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SHUFFLE Há 1 ano: Minas Gerais Há 2 anos: Minas Gerais

Lajedo de Soledade

Brasil, Rio Grande Do Norte, Soledade, Mossoró

Pintura de papagaio no Lajedo da Soledade, região de Apodi - RN

Pintura de papagaio no Lajedo da Soledade, região de Apodi - RN


O Lajedo Soledade é uma formação calcária em meio ao sertão potiguar, cuja origem se deu há mais de 140 milhões de anos. A rocha calcária é de origem marinha e aflorou depois do recuo do oceano, passando pelo processo de erosão da água e do vento, que ao longo de milhares de anos foi esculpindo a rocha em pequenos cânions. São três pontos no lajedo abertos à visitação, Araras, Urubu (fechado nesta época) e Olhos d´água.

Com o Cézar, nosso guia no Lajedo de Soledade, região de Apodi - RN

Com o Cézar, nosso guia no Lajedo de Soledade, região de Apodi - RN


Há mais de 20 anos a Petrobrás pesquisa esta região, uma vez que nos municípios vizinhos foram encontrados poços terrestres de petróleo. Segundo informações do guia local, também foram encontrados poços, porém de uma profundidade maior e por isso a extração só deverá ser iniciada a partir do segundo semestre deste ano.

Extração de petróleo no meio da caatinga, região de Mossoró - RN

Extração de petróleo no meio da caatinga, região de Mossoró - RN


Durante estas pesquisas foram encontrados fósseis marinhos de ostras, caramujos, ouriços e estrelas do mar com 90 milhões de anos, sendo considerada uma das áreas mais antigas do Brasil. Mais tarde estas estruturas foram utilizadas como fonte de água ou abrigo por animais da mega-fauna como tigre de dente de sabre, preguiças e tatus gigantes. Os fósseis destes animais foram encontrados durante as escavações e pesquisas e hoje estão no museu da cidade.

Saindo de toca no Lajedo da Soledade, região de Apodi - RN

Saindo de toca no Lajedo da Soledade, região de Apodi - RN


Foram encontradas também, pinturas rupestres da tradição agreste e itacoatiara datadas entre 3 e 5 mil anos AP (antes do presente). As pinturas possuem traços delicados e demonstram um avançado conhecimento da técnica, as colorações vermelhas e amarelas, obtidas do óxido de ferro, sangue e gordura vegetal.

Pinturas da tradição Itacoatiara no Lajedo da Soledade, região de Apodi - RN

Pinturas da tradição Itacoatiara no Lajedo da Soledade, região de Apodi - RN


Foram identificadas as imagens de pássaros como o papagaio e a arara, um lagarto, centopéias, além de formas geométricas e carimbos de mãos adultas e de crianças. Os estudos apontam que estes grupos eram nômades e utilizavam os caminhos naturais do lajedo para encurralar a caça. Mais de um grupo passou por ali, uma vez que as pinturas se sobrepõem.

Pinturas rupestres no Lajedo da Soledade, região de Apodi - RN

Pinturas rupestres no Lajedo da Soledade, região de Apodi - RN


Novamente encontramos como responsável pelo projeto o ex-engenheiro da Petrobrás Eduardo Bagnoli, o mesmo que trabalhou para a preservação do Lajedo do Pai Mateus na Paraíba. Ele encampou o projeto de proteção da área do lajedo, formando a Fundação Amigos do Lajedo de Soledade, que possui patrocínio da Petrobrás e iniciou há mais de 20 anos o trabalho de conservação, conscientização da população que vive da extração de cal e formação de guias locais para o turismo.

Lajedo da Soledade, em Soledade, região de Apodi - RN

Lajedo da Soledade, em Soledade, região de Apodi - RN


A comunidade de Soledade, pertencente ao município de Apodi, possui em torno de 4 mil habitantes e sua principal atividade econômica é a produção de cal. A cal é produzida através da queima da rocha calcária. Inicialmente extraída manualmente, com picaretas e marretas e hoje com explosões em pólvora e dinamite, ameaçando a estrutura calcária, depredando as pinturas e vendendo pedaços de fósseis. É difícil estimar quanto deste patrimônio histórico e cultural já foi perdido no processo de exploração.

Observando arte rupestre no Lajedo da Soledade, região de Apodi - RN

Observando arte rupestre no Lajedo da Soledade, região de Apodi - RN


Hoje a comunidade já percebeu a importância da sua preservação. Além do museu existe o Centro de Atividades do Lajedo, que estimula a produção de artesanato local que ajuda na renda das famílias da região. Um trabalho muito bonito desenvolvido para preservar a herança de nossos ancestrais, que marcaram ali a sua existência, sua cultura e seus costumes.

Espiga de milho, pé de milho e o sol retratados nas pinturas rupestres do Lajedo da Soledade, região de Apodi - RN

Espiga de milho, pé de milho e o sol retratados nas pinturas rupestres do Lajedo da Soledade, região de Apodi - RN


“Preservar, mais do que respeito exige amor, pressupõe a empatia necessária para que possamos sentir o elo de humanidade que emana destas rochas pintadas e nos alcançam através dos séculos.”

Trecho retirado de um texto em exposição no museu do Lajedo de Soledade.

Brasil, Rio Grande Do Norte, Soledade, Mossoró, Apodi, Lajedo de Soledade, pinturas rupestres

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Um dia em Nuuk

Groelândia, Nuuk

Nuuk, capital da Groelândia, em um dia frio e ensolarado de primavera

Nuuk, capital da Groelândia, em um dia frio e ensolarado de primavera


Nuuk, a menor capital do mundo, possui apenas 16 mil habitantes, mas uma das maiores cidades da região Ártica. Fundada em 1728 pelo missionário Hans Egede, está localizada na costa sudoeste da ilha e marca o início de um imenso sistema de fiordes. Navegar a costa oeste do país a partir de Nuuk é um dos tours mais procurados pelos turistas que vem à Groelândia, ao lado da viagem à cidade de Ilulissat.

Obra de arte na orla de Nuuk, capital da Groelândia

Obra de arte na orla de Nuuk, capital da Groelândia


Sede política e econômica do país, teve seu nome alterado para Nuuk, "a península", em kalalissut em 1979, até então se chamava Godthab, “boa esperança” em dinamarquês. Hoje abriga o Parlamento da Gronelândia, o Tribunal Gronelandês, a Biblioteca Nacional, o Museu Nacional e o Hospital Especializado Nacional, além da Universidade da Groelândia, única universidade pública no país.

Arte moderna nas ruas de Nuuk, capital da Groelândia

Arte moderna nas ruas de Nuuk, capital da Groelândia


Deixamos as malas em armários no aeroporto e saímos bater perna, já que o nosso voo para a Islândia é só às dez da noite. Um passeio pelas ruas movimentadas da capital e logo percebemos que ir às compras nos deliciosos supermercados é a atividade preferida dos capitalinos. Supermercado lotado, seja para compras ou apenas para fazer um almoço rápido ou atacar as delícias da confeitaria.

Balcão bem sortido em padaria de Nuuk, capital da Groelândia

Balcão bem sortido em padaria de Nuuk, capital da Groelândia


Os cafés também são um ótimo refúgio para os dias frios, na parte alta da cidade encontramos o cantinho que utilizamos como base durante o dia. Tortas de banana, chocolate, blueberry, sanduíches gourmets e indulgências bem internacionais, nada de filezinho de baleia.

Deliciosos pães em padaria de Nuuk, capital da Groelândia

Deliciosos pães em padaria de Nuuk, capital da Groelândia


Uma coisa que me chamou atenção foi a quantidade de bebês nas ruas. As mães saem passear, vão às compras e aos cafés com seus carrinhos. Como? O bebê usa pelo menos 4 camadas de roupas poderosas, mas o segredo está no mini saco de dormir para baixíssimas temperaturas! Em cima de tudo isso ainda está uma capa plástica contra neve, chuva e vento que se encaixa perfeitamente no carrinho, deixando o pequeno em uma estufa particular. No lado de fora dos cafés vemos apenas o estacionamento de carrinhos e pasmem, os bebês estão ali, dormindo, enquanto as mães estão lá dentro! Algumas mães mais tecnológicas levam até a babá eletrônica com elas, caso o bebê acorde. Vivendo e aprendendo!

Estacionamento de carrinhos de bebê em um acolhedor café de Nuuk, capital da Groelândia

Estacionamento de carrinhos de bebê em um acolhedor café de Nuuk, capital da Groelândia


O centro histórico, suas casinhas coloridas e o porto tem uma vista linda do Oceano Atlântico. Aproximamos-nos da Catedral Luterana de Nuuk, com suas portas fechadas, e subimos a pequena trilha do monte onde está a estátua em homenagem ao missionário e fundador da cidade.

A catedral Luterana de Nuuk e a estátua de Hans Egede, na Groelândia

A catedral Luterana de Nuuk e a estátua de Hans Egede, na Groelândia


O Museu Nacional, que oferece exposições sobre a história norse e inuit, estava fechado no dia de folga internacional dos museus, segunda-feira. Fomos então ao Centro Cultural Katuaq, prédio modernoso no centro da cidade que oferece programações de música, cinema e teatro, a melhor programação para um fim de tarde de frio e neve.

Bonequinhos brancos, conhecido artesanato groelandes em loja de Nuuk, capital da Groelândia

Bonequinhos brancos, conhecido artesanato groelandes em loja de Nuuk, capital da Groelândia


Filmes nacionais são exibitos a cada 15 dias ou mês, mas hoje era a programação era a grande estreia do filme The Avengers. Uma fila imensa se formou abaixo de neve e vento para assistir o filme na sessão das 18h. Aqui o mercado de óculos 3D já parece estar avançando rapidamente, pois para assistir o filme somos obrigados a comprá-los e vários modelos e designs são oferecidos. Não era exatamente o que estávamos procurando, mas foi uma experiência e tanto assistir um filme americano, com textos em russo, legendas em dinamarquês, rodeados de inuits por todos os lados!

Cartaz de filme dinamarquês nas ruas de Nuuk, capital da Groelândia

Cartaz de filme dinamarquês nas ruas de Nuuk, capital da Groelândia


Nosso plano inicial era fazer um passeio de barco para avistamento de baleias. Segundo os sites e informações que tínhamos os passeios saem do porto de Nuuk todos os dias durante ao longo do ano. A primeira parada foi no ponto de informações turísticas da cidade que também funciona como agência de turismo. Chegamos cedo, mas infelizmente hoje não havia nenhum barco saindo e mesmo que saíssem o rapaz nos disse que esta não é a melhor temporada para baleias, com sorte veríamos uma jubarte, que também encontramos na costa brasileira. Os arredores da cidade oferecem algumas opções de trilhas e atividades relacionadas à natureza. Nesta época, porém as trilhas não estão muito claras devido à neve.

De volta à Nuuk, capital da Groelândia

De volta à Nuuk, capital da Groelândia


O site da de turismo da Groelândia é belíssimo e tem informações completas sobre todos os passeios que podem ser feitos durante qualquer temporada. Porém se você não está em grupo e chega em um período com menos turistas, ficará bastante amarrado para viabilizar os passeios. Nós que normalmente tentamos fugir dos tours em grupo e das hordas de turistas aqui sentimos falta deles! Então a dica é programar a sua viagem para um período de alta temporada, verão ou inverno, dependendo das atividades que esteja mais interessado. A meia estação tem menos movimento e os preços não ficam mais baixos por isso.

Com muito vento, junto à estátua de Hans Egede, fundador de Nuuk, capital da Groelândia, em 1728

Com muito vento, junto à estátua de Hans Egede, fundador de Nuuk, capital da Groelândia, em 1728


Hoje nos despedidos da Groelândia, quebrando tabus, pois sabemos que sim, a Groelândia existe e merece mais do que 5 dias para ser explorada. O seu povo caloroso e receptivo, a natureza selvagem garantem todo um mundo novo a ser descoberto. O Ártico nos reserva belezas lindas e cada vez mais acessíveis pela tecnologia e infra-estrutura disponível. Com certeza voltaremos.

Aproveitando a bela tarde de Nuuk, capital da Groelândia, para caminhar pela cidade

Aproveitando a bela tarde de Nuuk, capital da Groelândia, para caminhar pela cidade

Groelândia, Nuuk, Ártico

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Chuva em Fortaleza

Brasil, Ceará, Fortaleza

Passeando na orla de Fortaleza - CE

Passeando na orla de Fortaleza - CE


Fortaleza é conhecida por ser das capitais mais ensolaradas do ano, “aqui mesmo quando chove faz sol”, diz um guia da cidade. Mentira! Estamos há quase 2 dias sob chuvas e nuvens negras que não víamos há muito tempo. Aquecimento global? Inverno nordestino ou apenas uma água abençoada para esta terra que (quase) nunca chove? Prefiro a última opção.

Orla de Fortaleza - CE

Orla de Fortaleza - CE


Ontem até fez um solzinho, mas depois dos últimos dias, repletos de atividades e shows, precisávamos parar um pouco e coloca o site em dia. Foi um dia inteiro enfurnados no hotel escrevendo, pesquisando, tuitando, etc. Saímos apenas para um almoço rápido na orla aqui na praia de Iracema, demos uma olhadinha no píer da Ideal e voltamos à nossa caverna.

Praia de Iracema, em Fortaleza - CE

Praia de Iracema, em Fortaleza - CE


Hoje a chuva foi incansável, incessante e impiedosa com os pobres turistas da capital cearense. Nós, como também temos nossos dias de Maria, aproveitamos para resolver pendências como levar mochilas e sapatos ao sapateiro, comprar um celular pré-pago para emergências, almoçar uma trashfood no Shopping Aldeota e tomar a vacina contra febre-amarela.

Conseguindo a Carteira Internacional de Vacinação, em Fortaleza - CE. Pronta para sair do país!

Conseguindo a Carteira Internacional de Vacinação, em Fortaleza - CE. Pronta para sair do país!


Esta última já uma providência de olho na travessia da nossa primeira fronteira internacional, Guiana Francesa, que deve ocorrer em menos de um mês! Fui ao Posto de Saúde Meirelles, vacinei rapidinho, sem fila nem nada e depois fomos à Anvisa no centro para fazer a transcrição da vacina para a carteira internacional. Francisca, funcionária da Anvisa com quem eu já tinha falado por telefone foi simpaticíssima e o atendimento foi super rápido. Só demorei mais ali por que ficamos batendo papo. Nessas voltas conhecemos o centro, mas sabem como é, centro é centro, lojinhas de artigos paraguaios, camelôs, ruas estreitas e lotadas. Passamos também pelo Banco Central, aquele que foi alvo de um dos maiores assaltos a banco do Brasil, coisa cinematográfica.

Night no Pirata, em Fortaleza - CE

Night no Pirata, em Fortaleza - CE


Voltamos ao hotel, mas hoje determinados a conhecer pelo menos uma das atrações obrigatórias da cidade, o Bar do Pirata. Caminhamos sob uma garoa fina que tratou de deixar o calçadão vazio, mas quando chegamos ao bar lá estava ele, cheio de turistas animados de todas as partes do Brasil. O Pirata é um dos responsáveis pela fama que Fortaleza tem de possuir a segunda-feira mais animada do país, pois ele só abre na segunda-feira. Primeira pergunta que nos passou pela cabeça, como ele se sustenta? A resposta veio fácil e mais rápido do que imaginamos, 35 reais de entrada por pessoa.

Mesmo com chuva, show no bar Pirata, em Fortaleza - CE

Mesmo com chuva, show no bar Pirata, em Fortaleza - CE


A casa lotada deve acomodar umas 1000 pessoas facilmente, além dos 5 reais por cerveja, e a linha de montagem para petiscos e caipirinhas. A banda toca um pouco de tudo, desde que seja música nordestina ou sertaneja. Forró, axé, brega e as mais famosas do chapéu, Luan Santana, Vitor e Léo, essas coisas. Os bailarinos da banda são uns piratas gostosões (alguns meio fora de forma), que ficam passando aquelas coreografias pra galera, que animadíssima repetia tudo atentamente embaixo da chuva. Só uma coisa a dizer, “a nível de balada” foi um ótimo estudo antropológico.

Night com chuva no Pirata, em Fortaleza - CE

Night com chuva no Pirata, em Fortaleza - CE


Amanhã, “time is over”, chova ou faça sol vamos ter que sair da toca e explorar a cidade.

Brasil, Ceará, Fortaleza, chuva

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Jamaica Reggae Yeah!

Jamaica, Negril

A maravilhosa praia de Long Bay, em Negril, na Jamaica

A maravilhosa praia de Long Bay, em Negril, na Jamaica


Eu estive pensando... ando querendo encontrar a verdadeira Jamaica. Qual será essa Jamaica? Qual é a imagem que eu tenho? Sem dúvida o primeiro contato que eu tive com a cultura “jamaicana” foi através das músicas de Bob Marley.

Toalhas à venda em  Negril, na Jamaica

Toalhas à venda em Negril, na Jamaica


Reggae, com temas sociais e religiosos, como o preconceito, a pobreza e o rastafarianismo aos poucos foram moldando a imagem que eu fazia do país. Mais do que o lugar, eu sempre imaginei encontrar as pessoas, conhecer seus costumes, sua forma de pensar e seu estilo de vida. O problema é que estou esperando ver a Jamaica de 20 anos atrás. Somado a isso, ainda estão as notícias de alta criminalidade e tensões políticas que escutamos de outros turistas ou guias de turismo. Sair de dentro do resort seria problema na certa! “Pessoas já foram assaltadas, levaram facadas e até estupradas, cuidado!”

Fim de tarde disputado e fotografado no Rick's Cafe, em West End, em Negril, na Jamaica

Fim de tarde disputado e fotografado no Rick's Cafe, em West End, em Negril, na Jamaica


O que encontramos é uma sociedade globalizada, desenvolvida, sim com muita pobreza também, mas nada diferente do que já encontramos em toda a América Latina. A indústria dos hotéis resorts all inclusive na Jamaica é tão grande que para se manter deve ter como estratégia de marketing espalhar estas barbáries por aí. Aos poucos vamos conhecendo pessoas como Winston, um baita negão viajado, culto e super querido que todos os dias no bar do hotel nos apresenta um pouco da boa música jamaicana.

Fim de tarde com banda de música no Rick's Cafe, em West End, em Negril, na Jamaica

Fim de tarde com banda de música no Rick's Cafe, em West End, em Negril, na Jamaica


Conversando com David e Antoine em Montego Bay, ficamos sabendo que dos aproximados 5,5 milhões de jamaicanos, pelo menos metade seria rastafári, 25% se dividem entre católicos e batistas, 15% chineses e indianos e cerca de 10% são estrangeiros europeus e americanos que moram na Jamaica. E se pedimos para ele chutar qual é o percentual da população que curte ganja, eles dizem 90%! Excluem aí apenas os católicos e batistas mais religiosos e assíduos. Ainda assim todos trabalham, com turismo, comércio ou são agricultores no interior.

Chegando ao famoso Rick's Cafe, em Negril, na Jamaica

Chegando ao famoso Rick's Cafe, em Negril, na Jamaica


Com estes pensamentos vou aos poucos reconstruindo a imagem da Jamaica, vendo que parte daquela cultura ainda existe e está entrelaçada com a nova onda turística em que vivem todos os países do Caribe.

A maravilhosa praia de Long Bay, em Negril, na Jamaica

A maravilhosa praia de Long Bay, em Negril, na Jamaica


Começamos uma longa caminhada pela praia, o objetivo era chegar ao final dela. Andamos pelo menos 12km, 6 indo e 6 voltando no nosso hotel, passando em frente à vários hotéis e resorts all inclusive, onde imperam os turistas de terceira idade e famílias norte-americanas. Quase chegando ao nosso objetivo, encontramos o único trecho de praia “fechada”, mas decidimos seguir, já que a principio todas as praias são públicas na Jamaica. Foi quando percebemos que estávamos no meio de vários peladões, ou seja, dentro de um resort naturista, o Hedonist Resort, um hotel all inclusive. Eu nunca tinha entrado em um e não imaginava, foi uma cena totalmente inesperada! Passar por ali era o único jeito de chegar até o final da praia, falamos com um segurança e ele nos liberou a passagem. Curioso é que o resort estava lotado, cena completamente diferente do paraíso natural que imagino que os naturistas estejam procurando. Afinal, quem paga um caminhão de dinheiro para ficar à vontade em um resort na Jamaica e tem que ficar disputando cadeira e um lugar ao sol, ainda sem nenhuma privacidade? Com roupa ou sem roupa, praia lotada dentro de um resort é o fim da picada.

Lagostas capturadas em Negril, na Jamaica

Lagostas capturadas em Negril, na Jamaica


Depois da longa caminhada nos pusemos a trabalhar em frente ao computador. Rodrigo no quarto e eu no deck, próximo à piscina em frente ao mar. Não demoraram 15 minutos para eu me entrosar com um grupo de americanos que freqüenta a praia há mais de 18 anos. Bert, Bobby, Peter e Howard vêm para a Jamaica todos os anos, alguns já tem casa e até investimentos na ilha. Bobby veio pela primeira vez em 1978, quando Negril não tinha nada a não serem palmeiras na beira da praia.

Salto com piruetas de 30 metros de altura no Rick's Cafe, em West End, em Negril, na Jamaica

Salto com piruetas de 30 metros de altura no Rick's Cafe, em West End, em Negril, na Jamaica


Super conhecedores do local nossos novos amigos nos adotaram e quiseram nos apresentar os principais lugares de Negril. Saímos ali do bar em direção ao Rick´s Café. No alto das pedras em West End, o Rick´s Café é uma das principais atrações de Negril. Mergulhadores profissionais fazem suas performances para saltar de trampolins instalados no alto dos penhascos. Turistas também podem saltar de um trampolim mais baixo, com pelo menos uns 12m de altura! Haja coragem! Brindamos com Bert e Peter ao por do sol, às novas amizades e à sorte que tivemos de encontrá-los ali!

Saltadores e o coletor de dinheiro, no Rick's Cafe, em West End, em Negril, na Jamaica

Saltadores e o coletor de dinheiro, no Rick's Cafe, em West End, em Negril, na Jamaica


Voltamos ao hotel para um período de descanso e preparativos para um show de reggae que eles nos convidaram. Chegamos ao show em um super lugar, vendo a lua e a praia, poucos turistas e um som de altíssima qualidade. Rolou até uma Jam Section entre uma das bandas e uma cantora de Blues de Louisiana, animal! No intervalo, seguindo as orientações e dicas dos nossos amigos, provamos finalmente o famoso Jerk Chicken! O frango é assado com madeiras especiais que defumam a carne com um sabor diferente e ao final o molho “jerk”, um dos preferidos na culinária jamaicana, é apimentado, mas delicioso!

Demonstração de coragem antes do incrível salto no Rick's Cafe, em West End, em Negril, na Jamaica

Demonstração de coragem antes do incrível salto no Rick's Cafe, em West End, em Negril, na Jamaica


Após este rápido pit stop, começou o principal show da noite: The Mighty Diamonds! O primeiro trio de reggae do país, formado em 1969 e uma das mais antigas bandas de reggae em atividade na Jamaica! Os três vocalistas eram inacreditáveis, três tiozinhos com uma voz suave e cantando em harmonia as melhores músicas de toda a sua carreira. Eu e o Rodrigo não estávamos acreditando no momento que vivíamos, lembramos dos nossos amigos que adorariam estar ali, curtindo aquele som e viajando na música e na história que passava ao vivo em frente aos nossos olhos! Momento mágico e especial que sem dúvida alguma já fez valer a nossa vinda à Jamaica, por si só!



Quem diria que o nosso melhor dia na Jamaica, seria guiado por quatro norte-americanos, todos entre 50 e 60 anos, super figuras? Adoro surpresas e quando estamos abertos para isso elas acontecem da melhor maneira possível!

Com nosso amigo amigo Bert, no Rick's Cafe, em West End, em Negril, na Jamaica

Com nosso amigo amigo Bert, no Rick's Cafe, em West End, em Negril, na Jamaica

Jamaica, Negril, Caribe, Praia, reggae

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Peña de Bernal

México, Bernal

O imenso monolito conhecido como Peña de Bernal, no México

O imenso monolito conhecido como Peña de Bernal, no México


Continuamos na nossa rota pelos Pueblos Mágicos Mexicanos, rumo à Cidade do México. Depois de passarmos por Real de Catorce simplesmente apaixonamos e resolvemos riscar do roteiro as grandes cidades como San Luis Potosí e Queretaro, já que não teríamos tempo suficiente para conhecer tudo.

Bernal, no México

Bernal, no México


Tempo? Temos 1000dias! Já estamos estourando deliberadamente o nosso “prazo” de 1000dias e ainda estamos com pressa? É, eu também acho isso intrigante, mas o fato é que mesmo viajando, livres e descompromissados, a vida vai nos colocando surpresas pelo caminho. E a surpresa que está vindo por aí não poderia ser melhor: esta semana recebemos a visita de uma grande amiga minha, Valéria, amiga da vida inteira! Há tempos a Val está tentando nos encontrar, mas estava difícil conseguir sincronizar as agendas de trabalho e férias dentro dos roteiros desejados. Aqui no México finalmente as agendas coincidiram! Ela está chegando hoje na Cidade do México e nós estamos acelerando para encontrá-la.

Charmosa entrada de residência na pequena Bernal, Pueblo Mágico no México

Charmosa entrada de residência na pequena Bernal, Pueblo Mágico no México


O detalhe é que não bastava uma, tivemos que combinar aqui outra surpresa, na realidade um sonho do Rodrigo que está próximo a se realizar: subir o vulcão Orizaba, o ponto mais alto do México. Quem irá acompanha-lo é o Gera, amigo do seu irmão Guto, um montanhista brasileiro que vive aqui no México. Eu normalmente estaria nesta empreitada junto com eles, mas com a chegada da Val, decidi acompanhar a minha amiga nos roteiros turísticos e fizemos um combinado perfeito, separando o Clube das Lulus e dos Bolinhas, afinal depois de tanto tempo longe, nós teremos muito papo para colocar em dia.

Propaganda de restaurante em Bernal, no México

Propaganda de restaurante em Bernal, no México


O Orizaba está localizado a oeste do Distrito Federal e até lá o Rodrigo tem que se aclimatar. O planejamento foi um pouco trabalhoso, mas no final não poderia ter ficado mais perfeito! Os Pueblos Mágicos que estamos visitando são, geralmente, próximos a lindas áreas naturais e acima dos 2 mil metros.

Igreja do Pueblo Mágico de Bernal, no México

Igreja do Pueblo Mágico de Bernal, no México


San Sebastián de Bernal, no estado de Queretaro, é um pueblo mágico e seu principal cartão postal é um antigo vulcão que se solidificou há mais de 10 milhões de anos e foi levado pela erosão, restando apenas uma rocha única do magma sólido, um monolito a 2.510m de altitude sobre o nível do mar.

Bernal, no estado de Queretaro, com a famosa pedra ao fundo, no México

Bernal, no estado de Queretaro, com a famosa pedra ao fundo, no México


A Peña de Bernal, com 350m de altura, é considerada o terceiro maior monolito do mundo, atrás apenas da Pedra de Gibraltar e do Pão de Açúcar no Rio de Janeiro. Nós ficamos na maior dúvida, pois outras pedras igualmente grandes nos vêm à memória, mas várias fontes confirmam a versão do governo mexicano.

Peña de Bernal, no México

Peña de Bernal, no México


Dizem que a cidade foi construída sobre uma imensa pedra de quartzo, antes minerada pelos espanhóis, hoje procurada por diferentes grupos por ser um local de energia muito especial. Verdade ou não, há milhares de anos o local recebe milhares de peregrinos de origem Otomí-chichimeca que no sincretismo da religião indígena e católica, carregam lindas cruzes milagrosas nas suas peregrinações anuais para pedir por proteção e rezar pela água escassa nos desertos desta região.

Vegetação semidesértica ao redor da Peña de Bernal, no México

Vegetação semidesértica ao redor da Peña de Bernal, no México


Cactos florido na região de Bernal, no México

Cactos florido na região de Bernal, no México


Depois de uns dias sem muitos exercícios, hoje começamos o treino para o Orizaba. A subida da Peña de Bernal é bem tranquila e tem vistas maravilhosas! Subimos por uma trilha e depois pelos caminhos de pedra até o último mirante. Parei por um momento, fechei os olhos e senti uma energia muito especial por estar ali, em um dia ensolarado, em um lugar sagrado de uma natureza super distinta e especial.

Meditação na Peña de Bernal, no México

Meditação na Peña de Bernal, no México


Para subir até o topo só com equipamento de escalada, já que as escadas de ferro que existiam foram retiradas. O Rodrigo até tentou encarar um “free style” no começo, onde ainda encontrava alguns degraus, mas depois de ver a cara da esposa preocupada ele resolveu voltar.

Pausa na subida da Peña de Bernal, no México

Pausa na subida da Peña de Bernal, no México


Amanhã continuamos o treinamento, enquanto a Valéria já começa suas explorações pela capital mexicana, Zócalo e arredores. Nosso encontro será no dia seguinte na cidade de Toluca, não vejo a hora de encontrar a minha amiga! Enfim, exercitados e felizes, retornamos para mais algumas horas de estrada, cruzando DF em direção ao nosso próximo pueblo mágico.

Caminhada na famosa Peña de Bernal, no México

Caminhada na famosa Peña de Bernal, no México

México, Bernal, cidade histórica, Peña de Bernal, Pueblo Mágico, San Sebastián de Bernal

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Rota da Neve

Brasil, Santa Catarina, Urubici, Rio Grande Do Sul, São José dos Ausentes

Araucária, árvore típica na região de Urubici - SC

Araucária, árvore típica na região de Urubici - SC


Manhã gelada e enevoada em Urubici. A cidade já não parecia muito aconchegante com o céu nublado. Algumas horas depois, olhamos pela mesma janela e aquilo que parecia não poder piorar, ficou ainda mais fantasmagórico. Já não podíamos enxergar bem as montanhas que compunham a paisagem no vale de Urubici.

Urubici (SC) antes da neblina

Urubici (SC) antes da neblina


Urubici (SC) depois da neblina

Urubici (SC) depois da neblina


A vontade é de se fechar no hotel, com aquecimento, e não sair até os termômetros marcarem acima de 15°C, mas a viagem tinha que seguir. E já que está frio, lá vamos nós novamente em busca de neve e novas paisagens. Subimos a estrada para o Morro da Igreja, na esperança de encontrarmos ou neve, se o clima continuar frio e fechado, ou a vista da serra e da famosa Pedra Furada. A nossa sorte foi tanta que não vimos nem um, nem outro. Encontramos novamente o tempo fechado de ontem a noite, desta vez conseguindo enxergar um pouco mais, 5m à frente.

A neblina toma conta do alto do Morro da Igreja, ponto mais alto da região sul do país (em Urubici - SC)

A neblina toma conta do alto do Morro da Igreja, ponto mais alto da região sul do país (em Urubici - SC)


Nesta mesma estrada asfaltada fizemos um pequeno detour para conhecer a Cachoeira do Véu da Noiva. O nome não é por acaso, uma cascata larga, onde a água escorre pelas pedras formando um lindo véu branco.

A Cachoeira Véu a Noiva, no caminho para o Morro da Igreja, em Urubici - SC

A Cachoeira Véu a Noiva, no caminho para o Morro da Igreja, em Urubici - SC


Em cada parada a nossa pergunta é a mesma: será que vem neve? Todos estão sempre muito bem informados da previsão do tempo, acompanhando atentos ao que é um acontecimento importante para o turismo na região.

As lojas aproveitam para vender artigos para o frio, em Urubici - SC

As lojas aproveitam para vender artigos para o frio, em Urubici - SC


Melhor ainda é ouvir as histórias das neves que passaram por aqui. Em 1955 foi uma das piores nevascas registradas, com acúmulo de quase dois metros de neve. Depois disso houve várias outras, até mesmo na semana passada, sem acúmulo, todas com muitas fotos e histórias para contar.

Neve, por enquanto, só em fotos! (em Urubici - SC)

Neve, por enquanto, só em fotos! (em Urubici - SC)


Seguimos viagem em busca da neve. Urubici ainda faz parte dos nossos planos, antes ou depois dos 1000dias teremos que voltar no verão para as travessias da serra, caminhadas e quem sabe até um banho de cachoeira. Agora pegamos 70km de asfalto até Bom Jardim da Serra e vamos rumo à cidade de São José dos Ausentes.

Placa de trânsito comum na região de Urubici - SC

Placa de trânsito comum na região de Urubici - SC


Os últimos 45km de estrada de terra passam dentre campos altos, fazendas e lindos bosques de araucárias. Atravessamos a fronteira de Santa Catarina com o Rio Grande do Sul por uma longa ponte sobre o Rio das Contas, assim chamado por ser o local onde se faziam os acertos de contas entre os antigos fazendeiros.

Atravessando a bucólica fronteira entre Santa Catarina e Rio Grande do Sul, no caminho entre as cidades mais frias do país

Atravessando a bucólica fronteira entre Santa Catarina e Rio Grande do Sul, no caminho entre as cidades mais frias do país


Chegamos ao Hotel Fazenda Monte Negro no final da tarde e fomos recepcionados pelo proprietário, o Seu Domingos. Um típico gaúcho, vestido em trajes tradicionais, bota, lenço chapéu e o seu casaco sobretudo preto. Não demorou muito chegou também um casal, Orlei e Ana, que nos fizeram uma bela surpresa. “Não adianta se esconderem, nós sabemos quem vocês são, de onde vocês vem e o que vocês fizeram no verão passado!” rsrsrs! Eles estavam no mesmo hotel que nós em Urubici, viram a Fiona e, curiosos, acessaram o site e ficaram sabendo tudo sobre a viagem.

Chegando ao Rio Grande do Sul, nosso 23o estado nesta viagem

Chegando ao Rio Grande do Sul, nosso 23o estado nesta viagem


Orlei é montanhista e Ana triatleta, além de fotógrafos, eles possuem uma empresa de montanhismo e técnicas verticais, a Mundo Vertical. Imaginem se não tivemos afinidade e assuntos infindáveis com o casal? Dicas de estradas, roteiros e montanhas, até descobrimos que já devemos ter cruzado a Ana nas travessias em Santa Catarina, nadadora de ponta nas provas da travessias.com. É, já nem sei que em número parei, mas essa vale entrar para a série “Aventureiros se atraem”.

Com a Ana e o Orley no restaurante do hotel na região de São José dos Ausentes - RS

Com a Ana e o Orley no restaurante do hotel na região de São José dos Ausentes - RS


A previsão do tempo não está das melhores, não apenas pelo frio, pelo qual estamos torcendo, mas também pela grande umidade e quantidade de chuva. Estamos na parte mais alta do município mais frio do Rio Grande do Sul, resta saber se chegamos na hora certa.

Brasil, Santa Catarina, Urubici, Rio Grande Do Sul, São José dos Ausentes, Estrada do Monte Negro

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Cerro Rico, Potosí

Bolívia, Potosí

Entrando na Mina Rosário, em Potosí - Bolívia

Entrando na Mina Rosário, em Potosí - Bolívia


Um jovem potosino saiu em busca de sua llama nos arredores desta montanha. Finalmente a encontrou sobre um cerro e ali amarrou-a e para se aquecer acendeu uma fogueira. Não demorou muito e ele viu escorrer no chão um líquido, um metal derretido. Ele acabara de descobrir uma mina de prata! Trouxe alguns amigos e ali começou a escavação, porém nesta mesma época os espanhóis chegavam à região em busca das riquezas da sua nova colônia.

Painel com cenas importantes da história de Potosí no restaurante El Mesón (Bolívia)

Painel com cenas importantes da história de Potosí no restaurante El Mesón (Bolívia)


Foi assim que começou Potosí, uma vila na base do Cerro Rico, a tal montanha de prata, estanho e seus derivados, chamados de “complexo” pelos mineiros na extração. O complexo é a maior parcela extraída, esta sai da mina em carrinhos e é despejada nos caminhões que as levarão até os lagos e peneiras que farão a separação manual e química dos compostos. Os minérios mais puros “el purito”, geralmente são carregados em sacas de 45 a 50kg nas costas de cada mineiro por 1 ou até 2km de túneis, até a boca da mina.

Entrada da Mina Rosário, em Potosí - Bolívia

Entrada da Mina Rosário, em Potosí - Bolívia


Fomos lá conhecer o trabalho de perto. As cooperativas permitem a visita de turistas e, embora nem todos os mineiros gostem de ser fotografados e/ou filmados, a incursão nas minas é uma experiência riquíssima.

Afloração de estanho na mina Rosário, em Potosí - Bolívia

Afloração de estanho na mina Rosário, em Potosí - Bolívia


No Cerro Rico são 45 cooperativas de mineiros trabalhando, dividindo a extensão do morro em diversas entradas. São mais de 300 entradas, dezenas e dezenas de quilômetros de túneis escavados, em mais de 17 andares. As condições de trabalho são as mais adversas, além do pó de sílica presente em cada duto, o calor nos veios mais profundos e ricos é insuportável. Os trabalhadores de utilizam a máquina perfuradora possuem uma média de vida de 35 a 40 anos, enquanto os que ficam longe dela podem chegar até aos 60, sempre sofrendo dos males da silicose.

Potosí - Bolívia, vista do Cerro Rico

Potosí - Bolívia, vista do Cerro Rico


Fomos à Mina de Rosário, caminhamos em torno de 1km dentre dutos centrais e secundários para conhecer o trabalho dos mineiros e o seu protetor. Tío Jorge é a entidade protetora da mina. Uma escultura de barro feita pelos próprios trabalhadores, possui dois chifres, e olhos de “pepa”e representa o diabo. Todas as terças e sextas-feiras os mineiros vêm ao Tío e lhe oferecem álcool 96 graus, álcool puro para um mineral puro, folhas de coca, cigarros de tabaco e coca e outras oferendas. Ele possui um pênis ereto para mostrar a sua força em fertilizar a patchamama e garantir que o minério não termine e que a mãe terra continue a lhes dar trabalho e segurança. Duas vezes por ano é feito o sacrifício de fetos llamas. Matam a llama, cortam o seu pescoço e derramam o sangue na porta da mina. Preparam um assado de llama e batatas, sem sal, pois se comem o sal (um mineral) o mineral pode desaparecer. Ali, aos pés do tio vemos o esqueleto da llama oferecida.

Com o protetor espiritual da Mina Rosário, o diabo 'Tio Jorge', em Potosí - Bolívia

Com o protetor espiritual da Mina Rosário, o diabo "Tio Jorge", em Potosí - Bolívia


No caminho vemos mineiros entrando e saindo, alguns já estão na mina há mais de 10 horas. Outros estão no seu intervalo, quando aproveitam para tomar o álcool 96 e mascar a folha de coca, que lhes tira o sono, a fome e lhes dá mais força para continuar dentro da mina.

Junto aos mineiros na Mina Rosário, em Potosí - Bolívia

Junto aos mineiros na Mina Rosário, em Potosí - Bolívia


Depois de ajudar a colocar o carrinho no trilho, Rodrigo finalmente o reconhecimento, “é hombre”, disse o chefe de um grupo que encontramos em um dos dutos. Chegamos mais perto dos locais de extração e conseguimos conversar com uma dupla de trabalho, que nos conta um pouco mais dos detalhes da mina. Mulheres não podem trabalhar ali, pois dão azar, assim como mudanças na rotina do grupo podem ser fatais. No dia do jogo da Bolívia na Copa América um acidente aconteceu, morreram 3 pessoas após uma explosão. Nos apresentaram o whisky boliviano, álgool 96 grados com “gaseosas”, forte como o que!

Junto aos mineiros na Mina Rosário, em Potosí - Bolívia

Junto aos mineiros na Mina Rosário, em Potosí - Bolívia


Os corredores gelados aos poucos vão ficando quentes, o ar puro aos poucos vai ficando mais empoeirado, é a sílica. Cruzamos vários turistas. Já é perto do meio-dia, horário em que podem detonar as dinamites. Os mais antigos e experientes, como nossos amigos que já estão a 15, 20 e 30 anos de mina, sabem que devem avisar aos vizinhos, batendo um “código morse” nas pedras para que os outros fiquem preparados. Ali eles dizem que vão começar e quantas explosões serão. Já é hora de irmos embora... Se Roberta, nossa guia, nos deixa, ficamos o dia todo explorando essas cavernas. Estalactites de minerais verdes, sulfato de cobre, ou de gelo já nos mostram que estamos próximos da saída. Saímos quase 4 horas depois, a 4300m de altitude, um frio absurdo, um céu azul e sol lindo lá fora.

Pronta para entrar na Mina Rosário, em Potosí - Bolívia

Pronta para entrar na Mina Rosário, em Potosí - Bolívia


As minas de Potosí têm mais de 450 anos de história de riqueza e muito sofrimento. Túneis de mais de 300 anos construídos pelos espanhóis e que hoje ainda servem de caminho aos escravos atuais, não mais de uma coroa, mas de um ideal capitalista, quando nem sabem se estarão vivos para aproveitar.

Trabalhador de 16 anos na Mina Rosário, em Potosí - Bolívia

Trabalhador de 16 anos na Mina Rosário, em Potosí - Bolívia

Bolívia, Potosí,

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Ao Ponto de Origem

Brasil, Paraná, Curitiba

Voltar para o nosso ponto de origem, nossa casa, a cidade onde nascemos, é sempre uma loucura, uma mistura de sensações. Os motivos são diversos:

1) Não faz mais parte do itinerário normal dos 1000dias, temos que pegar uma longa estrada de volta por onde já passamos.
2) Sempre nos programamos para ficar 2 ou 3 dias e acabamos ficando mais, porque não estamos programados? Não, pelo maldito clima do sul, chuva e frio, que sempre nos deixam na expectativa que o dia seguinte será melhor que o anterior.
3) Sempre tentamos subir o Pico Paraná e não conseguimos pelo motivo descrito no item acima.
4) Sempre tentamos encaixar o mergulho na Lage de Santos e não conseguimos, também pelo motivo descrito no item 2.
5) Sempre ficamos com a sensação que estamos ficando mais atrasados no itinerário, mas ao final tudo sempre dá certo.

Mas, como tudo na vida tem sempre um lado bom:

1) Vemos a família, matamos as saudades da mãe, pai, irmã, cunhado, tia, avó e principalmente da sobrinha, queridíssima Lulu.

Luiza, a vovó e a bisa, em Curitiba - PR

Luiza, a vovó e a bisa, em Curitiba - PR


2) Podemos resolver algumas burocracias de forma mais fácil, pois já conhecemos os caminhos mais fáceis. Reuniões sobre o site, multas, bancos e chatisses do Detran, essas coisas.

Ana com o pai em Curitiba - PR

Ana com o pai em Curitiba - PR


3) Podemos lavar a roupa na casa da mãe sem quererem cobrar 450 reais pela máquina.

A Luiza no colo da bisavó, em Curitiba - PR

A Luiza no colo da bisavó, em Curitiba - PR


4) Ter um dia de princesa, com direito a fazer a mão, pé e cortar o cabelo.

Com a Marta, em Curitiba - PR

Com a Marta, em Curitiba - PR


5) Posso ir fazer uma drenagem linfática para desobstruir o meu frágil sistema linfático.

Para finalizar, é uma loucura também, porque não é o que a maioria das pessoas está esperando... Alguns amigos chegam a dizer que teremos que zerar a contagem dos dias sempre que pisarmos em Curitiba. Olha que nós não achamos má ideia, ao invés de 1000 serão 1200 dias! Que tal?

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Contos Cubanos en La Playa Girón

Cuba, Cienfuegos

Relaxando na tranquila e belíssima Playa Giron, região de Cienfuegos, em Cuba

Relaxando na tranquila e belíssima Playa Giron, região de Cienfuegos, em Cuba


Fundada em 1819 Cienfuegos possui uma história um pouco diferente da maioria das cidades cubanas. Foi colonizada por franceses vindos de Louisiana, estado francês vendido por Napoleão aos americanos em 1803. Cidade jovem e de arquitetura colonial francesa, possui uma praça central charmosa e agradável, alguns museus e um longo Malecón que dá acesso à Ponta Gorda, local de grandes casas e mansões. Seu nome é uma homenagem ao General José Cienfuegos e não a Camilo, herói revolucionário como havia pensado.

Plaza josé Martí, centro de Cienfuegos, em Cuba

Plaza josé Martí, centro de Cienfuegos, em Cuba


Uma passagem rápida pelo mercadão da cidade nos deu um gosto da simpatia e curiosidade dos jovens cubanos que não hesitaram em me abordar e pedir para tirar fotos, trocar gentilezas e palavras de boas vindas. Ganhei de um deles o primeiro peso cubano nacional, uma moeda com a estrela de Che como lembrança de Cuba e sem um real no bolso, lhes agradeci com moedas da Costa Rica e Guatemala, uma lembrança do mundo lá fora.

Mercado Municipal de Cienfuegos, em Cuba

Mercado Municipal de Cienfuegos, em Cuba


A principal atração de Cienfuegos está a 50km da cidade, na província vizinha de Matanzas, e faz parte de um capítulo importante da história cubana. No ano de 1961 a Baía de los Cochinos, ou Baía dos Porcos, foi palco para um dos principais enfrentamentos entre Cuba e as forças imperialistas americanas desde que se deu a revolução cubana. Agentes da CIA deram suporte e treinamento aos exilados cubanos que estavam nos EUA e com apoio do governo Nicaraguense, armou e colocou os contra-revolucionários anti-Castristas nas areias da Playa Girón. Fidel foi pessoalmente liderar as tropas contra a invasão e massacrou seus paisanos deixando claro que os mandos e desmandos americanos ali não teriam espaço.

Museu que retrata a história da fracassada invasão da Baía dos Porcos, em Playa Giron, próxima à Cienfuegos, em Cuba

Museu que retrata a história da fracassada invasão da Baía dos Porcos, em Playa Giron, próxima à Cienfuegos, em Cuba


A Playa Girón com suas areias grossas e claras é extensa, nós nos instalamos logo no início, em um trecho conhecido como Playa de los Pinos. O mar de águas azul-esverdeadas estava convidativo para um mergulho e um snorkel enquanto o sol queimava a todo vapor.

A bela Playa Giron, na região de Cienfuegos, em Cuba

A bela Playa Giron, na região de Cienfuegos, em Cuba


Já na chegada conhecemos Seu Ruben, uma figura que nasceu nesta região e tinha muita história para contar. Ele e seus filhos têm um negócio “paralelo” aqui na praia, servem mojitos e preparam refeições sob encomenda, tudo de forma bem discreta para que a fiscalização não perceba. “Este país é uma escola de ratones”, nos explica Seu Ruben, “eu lutei pela revolução e a defendo até hoje! Conheci Fidel quando esteve aqui na praia com o presidente argelino na década de 60. Fidel me pediu que contasse a história da batalha da Playa Girón a eles e eu respondi: pois nos conte o senhor! Foi você que esteve aqui lutando, sabe melhor do que ninguém!”. Fidel riu da naturalidade do menino Ruben e seguiu com seu convidado. “O problema é que nós temos que viver, e hoje, depois de ter servido o exército revolucionário por tantos anos, eu recebo o equivalente a 12 CUCs por mês! Eu não vou deixar minha família passar fome, por isso todos nós cubanos vamos encontrando outras formas de sobreviver. As taxas dos negócios legais são muito altas! A casa onde eu vivo está condenada, disseram os engenheiros, então me ofereceram uma casa nova de um cômodo. Como vou viver com minha mulher e dois filhos em um ovo? Prefiro ficar na minha casinha mesmo.”

Visita ao mercado municipal de Cienfuegos - Cuba (foto de Laura Schunemann)

Visita ao mercado municipal de Cienfuegos - Cuba (foto de Laura Schunemann)


Seu Ruben tem 62 anos e seus filho mais velho 34, este nos contava sobre a saúde em Cuba, nos contou que se é detectada na gravidez que um bebê tem problemas de má formação, anomalia ou alguma síndrome, é feito aborto na hora, o filho só irá nascer assim se a mãe quiser muito. Realmente até agora não vimos ninguém com estas condições, é a visão prática e racional do comunismo. Passei horas conversando com Seu Rubens e seus filhos, falamos de política, suas convicções socialistas e comunistas e sobre a vida dentro e fora de Cuba.

A Ana faz amigos no Mercado Municipal de Cienfuegos, em Cuba

A Ana faz amigos no Mercado Municipal de Cienfuegos, em Cuba


À sombra dos coqueiros almoçamos uma lagosta deliciosa, bananinhas fritas preparadas por sua esposa, como um piquenique praiano, enquanto Rodrigo foi conferir o Museu Girón, com fotos e fatos da batalha que se travou nesta tranquila praia. O finalzinho de tarde foi na Ponta Gorda, vendo os últimos raios de sol ao som da música cubana e ao sabor de um dos melhores mojitos da cidade.

Assistindo ao pôr-do-sol na Punta Gorda, em Cienfuegos - Cuba (foto de Laura Schunemann)

Assistindo ao pôr-do-sol na Punta Gorda, em Cienfuegos - Cuba (foto de Laura Schunemann)


A noite foi de mais histórias, como a da Senhora Y que tem 3 filhas, todas vivem na Itália. A primeira casou-se com um italiano, mora e trabalha lá e foi quem a ajudou a sair da casa de um cômodo para uma maior e depois outra maior ainda. “Quem não tem parentes fora de Cuba trabalhando e enviando dinheiro não consegue melhorar de vida, então eu mando as minhas filhas pra fora mesmo, a menor tem 16 anos e já foi também!” Perguntamos como e ela explicou que a casou com um amigo italiano, só para poder sair e voltar do país sem problemas. “Lá na Itália ela terá mais chances e poderá ter uma vida melhor.” Agora ela irá tentar o visto de saída do país para o seu neto de 22 anos pela quarta vez! “Já foi negado três vezes, pois tem o perfil de emigrante, mas ele quer sair! Eu acho que se um jovem tem vontade de ir, tem mais que é ir e ver como o mundo é lá fora! Eu vou e volto, por que a minha vida é aqui em Cuba, eu amo o meu país, mas aqui não tem futuro nenhum para os jovens.”

Café da manhã na Casa de Hóspedes de Cienfuegos - Cuba (foto de Laura Schunemann)

Café da manhã na Casa de Hóspedes de Cienfuegos - Cuba (foto de Laura Schunemann)


Ela já trabalhou como inspetora para o governo durante anos, foi defensora do atual regime e participou da transformação do país e nem por isso deixa de ter as suas idéias e opiniões. Não tem medo de falar conosco sobre o que pensa, é curiosa e está sempre muito bem informada. Nos contou que existem até umas manhas para ter internet mais barata em casa, ela precisa para se comunicar com as filhas e agilizar o seu negócio. Ela nunca tinha ouvido falar na famosa blogueira cubana, ganhadora de diversos prêmios de jornalismo digital por seu Blog Generacíon Y e nos fez prometer que enviaremos o seu livro, através de sua filha, para que siga atenta as novas ideias, críticas e sentimentos, que sem dúvida só elas, de cubana para cubana, sabem exatamente o que significa.

Cuba, Cienfuegos, Baía de los Cochinos, Baía dos Porcos, Playa Giron, Praia

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Jipeiros – O Batismo

Brasil, Tocantins, São Félix do Tocantins, Maranhão, Alto Parnaíba

Fiona no cerrado do P.N. Nascentes do Parnaíba, no extremo sul do Maranhão

Fiona no cerrado do P.N. Nascentes do Parnaíba, no extremo sul do Maranhão


Jipeiros e ralizeiros, hoje posso dizer de boca cheia, fui batizada! Eu já estive em muitas estradas ruins, trilhas e lamaceiros, mas trilha onde nem estrada tem, foi a primeira vez. Vocês sabem que nós não somos jipeiros, trilheiros, ralizeiros ou como quiserem chamar, temos um carro preparado para off road por pura necessidade. Antes de viajar fizemos um curso de Direção 4 x 4 com o João, do Armazém 4 x 4 em Curitiba para aprender a usar guincho, ter noções básicas do funcionamento de um carro tracionado, o que é um diferencial, bloqueio, etc. Até agora nós tivemos alguns momentos em que estes conhecimentos nos ajudaram bastante, mas nunca precisamos aplicá-los de forma tão intensa e realmente necessária como hoje. Vamos aos fatos.

Com o Jaime, que nos recebeu na comunidade de Riozinho, região de Alto Parnaíba - MA

Com o Jaime, que nos recebeu na comunidade de Riozinho, região de Alto Parnaíba - MA


Saímos de Riozinho as 7h30 da manhã, nos despedimos do Jaime agradecendo imensamente pela acolhida, melhor noite de sono dos últimos tempos!

Nosso quarto, na casa que ficamos na comunidade de Riozinho, região de Alto Parnaíba - MA

Nosso quarto, na casa que ficamos na comunidade de Riozinho, região de Alto Parnaíba - MA


Começamos a viagem tranquilos, pois tínhamos todas as informações da rota detalhadas, sabíamos que existiam algumas barreiras, mas nada impossível. Há poucos dias alguns jipeiros de São Paulo passaram por ali, então tinham alguns rastros. Pensamos, se eles conseguiram fazer nós também conseguiremos.

Fiona enfrenta as estradas inclinadas de areia no P.N das Nascentes do Parnaíba, estremos sul do Maranhão

Fiona enfrenta as estradas inclinadas de areia no P.N das Nascentes do Parnaíba, estremos sul do Maranhão


Os primeiros 40 minutos de estrada foram repetindo o caminho de ontem, subimos uma pequena ladeira e logo no topo, pegamos à direita na bifurcação. Descemos o chapadão beirando uma cerca quase o tempo todo, até chegarmos à porteira. Cruzamos a porteira, à direita é o caminho para a Cachoeira, à esquerda, beirando a cerca pelo outro lado, é o caminho para São Félix. Continuamos, cruzamos a nossa primeira ponte (esta tem uma cancela) até encontrar o primeiro obstáculo onde paramos ontem, uma vala do lado esquerdo da pista. Ontem tentamos passar por ela, mas a Fiona ficou uns 45° de inclinação. Hoje o Ro foi na direção, mais sangue frio com o barranco raspando na sua orelha e passamos.

Fiona enfrenta as estradas inclinadas de areia no P.N das Nascentes do Parnaíba, estremos sul do Maranhão

Fiona enfrenta as estradas inclinadas de areia no P.N das Nascentes do Parnaíba, estremos sul do Maranhão


Dirigimos por mais um quilômetro e encontramos o desvio que o Jaime nos indicou pegar. Se seguíssemos pela estrada principal cairíamos em uma segunda ponte que está em péssimo estado. Além das madeiras já estarem meio podres, a entrada dela está impraticável, pois o rio comeu a cabeceira da ponte. Pegamos o desvio cruzando por uma picada praticamente inexistente no meio do cerrado, seguindo no faro as poucas marcas do carro que um dia passou por ali.

Quase não se vê a estrada no meio do mato, no P.N. Nascentes do Parnaíba, no extremo sul do Maranhão

Quase não se vê a estrada no meio do mato, no P.N. Nascentes do Parnaíba, no extremo sul do Maranhão


6km, muitas árvores, tocos e araras azuis depois encontramos finalmente a estrada de Porto Alegre, um vilarejo no sentido oposto. Era por esta estrada que iríamos chegar se tivéssemos vindo do Ponto dos Bons ontem. Estávamos aliviados, finalmente encontramos algo parecido com uma estrada! Dali, sabíamos que iríamos encontrar algumas grotas, como o povo chama as erosões profundas por aqui. Começaram as grotas. A primeira já foi um degrau imenso entre barrancos de terra, o Ro desceu do carro, foi me orientando e conseguimos descer sem maiores problemas.

Vôo de araras no P.N. Nascentes do Parnaíba, no extremo sul do Maranhão

Vôo de araras no P.N. Nascentes do Parnaíba, no extremo sul do Maranhão


Andamos mais alguns quilômetros e adivinhem!?! A estrada sumiu! Chegamos a um lugar em que a estrada simplesmente desapareceu. Descemos e procuramos a pé por sinais. Encontramos alguns rastros dos jipes, mas logo eles sumiam. Voltamos pela mesma estrada para ver se havíamos perdido alguma saída e nada! Ou era ali, ou teríamos que voltar todo o chapadão. Voltamos a procurar a pé, foram uns 30 minutos parados, seguindo os rastros dos jipes e buscando algum sinal em meio a um areal imenso. Eu insisti em um caminho que parecia improvável, muitas árvores e plantas fechavam este trecho, mas era ali mesmo, passamos alguns arbustos mais crescidos e lá estava a continuação da estrada. Um baixio de areia onde a estrada realmente desaparece, lugar com maior cara de casa de onça, bem no pé de uma serra. Atravessamos areia, arbustos, plantas e troncos e duas grotas complicadas. Tivemos que pegar a pá, calçar o carro com as nossas pranchas de alumínio e conseguimos fazer um desvio pelo barranco para escapar da fenda na erosão.
Quando achamos que o pior havia passado, nem 500m depois chegamos a uma rampa inacreditável. Tinham mais 2 rampas além desta, ambas em pior estado. A inclinação da desgraçada era de uns 60°, senão mais. Engatamos a reduzida e tentamos uma primeira investida. O terreno arenoso e seco estava se esfacelando e o pneu patinou, começou a abrir uma cratera no barranco do lado direito. Eu desci do carro e o Rodrigo ficou com o pé no freio segurando a Fiona inclinadaça na rampa.

Tentando vencer rampa esburacada no P.N. Nascentes do Parnaíba, no extremo sul do Maranhão

Tentando vencer rampa esburacada no P.N. Nascentes do Parnaíba, no extremo sul do Maranhão


Tentei primeiro colocar as pranchas de alumínio para ver se ele conseguia atrito e tração para continuar subindo. Não adiantou. Decidimos usar o guincho, ali não teria outra forma. Tive que agir rápido, e sozinha, enquanto o Ro segurava a Fiona a todo custo para ela não derrapar de costas em cima de mim! Patesca, cintas, manilhas e controle do guincho. Um calor infernal, moscas e abelhas me azucrinando, um suor desgraçado.

Pra vencer essa rampa, foi preciso ajuda do guincho, no P.N. Nascentes do Parnaíba, no extremo sul do Maranhão

Pra vencer essa rampa, foi preciso ajuda do guincho, no P.N. Nascentes do Parnaíba, no extremo sul do Maranhão


PQP! Desculpem o desabafo, mas foi punk! Tudo isso deve ter demorado uns 10 minutos, que me pareceram uma eternidade. No meio do caminho eu ainda tinha que filmar e fotografar, nessa acabei me atrapalhando e não filmei o momento mais importante do resgate, quando coloquei o guincho para funcionar! Descobri só depois, quando fui ver o vídeo toda empolgada, frustração total. Rsrsrs!

Tentando vencer rampa esburacada no P.N. Nascentes do Parnaíba, no extremo sul do Maranhão

Tentando vencer rampa esburacada no P.N. Nascentes do Parnaíba, no extremo sul do Maranhão


Ufa, passamos! Ar condicionado ligado e em 10 minutos de trilha/estrada mais razoável eu consegui me recompor. Amo a Fiona, essa é a vantagem que ela tem, o conforto! Mesmo há 50km de distância de qualquer lugar, no meio do cerrado, num calor desgraçado com milhares de seres alados nos importunando, quando entramos nela e ligamos o ar temos um momento de paz.

Fiona enfrenta trilha de areia no P.N. Nascentes do Parnaíba, no extremo sul do Maranhão

Fiona enfrenta trilha de areia no P.N. Nascentes do Parnaíba, no extremo sul do Maranhão


Preciso contar que todo esse stress estava potencializado. Não tínhamos certeza do caminho, estávamos sozinhos, jipeiros normalmente fazem essas aventuras em pelo menos 2 ou 3 carros. Não tínhamos comida suficiente, só uma bolachinha, um pouco de amendoim e duas maçãs. A garrafa de água também estava na metade, esquecemos de abastecê-la em Riozinho. Além disso, o Jaime e o Nilvan tinham dito que em 2 horas conseguiríamos chegar em São Félix. Haviam se passado 4 horas e estávamos aqui ainda! Bem, respiramos fundo, fizemos racionamento de água e comida e foco no caminho. Tínhamos que encontrar a terceira ponte. Era a nossa próxima referência. Seguimos a estrada, entre trancos e barrancos e aproximadamente 22km depois a encontramos! Estava meio quebrada, mas conseguimos passar! Abastecemos nossas garrafas de água e aproveitei para tirar os quilos de terra das mãos, pés, pernas e rosto, nova em folha! Ainda bem, pois não tinha ideia do que ainda estava por vir.

Passamos um charco e seguimos estrada, uma bifurcação apareceu, mas continuamos pela direita no que parecia ser a estrada principal. Alguns quilômetros à frente a estrada acabou novamente! Não tem pior sensação do que esta, sério! Depois de tudo isso a estrada acabar é fueda... Exauridos, o Ro levantou do carro dizendo, “vamos lá, força...” , tentando se animar. Eu demorei um pouco mais no ar condicionado, mas logo saí para ajudá-lo. Encontramos apenas grotas e rastros de carro que acabavam ali. Não tinha por onde passar, só vimos um rastro de moto passando e sabe Deus onde ia dar. Voltamos e encontramos uma primeira bifurcação menor, chegamos a um novo grande areal na beira de uma ladeira destruída. Deve ser a ladeira do Maranhão, a antiga ladeira, pensei, mas pelas explicações e pelo estado da encosta, o Ro duvidava. Várias marcas de pneus dos nossos amigos invisíveis, os jipeiros paulistas, que haviam passado por ali. Estávamos refazendo seus caminhos, com os erros e os acertos! Meia volta e retornamos até a primeira bifurcação. Não batia muito com a explicação que tínhamos, algo parecia errado, mas era a única estrada que continuava e ela dava a volta nessa serra que não estávamos conseguindo ultrapassar.

A terrível 'ladeira nova', no P.N. Nascentes do Parnaíba, no extremo sul do Maranhão

A terrível "ladeira nova", no P.N. Nascentes do Parnaíba, no extremo sul do Maranhão


Nenhum sinal de civilização, 10km entre campos e matos, estrada quase desaparecendo e finalmente vimos 3 cavalos, para mim já foi um alento, devemos estar perto de alguma fazenda, pensei confiante. Continuamos em frente e logo outra estrada encontrava a nossa, a partir dali as marcas de pneu aumentavam. O Rodrigo que até aqui tinha 70% de certeza que estávamos no caminho errado, começou a ficar mais animado e acreditar em mim. Eis que chegamos a uma mega ladeira. Tínhamos que subir o chapadão, sabíamos que encontraríamos uma ladeira, mas essa aqui estava surreal! Ladeira do Piauí, o nome pode confundir.

No alto da ladeira nova, no P.N. Nascentes do Parnaíba, no extremo sul do Maranhão

No alto da ladeira nova, no P.N. Nascentes do Parnaíba, no extremo sul do Maranhão


Alguém bem perdido pode achar que foi parar do outro lado do parque na divisa com o estado do Piauí, mas o nome dela é devido a um fazendeiro da região. Novamente não tínhamos outra opção a não ser subir. Avaliamos, vimos todas as pedras soltas, fendas e buracos, reduzida na Fiona e boa! Para o alto e avante! Fiquei filmando e de fora pareceu bem mais fácil do que imaginava! Chegamos ao topo, nova chapada, novos horizontes, ainda há esperança! A estrada começou a melhorar, plana e mais batida. O Ro olhou e começou a reconhecer algumas das chapadas que víamos do alto, como o maciço do Espírito Santo, velho conhecido do Jalapão.

GPS mostra nosso caminho 'alternativo' (em azul), fora da estrada (em rosa), no momento em que entramos no Tocantins

GPS mostra nosso caminho "alternativo" (em azul), fora da estrada (em rosa), no momento em que entramos no Tocantins


Rodamos pelo chapadão mais tranquilos, mas só saberíamos se estávamos mesmo no caminho certo quando encontrássemos a estrada cascalhada que liga Mateiros a São Félix. Ainda passamos por um buritizal alagado, um buraco que levou água acima do capô da Fiona e logo avistamos plantações e a estrada. Eram perto das 15h da tarde e finalmente nos sentíamos em casa. Nunca fiquei tão feliz em ver uma estrada de cascalho e algumas casinhas de adobe. Chegamos a São Felix, 100km e 8 horas depois, são e salvos!

Fiona atravessa rio no P.N Nascentes do Parnaíba, município de São Félix do Tocantins, região do Jalapão - TO

Fiona atravessa rio no P.N Nascentes do Parnaíba, município de São Félix do Tocantins, região do Jalapão - TO


Falem aí amigos jipeiros, que Transamazônica que nada! Travessia do Parque Nacional das Nascentes do Rio Parnaíba ao Jalapão é o canal! Agora finalmente me sinto batizada.

No alto da ladeira nova, no P.N. Nascentes do Parnaíba, no extremo sul do Maranhão

No alto da ladeira nova, no P.N. Nascentes do Parnaíba, no extremo sul do Maranhão

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