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Zá :) (25/02)
Que lindo!!! Pena que a pedra da boca não é tão conhecida assim, e nem...
Luis (24/02)
oziel santos (23/02)
oi, moro em Apicum-Açu/MA bem pertinho de Lençós, fico feliz em saber...
Luis (22/02)
Meu caro, este é um lugar realmente inóspito! Certamente poucas pessoas...
Tatiana Queiroz (21/02)
Rodrigo, ainda bem que existem aventureiros para nos mostrar quanto lugar...
Maravilhoso pôr-do-sol nos alagados entre Roraima e Amazonas
Mais um longo dia de viagem pela frente, mais de 600 km entre os estados de Roraima e Amazonas, deixando Boa Vista e chegando em Presidente Figueiredo, a cidade das cachoeiras. Esse foi o nosso programa de hoje.
Placa com indicações para Manaus e Venezuela, em Boa Vista - RR
Assim, logo depois de um bom café da manhã, deixamos Boa Vista para trás. Engraçado dirigir numa cidade onde há placas que apontam para outros países. No caso da capital de Roraima, para dois países: placas para a Guiana e placas para a Venezuela. Por falar em Roraima, aí no sul nós costumamos dizer o nome de forma errada. Dizemos Rorãima, como se houvesse um "~" sobre o "a", coisa que não há. O certo é dizer Ro-rai-ma com o "a" da sílaba central bem aberto mesmo.
Vegetação e paisagem típicas do sul de Roraima, na viagem para Presidente Figueiredo - AM
A estrada entre os dois estados está sendo refeita e os primeiros 150 km estão um tapete. A partir daí, trechos com muitos buracos se alternam com trechos de terra. O ritmo cai e, para ajudar o tempo a passar, podemos admirar a bela paisagem do estado, com vastas planícies cheias de buritizais alagados e montanhas ao fundo. Uma vastidão! Quanta coisa para ser explorada. Há também muitas fazendas no caminho, principalmente de criação de bois.
Buritizal, muito comum no sul de Roraima, na viagem para Presidente Figueiredo - AM
Passamos pelo entroncamento com a Perimetral Norte, uma estrada planejada desde a década de 70 que ligaria o Amazonas ao Amapá, passando por Roraima e Pará. Uma estrada bordeando a fronteira norte do Brasil. Apenas algumas partes chegaram a sair do papel. Todos os mapas mostram que o trecho entre Roraima e o rio Trombetas, no Pará, existe. Para nós, seria uma mão na roda. Mas, por aqui, ninguém nunca ouviu falar dessa estrada. Na verdade, ela existe só até a fronteira com o Pará. Depois, não passa de um picadão. Nossa última esperança se esvaiu quando passamos nesse entroncamento e perguntamos num posto. Quem sabe na próxima geração? Bem, vendo pelo lado bom, a natureza e a floresta agradecem. Com certeza, a ausência de estradas ajudou bastante na conservação...
Um dos muitos grandes rios no o sul de Roraima, na viagem para Presidente Figueiredo - AM
Passado o entroncamento, seguimos ainda com estrada precária até o monumento que marca a passagem da linha do Equador. Estávamos de volta ao hemisfério sul! O monumento é meio mixuruca, nada comparado com aquele no Amapá. Mas é sempre legal cruzar o Equador. Linha imaginária, sentimento meio psicológico, eu sei. Mas é legal mesmo assim, hehehe. A próxima vez vai ser mais legal ainda, pois será no país que tem esse mesmo nome: Equador! Acho que lá para Setembro...
Marco da linha do Equador, durante viagem entre Boa Vista, em Roraima e Presidente Figueiredo - AM
Depois das fotos no meio do mundo, seguimos até a entrada da reserva indígena dos índios Waimiri Atroari, onde a estrada fica boa novamente. É uma grande reserva que começa em Roraima e vai até o Amazonas. São 130 km de asfalto para cruzá-la por inteiro. Na década de 70, quando a estrada foi construída, os índios não quiseram que ela atravessasse suas terras. O resultado foi trágico! Guerra contra o exército brasileiro. Num episódio muito pouco conhecido da nossa história, cerca de duzentos soldados foram mortos por flechas envenenadas. Obviamente que o número de índios mortos foi bem maior e a tribo quase foi extinta. Tudo por uma bendita estrada... Ao fim da guerra, muita negociação e a estrada foi construída. Mas ela só funciona durante o dia. Ninguém deve parar no meio da reserva e fotos e filmagens são fortemente desaconselhadas. Nossa... fico imaginando que os operários dessa obra devem ter pedido um bom adicional de periculosidade, não?
Entrada da reserva indígena entre Roraima e Amazonas
O sol estava se pondo enquanto atravessávamos a reserva. Logo depois de uma chuva, havia dois arco-íris incríveis do nosso lado esquerdo enquanto do lado direito, as cores do fim de tarde sobre os terrenos alagados e buritizais foram de uma beleza inesquecível. Talvez, o mais belo entardecer da nossa viagem até agora. Absolutamente fantástico!
Lindo arco-íris no finzinho da tarde, na estrada entre Roraima e Amazonas
Chegamos no escuro numa Presidente Figueiredo bem movimentada com o feriado de páscoa. Não foi fácil achar uma pousada mas, ao fim, conseguimos. E amanhã nos mudaremos para a Pousada das Pedras, que era onde queríamos ficar, do figuraça do Pimenta, conhecido de todos os viajantes descolados que passam por aqui. Logo o feriado acaba e teremos a tranquilidade de conhecer essa terra abençoada com tantas cachoeiras e cavernas.
Uma das barreiras sanitárias entre Roraima e o Amazonas
Mapa das Ilhas Virgens Americanas (USVI) e Britânicas (BVI)
Com aquela sensação já conhecida de estar deixando um lugar antes do tempo, deixamos USVI em direção à BVI (British Virgin Islands). Fazem parte do mesmo conjunto de ilhas, das tais 11 mil virgens de um delirante Colombo. São vizinhas tão próximas que fiquei com a sensação de que, se precisasse, poderia nadar entre elas. Interessante, nadar de um país ao outro... A viagem foi de Cruz Bay, em St. John para West End, em Tortola. De lá, um táxi para Road Town
A mudança de países não foi feita sem o tradicional stress de horários que sempre passamos... O ferry saía às 08:30. Vinte minutos antes, deixei a Ana e a bagagem no porto e voltei para a loja de carros, para devolver o nosso. A loja não estava aberta (deveria abrir às 08:00). Quando resolvi largar o carro lá mesmo e deixar a chave no nosso hotel, o cara apareceu. Cumpridas as formalidades, corri para o porto para não achar a Ana lá. Quem encontrei foi uma mulher que me disse que aquele era o porto errado, para viagens internacionais era outro. Que beleza! A Ana tinha arrumado alguém para ajudá-la com nossa gigantesca bagagem e já estava lá, no porto certo, me esperando. Como sempre, no fim, tudo termina bem.
Na verdade, nem tanto. A nossa máquina fotográfica, que tirou fotos lindas no dia anterior, mas que já vinha com um barulho estranho, deixou de funcionar.Aqui em BVI não conseguimos consertar. Vamos ver no Brasil... Portanto, fotos agora, só do celular.
Nosso primeiro dia por aqui foi muito jóia. Conto no post seguinte...
Chegando à Caleta Tortel, no sul do Chile
Hoje foi nosso primeiro dia de verdade na Carretera Austral, no sul do Chile. No post anterior falei bastante dessa famosa estrada e de como foi a nossa viagem de Cochrane até Villa O’Higgins, o pequeno povoado onde a rodovia termina e onde estamos agora. Mas deixei o relato da nossa visita à maior atração desse trecho, uma pequenina vila perdida no fim do mundo, para um post só dela. Estou falando da pitoresca Caleta Tortel.
O fiorde (caleta) onde está Caleta Tortel, no sul do Chile
Caleta Tortel, a cidade das passarelas, no sul do Chile
Com cerca de 400 habitantes, essa pequena cidade viveu praticamente isolada do mundo até o início desse milênio, quando um ramal da Carretera Austral chegou até ela. Antes disso, eram só barcos ocasionais da marinha chilena ou de alguma empresa madeireira que chegavam até lá, levando alimentos e recolhendo o principal produto da região, a madeira de uma espécie de cipreste muito comum aqui no sul do Chile.
Chegando à Caleta Tortel, no sul do Chile
Caminhando nas passarelas de Caleta Tortel, no sul do Chile
Caminhando nas passarelas de Caleta Tortel, no sul do Chile
“Caleta” em espanhol quer dizer “enseada” e foi exatamente numa enseada quase perdida em meio a um verdadeiro labirinto de canais, ilhas e fiordes que foi fundado o povoado de Tortel, no final da década de 50. Outras tentativas de povoamento ou de exploração econômica da área já haviam falhado antes, talvez pela dificuldade de acesso, talvez pela distância da civilização, mas a pequena Tortel resistiu dessa vez. A exploração de madeira, mesmo em um lugar tão isolado, mostrou-se rentável e o número de casas ao longo da encosta e de frente àquela pequena baía só foi aumentando.
Visita à Caleta Tortel, no sul do Chile
Cada passarela tem seu nome em Caleta Tortel, no sul do Chile
caminhando na passarela costeira de Caleta Tortel, no sul do Chile
Sem dinheiro ou recursos para grandes obras de engenharia para aplainar aquela enorme encosta ou destruir e densa vegetação, não foi possível construir ruas ou praças no povoado que crescia. A solução encontrada para se abrir caminho entre as casas foi dado exatamente pela mesma matéria-prima que havia atraído todos aqueles imigrantes para lá: o cipreste! Madeira resistente e de boa qualidade, a ideia foi construir passarelas com ela, da primeira à última das casas espalhadas pela encosta.
Em caso de tsunami, sempre é bom ir para cima! (em Caleta Tortel, no sul do Chile)
O mapa das passarelas de Caleta Tortel, no sul do Chile
Um "cruzamento de ruas" em Caleta Tortel, no sul do Chile
A ideia deu certo e, com o número de casas crescendo, algumas delas já subindo a encosta, as passarelas também começaram a subir o morro. E assim criou-se, com o tempo, talvez até inspirados pelo labirinto de canais ali em frente, um outro labirinto de caminhos de madeira. Ruas em formato de passarelas, ladeiras em formato de escadarias. Ideal para uma cidade que não tinha carros, apenas pedestres. Pouco mais de 50 anos após sua criação, eram mais de 6 quilômetros desses caminhos de madeira, desde o pequeno aeródromo recentemente construído até uma pequena praia mais distante, passando no caminho por cada uma das casas desse que é o mais pitoresco povoado chileno.
Um belo e tranquilo passarinho em uma árvore em Caleta Tortel, no sul do Chile
Um belo e tranquilo passarinho em uma árvore em Caleta Tortel, no sul do Chile
Por isso, todo o esforço para se planejar e implementar um ramal de 22 km partindo da Carretera Austral e atravessando um terreno de difícil construção até o alto da encosta que margeia a enseada onde está o povoado. A ideia era incentivar o turismo nessa verdadeira atração arquitetônica que só estava esperando ser descoberta. Os carros, obviamente, ficam lá encima enquanto os turistas se deliciam explorando as famosas passarelas de madeira em busca de um melhor ângulo, de flores ou plantas exóticas, de um bom restaurante, do contato com o mar ou simplesmente de exercício e ar puro.
Árvores florindo em Caleta Tortel, no sul do Chile
Uma pequena horta, também pendurada sobre as águas, em Caleta Tortel, no sul do Chile
Tempo de flores em Caleta Tortel, no sul do Chile
Quem visita Caleta Tortel logo se impressiona com o verde exuberante que nos cerca. É só quando vemos a foto de satélite que dá para perceber que, na verdade, é o branco que domina a região. O branco de algumas das maiores extensões de gelo no mundo fora das regiões polares. A simpática e pequena Tortel fica exatamente no meio do caminho entre os Campos de Gelo Sul e Norte, nascedouros de dezenas e dezenas de geleiras que escorrem para o Oceano Pacífico ou para os grandes lagos argentinos. Não é preciso muita imaginação para deduzir que, não muito tempo atrás, pelo menos em termos geológicos, também Caleta Tortel estava abaixo de uma camada de centenas de metros de gelo, senão milhares. Os dois campos de gelo formavam uma única massa branca até pouco mais de 10 mil anos atrás e os incontáveis fiordes e canais de mar na região de Tortel são exatamente a prova disso, caminhos abertos pelos titânicos rios de gelo que desciam dessa quase calota polar.
Trecho final da Carretera Austral, entre Cochrane e Villa O'Higgins. Note que Caleta Tortel fica justamente entre os Campos de Gelo Sul e Norte, na patagônia chilena
Hoje, ali embaixo, no conforto dos bosques e passarelas, na tranquilidade da pequena baía de águas calmas, não temos ideia dos gigantes que se escondem por trás das montanhas. E, para falar a verdade, nem é mesmo para lá que ficamos olhando com tanta coisa interessante ao nosso redor e bem mais perto. Eu e a Ana vencemos os 22 km do ramal de ligação, deixamos a Fiona lá em cima e viemos logo desfrutar desse tesouro escondido. Afinal, tínhamos um tempo limitado para voltar a tempo de alcançar a balsa em direção a Villa O’Higgins.
Visão da pequena Caleta Tortel, no sul do Chile, a cidade das passarelas
A passarela costeira de Caleta Tortel, no sul do Chile
Uma das "praças" de Caleta Tortel, no sul do Chile
Acho que por ter lido bastante sobre a charmosa vila antes de chegarmos, eu já imaginava ver ônibus turísticos estacionados no alto e dezenas e dezenas de turistas se acotovelando nas famosas passarelas. Nada como estar redondamente enganado! Talvez se estivéssemos nos EUA, Europa ou Japão. Mas não aqui, a mais de 1.000 km de distância da primeira autopista asfaltada que verdadeiramente mereça este nome. Ônibus turísticos são mercadoria raríssima por essas bandas! Que bom! Enfim, durante todo o tempo que estivemos em Tortel fazendo nossas explorações, não vimos mais do que dez turistas...
Passarela que leva à Playa Ancha, a praia de Caleta Tortel, no sul do Chile
Passarela que leva à Playa Ancha, a praia de Caleta Tortel, no sul do Chile
Visita à Playa Ancha, em Caleta Tortel, no sul do Chile
Nós descemos as escadarias até o nível do mar e fomos rodeando a encosta pela passarela principal. No caminho, há jardins, hortas suspensas e até praças. Mesmo elas, construídas sobre madeira suspensa sobre palafitas. Cães e gatos também caminham tranquilamente sobre os caminhos de madeira, como se isso fosse a coisa mais normal do mundo. talvez para eles, mas não para nós que visitamos pela primeira vez.
Passarela que leva à Playa Ancha, a praia de Caleta Tortel, no sul do Chile
Playa Ancha, a praia de Caleta Tortel, no sul do Chile
Aqui e ali, pegamos caminhos alternativos, passarelas que sobem um pouco para descer logo mais adiante. Vamos tentando nos orientar no pequeno labirinto. O importante é seguir um sentido e o nosso sentido era a tal “Playa Ancha”, o único lugar onde encostaríamos nossos pés em terra firme de verdade. Para chegar até lá, sempre nas passarelas, deixamos a cidade para trás, passamos por um terreno de relva onde vacas pastam tranquilamente e até por um canal onde a passarela se eleva para permitir a passagem de barcos.
A passarela mais alta para que o barco possa passar, em Caleta Tortel, no sul do Chile
Meio de locomoção em Caleta Tortel, no sul do Chile
O "carro da polícia" em Caleta Tortel, no sul do Chile
Falando em barcos, eles são o principal meio de locomoção, além dos pés, pela região. A pesca também é uma força econômica local, assim como passeios com turistas até geleiras próximas. Até o “carro da polícia”, por aqui, é um barco. É o único barulho de motor que se pode ouvir nas imediações.
Voltando de Playa Ancha para Caleta Tortel, no sul do Chile
Passarela atravessa região de bosques em Caleta Tortel, no sul do Chile
A chegada da estrada e dos turistas vêm trazendo suas modificações para Tortel. De novo, em bem menor escala do que eu havia imaginado. Já há pousadas e restaurantes para esse novo público, mas são em pequeno número. Alguns artistas e ecologistas se mudaram para cá em busca de inspiração, mas ainda pouco mudaram a “fauna” local. O mais comum é ainda ver pescadores ou lenhadores caminhando pelas passarelas, muito mais entretidos com seus próprios afazeres do que conosco, forasteiros.
Lã de carneiro secando em varal, em Caleta Tortel, no sul do Chile
Arquitetura charmosa em Caleta Tortel, no sul do Chile
E assim, Caleta Tortel continua charmosa como sempre. Agora, ao alcance dos viajantes, que se deliciam com sua arquitetura especial, admiram a simplicidade da vida e se deleitam com uma taça de vinho tendo como cenário a pequena baía que, até ontem, era perdida do mundo e, até anteontem, escondia-se sobre um lençol de gelo. Vamos ver como estará amanhã...
Arte nas passarelas de Caleta Tortel, no sul do Chile
Fazenda do Aroldo e Ana Elisa em Perdões - MG
Ontem, dia 5, o dia amanheceu bem chuvoso. Perfeito para ficar em casa, lendo um jornal ou livro. Ou então para viajar e não perder um dia de sol dentro do carro. A Lalau e filhos já tinham partido no dia anterior e o Guto e família logo cedo. Restava a Gogóia, Tio Carlos, Chico e Luisa para nos desejar boa viagem quando apareceram o Betinho e a Cláudia para nos dar um alô e conhecer a Fiona. Desse modo, a despedida ficou ainda mais calorosa.
Despedida de Poços de Caldas (Gogóia, Cláudia, Betinho, Chico e Luisa
O destino da viagem de ontem era Perdões, pequena cidade no sul de Minas, à beira da rodovia Fernão Dias. A prima Ana Elisa e seu marido, o Aroldo, têm uma fazenda lá (ou aqui!). Faz tempo que a gente queria conhecer e não poderia haver melhor hora. A chuva nos acompanhou durante toda o trajeto mas a Fiona manda bem na água, dando muita segurança. Enquanto a Ana dormia (seu passatempo predileto durante as viagens de carro) eu relembrava com carinho aquele trajeto tão conhecido da infância. Durante os primeiros treze anos da minha vida, umas quatro vezes por ano, junto com pais e irmãos, viajávamos os 450 km de Belo Horizonte à Poços de Caldas. Uma longa viagem para um criança que, junto com os irmãos, inventava os mais diversos passatempos para, justamente, passar o tempo da viagem. À bordo de um possante Dodge e dos braços firmes do meu pai, eram cerca de 5 horas de viagem. Isso quando o carro não quebrava no meio do caminho, especialmente quando, por a família ser tão grande, trocávamos o Dodge por uma C-14. Pois bem, ontem refizemos parte desse trajeto tão conhecido na distante década de 70. A enorme torre da igreja de Elói Mendes continua lá, como que para dizer que o tempo não passa!
Aqui chegando fomos recebidos pela Ana Elisa. O Aroldo, por coincidência, estava terminando uma cavalgada até Carrancas, para onde devemos seguir amanhã. Fomos logo na casa da Tia Marlúcia, mãe da Nê (Ana Elisa). Ela acabou de se mudar para uma casa antiga, pé direito alto, muito legal. Ver essa minha tia sempre reaviva, de novo, as memórias da infância. Para quem me conhece e sabe o quão nostálgico eu sou vai saber que isso sempre me faz muito bem, reviver memórias...
Fazenda do Aroldo e Ana Elisa em Perdões - MG
Avestruz e Mula dividindo o mesmo pasto na fazenda em Perdões - MG
De lá seguimos para a fazenda da Nê, pertinho de Perdões. O ar não poderia ser mais campestre: vacas, cavalos, mulas, galinhas, casas de fazenda. O toque mineiro é o relevo, morros para todos os lados. E, além do toque mineiro, há também um toque africano: um casal de avestruzes num pasto bem em frente à sede da fazenda. A gente ficou se escondendo do frio na aconchegante cozinha com seu forno à lenha, bebericando uma cerveja. Vidinha bem difícil, principalmente o almoço de comida mineira feito nesse fogão tradicional.
Fogão de lenha na cozinha da fazenda em Perdões - MG
Mais tarde o Aroldo chegou e nos encontramos todos na cidade, para uma visita à casa de festas que eles possuem no centro (que bela estrutura!). Além de poder usar a internet de lá (na fazenda não há), ainda nos divertimos na boate, totalmente VIP para nós, o Aroldo de DJ.
Finalmente, o jantar foi uma das especialidades da região: Traíra sem espinhos. Acompanhada de feijão tropeiro e outras mineirices, uma delícia! Restou desabar na cama, dormir e acordar com barulho de fazenda. Coisa melhor não há.
Hoje cedo, enquanto o Aroldo e a Nê foram a um batizado eu e a Ana aproveitamos o dia ensolarado para tirar fotos da fazenda. Além de trabalhar um pouco. De tarde, vamos passear. Carrancas ficou para amanhã cedinho.
Avestruz na fazenda do Aroldo e Ana Elisa, em Perdões - MG
Rodrigo fotografando o avestruz na fazenda em Perdões - MG
Casal de avestruzes na fazenda do Aroldo e Ana Elisa, em Perdões - MG
Os dois mais famosos revolucionários mexicanos (em Guadalajara, no México)
Aproveitei o dia tranquilo de hoje em Tlaquepaque para trabalhar um pouco na internet e também me ilustrar sobre a Revolução Mexicana. Ficamos curtindo nosso hotel gostoso até o início da tarde para, só então, sairmos da caverna para comermos e passearmos pelas ruas gostosas do bairro.
Praça de Tlaquepaque, bairro de Guadalajara, no México, lotada num domingo
Domingão, praça cheia por aqui. Artistas de rua tentando fazer o ganha-pão da semana, público animado em volta mas, dinheiro que é bom, pouco. Ao redor da praça, quem faz a festa são os vendedores ambulantes de comida. Toda sorte de pratos e petiscos mexicanos a venda, mas é o milho que faz mais sucesso.
Apresentação em praça de Tlaquepaque, bairro de Guadalajara, no México
Na praça dos restaurantes, ao lado da praça da igreja, quem está à toda são as bandas de mariachis. Encostam-se às mesas, oferecem seus “serviços” (uma música cantada com muita empolgação) e, num dia como hoje, sempre conseguem clientes. A demanda é granda, mas a oferta também. São várias bandas disputando o espaço e os ouvidos. De longe, só se ouve a soma de todas elas, um som confuso e indefinível que soa como México.
Mímico faz sua apresentação dominical em praça de Tlaquepaque, bairro de Guadalajara, no México
Ali do lado está a rua peatonal com suas lojas, restaurantes mais finos e galerias de arte. A gente segue junto com o fluxo, mas nos desviando do fluxo contrário. À nossa frente, um memorável entardecer. Ao lado, vamos alternando visitas a galerias com um olhar atento nos menus dos restaurantes. Escolhemos um para jantar mais tarde, nossa despedida com estilo desse bairro tão fascinante.
Espetos de milho vendidos em praça de Tlaquepaque, bairro de Guadalajara, no México
Mas antes disso ainda temos tempo para vagar pelo bairro, tirar fotos, observar pessoas, admirar casas e construções antigas. Tempo também para pensar sobre o turbulento período da história do país entre 1910 e 1920, a década da Revolução Mexicana, com mais de 2 milhões de mortos.
Igreja em Tlaquepaque, bairro de Guadalajara, no México
Difícil resumir algo que mal compreendi. São dezenas de personagens que ora são aliados, ora são inimigos, envolvidos num sem fim de batalhas, alianças, tramoias, traições e assassinatos. Entre boas intenções e ambições pessoais, o México foi se arrastando por uma década de guerras que, definitivamente, mudou a cara do país.
Rua das galerias de arte em Tlaquepaque, bairro de Guadalajara, no México
Tudo começou para desalojar do poder Porfírio Diaz, que lá havia estado por mais de 30 anos. O cara-de-pau sempre foi contra a reeleição, mas através dela foi se perpetuando na presidência. O seu regime, conhecido como “porfiriato”, trouxe estabilidade política ao país ao mesmo tempo em que o modernizava economicamente. Mas, socialmente, foi uma lástima. A concentração de terras e as diferenças sociais nunca foram tão grandes. Por fim, ao fraldar mais uma eleição, em 1910, conseguiu unir contra ele revolucionários das mais distintas matizes.
Área de barzinhos em Tlaquepaque, bairro de Guadalajara, no México
Entre tantos nomes, dois se destacam: Pancho Villa e Emiliano Zapata. O primeiro, um bandido fanfarrão que caiu nas graças do povo e foi transformado em revolucionário pelos acontecimentos. O segundo, esse sim um revolucionário legítimo, talvez meio sério demais, é dele o jargão “Tierra y libertad!” e a frase “Mais vale morrer de pé do que viver de joelhos!”. Entre os grandes feitos de Pancho está a invasão dos Estados Unidos, quando atacou a cidade de Columbus, no Novo México. Os americanos passaram quase dois anos caçando o simpático bandido pelo norte do México, mas levaram um baile.
Produtos à venda nas galerias de Tlaquepaque, bairro de Guadalajara, no México
Os dois “heróis”, assim como todos os outros grandes nomes do período morreram antes que o período revolucionário terminasse. Ou assassinados, como foi o caso de Villa e Zapata, ou no exílio, como foi com Porfírio Diaz e o General Huerta, o golpista que havia assassinado Madero, presidente que sucedeu Porfírio. Entre os assassinados também estão Carranza e Obregón. Todos esses nomes foram, em algum momento, amigos ou inimigos entre si.
Produtos à venda nas galerias de Tlaquepaque, bairro de Guadalajara, no México
Ao final de tanto sangue, ao menos, o México passou por uma grande reforma agrária, os indígenas e as mulheres tiveram parte de seus direitos reconhecidos e a Igreja Católica perdeu o grande poder que tinha até então. A contrapartida foi que o México ficou com apenas um partido político de verdade, por mais de 50 anos. Um partido cujo nome é uma contradição em termos: Partido Revolucionário Institucional. Vai entender...
Pôr-do-sol na rua peatonal de Tlaquepaque, bairro de Guadalajara, no México
Bem, chega de elucubrações, viva México! Um brinde com vinho no restaurante delicioso que encontramos ao país, à cidade que estamos e ao bairro que nos acolheu. Amanhã, o brinde será com outra bebida. Vou dar uma pista: o nome da cidade é... Tequila!
Posando para fotos em Tlaquepaque, bairro de Guadalajara, no México
O bonde de Santa Tereza, no Rio de Janeiro - RJ
A frente fria finalmente chegou por aqui. E parece que veio para ficar por um bom tempo. Ontem e hoje os dias foram nublados, alternando momentos de chuvisco com momentos de mormaço. Com a previsão desse jeito resolvemos trocar nossa caminhada na Serra dos Órgãos, entre Petrópolis e Teresópolis, por mais alguns dias por aqui. Melhor chuva no Leblon e Ipanema com um apartamento agradável para ficar do que chuva na montanha, carregando uma mochila e dormindo numa barraca. Uma pena, mas foi o melhor a fazer...
Aqui no Rio, passeamos pela orla e pelas movimentadas ruas da zona sul, encontramos e socializamos com amigos. Ontem de noite, estivemos no Belmonte do Leblon, com o Fabinho, Denize e Carlos.
Night no Belmonte do Leblon, no Rio de Janeiro - RJ, com o Carlos
Hoje, fomos passear no charmoso e tradicional bairro de Santa Tereza. Ao mesmo tempo que tem a alma completamente carioca, parece que estamos em outra cidade. Nada a ver com o centro, com Ipanema, com a Barra ou com a Lapa. É incrível a diversidade de bairros no Rio. cada um deles mereceria alguns dias de explorações.
Vista a partir de Santa Tereza, no Rio de Janeiro - RJ
Em Santa Tereza, apesar da chuvinha chata, ficamos num restaurante jóia com varanda com vista para o vale. A tarde passou bem devagar. Presença de muitos gringos, assim como em todos os outros bairros que estivemos por aqui. Não só turistas, mas também muitos que agora vivem na cidade. A gente os vê passeando com seus cachorros, fazendo compras em supermercados, frequentando bares por aí. O Rio vai ficando mais internacional, a olhos vistos. Imagino que até a Copa e a Olimpíada isso só vai aumentar. É o mesmo sentimento que tinha andando em Londres ou NY. Só que agora é no Brasil. Sentimento ambíguo, meio que de orgulho mas também com uma certa sensação de invasão. Xenofobia? Só me faltava essa...
Com o Fabinho em Santa Tereza, no Rio de Janeiro - RJ
Bem, amanhã, adeus ao Rio. Seguimos litoral acima. Próxima parada: Búzios. Qualquer mormaço já será muito bem vindo!
Bancos de areia no rio em Mangue Seco - BA
A grande maioria dos turistas que vem para Mangue Seco, vem apenas para passar o dia. Na verdade, nem o dia, pois chegam no meio da manhã e já partiram no meio da tarde. Vem de Aracaju, do Sauípe, da Praia do Forte e até mesmo de Salvador.
Bugues carregados de turistas chegam em Mangue Seco - BA
Pois não é que eles perdem exatamente o melhor da festa que é a tranquilidade do final de tarde, a beleza do pôr-do-sol e a serenidade da noite estrelada! É uma pena para eles, mas uma grande felicidade para os afortunados que aqui ficam até o final do dia.
Homenagem à Tieta, nas dunas de Mangue Seco - BA
Tive essa mesma sensação em Boipeba quando passamos alguns dias maravilhosos na pequena Moreré e quando fomos embora, ao pegar um barco na vila de Boipeba percebemos que aquela confusão na hora do almoço era tudo o que os turistas que vem de Morro em excursão conhecem daquela ilha maravilhosa. Bom, cada um, cada um...
Sombra e água fresca na praia em Mangue Seco - BA
Hoje eu e a Ana tivemos o da que pedíamos à Deus fazia tempo: simplesmente, fomos para a praia maravilhosa e lá ficamos o dia inteiro sem fazer nada além de ler, palavras cruzadas, pequenas caminhadas, muitos mergulhos refrescantes, cerveja gelada e água de côco. Vidinha totalmente estressante. Bom, falando sério, a única coisa mais "agitada" era quando passavam as dezenas de bugues carregando os turistas de day-trip. Era só eles passarem e o sossego voltava a reinar.
Fazendo cooper na praia em Mangue Seco - BA
O mar é daquele tipo que adoramos, cheio de ondas, que vai afundando aos poucos. Água quente, claro. Praia enorme, se extendendo até onde a vista alcança. Ladeado de coqueiros e dunas brancas. Cenário de cinema. Ou de novela. Tiêta que o diga...
Final de pescaria em Mangue Seco - BA
O pôr-do-sol foi de cima da duna. Maravilhoso, se pondo em cima do rio que separa a Bahia de Sergipe. Do outro lado, a lua quase cheia iluminava o encontro do rio com o mar. E também uma cabana construída num banco de areia no meio do rio. Cena idílica total!
Admirando o fim de tarde em Mangue Seco - BA
Posto o sol, era hora de correr duna abaixo, iluminado pela lua cheia. Uns trinta metros de altura, inclinação de uns 50 graus. Sensação de voar, de liberdade, de sonho. Quando chegamos lá embaixo, demos pela falta de nossas havaianas. "Hmmmm..." - pensei - "é o destino conspirando para que eu tenha o prazer de descer de novo!". Bom, antes de descer de novo, tive de subir de novo! Os quinze segundos de descida se transformam em árduos três minutos de subida. Lá estavam os chinelos, sem entender nada, largados ao leo. Uma última visão do lindo visual, do rio prateado pela lua e nova descida mágica, poucos segundos de êxtase e vontade incontrolável de gritar.
Lua quase cheia em Mangue Seco - BA
Uma bela despedida do mar. Um mergulho no sertão nos espera. Mar de novo, só daqui a três semanas, em pleno Oceano Atlântico, na paradisíaca Fernando de Noronha. Até lá, muita estrada, muito interiorzão. E vamos começar em grande estilo: Chapada Diamantina, aí vamos nós!
Pôr-do-sol do alto da duna em Mangue Seco - BA
Com nossos amigos franceses no cume do Pico Duarte, na República Dominicana, o ponto mais alto de todo o Caribe
O dia 27 foi de deslocamentos, mas ainda conseguimos chegar a tempo de, no final da tarde, acertar toda a estrutura de nossa caminhada no dia seguinte ao ponto culminante do Caribe: o Pico Duarte, na República Dominicana. Saímos cedinho de Cap-Haitiens, ainda no Haiti, em direção à Santiago, a segunda maior cidade da República Dominicana. Viagem tranquila e confortável, com direito a um café da manhã que foi um macarrão apimentado. Nossos estômagos e cérebros começam a se acostumar com essa esquisitice de comer macarrão logo de manhã. Passamos sem problemas pela fronteira, mudamos o “canal” de francês para espanhol e chegamos à Santiago. Aí, descemos do nosso ônibus internacional e, meia hora mais tarde, já estávamos em outro em direção à La Vega. A ideia era pegar um terceiro ônibus para a cidade de Jarabacoa, uma espécie de Campos do Jordão daqui, mas as passagens já estavam esgotadas e teríamos de esperar mais de duas horas até o próximo. Sem tempo a perder, pagamos um táxi mesmo e, 30 minutos mais tarde chegávamos a cidade mais alta do país, cercada de montanhas, rios e cachoeiras.
Macarrão bem temperado, nosso café da manhã no ônibus de Cap-Haitien (Haiti) para Santiago (Rep. Dominicana)
Nosso caminho de ônibus de Cap-Haitien (Haiti) para Santiago (Rep. Dominicana). Daí, outro ônibus para La Vega (C) e um taxi para Jarabacoa (D). Finalmente, uma carona para Cienega (E), onde começa a trilha para subir o Pico Duarte
Uma dessas montanhas é o Pico Duarte e foi ele que nos fez vir até aqui. Trata-se da mais alta montanha do Caribe, superando os 3.080 metros de altitude. Mais alto do que qualquer montanha no nosso gigantesco Brasil! Desde que iniciamos os 1000dias, sabíamos que, um dia, chegaríamos aqui. Esse dia chegou e agora, só faltava arrumar um esquema para subi-lo. A montanha fica no interior de um parque nacional e só se entra lá acompanhado de um guia. Além disso, para quem pretende fazer a caminhada até o pico, se insiste muito para que se leve uma mula. A ideia é que, caso algo passe lá encima, é muito mais fácil e barato trazer uma pessoa para baixo com a mula do que organizar um resgate. Desse modo, praticamente todo mundo sobe com a mula, chamada carinhosamente de “amulância”. Também recomenda-se muito uma segunda mula, para carregar o peso para o alto. Mochilas, barraca, sacos de dormir, comida, tudo isso vai no lombo dela. Os visitantes carregam sua máquinas fotográficas, alguma água e só.
Arrumando as mulas para a subida do Pico Duarte, na República Dominicana
Último descanso antes do início da trilha do Pico Duarte, na República Dominicana
Isso tudo já tínhamos lido nos livros e, assim que chegamos à Jarabacoa, procuramos uma pessoa para nos ajudar a organizar tudo. Acabamos encontrando o Ramón, vulgo Moche, que nos explicou detalhadamente como se dá o passeio. Acertamos um preço com ele e ele providenciou as mulas, o guia, nossa comida e sacos de dormir. Para nós, restou simplesmente o trabalho de acordar bem cedo no dia seguinte (ontem) e de caminhar montanha acima.
Mapa de ascensão do Pico Duarte, na República Dominicana
Ainda com o dia escuro, o Moche nos apanhou no nosso hotel em Jarabacoa e seguimos para Cienega, a pequena vila que fica ainda mais alta nas montanhas e onde está a entrada do Parque Nacional. Aí, fomos recebidos com um café da manhã e pelas mulas e guia que nos ajudariam nesse empreitada. Eram cerca de 8 da manhã quando pusemos o pé na trilha.
Descanso na trilha do Pico Duarte, na República Dominicana
Encruzilhada na trilha do Pico Duarte, na República Dominicana
São cerca de 25 quilômetros de caminhada da entrada do parque até o cume do Pico Duarte. Quase dois quilômetros de desnível, dos 1.100 metros de Cienega até os 3.087 metros do cume. Considerando que há vários sobes e desces no caminho, na verdade são bem mais de dois mil metros que subimos. Para quem começa cedo como estávamos começando, a programação mais comum é chegar até o refúgio que existe num lugar chamado “La Compartición”, a 2.450 metros, e dormir por aí. Na manhã seguinte, com o dia nascendo, acelerar até o pico para aproveitar as primeiras horas da manhã, quando a chance de bom tempo é maior. Depois da conquista, para baixo, com toda a ajuda da gravidade, até a entrada do parque.
Muita névoa na subida do Pico Duarte, na República Dominicana
Muita névoa na subida do Pico Duarte, na República Dominicana
Na verdade, as maiores agências que organizam excursões até o pico até o fazem com um dia a mais. Não começam tão cedo e a primeira noite é passada ainda em Los Tablones, pouco abaixo dos 1.300 metros. Mas nós, como sempre com pressa, começando cedo, com duas mulas e um guia para nossa ajudar, estávamos mais do que resolvidos em fazer em apenas dois dias e uma noite lá encima.
Refúgio para os alpinistas que sobem o Pico Duarte, na República Dominicana
Refúgio para os alpinistas que sobem o Pico Duarte, na República Dominicana
E lá fomos nós, quase sem peso, montanha acima. Passos largos, aproveitando o início da triha que sobe apenas suavemente, sempre ao lado de um rio caudaloso. O nosso guia vinha uns minutos atrás, tranquilão, montado em uma mula e trazendo a outra. O caminho é muito fácil de ser seguido, com apenas uma bifurcação, mas que está muito bem sinalizada.
Último trecho para chegar ao cume do Pico Duarte, na República Dominicana
O cume da montanha mais alta do Caribe, o Pico Duarte, na República Dominicana
Quando finalmente começamos a subir de verdade, deixando o rio para trás, encontramos um casal de franceses que tínhamos procurado bastante ontem, lá em Jarabacoa. Na nossa procura por guias, ontem, ficamos sabendo que havia esse casal procurando também. Tentamos achá-los, para dividir os custos, mas não conseguimos. Agora, lá estavam eles, o Jean e a Martine, também com seu guia e suas mulas. Casal muito interessante, proveniente da região dos Alpes, amantes da natureza e das caminhadas. Estão na faixa dos 50 e poucos anos, mas caminham muito bem. Também, com o “quintal” que têm em sua casa...
Neblina cobre a floresta no alto do Pico Duarte, na República Dominicana
A 3.080 metros de altitude, em meio à neblina, junto com o Duarte, no alto da montanha mais alta do Caribe, na República Dominicana
Acabamos por nos juntar, os quatro, enquanto os dois guias (e as quatro mulas) seguiam juntos um pouco atrás. Ela falava inglês, mas apenas arranhava o espanhol. Ele, só no francês mesmo. De modo que, mesmo de volta à república Dominicana, tratei de prtaicar o francês novamente.
No refúgio no fim de tarde, esquentando-se na fogueira (trilha do Pico Duarte, na República Dominicana)
Cozinhando nosso jantar no refúgio em Compartición, pouco abaixo do Pico Duarte, na República Dominicana
A caminhada que havia se iniciado com uma chuva fina, agora era entre as nuvens, as florestas cobertas por uma névoa que lhes emprestava um ar fantasmagórico. Ficamos em a paisagem distante, mas o ambiente próximo era fabuloso. Além disso, a ausência de sol facilitava bastante a subida, a altitude subindo para cima dos 2 mil metros.
Fogueira noturna, no refúgio um pouco abaixo do Pico Duarte, na República Dominicana. O pé que aparece na frente é o do Rodrigo, tentando esquentá-lo ao fogo!
Com tanta conversa interessante, as etapas foram passando rapidamente. Houve a esperada parada do lanche, cruzamos com muita gente descendo (muitos dominicanos tinham aproveitado o feriado para caminhar nas montanhas) e finalmente o tempo começou a se abrir, revelando um mar de montanhas à nossa volta.
O dia nasce um pouco antes de chegarmos ao cume do Pico Duarte, na República Dominicana
A caminho do cume do Pico Duarte, na República Dominicana, com o dia nascendo
Depois de chegarmos quase aos 2.700 metros, a mais longa descida da trilha (pelo menos na parte da ascensão!) até o refúgio em La Compartición. Era um pouco depois das duas quando lá chegamos. O refúgio, que havia estado bem cheio na noite anterior, agora só estava com um grupo de 10 pessoas, amigos que haviam subido até o cume durante o dia e resolveram dormir por lá mais uma noite, para voltar no dia seguinte. Conversei rapidamente com eles e descobri que não havia mais ninguém lá no alto. Além do mais, disseram-me que, caminhando rápido, eram pouco mais de uma hora até o cume do Pico Duarte.
A bela visão que se tem quase ao chegar ao cume do Pico Duarte, na República Dominicana
As montanhas que cercam o Pico Duarte, na República Dominicana
Foi o bastante para tomar minha decisão. Esperei um pouco por lá, esperando que a Ana e o casal de franceses chegassem, aproveitando para recuperar o fôlego. A Ana ficou meio na dúvida se atacaria o pico hoje também, mas achou melhor ficar no acampamento mesmo. Eu parti em ritmo acelerado para cima, cerca de cinco quilômetros e 600 metros de ganho de altitude.
Junto com o Duarte, no cume da montanha que leva o seu nome, na República Dominicana
Levei apenas uma jaqueta para chuva e a máquina fotográfica, além de uma garrafa d’água enchida em uma das fontes puras e deliciosas ao lado do acampamento. Foi só na metade do caminho que lembrei que deveria ter trazido algo para comer também. Ao menos, uma barra energética. Mas, enfim, não tinha levado e era melhor não pensar na fome. Se bem que não era exatamente fome que eu sentia, mas a minha energia acabando, o final da “bateria”.
No ponto mais alto do Caribe, o Pico Duarte, com 3.080 metrtos, na República Dominicana
Segui no orgulho, bem menos resistente que havia imaginado, mas em 55 minutos estava lá encima, no ponto mais alto do Caribe. Eu e a estátua do Duarte, o herói da independência dominicana dos haitianos, 170 anos atrás. Uma densa neblina nos envolvia e por bem poucos momentos ela se abriu para eu poder ver algo da paisagem. Mas não era atrás de vista que eu estava, mas da sensação de estar ali, solo, naquele lugar tão especial. Foi muito legal!
Vista do alto do Pico Duarte, na República Dominicana
Vista do alto do Pico Duarte, na República Dominicana
Junte a emoção e a falta de energia e eu resolvi sentar um pouco no pedestal do grande Duarte. Dois minutos depois, eu já sonhava profundamente. Sonhos especiais, muita natureza, alturas e liberdade. Bem combinado com o lugar que estava. Vinte minutos depois, acordei no susto, sem saber exatamente onde estava. Foram uns dois minutos pensando, tentando organizar os pensamentos e ideias e separá-los dos sonhos. Por fim, me achei no tempo e no espaço e vi que estava mais do que na hora de voltar, para não caminhar no escuro. Disse um até logo ao cume a à estátua e desci para o refúgio.
No alto do Pico Duarte, na República Dominicana
Lá cheguei recebido de braços abertos por todos, impressionados com a façanha. É que a Ana já tinha feito a maior propaganda, esposa coruja! Melhor foi a enorme fogueira que tinham armado, a fonte de calor que eu tanto ansiava, em meio ao frio que começava a apertar. Para completar, comida quentinha que os guias tinham preparado. Todos já tinham comido, mas a Ana providenciou um prato para mim. Ali, na frente da fogueira, comida saborosa e quentinha, ótima companhia, não precisava de mais nada!
Umidade presa nas teias de aranha parecem flores! (trilha do Pico Duarte, na República Dominicana)
Com nossos amigos franceses, voltando do cume do Pico Duarte, na República Dominicana
Não fomos dormir tarde, já que o plano era madrugar para ir ao pico, nós quatro e um dos guias. O outro ficaria no refúgio, para nos aguardar com um café da manhã caprichado. No escuro ainda, todos com lanternas na cabeça, começamos a caminhar. O céu agora estava limpo e brilhava uma bela lua. Tão forte que quase já não precisávamos das lanternas.
Mulas descansam na área do refúgio do Pico Duarte, na República Dominicana
Planta na trilha do Pico Duarte, na República Dominicana
Agora que eu já sabia o caminho e na companhia da esposa e amigos, muita conversa para esquentar e distrair, foi infinitamente mais fácil que no dia anterior. Com o sol nascendo, chegávamos no Vale de Lílis, último ponto de parada, 100 metros abaixo do pico. Quinze minutos depois, estávamos todos no teto do Caribe, o Duarte feliz por me rever. O céu estava azul e finalmente pude ver a incrível natureza que cerca a montanha, dezenas de quilômetros para todos os lados. Dizem que, em dias excepcionais, dá até para ver o mar, ao norte, e o Haiti, a leste.. Hoje não dava para ver tão longe, mas mesmo assim, estava magnífico!
Descendo a trilha do Pico Duarte, na República Dominicana
Voltamos para o refúgio, nos esbaldamos no café da manhã e ganhamos força para a subida que nos esperava, o “reverso” daquela maior descida do trecho de ascensão. Chegando lá encima, só nos restava descer. A próxima parada foi a do lanche, no meio do caminho. Daí para baixo, desgarrei-me do grupo, descendo quase correndo, pura diversão na trilha cheia de curvas e pedras.
Encontro com tropa de mulas na trilha do Pico Duarte, na República Dominicana
Os quase vinte quilômetros de descida passaram muito mais rapidamente que na subida (claro!) e cheguei á entrada do parque, onde logo procurei um boteco para uma merecida Presidente (a cerveja nacional da Rep. Dominicana). Uma hora depois chegava a Ana e , um pouco depois, os franceses. Antes mesmo da cerveja, eles foram direto para um mergulho nas águas geladas do rio. Eu também não resisti e logo chegaram mais cervejas, trazidas pelos nossos guias. Um final de outo para dois suados e deliciosos dias de trekking.
Um rio refrescante na trilha do Pico Duarte, na República Dominicana
Os franceses partiram em seu carro alugado enquanto nós fomos levados de volta à Jarabacoa pelo Monche. Amanhã, é nossa vez de alugar um carro para, nos próximos dias, explorar o litoral norte do país. Chega de montanhas, vamos às praias!
Depois da trilha, um merecido e gelado banho em um rio no final da descida do Pico Duarte, na República Dominicana
Chegando em Portobelo, no Panamá
A navegação dessa noite foi bem mais tranquila que das duas primeiras noites no percurso entre Cartagena e San Blás. A combinação de mar calmo, o que significa pouco balanço, e ausência de chuvas, o que quer dizer janela aberta e vento fresco, resultou numa noite bem dormida. Quando acordamos, lá estava a pequena cidade de Portobelo, onde colocaríamos nossos pés pela primeira vez na América Central continental. Uma nova etapa da nossa jornada pelas américas se iniciaria hoje. Viva!
Veleiros na baía de Portobelo, no Panamá
Portobelo, hoje uma tranquila vila à beira mar, teve um passado glorioso e trágico. Por mais de cem anos, foi o principal porto espanhol na região do Caribe. Todos os tesouros obtidos no Peru eram enviados por mar (Oceano Pacífico) até a Cidade do Panamá. De lá, por terra, cruzavam o istmo até a cidade de Portobelo, onde eram embarcados novamente rumo à Europa.
A Glória, a nossa grande cozinheira nesses 5 dias no barco de Cartagena à Portobelo, no Panamá
Tantas riquezas assim atraíam a cobiça de piratas. Um dos mais famosos, o inglês Francis Drake, atacou essa caravana do ouro em 1573, junto com outro pirata francês. Esse acabou capturado e morto pelos espanhóis, mas Drake conseguiu escapar com uma boa parte do tesouro roubado (do qual, muito ficou enterrado em algum local desconhecido, na selva). Antes de partir, Drake ainda escalou as montanhas e, de cima de uma árvore, se tornou o primeiro inglês a avistar o Oceano Pacífico. Anos depois, realizaria a terceira circunavegação do mundo. Mas, voltando à Portobelo, depois desse incidente, os espanhóis começaram a enviar seus tesouros por outras rotas também, diminuindo a importância da cidade. O golpe final veio em meados do séc XVIII, quando uma frota inglesa destruiu completamente a cidade, antes de seguir em direção à Cartagena, com o intuito de conquistá-la. O objetivo era "bagunçar" completamente as rotas de comércio espanholas. Como escrevi num post de Cartagena, os ingleses não conseguiram conquistar a cidade na Colômbia, mas de Portobelo não restou muita coisa. As ruínas das fortalezas espanholas foram utilizadas posteriormente na construção do Canal do Panamá e hoje a vila é um lugar tranquilo e com casas de panamenhos ricos ao redor da bela baía.
O catalão Marc, capitão que nos levou com segurança de Cartagena à Portobelo, no Panamá
Nós ainda tomamos um último café da manhã no barco e, logo depois das nove da manhã, quando abria o escritório, já estávamos fazendo a nossa imigração. A Ana deixou de ser brasileira e assumiu seu lado italiano. Mais fácil ser européia daqui para frente, para entrar nos EUA e Canadá. Eu, brasileiro convicto, já estou com todos os vistos necessários, hehehe.
Fim de travessia, chegando à Portobelo, no Panamá
Bom, devidamente legalizados no país, o negócio agora é resgatar a Fiona. Despedimo-nos do Marc, do Johan e da Glória e seguimos com os australianos e o alemão para Colón. A viagem foi num daqueles ônibus típicos de filmes de Hollywood retratando repúblicas cucarachas obscuras, todo colorido e com cara de caminhão. Uma hora e pouco de viagem e estávamos no coração de uma das mais perigosas cidades das américas, pelo menos na fama.
Manhã do 5o dia no barco, chegando à Portobelo, no Panamá
Os nossos companheiros nem saíram da rodoviária e já seguiram para a capital, Cidade do Panamá. Já eu e a Ana, ainda no espírito aventureiro, seguimos à pé para nosso hotel, sete quadras distante dali, o Carlton. Conforme previsto, nenhum problema nas ruas e logo estávamos muito bem instalados.
Passageiros e tripulantes do Licka, o veleiro que nos levou de Cartagena à Portobelo, no Panamá
Aí, depois de um muito merecido banho de água doce, começou a operação Fiona. Corrida contra o relógio, para não ter de esperar até terça, já que segunda é feriado nacional no Panamá. De táxi, fomos até o gigantesco porto de Manzanillo. Primeira parada, o escritório da Wallenius, a empresa do navio. Ai, que saudade da Naves, lá de Cartagena. Aqui os caras não sabem de nada. Paguei o que tinha de pagar, mas eles não souberam dizer o que eu deveria fazer depois, fora um vago "tem de ir na Aduana"...
Viagem de ônibus entre Portobelo e Colón, no Panamá
Lá fomos nós para descobrir que tínhamos de ir na administração, muitos quilômetros adiante. Um táxi lá é fundamental, pois andar por aquela vizinhança não é nada agradável. Na administração, novas surpresas: primeiro, que eu precisava de um seguro para poder retirar o carro. Segundo, que eles fechariam às quatro para só abrir na terça, e já eram 15:30. Seguro, só na cidade. Diante da minha cara de decepção total, a simpática Maria me disse que viria amanhã, sábado, às 10:00, só para me ajudar.
Paisagem na viagem entre Portobelo e Colón, no Panamá
Bom, corremos para a Plaza Millenium, na cidade, para conseguir o seguro. Com uma certa dificuldade, encontramos uma seguradora e, com 15 dólares, estamos segurados por um mês aqui no Panamá. Agora, de posse desse documento e de muitas cópias de passaporte, certificado de propriedade e da própria apólice, estou pronto para a corrida de amanhã. Preciso passar por todas as burocracias restantes (não sei quantas ainda...) até o meio-dia, prazo final para retirada do carro num sábado. Que Deus nos ajude!!!
A Ana espera no táxi enquanto eu percorro os meandros da burocracia panamenha para tentar retirar a Fiona do porto, em Colón
Enquanto amanhã não chega, refugiamo-nos no hotel, pois agora de tarde a nossa vizinhança realmente ficou com uma cara mais amedrontadora. Felizmente, temos internet, cama limpa e chuveiro quente. Dedos cruzados à partir de agora! O plano B é ir passar o fim de semana na capital, de ônibus mesmo, e regressar na terça. Mas temos fé mesmo é no plano A, sair daqui amanhã à bordo da nossa fiel companheira!
Elegante sala no Castillo de Chapultepec, na Cidade do México, capital do país
Nosso primeiro dia inteiro na volta à Cidade do México, ontem, foi de ócio criativo. Dividimos nosso tempo entre o trabalho ou simples navegação pela internet (depois de 20 dias de Cuba, que saudades da internet!!!), sempre com a magnífica vista que o décimo oitavo andar do prédio do Rodrigo, que já se localiza no alto de um morro, proporciona. Enxerga-se até onde a vista alcança, ou melhor, até onde a fumaça que paira sobre a capital mexicana permita. Alguns dias mais longe, até as montanhas, outro dia mais perto, até ali na esquina...
Um anjo no Parque Chapultepec, na Cidade do México, capital do país
Além disso, fomos ver as questões da Fiona e da nossa Nikon. A Fiona, além de estar com um pneu no chão (???), arriou a bateria, depois de trinta dias parada. Mas, quis o destino que o Rodrigo morasse exatamente em frente à uma concessionária da Toyota. Assim, rapidinho fui lá e eles mandaram um socorro, meramente atravessando a rua. Demos partida nela rapidamente e o simpático mecânico me ajudou a levantar o carro, tirando o peso do pneu vazio. Com ele no ar, o enchemos com nosso compressor mesmo e “listo!”, ela já estava pronta para ir até o Alaska, sorridente novamente! Melhor ainda, a Toyota nem cobrou por isso! Além do pneu e da bateria, agora já estou com os filtros de óleo que o Rafa trouxe do Brasil (que não existem aqui no América do Norte, pois só há “Fionas” à gasolina nesse continente). Deveria ter sido trocado na revisão dos 70 mil km, mas na ausência de filtro, só limpamos bem o antigo e o recolocamos. Se quisesse fazer a troca agora, desperdiçaria todo o óleo novo que foi colocado nela. Assim, depois de conversar com o pessoal da concessionária, resolvemos seguir com o filtro velho (e lavado!) até a próxima revisão. Espero não estar arriscando...
O lago do Parque Chapultepec, na Cidade do México, capital do país
Por fim, fomos buscar as nossas queridas Nikon e Sony da revisão. Estavam numa loja no Centro Comercial Santa Fé, talvez o maior Shopping Center que eu já tenha visto na vida. É muito grande! Nele estão as mais importantes e tradicionais lojas de departamentos do país, a Liverpool e o Castelo de Hierro. Cada uma já é, por si só, um shopping center. Já tinha ficado impressionado da outra vez que passamos por aqui. Mas agora, depois de ter passado em Cuba, o contaste não poderia ser maior! Quando eu era adolescente, lembro de ler o saudoso Paulo Francis dizer que em três ou quatro quarteirões de Manhattan havia mais mercadorias que em toda a URSS (ainda existia URSS naquele tempo!). Pensava que ele exagerava um pouco, só para passar a ideia. Hoje vi que não havia exagero nenhum! Tenho certeza que há mais mercadorias em uma única loja da Liverpool do que em toda a Cuba! Realmente, algo não anda bem naquela maravilhosa ilha... Bom, voltando às máquinas fotográficas, a Sony estava pronta e a Nikon, tivemos de esperar um pouco mas, por fim, saímos com ela também, para testá-la nos próximos dias. A diferença da Lumix para ela é mais ou menos o mesma de Cuba para Liverpool, hehehe!
Caminhando no Parque Chapultepec, na Cidade do México, capital do país
E o primeiro dia de testes foi hoje, quando fomos de táxi até o Bosque de Chapultepec dispostos a uma longa caminhada pela região. Chapultepec é o Ibirapuera dos mexicanos, com uma pitada de Central Park. Uma enorme área verde na área central da cidade, com diversas atrações como museus, lagos e até um “castillo”. Aí está também o massivo Museu Nacional de Antropologia, que tínhamos visitado antes de irmos ao Caribe. Dessa vez, caminhamos para o outro lado.
Bela paisagem no Parque Chapultepec, na Cidade do México, capital do país
Caminhada gostosa por caminhos cercados de muito verde e esquilos correndo para lá e para cá. Fomos fazendo um ziguezague pelo parque, passando pelos lagos, pela Alameda das Esculturas, pelo ponto onde antes estava a fonte que fornecia água aos astecas, pelo monumento em homenagem aos jovens cadetes que preferiram se matar a se render ao exército americano que tomava a Cidade do México na guerra dentre os dois países e, finalmente, na gigantesca árvore “El Sargento”, que teria sido plantada por um imperador asteca há 500 anos. A árvore morreu há poucas décadas, mas seu tronco colossal continua ali, nosso elo de ligação direto com outro mundo e com muitas e muitas páginas da rica história do país.
O Parque Chapultepec, na Cidade do México, capital do país
Depois de toda essa caminhada, nada melhor que relaxar no Audiorama, um aconchegante recanto do parque cheio de cadeiras, cercado com vegetação exuberante e sob uma constante trilha sonora de música clássica e óperas, som que sai de autofalantes escondidos entre as folhagens. Aí as pessoas leem, meditam ou simplesmente relaxam, cercados de pureza e boa música. Adoramos!
O Castillo de Chapultepec, na Cidade do México, capital do país
Para fechar com chave de ouro nossa visita, subimos ao Castillo de Chapultepec, no alto de uma colina, ponto mais alto do parque. Daí se tem uma vista magnífica de Chapultepec e também da infinita selva de pedra que cerca o bosque. Não é à toa que esse foi o local escolhido pelo imperador Maximiliano para sua residência oficial, junto com sua amada esposa Carlota. Seu castelo transformou-se num grande museu onde podemos admirar a arquitetura da época, a decoração de seus cômodos, as carruagens luxuosas, além da história do país.
Carruagem de Maximiliano, exposta no Castillo de Chapultepec, na Cidade do México, capital do país
O México tem uma história riquíssima. E não só por causa da rica cultura pré-colombiana que aí se desenvolveu. Também os períodos colonial e republicano estão cheios de causos, personagens e fatos interessantes. Lendas vivas como Emiliano Zapata ou Pancho Villa ainda fazem parte do imaginário nacional e mundial. Umas das passagens mais interessantes dessa história é o breve período em que o país “importou” um imperador da Europa. Importou não, foi imposto ao país!
Jardins do Castillo de Chapultepec, na Cidade do México, capital do país
A política mundial era mais “interessante” naquela época. Ao invés de apenas uma superpotência como os EUA de hoje, naquela época Inglaterra, França, EUA, Rússia e Prússia dividiam e disputavam a diplomacia mundial. O poder americano era crescente e isso preocupava as potências europeias. Mas, na segunda metade da década de 60, com os Estados Unidos em guerra civil, tiveram uma grande chance de exercitar seus músculos do lado de cá, no quintal americano. Foi só aí, por exemplo, que a Inglaterra decidiu implementar sua decisão de proibir o tráfico mundial de escravos. Antes, não tinha coragem de interromper esse fluxo que alimentava os estados do sul de sua ex-colônia.
Belo vital no Castillo de Chapultepec, na Cidade do México, capital do país
Bem nessa época, assumiu a presidência do México, numa espécie de revezamento que faziam liberais e conservadores, o mais popular presidente da história do México: o liberal Benito Juarez. Para enfrentar a grave crise econômica que o país enfrentava, uma de suas primeiras medidas foi declarar moratória da dívida externa, irritando profundamente os principais credores: Espanha, França e Inglaterra. Os três se uniram, então, para punir o desabusado. Um ataque punitivo a um movimentado porto mexicano no golfo (imaginem se as coisas fossem assim hoje!). Mas a França queria ir mais longe. Seu imperador, Napoleão III, tinha “o rei na barriga”. Viu no momento histórico uma grande oportunidade: instalar no México uma monarquia católica nos moldes europeus, ensinar o país a ser um país de verdade, transformá-lo num estado forte e contrapô-lo, na América, ao poder dos EUA, uma república protestante.
Vista do alto do Castillo de Chapultepec, na Cidade do México, capital do país
E assim foi. As tropas francesas, apesar da forte resistência, rumaram até a capital e a tomaram. Enquanto lidavam com a guerrilha no interior do país, Napoleão III convenceu o nobre austríaco Maximiliano a aceitar o “emprego” de Imperador do México. Aqui ele chegou, apoiado pelos setores mais conservadores da sociedade mexicana, esperando ser recebido como salvador da pátria. Trazia junto sua jovem esposa, a rainha Carlota, uma avançada mulher para os padrões da época, com noções de política e economia internacional. Ambos com o interesse sincero de serem bons governantes.
Uma das dezenas de freeways que cortam a Cidade do México, capital do país
Os problemas começaram logo. Maximiliano tinha políticas liberais, inclusive no campo social. Isso irritou profundamente seus apoiadores conservadores. Ao mesmo tempo, o imperador não conseguiu negociar com os liberais liderados pelo deposto Benito Juarez, apesar de, em outra situação, provavelmente terem sido grandes amigos. O ex-presidente jamais aceitaria um governo imposto por potências estrangeiras em seu país. Cansado da resistência dos liberais da da insistente guerrilha, Maximiliano passou a mandar fuzilar sumariamente todos os oficiais capturados na guerra, como traidores da pátria.
Atravessando a Plaza México em La Condesa, charmoso bairro da Cidade do México, capital do país
Ao mesmo tempo, fatores externos também fizeram a situação se deteriorar. Na Europa, tensões com a Prússia fizeram Napoleão III precisar de suas tropas em casa. E no norte, com o fim da Guerra de Secessão, os EUA puderam novamente exercer su influência, exigindo a retirada das tropas francesas do continente. Sem o apoio delas, o governo de Maximiliano não se aguentaria.
Um dos muitos restaurantes em La Condesa, charmoso bairro da Cidade do México, capital do país
Sua esposa foi para Europa em busca de ajuda. Rodou as cortes do continente, mas nada mais conseguiu do que apoio moral. Enquanto isso, no México, o valente e orgulhoso Maximiliano recusou-se a fugir, ignorando os conselhos de seus primos europeus e de Napoleão III, seu “inventor”. Acabou capturado, julgado e condenado à morte. O governo de Benito, de volta ao poder, recusou os pedidos de clemência de vários países e cumpriu a sentença “O exemplo tem de ser dado, para mostrar que o México é um país soberano!” – afirmou. E assim terminava a aventura de Maximiliano, três anos após ter se iniciado. Sua esposa, na Europa, jamais se conformou, recolhendo-se a um convento e nunca mais falando sobre o assunto.
Tranporte comunitários de bicicletas em La Condesa, charmoso bairro da Cidade do México, capital do país
Pois é, mais uma página da história mexicana. E nós, depois da visita ao castelo desse ilustrado imperador, seguimos nosso passeio até o agradável bairro de La Condesa, uma espécie de Vila Madalena daqui. Uma delícia, cheio de bares, restaurantes e praças em seu miolo enquanto as ruas em volta são charmosas e tranquilas. Já sabemos onde morar se um dia viermos para cá! Nosso primeiro contato com um bairro de verdade nessa cidade, lugar em que se pode caminhar, ir até a esquina, ler um jornal na praça. Nada daquelas freeways gigantescas ou do movimento ininterrupto do centro. Enfim, adoramos La Condesa, e aí brindamos a Maximiliano, Carlota a Benito Juarez. Que Diós los tenga!
Um carro com uma função muito mais nobre, em La Condesa, charmoso bairro da Cidade do México, capital do país
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