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Janaina Pasternack (09/11)
Outra foto linda de fim de tarde e vcs estão em uns lugares "feios" agor...
Janaina Pasternack (09/11)
Lindas lindas lindas as fotos do pôr-do-sol já até peguei p ser tela d...
Paulinha Ribas (08/11)
Nadja de Carvalho Gomes (07/11)
Oi Mineiro, que bom ver estas fotos da região de Boipeba,Itacaré ,Mara...
Lucia (06/11)
Oi Rodrigo, tive uns contratempos, e fiquei sim ver uns dias, e agora est...
Interior da antiga igreja de São Miguel Arcanjo, em São Miguel das Missões, no Rio Grande do Sul
Eu sempre gostei de História. Acho que a paixão nasceu de quando, ainda bem criança, ouvia a minha mãe ler em voz alta o livro “História do Mundo Para Crianças”, de Monteiro Lobato. A ideia era, ao mesmo tempo, embalar nosso sono na hora de irmos para a cama e também nos dar uma primeira noção sobre a história do nosso mundo. Assim, junto com Pedrinho, Narizinho e a Emília, aprendi a admirar gregos e romanos, Julio Cezar e Alexandre, as Cruzadas, a época dos Descobrimentos, Renascimento e Iluminismo e tantas outras coisas.
Turistas visitam a Missão em São Miguel das Missões, no Rio Grande do Sul
Mais tarde, já na 5ª série, tive o primeiro contato formal com História. Por algum motivo, eram as civilizações pré-colombianas as que mais atraiam minha curiosidade. Astecas, Incas e Maias não saiam da minha cabeça e agora, durante esses 1000dias, tive a chance de conhecer essas antigas civilizações muito mais de perto. Para mim, um dos pontos altos de nossa viagem. Ver ao vivo as ruínas de Machu Picchu e as diversas pirâmides na América Central foi emocionante. A realização de um sonho que havia nascido quando vi, pela primeira vez, naqueles antigos livros de história, as desbotadas fotos desses incríveis monumentos.
Ruínas da antiga igreja de São Miguel Arcanjo, em São Miguel das Missões, no Rio Grande do Sul
Mas aquelas mesmas fotos e histórias que tanto me inspiravam também traziam uma certa decepção. As tais antigas civilizações e suas ruínas eram americanas, mas nenhuma era brasileira. Nada para alentar o meu nascente espírito “patriótico”. Enquanto no Perú e no México construíam-se pirâmides e criavam-se impérios, no nosso país os índios ainda caminhavam sem roupa, viviam da caça e do extrativismo e, em alguns casos, comiam-se ritualisticamente. Pelo menos, essa era a visão simplista e simplória daquele menino da 5ª série. Mas havia uma exceção, muito mal explicada e desenvolvida naqueles livros de História. Uma única foto, acompanhada de um único parágrafo, mostrava ruínas de pedra avermelhada, uma antiga igreja que nada se parecia com nossa arquitetura colonial. Certamente era outra coisa, haviam índios envolvidos naquilo e o texto falava de umas tais de “missões”. Uma mísera citação e nada mais do que isso. Num mundo ainda sem internet e sem Wikipedia, tive logo de esquecer o assunto...
Chegando à Missão de São Miguel Arcanjo, a mais bem conservada das Missões em território brasileiro, em São Miguel das Missões, no Rio Grande do Sul
Fachada da antiga igreja de São Miguel Arcanjo, em São Miguel das Missões, no Rio Grande do Sul
Até que, alguns anos mais tarde, Hollywood lançou o magnífico filme “The Mission”, com fotografia impecável, trilha sonora emocionante e um elenco de fazer inveja: Robert De Niro, Jeremy Irons e Liam Neeson em início de carreira. O filme conta a história do trágico fim dessa civilização quase desconhecida no Brasil. O filme é ótimo e, para quem não viu, recomendo! Foi aí que, finalmente, comecei a aprender sobre esse importante capítulo da nossa história, uma espécie de experimento da utopia comunista, contribuindo até para o mito do “bom selvagem” de Rousseau.
Agora, inspirado pelo bom filme, tratei de ler mais sobre o assunto e, na primeira oportunidade, visitei as ruínas de São Miguel das Missões, no Rio Grande do Sul. Aí se encontra o mais completo conjunto arquitetônico dessa antiga civilização em território brasileiro, o mesmo que aparecia na foto do meu antigo livro de história. Foi emocionante estar lá e aprender ainda mais da história daquele período. Hoje, oito anos depois dessa memorável visita, tive a chance de voltar, dessa vez muito bem acompanhado pela amada esposa e dentro da expedição 1000dias, nosso último destino no Brasil antes de rumarmos ao sul do continente.
A imponente porta da antiga igreja de São Miguel Arcanjo, em São Miguel das Missões, no Rio Grande do Sul
Foram cerca de 4 horas de viagem desde o ponto de partida, em Derrubadas (mapa no post anterior). Chegamos no meio da tarde e, logo após nos instalarmos num hotel na cidade, seguimos para as ruínas. Elas ficam em meio a um grande parque, praticamente no centro da cidade. Em plena sexta-feira, estavam praticamente vazias e pudemos caminhar pelas antigas edificações completamente sós. Li e reli os cartazes informativos espalhados pelo parque, visitei o museu, tirei fotos, mas o maior prazer foi mesmo caminhar por entre as paredes e colunas que ali jazem adormecidas já há alguns séculos. Com um pouco de esforço, é fácil imaginar quando a região fervilhava de vida, quatro mil índios vivendo uma vida de paz, música e religiosidade, ao menos durante 3 gerações.
Visita à antiga igreja da Missão de São miguel Arcanjo, em São Miguel das Missões, no Rio Grande do Sul
Visita às ruínas da antiga Missão em São Miguel das Missões, no Rio Grande do Sul
De noite, a Ana voltou às ruínas, dessa vez para assistir ao show de luzes e sons, uma das exigências da Unesco para que o local seja considerado Patrimônio Cultural mundial. Como eu já conhecia o show, que não é grande coisa, preferi ficar no hotel, pesquisando na internet mais dados sobre a rica história desse povo, da difícil origem das missões até seu trágico desfecho.
Show noturno de luzes e sons em São Miguel das Missões, no Rio Grande do Sul
Show noturno de luzes e sons em São Miguel das Missões, no Rio Grande do Sul
Aliás, a primeira coisa a esclarecer é que as missões jesuíticas não tem nada de “brasileiras”, para tristeza do garoto patriótico da 5ª série. Apesar das ruínas de São Miguel das Missões estarem no território do país, na verdade elas foram criadas, viveram seu auge e foram destruídas no que era parte da América Espanhola de então. Já os portugueses, nossos antepassados, nessa história fazem o papel dos bandidos.
A cruz dupla nos jardins da antiga Missão em São Miguel das Missões, no Rio Grande do Sul
Todos sabemos que o mundo foi dividido entre Portugal e Espanha no final do séc. XV, através do Tratado de Tordesilhas. Essa linha imaginária reservava apenas a parte leste do Brasil para Portugal, enquanto a maior parte do atual território nacional, incluindo toda a região sul do país, ficava sob controle espanhol. Ou seja, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, segundo esse tratado, deveriam falar castelhano! Para aí seguiram, já no início do século XVII, missionários jesuítas, com o intuito de catequizar os indígenas e, ao mesmo tempo, garantir a ocupação espanhola da área.
Uma enorme árvore cresce em meio às ruínas da antiga Missão em São Miguel das Missões, no Rio Grande do Sul
Ruínas da antiga Missão em São Miguel das Missões, no Rio Grande do Sul
Só que, nessa época, a península ibérica estava unificada sob o governo de um só rei. Portugal e Espanha haviam se unido e o Tratado de Tordesilhas tinha perdido o sentido. Os colonizadores portugueses aproveitaram para estender seus domínios muito além da linha imaginária. Nessa época, a região de São Paulo, uma das mais pobres do novo continente, necessitava urgentemente de escravos para tocar suas nascentes lavouras. Ainda sem acesso à África, os bandeirantes paulistas viram nos índios catequizados pelos jesuítas um alvo fácil para suprir a forte demanda de mão-de-obra. Em duas décadas de ataques, todas as missões de Guaíra (atual Paraná) foram destruídas, enquanto as missões do atual Rio Grande do Sul foram deslocadas para o oeste do rio Uruguai, onde passaram a resistir aos caçadores de escravos. Na famosa batalha de Mboboré os paulistas foram definitivamente derrotados pelos índios guaranis catequizados. Vou contar mais dessa história quando chegarmos a essas missões do outro lado do rio, hoje território argentino.
Caminhando pelas ruínas da antiga Missão em São Miguel das Missões, no Rio Grande do Sul
No final do séc XVII, já com o tráfico de escravos africanos consolidado, jesuítas e índios guaranis voltaram a cruzar o rio e se reestabeleceram no atual Rio Grande do Sul, fundando 7 missões, o que hoje conhecemos como os “Sete Povos das Missões”. Nessa época, Portugal e Espanha já eram, outra vez, reinos separados. O Tratado de Tordesilhas era “letra morta” e vários territórios eram disputados entre as duas nações, incluindo a área onde estavam estabelecidas as missões e também o sul do Uruguai, onde os portugueses haviam fundado a cidade de Colônia do Sacramento, na estratégica desembocadura do Rio da Prata, bem em frente a Buenos Aires.
Estátuas da antiga Missão no Museu em São Miguel das Missões, no Rio Grande do Sul
Enquanto as duas nações ibéricas disputavam esses territórios por quase um século, as novas missões floresciam, quase 30 mil índios vivendo sob a tutela jesuíta, falando guarani, espanhol e até latim, com uma economia vigorosa e cultura exuberante. Obedeciam ao Rei de Espanha, mas eram, na prática, quase uma república independente.
Uma figueira cresce sobre as ruínas da antiga Missão em São Miguel das Missões, no Rio Grande do Sul
Infelizmente para eles, a política internacional falou mais alto. Portugal e Espanha chegaram, enfim, a um novo acordo sobre as terras do novo continente. O Tratado de Madrid estabelecia que Portugal entregaria aos espanhóis o controle da Colônia de Sacramento e receberia, em troca, o território dos Sete Povos das Missões. Índios e jesuítas deveriam mudar-se novamente para o oeste do rio Uruguai o quanto antes. Os índios se recusaram a fazer isso fazendo com que os exércitos de Portugal e Espanha se unissem contra eles nas chamadas Guerras Guaraníticas, episódio retratado no filme “The Mission”, onde os indígenas foram massacrados pelos exércitos europeus. Foi o trágico fim das Missões no atual território brasileiro, apesar de nunca terem sido brasileiras. A ironia é que o resto do Tratado de Madrid nunca foi cumprido, os portugueses recusaram-se a sair de Colônia do Sacramento e, por consequência, o território do Rio Grande do Sul continuou em litígio. Foram precisos mais seis décadas de guerras e batalhas para definir as atuais fronteiras, Uruguai e a região de “Entre-Rios” para lá e o Rio Grande do Sul para cá. Nesse processo, as Missões praticamente deixaram de existir, sobrando apenas as ruínas que hoje podemos admirar. Paredes que ainda ecoam a glória de outros tempos para quem quiser ouvir, mas que nos trazem também a tristeza de sua destruição inclemente, uma utopia que não pode resistir à força da realidade.
Estátuas da antiga Missão no Museu em São Miguel das Missões, no Rio Grande do Sul
No próximo post, já em território argentino, volto com a parte feliz dessa história...
A cruz dupla nos jardins da antiga Missão em São Miguel das Missões, no Rio Grande do Sul
Florestas verdejantes e rios formam o cenário da Carretera Austral na região de La Junta, no sul do Chile
Continuamos hoje nossa jornada para o norte através da Carretera Austral, no Chile. A ideia era fazer um percurso mais curto, menos de 200 km, e assim termos tempo para outras atividades. Saímos de La Junta e viajamos até Chaitén, a cidade que foi quase totalmente destruída por um vulcão em meados de 2008.
Nossa pousada em La Junta, na carretera Austral, sul do Chile
Um bom trecho da estrada, hoje, foi de rípio novamente. Asfalto, agora, só ao norte do parque Pumalin, no último trecho da Carretera Austral. O número de ciclistas diminuiu bastante comparado ao que víamos no trecho mais setentrional da Carretera. Em compensação, aumentou o número de carros e também de caronistas. Muita gente vem conhecer as atrções da parte norte dessa famosa estrada no dedo. Nós fizemos a nossa parte e demos carona ontem e hoje também. Estudantes de outros continentes e nacionais, todos com suas mochilas coloridas em busca de natureza e aventura. Vieram ao lugar certo!
Por aqui, estamos em um “mar verde”, florestas viçosas para todos os lados, cortadas por rios e lagos. Ao fundo, sempre as montanhas. Não há como negar que ainda é uma região onde a natureza reina absoluta e podemos sentir isso no ar que respiramos. Apenas aqui e ali, uma casinha ou outra. Mas estamos indo para o norte e isso vai mudar.
Florestas verdejantes e rios formam o cenário da Carretera Austral na região de La Junta, no sul do Chile
Ponte estreita na Carretera Austral, região do lago Yelcho, no sul do Chile
Não demorou muito e já passávamos pelo belíssimo lago Yelche, paraíso de pescadores. Eles alugam algum chalé na frente do lago e passam dias, até semanas, fazendo seu esporte predileto. Não é muito a nossa praia e, para nós, foi só a oportunidade de mais uma dezena de fotos. Depois, pé na estrada novamente.
O lago Yelcho, entre La Junta e Chaitén, na Carretera Austral, sul do Chile
O lago Yelcho, entre La Junta e Chaitén, na Carretera Austral, sul do Chile
Nossa primeira parada de verdade foi nas Termas de Amarillo. Região de vulcões, sempre há termas também. Aliás, a mais cara e chique do país também está aqui perto. São as Termas de Puyuhuapi, mas frequentá-las não é para qualquer um. A maioria dos visitantes vêm em pacotes de até três dias, chilenos abonados de Santiago e outras cidades grandes. É possível fazer uma visita de um dia, mas só se houver espaço e se quiser gastar bastante. Nós preferimos ir conhecer a versão mais popular mesmo, as Termas de Amarillo, acessadas por um desvio da Carretera Austral uns 20 km antes de Chaitén.
Muitas obras de manutenção ao longo da CArretera Austral, no sul do Chile
A Fiona enfrenta o rípio da Carretera Austral na região de La Junta, no sul do Chile
Não sei se porque não era fim de semana, o fato é que quase não havia gente por lá e foi um ótimo investimento que fizemos, de tempo e de dinheiro. Há uma piscina ladrilhada e com água bem limpa (filtrada) e duas outras menores, naturais. As piscinas naturais são menos atrativas, mas a água é mais quente por lá e é só uma questão de nos acostumar com o chão de areia e barro e a água escura. De qualquer maneira, sempre podemos voltar para as águas claras da piscina maior. Foram duas horas de relaxamento e conversa com outros frequentadores. É até mesmo possível alugar algum chalé na propriedade e dormir por lá. Dizem que o banho sob a lua cheia e no meio da mata densa é ainda mais relaxante!
O prédio da "administração" das Termas del Amarillo, perto de Chaitén, no sul do Chile
Regras para o uso das piscinas nas Termas de Amarillo, perto de Chaitén, no sul do Chile. Nada de namorar ou fazer xixi dentro das piscinas!
Mas nós resolvemos seguir aquele finalzinho de estrada até Chaitén. Primeiro, porque precisávamos reservar nosso espaço nas balsas de amanhã. Esse trecho final da Carretera Austral, na região do parque Pumalin, tem duas passagens de balsa, uma delas bem longa. Reservar o lugar do carro é essencial. Além disso, ainda queríamos ir caminhar pelo vulcão que, poucos anos atrás, mudou por completo a vida dos moradores dessa cidade.
Piscina tratada de águas termais nas Termas del Amarillo, perto de Chaitén, no sul do Chile
Piscina natural de águas termais nas Termas del Amarillo, perto de Chaitén, no sul do Chile
No dia 2 de Maio de 2008 o vulcão Chaitén, a pouco mais de 10 km da cidade, despertou depois de um sono de 10 mil anos. Aliás, com exceção de alguns vulcanólogos, ninguém nem sabia que aquela montanha era um vulcão. Ele despertou com fúria e uma evacuação da cidade foi ordenada. Primeiro, voluntária, pois muitos moradores queriam ficar e apostar a sorte. Depois, quando a situação piorou, foi obrigatória mesmo e Chaitén virou uma cidade fantasma, seus 4.500 habitantes evacuados para Puerto Montt e outras cidades próximas. A coluna de fumaça do vulcão atingiu incríveis 25 km de altura e suas cinzas cruzaram os Andes e se espalharam por toda a patagônia, chegando até Buenos Aires.
A nova praia criada pela erupção vulvânica do vulcão Chaitén, no sul do Chile
Cinzas e entulho vulcânico que destruíram a antiga cidade de Chaitén, no sul do Chile
Mas o pior ainda estava por vir. Tanta cinza caída acabou por fazer uma barragem natural no Rio Blanco que, ao romper, criou um “lahar”, uma onda gigantesca de barro que inundou e destruiu boa parte da cidade. Felizmente, mesmo os mais teimosos já haviam sido evacuados. Quando o vulcão se acalmou, o governo central resolveu mudar a cidade de lugar, reconstruindo-a 10 km mais ao norte.
A nova cidade de Chaitén, ao longo da Carretera Austral, no sul do Chile
Mas os habitantes originais não gostaram da ideia. A parte norte da cidade original não havia sido destruída e para lá voltaram os moradores. O governo insistiu, mas os habitantes teimaram. Hoje, parece que eles são os vencedores e Chaitén continua onde sempre esteve. Quer dizer, ao menos, metade dela. A antiga avenida litorânea já não é mais tão litorânea assim. O rio mudou seu curso e criou uma nova praia, o mar já bem mais distante. Para quem chega ali pela primeira vez, como nós, logo percebe que há algo errado naquela praia cheia de pedras e entulho. Não demoramos muito para entender. Outra cena chocante é ver o lado sul do rio. Ali estava a outra metade da cidade, agora sob escombros e muita lama. A gente consegue perceber alguma coisa ou outra que, algum dia, já foi uma construção.
Estrada atravessa pista de aeroporto na região de Chaitén, no sul do Chile
Mas a força do vulcão e os efeitos da erupção são ainda mais claros na própria área onde ele hoje descansa tranquilo. E foi para lá que seguimos, pois nos últimos anos foi aberta uma trilha que leva até a boca do monstro. Fica dentro do parque Pumalin, outra das vítimas da erupção. Mal podíamos nos conter para chegar lá...
Chegando ao Parque pumalin, no norte da Carretera Austral, sul do Chile
Ainda na estação de embarque do bondinho, vista do Pão de Açúcar, no Rio de Janeiro
Como já disse diversas vezes ao longo desses 1000dias, eu sou mineiro de Belo Horizonte, onde vivi até os 14 anos de idade. A família de meu pai é do interior do estado, da simpática e gloriosa Poços de Caldas, quase na fronteira com São Paulo. Nós até passamos por lá nesse nosso giro pelas Américas <[a href="http://www.1000dias.com/rodrigo/busca-pocos-de-caldas":posts aqui), a cidade onde passei tantas e tantas férias da minha infância entre primos, tios, avós, pais e irmãos. Para nós, crianças na época, uma das grandes atrações da cidade era subir o teleférico, ou bondinho, como o chamávamos, até o alto do do morro onde está a estátua do Cristo redentor da cidade.
Chegando à estação de bondinhos do Pão de Açúcar, no Rio de Janeiro
Os "dois andares" do bondinho do Pão de Açúcar, no Rio de Janeiro
Esse bondinho foi construído em meados da década de 70 e a firma responsável pela construção foi, para meu grande orgulho na época, a empresa onde meu pai trabalhava, Pohlig Heckel do Brasil. Como o nome já parece indicar, era apenas a subsidiária brasileira de uma grande multinacional alemã. Lembro-me de ver as iniciais da empresa, PHB, nos bondinhos e máquinas e pensar que éramos responsáveis por tudo aquilo! Eram cabines pequenas, para apenas 4 passageiros, mas eu já achava aquilo tudo maravilhoso, como se voássemos sobre a cidade e montanhas da região, frio na barriga e brilho nos olhos.
A caminho do primeiro andar do bondinho do Pão de Açúcar, no Rio de Janeiro
Praia Vermelha vista do bondinho do Pão de Açúcar, no Rio de Janeiro
Perguntava a meu pai sobre como tudo aquilo funcionava e sobre outros bondinhos espalhados pelo mundo. Ele me dizia que o maior de todos era um no Rio de Janeiro, também construído pela Pohlig Heckel, só que muito tempo antes, no início do século. Era um bondinho gigante onde os passageiros não iam sentados, mas em pé, dezenas ao mesmo tempo. Para mim, soava como algo de outro mundo, até difícil de imaginar. Eu tinha de ver isso com meus próprios olhos!
Exemplar dos primeiros bondinhos do Pão de Açúcar, em exibição na estação intermediária do trajeto, no Rio de Janeiro
História da primeira geração de bondinho do Pão de Açúcar, no Rio de Janeiro
Foi o que aconteceu pouco tempo depois. mas não foi ao vivo! Foi na tela grande do cinema, numa clássica cena do 007, o famosos James Bond, ainda na época em que a personagem era representada pelo canastrão Roger Moore. O herói enfrenta seu maior inimigo, o monstruoso “Dentes de Aço”, em plena Rio de Janeiro. O grande embate entre os dois se dá justamente no bondinho do Pão de Açúcar, quando Dentes de Aço quase consegue destruir o cabo de aço que sustenta os bondes com sua poderosa mordida. Depois, ele pula para o bondinho onde estava o 007 e os dois lutam sobre o teto do bondinho com a linda paisagem carioca lá embaixo. Por fim, James Bond foge com a mocinha deslizando sobre o cabo de aço numa cena que, na época, causou espanto, e hoje nos faz rir. Eu publico o video dessa batalha “épica” nesse post (para ficar ainda mais engraçado, está dublado em espanhol...)!
Depois de ver esse filme, logo estive em carne e osso lá no famoso bondinho e me maravilhei com a paisagem que nos cerca. Finalmente, conhecia o bondinho original! Saciada a vontade, foram precisos outros 20 anos para que eu lá retornasse, já na virada do milênio. E agora, nesse P.S. dos 1000dias, na nossa segunda passagem pela Cidade Maravilhosa, acompanhados dos nossos amigos gringos Álvaro e Valentín, foi a vez de nos animarmos e voltamos a este ícone da cena carioca, que disputa com o Corcovado o título de Cartão Postal oficial da cidade.
Na estação intermediária do bondinho do Pão de Açúcar, podemos admirar o sol iluminando a baía de Botafogo, no Rio de Janeiro
Na estação intermediária do bondinho do Pão de Açúcar, podemos admirar o sol iluminando a baía de Botafogo, no Rio de Janeiro
O projeto desse teleférico nasceu durante as celebrações do centenário da abertura dos portos brasileiros ao comércio exterior, em 1908 (Dom João, sob pressão inglesa, tinha mandado abrir nossos portos ainda em tempos de Brasil colônia, em 1808). A idealização do projeto foi do engenheiro Augusto Ferreira Ramos. Com pouco entusiasmo estatal pela ideia e sob a gozação da imprensa e sociedade da época, o engenheiro contou com a ajuda de algumas figuras notáveis da cidade para levar o projeto adiante. Com a ajuda de operários alpinistas e sob comando da empresa alemã, a obra andou e em Outubro de 1912 o trecho entre a Praia vermelha e o Morro da urca foi inaugurado. No início do ano seguinte, foi a vez do bondinho chegar até o topo do Pão de Açúcar, mudando para sempre a paisagem carioca.
O pequeno e simpático bairro da Urca, no Rio de Janeiro
Avião decola do aeroporto santos Dummont, no Rio de Janeiro. Ao fundo, a ponte Rio-Niteroi
Até aquela época, existiam apenas dois outros teleféricos no mundo. Um na Espanha, de 1907, com extensão de 280 metros, e outra na Suíça, de 560 metros, inaugurado em 1908. A versão carioca aniquilava todos esses recordes anteriores. Afinal, são 600 metros de extensão até o “primeiro andar”, no Morro da Urca, e outros 850 metros até o topo do Pão de Açúcar, a 396 metros de altitude. Essa primeira versão do teleférico tinha apenas uma linha, que servia tanto para subir como para descer. Cada carrinho, logo apelidado de “bondinho” pelos cariocas, por sua semelhança com os bondes elétricos que naquela época já eram muito comuns nas ruas da cidade, carregava 22 passageiros em uma viagem que demorava mais de 10 minutos até o final da linha, no Pão de Açúcar. Em dias de movimento, eram pouco mais de 2 mil passageiros.
Vista do alto do Pão de Açúcar, no Rio de Janeiro
Bondinho do Pão de Açúcar, um dos ícones do Rio de Janeiro
A fama logo se espalhou pela cidade, pelo país e pelo mundo. Gente como o presidente Kennedy ou o físico Albert Einstein não perderam a chance de fazer o passeio quando estiveram na cidade. A demanda crescente superava em muito as possibilidades do antigo bondinho. Assim, aos 60 anos de idade, em 1972, ele foi revitalizado. Uma nova linha foi construída e carrinhos mais modernos desalojaram os bondinhos históricos. A capacidade por carrinho aumentou para 65 passageiros e o número de turistas que sobem a montanha a cada hora chega a 1.200. Com isso, pouco depois do centenário da inauguração do bondinho do Pão de Açúcar, mais de 40 milhões de pessoas já foram até o alto do morro se deliciar com as vistas da Cidade Maravilhosa.
Vista do alto do Pão de Açúcar, no Rio de Janeiro
Vista do alto do Pão de Açúcar, no Rio de Janeiro
Hoje foi a nossa vez. O dia não estava tão belo como ontem, mas também não podemos exigir céu azul de São Pedro todos os dias. Deixe que ele guarde o bom tempo para a nossa próxima aventura atravessando a Serra dos Órgãos. Por aqui, um pouco de chuva misturado com um pouco de sol já foi o bastante para deixar nossos amigos espanhóis de queixo caído com a beleza da paisagem. Enfrentamos o chuvisco, o vento e o preço salgado e lá fomos montanha acima.
O Corcovado visto do alto do Pão de Açúcar, no Rio de Janeiro
Do alto do Pão de Açúcar admirando a silhueta inconfundível da Pedra da Gávea, onde estivemos ontem (Rio de Janeiro)
O outro caminho para chegar ao cume dessa montanha emblemática do Rio de Janeiro é escalando. São mais de mil rotas possíveis, com todos os níveis de dificuldade e que fazem a alegria dos escaladores da cidade e dos visitantes também. Esse é um programa que ainda não fizemos, mas que está nos nossos planos. Mas não em um dia como hoje, muito mais propício à segurança e conforto do bondinho.
1000dias no Pão de Açúcar, no Rio de Janeiro
1000dias no Pão de Açúcar, no Rio de Janeiro
O Pão de Açúcar está localizado na saída da baía de Guanabara, um enorme bloco de granito reminescente da época em que América do Sul e África se separaram. Sua beleza imponente já atraía visitantes há séculos, mas fi apenas no início do séc. XIX que ele começou a ser escalado. Mas foi preciso outros 100 anos para que o acesso ao topo da montanha e às vistas que se tem lá de cima fossem democratizados. esse foi o grande mérito do bondinho idealizado por Augusto Ramos e construído pela firma alemã que empregaria meu pai meio século mais tarde.
Copacabana vista do alto do Pão de Açúcar, no Rio de Janeiro
Fim de tarde nublado no Rio de Janeiro visto do alto do Pão de Açúcar
Para mim, foi uma festa, com chuva ou com sol. Para começar, surpreendi-me que o bondinho já não é o mesmo que eu havia conhecido nos finais dos anos 70 e revisto no início desse milênio. Um novo tipo de carro foi adotado depois dessa última visita, ainda mais moderno e confortável, com uma área envidraçada bem maior. É a versão 3.0! Por falar nisso, quando chegamos à estação intermediária, no alto do Morro da Urca, lá estava exposta a histórica versão 1.0, àquela construída pela Pohlig Heckel e aposentada há 40 anos. está numa espécie de pequeno museu da história desse famoso teleférico. Aí também é possível assistir a filmes históricos e até à cenas de cinema em que o bondinho é retratado.
Visão noturna do Rio de Janeiro a partir da estação intermediária do bondinho do Pão de Açúcar
Por fim, fomos até o alto onde enfrentamos o frio e o vento para fotografar a cidade em todas as direções. Lá estava o Corcovado com seu Cristo Redentor, quase no dobro da nossa altitude. Mais longe, a silhueta inconfundível da Pedra da Gávea, mais alta ainda, onde estivemos ontem. Para baixo, de um lado a baía de Botafogo, lotada de barcos e iates. Do outro lado, a Praia Vermelha, de onde parte o teleférico, e o pequeno e simpático bairro da Urca, uma espécie de mini-cidade dentro da cidade do Rio de Janeiro.
Visão noturna do Rio de Janeiro a partir da estação intermediária do bondinho do Pão de Açúcar
Ficamos aí até o finalzinho da tare. Tanto que, ao chegarmos de volta ao Morro da Urca, as luzes da cidade já estavam acesas. Pudemos ver, então, a Rio by night. Quase tão bela como o Rio de dia, o Cristo lá no alto, a zelar pela cidade. Interessante pensar que, durante o último século, 40 milhões de pessoas fizeram o mesmo caminho que fizemos hoje, do Einstein até o Papa, do meu bisavô até mim. As pessoas voam pelo bondinho, no tempo e no espaço. Amanhã deixamos essa cidade. felizes de ter passado por essa atração turística que há tempos deixou de ser carioca e passou a ser mundial.
A caminho do Pão de Açúcar, um dos programas mais turísticos do Rio de Janeiro
Pousada Jacumã, em Santo André - BA
Poucas situações nos fazem sentir mais saudáveis que comer um café da manhã baseado em frutas, em frente ao oceano, depois de já ter tomado banho de mar e se refrescado num chuveiro de água doce. Foi o que fizemos hoje, muito bem instalados na charmosa Pousada Jacumã, em Santo André.
Voltando do banho de mar para o café da manhã, em Santo André - BA
O tempo variava entre o mormaço e o nublado e a gente ligou para as amigas cariocas, ainda em Ajuda, e pilhamos elas para que viessem nos encontrar novamente. Nosso plano era seguir viagem até Ilhéus, cerca de 250 km ao norte, mas resolvemos esperá-las na pousada, para uma derradeira despedida acompanhada de uma derradeira caipirinha. Elas vieram e foi ótimo revê-las mais uma vez. A próxima, quando e onde será?
Mais uma despedida da Ana, Gracie e Luciana, dsta vez em Santo André - BA
Acabamos partindo perto das duas da tarde, tristes por não ficar mais alguns dias. Santo André é uma pacata vila de ruas de terra, pousadas e ateliês charmosos, espremida entre o rio e o mar. Fora os meses de janeiro e fevereiro, a vila é bem tranquila, muito mais calma que Trancoso e Ajuda. O rio é largo, com um rico mangue à sua volta. É possível fazer passeios de escuna ou chalana rio acima, mas a disputa será grande com os animados pacoteiros que vêm diariamente de Porto Seguro, para também fazer o passeio. Para quem gosta, alguns desses barcos tem até animadores de festa, que não deixam o pique cair, mesmo com o céu desabando como estava quando viemos ontem de balsa e cruzamos com uma chalana.
Mangue em Santo André - BA
Uma estrada de terra cruzando gigantescas plantações de eucalipto e também a enorme fábrica da Veracel nos levou até a BR-101 e de lá para Itabuna e Ilhéus, onde chegamos já no escuro. Aqui, viemos nos instalar bem na praça da catedral e do bar Vesúvio, famoso por ser o cenário da paixão de Gabriela e do Turco Nacib no romance de Jorge Amado. E foi lá que jantamos. Infelizmente, a Sonia Braga dos anos 70 não apareceu...
Rua em Santo André - BA
Amanhã, finalmente, a Ana vai conseguir ir a um médico para examinar o ouvido. Ele parou de doer, mas continua entupido. Depois, seguimos para Itacaré. Ainda tem muito litoral pela frente...
Pequeno buraco na estrada entre Santo André e a BR-101 - BA
Quadro exposto no Museu Navajo, no Monument Valley, no Arizona, nos Estados Unidos
Hoje o nosso destino era o famoso Monument Valley, localizado no norte do Arizona, bem no coração da terra dos Navajos, ou “Navajo Country” Essa é a tribo mais numerosa de indígenas americanos da atualidade, com cerca de 300 mil membros, língua e cultura próprias e um território que se estende por três estados americanos. Além do Arizona, o Navajo Country também incorpora áreas do Novo México e Utah, além da famosa fronteira quádrupla, ou “Four Courners”, ponto imaginário onde se encontram esses três estados e também o Colorado.
Monument Valley, no Arizona, nos Estados Unidos
Ao visitar o Monument Valley hoje, fizemos uma interessante parada no Museu da Nação Navajo. É ali que se compra o ingresso para visitar o Monument Valley, que é gerido pelos Navajos, já que se localiza em território sagrado para a tribo, local ancestral que os Navajos tèm ocupado e venerado por centenas de anos. Não foi o nosso primeiro contato com essa etnia, mas certamente o mais esclarecedor. Já tínhamos dormido em um dos mais importantes trading posts dos Navajo, na saída do Grand Canyon. Depois, ao viajar entre Arizona e Utah, dirigimos por horas através de sua reserva e de paisagens belíssimas. Mas era só agora que tínhamos a oportunidade e tempo de aprender um pouco mais da história sofrida desse povo.
Mapa da Nação Navajo, em quadro exposto no Museu Navajo, no Monument Valley, no Arizona, nos Estados Unidos
Registros arqueológicos e estudos linguísticos indicam que os Navajo chegaram à região há cerca de 600 anos, vindos do noroeste da América do Norte. Chegaram como um povo nômade, mas o contato com os pueblos (vamos conhecer melhor essa cultura no Mesa Verde National Park, amanhã) os transformaram em um povo agricultor, principalmente de feijão e milho. Com a chegada dos espanhóis no México e o crescimento do comércio, agora os Navajo passaram a ser grandes criadores de cabras e ovelhas, assim como hábeis artesãos de algodão e lã.
Rain God Mesa, no centro do Monument Valley, no Arizona, nos Estados Unidos
Infelizmente, nem só de comércio se dava o “choque de civilizações”. Ao contrário, a principal faceta dessa relação era a guerra. Primeiro, contra os espanhóis, depois com os mexicanos e, por fim, com os novos senhores daquelas terras, os americanos. Enquanto com os dois primeiros, houve um certo equilíbrio de forças, com perdas e massacres para ambos os lados, contra os americanos e sua onda ocupatória e expansionista, o povo Navajo não resistiu mais de duas décadas. Novos colonos não paravam de chegar e, atrás deles, a cavalaria americana. Em 1863, os últimos bandos de Navajos foram derrotados e toda a etnia completamente subjugada. O que se seguiu foi um dos mais tristes capítulos da ocupação do oeste americano, a chamada “Long Walk”, ou longa marcha, em que 9.000 mil índios Navajo, a maioria mulheres e crianças, foram expulsos de suas terras ancestrais e obrigadas a caminhar cerca de 500 quilômetros até sua nova reserva, no Novo México. Foi um massacre, tanto a caminhada como o período em que ficaram em sua nova reserva, centenas deles sucumbindo à doenças e à fome generalizada. Por fim, quatro anos mais tarde, foi-lhes permitido retornar para uma área próxima do Monument Valley e, com o tempo, voltaram para cá também. Apesar de toda a área ser transformada em uma reserva, os conflitos com rancheiros e empresas de mineração continuaram por décadas, até quase a metade do século XX.
As belas paisagens do Monument Valley, no Arizona, nos Estados Unidos
A situação melhorou um pouco com a importante participação Navajo na 2ª Guerra Mundial. Os índios empregados no exército desenvolveram um código que jamais seria quebrado pelas forças japonesas. Imagina... se navajo já é difícil, imagina navajo em código! Os japoneses não tinham a menor chance. Com isso, as diversas divisões do exército podiam se comunicar por rádio e telex sem que suas mensagens fossem quebradas, Em cada regimento, um navajo para poder fazer a transcrição das mensagens!
Participação dos navajos na 2a Guerra Mundial, em quadro exposto no Museu Navajo, no Monument Valley, no Arizona, nos Estados Unidos
Hoje, eles são os senhores dessa terra, com seu próprio governo e até polícia. A língua e a cultura são valorizadas e um conselho tenta conciliar as ricas tradições com as exigências da sociedade moderna. As cicatrizes da opressão a que foram submetidos ainda estão aí, mas nenhuma sociedade pode sobreviver olhando apenas para o passado. Esse, claro, não pode ser esquecido, e é essa a função do museu que visitamos hoje. Mas são os desafios do século XXI e como dar oportunidade à nova geração que está crescendo, sem deixar que sejam navajos, mas ao mesmo tempo não fiquem presos ao passado que é a grande questão que se coloca. Para os Navajo, para os Maori, para os Guaranis ou para os Bosquímonos...
Carro de polícia da Nação Navajo, no Monument Valley, no Arizona, nos Estados Unidos
Autofoto durante viagem de Speyside à Crownpoint, em Tobago
Hoje é nosso primeiro aniversário de viagem! Há exatamente um ano, em 28 de março de 2010, iniciamos nossa jornada pelas américas. Uma viagem de carro para a Ilha do Mel, uma forma de homenagear o lugar mágico onde iniciamos nosso namoro e onde casamos, ao lado da praia e do mar que tanto amamos.
Esperando no aeroporto de Trinidad para o embarque para Sint Maarten
Este ano passou rápido. Muito rápido! O que nos deixa um pouco mais tranquilos é que ainda temos outros dois pela frente... Passamos boa parte dele explorando nosso próprio país. Nossa companheira Fiona nos levou através de 18 estados nas cinco regiões do país. Cerrado, caatinga, mata atlântica e tropical, desertos. Praias e montanhas, cachoeiras e cavernas. Paisagens belas e inesquecíveis. Outro dia, fiz o exercício de rever todas as nossas melhores fotos (o que pode ser feito no site). Cada uma mais bela que a outra. Foi emocionante. É até difícil acreditar que fizemos tudo isso.
Destinos por todo o Caribe (no aeroporto de Trinidad)
Além do Brasil, estivemos também em cinco países do Caribe, logo no início da viagem, na Flórida e também, agora recentemente, na Guiana Francesa e Suriname, os primeiros países para os quais viajamos com a Fiona. E agora, para fechar o ano, aqui em Trinidad e Tobago, de volta ao Caribe após quase um ano.
Mapa mostrando onde ficam as pequenas Leeward Islands no Caribe
Pois é, quis o destino que começássemos nosso segundo ano de viagem, assim como o primeiro, viajando por essas ilhas paradisíacas. Estamos agora no aeroporto de Trinidad, esperando nosso vôo para Sint Maarten. Viemos de Tobago logo cedinho, depois de devolver nosso carro no aeroporto. Os próximos vinte dias serão movimentados, viajando de ilha em ilha numa região conhecida como Leeward Islands. São vários "pequenos países", bem próximos entre si, todos bem pequenos, mas cada um com sua individualidade. Só espero conseguir ir em todos eles neste período.
Mapa mostrando as Leeward Islands
Os mapas neste post ajudam a dar uma idéia dos lugares onde pretendemos ir. O primeiro mostra aonde ficam, dentro do Caribe, estas pequenas ilhas. Pode-se ver também Trinidad e Tobago, bem ao sul. O segundo mapa mostra apenas as ilhas que pretendemos ir: Saint Martin e Sint Maarten dividindo a mesma ilha, no centro, devem ser a nossa base. Ao norte, Anguila. À leste, Saint Barth. Ao sul, as pequenas Saba e Sint Eustatius. E lá embaixo, a maior delas, a federação de St. Kittis e Nevis. Aos poucos, vamos falar de cada uma delas. Por fim, o último mapa mostra a ilha dividida entre a holandesa Sint Maarten, para onde estamos voando e a francesa Saint Martin, onde pretendemos dormir.
A pequena ilha dividida entre Saint Martin (França) e Sint Maarten (Holanda)
Depois de todas essas ilhas, no dia 16 de Abril, voltamos para Paramaribo para retomar nossa viagem terrestre que, neste segundo ano, deve nos levar de volta ao Paraná, pelo centro do Brasil (adeus, praias!) e de lá, através de Paraguai, Bolívia e norte da Argentina, até o Chile e Oceano Pacífico (olá, praias!). Depois, rumo ao norte, até os EUA e Canadá, aonde pretendemos chegar ainda neste segundo ano de viagem. Será um longo ano! Mas que, infelizmente, tudo indica, passará tão rapidamente como o primeiro. A nossa coleção de melhores fotos vai engordar mais um pouquinho...
Mergulhando na Laje de Santos - SP
Menos de duas horas após termos dormido, já estávamos de pé novamente. O destino, desejado já há tanto tempo: a famosa Lage de Santos, um dos melhores pontos de mergulho do sul do país.
A famosa Lage de Santos - SP
Mergulhar na lage não é fácil. Não que haja muitas dificuldades técnicas para o mergulhador. O problema maior é chegar lá. A Lage está a quase quarenta quilômetros da marina mais próxima e requer um longo tempo de navegação em mar aberto. Para valer à pena para as operadoras, os barcos devem estra cheios pois os custos de transporte são altos. Desse modo, normalmente, só há operação nos fins de semana e feriados, quando há mais mergulhadores interessados e disponíveis. O outro grande problema é o humor de São Pedro. Não pode haver muito vento, pois a nevegação é feita com barcos pequenos e rápidos em mar aberto. Resumo da ópera: não é todo dia que se vai para a Lage.
Preparando-se para o mergulho na Laje de Santos - SP
Nós, depois de muitas tentativas, finalmente estávamos indo. Com um pouquinho de sono, mas estávamos indo. No caminho, já no barco, através do rádio descobrimos que outros barcos, que saíram mais cedo do que nós estavam voltando, sem ter operado. Estavam com mergulhadores ainda inexperientes, e as condições do mar não estavam propícias para eles. Nosso barco seguiu em frente! Alguns passaram mal, pelo sacolejo. A recompensa deveria valer à pena!
Passando frio no mergulho na Laje de Santos - SP
Devidamente aparamentados, caímos no mar para um primeiro mergulho bem meia boca. A água estava fria, cerca de 19 graus e tínhamos feito a bobagem de não trazer nossa roupa de cima. Visibilidade razoável em alguns pontos, uma arraia, muitos frades e garoupas, além de peixes menores. Realmente, nada de especial. Para mim, um treino para a arte de fotografar em baixo d'água. Dentro dos limites da nossa máquina, vou melhorando. Para boas fotos de verdade, não tem jeito: precisamos de um equipamento dez vezes mais caro com muita, muita luz (flashes). Se não, sai tudo azul. Voltamos para o barco e eu só pensava, para me animar, naquela frase de um amigo mergulhador: "O mergulho, quando é ruim, é bom. Quando é bom, é uma maravilha!"
Peixe frade no mergulho na Laje de Santos - SP
Quase uma hora mais tarde, estávamos prontos para o segundo mergulho. Metade dos mergulhadores preferiu não ir, enjoados do mar ou com frio. A Ana até pensou, mas nunca tive dúvidas que ela mergulharia. Principalmente depois que lhe ofereceram emprestado uma segunda roupa. Desta vez, fui sem a máquina, para curtir mais o mergulho e já meio desanimado com as condições de visibilidade.
Arraia no mergulho na Laje de Santos - SP
Ledo engano! A Lage tem suas surpresas e nós tivemos uma enorme. O mergulho foi maravilhoso. Fomos para o outro lado, para o Cabeço das âncoras. Uma forte corrente trazia água mais quente e muito mais limpa. Centenas de peixes formavam enormes cardumes. Tartarugas, lagostas, estrelas do mar, enormes garoupas e peixes coloridos, tudo no meio de uma visibilidade que em alguns pontos chegou a trinta metros nos premiaram com um mergulho classe A! E eu, além de me maravilhar com as belezas do mar, só pensava na nossa máquina fotográfica...
Estrela do mar no mergulho na Laje de Santos - SP
Bom, assim é o mar. Nunca devemos menosprezar um mergulho, mesmo depois de um mergulho meia boca. Tudo pode mudar e nunca se sabe quem vai aparecer. Esse segundo mergulho com certeza fez valer todo o tempo de espera, a noite pouco dormida e a hora e meia de sacolejos para chegar lá.
Feliz após o belo mergulho na Lage de Santos - SP
Mais ainda, e é essa a idéia do projeto 1000dias, é o contraste das sensações de se estar um dia no meio de peixes e arraias em pleno oceano atlântico, 12 horas depois de ter estado no meio de uma agitada casa noturna em Santos, 36 horas depois de ter estado, em meio à neblina e frio, no alto da maior montanha da região sul do Barsil, 24 horas depois de ter estado no conforto de uma casa jantando com queridos entes familiares em Curitiba. E vamos que vamos que o Guarujá e a Serra da Bocaina nos esperam. Depois tem Ilha Grande, Rio, Serra dos Órgãos, Búzios, etc, etc, etc.
A orla de Santos vista do mar - SP
Fim de linha após descer no Sarcófago, no Beach Park, em Fortaleza - CE
Consegui resistir das outras vezes que estive em Fortaleza, mas desta vez a criança dentro de mim falou mais alto. "Vamos ao Beach Park!" - ela gritava sem parar. Aparentemente, a criança dentro da Ana fazia o mesmo. Aí... já viu, né?
Tobogãs do Beach Park vistos do alto da torre do Insano, em Fortaleza - CE
O dia chuvoso era a promessa que o parque não estaria tão abarrotado. Mas, ao chegarmos lá, vinte e poucos quilômetros ao sul da cidade, demos de cara com o esatcionamento de ônibus. Xiiiiii... dezenas deles! O estacionamento de carros estava mais animador. A resposta final só veio ao entrar no parque: realmente, não estava cheio. Oba!!!
Tobogã com o nome de Sarcófago, no Beach Park, em Fortaleza - CE
Cento e vinte reais mais tarde (cada um!), já estávamos lá dentro, olhando admirados os tobogãs gigantescos. Enquanto a Ana estreava o pré-pago novo justamente com o pai na loja da TIM em Curitiba para conseguir o nosso chip do pós-pago de volta, eu já corria escadaria acima para descer meu primeiro tobogã, chamado de Sarcófago. A gente despenca dentro de um túnel, não vê mais nada, coração na boca e, de repente, splash!, estamos na piscina lá embaixo! Uma delícia!
Tobogãs do Beach Park vistos do alto da torre do Insano, em Fortaleza - CE
Daí para frente, pelas próximas horas, ficamos nos divertindo pelos diversos tobogãs do parque, enfrentando pequenas filas próprias de um dia chuvoso. Apesar do risco das atrações serem fechadas se a chuva aumentasse, o que não ocorreu, acho que é muito melhor do que ir num dia ensolarado e ter de competir com outras centenas de pessoas a cada vez que for descer algum tobogã.
Despencando do Insano, tobogã com 41 metros de altura, no Beach Park, em Fortaleza - CE
Despencando do Insano, tobogã com 41 metros de altura, no Beach Park, em Fortaleza - CE
Sem dúvida, a maior (literalmente) atração é o Insano, tobogã com mais de 40 metros de altura onde se atinge uma velocidade de mais de 100 km/hora. Incrível! Insano! A gente chega que nem uma bala lá em baixo. E ainda tem a vantagem de ficar fazendo exercício para subir as escadas até lá no alto.
Fim do Insano: mergulho na piscina, no Beach Park, em Fortaleza - CE
Feliz da vida, depois de ter passado pelo Insano, no Beach Park, em Fortaleza - CE
Com tantos tobogãs e uma vontade de criança reprimida há mais de vinte anos, nem sobrou tempo para dar um pulo na praia, considerada a melhor de Fortaleza. Preferimos ficar até o último minuto nas atrações do parque. Se bem que, ao final da tarde, a idade já estava falando mais alto, sob a forma de dor nas costas e torcicolos. Um custo pequeno para a diversão que se tem por ali. Realmente, o único perigo são as filas, que hoje não atrapalharam.
Praia no Beach Park, em Fortaleza - CE
Voltamos satisfeitos para casa, dever de turista cumprido, todos os ossos quase no lugar e pensamento completamente focado em apenas uma coisa: o jantar, gentil presente de nossos padrinhos. Mas isso é assunto para o próximo post...
Beach Park, em Fortaleza - CE
Recepção de amigos na entrada de Curitiba
Cerca de 100 quilômetros nos separavam de Curitiba e do final dos 1000dias. Frio na barriga quando ligamos a Fiona e começamos a dirigir de volta para casa. O litoral logo fica para trás e chegamos à Serra do Mar. Num dia de céu azul como hoje, a vista dessa estrada é linda, a planície litorânea já embaixo, o contorno da costa e da baía de Paranaguá claramente visíveis, a Mata Atlântica nos cercando a cada curva, o ar ficando mais ralo e frio, os ouvidos estalando com a rápida mudança de altitude.
Início da subida da Serra do Mar em direção a Curitiba e ao fim dos 1000dias
Curva após curva, Curitiba vai ficando mais próxima. Já tinha feito esse mesmo percurso dezenas de vezes, mas nenhuma tão especial como hoje. Afinal, não é todo dia que chegamos em casa depois de uma viagem de 1.400 dias, quatro anos ou 175 mil quilômetros. A paisagem começa a mudar diante dos meus olhos. De repente, estou vendo geleiras, montanhas altíssimas, desertos, a floresta amazõnica. Passamos por uma represa, mas eu vejo o lago Titicaca. Ou serão os grandes lagos americanos? Aquilo que vejo voando no céu é uma pomba, gaivota, condor, águia ou albatroz? E o animal caminhando ao lado da estrada é um cão, uma onça, um urso ou uma rena?
Subindo a Serra do Mar, no Paraná, última viagem da Fiona nesses 1000dias
Pois é, lembranças de 1.400 dias intensos se embaralham na minha mente, real e irreal, presente e passado, tudo misturado diante dos meus olhos. Passamos pelo pedágio. A cobradora está falando português, inglês ou espanhol? Pelo visto, não é apenas os meus olhos que estão confusos, mas os ouvidos também. A Ana liga o rádio e parece que estou ouvindo as notícias da Islândia entremeadas com propagandas da Costa Rica…
O Virgilio, nosso leitor assíduo, nos surpreende e nos encontra de moto ainda na estrada em direção a Curitiba
Uma moto faz sinais insistentes para que paremos. Fará parte do sonho, da alucinação ou da realidade? Na dúvida, paro no acostamento. O motociclista para também e vem fazer festa. Nunca o havíamos visto antes. Pelo menos, em carne e osso. É o Virgilio, um fiel seguidor nosso nas mídias sociais. Será que estou dentro do facebook no mundo virtual?
Celebrando em restaurante a chegada a Curitiba e o fim ddos 1000dias
Que nada, é realidade mesmo. Um abraço forte e um tapa nas costas ainda não existem na internet. Pelo menos, até agora. O Virgilio quis nos fazer uma homenagem e nós já fomos ficando logo emocionados. Quer dizer, emocionado já estávamos, num crescente desde que batemos a mão lá em Ushuaia e começamos a voltar para casa. Aumentou quando entramos no Brasil e voltamos a falar português. Aumentou mais ainda quando entramos no Paraná há poucos dias, a última fronteira ficando para trás. Finalmente, hoje cedo, já a bordo da Fiona para os últimos 100 quilômetros, não havia mais como fazer o tempo parar. Tempo só anda para frente, infelizmente. Não é como nosso caminho pelas Américas, quando podíamos ir, voltar, ziguezaguear…
Reencontro com amigos na chegada final a Curitiba
Enfim, o abraço do Virgilio nos fez ver, ter certeza mesmo, que o fim estava logo ali, a poucos quilômetros de distância. Por falar em poucos quilômetros, logo encontramos uma turma grande de amigos que veio nos recepcionar na entrada da cidade. Pausa para fotos com direito até à bandeira do Brasil. Os olhos viam, os ouvidos escutavam, a mente acreditava, mas a alma não entendia: “como assim, acabou?”.
Reencontro com o pai na chegada a Curitiba
Divididos entre a emoção e a incredulidade, seguimos em caravana até um restaurante, Aí sim, com calma, sentamos, bebemos, conversamos, contamos histórias, respondemos perguntas. Revimos amigos e família. Revivemos os últimos quatro anos, Eles pareciam ter passado num instante. Não foi ontem que deixamos Curitiba? Será que chegamos mesmo ao Alaska? O odômetro da Fiona e as dezenas de milhares de fotos parecem indicar que sim. Mas… que mágica é essa que, depois de tanta coisa vivida, tantas experiências acumuladas, tantas situações passadas, estamos no mesmo lugar, com as mesmas pessoas? É, a ideia de que tenha sido tudo um sonho e nada mais do que um sonho também faz sentido…
Os longos cabelos brancos denunciam que o tempo passou nesses 1000dias...
Bem, um sonho tão bom e intenso como esse não pode simplesmente acabar. Quem sabe, um segundo capítulo, um filhote, um P.S? Apesar de termos visto tantas coisas do continente, outras tantas não vimos também. Elas parecem nos chamar, querem fazer parte desse nosso sonho. Pois é, o mais importante é manter essa chama do sonho acesa. Aproveitar cada oportunidade que a vida nos oferece. Essas chances estão lá, muitas vezes sem mesmo que a gente perceba. Mas agora, depois desses quatro anos, nossos ouvidos estão treinados para esse chamado.
Reencontro com amigos na chegada final a Curitiba
Um deles parece gritar já dentro de nossas mentes e já combinamos de ir atrás dele. Amigos espanhóis estão com viagem marcada para o Brasil. Nós vamos encontrá-los e cobrir uma grande lacuna que ficou da nossa passagem por terras cariocas e fluminenses. São Pedro não permitiu que nos aventurássemos em um dos parques com as paisagens mais belas do país. Falo da Serra dos Órgãos e da mítica trilha que atravessa o parque, ligando Petrópolis a Teresópolis. Na época, achei que ele estava de birra conosco. Que inocência! O bom velhinho foi sempre nosso amigo durante esses quatro anos e era eu que não o estava entendendo. Tudo o que ele estava fazendo era nos dar uma ótima, uma perfeita desculpa para cairmos na estrada mais uma vez. Afinal, um giro pelas Américas não será completo sem essa travessia. São Pedro, nosso mais sincero obrigado! O 1000dias terá o seu P.S, e logo estaremos na estrada novamente, rumo à Cidade Maravilhosa e à Serra dos Órgãos! O sonho não acabou!
Reencontro com amigos na chegada final a Curitiba
Roteiro do barco em Galápagos
Basicamente, existe três tipos de viagens à Galápagos. Para quem quer priorizar os mergulhos, há os live-aboards, roteiros de uma semana que nos levam aos melhores pontos de mergulho do arquipélago, com algumas rápidas excursões terrestres pelas ilhas. Para quem quer priorizar as ilhas, tours de uma semana, também em barco, levam aos pontos turísticos terrestres espalhados pelas diversas ilhas. No caminho, algumas oportunidades para snorkel. E há aqueles que ficam baseados em terra mesmo, fazendo tours diários para ilhas próximas ou mesmo mudando-se de uma ilha para outra, quando isso é possível. A grande desvantagem dessa última alternativa é que o alcance dos tours diários é muito pequeno e muitos dos lugares mais interessantes estão bem mais distantes.
Puerto Baquerizo Moreno, na Ilha de San Cristóbal, em Galápagos
Antigamente, era possível fazer uma mescla das duas primeiras alternativas, vários dias mergulhando e vários dias visitando ilhas. Mas a administração do parque não permite mais isso (???), então temos é de escolher mesmo, terra ou água. Para quem gosta de mergulhar, os melhores pontos estão nas distantes ilhas de Wolf e de Darwin, por onde passam os tubarões-baleia. A única maneira de chegar lá é nos live-aboard, o que, então, não nos deixa muitas alternativas. Os snorkels e mergulhos que são possíveis de fazer durante os tours terrestres não passam nem perto disso.
Prontos para o primeiro mergulho em Galápagos, perto do porto em San Cristóbal
Enfim, optamos pelo live-aboard. E para conhecer um pouco mais da parte terrestre, resolvemos ficar mais dois dias no arquipélago, depois que terminasse nossa semana no barco. Com esse plano, conseguimos ver o que há de melhor em mergulho em Galápagos e também várias das atrações terrestres, embora nesse quesito faltou ainda muito por ver.
Um preguiçoso leão-marinho nos dá as boas vindas à Galápagos, na Ilha de San Cristóbal
Começamos na Ilha de San Cristóbal, a chamada capital de Galápagos. É a ilha que fica mais perto do continente e onde está um dos dois aeroportos do arquipélago. No dia seguinte, já estávamos em Santa Cruz, a mais populada e explorada das ilhas, com várias atrações em terra. Aí, na única excursão em terra da semana, fomos conhecer as tartarugas gigantes que vivem na natureza, os enormes túneis cavados pela lava quando a ilha ainda se encontrava sobre o hot spot e também antigas caldeiras gigantes de lava, ao lado do vulcão extinto que domina a paisagem de Santa Cruz.
O mapa da Ilha de Santa Cruz, em Galápagos
Visitando os incríveis túneis de lava na Ilha de Santa Cruz, em Galápagos
Rumamos então para a desabitada Ilha de Santiago, para mergulhar com arraias e leões-marinho. De lá, numa navegação de mais de 24 horas, para as ilhotas de Wolf e Darwin, pontos altos do live aboard. As duas pequenas ilhas situam-se muito mais ao norte que as outras ilhas, são grandes rochedos que se erguem sobre o mar e tem uma formação distinta. Ao invés de vulcânicas, são o fruto da fricção entre duas placas tectônicas, a de Nazca e a de Cocos, o que fez com que elas se "levantassem sobre o mar. As ilhas são habitadas por milhares de pássaros, mas o desembarque não é permitido. Apenas barcos de mergulho chegam por ali, todos ávidos para ver leões-marinhos, tartarugas, cardumes de tubarão-martelo e tubarão de Galápagos e, o maior de todos, o pacífico e gigantesco tubarão-baleia.
Fim de tarde na selvagem Isla Wolf, em Galápagos
Quase três dias depois, voltamos para o sul, em direção a Ilha Isabel, a maior do arquipélago e com uma pequena população humana. Mas nosso interesse está embaixo d'água! Enfrentamos uma água gelada para ter a melhor visibilidade do arquipélago e poder observar polvos, arraias-manta e o exótico peixe-lua. Além dos pássaros, iguanas e pinguins.
Tubarões-martelo atravessam cardume de peixes em mergulho na Isla Darwin, em Galápagos
Ali do lado está a ilha de Fenandina, a mais nova de Galápagos e, dizem, a mais pristina, sem espécies introduzidas pelo homem. A ilha continua crescendo, para o alto e para os lados. A última erupção foi há 4 anos, e muitas mais virão, já que o hot spot é logo embaixo dela. Infelizmente, só pudemos vê-la de longe, mas as paisagens vulcânicas e a sensação de que a Terra está viva são mais fortes do que nunca. Para visitá-la, apenas nos tours de uma semana que visitam as ilhas.
Pôr-do-sol em Wolf, em Galápagos
O fantástico peixe-lua em mergulho na Isla Isabel, em Galápagos
De Isabel voltamos para Santiago, passando ao lado de pequena San Bartolomeu, uma pequena ilha vulcânica que possui uma das mais belas paisagens de Galápagos. Tão linda que resolvemos voltar num day-tour, assim que terminamos nossa excursão de mergulho. Nesta mesma noite, desembarcamos em Santa Cruz novamente e fomos nos instalar na maior cidade da ilha e de Galápagos, Puerto Ayora.
Barcos trazem turistás à Ilha de San Bartolomeu (próxima a Isla de Santiago), em Galápagos
No dia seguinte, voltamos para San Bartolomeu. O céu azul desse dia fez tudo ficar ainda mais lindo. Na nossa semana no barco, o tempo esteve quase sempre nublado, mas São pedro resolveu colaborar nesses últimos dias. No dia seguinte, ainda em Puerto Ayora, fomos caminhando para a maravilhosa praia de Tortuga Bay, boa para o surf e também para observar um dos símbolos de Galápagos, as iguanas marinhas.
Iguanas na Playa Mansa de Tortuga Bay, na Ilha de Santa Cruz, em Galápagos
Admirando a incrível Playa Brava em Tortuga Bay, na Ilha de Santa Cruz, em Galápagos
Finalmente, dia de partir, atravessamos Santa Cruz e cruzamos o canal para a pequena ilha de Baltra, onde está o outro aeroporto de Galápagos. Essa ilha foi cedida para os americanos na segunda guerra, que aí fizeram uma base para proteger o Canal do Panamá. As instalações foram cedidas ao governo equatoriano após a guerra e se transformaram na principal porta de entrada do arquipélago. Mas ninguém fica por aqui não. Quando chegam, ou vão diretamente para seus barcos ou para a vizinha Santa Cruz. Também, não haveria muito para ver, fora as ruínas de antigas instalações. A vida selvagem deixou a ilha há 70 anos, incomodada com o movimento da antiga base.
Embarque no aeroporto de Baltra, em Galápagos, de volta ao continente
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