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O movimentado porto de Iquitos, na beira do rio Amazonas, no Peru (foto de Julho de 1990)
Várias vezes durante os 1000dias passamos pela região amazônica. Com a Fiona ou de barco, quase sempre no Brasil, mas também em outros países, já que esse incrível ecossistema se estende por uma vasta região da América do Sul, incluindo países como as Guianas, Venezuela, Colômbia, Equador, Bolívia e Peru. Neste último, passamos pela cidade de Puerto Maldonado quando percorríamos a rodovia interoceânica, a estrada que liga o Acre com Cusco, no Peru. Mas a nossa experiência amazônica peruana foi meio conturbada, já que a Ana adoeceu na cidade e ficamos mais entre hospitais e farmácias do que entre árvores e macacos (veja o post aqui). De qualquer maneira, a cidade-símbolo da Amazônia peruana não é Puerto Maldonado, mas Iquitos, mais ao norte, muito maior e mais isolada. Iquitos é a maior cidade do mundo onde não se pode chegar por estradas. Incrustrada no meio da selva e na orla do maior rio do planeta, com mais de 300 mil habitantes, ali só se chega de avião ou de barco.
O nosso roteiro pela América do Sul em 1990. O trechos entre Bauru e Santa Cruz de La Sierra, na Bolívia, e entre Puno, Cusco e Arequipa, no Peru, foram de trem. Os outros trechos, de ônibus. Para retornar de Lima, avião para Iquitos e barco até Tabatinga, no Amazonas
Talvez por isso, ela nunca esteve no roteiro da Fiona ou dos 1000dias. Mas eu já estive lá uma outra vez, durante meu primeiro mochilão pelo continente, em Julho de 1990. Eu viajava com meu primo Haroldo e o amigo Marcelo e já relatei outras partes dessa mesma viagem aqui no site dos 1000dias, especialmente aqueles trechos interessantes do continente em que eu e a Ana não passamos dessa vez. Foi assim com a nossa passagem pelo Trem da Morte, quando subimos a montanha Chacaltaya, ao lado de La Paz, e quando percorremos a Trilha Inca, a caminho de Machu Picchu. Depois de conhecer as ruínas arqueológicas mais famosas do continente, nós fomos para Arequipa, no sul do Peru e, de lá, para a capital, Lima. Daí seguimos para Huaraz, na belíssima Cordillera Blanca, e Trujillo, no norte. Durante os 1000dias nós estivemos em todos esses lugares e por isso não relato aqui como foi a nossa experiência por eles naquele tempo. Faltava, então, retornar ao Brasil e foi então que passamos por Iquitos, numa travessia que incluiu aviões e barcos, não só para conhecer Iquitos, mas também as maiores cidades da região norte do nosso país.
Em 1990, nós voltamos do Peru para o Brasil de barco pelo rio Amazonas, saindo de Iquitos (onde só se chega voando ou navegando!) para Tabatinga, no Amazonas, fronteira com Leticia, na Colômbia
Já naquele tempo, a viagem a Machu Picchu era uma espécie de batismo de fogo para jovens estudantes brasileiros que pretendiam conhecer o mundo. O roteiro era quase sempre o mesmo, seguindo por terra (trem e ônibus) do Brasil ao Peru, através da Bolívia, e retornando pelo mesmo caminho. Alguns viajantes preferiam (se pudessem!) voar na volta, tanto de La Paz como de Lima, para aqueles poucos que esticavam a viagem até lá. Na época, nós quisemos fugir um pouco desse lugar-comum e inovar. Numa época sem internet, debruçados sobre mapas e guias, idealizamos uma volta alternativa, de barco, pela região amazônica. Bastaria chegar até Iquitos e, de lá, navegando pelo rio Amazonas, chegar até Manaus e Belém. Planos feitos, mãos a obra. Quando passamos por Lima, ainda antes de seguirmos para o norte do país, conseguimos comprar passagens aéreas para Iquitos. Nosso problema, além do dinheiro, era o tempo, pois tínhamos de retornar às aulas universitárias do início do 2º semestre. Uma corrida só! O bom de passagens aéreas, de trem ou de ônibus, é que podemos marcar datas e, quase sempre, confiar nelas. Estávamos para aprender que o mesmo não se pode dizer das viagens de barco, especialmente na região amazônica.
Chegando no aeroporto de Iquitos, no meio da amazônia peruana (foto de Julho de 1990)
Uma deliciosa casa de sucos e saladas de frutas em Iquitos, no Peru (foto de Julho de 1990)
Na data marcada, voamos para Iquitos. Aí conhecemos um outro Peru, completamente diferente daquele pelo qual vínhamos viajando nas últimas semanas. Somem os Andes, entra a floresta amazônica. Desaparece o frio, um calo úmido ocupa seu lugar. A típica fisionomia andina dos indígenas também é substituída pelos traços conhecidos dos índios amazônicos. O único elo é a língua espanhola. Aliás, que estranho que foi para nós, já no aeroporto, nos sentir na Amazônia, mas escutar todo mundo falar espanhol. O cérebro quase entra em parafuso. Iquitos, como eu já disse, é uma grande metrópole, cerca de 300 mil habitantes, e está completamente isolada das outras cidades do país e do planeta, pelo menos por vias terrestres.
O Haroldo observa o movimentado porto de Iquitos, na beira do rio Amazonas, no Peru (foto de Julho de 1990)
Barco lotado chega a Iquitos, na beira do rio Amazonas, no Peru (foto de Julho de 1990)
Naquela época, o turismo do ayahuasca (o famoso chá psicodélico amazônico), que atrai tanta gente a Iquitos nos dias de hoje, ainda não havia se desenvolvido e nosso principal objetivo na cidade era tomar o barco em direção ao Brasil. Mal encontramos uma pousada e corremos ao porto para tentar descobrir horários e comprar passagens. Foi quando descobrimos que, teoricamente, há barcos todo o tempo, mas que na prática, só saem quando estiverem cheios, de carga e de pessoas. Há vários barcos descendo o rio, mas o problema é acertar qual vai sair primeiro. Ficamos sempre com medo de nos comprometer com algum (pagar!) para depois descobrir que outros vão sair antes. Viagens marcadas para hoje podem muito bem esperar uma semana para zarpar. É o ritmo amazônico, mas nós não tínhamos tempo para nos adaptar a ele. O resultado é que íamos constantemente ao porto em busca de informações mais precisas e na torcida (e desespero!) para que zarpássemos o quanto antes. E entre uma visita e outra, fomos relaxando e curtindo o tempo naquela cidade tropical.
Embarcando no barco Iris, em Iquitos, no Peru, rumo a Tabatinga, no Brasil (foto de Julho de 1990)
Foram quase três dias de espera até que nosso barco, o Íris, zarpasse. Nesse tempo, nunca tomei tantos suco e comi salada de frutas na minha vida. Uma delícia! Saúde pura! A cidade e sua praça central, a sempre presente “Plaza de Armas”, parecem bastante o Brasil. Além da língua, claro, a diferença está na quantidade impressionante de moto-táxis nas ruas da cidade. Centenas, milhares! Na verdade, são triciclos, e acho que todo mundo se locomove dessa maneira por ali, inclusive nós. Deve ser mais barato levar esses veículos para lá, todos de barco, já que não há estradas. Sem contar o próprio combustível, já que são muito mais econômicos que carros. Por fim, o próprio calor amazônico, uma constante por ali. No triciclo, estamos sempre com um ar condicionado natural, o vento! Não só os veículos são abertos, mas os restaurantes, sempre com grandes terraços e sob a sombra de árvores. Até as igrejas, onde assistimos a um coral amazônico, são mais amplas, abertas e tropicais.
Navegando na parte peruana do rio Amazonas, de Iquitos, no Peru, a Tabatinga, no Brasil (foto de Julho de 1990)
Mas, por fim, partimos, com dois dias de atraso desde a primeira promessa do capitão. Para nós, acabou saindo mais barato investirmos em uma cabine do que comprar três redes para dormir em um dos dois decks do barco. Para os três, foi a primeira experiência no rio Amazonas, que tanto havia frequentado nossas aulas de geografia durante a adolescência. A emoção de estar lá, vendo-o com os próprios olhos, é até difícil de descrever. O rio é absolutamente enorme, mesmo estando a mais de 1.000 quilômetros da foz. Uma massa de água, imparável, rasgando a floresta ao meio. Uma hora depois de partirmos, a calma de navegar quase sozinhos no meio do rio e da floresta contrastava com o caos reinante no porto de Iquitos. Ali, um movimentado porto amazônico, barcos chegam e saem todo o tempo em docas improvisadas nas encostas do rio. Todo o tempo, centenas de pessoas entram e saem dos barcos, chegam e partem da cidade, rio acima ou rio abaixo. Um verdadeiro formigueiro humano que, depois de algumas visitas ao porto, passamos a compreender. Dentro do caos, uma certa ordem. Mas apenas aos olhos mais treinados.
Navegando por pequenos braços do rio Amazonas, na região de Iquitos, no Peru (foto de Julho de 1990)
Vitórias-régia em pequenos braços do rio Amazonas, na região de Iquitos, no Peru (foto de Julho de 1990)
Agora ali, no meio do rio, a calma é verdadeira. Sempre há botos cinza a nos guiar. O local mais gostoso do barco é o telhado, longe da confusão dos decks e da música alta. Por falar nisso, a cabine é terrivelmente barulhenta, quase em cima do motor. Abafada também, só ficamos ali de noite. A comida servida no barco não é das melhores, mas trouxemos bastante frutas da cidade. O banheiro é quase inusável e o melhor a fazer, se conseguirmos, é segurar. Os passageiros são quase todos peruanos e muitos deles nem sabem o que é ou onde é o Brasil, mesmo estando em um barco que vai descer o rio até a fronteira. “Brasil? Es uma ciudad?”.
Navegando por pequenos braços do rio Amazonas, na região de Iquitos, no Peru (foto de Julho de 1990)
Passageiros fazem força para tentar desatolar nosso barco do leito do rio Amazonas, na região de Iquitos, no Peru (foto de Julho de 1990)
Muitas vezes, o barco sai do curso principal do rio para entrar em algum afluente. Aí, em algum pequeno povoado ou fazenda, entram e saem pessoas, é descarregado ou carregado algo. É quando nos sentimos mais pertos da infinita floresta que nos rodeia. Pequenas canoas transitam para lá e para cá. Casas são flutuantes ou se sustentam sobre palafitas. São verdadeiramente os trechos mais interessantes da viagem, mas foi aí também que tudo mudou. O barco fez uma aproximação errada da orla do rio e simplesmente atolou. Pois é, atolados no rio mais caudaloso do mundo, parecia até piada. Piada também foi quando quase todos os passageiros desceram e tentaram empurrar o barco. Ele, obviamente, nem se mexeu. Para nós, ao menos, foi divertido, nadar no rio Amazonas que ali não tinha nem um metro de profundidade. A diversão acabou e o barco, muito carregado de combustível, continuava atolado. Chegou um rebocador para ajudar e nada. Chegou outro e nada. Estávamos completamente presos no meio do nada, centenas e centenas de quilômetros de florestas para todos os lados.
O sol nasce no rio Amazonas, durante nossa navegação entre Iquitos, no Peru, e Tabatinga, no Brasil (foto de Julho de 1990)
Foi quando um outro barco que seguia para a fronteira passou por ali. Com ajuda de barquinhos, todos os passageiros e suas bagagens foram transferidos. Só que agora, não tínhamos nem cabines e nem redes. A solução foi dormir no piso mesmo, embaixo das dezenas de redes penduradas no convés. Foram “apenas” mais 18 horas de viagem e não tinha outra solução. Melhor do que ficar ali, parados na floresta. Agora, mais do que nunca, com exceção de umas poucas horas de sono durante a noite, ficávamos no telhado do barco admirando a beleza grandiosa ao nosso redor. O nascer-do-sol sobre o rio Amazonas foi absolutamente espetacular e inesquecível, as água do rio pintadas de fogo pela luz da aurora. Que incrível!
O sol nasce no rio Amazonas, durante nossa navegação entre Iquitos, no Peru, e Tabatinga, no Brasil (foto de Julho de 1990)
Por fim, chegamos à Santa Rosa, uma pequena vila peruana construída sobre uma ilha do rio na chamada “fronteira tríplice”. Dou outro lado do rio, Colômbia e Brasil, Leticia e Tabatinga. Na pequena Santa Rosa, fizemos nossos papéis de saída e brincamos bastante com duas simpáticas e espertas meninas que haviam viajado conosco. Ficamos também impressionados com as cores de uma espécie de papagaio que vivia na casa do policial da fronteira. Verde, vermelho e amarelo! Uma ave tricolor ali na tríplice fronteira. Papéis prontos, atravessamos o rio de voadeira e voltamos, enfim, ao Brasil. Tabatinga não é a mais bela das cidades, muito pelo contrário. Mas era o primeiro pedacinho do Brasil em que pisávamos depois de 30 dias de andanças por Bolívia e Peru. Típica cidade de fronteira, uma tensão quase constante no ar. Tráfico de drogas e mercadorias são comuns por ali, mas para quem não está metido nisso, a preocupação maior é o forte calor. Estamos sempre procurando algum ventilador para nos aliviar um pouco.
Um papagaio todo colorido em Santa Rosa, fronteira entre Peru e Brasil, no rio Amazonas (foto de Julho de 1990)
Fazendo amizade com simpáticas crianças peruanas na fronteira entre Peru e Brasil, no rio Amazonas (foto de Julho de 1990)
Tabatinga está grudada em Leticia. Juntas, são quase 100 mil habitantes. Mas Leticia é infinitamente mais turísticas, uma das cidades mais procuradas na Colômbia por visitantes estrangeiros. Todos em busca de uma experiência na exótica Amazônia. Nós, depois de mais de dois dias navegando nas águas do maior rio do mundo e dos três dias esperando em Iquitos, já estávamos satisfeitos com a experiência. O que precisávamos mesmo era sair dali, pois o semestre letivo já começava a 4 mil quilômetros de distância, lá na UNICAMP, interior de São Paulo. Checando preços e alternativas, descobrimos que o barco e o avião custariam mais ou menos a mesma coisa até Manaus. Com a diferença de que uma viagem demoraria três dias e a outra, três horas. Com a pressa que estávamos, não foi difícil escolher. Voamos no dia seguinte, na extinta Varig. O mesmo raciocínio valeu para o trecho entre Manaus e Belém, alguns dias mais tarde. Só que dessa vez, voamos na extinta Vasp. As passagens podiam ser pagas em três vezes sem juros! Nos últimos 20 anos, nós nos esquecemos disso, mas a inflação daquela época era de 10% ao mês! Pagar em três vezes era um senhor desconto! Foi assim que voltamos à nossa Campinas, depois de um belo giro por Bolívia, Peru e Amazônia, um super primeiro mochilão que me fez pegar gosto pela coisa e que, para sempre, me serviria de referência nas muitas viagens que se seguiram nos anos e décadas seguintes. Como se diz por aí: “a primeira vez, a gente nunca esquece!”.
A fronteira tríplice entre Brasil (Tabatinga), Peru (Santa Rosa) e a famosa Leticia (Colômbia), na amazônia. Foi por aí que voltamos ao Brasil na viagem de 1990, vindos de barco de Iquitos, na amazônia peruana
P.S Para quem se interessar, os relatos dessa viagem de 1990 que estão no site dos 1000dias são:
1 - A viagem no Trem da Morte
2 - A subida do Chacaltaya, em La Paz
3 - A Trilha Inca até Machu Picchu
4 - Viajando pelo rio Amazonas do Peru ao Brasil (este post!)
Vestida com seu casaco de pele para enfrentar o frio em São José dos Ausentes - RS
A massa de ar polar chegou ao mesmo tempo em que a umidade se mandou. Com isso, a temperatura despencou, as nuvens sumiram, o céu ficou azul, a paisagem apareceu, mas a neve, ficou só na saudade. E assim promete ser o resto da semana: muito frio e muito sol. O negócio agora é aproveitar a belíssimo visual da região, se divertir com as geadas durante a manhã e esperar mais um pouco para pegar muita neve na Bolívia, Argentina e Chile.
Dia de sol e muito frio na região de São José dos Ausentes - RS
Acordamos já sentindo o ar gelado ao lado do rosto, enquanto o resto do corpo se dobrava sobre os cobertores. A temperatura fora do quarto era de dois graus. Café da manhã ao lado da lareira, caminhada nos gramados ao redor do hotel e trabalho sob os cobertores completaram a nossa manhã e nos deixaram prontos para o almoço no nosso spa de engorda.
Floresta de araucárias em São José dos Ausentes - RS
Depois, as despedidas dos nossos amigos gaúchos, em especial o Seu Domingos, proprietário do hotel que nos acolheu tão bem nesses quase três dias. Resolvemos viajar para Cambará do Sul, cidade base para se visitar os canyons mais famosos do Brasil, na fronteira de rio Grande do Sul e Santa Catarina, no Parque Nacional da Serra Geral. Cambará do Sul também é conhecida pelas baixas temperaturas no inverno e como é atrás de frio que estamos indo, pareceu uma ótima idéia.
Dia de sol e muito frio na região de São José dos Ausentes - RS
A viagem é toda em estrada de terra, cruzando a área campestre do estado, paisagem bucólica e lindíssima. Com o sol baixando no horizonte e a tarde terminando, a temperatura caía na frente dos nossos olhos. De sete graus, já estava em dois quando chegamos em Cambará do Sul. Aqui, a gente se instalou na Pousada Refúgio das Gralhas, da queridíssima Cerli. Ela nos explicou que já era tarde demais para seguir para qualquer um dos canyons da região e que teríamos de esperar pela manhã seguinte.
Seu Domingos, proprietário do hotel Monte Negro, em São José dos Ausentes - RS
Assim, só nos restou acompanhar o frio aumentar e trabalhar um pouco no nosso quarto com aquecedor. Só nos aventuramos para fora para ir atrás de um lanche. Jantar, nem pensar, pois os restaurantes estavam todos fechados, pelo frio e pela falta de clientes potenciais.
Trabalho no quarto quentinho em Cambará do Sul - RS enquanto lá fora faz zero grau!
E assim a noite chegou. E, junto com ela, nossas primeiras temperaturas negativas da viagem dos 1000 dias. Mas, antes de chegar ao negativo, ela passou pelo número mágico do zero grau. E bem nessa hora, lá na praça onde está o termômetro, lá estávamos para registrar a temperatura...
Otermômetro da praça confirma a temperatura marcada pela Fiona em Cambará do Sul - RS
O maravilhoso mergulho noturno com arraias manta, em Kona, na Big Island, no Havaí
Depois do passeio pela região da Green Sand Beach, chegamos à Kona com tempo contadíssimo para nossos compromissos. Um engarrafamento na entrada sul da cidade quase colocou nossa apertada programação a perder, mas no final deu tudo certo. Passamos rapidamente pelo nosso excelente Bed & Breakfast, com uma vista maravilhosa do litoral, deixamos a bagagem por lá e seguimos diretamente para a empresa de mergulho, no lado norte de Kona.
Ainda chegamos a tempo de fazer o check-in para o mergulho com as arraias, mas tivemos a triste notícia de que nosso mergulho com as criaturas abissais seria cancelado. Éramos os únicos clientes e o barco só sai com um mínimo de três mergulhadores. Após muito conversar com instrutores da empresa e sobre os aspectos que tornam esse mergulho tão especial, possibilidade única no mundo, resolvemos “bancar” o terceiro mergulhador. Comovidos com a nossa insistência, o pessoal da Big Island Divers aumentou ainda mais o nosso desconto (iríamos fazer os dois mergulhos com eles) e o tal “terceiro mergulhador” até que saiu barato. Melhor assim: nossos dois mergulhos ficavam dessa maneira garantidos, o segundo deles praticamente particular.
A caminho do nosso mergulho com as arraias manta, em Kona, na Big Island, no Havaí
Pois é, apenas nós dois no segundo mergulho, mas barco lotado para o primeiro. Não só o nosso barco, mas vários outros que se encaminhavam para o mesmo lugar, a baía das arraias mantas. Todos os dias, são dezenas de pessoas mergulhando e fazendo snorkel com esses graciosos animais da família dos tubarões, a maior espécie de arraias que habita os oceanos. Pior, todos caem na água no mesmo horário, um pouco depois de escurecer.
Lindo entardecer no barco a caminho do mergulho com as arraias manta, em Kona, na Big Island, no Havaí
Ao saber de toda essa multidão, fiquei meio decepcionado. Como quase todos os mergulhadores, não gosto de muvuca lá embaixo. Quanto mais gente, mais sujeira e menos peixes. Essa costuma ser a regra. Mas não nesse caso! Bastaram alguns minutos lá embaixo para eu aprender que esse é mesmo um mergulho diferente. Inclusive pelo fato que mais gente por ali só torna o mergulho ainda mais interessante!
A caminho do nosso mergulho com as arraias manta, em Kona, na Big Island, no Havaí
Tudo funciona da seguinte maneira: praticamente 75% das pessoas que vão ali só fazem snorkel. Eles ficam reunidos ao redor de boias apontando suas lanternas para baixo, imóveis. Nós, os mergulhadores, mergulhamos a uma profundidade de cerca de 12 metros, num grande campo de areia. Ali, encontramos alguma pedra, seguramos nela e ficamos imóveis também, lanternas apontadas para cima. Tantas luzes assim, no fundo e na superfície, fazem o mar parecer uma discoteca. Mas o melhor vem em seguida! As luzes das lanternas atraem os minúsculos seres marinhos, o plâncton. Atrás do plâncton vêm as enormes arraias. Batendo suas asas, elas nadam entre nós, em busca do alimento fácil que se reúne sobre nossas lanternas.
Lindo entardecer no barco a caminho do mergulho com as arraias manta, em Kona, na Big Island, no Havaí
E assim passamos meia hora lá embaixo, admirando esses animais maravilhosos. Eles dão verdadeiras rasantes sobre nós e, em seguida, já de ponta cabeça, atacam os plânctons do “andar de cima”, nas luzes das lanternas dos que fazem snorkel. Num verdadeiro balé subaquático, as arraias se alimentam ao mesmo tempo em que se desviam com perfeição de nós e das outras arraias. Um sentido apurado para o campo elétrico emitido por todos os seres vivos as faz desviar de nós com perfeição, ao mesmo tempo que podemos admirá-las bem de perto. Apesar da enorme boca, são absolutamente inofensivas.
Nessa noite, eram sete delas, nadando para lá e para cá. Para nós, que não as conhecíamos, pareciam dezenas, tamanho o alvoroço que faziam. Mas nosso instrutor é especialista em reconhecê-las. Cada uma delas tem suas manchas dorsais características, como se fosse uma impressão digital. São pouco menos de cem arraias na população local e nosso instrutor conhece quase todas elas, inclusive pelo nome. E eu que achei que elas migravam, que nada! Pelo menos essas daqui da Big Island, talvez contentes com a refeição fácil de todas as noites, daqui não saem. E não deixam a notícia correr os oceanos, para evitar a concorrência, hehehe! A gente até que tentou fotografar esse espetáculo, mas fotografia submarina noturna em movimento não é nossa especialidade. Fizemos filmagens também, que ficaram bem melhores, Mas ainda não tivemos tempo de fazer uma edição básica (um dia...). Então, melhor do que mil palavras, coloquei uma filme da internet. Só posso dizer que nossa sessão foi ainda mais legal que essa retratada pelo filme, pois havia mais arraias.
Depois desse inesquecível mergulho, o barco voltou para a marina, onde todos os outros passageiros desceram. Aí, apenas conosco e o instrutor, ele rumou para alto mar, para nosso próximo mergulho. Alto mar, no Havaí, significa apenas 3 milhas. Aì, a profundidade do mar já é abissal, chegando aos três mil metros! Afinal, a ilha em que estamos é apenas a ponta de uma enorme montanha submarina. É por isso que esse tipo de mergulho não pode ser feito no continente, cercado pela plataforma continental, sempre rasa. É preciso estar sobre grandes profundidades, pois é de lá que vem os seres vivos que queremos observar. Todas as noites, na maior migração de matéria orgânica existente no planeta, cem milhões de toneladas de seres vivos nadam das produndezas escuras para perto da superfície, onde se encontram para se alimentar e procriar. Antes do sol nascer, voltam lá para baixo.
Mergulhando com seres luminescentes abissais, em Kona, na Big Island, no Havaí
São esses os seres que queremos ver. Completamente diferentes dos que conhecemos, de dia ou de noite, nos corais. Ou, se comparados com o que vemos em terra, aí sim estamos em outro mundo! Como bem definiu um pesquisador, o mundo extraterrestre mais perto de nós não está em alguma estrela distante, mas bem aqui no nosso quintal, a poucos metros de nós, escondidos sob as águas dos oceanos. Se pensarmos bem, em terra, somos todos parentes próximos. Um crocodilo, um macaco, um sapo ou uma gavião, todos tem cabeça, tronco e quatro patas (ou duas patas e duas asas, no caso dos pássaros). Sinal que que somos muito próximos! Os peixes são um pouco mais diferentes, mas lá está a coluna vertebral que nos une a todos. Mesmo insetos, com suas muitas patas, olhos e boca, cérebro, também nos são familiares. Mas, como definir uma água-viva? Ou qualquer outra daquelas incríveis criaturas que vemos flutuando pelas águas escuras que nos rodeiam?
O estranho mergulho funciona de um modo diferente do que estamos habituados. O barco nos leva para um local de grande profundidade, o que no Havaí é bem perto da costa. Aí, ele desliga os motores e simplesmente segue junto com a corrente, silenciosamente. Os mergulhadores são presos a cordas nas extremidades do barco, um em cada canto. A corda tem um peso, para ficar esticada para baixo. Todos temos nossas lanternas e ficamos variando nossa profundidade entre 10 e 15 metros, sempre ao redor de nossas respectivas cordas. Iluminando para um lado e para o outro, logo achamos esses seres de outro planeta, ou bioluminescentes ou com grande capacidade de refletir luz (no caso, a luz de nossa lanternas). Normalmente, são seres pequenos, com até 15 centímetros. Mas podem se reunir em grandes colônias, chegando a atingir vários metros.
Ficamos ali, por uns quarenta minutos, em meio à escuridão total do oceano, apenas nossas lanternas a iluminar estreitas faixas de água, observando esses exóticos animais que dividem conosco o mesmo planeta. Como se locomovem sem membros? Como enxergam sem olhos? Como tomam decisões sem cérebros? Que mundo estranho! E tão perto de nós! Talvez, 0,1% da população humana já tenha feito algum mergulho e observado peixes em seu habitat. É uma minoria absoluta que passou a saber que o mundo é muito maior que nosso quintal. Pois bem, dentro dessa minoria, talvez outros 0,1% tenham feito esse mergulho noturno com seres abissais. É bom lembrar que a superfície da Terra tem ¾ de sua área coberta pelos Oceanos, a enorme maioria disso em grandes profundidades. Esse planeta em que vivemos não é nosso, é deles! Dos seres abissais. E apenas 0,1% de 0,1% das pessoas já deu uma olhadinha nos verdadeiros terráqueos. É... temos todos muito o que aprender... Por falar em aprender, nossas fotos dos verdadeiros terráqueos ficaram um desastre. Os filmes, nem tanto. Mas, de novo, precisam daquela ediçãozinha básica. Enquanto isso, outro vídeo do YouTube, pelo menos para ajudar a ter uma ideia do que vimos hoje. Sem dúvida nenhuma, o mais estranho mergulho que já fizemos. Inesquecível!
As encostas do Mt. St. Helens, no estado de Washington, oeste dos Estados Unidos
Colombo ainda tentava convencer os reis espanhóis a financiar seu “estranho projeto” de chegar às Índias pelo lado leste quando, em 1480, um vulcão ainda sem nome (pelo menos, para o mundo ocidental), no lado oeste de um continente desconhecido, explode com fúria incomum. Haviam sido 700 anos de descanso e apenas antigas lendas indígenas alertavam sobre o perigo da montanha. Do outro lado do mundo, a rainha Izabel e o navegante genovês perceberam que o pôr-do-sol ficou mais avermelhado e bonito pelos próximos meses, mas aceitaram aquilo como um fenômeno natural, sem necessidade de maiores explicações.
Chegando ao Mt. St. Helens, a estrada cruza as árvores mortas pela erupção de 1980, no estado de Washington, oeste dos Estados Unidos
Trezentos anos mais tarde, a América já está descoberta, colonizada e começa a se libertar do antigo continente. A mais nova nação do mundo, os Estados Unidos, começa a se expandir para o oeste, rumo ao Pacífico. Essa região do continente havia escapado dos impulsos exploratórios e colonizadores dos últimos séculos, mas chegava agora a sua vez. Os americanos disputavam a região com espanhóis, russos e, principalmente, ingleses. Foram esses que enviaram àquela costa ainda desconhecida do mundo o grande explorador George Vancouver. Foi ele o primeiro europeu a reconhecer as grandes montanhas da região (na verdade, vulcões!) e a batizá-las com o sobrenome de amigos seus. Foi assim que o Rainier ganhou o seu nome. E também aquele desconhecido vulcão que explodira em 1480. Vancouver chamou a “mais bela” das montanhas de Saint Helens, ou Santa Helena, em português.
As árvores mortas pela erupção do Santa Helena, em 1980 (estado de Washington, oeste dos Estados Unidos)
Foi um curto intervalo de apenas 10 anos entre a passagem de Vancouver e a chegada ali, por terra, dos grandes exploradores americanos, Lewis e Clark. Eles lideravam uma expedição comissionada pelo presidente iluminista Thomas Jefferson e tinham a missão de mapear todo o oeste americano, para a futura expansão territorial do país. Ingleses e americanos viviam uma corrida para a ocupação do vasto território conhecido como Oregon, onde hoje estão os estados do noroeste dos EUA e sudoeste do Canadá. Ao chegarem aos pés do Saint Helens, Lewis e Clark não tiveram dúvidas em afirmar que aquela era a mais bela e, provavelmente, a mais alta montanha da América. A primeira parte da afirmação era, provavelmente, correta, mas a segunda, pura empolgação diante daquela montanha em forma de cone perfeito, refletida no lindo lago aos seus pés, o Lake Spirit. Com seu cume permanentemente nevado, não demorou muito para que ela fosse apelidada de “o Monte Fuji das Américas”.
O famoso quadro pintado pelo canadense Paul Kane, em 1847, retratando uma erupção noturna do Santa Helena (no estado de Washingtob, nos EUA)
Lewis e Clark não tinham ideia de que, apenas dois anos antes, aquela montanha paradisíaca explodira com força. Não tanto como em 1480, mas ainda forte o suficiente para relembrar aos índios da região o quão violenta ela poderia ser. Pela próxima metade de século, o Saint Helens fumegaria e, vez ou outra, derramaria fogo e lava pelas suas encostas, em pequenas erupções. Agora, o homem branco já habitava a região e um deles, um canadense, fez uma pintura de uma erupção noturna que ganhou notoriedade pela sua beleza e realismo. Poucos anos mais tarde, o vulcão se acalmaria de vez, EUA e Inglaterra assinariam o tratado de dizia ser aquela região um território americano e o pintor retornaria ao seu país, levando consigo a pintura famosa.
A paisagem idílica do Lake Spirit e vulcão Santa Helena, antes da erupção de 1980, no estado de Washington, nos EUA
Gerações foram se passando e a memória sobre uma montanha viva foi se perdendo. Setenta anos depois da última erupção, no final da década de 20, chegava aos pés da montanha o jovem Harry Trumann. Diante daquele cenário idílico e do turismo que começava a aumentar por ali, viu uma oportunidade de negócios: abrir um lodge na beira daquele lago maravilhoso para receber as pessoas que vinham de longe para conhecer a montanha mais bela do continente. De nada adiantou os avisos de um velho senhor que dizia que seu falecido avô sempre o alertara sobre os perigos daquela montanha. Trumann olhou para o cone nevado a sua frente, refletido com perfeição no lago e apenas calma e serenidade emanavam daquela linda paisagem.
Harry Truman poucas semanas antes da grande erupçãao do Santa Helena, em seu lodge aos pés da montanha, no estado de Washington, oeste dos Estados Unidos
Outros cinquenta anos se passaram e Trumann era a figura mais popular da região. Junto com sua esposa, administraram um lodge que, por décadas, recebeu e acomodou dezenas de milhares de pessoas, gerações de americanos que iam ali se esquecer das dificuldades da vida nas cidades e viver a beleza da natureza no seu estado mais puro. Trumann alugava botes para que as pessoas remassem pelas águas plácidas do Lake Spirit, ou cavalos, para passear pelas trilhas ao redor da montanha. Os mais aventureiros podiam até subir ao seu cume, um antigo vulcão, provavelmente adormecido por muitos séculos vindouros.
O vulcão Santa Helena, antes de sua erupção em Maio de 1980, no estado de Washington, nos EUA
Não era o que dizia um relatório assinado por alguns dos mais importantes geólogos americanos, naquele ano de 1978. Ali se dizia que a montanha estava bem viva e que uma grande erupção era muito provável nos próximos 100 anos. Na verdade, poderia ser muito antes disso, talvez até mesmo antes que terminasse o século XX. Não sabiam o quanto estavam certos... Mas o relatório foi recebido com grande ceticismo pela comunidade frequentadora do popular Spirit Lake, entre eles o agora viúvo Harry Trumann. Como aqueles cientistas poderiam saber mais do que ele, que ali viveu os últimos 50 anos, em perfeita harmonia com a mais bela e calma montanha do continente?
O vulcão Santa Helena, depois de sua erupção em Maio de 1980, no estado de Washington, nos EUA
Cinco de Março de 1980. Diversos pequenos tremores são sentidos na região. Podem ter passado desapercebidos para muitas pessoas, mas não aos sismógrafos ali instalados. O que era mais preocupante é que a origem deles estava bem abaixo da montanha. Aparentemente, após 150 anos, o Santa Helena parecia acordar. A notícia se espalha como um pavio entre a comunidade científica. Para lá correm especialistas de todo o país. Novos sismógrafos são instalados. Um dos primeiros a chegar é o jovem vulcanologista David Johnston, um cientista brilhante de apenas 30 anos de idade. De postura bastante proativa, ele logo passa a chefiar a equipe do departamento de geologia americano na área.
O vulcanologista Dave Johnston na véspera da erupção do Santa Helena, em posto de observação em frente à montanha, no estado de Washington, oeste dos Estados Unidos
A quantidade de tremores aumenta e uma pequena coluna de fumaça começa a aparecer no topo da montanha. Os cientistas são unânimes em recomendar evacuação geral, pelo menos para fora de um limite de segurança. O governador do estado resiste, afinal, são muitos interesses econômicos em jogo. A região tem forte apelo turístico, além de ser importante polo de exploração de madeira. Mas os tremores aumentam, a fumaça no topo fica mais espessa e o governador é obrigado a ceder. Quem não cede é o simpático e teimoso Harry Trumann. Ele se recusa terminantemente a ser “evacuado”. “Aqui vivi, aqui está minha esposa, esse é o meu mundo. Daqui não saio, daqui ninguém me tira!”. Ele, que já era a figura mais popular entre os frequentadores da região, agora ganha fama nacional. Figura constante nos noticiários televisivos cobrindo a história que se desenrolava.
O vulcão Santa Helena, no estado de Washington, oeste dos Estados Unidos
Os meses passam e os tremores continuam. Mas, o mais alarmante é um “caroço” que apareceu no lado norte da montanha. Ele cresce a uma razão de um metro e meio por dia. Para termos geológicos, isso é impressionante. Razão mais do que suficiente para manter a ordem de evacuação. Mas a opinião pública esta ansiosa e insatisfeita. De certa maneira, já se acostumaram com os tremores e acham que não vai passar disso. Além disso, milhares de moradores evacuados querem voltar, ou pelo menos ter a chance de recuperar bens em suas propriedades. Isso sem falar das dezenas de milhares de turistas que querem a chance de chegar um pouco mais perto para ver o vulcão de verdade. Aqueles mais ricos fretam pequenos aviões para sobrevoar a montanha. Uma companhia de cervejas chega a pousar um helicóptero no cume para filmar um comercial de TV.
Spirit Lake e a planície formada pela erupção de 1980 do vulcão Santa Helena, no estado de Washington, oeste dos Estados Unidos
Contra a opinião dos cientistas, o governador cede. No dia 17 de Maio, uma grande caravana de antigos moradores entra na zona de exclusão. Por algumas horas, elas podem ir até suas casas recuperar o que pudessem. Voltam desalentados. A cinza acumulada nos telhados está quase derrubando as casas. O que era verde, nos jardins e terrenos, está tudo cinza. Enfim, até eles começam a acreditar que algo vai mal. Enquanto isso, Harry Trumann recebe milhares de cartas de crianças de todo o país, pedindo que saia de lá. Mas continua irredutível. Ele e seus dezessete gatos ficariam no lodge que construiu com sua esposa.
As árvores mortas na erupção de 1980 formam um tapete macabro no Spirit lake, aos pés da montanha, no estado de Washington, oeste dos Estados Unidos
Os cientistas, meio irritados com a liberação para a entrada da caravana, continuam seu trabalho. Johnston é levado até o alto da montanha onde arrisca sua vida para coletar gases expelidos pelo vulcão. Ele é de uma geração de cientistas que acha que seu trabalho deve ser no campo, às vezes se arriscando, com o objetivo maior de salvar vidas dos civis. Ele sabe que hoje terá uma dupla jornada. Além da arriscada coleta dos gases, terá que substituir um aluno seu, Harry Glicken, no posto de observação montado em Coldwater, dez quilômetros ao norte do vulcão. Glicken permaneceu por lá por duas semanas e agora precisaria se ausentar por um período. Seu substituto imediato tinha um compromisso inadiável para esse domingo e pediu que Johnston o substituísse. O energético vulcanologista aceitou de bom grado. No final da tarde do dia 17, um colega de trabalho se despede dele, risonho, em seu trailer em Coldwater. Tira uma fotografia daquele momento e parte, deixando Johnston sozinho no posto de observação.
Uma névoa entre as árvores mortas torna o cenário ainda mais mágico, no caminho para o Mt. St. Helens, no estado de Washington, oeste dos Estados Unidos
O domingo amanhece esplendoroso. Uma nova caravana se forma numa pequena cidade ao norte do Santa Helena. Se não houver uma surpresa, às 10 da manhã mais algumas centenas de pessoas serão liberadas para entrar na zona de exclusão e recuperar seus pertences. Em Coldwater, Johnston já está de pé e reporta suas primeiras observações do dia ao escritório central, na cidade de Vancouver (não no Canadá, mas na fronteira entre Washington e Oregon!). Tudo estava bem e, melhor ainda, o tal gigantesco caroço que crescia na montanha parecia estar diminuindo seu ritmo de crescimento.
Algumas das fotos tiradas por Gary Rosenquist da erupção do Santa Helena, em 1980 (estado de Washington, oeste dos Estados Unidos)
São 8:32. No lado sul da montanha, uma equipe de park rangers sente um forte tremor. Com o rádio na mão e olhando para a coluna de fumaça no alto da montanha, o líder exclama: “This is a big one! We are evacuating, NOW!”. Eles estavam do lado certo da montanha. No lado leste do Santa Helena, a 30 milhas de distância, no cume do Mount Adams, dois alpinistas que escalaram a tempo de ver o nascer-do-sol assistem, estatelados, ao Santa Helena se desfazer numa grande nuvem de fumaça. Eles estavam na distância certa da montanha.
Alpinista assiste, estatelado e incrédulo, a erupção do vulcão Santa Hehena, no estado de Washington, nos EUA
Na mesma direção, mas muito mais perto do vulcão, quase no limite da zona de exclusão, estavam Gary Rosenquist e dois amigos. Tinham chegado até ali de carro e acampado pela noite. Pela manhã, esperavam ver o Santa Helena e a pequena coluna de fumaça que saía dele. Num dia de sol como aquele domingo, certamente teriam boas fotos. Rosenquist aponta a máquina e tira uma foto. Algo parece estranho, a imagem treme um pouco, parece sem foco. Ele olha para baixo e tentar mudar as regulagens. É quando ouve o grito do amigo. Olha para frente e começa a fotografar aquilo que vê, mas que não acreditar estar vendo. Um desabamento de proporções colossais. Metade da montanha parece deslizar sobre si mesma. Em seguida, uma gigantesca explosão por detrás do desabamento e uma espessa coluna de fumaça avança rapidamente para o norte. Em menos de quarenta segundos, ele tira vinte fotografias. Até perceberem que estavam, eles mesmos, em perigo. Correm para o carro a fogem em disparada. Não demora muito e o céu fica negro. Pedras começam a cair no capô e, em seguida, cinzas cobrem o parabrisas. Com muito cuidado, chegam à cidade mais próxima. Suas fotos, reveladas no dia seguinte, ajudarão os cientistas a entender melhor a tragédia.
Sequência de fotos da erupção do vulcão Santa Hehena, em Maio de 1980, no estado de Washington, nos EUA
E no lado norte da montanha? Ali, Johnston, a dez quilômetros da montanha, pode ver com os próprios olhos o gigantesco caroço desabar e iniciar um desabamento ainda maior, levando toda a face norte do Santa Helena. A caldeira de lavas, logo abaixo, entra em contato com o mundo exterior e explode instantaneamente. O processo é o mesmo de uma garrafa de champagne ou coca-cola. Quando tiramos a tampa, a diferença de pressão tira do equilíbrio os gases que estavam dissolvidos no líquido e eles se expandem rapidamente, de forma explosiva. A mais de 300 km/h, rochas e gases incandescentes chegam ao Spirit Lake. Harry Trumann e seus dezessete gatos morrem incinerados, antes de serem soterrados por milhões de toneladas de material. Hoje, jazem sob uma camada de 100 metros de terra, abaixo de outros 40 metros de água do Spirit Lake, que mudou de configuração após a erupção. O lago, assim que foi atingido pelo colossal desabamento, formou uma onda com 150 metros de altura que varreu todas as encostas ao seu redor, destruindo as florestas que já haviam sido atingidas pelos gases ferventes. Quando a água retornou ao lago, trouxe consigo dezenas de milhares de troncos que até hoje continuam por lá, testemunhas da tragédia de três décadas atrás.
Placa mostra como o vulcão Santa Helena perdeu mais de 400 metros de altura na grande erupção de 1980, no estado de Washington, oeste dos Estados Unidos
Tudo isso assistiu Johnston, nos poucos segundos mais fascinantes de sua vida. Sua mente treinada e científica observava os rápidos acontecimentos tentando entender tudo o que via. Após o susto inicial, correu para o rádio para dizer suas últimas célebres palavras: “Vancouver! Vancouver! This is it!” Já não tinha dúvidas que sua morte era iminente. Os dez quilômetros que o separavam da montanha foram cobertos pelas nuvens destruidoras em menos de dois minutos. Elas não tiveram nenhuma dificuldade em vencer o lago, os vales e a densa floresta de pinheiros para chegar em Coldwater.
A floresta de árvores mortas, chegando ao Mt. St. Helens, no estado de Washington, oeste dos Estados Unidos
Duas milhas adiante, no limite da zona de exclusão, o fotógrafo Reid Blackburn, da National Geographic, tirou as melhores fotos de sua vida. Profundo conhecedor daquela montanha que já havia subido várias vezes, ele havia se voluntariado para cobrir aquela história. Com terror, ele observou as nuvens assassinas engolfarem Coldwater. Correu para o seu carro e observou que a nuvem já quase o alcançava. Era inútil tentar ligar o veículo. Ele certificou-se que as janelas estavam bem fechadas. Ganhou com isso mais uns poucos segundos de vida. Tudo ficou escuro. Os vidros se estilhaçaram. Ele, sua máquina e suas fotos se perderam para sempre.
As árvores mortas na erupção de 1980 formam um tapete macabro no Spirit lake, aos pés da montanha, no estado de Washington, oeste dos Estados Unidos
Quem viu isso tudo foi o operador de rádio-amador Gerry Martin. Trabalhando como voluntário para o Serviço Nacional de Emergências, ele tinha seu posto cerca de 3 milhas ao norte de Coldwater. Conforme a tragédia foi se desenrolando em frente à seus olhos atentos, ele foi descrevendo o que via pelo rádio. Era esse o seu trabalho. Suas últimas palavras: “Gentleman, the camper and the car sitting over to the South of me is covered. It´s gonna get me too. I can´t get out of here”.
Por essas encostas, uma onda de 150 metros avançou, destruindo todas as árvores que aí existiam (estado de Washington, oeste dos Estados Unidos)
Prontamente, as equipes de socorro começam a trabalhar. Graças ao trabalho dos cientistas liderados por Johnston, poucas pessoas se encontravam perto da montanha. Pouco mais de cinquenta morrem. Poderiam ter sido milhares. Os pilotos de helicóptero que vinham voando sobre a região há semanas se impressionam com o tamanho da destruição. Eles simplesmente não reconhecem mais a paisagem abaixo. A montanha estava quatrocentos metros mais baixa. Spirit Lake tinha mudado de lugar, seu azul profundo substituído por um marrom acinzentado com cheiro de morte. Florestas desapareceram. Assim como vales e colinas. No seu lugar, uma paisagem lunar, sem vida. Seus pontos de referência simplesmente não mais existiam. A bordo dos helicópteros, o estudante Harry Glicken, aquele que havia ocupado Coldwater por duas semanas e saído na véspera, tomado de injusto sentimento de culpa, procurava desesperadamente seu antigo mestre. Johnston foi o primeiro dos dois únicos vulcanologistas americanos a morrer no cumprimento da profissão. O segundo, por ironia macabra do destino, seria exatamente o próprio Glicken, numa erupção vulcânica no Japão, onze anos mais tarde.
Floresta de milhares de árvores derrubada pela erupção do vulcão Santa Helena, no estado de Washington, nos EUA
Alheio a todos esses dramas pessoais, a quinze mil quilômetros de distância, um jovem garoto assistia ao noticiário pela TV, em Belo Horizonte, no Brasil. Com pouco mais de 10 anos de idade, o menino começava a se interessar pelos acontecimentos mundiais. A história do vulcão antes da erupção tinha perdido espaço no noticiário para a morte do Marechal Tito, na Iugoslávia e, principalmente, para a invasão da embaixada americana em Teerã, por estudantes radicais. Mas hoje, dia da erupção, foi o Santa Helena a principal notícia e assunto do Jornal Nacional, com suas grossas e espessas colunas de fumaça atingindo mais de vinte quilômetros de altura. As imagens de florestas inteiras derrubadas e rios carregando árvores e casas destruindo pontes pelo seu caminho também eram impressionantes. No dia seguinte, na escola, ele não teve dúvidas em dar um novo apelido ao menino mais forte da sala, dono de um incrível petardo de direita na hora de bater o tiro de meta, no futebol do recreio. O nome dele era Marcelo Vulcano. O novo apelido: Santa Helena. Felizmente, ele gostou da nova alcunha, senão “alguém” certamente teria sofrido as consequências por tal impertinência...
Mais de 30 anos depois, as árvores mortas pela erupção do Santa Helena continuam de pé (estado de Washington, oeste dos Estados Unidos)!
Trinta e dois anos mais tarde, chegou a hora daquele jovem garoto conhecer a área do vulcão que tinha visto pela TV, tanto tempo atrás e pelo qual arriscou levar um corretivo. Essa emocionante visita é assunto do próximo post...
Admirando o vulcão Santa Helena, no estado de Washington, oeste dos Estados Unidos
Rio Peruaçu, no interior da Caverna Janelão, no Parque Nacional Cavernas do Peruaçu, próximo à Januária - MG
Difícil encontrar palavras para descrever o lugar que estivemos visitando hoje. O Parque Nacional Cavernas do Peruaçu e, mais especificamente, a Caverna do Janelão, é um lugar sensacional, espetacular, épico, grandioso, hollywwoodiano e sei lá mais o quê...
Observando o interior da Caverna Janelão, no Parque Nacional Cavernas do Peruaçu, próximo à Januária - MG
O que mais impressiona é a escala da caverna. Com quatro quilômetros de comprimento, quase a metade disso está na parte clara, onde entra a luz do sol, através de gigantescas clarabóias, fruto de desabamentos titânicos. As galerias são extremamente amplas, verdadeiras avenidas, onde é fáci caminhar, sempre próximo ao pequeno rio Peruaçu, que atravessa a caverna de ponta à ponta.
Atravessando a Caverna Janelão, no Parque Nacional Cavernas do Peruaçu, próximo à Januária - MG
Nós só estivemos na parte clara da caverna, mas a parte escura também tem grandes proporções. Para quem está acostumado com cavernas sabe que, quando não se tem iluminação, uma caverna muito ampla não pode ser realmente admirada. As fracas luzes de nossas lanternas não conseguiriam nos dar a real idéia dos salões. Mas, como a luz do sol entra pelas clarabóias, podemos ver e sentir exatamente a grandiosidade da paisagem, paredes de até 100 metros de altura, formações de mais de 20 metros, inclusive o maior estalagtite do mundo, com 25 metros de comprimento.
Atravessando a Caverna Janelão, no Parque Nacional Cavernas do Peruaçu, próximo à Januária - MG
Eu já tinha estado em outras cavernas com grandes bocas. Mas, o que chama a atenção nesta é que há uma sequência delas, três ou quatro grandes portões, salões absolutamente gigantescos, clarabóias que fazem as aberturas de outras cavernas parecerem buracos de goteira. Com tanta luz do sol entrando, uma rica vegetação floresceu dentro da caverna, tornando-a uma espécie de caverna verde, o que também a distingue das outras.
Interior da Caverna Janelão, no Parque Nacional Cavernas do Peruaçu, próximo à Januária - MG
Acompanhados do nosso guia Rosivaldo e do brigadista anti-incêndio designado pelo parque para nos acompanhar, o Reinaldo, nós percorremos os 1,5 km de "caverna clara", ida e volta. Ao final, o queixo já doía de tanta admiração pela mãe-natureza. Um verdadeiro patrimônio brasileiro e mundial encravado em pleno sertão mineiro.
Interior da Caverna Janelão, no Parque Nacional Cavernas do Peruaçu, próximo à Januária - MG
Mesmo sabendo que esta é a mais famosa das cavernas do parque, é incrível pensar que são mais de 100 cavernas catalogadas numa área tão pequena. O parque está se preparando para receber turistas, com infraestrutura e segurança. A aproximação da Copa do Mundo e do turismo que ela vai trazer serve como uma espécie de ponto de referência para que esteja tudo pronto e que mais e mais pessoas possam aproveitar e admirar este lugar incrível. A preocupação com a segurança não só das pessoas mas principalmente do patrimônio natural, aliado àquela conhecida "eficiência burocrática estatal" tem atrasado o cronograma de abertura do parque mas a Copa irá mudar isso. Na pior das hipóteses, pelo menos essas benesses ela vai nos trazer.
Interior da Caverna Janelão, no Parque Nacional Cavernas do Peruaçu, próximo à Januária - MG
Perdoem-me se pareço repetitivo, mas faço mais uma homenagem: Viva as Cavernas do Peruaçu!
Interior da Caverna Janelão, no Parque Nacional Cavernas do Peruaçu, próximo à Januária - MG
Interior da Caverna Janelão, no Parque Nacional Cavernas do Peruaçu, próximo à Januária - MG
Estrada sendo construída, entre Serro e Milho Verde - MG
Nossa manhã foi de trabalho em Milho Verde. Muito texto, fotos e briga com a internet. O plano inicial de partir logo cedo acabou mudando para depois do almoço, na própria Pousada do Moraes, a mais tradicional da cidade. Partimos sem visitar nenhuma das muitas cachoeiras da cidade. Foi de cortar o coração, ver as fotos e placas indicativas, algumas a poucos minutos de caminhada. É fogo! Cada buraco desse estado merece alguns dias de exploração. Estamos quase querendo lançar o "10mildias.com" ou então o "1000dias por toda as Minas Gerais".
Falando em buraco, isso foi o que não faltou hoje, na estrada. Quase 20 km até Serro, mais outros 60 km até Conceição do Mato Dentro e outros 20 km até o distrito do Tabuleiro, já na beira da Serra do Cipó e da mais alta cachoeira de Minas Gerais. Todas as estradas de terra, mas por parte delas em via de serem asfaltadas.
Muita gente trabalhando, quebrando pedras, rasgando morros, aplainando estradas. É a natureza sendo domada aos nossos olhos. Em alguns pontos, ela parece estar sendo violentada. Largas estradas passando por onde apenas trilhas serpenteavam entre as rochas. A cena de um trabalhador destruindo as pedras com uma britadeira chocou meus olhos. Pedras que ali estavam a milhões de anos, sendo erodidades pela água e vento numa escala geológica sendo obliteradas em minutos pela máquina. Foi triste de ver.
Ao mesmo tempo, quando vemos a alegria das pessoas do asfalto estar chegando perto de casa, ficamos com o coração dividido. Não é fácil ter de levar o filho doente nas costas através de trilhas e carrapatos ou enfrentar horas de estrada de terra poeirenta todos os dias para se ir à escola. O progresso urge e o passado fica para trás, como não poderia deixar de ser...
Igreja em Serro - MG
Em breve o asfalto vai ligar Conceição até Serro, e Serro até Diamantina. Quero só ver o que vai acontecer com Milho Verde e São Gonçalo do Rio das Pedras com a chegada do asfalto... As mudanças vão se acelerar, com certeza. As décadas de 70 e 80, ainda próximas hoje, vão ser coisa do século passado. E quem passar daqui a um ano ou dois não vai precisar de uma Fiona para transitar com conforto e nem encher seu carro com camadas e camadas e camadas de poeira.
Igreja em Serro - MG
Bem, nós viemos com toda a paciência, enfrentando os buracos e observando as máquinas aplainarem as montanhas de Minas. Passamos pela simpáticas Serro e Conceição, cidades históricas cheias de belas igrejas e viemos até o distrito de Tabuleiro, nos hospedar em um Hostel, bem perto do parque estadual que abriga a mais nalta cachoeira de Minas, com mais de 250 metros de altura. Depois do descanço de três dias, já estamos com saudade de nos banhar em cachoeiras. E vamos matar essa saudade com estilo!
Ana com os Gustavos, no Hostel de Tabuleiro - MG
No hostel, de noite, tomando um vinhozinho para ajudar a enfrentar o frio e comendo um queijinho que trouxemos de Serro, considerado o melhor de Minas Gerais, conhecemos dois Gustavos. Um é o dono do hostel. O outro trabalha na ONG da Estrada Real. Juntos, nos deram uma aula sobre a Serra do Cipó e seus atrativos. Durante a conversa, planejamos um roteiro puxadíssimo para os próximos dias, uma verdadeira maratona para conhecer o "máximo do mínimo" da região. Vamos ver o quanto dá certo...
Roteiro do barco em Galápagos
Basicamente, existe três tipos de viagens à Galápagos. Para quem quer priorizar os mergulhos, há os live-aboards, roteiros de uma semana que nos levam aos melhores pontos de mergulho do arquipélago, com algumas rápidas excursões terrestres pelas ilhas. Para quem quer priorizar as ilhas, tours de uma semana, também em barco, levam aos pontos turísticos terrestres espalhados pelas diversas ilhas. No caminho, algumas oportunidades para snorkel. E há aqueles que ficam baseados em terra mesmo, fazendo tours diários para ilhas próximas ou mesmo mudando-se de uma ilha para outra, quando isso é possível. A grande desvantagem dessa última alternativa é que o alcance dos tours diários é muito pequeno e muitos dos lugares mais interessantes estão bem mais distantes.
Puerto Baquerizo Moreno, na Ilha de San Cristóbal, em Galápagos
Antigamente, era possível fazer uma mescla das duas primeiras alternativas, vários dias mergulhando e vários dias visitando ilhas. Mas a administração do parque não permite mais isso (???), então temos é de escolher mesmo, terra ou água. Para quem gosta de mergulhar, os melhores pontos estão nas distantes ilhas de Wolf e de Darwin, por onde passam os tubarões-baleia. A única maneira de chegar lá é nos live-aboard, o que, então, não nos deixa muitas alternativas. Os snorkels e mergulhos que são possíveis de fazer durante os tours terrestres não passam nem perto disso.
Prontos para o primeiro mergulho em Galápagos, perto do porto em San Cristóbal
Enfim, optamos pelo live-aboard. E para conhecer um pouco mais da parte terrestre, resolvemos ficar mais dois dias no arquipélago, depois que terminasse nossa semana no barco. Com esse plano, conseguimos ver o que há de melhor em mergulho em Galápagos e também várias das atrações terrestres, embora nesse quesito faltou ainda muito por ver.
Um preguiçoso leão-marinho nos dá as boas vindas à Galápagos, na Ilha de San Cristóbal
Começamos na Ilha de San Cristóbal, a chamada capital de Galápagos. É a ilha que fica mais perto do continente e onde está um dos dois aeroportos do arquipélago. No dia seguinte, já estávamos em Santa Cruz, a mais populada e explorada das ilhas, com várias atrações em terra. Aí, na única excursão em terra da semana, fomos conhecer as tartarugas gigantes que vivem na natureza, os enormes túneis cavados pela lava quando a ilha ainda se encontrava sobre o hot spot e também antigas caldeiras gigantes de lava, ao lado do vulcão extinto que domina a paisagem de Santa Cruz.
O mapa da Ilha de Santa Cruz, em Galápagos
Visitando os incríveis túneis de lava na Ilha de Santa Cruz, em Galápagos
Rumamos então para a desabitada Ilha de Santiago, para mergulhar com arraias e leões-marinho. De lá, numa navegação de mais de 24 horas, para as ilhotas de Wolf e Darwin, pontos altos do live aboard. As duas pequenas ilhas situam-se muito mais ao norte que as outras ilhas, são grandes rochedos que se erguem sobre o mar e tem uma formação distinta. Ao invés de vulcânicas, são o fruto da fricção entre duas placas tectônicas, a de Nazca e a de Cocos, o que fez com que elas se "levantassem sobre o mar. As ilhas são habitadas por milhares de pássaros, mas o desembarque não é permitido. Apenas barcos de mergulho chegam por ali, todos ávidos para ver leões-marinhos, tartarugas, cardumes de tubarão-martelo e tubarão de Galápagos e, o maior de todos, o pacífico e gigantesco tubarão-baleia.
Fim de tarde na selvagem Isla Wolf, em Galápagos
Quase três dias depois, voltamos para o sul, em direção a Ilha Isabel, a maior do arquipélago e com uma pequena população humana. Mas nosso interesse está embaixo d'água! Enfrentamos uma água gelada para ter a melhor visibilidade do arquipélago e poder observar polvos, arraias-manta e o exótico peixe-lua. Além dos pássaros, iguanas e pinguins.
Tubarões-martelo atravessam cardume de peixes em mergulho na Isla Darwin, em Galápagos
Ali do lado está a ilha de Fenandina, a mais nova de Galápagos e, dizem, a mais pristina, sem espécies introduzidas pelo homem. A ilha continua crescendo, para o alto e para os lados. A última erupção foi há 4 anos, e muitas mais virão, já que o hot spot é logo embaixo dela. Infelizmente, só pudemos vê-la de longe, mas as paisagens vulcânicas e a sensação de que a Terra está viva são mais fortes do que nunca. Para visitá-la, apenas nos tours de uma semana que visitam as ilhas.
Pôr-do-sol em Wolf, em Galápagos
O fantástico peixe-lua em mergulho na Isla Isabel, em Galápagos
De Isabel voltamos para Santiago, passando ao lado de pequena San Bartolomeu, uma pequena ilha vulcânica que possui uma das mais belas paisagens de Galápagos. Tão linda que resolvemos voltar num day-tour, assim que terminamos nossa excursão de mergulho. Nesta mesma noite, desembarcamos em Santa Cruz novamente e fomos nos instalar na maior cidade da ilha e de Galápagos, Puerto Ayora.
Barcos trazem turistás à Ilha de San Bartolomeu (próxima a Isla de Santiago), em Galápagos
No dia seguinte, voltamos para San Bartolomeu. O céu azul desse dia fez tudo ficar ainda mais lindo. Na nossa semana no barco, o tempo esteve quase sempre nublado, mas São pedro resolveu colaborar nesses últimos dias. No dia seguinte, ainda em Puerto Ayora, fomos caminhando para a maravilhosa praia de Tortuga Bay, boa para o surf e também para observar um dos símbolos de Galápagos, as iguanas marinhas.
Iguanas na Playa Mansa de Tortuga Bay, na Ilha de Santa Cruz, em Galápagos
Admirando a incrível Playa Brava em Tortuga Bay, na Ilha de Santa Cruz, em Galápagos
Finalmente, dia de partir, atravessamos Santa Cruz e cruzamos o canal para a pequena ilha de Baltra, onde está o outro aeroporto de Galápagos. Essa ilha foi cedida para os americanos na segunda guerra, que aí fizeram uma base para proteger o Canal do Panamá. As instalações foram cedidas ao governo equatoriano após a guerra e se transformaram na principal porta de entrada do arquipélago. Mas ninguém fica por aqui não. Quando chegam, ou vão diretamente para seus barcos ou para a vizinha Santa Cruz. Também, não haveria muito para ver, fora as ruínas de antigas instalações. A vida selvagem deixou a ilha há 70 anos, incomodada com o movimento da antiga base.
Embarque no aeroporto de Baltra, em Galápagos, de volta ao continente
Um pinguim chinstrap em Cape Lookout, em Elephant Island, na Antártida
O animal símbolo das regiões polares do sul do planeta é, sem dúvida nenhuma, o pinguim. Na verdade, o nome “pinguim” não se refere apenas a uma espécie de ave, mas a toda uma família cujo nome científico é “Spheniscidae”. Essa família de nome tão pomposo se subdivide em seis gêneros e mais de vinte espécies, todas elas de pinguins. É só estamos falando das espécies que ainda vivem nos dias de hoje. Se considerarmos as espécies e gêneros já extintos, aí esses números aumentam muito.
Pinguins gentoo em Cape Lookout, em Elephant Island, na Antártida
Um encontro entre um pinguim gentoo e um chinstrap, em Elephant Island, na Antártida (foto de Steve Denver)
Pois bem, até agora, nas nossas andanças pelas Malvinas e Geórgia do Sul, já tínhamos visto quatro espécies de pinguins: os pinguins-de-magalhães e os rockhoppers, ainda nas Falkland, e os pinguins rei e gentoo, principalmente na Geórgia do Sul. Vimos centenas de milhares deles, principalmente da espécie rei (King, em inglês), bem vistosos com suas manchas amarelas no peito e no rosto. Certamente, estão entre os mais belos de toda a família, mas depois de visitar duas mega-colônias com mais de 100 mil casais em cada uma delas, já estávamos meio enjoados, querendo conhecer outros membros da simpática família.
Um pinguim de barbicha (chinstrap penguin) em Elephant Island, na Antártida
Pinguins de barbicha (chinstrap penguins) caminham nas rochas de Cape Lookout, em Elephant Island, na Antártida
Pois bem, esse momento chegou, agora que estamos bem mais perto da Antártida. Por aqui o clima é frio demais até mesmo para esses tipos de pinguim e a natureza tratou de “criar” outras espécies para ocupar um ecossistema com condições mais severas. Em Elephant Island, espremida entre geleiras, montanhas nevadas e icebergs, até chegamos a ver alguns poucos pinguins gentoo, mas a grande maioria deles era mesmo de duas outras espécies, ainda desconhecidas para nós: os pinguins chinstrap (“pinguim-de-barbicha”, em português) e os pinguins macaroni (que em italiano quer dizer macarrão!).
Centenas de chinstrap penguins (pinguins-de-barbicha) na costa gelada de Point Wild, em Elephant Island, na Antártida
Centenas e centenas de pinguins sobre as encostas mais baixas de Point Wild, em Elephant island, na Antártida
Os mais comuns por aqui são mesmo os pinguins-de-barbicha. E não é para menos! Na verdade, essa é uma das espécies mais numerosas em todo o mundo e cientistas calculam sua população em mais de 15 milhões de indivíduos. O nome vem de uma estreita faixa (“strap”, em inglês) preta que esse pinguim tem sob o queixo (“chin”, em inglês) que lembra uma barbicha.
Centenas de pinguins chinstrap se aglomeram em Point Wild, em Elephant Island, na Antártida
pinguins da espécie chinstrap são os mais comuns em Cape Lookout, em Elephant Island, na Antártida
Eles são consideravelmente menores que seus primos gentoo e king, medindo menos de 70 cm e pesando cerca de 6 quilos. Nem por isso são menos valentes, sendo considerados, na verdade, os mais agressivos entre os pinguins. Uma espécie de “baixinho invocado”. Talvez porque aqui tem de enfrentar um dos mais temíveis predadores, a foca leopardo. Não que essa valentia valha alguma coisa contra um predador tão formidável. Além delas, os chinstraps também têm de estar atentos às orcas e lobos marinhos. Em terra, adultos, não têm de se preocupar, embora ovos e crianças sejam alvo de aves de rapina como as skuas.
Pinguins de barbicha (chinstrap penguins) caminham nas rochas de Cape Lookout, em Elephant Island, na Antártida
pinguins da espécie chinstrap são os mais comuns em Cape Lookout, em Elephant Island, na Antártida
Esses pequenos pinguins chegam a nadar 80 km por dia para buscar alimento, principalmente o krill e pequenos peixes. Adoram se congregar em grandes icebergs, mas na época da reprodução, precisam mesmo de terra firme, onde montam seus pequenos ninhos. Uma característica da espécie é colocar dois ovos por temporada, com uma boa chance que ambos choquem e virem filhotes saudáveis. Pais e mães se revezam para chocar o ovo, alimentar e proteger o filhote, pelo menos até o ponto quando ele possa começar a frequentar as chamadas “creches”.
Chinstrap penguin (pinguim de barbicha) em Elephant Island, na Antártida
Pinguins escalam uma encosta inclinada de gelo em Elephant Island, na Antártida (foto de France Dionne)
São pouco mais de 35 dias para chocar os ovos e depois, outros 30 para que o filhote seja grande o suficiente para seguir para as creches. Depois disso, passará mais um mês para que o filhote troque suas penas e seja capaz de enfrentar o frio das águas polares. Só então ele será capaz de procurar seu próprio alimento, terminando então a responsabilidade dos pais. Ao longo de seus 20 anos de vida em média, os pinguins terão bastante tempo para se reproduzir, fugir dos predadores e curtir ao máximo a paisagem grandiosa que os cerca. Aliás, vimos alguns deles olhando para o infinito em aparente estado de veneração!
Um pinguim solitário parece observara beleza gelada que o rodeia em Point Wild, em Elephant Island, na Antártida
Um pinguim solitário observa o mar agitado ao redor de Cape Lookout, em Elephant Island, na Antártida
A outra espécie tem esse nome engraçado, “macaroni”. Como todos sabem, macaroni é o prato típico da Itália. Nos séculos XVIII e XIX, “macaroni” também virou uma gíria na Inglaterra. Era usada para descrever pessoas que se vestiam de maneira espalhafatosa. Para os ingleses, esse era um comportamento típico dos italianos, vestir-se com roupas bem coloridas e que chamassem a atenção. E italianos, para eles, eram os “macaroni”, por causa da comida. Quase como o nosso “perua” de hoje, ou o “peru emplumado”.
Um macaroni penguin e sua característica testa amarela, em Cape Lookout, Elephant Island, na Antártida (foto de John Pairaudeau)
Um vistoso macaroni penguin em Elephant Island, na Antártida
Então, quando os primeiros marinheiros ingleses chegaram a estas bandas, não demoraram a apelidar esse pinguim com penas amarelas na testa de “macaroni”. O nome ficou e passou a designar a espécie! E não é uma espécie qualquer, não! Ela sim é a mais numerosa do planeta com cerca de 20 milhões de indivíduos. Infelizmente, esse número já foi bem maior duas décadas atrás o que indica que a espécie está passando por uma crise. Mesmo assim, continua sendo a espécie de ave que mais consome vida marinha do mundo.
Centenas de pinguins chinstrap na paisagem rochosa de Cape Lookout, em Elephant Island, na Antártida
Um grupo de pinguins macaroni em Cape Lookout, Elephant Island, na Antártida (foto de John Pairaudeau)
Os macaroni também são excelentes nadadores e passam meses a fio no mar, quando não estão em época de reprodução. Chegam a nadar mais de 10 mil quilômetros nesse período, através dos oceanos Atlântico e Índico. Depois, voltam para as colônias onde nasceram e quase sempre buscam o mesmo parceiro da temporada anterior.
Pinguins, lobos e elefantes marinhos e blocos de gelo dividem o espaço de uma pequena praia rochosa em Cape Lookout, em Elephant Island, na Antártida
Centenas de pinguins nas encostas de Cape Lookout, em Elephant Island, na Antártida
Depois do acasalamento também virão dois ovos. O primeiro, menor, é apenas para esquentar as turbinas da fêmea. Depois, quando vier um ovo maior, o primeiro ovo quase sempre é descartado. As cinco semanas que se seguem para chocar o ovo são divididos em 3 períodos iguais de 12 dias. No primeiro, pai e mãe se dividem no trabalho de chocar o ovo. No segundo, o pai volta para o mar para se alimentar e a mãe fica sozinha. No terceiro, a situação se inverte, a mãe no mar e o pai no ninho. Por fim, quando nasce o filhote, é o pai que vai protegê-lo nas primeiras semanas, até que ele esteja grande o suficiente para seguir para a creche.
Pinguins chinstrap se equilibram em rochedo de Cape Lookout, em Elephant Island, na Antártida
Pinguins sobem encosta em meio à vastidão gelada de Point Wild, em Elephant Island, na Antártida
Bom, e assim vamos completando nossas figurinhas no álbum de pinguins. O prêmio máximo seria ver um pinguim imperador, mas infelizmente é muito raro avistá-lo em viagens como a nossa. Eles ficam ainda mais ao sul e suas colônias se localizam muitos quilômetros continente adentro. Mas temos também o nosso álbum de focas para completar e hoje vimos a estrela desse álbum, a foca leopardo. Outro álbum, outro post, hehehe...
Aproximando-se dos simpáticos pinguins chinstrap, em Cape Lookout, em Elephant Island, na Antártida
Condições ideais para a prática de kitesurf em Cumbuco - CE
Deixamos Fortaleza rumo ao oeste. Já passava do meio dia e, portanto, bastava seguir o sol, que foi nos mostrando praias cada vez mais belas, paisagens típicas desse pedaço do Ceará. A primeira, ainda dentro da grande Fortaleza, foi a Barra do Ceará. Mesmo vista apenas da estrada, pareceu paradisíaca, bem no encontro do rio com o mar. Fiquei impressionando dela não ter aparecido como indicação em nenhum dos nossos guias.
Aliás, esses guias muitas vezes ajudam. Mas, outras vezes, comem bolas incríveis! No Rio Grande do Norte, por exemplo, nem uma palavra sobre a região de Martins, a área de serra do estado. Lá está uma das maiores cavernas brasileiras, a Casas de Pedra. A gente só foi descobrir quando já tínhamos passado da região. Ficamos com uma raiva! Ficamos vendo aquela serra lá longe, no horizonte, e eu pensava: "Pô, tem de ter muita coisa por lá..." Quando descobrimos, já era tarde demais. Metade da droga do Guia Brasil fala de Rio e de São Paulo. Aí, não sobra muita coisa para o resto. Quem quer saber tanta coisa do Rio e Sâo Paulo não vai comprar o Guia Brasil; compra logo o Guia Rio ou Guia SP. O outro guia que temos, Lonely Planet, é muito bem escrito, em inglês. Mas só fala dos lugares mais conhecidos. Enfim, vamos falar de coisas boas...
Muito sol e vento em Cumbuco - CE
Da linda Barra do Ceará, seguimos para Cumbuco. A única chateação é despistar os rapazes que ficam na entrada da cidade tentando, à todo custo, nos fisgar e nos levar para suas barracas. Depois que passamos por eles, temos aquela linda praia para curtir. O local não poderia ser mais perfeito para a prática de Kite Surf, principalmente nesta época do ano. Muito sol, vento constante, lagoas com águas tranquilas para os iniciantes e o mar ondulado para quem já sabe surfar. São várias escolas e hoje, dezenas de praticantes. Alguns, muito bons mesmo. Fazem parecer fácil! Deslizam para lá e para cá, fazem manobras, voam, passam pertinho uns dos outros, vem até a praia no meio de banhistas, tudo isso como se estivessem atravessando uma rua.
Condições ideais para a prática de kitesurf em Cumbuco - CE
A gente até animou de fazer o curso. A Ana foi checar os preços, para ter uma idéia. Quem sabe em Jeri, onde vamos passar alguns dias? Seria tão bom já nascer sabendo! Vendo os caras bons, parece que é só montar e sair deslizando. Ouço que é bem mais complicado que isso. Vamos ver...
Jangada disputa espaço com kitesurf em Cumbuco - CE
Almoçamos por lá, dividindo nosso tempo entre nos defender das moscas e admirando os kite surfistas. Aliás, de longe, indo para lá e para cá, eles até me lembraram as moscas que teimavam em atacar o nosso peixe. Pelo menos, não fazem o barulho dos jet skies, esses sim, insuportáveis. Difícil foi ver algum wind surf. Com o aparecimento do kite, o wind praticamente acabou. Até vimos um, mas ao compará-lo com a performance do kite, realmente parecia algo do século passado. Outra coisa perdida no meio do enxame de kite surfistas era uma jangada. Ela, que já foi a rainha soberana desses mares, hoje parece um peixe fora d'água. Uma pena...
Fim de tarde na praia da Lagoinha - CE
Deixamos Cumbuco para trás e viemos para a Lagoinha. Nossa... que praia! Absolutamente magnífica! Aqui não venta tanto, tornando a praia muito mais agradável para banhistas. Além disso, é ótima para se caminhar. Chegamos no final da tarde e tivemos um dos mais belos fins de tarde da viagem. Cores incríveis no céu, praia quase deserta. Pena que estávamos sem a máquina, pois tínhamos ido correr pela praia. Amanhã tiramos fotos, mas não sairão belas como hoje, infelizmente. A única coisa triste é o enorme hotel que estão construindo, praticamente na beira do mar. Um monstro. Não tem absolutamente nada a ver com a paisagem. Mas, como dizem por aí, "money talks"... Vai trazer muitos turistas para cá, gente com dinheiro. Vai gerar empregos, criar serviços, trazer desenvolvimento. Adeus, Lagoinha de antigamente. Veremos como fica a nova...
Fim de tarde na praia da Lagoinha - CE
São inúmeros precipícios ao longo da Carretera de la Muerte, estrada que desce os Andes em direção à Coroico, na Bolívia
Depois do nosso passeio na região de Pampalarama, ainda bem cedo partimos em direção à estrada que liga La Paz à região dos Yungas, no norte da Bolívia. Essa é a famosa Carretera de la Muerte, o início do nosso longo caminho de volta ao Brasil, cruzando todo o norte boliviano.
Rebanho de lhamas parece admirar o lago no Parque de Catapata, onde se inicia a Carretera de la Muerte, que desce os Andes em direção à Coroico, na Bolívia
Outra vez, um enorme rebanho de lhamas e ovelhas interrompe nosso caminho, no Parque de Catapata, onde se inicia a Carretera de la Muerte, que desce os Andes em direção à Coroico, na Bolívia
Mas, para chegar até lá, ainda tivemos de cruzar um longo trecho pelas montanhas, sempre em estradas de terra. Um caminho lindo, ladeado de montanhas nevadas e que culminou pela passagem pelo Parque Nacional de Cotopata. O parque protege antigos caminhos pré-colombianos e uma natureza belíssima, sempre acima dos 4 mil metros. Aí, uma vez mais, cruzamos com um enorme rebanho de lhamas fechando a estrada. Elas pareciam entretidas com a beleza de um lago andino ali do lado, água verde e gelada, típico das grandes altitudes.
Parque Nacional de Cotapata, no início da descida dos Andes, na Bolívia
Ainda no alto, observando a estrada que desce a cordilheira dos Andes, na Bolívia
Depois de conseguirmos passar pelas lhamas, chegamos ao ponto conhecido como La Cumbre, com 4.650 metros. É justamente aí que começa a descida dos Andes para quem vem de La Paz e se dirige à Coroico, a principal cidade na região dos Yungas. Tínhamos chegado à Carretera de la Muerte.
Saímos de Pampalarama (A), em meio às montanhas e seguimos por uma estrada de terra até Cotapata, onde está La Cumbre (E), a 4.650 metros de altitude. É aí onde se inicia a descida dos Andes e onde encontramos a estrada principal, que vem de La Paz (F). Esta estrada se bifurca mais à frente. Boa parte do trânsito segue por uma estrada moderna (D) até Coroico (C), na região dos yungas. Mas os mais aventureiros preferem a famosa Carretera de La Muerte (B) para chegar até Coroico, a 1.700 metros de altitude. Esta foi a nossa rota!
Essa estrada foi construída na década de 30 utilizando a mão-de-obra de prisioneiros paraguaios da Guerra del Chaco, travada pelos dois países naqueles anos. A ideia era finalmente ligar a capital do país, na região andina, à região amazônica, no norte do país. A parte mais difícil dessa ligação era justamente a descida dos Andes, saindo de altitudes superiores aos 4 mil metros e descendo mais de 3 mil metros para a planície amazônica, tudo isso em um trecho relativamente curto de 60 quilômetros.
Ciclistas se reúnem no Parque de Cotapata para descer a Carretera de la Muerte, em direção à Coroico, na Bolívia
Cartaz com propaganda da famosa Carretera de la Muerte, que deesce os Andes em direção à cidade de Coroico, na Bolívia
Bom, não é de se estranhar que, ao utilizar mão-de-obra escrava num terreno em tão difíceis condições, o resultado fosse esse: a mais perigosa estrada do mundo. Sem pavimento ou guard-rails, ziguezagueando entre precipícios de mais de 200 metros de altura e larga o suficiente apenas para a passagem de um veículo por vez, em boa parte dos trechos mais perigosos. Não é só isso: uma densa neblina costuma cobrir as partes mais altas da estrada durante vários meses do ano, reduzindo a visibilidade à poucos metros. A chuva transforma a terra em lama, tornando-a escorregadia em pontos onde um escorregão será certamente fatal. E não é só com a chuva que os motoristas devem se preocupar com o que vem de cima, pois há constante queda de pedras, das encostas e paredões ao lado da estrada.
Descendo os Andes em direção ao início da Carretera de la Muerte, na Bolívia
Em meio à forte neblina, a Fiona percorre a famosa e temida Carretera de la Muerte, estrada que desce os Andes em direção à Coroico, na Bolívia
Essas condições ajudam a explicar porque mais de cem pessoas costumavam morrer anualmente nesse pequeno trecho de estrada. Entre os acidentes mais notórios, a maior da história da Bolívia: na década de 80, um ônibus lotado despencou centenas de metros, matando mais de 100 pessoas!
Em meio às nuvens, a Fiona enfrenta a Carretera de la Muerte, que deesce os Andes em direção à cidade de Coroico, na Bolívia
Para tentar diminuir o número de acidentes e mortes, a estrada tem até regras especiais. Por exemplo, funciona em mâo inglesa, isto é, dirigimos do lado esquerdo da estrada. A razão para isso é simples: os precipícios estão do lado esquerdo de quem desce e a preferência é sempre de quem está subindo a estrada. Como o motorista do carro que desce é que deverá dar passagem a quem sobe, estando mais perto do precipício ele pode controlar melhor, com os olhos, o quão próximo do abismo pode chegar. Tem lógica, mas dá arrepios! Na prática, então, é assim que funciona: vamos descendo de olho se vem algum carro em sentido contrário. Se virmos algum, achamos algum lugar mais largo da estrada, encostamos no precipício e deixamos o carro passar, para depois retomarmos nosso caminho.
Em meio à forte neblina, a Fiona percorre a famosa e temida Carretera de la Muerte, estrada que desce os Andes em direção à Coroico, na Bolívia
Em meio à forte neblina e muitos precipícios, a Fiona percorre a famosa e temida Carretera de la Muerte, estrada que desce os Andes em direção à Coroico, na Bolívia
Com esses números e condições aterradoras, aconteceu o inverso do que se esperaria: a estrada virou uma atração turística internacional! Milhares de aventureiros de todas as partes do mundo querem conhecê-la para exercitar sua adrenalina. Acontece que o governo boliviano também percebeu que algo deveria ser feito. E assim, depois de 20 anos de trabalho, construíram uma rodovia muito mais segura para Coroico, devidamente asfaltada e ampla para a passagem simultânea de dois veículos. Desde então, a grande maioria do tráfego se transferiu para essa estrada e a famosa Carretera de la Muerte ficou relegada às traças e aos turistas.
Cortando toda a encosta, a Carretera de la Muerte, estrada que desce os Andes em direção à Coroico, na Bolívia
Carretera de la Muerte, que deesce os Andes em direção à cidade de Coroico, na Bolívia
Sem o trânsito de caminhões e ônibus, ela ficou infinitamente menos perigosa, já que o maior problema estava em cruzar com esses veículos mais largos. Hoje, só se vê ali alguns poucos carros de turistas (afinal, quantas pessoas viajam à Bolívia de carro?), centenas de ciclistas e seus veículos de apoio. Ciclistas? Pois é, é esta a maneira mais comum que os turistas conhecem a estrada: pedalando!
Carros de apoio à ciclistas descem a Carretera de la Muerte, estrada que liga La Paz à Coroico, na Bolívia
Ciclistas descem a Carretera de la Muerte, estrada que desce os Andes em direção à Coroico, na Bolívia
São dezenas de agências que oferecem esse passeio. Trazem os turistas até La Cumbre e, daí, para baixo, todo santo ajuda. O primeiro trecho é de asfalto, pista ampla e segura, mas bastante movimentada. Até o ponto onde a estrada se bifurca: a moderna para um lado e a Carretera de la Muerte para o outro. O grosso do tráfego segue o asfalto e os ciclistas e equipes de apoio seguem pela terra. Serão mais de 50 quilômetros downhill, a paisagem se transformando da andina para a amazônica, muita mata e umidade no caminho.
São inúmeros precipícios ao longo da Carretera de la Muerte, estrada que desce os Andes em direção à Coroico, na Bolívia
Então, esse foi nosso programa do dia. Chegamos à La Cumbre e já vimos três ou quatro vans lotadas de ciclistas. Ao longo da estrada, veríamos várias outras. Lá de cima, fotografamos a descida que nos aguardava e seguimos até a bifurcação da estrada. Pagamos o pedágio para poder circular nela e enfrentamos vários quilômetros de neblina, tomado o devido cuidado para não despencar por um lado ou atropelar turistas do outro. Raramente cruzávamos com carros subindo, mas sempre encontramos lugares seguros nesses momentos, deixando que passassem.
Armando nossa gol-pró para filmar a Carretera de la Muerte, estrada que desce os Andes em direção à Coroico, na Bolívia
Aos poucos, a neblina se dissipou e pudemos admirar melhor a paisagem que nos rodeava e os abismos que nos cercavam. São mesmo impressionantes, um convite à fotografias. Mas o perigo, como já disse acima, ficou mesmo minimizado com a construção da nova estrada. Cruzar com ônibus por ali seria terrível, mas eles já não estão mais na estrada. A Carretera de la Muerte acabou virando uma Disneylândia de ciclistas gringos.
Ciclistas descansam na Carretera de la Muerte, estrada que desce os Andes em direção à Coroico, na Bolívia
Chegamos à Coroico sãos e salvos, prontos para sentir um gostinho da região dos Yungas e dispostos a retomar o caminho no dia seguinte. Ainda falta muito para chegarmos ao Brasil...
Pausa para fotos na Carretera de la Muerte, estrada que desce os Andes em direção à Coroico, na Bolívia
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