0 Plaza Francia e a Face Sul do Aconcágua - Blog do Rodrigo - 1000 dias

Plaza Francia e a Face Sul do Aconcágua - Blog do Rodrigo - 1000 dias

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Plaza Francia e a Face Sul do Aconcágua

Argentina, Aconcágua

1000dias em Plaza Francia, em frente à mítica parede sul do Aconcágua, a 4.300 metros de altitude (Parque Provincial Aconcágua, região de Mendoza, no oeste da Argentina)

1000dias em Plaza Francia, em frente à mítica parede sul do Aconcágua, a 4.300 metros de altitude (Parque Provincial Aconcágua, região de Mendoza, no oeste da Argentina)


O Aconcágua é a maior montanha do mundo fora da Ásia. Ligeiramente abaixo dos 7 mil metros, é também a alta montanha mais fácil de ser escalada. Essas duas características se combinam para fazer dela um cume bastante popular e foi apenas o aumento acentuado das tarifas para se entrar no parque e ter o direito de tentar subi-la que conseguiu controlar o número cada vez maior de alpinistas ou simplesmente turistas que queriam se arriscar nas altas altitudes. Com os preços atuais, muita gente já começa a preferir pagar um pouco mais e ir até o Himalaia, onde as montanhas são ainda mais altas.

O belo cenário do Parque Provincial do Aconcágua, perto do acampamento Confluencia, região de Mendoza, no oeste da Argentina

O belo cenário do Parque Provincial do Aconcágua, perto do acampamento Confluencia, região de Mendoza, no oeste da Argentina


Início da caminhada do acampamento Confluencia para Plaza Francia, campo base da parede sul do Aconcágua (região de Mendoza, no oeste da Argentina)

Início da caminhada do acampamento Confluencia para Plaza Francia, campo base da parede sul do Aconcágua (região de Mendoza, no oeste da Argentina)


O problema maior é que a facilidade em se chegar ao cume é extremamente relativa. É verdade que é possível caminhar até o alto, sendo desnecessário qualquer conhecimento mais técnico de alpinismo, pelo menos para quem segue pela rota normal. Mas só chegará ao cume quem tiver passado pelo adequado processo de aclimatação às grandes altitudes, algo que requer muitos dias na região. Alguns organismos não se adaptarão e quem não souber reconhecer isso e insistir é um forte candidato a entrar no rol de estatísticas de mortos nessa montanha. Além disso, mesmo para quem estiver aclimatado, o cume só será atingido em condições favoráveis de tempo e o tempo na montanha é notório por sua instabilidade. Em condições excepcionalmente boas, pessoas já chegaram ao cume do Aconcágua calçando apenas um tênis e até cães foram até lá também, acompanhando seus donos. Mas em dias de clima ruim, e eles são a maioria, ninguém chega ao alto, nem o mais experiente dos alpinistas.

Ponto onde a trilha se bifurca, um lado seguindo para Plaza de Mulas, na rota normal, e o outro seguindo para Plaza Francia, a nossa opção, onde está a parede sul do Aconcágua. (região de Mendoza, no oeste da Argentina)

Ponto onde a trilha se bifurca, um lado seguindo para Plaza de Mulas, na rota normal, e o outro seguindo para Plaza Francia, a nossa opção, onde está a parede sul do Aconcágua. (região de Mendoza, no oeste da Argentina)


Ponto onde a trilha se bifurca, um lado seguindo para Plaza de Mulas, na rota normal, e o outro seguindo para Plaza Francia, a nossa opção, onde está a parede sul do Aconcágua. (região de Mendoza, no oeste da Argentina)

Ponto onde a trilha se bifurca, um lado seguindo para Plaza de Mulas, na rota normal, e o outro seguindo para Plaza Francia, a nossa opção, onde está a parede sul do Aconcágua. (região de Mendoza, no oeste da Argentina)


O topo do Aconcágua foi atingido pela primeira vez em 1897. Antes disso, os Incas usavam suas encostas mais altas como local de adoração e sacrifício. Múmias já foram encontradas acima dos 5 mil metros, mas não há indícios que tenham chegado ao cume da montanha. Foi apenas a partir do séc. XX que os 6.962 metros de altitude dessa montanha começaram a ser visitados com uma frequência cada vez maior por seres humanos. Estabeleceu-se uma “rota normal”, um caminho em que se podia chegar ao cume apenas caminhando. É claro que os verdadeiros alpinistas não iriam se satisfazer com isso e novos caminhos, cada vez mais difíceis, foram sendo estabelecidos. Agora sim, rotas apenas para profissionais, paredes de gelo e rocha que só seriam vencidos com muita técnica, bons equipamentos e a aquiescência de São Pedro. Enquanto a face noroeste da montanha, onde está a rota normal, foi deixada para os turistas interessados em caminhar até o topo do continente, a magnífica face sul virou território dos melhores e mais famosos alpinistas do mundo. E mesmo entre eles, a taxa de sucesso é baixíssima. Enquanto do lado de lá, o Aconcágua é considerada a mais fácil montanha de alta atitude do mundo, do lado de cá, ela está entre as mais desafiadoras.

Um pequeno descanso na caminhada até Plaza Francia, no Parque Provincial do Aconcágua, na região de Mendoza, no oeste da Argentina

Um pequeno descanso na caminhada até Plaza Francia, no Parque Provincial do Aconcágua, na região de Mendoza, no oeste da Argentina


Grandes pináculos de rocha fazem parte do cenário do Parque Provincial do Aconcágua, região de Mendoza, no oeste da Argentina

Grandes pináculos de rocha fazem parte do cenário do Parque Provincial do Aconcágua, região de Mendoza, no oeste da Argentina


A face sul do Aconcágua é uma enorme parede com cerca de 2,5 quilômetros de altura. Não é um paredão único, mas uma sequência de pequenas paredes, algumas de gelo, outras de rochas, muitas delas com gelo e rocha misturados. Técnicas e equipamentos para essas duas superfícies são distintos e os escaladores que quiserem enfrentar essa rota terão que dominar todas essas técnicas e levar para cima o peso de todos esses equipamentos. Essa é a parte fácil da história. A difícil são os constantes desabamentos e avalanches, tanto de gelo como de rocha. Por isso, os caminhos tentam passar longe das canaletas, onde a queda de rocha e gelo é mais comum. Mas eles ocorrem por toda a parede e o melhor para os alpinistas é passar o menor tempo por lá, fazer a escalada o mais rapidamente possível. Mesmo com pressa, é impossível acelerar muito nessas altitudes e condições, com o frio chegando a trinta graus negativos durante a noite, ventos de quase 200 km/h. São escaladas que levam cerca de 4-5 dias e, em muitos momentos, o alpinista estará exposto ao bom ou mau humor da natureza.

O relevo pintado de vermelho e amarelo na região do monte Aconcágua, região de Mendoza, no oeste da Argentina

O relevo pintado de vermelho e amarelo na região do monte Aconcágua, região de Mendoza, no oeste da Argentina


Caminhando no Parque Provincial Aconcágua, região de Mendoza, no oeste da Argentina

Caminhando no Parque Provincial Aconcágua, região de Mendoza, no oeste da Argentina


Com todas essas dificuldades, não é difícil entender porque mais de mil pessoas chegam ao cume a cada ano, tentando pela rota normal, enquanto que, pela face sul, são comuns os anos em que absolutamente ninguém chega ao topo da parede. O número de alpinistas que tentam fica entre uma e duas dúzias, mas, muitas vezes, devido às condições de tempo desfavoráveis, muitos deles nem chegam de fato a iniciar suas tentativas. Ficam no acampamento base, chamado de Plaza Francia, admirando aquele enorme paredão, ouvindo o som quase constante de avalanches e prestando atenção nas previsões climáticas no rádio. Alguns dos mais famosos alpinistas brasileiros já passaram pela experiência, voltando para casa de mãos vazias, mas vivos para poder tentar algum outro ano.

Muitas cores e até uma cachoeira de gelo em um paredão de rocha no Parque Provincial Aconcágua, região de Mendoza, no oeste da Argentina

Muitas cores e até uma cachoeira de gelo em um paredão de rocha no Parque Provincial Aconcágua, região de Mendoza, no oeste da Argentina


Trilha entre Plaza Francia e Confluencia, no Parque Provincial Aconcágua, região de Mendoza, no oeste da Argentina

Trilha entre Plaza Francia e Confluencia, no Parque Provincial Aconcágua, região de Mendoza, no oeste da Argentina


Infelizmente, nem todas as histórias terminam bem. Quando eu estive no Aconcágua da outra vez, na temporada 98/99, estava fazendo um ano uma das mais tristes tragédias do alpinismo brasileiro. No ano anterior, Mozart Catão, o primeiro brasileiro a chegar ao cume do Everest junto com Waldemar Nicleviz, liderava uma expedição para vencer a face sul do Aconcágua. Nunca uma expedição brasileira havia chegado tão perto disso. Dos cinco alpinistas, dois haviam desistido e esperavam no campo base. Os outros três, liderados por Mozart, estavam a menos de 800 metros do cume. Entre eles, Othon Leonardos, um jovem alpinista que meu irmão havia conhecido dois anos antes, no mesmo Aconcágua, mas na rota normal. Costumavam jogar ping-pong no refúgio que há em Plaza de Mulas e Othon se destacava por sua animação e bom humor constantes. Agora, ele seguia de perto um dos maiores alpinistas brasileiros, Mozart, quase já ao fim de mais um dia de escaladas na face sul, talvez o penúltimo antes de chegar ao cume. Mas a natureza tinha outros planos. Uma pequena avalanche atingiu Mozart em cheio e ele despencou da montanha para nunca mais ser achado. Othon e o outro alpinista, Alexandre Oliveira, também haviam caído vários metros, mas estavam pendurados em uma corda que havia se enroscado em uma pedra. Alexandre estava mais abaixo, quase inconsciente, enquanto Othon havia quebrado suas duas pernas. Mesmo pendurado, conseguiu buscar o rádio em sua mochila nas costas e pedir ajuda ao campo base. Infelizmente, naquele lugar e naquelas condições, não havia ajuda possível. Othon ainda ficou conversando por duas horas com seus colegas em Plaza Francia, que tentavam animá-lo de todas as formas. Mas acabou por sucumbir ao terrível frio da montanha, não sem antes enviar mensagens para os pais e entes queridos.

Uma rocha e os rastros de seu deslizamento nas encostas de uma montanha no Parque Provincial Aconcágua, região de Mendoza, no oeste da Argentina

Uma rocha e os rastros de seu deslizamento nas encostas de uma montanha no Parque Provincial Aconcágua, região de Mendoza, no oeste da Argentina


Caminhando entre Plaza Francia e Confluencia, no Parque Provincial Aconcágua, região de Mendoza, no oeste da Argentina

Caminhando entre Plaza Francia e Confluencia, no Parque Provincial Aconcágua, região de Mendoza, no oeste da Argentina


Quatro anos depois, foi a vez de Rodrigo Ranieri e Vitor Negrete finalmente conquistarem a temida parede para o alpinismo brasileiro. Na subida, por incrível que pareça, acabaram passando pelos corpos congelados e ainda pendurados de Othon e Alexandre. Rodrigo, que já esteve no Himalaia e no topo do Everest diversas vezes, sempre disse que o maior desafio vencido da carreira foi mesmo a face sul do Aconcágua, menos pelas dificuldades técnicas, mas principalmente pelo perigo constante das avalanches e deslizamentos. Agora, tantos anos mais tarde, o mais provável é que a corda que sustentava Othon e Alexandre tenha finalmente se rompido, devido ao frio e envelhecimento. Mas, para mim, é impossível olhar essa parede e não me lembrar dessa triste história, assim como também do sucesso dos meus amigos Rodrigo e Vítor, contemporâneos da minha época de Unicamp.

Uma prima da urtiga, adaptada às grandes altitudes do Parque Provincial do Aconcágua, na região de Mendoza, no oeste da Argentina

Uma prima da urtiga, adaptada às grandes altitudes do Parque Provincial do Aconcágua, na região de Mendoza, no oeste da Argentina


Uma prima da urtiga, adaptada às grandes altitudes do Parque Provincial do Aconcágua, na região de Mendoza, no oeste da Argentina

Uma prima da urtiga, adaptada às grandes altitudes do Parque Provincial do Aconcágua, na região de Mendoza, no oeste da Argentina


Hoje pela manhã, aqui no acampamento de Confluencia, todas essas histórias estavam em minha cabeça. Assim como a vontade de chegar pela primeira vez à Plaza Francia e ver de perto essa paisagem espetacular, a tão famosa face sul da maior montanha do continente. Da outra vez que estive aqui (vou contar a história no próximo post), segui diretamente para Plaza de Mulas e de lá para o cume. Plaza Francia foi apenas uma vontade, adiada por quinze anos. Hoje, dia de céu azul, nada mais me impediria de vê-la de perto, de frente, de baixo.

Vegetação adaptada ao frio a grandes altitudes da região do Aconcágua,  Província de Mendoza, no oeste da Argentina

Vegetação adaptada ao frio a grandes altitudes da região do Aconcágua, Província de Mendoza, no oeste da Argentina


Vegetação adaptada ao frio a grandes altitudes da região do Aconcágua,  Província de Mendoza, no oeste da Argentina

Vegetação adaptada ao frio a grandes altitudes da região do Aconcágua, Província de Mendoza, no oeste da Argentina


Eu e a Ana saímos cedo, mas sem pressa. Tínhamos todo o dia para chegar até lá, observar e fotografar, lanchar, e voltar para Confluencia, onde ficaria nossa barraca e sacos de dormir. Caminharíamos leves, apenas o lanche, a máquina fotográfica e um par de casacos na mochila. Quase onze quilômetros para ir e o mesmo percurso de volta. Sairíamos dos 3.400 metros de altitude de Confluencia para chegar aos 4.250 metros de Plaza Francia, numa longa subida, lenta e gradual, em meio a algumas das mais belas paisagens do Parque Provincial do Aconcagua. Apenas aqueles que pretendem (e pagam por isso) subir a face sul é que podem acampar em Plaza Francia. Os outros, como nós, só podem passar o dia por lá, mas devem retornar e dormir em Confluencia.

Arbusto com flores amarelas no nosso caminho para Plaza Francia, quase aos 4 mil metros de altitude, no Parque Provincial do Aconcágua, região de Mendoza, no oeste da Argentina

Arbusto com flores amarelas no nosso caminho para Plaza Francia, quase aos 4 mil metros de altitude, no Parque Provincial do Aconcágua, região de Mendoza, no oeste da Argentina


Perfil da caminhada até Plaza Francia, campo base para quem for enfrentar a famosa Parede Sul do Aconcágua, nos Andes argentinos, região de Mendoza

Perfil da caminhada até Plaza Francia, campo base para quem for enfrentar a famosa Parede Sul do Aconcágua, nos Andes argentinos, região de Mendoza


Logo no início da caminhada chegamos à bifurcação da trilha. Para a esquerda, Plaza de Mulas, o campo base da rota normal. Para a direita, Plaza Francia, nosso objetivo de hoje. As duas trilhas seguem pelos braços do rio Horcones, o Superior e o Inferior, que se juntam exatamente nessa bifurcação, conforme se vê muito bem no mapa da região que mostrei no post anterior.

A imponente Parede Sul do Aconcágua começa a aparecer por detrás de uma montanha mais baixa, no nosso caminho para Plaza Francia (Parque Provincial Aconcágua, região de Mendoza, no oeste da Argentina)

A imponente Parede Sul do Aconcágua começa a aparecer por detrás de uma montanha mais baixa, no nosso caminho para Plaza Francia (Parque Provincial Aconcágua, região de Mendoza, no oeste da Argentina)


A imponente Parede Sul do Aconcágua começa a aparecer por detrás de uma montanha mais baixa, no nosso caminho para Plaza Francia (Parque Provincial Aconcágua, região de Mendoza, no oeste da Argentina)

A imponente Parede Sul do Aconcágua começa a aparecer por detrás de uma montanha mais baixa, no nosso caminho para Plaza Francia (Parque Provincial Aconcágua, região de Mendoza, no oeste da Argentina)


Bom, como disse, eu e a Ana pegamos o caminho da direita, sempre ao lado do rio. Passamos por cachoeiras coloridas e a estranha flora de altitude. Vegetação rasteira, mas com muitas flores nessa época do ano. Brancas, amarelas, vermelhas. Tem até uma parente da urtiga e, com tantos espinhos em suas folhas, caules e flores, dá até medo de chegar perto. Mas são lindas e ajudam a dar cor a um ambiente que é quase estéril, principalmente quando vamos ganhando mais altitude.

O glaciar Horcones, quase escondido por terra e rocha que traz consigo desde a Parede Sul do Aconcágua (Parque Aconcágua, região de Mendoza, no oeste da Argentina)

O glaciar Horcones, quase escondido por terra e rocha que traz consigo desde a Parede Sul do Aconcágua (Parque Aconcágua, região de Mendoza, no oeste da Argentina)


O glaciar Horcones, quase escondido por terra e rocha que traz consigo desde a Parede Sul do Aconcágua (Parque Aconcágua, região de Mendoza, no oeste da Argentina)

O glaciar Horcones, quase escondido por terra e rocha que traz consigo desde a Parede Sul do Aconcágua (Parque Aconcágua, região de Mendoza, no oeste da Argentina)


Pode não haver muita vida por lá, mas a beleza é grandiosa. Picos e paredões coloridos para onde quer que se olhe. Diferentes camadas geológicas, compostas de diferentes minérios e expostas pelo tempo, tem cores distintas, os tons variando entre o amarelo e o vermelho e as dezenas de combinações possíveis entre eles. Tudo isso com pitadas de branco e marrom. É lindo, quase uma paleta de cores.

Cada vez mais próximos de Plaza Francia e da parede sul do Aconcágua, na região de Mendoza, no oeste da Argentina

Cada vez mais próximos de Plaza Francia e da parede sul do Aconcágua, na região de Mendoza, no oeste da Argentina


Finalmente, ainda antes de chegarmos à Plaza Francia, o Aconcágua aparece com todo o seu esplendor! (Parque Provincial Aconcágua, região de Mendoza, no oeste da Argentina)

Finalmente, ainda antes de chegarmos à Plaza Francia, o Aconcágua aparece com todo o seu esplendor! (Parque Provincial Aconcágua, região de Mendoza, no oeste da Argentina)


É muito estranho pensar, principalmente quando já estamos acima dos 4 mil metros, que tudo isso estava abaixo do mar, não há muito tempo em termos geológicos. Mas os fósseis marinhos incrustados nas rochas estão ali para nos lembrar disso. Mesmo no cume do Aconcágua já foram encontrados exemplares de antigas criaturas marinhas. Foi o choque de placas tectônicas que começou a levantar os Andes nas últimas dezenas de milhões de anos. O que era leito marinho, com o tempo, se tornou a mais alta montanha dessa parte do globo. E algum dia, tudo vai estar no leito do mar novamente, enquanto outras montanhas serão criadas em outros lugares. Perto da eternidade, o Aconcágua é tão passageiro como nós.

Finalmente, ainda antes de chegarmos à Plaza Francia, o Aconcágua aparece com todo o seu esplendor! (Parque Provincial Aconcágua, região de Mendoza, no oeste da Argentina)

Finalmente, ainda antes de chegarmos à Plaza Francia, o Aconcágua aparece com todo o seu esplendor! (Parque Provincial Aconcágua, região de Mendoza, no oeste da Argentina)


A Ana tendo ao fundo a imponente parede sul do Aconcágua, pouco antes de chegarmos à Plaza Francia, no Parque Provincial Aconcágua, região de Mendoza, no oeste da Argentina

A Ana tendo ao fundo a imponente parede sul do Aconcágua, pouco antes de chegarmos à Plaza Francia, no Parque Provincial Aconcágua, região de Mendoza, no oeste da Argentina


Falando nele, após algumas horas de caminhada, ele finalmente começou a aparecer, escondido ainda atrás de montanhas muito mais baixas, porém muito mais próximas de nós. Era a mitológica parede sul, cada vez mais perto de nós. Agora, já estávamos acima dos 4.200 metros, bem mais altos que o cume do Lanín, a última montanha que havíamos subido, poucos dias atrás (post aqui). Enquanto lá, 300 metros abaixo da altitude em que nos encontrávamos agora, a sensação era a de se estar no topo do mundo, aqui era o contrário. Ao nosso redor, apenas montanhas mais altas. E à nossa frente, uma parede com mais de dois quilômetros de altura! Estávamos praticamente no fundo do vale!

O glaciar Horcones, disfarçado sob entulho, que nasce nas encostas do Aconcágua, região de Mendoza, no oeste da Argentina

O glaciar Horcones, disfarçado sob entulho, que nasce nas encostas do Aconcágua, região de Mendoza, no oeste da Argentina


Prestando a devida reverência à imponente parede sul do Aconcágua, a 4.300 metros de altitude, na região de Mendoza, no oeste da Argentina

Prestando a devida reverência à imponente parede sul do Aconcágua, a 4.300 metros de altitude, na região de Mendoza, no oeste da Argentina


Ao nosso lado, o rio Horcones havia se transformado no glaciar Horcones, um rio de gelo praticamente escondido sob toneladas de rochas e detritos. É o material que ele arranca e carrega das altas montanhas, especialmente da face sul do Aconcágua, onde nasce. Vendo todas aquelas rochas sendo trazidas lá de cima, fica mais fácil acreditar que a montanha está mesmo se desfazendo e que, um dia, voltará a estar abaixo do mar. Mas não enquanto o choque de placas tectônicas continuar a empurrá-la para cima. É a natureza agindo dos dois lados ao mesmo tempo, criando e erodindo montanhas. Nesse balanço de forças, por enquanto, o Aconcágua continua a subir.

Chegando à Plaza Francia, acampamento para os poucos alpinistas que se arriscam na parede sul do Aconcágua, região de Mendoza, no oeste da Argentina

Chegando à Plaza Francia, acampamento para os poucos alpinistas que se arriscam na parede sul do Aconcágua, região de Mendoza, no oeste da Argentina


Uma das muitas geleiras penduradas na parede sul do Aconcágua, região de Mendoza, no oeste da Argentina

Uma das muitas geleiras penduradas na parede sul do Aconcágua, região de Mendoza, no oeste da Argentina


Nós chegamos ao mirante de observação da montanha. Visão absolutamente magnífica! Há outros excursionistas por aqui. A maioria deles não segue adiante, lancha no mirante mesmo e retorna para Confluencia. Nós queríamos ir um pouco mais adiante. Plaza Francia está ainda mais perto da base da montanha. A visão que se tem de lá do Aconcágua nem é tão bela como a que se tem do mirante, mas a sensação de se estar ainda mais perto, esta é imbatível. Além do mais, agora que já chegamos até aqui, quero ver de perto o local onde acampam os bravos alpinistas que enfrentam a face sul.

Admirando os dois quilômetros de altura da imponente parede sul do Aconcágua, a 4.300 metros de altitude, na região de Mendoza, no oeste da Argentina

Admirando os dois quilômetros de altura da imponente parede sul do Aconcágua, a 4.300 metros de altitude, na região de Mendoza, no oeste da Argentina


A Ana admira a impressionante parede sul do monte Aconcágua, em Plaza Francia, região de Mendoza, no oeste da Argentina

A Ana admira a impressionante parede sul do monte Aconcágua, em Plaza Francia, região de Mendoza, no oeste da Argentina


Continuamos a contornar o glaciar, que aqui faz uma curva bem aberta. Já podemos observar e ouvir alguns pequenos desabamentos na parede. Lembro-me perfeitamente da descrição feita pelo Rodrigo e o Vítor em uma palestra deles em que estive presente. Uma palestra depois de uma tentativa que fizeram de subir a montanha e que desistiram, acho que em 2001. Sempre as avalanches, o maior temor dos alpinistas que vem até aqui. A cada vez que ouvíamos um barulho, o coração disparava. E olha que estávamos longe! Fico só imaginado como é estar naquela parede e ouvir esse barulho dezenas de vezes ao dia, ao seu lado. Não deve ser fácil... Essa não é a minha praia! A minha praia termina exatamente em Plaza Francia, demarcada por uma placa, local ainda totalmente seguro de deslizamentos, pelo menos nos meses de verão.

1000dias em Plaza Francia, em frente à mítica parede sul do Aconcágua, a 4.300 metros de altitude (Parque Provincial Aconcágua, região de Mendoza, no oeste da Argentina)

1000dias em Plaza Francia, em frente à mítica parede sul do Aconcágua, a 4.300 metros de altitude (Parque Provincial Aconcágua, região de Mendoza, no oeste da Argentina)


A Ana admira a impressionante parede sul do monte Aconcágua, em Plaza Francia, região de Mendoza, no oeste da Argentina

A Ana admira a impressionante parede sul do monte Aconcágua, em Plaza Francia, região de Mendoza, no oeste da Argentina


Em Plaza Francia, fizemos nosso lanche, essa paisagem maravilhosa à nossa frente, trilha sonora de avalanches. Foi de tirar o fôlego, um dos pontos altos (no caso, literalmente!) dos 1000dias. O ponto mais alto do continente que temos explorado nos últimos quatro anos, sem parar, bem ali na nossa frente, quase ao nosso alcance, a uns meros quilômetros. Chegar até aqui, foi fácil. Difícil mesmo foi dar as costas e iniciar o caminho de volta...

Área de acampamento conhecida como Paza Francia, em frente à parede sul do Aconcágua, região de Mendoza, no oeste da Argentina

Área de acampamento conhecida como Paza Francia, em frente à parede sul do Aconcágua, região de Mendoza, no oeste da Argentina


Solo cristalizado na região de Plaza Francia, no Parque Provincial Aconcágua, na província de Mendoza, no oeste da Argentina

Solo cristalizado na região de Plaza Francia, no Parque Provincial Aconcágua, na província de Mendoza, no oeste da Argentina


Mas tínhamos de fazê-lo. A tarde chegava e a temperatura caía, a sombra tomando conta do vale. Iniciamos a volta, a paisagem bem diferente da ida, pois agora olhávamos para o lado oposto. Paisagem distinta, luz diferente, já no final de tarde. Céu azul, tudo lindo, nítido, colorido. Distraídos e inebriados, mal vimos o tempo e a distância passarem. Logo estávamos chegando de volta à nossa “casa” em Confluencia. No caminho de volta, ficamos amigos de uns poloneses. Depois de Plaza Francia, amanhã eles seguirão para Plaza de Mulas. De lá, tentarão o cume. Infelizmente, não é o nosso caminho. Adoraríamos seguir para lá também, principalmente a Ana que ainda não conhece. Mas amanhã nossa rota é para baixo, de volta à Fiona. Mas nos próximos posts, como numa viagem no tempo, vamos para cima também, para Plaza de Mulas e ao cume do Aconcágua. Foi o caminho que fiz 15 anos atrás. Como num passe de mágica, ele também vai fazer parte desses 1000dias por toda a América. Merece!

Após visitar Plaza Francia, retornando ao acampamento de Confluencia, no Parque Provincial Aconcágua, região de Mendoza, no oeste da Argentina

Após visitar Plaza Francia, retornando ao acampamento de Confluencia, no Parque Provincial Aconcágua, região de Mendoza, no oeste da Argentina

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A Caminho do Aconcágua

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Aconcágua 99: Preparativos e Aclimatação

Comentários (2)

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  • 15/08/2017 | 09:04 por Sheila Mello

    Como sempre você arrasa nos relatos!!Esperando o livro :/

  • 18/04/2015 | 20:10 por Evanio Machado

    Parabéns por tudo que vocês vêm fazendo, são viagens fantásticas. Creio que levarei 1000 dias lendo os relatos

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