essa é, sem dúvida, a parte mais emocionante da viagem! Do momento em que pusemos os pés na praia até a hora de retornar, esperando junto com os barqueiros até que a maré enchesse e pudéssemos partir, a vida selvagem sempre esteve ao nosso redor, no alto das árvores, no solo da floresta, voando, caminhando ou nadando, Assunto para o próximo post!
Admirando o mágico pôr-do-sol e o céu colorido de 50 tons de laranja no Parque Nacional Corcovado, na Península de Osa, no sul da Costa Rica
No Paso de Jama, fronteira entre Argentina e Chile, a 4.400 metros de altitude
Hoje era o dia de deixarmos a Argentina e entramos no Chile. Sem querer correr riscos, saímos cedinho de Susques em direção à fronteira, cem quilômetros à frente. Difícil mesmo foi enfrentar o frio. O termômetro da Fiona marcava seis graus negativos na hora da saída!
A linda paisagem do Paso de Jama, ntre Argentina e Chile
Para variar, a paisagem era magnífica. Cruzamos mais um salar, muitas montanhas e chegamos, finalmente, ao Paso de Jama. Ali vencemos as burocracias normais de saída de um país e entramos na fila. A fronteira entre os dois países está funcionando num esquema especial, devido ao excesso de neve no lado chileno. Só passa quem chega lá até às 10:30, hora em que a fronteira abre e os carros e caminhões que cumpriram o horário limite e as burocracias podem entar no Chile.
A Fiona enfrenta seu frio recorde, pouco antes de chegar ao Paso de Jama, fronteira entre Argentina e Chile
Aí, por uns 20 km, podemos dirigir, parar e fotografar ao nosso bel prazer. E paisagens impressionantes não faltam! Salares, lagoas congeladas, montanhas nevadas, vastidões inexploradas, tudo pedindo para ser fotografado e filmado.
No Paso de Jama, fronteira entre Argentina e Chile, a 4.400 metros de altitude
Aí, chegamos a um bloqueio dos carabineiros (a polícia daqui) chilenos. Neste ponto, todos os carros e caminhões que passaram a fronteira são reunidos e seguem em comboio por uns 40 km, guiados pelo carro da polícia. Em muitos pontos, a neve tomou conta da estrada e só meia pista está aberta. Em outros, só usando um desvio.
Nosso primeiro salar no Chile, a caminho de San Pedro de Atacama
Lindas lagoas na puna chilena, a caminho de San Pedro de Atacama
Ao nosso lado vão aparecendo antigos vulcões, uma visão que encanta qualquer brasileiro, já que não estamos acostumados com isso. Junta-se a isso a neve e o gelo e parece que estamos em outro planeta. Mas é apenas o Chile, país muito perto do Brasil!
Comboio para enfrentar a neve no lado chileno da fronteira
A estrada ainda ganha bastante altitude, chegando aos 4.750 metros, novo recorde da Fiona. Aliás, o segundo do dia, pois o termômetro chegou a marcar nove graus negativos! Quando finalmente começamos a abaixar o carro da polícia nos deixa passar e o comboio se dispersa. Lá embaixo, numa enorme planície, avistamos o deserto do Atacama pela primeira vez. Ele está uns 50 km à frente e 2 km abaixo. Mas a dimensão do deserto e das montanhas e a limpeza do ar nos engana e tudo parece muito mais perto.
Trator limpa a estrada entre o Paso de Jama e San Pedro de Atacama, no Chile
Os olhos não querem acreditar mas o relógio não mente. São quase 30 minutos de descida sem curvas, saindo dos 4.500 metros e chegando nos 2.500 metros de altitude do Atacama. Chegamos diretamente na cidade de San Pedro, onde finalmente é feita a aduana chilena. Nós e a Fiona somos legalizados no Chile, o vigésimo-segundo país desse nosso giro pelas Américas. Deixamos a nossa querida Argentina para trás, por onde ainda vamos viajar bastante nessa viagem, e chegamos ao Chile, país com atrações naturais que atrai turistas do mundo inteiro. Agora, temos de achar um hotel e começar logo nossas explorações por esse lugar mágico que é o Deserto do Atacama.
A primeira visão do deserto do Atacama, 2 mil metros abaixo de nós, no Chile
Região serrana em Gravatá - PE
Para nós, no sul, é sempre estranho pensar num clima frio no nordeste. Não combina com aquela imagem que vemos na TV do árido dertão. Pois bem, Pernambuco e os recifences também tem a sua versão de Campos de Jordão. Na verdade, mais de uma. São cidades serranas que no inverno tem mínimas de até 10 graus e que, mesmo no verão, durante a noite tem clima muito agradável, compatível com um bom vinho e mesmo um fondue!
Hotel em Triunfo - PE
O ponto mais alto do estado, com quase 1.300 metros de altitude, fica na cidade de Triunfo, a quase 500 km de Recife. E foi para lá que nós seguimos depois de nossa visita ao Vale dos Dinossauros, perto de Sousa, no sertão paraibano. Com uma combinação de estradas de asfalto em bom e mal estado e também de estradas de terra cruzando a serra entre os dois estados, chegamos em Triunfo já de noite. Três estados num só dia, já que tínhamos amanhecido em Juazeiro do Norte, no Ceará.
Casario colorido em Triunfo - PE
Em Triunfo ficamos no hotel do Sesc, no alto do morro. Friozinho gostoso que a Ana aproveirou para usar manga comprida! De manhã cedo, até umas dez da manhã, tudo o que víamos era neblina. Impossível se imaginar em pleno sertão pernambucano! Aí, finalmente, ela se levantou e pudemos observar o centro da cidade lá embaixo. Ainda demos uma volta de carro por lá para fotografar o belo casario colorido, marca registrada da cidade.
Museu em Serra Talhada - PE
Nosso próximo objetivo foi a cidade vizinha de Serra Talhada. Para chegar lá descemos uma bonita serra. A temperatura muda bruscamente enquanto descemos e logo voltamos àquele calor característico do sertão. Em Serra Talhada queríamos visitar o museu do Cangaço para aprender mais de Lampião e Maria Bonita. Mas demos azar de chegar lá perto do meio dia, horário que o museu fecha. Só deu para dar uma olhadinha em algumas fotos da época.
Pub trazido da Inglaterra em nosso hotel em Gravatá - PE
Aí, uma longa viagem em direção ao leste, atravessando boa parte deste comprido estado. Chegamos a 80 km de Recife, na cidade de Gravatá. Esta é a "Campos de Jordão" preferida dos pernambucanos. Muitos hoteis e resorts que lotam na temporada (inverno!). Nós escolhemos o Hotel Highlander, em meio a uma linda paisagem serrana. Já no final de tarde, fizemos amizade com o simpático proprietário do hotel, o Fonseca, e com ele tivemos uma longa conversa sobre viagens, hotéis e outros assuntos. Muito jóia!
Com o Cláudio Fonseca, o simpaticíssimo proprietário do Hotel Highlander, em Gravatá - PE
Por fim, com o frio aumentando e para comemorar nossos 19 meses de casados, comemos um fondue de queijo acompanhado de um bom vinho chileno. Uma ótima e estratégica passagem pelas montanhas de Pernambuco para nos preparar para outra longa temporada praiana que começa amanhã num lugarzinho bem "mais ou menos": Fernando de Noronha.
Celebrando o 19o mês de casamento com um fondue de queijo em Gravatá - PE
Caminhando para o Bairro da Penha, em Guayaquil, no Equador
A cidade de Guayaquil, com cerca de 2 milhões de habitantes, é a maior do país, superando inclusive a capital Quito. É também o principal centro econômico do Equador, sede das maiores empresas e bancos. Essa condição vem sendo desafiada aos poucos pela capital, principalmente pelas riquezas advindas da exploração de petróleo, centradas no norte do país. Guayaquil, no sul, cidade localizada às margens do caudaloso rio Guaya, sempre teve suaa economia ligada ao porto, o maior do país, por onde passam boa parte das exportações e importações do Equador.
O enorme rio Guaya, em Guayaquil, no Equador
No passado, essa importância atraía a atenção dos piratas e corsários que por diversas vezes atacaram a cidade, chegando a saqueá-la e incendiá-la. Um vez, em 1687, sequestraram vários figurões da cidade, além de suas mulheres mais bonitas. Enquanto esperavam pelo pagamento do resgate, refestelaram-se nas pobres mulheres e várias delas foram devolvidas "en avanzado estado de embarazo". Essa geração que nasceu desse infeliz incidente recebeu o nome de "piratillos".
Visitando a Plaza Bolívar e suas iguanas, em Guayaquil - Equador
As famosas iguanas da Plaza Bolívar, em Guayaquil - Equador
Para mim, o nome de Guayaquil sempre estará associado à nossa história da natação. Afinal, foi aqui que, em 1983, nos jogos Panamericanos, Ricardo Prado fez história ao vencer os 400 medley e, de quebra, bater o recorde mundial da prova. Em tempos do nosso super Cielo, que na época nem era nascido, pouca gente se lembra disso. Era um tempo mais heróico onde puro talento e força de vontade compensavam a total falta de estrutura desse esporte no nosso país. Minha homenagem ao Prado por aquela alegria tão distante de que nunca mais esqueci.
Loja de sanduíches e vitaminas em Guayaquil, no Equador
Nós, muito bem localizados perto da Plaza Bolívar, começamos nosso dia caminhando pelo centro, pela praça das Iguanas, pela praça central e pelo agitado centro financeiro da cidade. Nas ruas, várias semelhanças com cidades brasileiras, inclusive com suculentas casas de sucos naturais, uma das coisas que mais sinto falta do nosso país.
As escadarias com degraus numerados no Bairro da Penha, em Guayaquil, no Equador. São 450 degraus até o topo!
Subindo as escadarias da Penha, em Guayaquil, no Equador
Depois, repetimos nosso roteiro de ontem à noite e caminhamos pelo Malecon 2000, a orla revitalizada da cidade, até o bairro da Penha, um morro cheio de casas coloridas e com uma escadaria com mais de 400 degraus que nos levam até uma igreja e farol lá encima, de onde se tem uma bela vista da cidade e do rio. É legal comparar a vista que temos hoje com uma foto transformada em painel do ano de 1887, mostrando a Guayaquil daquela época.
No alto do morro da Penha, em Guayaquil, no Equador
Experimentando a cerveja equatoriana em restaurante do Malecon 2000, em Guayaquil, no Equador
No caminho de volta, uma deliciosa parada num dos restaurantes no bosque do Malecon 2000 e, depois, já era tempo de pegar a Fiona e partir em viagem. Não sem antes passarmos na Plaza Bolívar uma última vez para nos despedirmos das iguanas. Depois, foram muitos quilômetros até o litoral do país e, de lá, para o norte, até a pequena cidade de Montañita, uma das mais famosas praias do Equador. Aqui nos instalamos numa pousadinha em frente à praia, mas longe do burburinho do centro, cheio de restaurantes e bares mais barulhentos. Estamos à uma praia de distância de lá, o que nos garante noites tranquilas mas, ao mesmo tempo, nos deixa a menos de 10 min de agradável caminhada pela areia da praia para os restaurantes e baladas. Aqui vamos passar os próximos dois dias, bastante tempo para relaxar, trabalhar um pouquinho, correr na praia e nadar no mar. Era tudo o que estávamos precisando!
As famosas iguanas da Plaza Bolívar, em Guayaquil - Equador
Com o Gera e o Piotr no alto da maior montanha do México, o Pico Orizaba (foto de Mexico Extreme)
Era um pouco depois da uma da manhã quando o celular do Piotr tocou para nos acordar, lá no refúgio de montanhistas no Pico Orizaba. Nossa curta noite de sono já estava acabando e agora, não tinha mais jeito: a montanha nos aguardava!
De madrugada, colocando grampões para subir o Pico Orizaba, no México
Com muita eficiência, o Piotr nos preparou um sanduíche, chá quente e um suco de caixinha. Tomando cuidado para não pisar nos soldados espalhados pelo chão e, ao mesmo tempo, puxando conversa com os sentinelas, a gente tomou nosso café da manhã e colocou as últimas peças de roupa para enfrentar o frio da madrugada misturado com o frio da altitude. Três camadas de roupa dos pés á cabeça, com exceção das mãos, que só tinham duas luvas.
O sol nasce durante nossa sudida do Pico Orizaba, no México (foto de Geraldo Ozorio)
Sob um forte luar de lua cheia, mas também com ajuda de lanternas, começamos a lenta subida, seguindo por um dos canyons que descem diretamente das geleiras do Orizaba. Um passo atrás do outro, um comentário aqui e outro ali mas, fundamentalmente em silêncio, ainda curtindo os sonhos que teimavam em aflorar em nossas cabeças (afinal, esse é horário deles!), fomos ganhando altitude, a trilha subindo em ziguezague nas encostas mais inclinadas, ou lentamente nos trechos mais planos.
Ainda no escuro, chegando à geleira do Pico Orizaba, no México (foto de Geraldo Ozorio)
Mal vemos o tempo passar, mas ele passa! Quase duas horas de caminhada e chegamos ao temido “labirinto”. Esse foi o trecho do qual o Gera me falou tantas vezes. Essa era sua segunda vez na montanha e o tal “labirinto” foi o único trecho da subida que ele classificou como “tenso”. O nome vem do fato de serem dezenas de rotas possíveis para atravessar esse trecho de subida cheio de pedras, rochedos, pequenas passagens, arestas e rampas. Não há trilha “oficial”, apenas caminhos que se cruzam e voltam a se encontrar. Cada alpinista vai fazendo o seu caminho, tentando driblar da melhor maneira possível os obstáculos que se apresentam. E todos eles tem a ver com apenas uma coisa: gelo!
O sol nasce e estende a sombra do Pico Orizaba até o horiznte, no México (foto de Geraldo Ozorio)
Após vencermos a primeira passagem mais escorregadia, tivemos de nos render: já era hora de colocar os grampões. Só de botas, o gelo faria picadinho de nós. Agora, com os grampos de ferro sob os pés, fincávamos com força nossas botas no chão, para nos ajudar no equilíbrio. Onde havia neve, era fácil. Mas em alguns pontos era puro gelo, daqueles que brilhavam sob o luar, Um escorregão, uma vacilada, seriam muitos metros para baixo. Acho que foi só nesse ponto que acordamos de vez, a adrenalina acabando com qualquer resquício de sono ou sonho.
Subindo a longa geleira do Pico Orizaba, no México (foto de Geraldo Ozorio)
Enfim, com todo o cuidado, o labirinto ficou para trás. Nada como sentir os pés firmes no chão outra vez! A claridade do dia começava a tomar conta do horizonte do lado leste e nós chegávamos ao início da geleira do Pico Orizaba. Já tínhamos subido 700 metros verticais e faltavam outros 700, todos eles em pleno glaciar.
Subindo a geleira do Pico Orizaba, maior montanha do México (foto de Mexico Extreme)
Aqui, para aumentar a segurança, passamos a seguir encordados, o Piotr na frente, eu no meio e o Gera atrás, menos de dez metros de distância entre cada um de nós. O Piotr ía na frente, ziguezagueando geleira acima, e nós seguindo suas pegadas, piqueta na mão para o caso de alguma queda ou escorregão. Nesse caso, é só ela que vai nos impedir de escorregar centenas de metros para baixo.
Paisagem vista do alto do Pico Orizaba, no México (foto de Geraldo Ozorio)
Como sempre, é esta a hora mais fria do dia. Alguém sabe explicar por quê? A temperatura sempre cai uns graus poucos minutos antes do sol aflorar no horizonte, trazendo aquele calorzinho gostoso. E esses poucos graus costumam doer! Aqui no Orizaba, ao menos nessa época do ano, é ainda mais sofrido, pois o sol nasce bem atrás da montanha. Assim, ele já nasceu para todo mundo, menos para nós, sempre na sombra do vulcão. É bem frustrante ver a luz bater nas montanhas próximas, quase sentir aquele calor mas, na verdade, continuar passando frio. Pelo menos, serve como estímulo para chegarmos logo ao cume, fora de qualquer sombra e, finamente, ver o sol raiar!
A mais de 5.600 metros de altitude, no cume da maior montanha mexicana, o Pico Orizaba
De qualquer maneira, mesmo fora do alcance do sol, podíamos admirar a indescritível beleza da paisagem que ele, longe de nós, iluminava. A esta altura, já estávamos mais altos até que o Popo, a segunda maior montanha do país. O horizonte era vasto, quase tudo aos nossos pés, com exceção do próprio Orizaba a nossa frente. Mas chegaríamos lá! Com paciência, mas chegaríamos...
Ao lado da cratera do Pico Orizaba, no México (foto de Geraldo Ozorio)
A primeira vez que alguém chegou lá foi em 1848. Foram dois soldados americanos, logo após a guerra entre Estados Unidos e México, na época em que os ianques ocupavam militarmente a capital e o importante porto de Vera Cruz. Os soldados obtiveram permissão de seus superiores para explorar as montanhas e vulcões da região central do México e não perderam a chance. Atingiram os 5.636 metros do Orizaba e, sem saber, estabeleceram o recorde de altitude americano para os próximos 50 anos. A montanha mexicana é a terceira maior do continente, atrás apenas do Denali, no Alaska, e do Mount Logan, no Canadá.
Cruz mara o alto do Pico Orizaba, a montanha mais alta do México (foto de Geraldo Ozorio)
Bom, depois dos americanos, veio um francês e, por fim mexicanos. A escalada foi ficando cada vez mais popular e hoje são poucas centenas de pessoas por ano, embora nem todos cheguem lá encima. A parte final da subida desse vulcão dormente (a última erupção foi no século XIX) não é difícil tecnicamente, mas deve se estar em ótimas condições físicas e psicológicas, principalmente pela paciência que se exige de vencer aquela subida que não acaba nunca.
Vista do alto do Pico Orizaba, no México
O Popo e o Izta, vistos do alto do Pico Orizaba, no México
A gente estava bem, apesar do cansaço causado pela altitude e, com a paciência necessária, chegamos ao cume, praticamente oito horas depois de iniciarmos a caminhada. A primeira grande alegria foi sentir o calor do sol e a segunda, a impressionante vista que nos aguardava lá encima. Agora sim, nada mais havia acima de nós e o horizonte parecia infinito. Lá longe, o Popo e o Izta, onde havíamos estado três dias antes. Do outro lado, as águas do Golfo do México e do Oceano Atlântico, que eu já não via desde que deixamos a Costa leste dos Estados Unidos, em Julho passado. Abaixo de nós, um gigantesco escorregador branco, a geleira que desce 700 metros verticais e que havia nos custado mais de 3 horas de caminhada. Por fim, ali também estava a enorme cratera com 300 metros de profundidade, um lembrete bem claro que aquela não é uma montanha comum, mas um vulcão que vem crescendo há 600 mil anos e que, a lógica parece indicar, só está retomando seu fôlego.
Junto com o Piotr, descendo a longa geleira do Pico Orizaba, no México (foto de Geraldo Ozorio)
Ali fizemos uma longa e merecida sessão de fotos, felizes com metade do objetivo alcançado. A outra metade era descer e, principalmente na parte da geleira, todo o cuidado era pouco. Novamente encordados, lá fomos nós, tentando seguir os mesmos passos da vinda, mas cortando caminho aqui e ali, agora o Gera na frente.
Junto com o Piotr, descendo a longa geleira do Pico Orizaba, no México (foto de Geraldo Ozorio)
Com a ajuda e segurança dos grampões e bastões de caminhada, atravessamos a geleira, o labirinto e a trilha até o refúgio. Nossa camionete já nos esperava e duas horas de solavancos mais tarde chegávamos à Tlachichuca, onde reencontramos a Fiona, mais confortável do que nunca. Depois de nos despedirmos do simpaticíssimo Piotr, agora só restava uma hora de asfalto até o meu destino final do dia, a cidade de Puebla. Para o Gera, ainda restava um último trecho, de ônibus, até a Cidade do México.
Depois de subir o Pico orizaba, de volta á Fiona, em Tlachichuca, no México (foto de Mexico Extreme)
Muito antes disso, ainda na saída de Tlachichuca, pudemos admirar o Orizaba uma última vez. Ontem, ele estava escondido pelas nuvens, mas hoje não, estava absolutamente maravilhoso, forma clássica de vulcão contra um céu azul. Chance para uma última foto dessa montanha maravilhosa, o teto do México. Uma despedida à sua altura!
A maior montanha do país, o majestoso Pico Orizaba, no México (foto de Geraldo Ozorio)
Despedida também foi do Gera, já na rodoviária de Puebla. Nem sei como agradecer a ele que, tão gentilmente, me orientou e guiou pelas mais belas montanhas desse país. Gera, a paixão pelo montanhismo foi o que nos aproximou, mas a empatia foi muito além das montanhas. Meu sincero obrigado pela honrosa companhia dos últimos dias! Um capítulo especial nessa nossa jornada pelas Américas! Que venham as próximas escaladas!
Com o Gera, no cume do Pico Orizaba, no México (foto de Mexico Extreme)
Santuário do Caraça - MG visto do Cruzeiro
Quem dorme no Caraça acorda nas alturas. Em sentido literal e figurado. Foi assim que acordamos, eu e a Ana. Depois, fortalecidos pelo café da manhã comunitário, quisemos aproveitar o belo dia que fazia. Conversamos com um guia local e decidimos caminhar até a cachoeira que encantou D. Pedro II há 125 anos, a Cachoeira Cascatão.
Parte de baixo da Cascatona, no Caraça - MG
Uma saudável caminhada de seis quilômetros até a tal cachoeira e ao oratório que fica um pouco mais adiante. Nossa Senhora deve estar feliz naquele local, aproveitando a vista das montanhas e a proximidade das águas! Por falar em aproveitar, foi o que nós fizemos. As águas frias do Caraça não nos assustaram e a gente passou um tempo nadando no poço, escalando a cachoeira e curtindo aquele local maravilhoso. Como bem disse nosso último imperador em visita ao local "a beleza desse local pitoresco é inesquecível!".
Oratório próximo à Cascatona, no Caraça - MG
No caminho de volta, feito às pressas para não perdermos o almoço que se encerraria às 14:00, ainda deu tempo para "escalaminharmos" até o alto do Cruzeiro, de onde temos belíssimas vistas do Santuário do Caraça.
Vitrais no Interior da Igreja do Santuário do Caraça - MG
Santuário do Caraça, este foi o melhor colégio do Brasil ao longo de boa parte do séc. XIX e início do séc XX. Por ele passaram dois futuros presidentes, dezoito governadores e inúmeros deputados e senadores, além de importantes figuras eclesiásticas. Aqui os meninos ficavam em regime de internato, com de rigorosa disciplina, tendo uma educação de inspiração humanista. Transitando entre os quartos, refeitório e igreja, e mesmo nas trilhas, fiquei imaginando como seria a vida cotidiana dessas crianças aqui, entre 190 e 100 anos atrás.
Interior do museu do Santuário do Caraça - MG
Passear pelo museu do Santuário nos ajuda a imaginar como era essa rotina. E nos conta também como foram as visitas de D.Pedro I, em 1831 e de D. Pedro II, pouco mais de 50 anos depois. É possível ler extratos do diário de D. Pedro II relatando seus momentos no Santuário e suas impressões em detalhes, o que torna tudo bem mais real, mais perto de nós. Para mim foi especialmente interessante quando ele comenta sobre a visita de seu pai, 50 anos antes.
Alto do Calvário, no Santuário do Caraça - MG
Nosso velho imperador teve de esperar 50 anos para vir aqui. Um pouco mais do que eu. Em 1980 minha mãe esteve aqui em visita, junto com meu irmão mais novo. Na época, morávamos em BH, a estrada de acesso ao Caraça tinha poucos anos, inaugurada por Aureliano Chaves, e o passeio de ida e volta já podia ser feito no mesmo dia. Eu fui convidado e esnobei o passeio. Só vi as fotos e o relato. Ao longo dos anos, o meu arrependimento de não ter ido só foi aumentando. Hoje, estando aqui, neste lugar maravilhoso, 30 anos depois, acho que a vontade de voltar no tempo e fazer aquele passeio só aumentaram...
Parte de cima da Cascatona, no Caraça - MG
Degustação de rum na destilaria Mount Gay, a mais tradicional de Barbados, na capital Bridgetown
Hoje cedo, ao abrirmos a varanda do quarto, tivemos a bela surpresa do sol radiante. Afinal, a previsão era de chuva novamente. Só se esqueceram de avisar o São Pedro. Bem ali na frente, uma aula de Stand-up Paddle, aquele misto de pranchão e caiaque em que a pessoa rema de pé. A Ana gostou tanto que marcou uma aula para amanhã.
Aula de Stand-up Paddle na praia de Dover, em Barbados
A gente ainda correu para nossa praia vizinha, a Dover, para aproveitar um pouco o céu azul. Mas os meteorologistas não estavam tão errados assim e o tempo fechou de novo. Mas, não importa... tínhamos um programa indoors para o início da tarde!
Dia de sol e mar turquesa na praia de Dover, em Barbados
O mais famoso e antigo rum de Barbados e do mundo, na destilaria Mount Gay, na capital Bridgetown
E que programa! Uma visita à mais famosa e tradicional produtora de rum de Barbados, a Mount Gay, com direito à sessão de degustação ao final. Cada vez mais craque na direção inglesa, atravessamos a capital Bridgetown mais uma vez e chegamos à Mount Gay em tempo para a última visita do dia, às três horas da tarde. Terminava a visita anterior, o barman fazendo um verdadeiro show para os mais de 15 participantes, enquanto eles se deliciavam na bebida. Aliás, quem se deliciava mesmo era o pessoal de um outro tour, mais caro (o “Coquetel Tour”), com direito a muito mais rum. Estes ainda estavam no meio do seu tempo, mas já estavam para lá de Bagdad.
Nossa guia nos leva em tour pela destilaria Mount Gay, a mais tradicional de Barbados, na capital Bridgetown
O nosso tour foi mais tranquilo, sete pessoas apenas. A bela e apressada guia nos contou um pouco da história da destilaria que produz o mais antigo rum do mundo, com marca patenteada desde 1703! Essa mesma bebida que saboreamos hoje já fazia a alegria dos piratas há mais de 300 anos! Isso é que é história!
Arte na destilaria Mount Gay, a mais tradicional de Barbados, na capital Bridgetown
Depois, ela nos mostrou como o rum da Mount Gay é produzido, através da misturas de bebidas produzidas com uma e com dupla destilação. Depois, tudo envelhecido em barris de carvalho vindos lá do Kentucky. Agora que nós já passamos por esse estado americano, fica completamente diferente saber disso, mais pessoal.
Deliciosa degustação de rum na destilaria Mount Gay, a mais tradicional de Barbados, na capital Bridgetown
Finalmente, enquanto escutávamos a cantoria das meninas que ainda participavam do “Coquetel Tour” ali na sala ao lado, chegou a nossa hora da degustação. E eu, que nunca tinha sido fã de rum, passei a ser! Pelo menos desses que nos apresentaram. Uma delícia! Esses piratas tinham bom gosto, hehehe
Deliciosa degustação de rum na destilaria Mount Gay, a mais tradicional de Barbados, na capital Bridgetown
Recebemos até a oferta de nos juntar ao “Coquetel Tour”, que ainda ia longe. Mas, tendo de dirigir para casa, achamos melhor não. Meio com dor no coração, recusamos e seguimos para a Bridgetown, dispostos a parar lá dessa vez e, finalmente, conhecer a capital de Barbados.
Prédio colonial em Bridgetown, a capital de Barbados
Prédio do Parlameno em Bridgetown, a capital de Barbados
Bem espalhada, mas com um centro compacto, Bridgetown concentra mais de um terço da população do país. O centro histórico está ao lado do canal de mar que entra pela cidade, uma verdadeira marina muito bem localizada. Ali ao lado está a praça com as estátuas dos heróis do país, o pomposo prédio do Parlamento, o museu nacional e algumas igrejas.
Caminhando pelo centro de Bridgetown, a capital de Barbados
A bela marina de Bridgetown, a capital de Barbados
Tem também muitas lojas de joias, alguns poucos restaurantes na orla do canal e um passeio para pedestres ao lado do mar e numa charmosa ponte. O melhor de tudo, quase não há extrangeiros, que preferem seus resorts ou navios-cruzeiro e a gente pode observar bem a vida e o ritmo local, num pedaço do país que olha mais para si do que para os turistas que vem de fora.
Movimentado jogo de dominó nas ruas de Bridgetown, a capital de Barbados
Fim de tarde em Carlisle Bay, em Bridgetown, capital de Barbados
Quarenta minutos de explorações e fotos e voltamos para nosso carro, agora rumo a um lugar para comer, pois a fome apertava. Paramos a meio caminho de casa, na mais famosa praia do litoral sul, a Accra Beach. Um restaurante bem legal quase na beira da água logo nos atraiu. Acertamos em cheio na escolha: muito boa comida, bebidas com preço de happy hour e, o melhor, encontramos um simpaticíssimo casal de brasileiros, a Rosa e o Roberto. Cariocas de Niterói, adoram viajar e vieram para cá no voo semanal da Gol. Mas, ao invés de ficarem só uma semana, aproveitaram para dar uma esticada e passaram uma semana também em Santa Lucia. Adoraram a ilha, o que só aumentou nossa vontade de chegar lá (muito em breve!). Enfim, foi um delicioso fim de tarde em boa comida e boa companhia, tudo conversado em bom português, em pleno Caribe! E eles ainda nos deram a dica de um naufrágio em águas bem rasas na Carlisle Bay, aqui pertinho. O Roberto é mergulhador e fotógrafo submarino e nos deu várias dicas de equipamentos. Então, nossa programação de amanhã começa com snorkel!
Encontro com o casal brasileiro Rosa e Rogério, em Carlisle Bay, sul de Bridgtown, capital de Barbados
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