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Rodrigo Penati (08/01)
Carao Rodrigo, Gostaria de saber o site ou obter mais detalhes sobre ess...
Karen (08/01)
mario sergio silveira (08/01)
Olá Rodrigo, e o por do sol no rio Jacaré, com Bolero de Ravel ao violi...
guto junqueira (06/01)
Fala, Rhom! Feliz 2011 procê e pra Ana! Eu, Sossa e Lulu falamos aqui de...
Dona Helen (06/01)
Quanto a \"foto\",confesso que prefiro aquelas com o aviāozinho no p...
Arquitetura típica de uma das comunidades ribeirinhas na Reserva do Mamirauá, região de Tefé, no Amazonas
Talvez a grande sacada do Márcio Ayres no valoroso processo de criação da Reserva do Mamirauá tenha sido a decisão de não transformá-la em um Parque Nacional, mas sim em algo que não existia até então, uma Reserva de Desenvolvimento Sustentável. Pode parecer uma simples uma questão de semântica, mas não é. As duas entidades guardam uma diferença fundamental entre si: a presença humana na área em questão.
Completamente alagado na época das cheias, o campo de futebol de uma das comunidades ribeirinhas na Reserva do Mamirauá, região de Tefé, no Amazonas
Visita à comunidade ribeirinha na Reserva do Mamirauá, região de Tefé, no Amazonas
Parques Nacionais preconizam a desapropriação e expulsão de antigos moradores da área a ser preservada enquanto Reservas de Desenvolvimento Sustentável até estimulam a sua presença, desde que em convívio harmônico e saudável com a natureza da região. A ideia é muito simples: quando se quer criar uma área de preservação como um parque em uma área que já é ocupada, o processo de desocupação é custoso e desgastante. Não sem razão, moradores se unem contra o projeto, tentando sabotá-lo de todas as maneiras. Perde o estado, perdem os moradores e, principalmente, perde a natureza que não tem nada a ver com a briga. Na formação de uma Reserva, a ideia é trazer os moradores para o lado da preservação, mostrando as vantagens que poderão ter em manter seu estilo de vida e, ao mesmo tempo, aumentar seus ganhos com atividades relacionadas, por exemplo, ao turismo.
Escola de uma das comunidades ribeirinhas na Reserva do Mamirauá, região de Tefé, no Amazonas
Um dos habitantes locais nos recebe na escola de uma das comunidades ribeirinhas na Reserva do Mamirauá, região de Tefé, no Amazonas
Isso foi feito em Mamirauá pela primeira vez no país, deu certo, tornou-se um novo paradigma e continua a servir de exemplo para a criação de reservas espalhadas por todo o Brasil. Os agradecimentos devem ir não somente ao criador da ideia, mas também aos moradores locais, que a encamparam e fizeram de Mamirauá um exemplo nacional e internacional.
Nosso guia nos mostra crânios de jacaré durante visita à comunidade localizada na Reserva de Mamirauá, perto de Tefé, no Amazonas
Caminhando sobre palafitas em uma das comunidades ribeirinhas na Reserva do Mamirauá, região de Tefé, no Amazonas
Para quem visita a Reserva de Mamirauá, essa é sempre uma das possibilidades de passeio: ir até uma das muitas comunidades dentro da reserva para aprender como vivem seus moradores. Empresta um lado humano no meio daquela natureza toda e, na nossa opinião, é um dos pontos altos da temporada na reserva.
Prédio histórico em Tefé, no Amazonas
Igreja matriz de Tefé, no Amazonas
Na verdade, nosso contato com a civilização na região começa muito antes, quando chegamos à Tefé, a principal cidade do Médio Solimões. Construída na beira de um “lago” do rio Solimões, é um importante e centenário porto na rota entre Manaus e o Perú. Na nossa passagem na ida, seguimos diretamente do aeroporto para o cais, mas na volta, ao fim da temporada, passamos boas horas explorando a cidade.
Visita ao movimentado mercado de Tefé, no Amazonas
Ao lado do rio, o mercado de Tefé, no Amazonas
Além de uns poucos prédios históricos e da praça da igreja, a grande atração é visitar o mercado, sempre movimentado e muito sortido de peixes e frutas amazônicas. Para nós já foi bem interessante, mas foi ainda mais para nossos novos amigos gringos conhecidos durante a temporada em Mamirauá. Se já é exótico para nós, imagina para eles...
Frutas a venda no mercado de Tefé, no Amazonas
Frutas a venda no mercado de Tefé, no Amazonas
Ficamos sabendo também da história do lixão perto do aeroporto, o que não foi mesmo uma boa ideia. Lixão atrai urubus e urubus não se dão bem com aviões. Resultado: o aeroporto ficou fechado por quase um ano, trazendo evidentes prejuízos à cidade e também à Mamirauá, já que é por via aérea que chegavam (e chegam) a maioria dos turistas. A Pousada Uacari ficou quase deserta durante esse período e só agora começa a se recuperar. Pior para as comunidades locais que é para quem é revertido os ganhos conseguidos na Pousada, além dos empregos que ali são criados quando há mais demanda. Enfim, vivendo e aprendendo e a cidade e a pousada recuperam agora os seus turistas, com o aeroporto livre da ameaça dos urubus.
Em Tefé, no Amazonas, com o grupo que passou conosco os cinco dias na Reserva Mamirauá
Mas, de volta à nossa estadia na reserva, fomos todo o grupo em visita a uma das comunidades que, em revezamento, recebem os turistas que vão passar temporadas por lá. As casas, claros, são todas construídas sobre palafitas, para lidar com os seis meses de cheia. Durante a seca, a comunidade pode ficar a quilômetros da fonte de água mais próxima, mas agora, durante a cheia, a água cobre quase tudo, como o campo de futebol, o bar e as roças. Foi mesmo de canoa que passeamos entre as casas, fomos até a escola e observamos uma espécie de curral flutuante, onde ficam as vacas nesse período do ano.
Um pequeno curral flutuante, que funciona durante a cheia do rio, em comunidade localizada na Reserva de Mamirauá, perto de Tefé, no Amazonas
Um pequeno curral flutuante, que funciona durante a cheia do rio, em comunidade localizada na Reserva de Mamirauá, perto de Tefé, no Amazonas
Chegando à comunidade, fomos recebidos por um de seus moradores, que passou a ser o nosso guia. Ele nos levou até a escola onde pudemos “desembarcar” e caminhar sobre as palafitas que unem as construções. Dentro das salas de aula, a sensação é de estramos em tantas outras das milhares de salas de aula espalhadas pelo interior do Brasil, desenhos de crianças colados pelas paredes, anotações no quadro negro, cartolinas para se ensinar a ler e escrever. Enfim, vida normal aqui também, mesmo que a água suba 13 metros durante o ano!
Visitando a escola de uma das comunidades ribeirinhas na Reserva do Mamirauá, região de Tefé, no Amazonas
Visitando a escola de uma das comunidades ribeirinhas na Reserva do Mamirauá, região de Tefé, no Amazonas
Durante a nossa visita, a agradável companhia de crianças que, entre uma brincadeira e outra, ao longe, nos olhavam com curiosidade. Nessa época do ano, não se brinca de futebol, mas de canoa e de natação. A maior piscina do mundo está ali, em frente de casa, e com esse calor, é bem tentadora. Por aqui, aprende-se a nadar tão cedo como se aprende a andar. Uma exigência da natureza.
Menina se diverte em canoa durante nossa visita à comunidade localizada na Reserva de Mamirauá, perto de Tefé, no Amazonas
Garoto nos observa durante visita a uma das comunidades ribeirinhas na Reserva do Mamirauá, região de Tefé, no Amazonas
Por fim, depois de muita conversa para se aprender como se vive em um ambiente como esse, a passagem pela loja da comunidade, mais uma oportunidade de renda para quem aqui vive. E nós vamos embora com a certeza de que são infinitas as maneiras de se viver nesse mundão que todos compartilhamos. Tolos aqueles que acham que o seu modo de vida é o “normal”. As lindas meninas aqui do Mamirauá acham muito mais “normal” compartir sem medo um rio com piranhas e jacarés do que ir passear num shopping. Quem vai dizer que não é?
De barco, chegando de volta à Tefé, no Amazonas
Porto de Tefé, no Amazonas
E assim se encerra essa série de posts sobre a Reserva do Mamirauá, nossa casa durante essa semana, onde tanto vimos e aprendemos. Partimos com saudades e com a certeza de um dia voltar. Aliás, falando em partir, ainda bem que urubus e barcos também convivem muito bem. Assim, não tivemos problemas em pegar um deles rumo à Manaus, lá no porto de Tefé, onde não faltam desses simpáticos pássaros negros. Com a ajuda das nossas redes compradas em Tefé mesmo, serão quase 40 horas de viagem. Novas e autênticas experiências amazônicas nos aguardam...
Fim de tarde na Reserva do Mamirauá, região de Tefé, no Amazonas
Parada para lanche na estrada na região de Monterrey, a caminho de Real de Catorce, no México
Uma das grandes experiências de se viajar em um país e justamente dirigir por suas estradas. Quando estamos com pressa ou temos pouco tempo, procuramos as estradas mais rápidas, ou autoestradas. Essas, na verdade, são quase iguais em todos os lugares, exceto pela qualidade do asfalto, o que logo sentimos ao acelerar o carro. Na verdade, estou me referindo às estradas pequenas, secundárias, que cortam o campo, nos levam para o interior e passam pelas pequenas vilas. É aí que chegamos mais perto do país e de sua rotina.
Parada para lanche na estrada na região de Monterrey, a caminho de Real de Catorce, no México
Nessa nossa volta ao México, pudemos passar por várias delas. Desde a autoestrada que nos levou da fronteira para Monterrey até os pequenos e esburacados caminhos que nos possibilitaram chegar em Potrero Chico, Real de Catorce, e agora, San Miguel de Allende.
Molhos e acompanhantes para nossas quesadilhas em lanche na estrada, entre Monterrey e Real de Catorce, no norte do México
Aí, sempre que temos a chance e a fome para isso, paramos em algum lugar para um lanche rápido. Foi assim, no meio de um lugar nenhum, que comemos uma deliciosa “orden de quesadillas de puro maiz”, com todos aqueles temperos que os mexicanos gostam, alguns picante, outros mais picantes ainda, hehehe.
Parada para comer morango com creme, em estrada na região de Guanajuato, no norte do México
Ou então, não poderia perder a chance, na pequena tenda que vendia “fresa com crema”, uma sobremesa que não resisto. Isso foi na área de Guanajuato, famosa pela sua produção de morangos. Não fomos até a cidade, que já havíamos conhecido no ano passado e adorado. Mas, em sua homenagem, tínhamos de comer seus morangos!
Ultrapassando um trem no deserto potosino, no norte do México
Outras vez, paramos não porque queremos, mas porque não há opção. Como quando cruzávamos o místico deserto potosino. Ultrapassamos um veloz trem que também cruzava o deserto. Mas, ao ter de cruzar os trilhos novamente, lá vinha ele e não podíamos arriscar. As cancelas se fecharam e aguardamos o interminável veículo passar por nós, cena de filme americano. No caso, aqui, mexicano!
Aguardando um trem passar pela estrada no deserto potosino, no norte de México
Enfim, de estradas em estradas, de paradas em paradas, com toda a calma do mundo, vamos chegando em nossos destinos e, no meio tempo, vendo o país de verdade
Admirando a bela região de Viñales, no oeste de Cuba
Comparando a o roteiro da minha viagem anterior à Cuba, há dez anos, com o roteiro de agora, praticamente não houve repetições. Mesmo nas cidades em que estive nas duas viagens, foram poucos os lugares em que retornei. As exceções foram, obviamente, as ruas e praças centrais de Havana e de Santiago. Isso não foi mera coincidência, claro. Na medida do possível, procurei conhecer lugares novos. Felizmente, o país tem atrações suficientes para agradar os marinheiros de primeira viagem (a Ana, Laura e Rafa) e também quem retorna e quer ver coisas novas. Assim, enquanto da outra vez pude mergulhar no norte da ilha e fazer o inesquecível trekking da Sierra Maestra, desta vez conhecemos a Isla de La Juventud e a fabulosa Trinidad.
Campo cultivado em Viñales, no oeste de Cuba
A grande exceção foi a bela região de Viñales, onde estamos hoje. Sua encantadora paisagem de montanhas desgastadas pelo tempo e suas misteriosas cavernas me atraíram de volta. A Ana tinha de conhecer também! Nunca tinha me esquecido de um bar que funcionava dentro de uma caverna e estava decidido a fazer um brinde lá com a Ana, em honra ao meu companheiro de viagem de dez anos antes, o Dugalo.
Chegando à região de Viñales, no oeste de Cuba
E assim viemos hoje para cá, na curta viagem desde Pinar del Rio. Ainda antes de chegar a Viñales paramos nos primeiros mirantes no alto da serra de onde se pode descortinar a belíssima paisagem. O que um dia foi o fundo do mar se tornou um planalto com o retrocesso das águas. Com o tempo, o material mais mole foi sendo erodido e o planalto virou uma planície salpicada de pequenas montanhas, o material mais resistente à erosão. Mesmo aí, a ação de milhões de anos de vento e chuva foi abaulando as arestas e arredondando as pontas enquanto o verde tomava conta da superfície. Enquanto isso, os rios agiam por baixo, cavando enormes túneis no calcário, formando alguns dos maiores sistemas de cavernas do mundo.
Consertando o pneu furado em Viñales, no oeste de Cuba
Depois de nos instalarmos na nossa Casa de Hóspedes, a ideia era seguir diretamente ao maior desses sistemas de cavernas, com mais de 40 km de túneis divididos em sete andares. Mas, antes, tivemos de resolver um problema mais mundano. O carro chinês que conseguimos alugar em Havana não era dos melhores, principalmente seus pneus. Um deles estava muito baixo, provavelmente “ponchado”, como se diz aqui. Os postos de gasolina não tem compressor de ar para testarmos e a solução foi procurar uma “poncheria”. Aí verificamos que o estepe estava em pior estado e o nosso pneu realmente estava furado, além de bem desgastado. A solução foi consertá-lo e trocá-lo de lugar com um pneu traseiro. O conserto foi com uma daquelas borrachas que enfiamos na roda. O produto, que no Brasil custa uns 10 reais com quatro borrachas, em Cuba custa 40 dólares, por causa do bloqueio econômico. O simpático borracheiro, que contou bastante sobre seu hobby de caça, divide cada uma das borrachas em duas e cobra 10 dólares por conserto. Quanto à caça, nos explicou que em Cuba é muito mais perigoso matar uma vaca do que um veado. Isso porque no primeiro caso, é um crime tipificado em lei (dá cana mesmo!) e no segundo, quando muito são multados por invasão de área de reserva. A aventura e o gosto da carne de veado mais que compensam o risco da multa.
Região de Viñales, no oeste de Cuba, vista do alto da Caverna de Santo Tomás
Nosso grupo caminha através da Caverna de Santo Tomás, na região de Viñales, no oeste de Cuba
Consertado o carro, seguimos para a caverna. A “Cueva de São Tomás”, bem popular entre os viajantes. A parte aberta ao turismo é de apenas um quilômetro, no sexto e sétimo nível. Os outros 39, só para profissionais, depois de passarem pela devida burocracia. A visita é guiada e os grupos são grandes. O nosso tinha umas quinze pessoas das mais variadas idades e pesos. Mas um incidente logo no início da trilha deu uma boa “filtrada” no grupo. Subindo o morro em direção à entrada do sétimo nível, uma senhora bem em frente à Ana tropeçou e caiu para trás, num tombo cinematográfico. Felizmente, já estava com o capacete para entrar na caverna e uma mochila nas costas, senão teria se arrebentado nas pedras em que caiu, de costas. Fora um arranhão ou outro, foi só o susto. Mas foi o bastante para que meia dúzia de turistas dessem meia volta e desistissem, inclusive a simpática a assustada acidentada. Com o grupo mais “leve”, seguimos em frente.
Uma das entradas da Caverna de Santo Tomás, na região de Viñales, no oeste de Cuba
Formação dentro da Caverna de Santo Tomás, na região de Viñales, no oeste de Cuba
O guia nos levou através de grandes salões, muitos iluminados por grandes janelas, e formações típicas de caverna. Não perdia nenhuma oportunidade para fazer piadas sobre gordos americanos, que realmente teriam um certo trabalho em passar por passagens mais estreitas. De qualquer maneira, ficou claro que ele tinha um ódio especial pelo Tio Sam, talvez por causa dos últimos 40 anos de bloqueio econômico. Fora as piadas, a gente se divertiu também com os morcegos, as plantas que nascem sobre seus excrementos e as belíssimas paisagens subterrâneas formadas ao longo de milhares de anos de erosão. Ficou aquela coceira de seguir para os outros níveis, inacessíveis para nós e chios de salas e passagens para serem explorados. Motivo para voltar algum dia, quem sabe...
Plantas crescem sobre excremento de morcegos no interior da Caverna de Santo Tomás, na região de Viñales, no oeste de Cuba
A tranquila área rural de Viñales, no oeste de Cuba
Daí voltamos para a cidade e seguimos para o outro lado, dessa vez em direção ao bar que eu guardava com tanto carinho na memória. Dez anos de erosão a mais não fizeram a menor diferença e ele continua lá, rústico e pitoresco como sempre. Aí comemos e tomamos uma cerveja gelada, fazendo o brinde prometido e nos admirando com as estalactites que pendiam sobre nossas cabeças e sobre o balcão do bar. É um lugar muito especial, sem dúvida. E já é há muito tempo. Afinal, foi para esta caverna que fugiam vários escravos nos tempos de colônia. Aí, tinham uma comunidade, recebiam novos fujões e enfrentavam seus opressores. Um túnel nos leva por uma centena de metros para um verdadeiro vale encantado do outro lado da montanha. Fico imaginando que deveria ser a Xangrilá desses pobres escravos que tinham ali a chance de uma nova vida.
Bar dentro de uma caverna em Viñales, no oeste de Cuba
Desfrutando de um pitoresco bar dentro de uma caverna na região de Viñales, no oeste de Cuba
Desse vale voltamos caminhando ao redor da montanha para o estacionamento em frente ao bar. Paisagem bucólica, tranquila e linda. Já no final da tarde, éramos os únicos por ali. Nós e uma centena de pássaros cantantes escondidos na densa folhagem que recobre as encostas das montanhas que cercam o vale, Um espetáculo visual com direito à trilha sonora. Muito legal!
Caminhando na belíssima região de Viñales, no oeste de Cuba
De volta ao carro, despedida do querido bar da caverna (até daqui a dez anos!) e rumo à Casa de Hóspedes. Com o passeio de hoje, fechamos com chave de ouro nosso trecho cubanos nesses 100dias de viagem pela América. Uma ilha especial que vai deixar saudades. Amanhã, rumo à Havana e de lá para o México!
Entardecer sobre a igreja de Viñales, no oeste de Cuba
A incrível visão do Vetisquero Colgante e das cachoeiras que nascem nessa geleira, no Parque Nacional Queulat, na Carretera Austral, no sul do Chile
Nossa viagem pela Carretera Austral até Coyhaique, além de todas as belezas descritas nos posts, foi também de muita poeira. Na verdade, poeira para quem fica para trás, o que raramente era o caso da Fiona, uma das grandes vantagens de se estar em um carro alto. Entre os que ficavam para trás, poucos carros, pois esses eram mercadoria rara nesse trecho sul da Carretera. Muito mais comuns eram os valentes ciclistas. É claro que ao cruzar com eles, no mesmo sentido ou vindo na direção oposta, nós diminuíamos a marcha para levantar o mínimo possível de pó. Mas os outros carros não pareciam se importar muito...
Uma grande obra de engenharia liga Puerto Aysen, o principal porto nessa região do sul do Chile, com as cidades da Carretera Austral
Uma grande obra de engenharia liga Puerto Aysen, o principal porto nessa região do sul do Chile, com as cidades da Carretera Austral
São muitas as diferenças, vantagens e desvantagens entre viajar por aqui de bicicleta ou de Fiona. Entre as grandes vantagens do carro, além do conforto, está o maior raio de ação e exploração, principalmente quando o tempo é uma variável importante. Por exemplo, quando encontramos uma estrada lateral e ficamos curiosos para ver o que há no fim dela, podemos nos dar ao luxo de perder uma hora indo até lá e voltando. Se estivéssemos de bicicleta, poderia ser um dia para ir e outro para voltar... Com o tempo apertado, nem pensar!
Pequenos barcos em marina de Puerto Aysen, o principal porto nessa região do sul do Chile
Navio da Navimaq, a empresa que faz a ligação entre as cidades costeiras do sul do Chile (em Puerto Aysen, o principal porto nessa região do sul do Chile)
Foi o que aconteceu no início da nossa jornada de hoje. Daqui para o norte, o asfalto já é bem mais comum, mais de um terço de todo o percurso até Puerto Montt. Isso quer dizer que, a bordo da Fiona, ficamos ainda mais ágeis. Então, apesar das centenas de quilômetros e passeios que tínhamos planejado para o dia, ainda resolvemos fazer um detour e dirigir até Puerto Aysen, já bem fora da Carretera Austral e principal porto da região. A estrada que liga a cidade a Coyhaique é bem mais antiga que a própria Carretera Austral e já é toda asfaltada. Ela até inclui uma das maiores pontes de todo o país e que atravessa o rio que dá nome a toda essa região: o rio Aysén.
Cada vez mais pertos do início da Carretera Austral, em Puerto Montt, no sul do Chile
Na Carretera Austral, no sul do Chile, a primeira placa a mostrar a distância para Santiago e as cidades do norte. Nós já estivemos nas três últimas da lista!
Puerto Aysén foi a principal cidade aqui da patagônia norte chilena por mais de meio século, mas acabou superada por Coyhaique e até perdeu o título de capital para ela na década de 70. O assoreamento do porto, que teve de ser deslocado para a boca do fiorde, também não ajudou. Hoje, é o turismo, principalmente ligado à Laguna de San Rafael, uma das principais forças econômicas da cidade. A outra é a indústria salmoneira que se instalou recentemente na cidade. Para nós, foi um rápido e interessante passeio, possibilitado pelo asfalto e pelas rodas ágeis da Fiona.
Carretera Austral ao norte de Coyhaique. Asfalto e cada vez mais verde e umidade
Nossa próxima “escala”, agora já de volta à Carretera Austral, foi o Lago Las Torres, uma Reserva Nacional. Aí, encontramos uma área ao lado da estrada que nos serviu de mirante para o lago e também para “lancharmos” o nosso almoço, numa espécie de piquenique. Estávamos apenas nos preparando para a principal atração do dia: o Parque Nacional Queulat.
Um dos muitos rios ao longo da Carretera Austral ao norte de Coyhaique, no sul do Chile
O belo lago Las Torres, na Carretera Austral, ao norte de Coyhaique. Foi em um mirante com vista para esse lago que lanchamos durante a viagem de hoje pelo sul do Chile
O asfalto da estrada termina justamente antes de chegarmos a este belo parque. Não por dificuldades técnicas da estrada, mas para ajudar na conservação dessa linda área de florestas, lagos e geleiras. A vegetação é simplesmente exuberante, resultado de uma das maiores precipitações pluviométricas do país. Para quem já viajou pelas areias do Deserto de Atacama, realmente é difícil acreditar que estamos no mesmo país.
Nossa primeira visão do Vetisquero Colgante, no Parque Nacional Queulat, na Carretera Austral, no sul do Chile
Um dos muitos riachos no Parque Nacional Queulat, na Carretera Austral, no sul do Chile
Apesar da grande área, o parque tem poucas trilhas para facilitar o seu acesso. A ideia é mesmo a preservação e não o turismo. Nossa ideia original era fazer pelo menos duas das trilhas, mas desanimamos um pouco quando chegamos à cabeceira de uma delas, ao lado da estrada. Uma trilha através da mata úmida segue o Rio de Las Cascadas e 30 minutos de caminhada nos levam a um local cheio de cachoeiras. Mas quando chegamos à trilha, várias vans lotadas de turistas disputavam espaço para estacionar. Mal acostumados que estamos em ver muita natureza e pouca gente, aquilo foi um choque para nós e resolvemos seguir adiante. A principal atração do parque era a trilha seguinte e para lá nos dirigimos.
Enorme ponte pênsil em trilha no Parque Nacional Queulat, na Carretera Austral, no sul do Chile
Enorme ponte pênsil em trilha no Parque Nacional Queulat, na Carretera Austral, no sul do Chile
O rio que nasce no Vetisquero colgante, no Parque Nacional Queulat, na Carretera Austral, no sul do Chile
O estranho é que, nessa segunda trilha, justamente a mais popular do parque, quase não havia ninguém. Ou tivemos sorte aqui ou azar na anterior. Enfim, deixamos a Fiona no estacionamento e saímos a esticar as pernas e respirar ar puro. Entro rios e florestas.
Tempo para descanso em trilha do Parque Nacional Queulat, na Carretera Austral, no sul do Chile
Flores na densa vegetação do Parque Nacional Queulat, na Carretera Austral, no sul do Chile
A trilha leva a um mirante para o chamado “Ventisquero Colgante”, ou “geleira pendurada”. Não muito tempo atrás, essa geleira descia um enorme paredão, mas ela vem retrocedendo a olhos vistos e hoje boa parte da parede de rocha já está exposta. O gelo pode estar lá encima, mas a água derretida continua descendo, formando duas belíssimas cachoeiras. No meio daquela mata toda, o cenário é típico de filmes como “O Senhor dos Anéis”, uma grandiosidade de tirar o fôlego.
A enorme cachoeira que nasce no Vetisquero Colgante, no Parque Nacional Queulat, na Carretera Austral, no sul do Chile
Mirante do Vetisquero Colgante, no Parque Nacional Queulat, na Carretera Austral, no sul do Chile
Do ponto onde estacionamos o carro, uma trilha de 200 metros leva a um mirante para se observar esse espetáculo. Até aí segue boa parte dos turistas. Mas há uma trilha mais longa, pouco mais de 3 km de extensão, que cruza o rio numa enorme ponte pênsil e sobe a encosta do outro lado, dá uma volta em um morro e nos leva até um mirante muito mais próximo do espetáculo. Até lá fomos e ficamos uma boa meia hora nos extasiando com aquele cenário maravilhoso, quase inacreditável, diante dos nossos olhos. Foi mais do que o suficiente para esquecermos por completo a tal trilha das cachoeiras que havíamos deixado para trás...
Três quilômetros de trilhas nos levam a esse belo mirante para o Vetisquero Colgante, no Parque Nacional Queulat, na Carretera Austral, no sul do Chile
A geleira conhecida como Vetisquero Colgante, no Parque Nacional Queulat, na Carretera Austral, no sul do Chile
Dia quase completo, seguimos viagem até a pequena La Junta, que apesar de não aparecer no GoogleMaps, existe e nem é tão pequena assim. Tem esse nome porque fica numa encruzilhada de estradas e é famosa aqui no país por ainda manter um belo monumento em homenagem ao antigo ditador Augusto Pinochet, principal responsável pela construção da Carretera Austral. Amanhã, teremos mais um longo dia. Mas ao invés de rios, florestas e geleiras, o que nos espera são termas de água quente e um dos vulcões mais ativos do país.
Três quilômetros de trilhas nos levam a esse belo mirante para o Vetisquero Colgante, no Parque Nacional Queulat, na Carretera Austral, no sul do Chile
O lago Titicaca, visto de Copacabana, na Bolívia
Poucos caminhos e fronteiras são tão bem conhecidos dos viajantes da América do Sul como o trecho entre Puno, no Peru, e Copacabana, na Bolívia. São dezenas de milhares de viajantes todos os anos, na rota La Paz- Cusco, ou vice-versa, quase sempre na orla do lago Titicaca, cruzando o altiplano andino a quase 4 mil metros de altitude. As fotos no arco de pedra que marca a passagem entre os dois países já se tornou uma tradição entre viajantes de todo o mundo.
Viajando do Peru para a Bolívia, de Puno (A) para Copacabana (B), já bem próxima da Isla del Sol
Foi assim comigo em 1990 e com a Ana em 2006. E hoje, seria a vez da Fiona! Para tanto, saímos pela manhã de Puno e logo estávamos margeando o Titicaca para o sul. Agora sim, dirigindo mais de cem quilômetros nesse sentido é que temos uma noção do tamanho desse imenso lago. Tamanho e beleza! Dos pontos mais altos, espécies de mirantes naturais, podemos sempre observar as montanhas nevadas dos andes bolivianos, lá do outro lado do lago e sua principal fonte de água.
Viagem entre Puno, no Peru, e Copacabana, na Bolívia, sempre ao lado do lago Titicaca
Viagem entre Puno, no Peru, e Copacabana, na Bolívia, sempre ao lado do lago Titicaca
Nem tão longe assim, aliás, bem pertinho, patos e flamingos se alimentam na parte rasa do lago. São o prenúncio que estamos perto da fronteira, de Copacabana e da parte mais estreita do lago, por onde passaremos com a Fiona para o lado de lá do lago após deixarmos Copacabana em alguns dias, rumo à La Paz.
Flamingos e patos se alimentam no lago Titicaca, na estrada entre Puno, no Peru, e Copacabana, na Bolívia
Chegando à movimentada fronteira Peru-Bolívia, já bem perto de Copacabana
Na famosa fronteira, tiramos as fotos tradicionais e tivemos um rápido processo. Pelo menos, do lado peruano. Já no lado da Bolívia, tivemos que esperar que a Aduana abrisse depois do almoço para, finalmente, continuarmos nossa viagem. Seriam apenas mais uns 15 quilômetros até Copacabana. Estávamos, definitivamente, de volta à Bolívia!
Fronteira Peru-Bolívia, região de Copacabana. Mais uma para a lista da Fiona
Atravessando a fronteira Peru-Bolívia na região de Copacabana
Para mim, Copacabana foi uma surpresa. Está muito maior que a pequena cidade que eu conheci há duas décadas e muito mais movimentada também. Principalmente nessa época do ano, festa da padroeira local e de toda a Bolívia, Nossa Senhora de Copacabana. São muitos peregrinos e festividades e, entre elas, destaca-se a “benção” de carros, uma cerimônia em que um sacerdote faz votos para que o carro fique protegido de acidentes e roubos. Enquanto o carro é abençoado, ele é todo coberto por flores e assim fica por algumas semanas. Lá em Puno, vimos dezenas desses carros abençoados. Os peruanos que vivem na região do Titicaca são muito devotos da Virgem de Copacabana e acorrem em massa para cá, nesses primeiros dias de Agosto. O resultado é uma fronteira movimentada e vagarosa. Felizmente para nós, o maior da festa já tinha passado. Mesmo assim, ainda vimos vários carros sendo abençoados por aqui.
Em busca da imigração boliviana na fronteira Peru-Bolívia, para carimbarmos nossos passaportes
A orla de Copacabana, na Bolívia, na orla do lago Titicaca
Esfomeados, a primeira coisa que fizemos ao chegar na cidade foi achar um bom restaurante. Não é uma tarefa difícil, pois Copacabana vem se tornando uma cidade cada vez mais internacional, muitos gringos vindo morar à beira do Titicaca. Com exceção dessas duas semanas de festa, a cidade continua muito tranquila. Encontramos um italiano, de uma boliviana descendente de italianos casada com um brasileiro de Curitiba. Uma delícia, com direito à uma sobremesa de salame de chocolate, para alegria da Ana
Nosso primeiro e delicioso restaurante em Copacabana, na Bolívia
Salame de chocolate, sobremesa especial em restaurante de Copacabana, na Bolívia
Depois, aí sim, fomos encontrar um hotel com vista para o lago, de onde assistimos um belo entardecer, assim como a lua, estrelas e planetas que vinham atrás do sol. Aproveitamos também para conseguir informações e decidir sobre nosso programa de amanhã. Vamos para a famosa e sagrada Isla del Sol, a maior do Titicaca. Também por ela eu passei batido da outra vez que aqui estive. Mas não a Ana, que fez um belo trekking pela ilha e, pelas suas descrições, já me deixou bastante ansioso para conhecer. Passaremos o dia por lá e voltamos à simpática Copacabana para dormir. No dia seguinte, seguimos viagem, rumo à Tiahuanaco e La Paz.
Carros "batizados" em Copacabana, na Bolívia
Um belo fim de tarde na orla do Titicaca, em Copacabana, na Bolívia
Ao longo da trilha na costa norte da ilha, encontro com ruínas da antiga civilização da Ilha de Páscoa, no sul do Oceano Pacífico
Depois do intenso dia de ontem, quando demos a volta na Ilha de Pascoa num tour com o Patricio, já estávamos prontos a andar com as próprias pernas! Mais, já queríamos nadar com os próprios braços também. Bom, e para fazer isso, nada melhor do que fazer um mergulho e, logo depois, um trekking pela ilha.
Mergulhando com um falso Moai de concreto ba Ilha de Pascoa (foto da National Geographic)
O mergulho mais famoso que existe na ilha é aquele ao redor de um Moai submergido. Combina com essa ilha, não? Era o que nós tínhamos em mente, mesmo antes de chegar a Rapa Nui e foi o que fomos averiguar, nas operadoras de mergulho daqui. Mas a vontade de fazer esse mergulho passou rapidinho. Primeiro porque é para onde seguem quase todos os barcos de turismo, então está sempre movimentado. E segundo porque o tal Moai é falso! É um Moai de concreto usado em um filme de Hollywood na década de 90 e que alguém teve a ideia de jogar no mar para servir de atrativo para turistas que viessem para cá. Enfim, para mim, perdeu todo o charme...
Mergulhando nas águas claríssimas da Ilha de Páscoa, em pleno Oceano Pacífico
Mergulhando nas águas claríssimas da Ilha de Páscoa, em pleno Oceano Pacífico
Esquecendo do tal Moai submergido, fomos buscar alternativas. Achamos uma operadora mais longe do centro e conversamos com eles. Tinham um mergulho marcado para uma área chamada Alcantillado e resolvemos ir com eles. Dia de sol, mar com águas claríssimas, não poderia dar errado. Como diz um amigo, “um mergulho, quando é ruim, é bom! E quando é bom, então, nem se fala!”.
Mergulhando nas águas claríssimas da Ilha de Páscoa, em pleno Oceano Pacífico
Mergulhando nas águas claríssimas da Ilha de Páscoa, em pleno Oceano Pacífico
E lá fomos nós, num pequeno barco, acompanhado de outros 4-5 mergulhadores menos experientes, além dos guias. Esse foi o único porém: excesso de gente levantando poeira e nadando com os braços. Esquecendo isso, o lugar é maravilhoso!
Explorando corais e cavernas durante mergulho na Ilha de Páscoa, em pleno Oceano Pacífico
A água tem uma visibilidade próxima dos 40 metros e nós mergulhamos sobre um jardim de corais que terminava em uma enorme parede cheia de pequenos canyons. Um cenário de tirar o fôlego! Apesar de não haver muitos peixes por ali (estamos muito mal acostumados com o Caribe...), as formações de corais ao longo da parede compensavam essa ausência.
Explorando corais e cavernas durante mergulho na Ilha de Páscoa, em pleno Oceano Pacífico
Explorando corais e cavernas durante mergulho na Ilha de Páscoa, em pleno Oceano Pacífico
O ponto alto foi descer, ou despencar, por um canyon que terminava em uma rachadura na parede e ir parar na boca de uma pequena caverna, onde entrávamos um por um. Já esperto, tratei de ser o primeiro a entrar. Antes que os outros fizessem sujeira lá dentro. Deu certo e foi maravilhoso! Só sentimos falta da nossa SeaLife, a câmera subaquática que nos roubaram em Totoralillo, no Chile. Tivemos que nos virar com a GoPro mesmo.
Explorando corais e cavernas durante mergulho na Ilha de Páscoa, em pleno Oceano Pacífico
Explorando corais e cavernas durante mergulho na Ilha de Páscoa, em pleno Oceano Pacífico
O segundo mergulho foi na parte mais rasa do mesmo banco de corais, sem descer a parede e, uma hora mais tarde, já estávamos no barco novamente. A boa notícia foi que o dono da agência gostou muito de nós e da nossa “técnica” e resolveu nos convidar para outro mergulho, em um lugar que exige mais experiência. Melhor ainda: só vamos nós dois de clientes! Vai ser depois de amanhã. Mal podemos esperar!
Mergulhando e caminhando mais de 20 km pelas encostas do vulcão Terevaka, até a praia de Anakena, na Ilha de Pascoa. A volta foi de carona, pela estrada!
De volta à terra firme, era a hora da caminhada. Nós saímos meio despretensiosamente, passando pelos Moais do Ahu Tahai, onde estivemos no entardecer de ontem e seguimos em frente, sempre ao lado do mar, dando a volta na ilha no sentido anti-horário. Seguíamos por uma pequena e rústica estrada que passa ao lado do museu e segue até uma área da costa conhecida por suas cavernas formadas pela lava de antigas erupções.
Caminhando na estrada que liga, pela costa, Hanga Roa com o antigo vulcão Maunga Terevaka, o mais alto da Ilha de Páscoa, no sul do Oceano Pacífico
Longa caminhada pelo norte da Ilha de Páscoa, no sul do Oceano Pacífico
A estrada não passa daí. Na verdade, ela embica para o interior da ilha, em direção aos sete Moais do Ahu Akivi (ainda vamos lá!). Nossa ideia original era parar por aí, mas o dia e a paisagem chamavam aventura e exploração. Então, abandonamos a estrada e seguimos colina acima, sempre perto do mar, continuando a margear a costa e dando a volta no vulcão Terevaka, o mais alto de Rapa Nui.
Explorando antigas ruínas da civilização que floresceu na Ilha de Páscoa, no sul do Oceano Pacífico
Trilha pelas encostas do Maunga Terevaka, no litoral norte da Ilha de Páscoa, no sul do Oceano Pacífico
A paisagem era grandiosa! Ainda mais dessa parte mais alta onde estávamos, já em pleno Parque Nacional. A pequena trilha as vezes sumia, outras reaparecia, como trilha de cavalos. Mas não era difícil caminhar sobre a vegetação rasteira, a ampla visão sendo nossa mais perfeita guia. Falando nos cavalos, eles sempre apareciam, garbosos e felizes, desfrutando suas vidas de liberdade e pasto infinito. O pano de fundo era o mar azul profundo, milhares de quilômetros sem sinal de terra firme para todos os lados. Afinal, estamos no meio do Oceano Pacífico!
Parada para admirar a vista desde as encostas do vulcão Maunga Terevaka, na Ilha de Páscoa, no sul do Oceano Pacífico
Um Ahu, ou altar, da antiga civilização da Ilha de Páscoa, no sul do Oceano Pacífico
Pela primeira vez, nos vimos sós, sem nenhum turista por perto. Esse é um trecho da ilha muito pouco visitado. Os guias não vem para cá, pois não há estradas. Apenas os viajantes mais exploradores. Durante todo o dia, só vimos dois deles, andando em sentido contrário. Assim, essa solidão perfeita nos aproxima ainda mais de Rapa Nui, de sua natureza e sua história. A sensação é de plenitude.
Ao longo de toda a trilha que contorna o Maunga Terevaka, são comuns os encontros com cavalos selvagens (Ilha de Páscoa, no sul do Oceano Pacífico)
Ao longo de toda a trilha que contorna o Maunga Terevaka, são comuns os encontros com cavalos selvagens (Ilha de Páscoa, no sul do Oceano Pacífico)
Falando em história, é impressionante a quantidade de ruínas que encontramos no caminho. Não são ruínas restauradas ou reformadas, prontas para uma foto. Não! São ruínas verdadeiras, antigos ahus semi-cobertos pela vegetação, moais caídos ou partidos no chão, antigas habitações em formato de canoa, as terevakas, perfeitamente desenhadas no solo.
Resquícios de habitação da antiga civilização que habitava a Ilha de Páscoa, no sul do Oceano Pacífico
Explorando antigas ruínas da civilização que floresceu na Ilha de Páscoa, no sul do Oceano Pacífico
Ao caminhar entre essas ruínas em seu estado natural, nosso sentimento de estar na Ilha de Pascoa fica ainda mais forte e verdadeiro. É claro que gostamos de ver os Moais restaurados posando para fotos, mas esses aqui são, de alguma maneira, mais reais. O que impressiona também é o verdadeiro congestionamento de ruínas. Agora sim compreendemos que aqui viviam 15 mil pessoas! Parados ali, naquela imensidão silenciosa, tentamos ouvir os ecos de um agitado passado. Como seria aquele mesmo cenário há 300 anos? Se o mar a nossa frente ou vulcão em nossas costas pudessem falar... Eles sim, viram e sabem de tudo.
Ao longo da trilha na costa norte da ilha, encontro com ruínas da antiga civilização da Ilha de Páscoa, no sul do Oceano Pacífico
Observando poço que servia de habitação para antigos moradores da Ilha de Páscoa, no sul do Oceano Pacífico
E assim passamos quatro ou cinco horas seguidas, caminhando e explorando, admirando e divagando, fotografando e nos inspirando. Foram mais de 20 km no total, dando toda a volta na ponta norte de Rapa Nui, um longo passeio que recomendo a todos que visitarem a ilha e tiverem energia para gastar.
Finalmente, depois de uma longa caminhada pelo norte da ilha, a praia de Anakena aparece no nosso horizonte! (Ilha de Páscoa, no sul do Oceano Pacífico)
Alegria ao chegar à praia de Anakena, fim da nossa longa caminhada pelo norte da Ilha de Páscoa, no sul do Oceano Pacífico
Por fim, chegamos novamente à praia de Anakena. Fomos lá molhar os pés, mas o que queríamos mesmo era molhar a garganta, uma boa cerveja do Tahiti para nos sentirmos ainda mais polinésios. Na mesa do bar com vista para a praia, logo ficamos amigos de um simpático casal, ela nativa e ele sueco, já tentando se acostumar com sua nova pátria. Já tinham até um filho, um legítimo Rapa Nui de cabelos claros! Foram eles que nos ofereceram carona para voltar pela estrada, já no final do dia. Ainda bem, pois não existe transporte público na Ilha de Pascoa e não estávamos muito animados para caminhar ouros 20 km pelo asfalto de volta a Hanga Roa. Foi um término perfeito para um dia realmente especial!
Um dos bares na praia de Anakena, na Ilha de Páscoa, no sul do Oceano Pacífico
Celebrando mais um dia fantástico na Ilha de Páscoa, no sul do Oceano Pacífico, com uma cerveja do Tahiti
Amanhã, é dia de termos nossas próprias rodas e irmos conhecer as atrações de Rapa Nui que ainda não vimos! Outro dia especial nos espera. Aliás, como são todos nessa ilha mágica.
Parada para admirar a vista desde as encostas do vulcão Maunga Terevaka, na Ilha de Páscoa, no sul do Oceano Pacífico
Correndo para as lagoas nas Reentrâncias Maranhenses - MA
Já não era sem tempo, o sol resolveu aparecer hoje. Meio filtrado pelas nuvens, mas sol, finalmente! Nos nossos planos originais, queríamos retornar hoje de madrugada para Apicum Açu, e de lá para o Pará. Mas querer não é poder! Numa ilha como a de Lençóis, sem transporte público, ficamos na dependência de quem tem barco. E quem tem barco, o Mário, disse que só vai amanhã. Então, ficamos mais um dia nesse pequeno paraíso e fomos brindados com um dia ensolarado! Justo! hehehe
Remando de volta para a Ilha de Lençóis, nas Reentrâncias Maranhenses - MA
O programa foi caminhar até o farol de São João que fica na ilha vizinha. A tentação de atravessar o canal no nado é grande, mas queremos levar a máquina e vamos de canoa mesmo, levados pelo Laílson. Ele num remo, eu no outro e a Ana de princesa, no meio. Contra a corrente, remo pesado, que saudade de um caiaque... Mas o esforço compensa e chegamos na praia de areias brancas do outro lado. Combinamos com o Laílson o horário de volta e seguimos em frente, agora caminhando.
Caminhada para o Farol de São João, nas Reentrâncias Maranhenses - MA
Maré seca na praia a caminho do Farol de São João, nas Reentrâncias Maranhenses - MA
A praia é gigantesca. Uma casa de pescador aqui, uma rede de pescador ali e o farol no horizonte. São os sinais de civilização nesse pedaço perdido do Brasil e do mundo. Uma hora de caminhada, passos largos. Cruzamos uma antiga floresta de mangue, soterrada e morta pelas areias em movimento. Empresta um ar meio fantasmagórico àquela paisagem tão linda. Por aqui, até visão fantasmagórica é bonita!
Atravessando mangue seco no caminho para o Farol de São João, nas Reentrâncias Maranhenses - MA
Mangue seco e lagoas na praia do Farol de São João, nas Reentrâncias Maranhenses - MA
Finalmente, chegamos ao farol, que não fica diretamente na praia, mas escondido atrás de pequenas dunas. Para chegar até lá, é preciso cruzar um terreno alagadiço e subir essas dunas. De lá, admiramos o farol e as casas em volta, sinal que de que o homem está presente. Resolvemos ir até o pé da construção, apesar da placa de proibição. O que nos animou a ir foram pescadores levando seu peixe para um pequeno porto que fica num igarapé atrás do farol. Estranhamos que eles cruzassem o terreno tão rapidamente, mesmo carregando uma carga pesada de peixes. Mas não demorou muito para entendermos. Foi descermos a duna do lado de lá que fomos atacados ferozmente por pernilongos famintos. Assim, a tática foi caminharmos rapidamente, tirarmos fotos e voltarmos correndo para o conforto do alto das dunas, onde sopra o vento e essa praga alada não existe.
O farol de São João, nas Reentrâncias Maranhenses - MA
O farol de São João, nas Reentrâncias Maranhenses - MA
Agora, subimos na mais alta das dunas. Visão magnífica das redondezas. De um lado, o farol, mangue, igarapés, muito verde. Do outro, o mar ao fundo e várias lagoas no caminho. Visão idílica. Tanto que nos animamos a descer e nos refrescar em uma delas. Depois, o longo caminho de volta...
Refrescando-se em lagoa da praia do Farol,nas Reentrâncias Maranhenses - MA
Aliás, até mais longo, porque a maré baixa aumentou muito o tamanho da praia e nós queríamos caminhar encostados no mar. Enfim, ao chegarmos, lá estava o Laílson nos esperando. Dessa vez, com maré seca, fui nadando mesmo, enquanto a Ana voltou de canoa. Belíssima caminhada premiada com um prato cheio de camarões na nossa pousada. E depois, a sagrada siesta da tarde.
Fim de tarde no alto das dunas na Ilha de Lençóis, nas Reentrâncias Maranhenses - MA
Fim de tarde no alto das dunas na Ilha de Lençóis, nas Reentrâncias Maranhenses - MA
Já em clima de despedida, fomos passar o mais belo fim de tarde da temporada no alto das dunas. De lá´para o Memorial de Dom Sebastião, para aprender um pouco das lendas e de como a comunidade tenta preservá-las. Por fim, uma última cerveja no bar do Martins, onde nos despedimos dos nossos amigos, inclusive dos pequenos gêmeos de 5 anos, Michael e Michaela, que foram nossos companheiros fiéis nessas três noites em Lençóis.
Exibição no Memorial de Dom Sebastião, na Ilha de Lençóis, nas Reentrâncias Maranhenses - MA
Amanhã, quatro e meia da matina, já estaremos no barco. Por isso, nada de dormir tarde. Mas a saudade desse lugar especial já começou a bater, mesmo antes de fecharmos nossos olhos. É aquela dura rotina já conhecida de estarmos sempre deixando para trás pessoas e lugares queridos. É, nem tudo são flores...
Os gêmeos Michael e Michaela, nossos companheiros de todas as noites no bar do Martins, na Ilha de Lençóis, nas Reentrâncias Maranhenses - MA
Praticando blues em plena praça de Chicago, em Illinois, nos Estados Unidos
Outra vez saímos cedo para nossas andanças em Chicago. Nosso hotel está muito bem localizado, ao lado do rio, e boa parte do centro está ao nosso alcance, apenas caminhando. O que fica longe são as interessantes vizinhanças étnicas, como China Town. Nesse caso, teríamos de usar o transporte público.
Em Chicago,é muito comum os trens do metrô passarem sobre nossas cabeças! ( em Illinois, nos Estados Unidos)
Táxis não são caros por aqui. Com 10 dólares, se chega nos lugares mais famosos. A gente só usou uma vez, para ir à praia, dois dias atrás. Depois, voltamos devagarzinho, à pé mesmo. Outra possibilidade são os “barcos-táxi”. Através dos dois rios e também da orla do Lago Michigan, eles são uma excelente opção. Na verdade, são mais “ônibus” do que “táxis”, já que tem pontos fixos e carregam umas 30 pessoas. Era nossa ideia ir até Chinatown ou ao distrito dos museus num deles, mas no final, optamos por caminhar pelo centro e pelos parques mesmo. Mas o tempo todo víamos os barcos amarelos seguindo para lá e para cá.
A enorme City Hall de Chicago, em Illinois, nos Estados Unidos
O clássico convive bem com o moderno em Chicago, em Illinois, nos Estados Unidos
Por fim, outra opção interessante são os metrôs. Principalmente porque, por longos trechos, eles não caminham por baixo da terra, mas sobre nossas cabeças! Os trilhos formam uma espécie de “segundo andar” em várias ruas da cidade. É uma cena típica da cidade observar um trem “voando” sobre nós.
Obras de arte espalhadas pelas ruas e praças de Chicago, em Illinois, nos Estados Unidos
Obras de arte espalhadas pelas ruas e praças de Chicago, em Illinois, nos Estados Unidos
Mas, como disse, aproveitando o dia maravilhoso que fez hoje, céu azul e sol radiante, optamos pelas caminhadas mesmo. Percorremos o chamado “circuito arquitetônico”, passando por vários marcos de Chicago, como ruas, praças, prédios e esculturas espalhados pela cidade. Na cidade, o moderno e o clássico convivem harmonicamente e é um deleite visual caminhar olhando para os diversos tipos de edifícios, uma verdadeira viagem no tempo, pois cada um representa a época em que foi construído.
Caminhando por praça central de Chicago, em Illinois, nos Estados Unidos
O famoso leão em frente ao Museu de Artes de Chicago, em Illinois, nos Estados Unidos
Muitas praças e prédios depois, voltamos aos parques da cidade. Quase toda a orla do lago é tomado por eles, principalmente na região sul do centro cidade (no norte estão as praias), onde se concentram os museus. Ali está a maior fonte de Chicago (nunca vi tanta água numa fonte!), quase em frente a uma das principais marinas da cidade. Visual perfeito para fotografias, não só as nossas, mas também para um book de casamento que estava sendo feito. Já na marina, quem aproveitava o dia e também a brisa que vinha do lago eram diversos turistas e moradores locais. Ficavam ali, vendo os barcos, a tarde e a vida passarem...
Fotos para o álbum de casamento, tendo Chicago como cenário (em Illinois, nos Estados Unidos)
Pessoas se refrescam na brisa vinda do lago, numa marina de Chicago, em Illinois, nos Estados Unidos
Falando em brisa, nesses dias Chicago não fez jus ao apelido de “Windy City”. Imagino que, assim como o frio polar, deve ser coisa do inverno. Agora no verão, apenas essa brisa muito agradável e salvadora do calor.
A fonte jorra alto num dia de muito sol em Chicago, em Illinois, nos Estados Unidos
Embora tentados a ficar por ali também, continuamos a caminhada, agora chegando ao Millenium Park, aquele da escultura do feijão. Outra vez nos divertimos por lá, admirados com o reflexo distorcido dos prédios da cidade. Mas dessa vez, o programa principal por lá foi outro: música!
Caminhando entre os arranhacéus de Chicago, em Illinois, nos Estados Unidos
Público se prepara para show gratuito de música clássica no Parque Millenium, em Chicago, em Illinois, nos Estados Unidos
Hoje era dia de apresentação musical na enorme e bela arena no coração do parque. Centenas de pessoas se acomodavam no gramado em frente ao palco, muitos trazendo um verdadeiro piquenique. A gente se empolgou também, corremos para uma padaria próxima, compramos um pão bem fresco e crocante e, claro, um bom vinho e voltamos para lá. A área da arena é a única em que o consumo de álcool é permitido, apenas nos dias de apresentação. Muita gente (e nós também!) aproveita para saborear um bom vinho enquanto ouve a apresentação. Hoje, era música clássica, uma ópera. Foi memorável estar ali, a skyline de Chicago como pano de fundo, pão, vinho e música de qualidade, todo mundo sentado na grama.
Outra vez, admirando o reflexo da cidade na mais popular obra de arte de Chicago, em Illinois, nos Estados Unidos
Chicago é uma cidade musical. Não foi a toa que tivemos essa chance do concerto no parque. Durante a caminhada, ao longo do dia, em diversos lugares ouvimos e vimos pessoas tocando. O mais legal foi um senhor praticando blues no meio de uma praça, bem perto da City Hall. Parecia ignorar o mundo a sua volta, compenetrado na arte que fazia. Melhor para nós, que podíamos conhecer a bela cidade, acompanhados de boa trilha musical!
A magnífica e iluminada Chicago, em Illinois, nos Estados Unidos
E a musica não terminou depois da apresentação no parque, não. Voltamos para o hotel e, de noite, fomos a um dos inúmeros bares de Chicago dedicados ao blues. Dessa vez, o companheiro da música foi uma boa cerveja e, por cerca de 90 minutos, acompanhamos um verdadeiro show de blues, primeiro com quatro homens tocando e depois, na melhor parte, uma mulher no vocal. Voz de tirar o fôlego. Nosso fôlego, pois o dela, parecia que não tinha fim. No ápice do show, ela chamou sua sobrinha para compartilhar o vocal e aí, foi um espetáculo duplo. Não sei quem disse que não existe superioridade entre raças! Afinal, quem vai negar que, na voz e no atletismo, os negros são muito melhores que os brancos? Não dá nem para comparar...
Tia e sobrinha arrasam em show de blues em bar de Chicago, em Illinois - Estados Unidos
E assim, nesse inesquecível dia de sol de música, terminamos nosso capítulo de Chicago nos 1000dias. Confesso que a cidade me surpreendeu e vamos deixá-la já com saudades. Nosso destino, agora, é uma sequência de Parques Nacionais. Voltaremos para as lindas e vastas paisagens do interior do país. Chega de multidões, natureza, aí vamos nós!
Deliciando-se com apresentação de blues em Chicago, em Illinois - Estados Unidos
O Salto Aponwao, o maior da Gran Sabana, na Venezuela
Há apenas uma rodovia na Gran Sabana. São cerca de 700 quilômetros de uma estrada em muito boas condições ligando Ciudad Guyana à Santa Elena, já bem próxima da fronteira com o Brasil. Aliás, essa é a única rodovia do país em que os policiais já estão acostumados com motoristas brasileiros, já que esse é o caminho mais perto para a praia para quem mora em Roraima e Manaus, frequentadores assíduos de Isla Magarita. Até tínhamos sido avisados sobre a chance de sermos parados e extorquidos por algum motivo qualquer, mas não tivemos problema nenhum. E nem vimos tanta polícia assim, talvez por ter viajado em um fim de semana.
Placa informativa de estrada secundária na Gran Sabana, na Venezuela
A Fiona nos leva através da Gran Sabana, na Venezuela
Depois que deixamos El Dorado para trás e entramos na Gran Sabana propriamente dita, quase não há mais movimento na estrada. Ficamos só nós e aquela vastidão magnífica ao nosso redor. Para quem quer sair dessa estrada asfaltada, há apenas uma saída, uma estrada de terra de 70 quilômetros até um local chamado Kavanayen. Aì existiu uma missão religiosa, em um local privilegiado no meio de vários tepuis. As construções de pedra ainda estão lá, assim como a aldeia indígena. Na metade dessa estrada de terra, há uma bifurcação que leva ao Salto Aponwao, o maior da Gran Sabana. Nosso plano original era conhecer esses dois lugares e ver de perto uma região bem menos conhecida da Gran Sabana. Afinal, até lá, só carros tracionados, principalmente na época das chuvas.
A Fiona nos leva através da Gran Sabana, na Venezuela
A Fiona nos leva através da Gran Sabana, na Venezuela
Só que, com a dificuldade em abastecer o carro, ficou bem apertado conseguir fazer tudo. Quando chegamos ao início dessa estrada, nos falaram que haveria um posto mais para o sul, na rodovia principal. Resolvemos tentar e dirigimos 25 km até lá. O posto realmente existia, mas nada de diesel. Voltamos os 25 km até a estrada de terra e, com 50 km a menos de combustível no tanque, agora era certo que não poderíamos ir até a antiga missão.
Pronto para ir conhecer o Salto Aponwao, na Gran Sabana, na Venezuela
O Luis, nosso guia na região do Salto Aponwao, na Gran Sabana, na Venezuela
Mas até o Aponwao, esse dava para arriscar. Estrada de terra em situação razoável até a bifurcação. A partir daí, muita areia e água, mas nada que parasse a Fiona. Chegamos na aldeia no final da estrada já no meio da tarde e logo ficamos amigo do Luis, um indígena local. Conversamos com ele sobre o tempo para ir até o Salto e logo ficou claro que voltaríamos já no escuro. A solução seria dormir por ali mesmo. Pensamos primeiro em acampar, mas mudamos de ideia quando o Luis ofereceu uma casa que ele tem para um dia virar uma pousada para dormirmos. Toda de pedra, mas ainda sem móveis. Ideal para um “acampamento interno”.
De canoa, a caminho do Salto Aponwao, na Gran Sabana, na Venezuela
Caminhando na Gran Sabana, a caminho do Salto Aponwao, na Venezuela
Foi ele também que nos levou até o Salto. Só se entra lá com guia, ainda mais que temos de atravessar um rio e, para isso, é preciso um barco. São dez minutos na canoa e outros 30 minutos caminhando em meio a relva da savana. Visual lindo, lembrando-me alguns trechos da parte alta da Serra da Canastra.
O Salto Aponwao, o maior da Gran Sabana, na Venezuela
Admirando o Salto Aponwao, na Gran Sabana, na Venezuela
Mas a maior beleza estava mais adiante, no gigantesco Salto Aponwao. Trata-se de um rio bem caudaloso despencando mais de 100 metros num enorme vale. Cachoeira para ser fotografada e admirada. Nadar, nem pensar!
Caminhando nas vastidões da Gran Sabana, na Venezuela
Fim de tarde na região do Salto Aponwao, na Gran Sabana, na Venezuela
O caminho de volta foi ainda mais bonito, tanto na caminhada como na parte de barco. O motivo? A luz do fim de tarde que, com suas cores avermelhadas e douradas, torna tudo mais fotogênico.
Nossa casinha na aldeia perto do Salto Aponwao, na Grand Sabana, na Venezuela
Nosso "acampamento" na casa do Luis, na Gran Sabana, na Venezuela
Voltamos para a aldeia e, antes de voltamos à nossa casinha de pedra, eis que um caminhão que aparece por lá quinzenalmente para fazer um comércio chegou. E ele tinha diesel! Conseguimos comprar um pouco, pelo menos para nos garantir até Santa Elena! Depois disso, fomos fazer nosso jantar no fogareiro na sala da nossa casa. Alimentado, eu fui dormir e a Ana, socializar com a família do Luis. O papo foi longe e nem vi direito a hora que ela voltou.
Caminhão atolado perto da Aldeia Aponwao, na Grand Sabana, na Venezuela
Hoje cedinho, ela me contou da longa conversa que teve por lá. A esposa do Luis gosta muito de Roraima, pois teve de levar uma prima até um hospital por lá e foram muito bem tratadas. O seu sonho é ir morar no Brasil. Mas não foi só pela conversa que a Ana chegou tão tarde. O tal caminhão que nos vendeu o diesel acabou atolando numa estrada aqui perto, quando levava uns moradores para umas casas distantes. A Ana acabou por leva-los na Fiona, mas o pobre caminhão continuou por lá. A Ana prometeu ajuda assim que o dia amanhecesse.
A Fiona guincha um caminhão atolado perto da Aldeia Aponwao, na Grand Sabana, na Venezuela
Assim, logo cedo, fiquei sabendo que já tínhamos programa: arrancar do barro um caminhão de nove toneladas. Para lá fomos nós, com cordas, pá, pranchas de alumínio e, claro, com o guincho da Fiona.
A prancha de aluminio nos ajuda a desatolar o caminhão perto da Aldeia Aponwao, na Grand Sabana, na Venezuela
A Fiona guincha um caminhão atolado perto da Aldeia Aponwao, na Grand Sabana, na Venezuela
A roda traseira do caminhão estava completamente enterrada no barro. Não ia ser fácil! Pessoas empurrando não faziam nem cócegas. Tentar puxar com uma corda também não. Então, cava daqui, cava dali, levanta com o macaco, joga pedra embaixo, coloca as pranchas de alumínio, amarra o guincho e força total!
Controlando o motor do guincho da Fiona durante operação paa desatolar um caminhão, perto da Aldeia Aponwao, na Grand Sabana, na Venezuela
É claro que, quando o guincho funcionava, que era puxado era a Fiona e não o caminhã de 9 toneladas. Então, botamos umas pedras enormes para calçar as rodas da Fiona e, devagar, devagar, fomos tirando o bicho lá dentro.
Celebração após desatolarmos um caminhão perto da Aldeia Aponwao, na Grand Sabana, na Venezuela
Ao final, quase duas horas de trabalho, pés, mãos e roupas imundas, mas pudemos comemorar! A Fiona acaba de cumprir seu maior desafio até hoje: resgatar um caminhão carregado nove vezes mais pesado do que ela!
O Luis, nosso guia, e sua esposa Stefany, moradores da Aldeia Aponwao, na Grand Sabana, na Venezuela
O Luis, nosso guia, e sua esposa Stefany, moradores da Aldeia Aponwao, na Grand Sabana, na Venezuela
Depois, hora de despedir do Luis e da sua simpática esposa e seguirmos viagem. Cinco minutos na estrada de areia e água e cruzamos várias landrovers e toyotas em sentido contrário. Eram carros de agências de Santa Elena trazendo turistas para o Salto Aponwao. “Chegaram atrasadas para a brincadeira!”, foi o que a Fiona disse para elas, hehehe
Tours vindos de Santa Elena se dirigem ao Salto Aponwao, na Grand Sabana, na Venezuela
A Ana se esgueira nas estreitas passagens da caverna La Taina, em Santo Domingo, capital da República Dominicana
Desde que fizemos nosso curso de mergulho em cavernas, há mais de três anos, no Brasil, que começamos a nos informar sobre onde estão alguns dos melhores pontos desse tipo de atividade pelo mundo afora. O Brasil, por exemplo, tem dezenas de belíssimas cavernas inundadas com uma água cristalina, um verdadeiro paraíso para mergulhadores. Só que, já faz algum tempo, a atividade de mergulho está interditada em todas elas, por força de lei. Pelo menos até que se faça o estudo de impacto ambiental que esse tipo de atividade causaria. É um estudo caro e os donos das áreas onde estão as cavernas não querem fazer esse investimento. Resultado: tudo fechado!
Preparando-se para mergulhar na caverna La Taina, em Santo Domingo, capital da República Dominicana
Fora do Brasil, aqui nas Américas, dois dos melhores lugares para esse tipo de mergulho são a Flórida, nos EUA, e o Yucatán, no México. Nós estivemos nos dois. As cavernas do Yucatán são mesmo impressionantes, um outro mundo aqui, tão perto do nosso e, ao mesmo tempo, tão desconhecido de todos. Aí estivemos há poucos meses, fizemos o curso de mergulho avançado em cavernas e nos certificamos para ir mais longe. Estávamos loucos para botar em prática os novos conhecimentos.
Início de mergulho, com tanques duplos e stage para descompressão, na caverna La Taina, em Santo Domingo, capital da República Dominicana
Essa chance apareceu aqui, na República Dominicana, outro lugar rico em cavernas submersas. A atividade está longe de ser desenvolvida como nos EUA e México, mas ao menos as cavernas não são proibidas como no Brasil. Na verdade, há apenas um operador no país para esse tipo de mergulho e nós já tínhamos entrado em contato com eles antes mesmo de voar para cá. Não queríamos perder essa chance e, ao final, deu tudo certo e fomos mergulhar hoje na caverna La Taina, na periferia de Santo Domingo.
O tradicional sinal de aviso no início de todas as cavernas, em La Taina, em Santo Domingo, capital da República Dominicana
O mergulho nessa caverna tem uma profundidade média bem maior do que os mergulhos que fizemos no México. Para quem entende do assunto, isso só pode significar duas coisas: ou fazemos um mergulho mais rápido, para nos manter nos limites não descompressivos, ou fazemos um mergulho técnico, com paradas descompressivas. Já tínhamos feito esse tipo de mergulho no mar, mas nunca em cavernas. Bom, sempre há uma primeira vez e achamos que aqui seria um ótimo lugar. Afinal, depois de tanto esforço, queríamos poder ficar mais tempo embaixo d’água e poder conhecer essa bela caverna cujo nome é uma homenagem aos antigos habitantes da ilha.
Formações submersas na bela caverna La Taina, em Santo Domingo, capital da República Dominicana
Quando mergulhamos, estamos em um ambiente de maior pressão. Quanto mais fundo, mais pressão, Basicamente, a cada dez metros, ganha-se outra pressão atmosférica. Quanto mais pressão, mais os nossos tecidos absorvem o nitrogênio que está no ar que respiramos. Antes de sair da água, é preciso dar tempo aos tecidos para “devolver” esse nitrogênio à corrente sanguínea e daí, ao ar que expiramos. Se sairmos da água com o nitrogênio ainda em nossos tecidos, aqui do lado de fora ele vai se transformar em bolhas, causando desconforto, dor, lesão e até causando a morte do mergulhador. É por isso que, quando mergulhamos mais fundo, ou ficamos pouco tempo por lá, para não dar tempo aos tecidos de absorverem muito nitrogênio, ou ficamos bastante tempo no final do mergulho a uma profundidade menor, para dar tempo ao organismo de se livrar do nitrogênio.
Mergulhando na caverna La Taina, em Santo Domingo, capital da República Dominicana
Há uma maneira simples de contornar esse problema. Se a dificuldade está no nitrogênio, que tal mergulhar sem ele? Para isso, temos de mergulhar com uma mistura diferente de gases do que estamos acostumados na nossa atmosfera. Substituímos o nitrogênio por outro gás. A primeira opção é o próprio oxigênio. Acontece que o oxigênio se torna tóxico ao organismo sob pressões mais elevadas. Então, ele só é uma opção para mergulhos mais rasos. A outra opção é o hélio. Mas o hélio é caro! Então, se não quisermos pagar muito caro pelo mergulho, temos de achar uma solução “intermediária”: mergulhamos com ar normal, mesmo, pelo menos enquanto estamos na parte mais profunda. Ficamos por lá o tempo necessário para fazermos nossos explorações e depois, com os tecidos repletos de nitrogênio, voltamos à parte mais rasa. Aí, ao invés de ficar esperando uma hora para o corpo de livrar do nitrogênio, passamos a respirar uma mistura rica em oxigênio, com bem pouco nitrogênio. Com isso, conseguimos nos livrar mais rapidamente desse gás e perder menos tempo por ali. O que seriam 40 ou 50 minutos de descompressão se tornam 10 ou 15 minutos!
A Ana se esgueira nas estreitas passagens da caverna La Taina, em Santo Domingo, capital da República Dominicana
Enfim, dificultamos um pouco a logística do mergulho, mas ganhamos bastante em tempo de fundo e economizamos em “tempo de raso”. Além dos nossos tanques duplos com ar “normal”, levamos outro, menor, com ar rico em oxigênio. Deixamos essa garrafa extra nos esperando no ponto onde faremos a mudança e percorremos a caverna apenas com nossos tanques duplos. Essa troca de garrafas, como disse acima, já tínhamos feito no mar, no nosso curso de mergulho técnico. Mas em cavernas, misturando agora nossos diversos conhecimentos, foi a primeira vez. Até por isso, ao invés de virmos solos, preferimos vir com um guia, profundo conhecedor da caverna.
Com o nosso guia, mergulhando na caverna La Taina, em Santo Domingo, capital da República Dominicana
A experiência foi fantástica! A caverna não é tão bonita como as mexicanas, mas também tem suas áreas cheias de espeleotemas, as formações de calcário como colunas, estalactites, estalagmites e outras, prova indubitável que já esteve, durante muito tempo, acima do nível do mar. Falando em mar, para nós, o mais belo e impressionante é quando, durante o mergulho, cruzamos a chamada “haloclina”, a fronteira entre a água doce e a salgada, que não se misturam. Ela é muito mais marcante aqui do que no México e, por uma feliz coincidência, uma parte grande dos túneis submersos está exatamente nessa profundidade. Isso quer dizer que estamos cruzando a haloclina o tempo todo, para cima e para baixo. Fantástico! É difícil descrever, mas a sensação é de que a água fica “embaralhada”, apesar de estar limpa como sempre. Mergulhando atrás da Ana, quando ela passava para o lado de lá, eu quase não a via mais. O que explica isso é a diferença de densidade dos dois tipos de água. É como quando vemos o ar “tremendo” encima de uma churrasqueira. Só que aqui, quem “treme” é a água.
Formações submersas na bela caverna La Taina, em Santo Domingo, capital da República Dominicana
Os túneis de La Taina também eram bem mais estreitos que no México, o que nos deu uma sensação completamente diferente. Em alguns pontos, precisávamos nos esgueirar. Mas passamos por salões grandes também, finalmente deixamos a haloclina para trás e chegamos a 40 metros de profundidade! Nesse ponto, a mais de 500 metros de distância da entrada da caverna e da confortável atmosfera, nem é bom pensar no quão estamos longe do “mundo normal”. Lá embaixo, confiança total em nossos equipamentos, companheiros e técnicas e protocolos aprendidos ao longo de tantos mergulhos. Enfim, era como se estivéssemos em Marte. Depois, na volta, toda a diversão da haloclina novamente até chegarmos aos tanques ricos em oxigênio. Uns dez minutos de “descompressão” e pudemos voltar para a superfície, muito felizes de termos completado com sucesso nosso primeiro mergulho técnico em cavernas. Inesquecível! Um motivo a mais para a República Dominicana estar, para sempre, na nossa memória, com direito a lugar de honra!
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